Written on Julho 23rd, 2011 at 9:00 am by

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Amigos, vizinhos e parentes todo mundo tem. Uns têm primo artista que
engole fogo, ou uma avó estrangeira que fala esquisito com as amigas no
telefone. Tem gente que o avô foi soldado e lutou na guerra”’ tio que
faz mágicas nas festas de aniversário”’ Tem até uns que são filhos de
ator de televisão.
Mas eu era mais original que toda essa gente. Eu tinha um amigo
invisível. Que só eu enxergava e ouvia. Ele não tinha nome. Ele era”’
ele!
Eu dividia tudo com ele. Meu quarto, meus brinquedos, meu prato. Era
melhor que um gato. Maior que um cachorro. Mais bonito do que um pato,
mais esperto que uma raposa.
Então lá em casa moravam quatro: meu pai, minha mãe, eu”’ e ele.

Um dia comecei a perceber que a minha mãe estava barriguda. Ela
começou a usar roupas largas para disfarçar. Não andava mais naquela
bicicleta que não saía do lugar. Não corria mais de uniforme em volta
da casa. E não fazia regime, comia feito louca. Esta cada vez mais
bochechuda. Corada. Feliz.
Parecia que estava meio biruta também. Andava dando risadinhas pela
casa, cantando, falando sozinha. Eu até pensei que tinha encontrado uma
amiga invisível pra ela também. Que nada! Gente grande não acredita
nessas coisas.
Eu pensei que era maluquice mesmo. Uma noite, quando já estava todo
mundo deitado pra dormir, ela fez meu pai se vestir e sair pra comprar
manga, dizendo que não ia conseguir pregar o olho se não comesse manga.
E o mais biruta de tudo é que meu pai foi sem reclamar, todo
satisfeito. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. Olhei pro meu
amigo invisível e nós dois concordamos:
— A mãe pirou!
Então percebi que estavam escondendo algum segredo de mim. Minha avó
começou a ir mais vezes lá em casa, quase todo dia. Depois ia todo dia.
E trouxe uma mala e se mudou de vez. Ela estava com a mesma esquisitice
da minha mãe. Ria e cantava à toa. As duas passavam a tarde inteira na
frente da televisão, fazendo tricô e falando pelos cotovelos.
Foi pelas coisinhas que começaram a sair das agulhas de
tricô que comecei a descobrir o que estava pra acontecer: eram só
meinhas, casaquinhos, gorrinhos”’ coisinhazinhas que só cabem em”’
nenenzinhozinhos!
Aí ouvi meus pais cochichando na cozinha. Um falava que o outro devia
me contar alguma coisa. Minha mãe dizia que meu pai devia ter uma
conversa de homem pra homem. Meu pai dizia que minha mãe devia me
contar o que era pra contar, porque se não eu podia ficar achando que
ela não gostava mais de mim, sabe como é?
Era aquele monte de bobagem que os adultos falam e pensam que as
crianças não entendem. Eles estavam é morrendo de medo de me falar
alguma coisa e estavam inventando desculpas. Às vezes os adultos
parecem mais crianças que crianças, coitados, dá até pena. Então
resolvi dar uma mãozinha pra eles e entrei correndo na cozinha
perguntando:
— O que é, hein? O que é que vocês precisam me contar?
Os dois ficaram com uma cara de criança que é pega chupando pirulito
que era pra chupar só depois do jantar. Eu fiquei com mais pena deles e
falei:
— Não precisa ficar com medo não. Pode contar que eu não vou ficar
bravo!
Eles então riram meio amarelo e me anunciaram, os dois juntos:
— Você vai ganhar um irmãozinho!
Eu tinha prometido que não ia ficar bravo, mas fiquei bravíssimo. Não
era possível! Eu já sabia, mas não queria acreditar. Meu amigo
invisível já tinha me falado, mas eu não quis ouvir. Eu era o rei da
casa. E não ia dividir meu reino com nenhum invasor!
Chorei, esperneei, fiz bico. Ameacei de tapar a respiração até ficar
roxo e desmaiar. Meus pais tentaram me agradar e me explicar e me
convencer. Então, quando perderam a paciência, gritaram bem alto para
eu ouvir, bem alto mesmo porque eu tinha tapado os ouvidos:
— Você vai ter um irmãozinho, querendo ou não. Mas que coisa,
menino!
E desse dia em diante não falei mais com ninguém. Tentaram me fazer
falar, todo mundo: meus pais, meus avós, meus primos. Os vizinhos, os
colegas, a professora. O jornaleiro, o pipoqueiro, meu amigo invisível.
Mas nada! Pus até um durex na boca pra deixar bem claro: eu não vou
falar mais!
Eles insistiam, escreviam bilhetes. Davam presentes. Contavam que
gostoso ia ser quando meu irmão chegasse. Foi difícil, mas continuei
mudo como um jabuti. Será que jabuti não fala? Bom, então eu fiquei
mudo como um jabuti mudo. Pronto!

Minha mãe foi a primeira a se cansar da brincadeira: não fez mais
doce de abóbora. Não veio mais me dar o beijo de boa noite. Não falou
mais comigo.
Fingi que nem liguei. Mas toda noite chorava até pegar no sono. O
invasor — que já estava morando na barriga dela — acabou ficando com
ela inteirinha pra ele.
Eu tinha vontade de dar um chute no barrigão que estava cada dia mais
parecido com uma bexiga de festa de aniversário, daquelas que parece
que vão estourar. Mas tinha medo de machucar minha mãe. E o
invasorzinho também, porque ele era um inimigo, mas não tinha culpa.
Estava lá porque tinha sido encomendado. E eu comecei a olhar feio pro
meu pai, porque sabia que tinha sido ele que tinha posto a sementinha
dentro da minha mãe”’
Aí foi meu pai que cansou da brincadeira. Não me trouxe mais
brinquedo, revistinha, figurinha. Não ficou mais no gol pra eu chutar.
Não leu mais histórias antes de eu dormir. Ele tinha até inventado um
jeito pra ver se eu falava. Ele parecia um palhaço fazendo mímicas e
caretas, escrevendo uns bilhetinhos com desenhos, eu tinha que me
segurar pra não cair na gargalhada. Eu já estava quase respondendo,
mas, teimoso, demorei. Meu pai perdeu a paciência. E desistiu.
Pouco a pouco fui ficando sozinho. Meus amigos e primos e tias e
vizinhos também desistiram. Só meu amigo invisível falava comigo. Só ele
sabia ouvir meu silêncio”’
Uma noite eu acordei assustado. Ouvi barulho na garagem. Abri a porta
do quarto e olhei pro corredor. Meu pai subiu as escadas e desceu
amparando minha mãe. Ela estava de camisola e roupão e carregava uma
mala na mão. Meu pai fumava nervoso. Minha mãe tentava se ajeitar,
arrumar o cabelo, mas sorrindo, sem se importar de estar descabelada.
Eu pensei que ela ia embora pra sempre. E, no desespero, perguntei se
estava doente. Sorrindo mais ainda, ela respondeu:
— Não, é seu irmão que está chegando! Está na hora dele sair da
barriga”’
E os dois foram pro hospital. Eu esqueci que tinha prometido não
falar e perguntei pra minha avó que história de hospital era aquela.
Ela me disse que pro nenê sair da barriga da mãe ela tinha que fazer
muita força, e um médico precisava ajudar e depois dar o nó que vira o
umbigo. E como o nenê ia sair da barriga, que é quentinha e escondida
de bichinhos que causam doenças, isso tudo tinha que acontecer num lugar bem
limpo e arrumado pelas enfermeiras.
Fiquei pensando, pensando. E lembrei:
— Chegou o dia!
Tinha chegado o dia de pôr em prática meu plano. Eu tinha resolvido
que ia fugir quando o invasor chegasse. Fiz uma trouxa.
Peguei umas comidas na geladeira. Escrevi um bilhete me despedindo
dos meus pais, da minha avó, do meu quarto, dos brinquedos, da sala, da
televisão, das poltronas, do lustre de bolinha, da geladeira, do
pingüim.
Esperei minha avó roncar no sofá. E saí correndo pela porta dos
fundos.
Foi aí que descobri que não tinha pensado para onde ir. Para rua, fiquei
com medo. Podia passar a polícia e pensar que eu era um menor
abandonado. Pra casa dos vizinhos não dava, eu tinha brigado com todos
eles.
Fiquei um pouco no quintal, mas estava escuro e ouvi mil barulhinhos
assustadores. Então voltei correndo pra casa. E descobri que tinha
acontecido o pior de tudo: meu amigo invisível tinha sumido. Me
deixado. Abandonado! Eu chamei, chamei, chamei. Ninguém respondeu.
Eu estava sozinho. E nunca tinha me sentido tão infeliz em toda minha
vida!
No dia seguinte meu pai voltou. E três dias depois minha mãe chegou
trazendo o invasor no colo. Eu nem quis ver. Passei uma semana
escondido no meu quarto. Eles nem notaram. Só iam de um lado pro outro
esquentando mamadeiras, dobrando fraldas e limpando xixi e cocô. Minha
mãe ficou mais descabelada que nunca, meu pai também. E até minha avó.
Todos cansados, com muito sono e”’ felizes!
Aí, uma noite em que eu estava acordado, e falando sozinho porque meu
amigo invisível não estava mais lá pra conversar comigo, ouvi o choro
do invasor. Ele chorou, chorou, chorou. Comecei a ficar com pena. Ele
tinha invadido meu reino, mas mesmo assim parecia que estava tão
triste! E ninguém ia ver o que era? Ele era pequeno, coitado, não podia
pegar alguma coisa na geladeira pra matar a fome. Nem ir no banheiro
pra fazer xixi”’
Então resolvi dar uma espiadinha. Entrei no quarto todo enfeitado,
não tinha nenhum adulto. Deviam estar todos desmaiados de cansaço,
dormindo. Mas, não era justo. O invasor não tinha pedido pra vir,
tinha?
Cheguei devagar perto do berço. E olhei”’
Ele era tão pequenininho e tão bonitinho! Parecia com alguém que eu
conhecia mas não sabia bem quem era”’
Como não tinha ninguém olhando, comecei a balançar o berço. Bem
devagarinho. E a cantar uma música que meu pai cantava quando eu era
pequeno, pequenininho.
Logo ele parou de chorar. Ele olhou pra mim, parecia que estava dando
uma risadinha”’ Foi aí que eu descobri que ele não era parecido com
uma pessoa. Ele era uma pessoa que eu já conhecia. ELE era meu amigo
INVISÍVEL! Só que agora estava ali, olhando e sorrindo pra mim, visível
pra mim e pro mundo todo! Eu só tinha que esperar ele crescer um pouco
pra poder fazer as coisas que fazia com ele antes. E o que não dava pra
ele fazer também, porque meninos invisíveis não podem jogar futebol,
dama, dominó. E meninos visíveis podem brincar de lutar, brincar de
ser gente grande, brincar de brigar e logo ficar amigo, brincar!
Eu ia dividir tudo com ele: meu quarto, meus brinquedos, meu pai,
minha mãe. Meus truques, minhas idéias, meu amor pelas coisas certas e
minha raiva pelas coisas erradas.
E assim, lá em casa moram quatro: meu pai, minha mãe, eu e”’ Ele!

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