Written on Dezembro 20th, 2011 at 11:32 am by

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Início da obra

I – – FADAS BOAS E FADAS MÁS

Há duas espécies de fadas: as fadas boas e as fadas más. As fadas boas fazem coisas boas e as fadas más fazem coisas más.
As fadas boas regam as flores com orvalho, acendem o lume dos velhos, seguram pelo bibe as crianças que vão cair ao rio, encantam os jardins, dançam no ar, inventam sonhos e, à noite, põem moedas de oiro dentro dos sapatos dos pobres.
As fadas más fazem secar as fontes, apagam a fogueira dos pastores, rasgam a roupa que está ao sol a secar, desencantam os jardins, arreliam as crianças, atormentam os animais e roubam o dinheiro dos pobres.
Quando uma fada boa vê uma árvore morta, com os ramos secos e sem folhas, toca-lhe com a sua varinha de condão e no mesmo instante a árvore cobre-se de folhas, de flores, de frutos e de pássaros a cantar.
Quando uma fada má vê uma árvore cheia de folhas, de flores, de frutos e de pássaros a cantar, toca-lhe com a sua varinha mágica do mau fado, e no mesmo instante um vento gelado arranca as folhas, os frutos apodrecem, as flores mur-

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cham e os pássaros caem mortos no chão.

II – ORIANA

Era uma vez uma fada chamada Oriana. Era uma fada boa e era muito bonita. Vivia livre, alegre e feliz dançando nos campos, nos montes, nos bosques, nos jardins e nas praias.
Um dia a Rainha das Fadas chamou-a e disse-lhe:
Oriana, vem comigo.
E voaram as duas por cima de planícies, lagos e montanhas. Até chegarem a um país onde havia uma grande floresta.
Orianadisse a Rainha das Fadas -, entrego-te esta floresta. Todos os homens, animais e plantas que aqui vivem, de hoje em diante, ficam à tua guarda. Tu és a fada desta floresta. Promete-me que nunca a hás-de abandonar.
Oriana disse:
– Prometo.
E daí em diante Oriana ficou a morar na floresta. De noite dormia dentro do tronco de um carvalho. De manhã acordava muito cedo, acordava ainda antes das flores e dos pássaros. O seu relógio era o primeiro raio de sol. Porque tinha muito que fazer. Na floresta todos precisavam dela. Era ela que prevenia os coelhos e os veados da chegada dos caçadores. Era

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ela que regava as flores com orvalho. Era ela que tomava conta dos onze filhos do moleiro. Era ela que libertava os pássaros que tinham caído nas ratoeiras.
À noite, quando todos dormiam, Oriana ia para os prados dançar com as outras fadas. Ou então voava sozinha por cima da floresta e, abrindo as suas asas, ficava parada, suspensa no ar entre a terra e o céu. À roda da floresta havia campos e montanhas adormecidos e cheios de silêncio. Ao longe viam-se as luzes de uma cidade debruçada sobre o seu rio. De dia e vista de perto a cidade era escura, feia e triste. Mas à noite a cidade brilhava cheia de luzes verdes, roxas, amarelas, azuis, vermelhas e lilases, como se nela houvesse uma festa.
Parecia feita de opalas, de rubis, de brilhantes, de esmeraldas e de safiras.
Passou um Verão, passou um Outono, passou um Inverno. E chegou a Primavera. E certa manhã de Abril, Oriana acordou ainda mais cedo do que o costume. Mal o primeiro raio de sol entrou na floresta, ela saiu de dentro do tronco do carvalho onde dormia. Respirou fundo os perfumes da madrugada e fez uns passos de dança. Depois penteou os cabelos com os dedos das mãos a fazerem de pente e lavou a cara com orvalho.
– Que manhã tão bonita! – disse ela. – Nunca vi uma manhã tão azul, tão verde, tão fresca e tão doirada.
E foi pela floresta fora dançando e dizendo bom-dia às coisas.
Primeiro acordaram as árvores, depois os galos, depois os pássaros, depois as flores, depois os coelhos, depois os veados e as raposas. A seguir, começaram a acordar os ho-

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mens. Então Oriana foi visitar a velha.
Era uma velha muito velha que vivia numa casa velhíssima. E dentro da casa só havia trapos, móveis partidos e loiça rachada. Oriana espreitou pela janela que não tinha vidro. A velha estava a arrumar a casa e enquanto trabalhava falava sozinha, dizendo:
– Que negra vida, que negra vida! Estou tão velha como o tempo e ainda preciso de trabalhar. E não tenho nem filho nem filha que me ajude. Se não fossem as fadas que seria de mim?
“Quando eu era pequena brincava na floresta e os animais, as folhas e as flores brincavam comigo. A minha mãe penteava os meus cabelos e punha uma fita a dançar no meu vestido. Agora, se não fossem as fadas, que seria de mim?
“Quando eu era nova ria o dia todo. Nos bailes dançava sempre sem parar. Tinha muito mais do que cem amigos. Agora sou velha, não tenho ninguém. Se não fossem as fadas que seria de mim?
“Quando eu era nova tinha namorados que me diziam que eu era linda, e me atiravam cravos quando eu passava. Agora os garotos correm atrás de mim, chamam-me “velha”, “velha”, e atiram-me pedras. Se não fossem as fadas que seria de mim?
” Quando eu era nova tinha um palácio, vestidos de seda, aios e lacaios. Agora estou velha e não tenho nada. Se não fossem as fadas que seria de mim?”
Oriana ouvia esta lamentação todas as manhãs e todas as manhãs ficava triste, cheia de pena da velha, tão curvada,

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tão enrugada e tão sozinha, que passava os dias inteiros a resmungar e a suspirar.
As fadas só se mostram às crianças, aos animais, às árvores e às flores. Por isso a velha nunca via Oriana; mas, embora não a visse, sabia que ela estava ali, pronta a ajudá-la.
Depois de ter varrido a casa, a velha acendeu o lume e pôs água a ferver. Abriu a lata do café e disse:
– Não tenho café.
Oriana tocou com a sua varinha de condão na lata e a lata encheu-se de café.
A velha fez o café e depois pegou na caneca do leite e disse:
– Não tenho leite.
Oriana tocou com a sua varinha de condão na caneca e a caneca encheu-se de leite.
A velha pegou no açucareiro e disse:
– Não tenho açúcar.
Oriana tocou com a varinha de condão no açucareiro e o açucareiro encheu-se de açúcar
A velha abriu a gaveta do pão e disse:
– Não tenho pão.
Oriana tocou com a varinha de condão na gaveta e dentro da gaveta apareceu um pão com manteiga.
A velha pegou no pão e disse:
– Se não fossem as fadas que seria de mim!
E Oriana, ouvindo-a, sorriu.
A velha comeu, bebeu e no fim suspirou.
– Agora tenho de ir ao meu trabalho.
O trabalho da velha era apanhar ramos secos que depois ia vender à cidade.

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E todas as manhãs Oriana a ajudava a apanhar os ramos e todas as manhãs a guiava até à cidade, pois a velha via muito mal e o caminho que ia da floresta para a cidade passava ao lado de grandes abismos, onde a velha poderia cair se a fada não a guiasse.
E assim nessa manhã de Abril, Oriana e a velha foram as duas pela estrada fora, a velha toda curvada, encostada a um pau, e
Oriana voando no ar como uma borboleta. E sem que a velha a visse, a fada segurava o feixe de lenha para que ele pesasse menos sobre as costas dobradas.
Quando chegaram à cidade, a velha foi de porta em porta vender a lenha e Oriana voou para cima de um telhado, onde se sentou a ver a cidade, à espera da sua amiga. Enquanto esperava, começou a conversar com as andorinhas:
– Os países distantes são maravilhosos – diziam as andorinhas.
– Contem, contem – pediu Oriana.
– O rei do Sião tem um palácio com um telhado de oiro e na
China há torres de porcelana – disse uma andorinha.
– Na Oceânia há ilhas de coral cobertas de relva e palmeiras.
E nessas ilhas as pessoas vestem-se com flores e são todas bonitas, boas e felizes – disse outra andorinha.
– Os cangurus têm uma algibeira para guardar os filhos e o rei do Tibete sabe ler o pensamento de todos os homens
disse outra andorinha.
– No alto das montanhas dos Andes há cidades abandona-

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das, onde só vivem águias e serpentes – disse outra andorinha.
– Que maravilha! Contem tudo – pediu Oriana.
– Não se pode contar tudo – responderam as andorinhas. – As maravilhas do mundo são tantas, tantas! Mas vem connosco,
Oriana. Quando vier o Outono nós partimos. Tu também tens duas asas. Vem connosco.
Mas Oriana olhou o vasto céu redondo e transparente, suspirou e respondeu:
– Não posso ir. Os homens, os animais e as plantas da floresta precisam de mim.
– Mas tu tens duas asas, Oriana. Podes voar por cima dos oceanos e das montanhas. Podes ir ao outro lado do Mundo. Há sempre mais e mais espaço. Imagina como seria bom se viesses.
Podias voar muito alto, por cima das nuvens, ou podias voar rente ao mar azul, mergulhando a ponta dos teus pés na água fria das ondas. E podias voar por cima das florestas virgens, e respirar o perfume das flores e dos frutos desconhecidos.
Vias as cidades, os montes, os rios, os desertos e os oásis.
No meio do grande Oceano há ilhas pequeninas com praias de areia branca e fina. Ali, nas noites de luar, tudo fica azul, parado e prateado. Imagina estas coisas, Oriana.
Mas Oriana, olhando o alto céu e as nuvens vagabundas, suspirou e disse:
– Imagino o que seria da velha sem mim quando ela acordasse numa manhã fria de Inverno e não encontrasse nem o pão nem o leite.
– Vem connosco, Oriana – tornaram a pedir as andorinhas.
– Eu prometi tomar conta da floresta – respondeu a

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fada – e uma promessa é uma coisa muito importante.
Então as andorinhas fitaram-na com olhos pretos duros e brilhantes, e com um ar severo disseram:
Oriana, não mereces ter asas. Tu não amas o espaço e desprezas a liberdade.
Oriana baixou a cabeça e respondeu:
– Eu fiz uma promessa.
As andorinhas viraram-lhe as costas e não fizeram mais caso dela.
Mal a velha acabou de vender a sua lenha saiu da cidade, acompanhada pela fada, e voltaram as duas para a floresta.
Quando lá chegaram era quase meio-dia. Oriana separou-se da velha e foi a casa do lenhador.
O lenhador era muito pobre. Na sua casa só havia uma cama, uma lareira, uma mesa e três bancos.
A porta estava aberta porque não havia ali nada que valesse a pena roubar.
Oriana, antes de entrar, apanhou do chão três pedrinhas brancas.
A casa estava muito arrumada porque a mulher do lenhador gostava de fazer tudo muito bem feito. Além disso, havia ali muito pouco que arrumar.
Oriana deu a volta à casa para ver o que faltava.
Abriu a gaveta do pão e viu que ainda havia pão, por isso tornou a fechá-la.
Depois abriu a gaveta da roupa. A roupa, que era pouca e pobre, estava toda limpa e cosida. Mas havia uma blusa tão

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velha e com tantos buracos que, mesmo depois de cosida, estava rota. Oriana pôs uma pedrinha branca dentro da gaveta, tocou-lhe com a sua varinha de condão e a pedrinha transformou-se numa blusa nova.
A seguir, Oriana abriu a caixa do dinheiro e viu que estava vazia. Pôs lá dentro uma pedrinha branca e transformou-a numa moeda nova muito redonda.
E debaixo da mesa estava a bola do filho do lenhador. Oriana pegou-lhe e viu que estava toda estragada. Então pôs debaixo da mesa a última pedrinha branca e transformou-a numa bola nova.
E quase todos os dias Oriana ia a casa do lenhador. Levava sempre três pedrinhas brancas e transformava-as nas coisas que faziam mais falta. E a mulher do lenhador dizia ao marido:
– Quem será esta pessoa tão boa que vem a nossa casa quando eu vou sair e que me traz as coisas de que eu preciso?
Oriana saiu da casa do lenhador e pensou:
“Hoje é dia de feira, o moleiro foi à cidade vender a farinha.
A mulher foi com ele e levou os onze filhos. Vou a casa deles ver o que lá falta.”
E foi a casa do moleiro.
A porta estava fechada à chave, mas Oriana tocou na fechadura com a sua varinha de condão e a porta abriu-se.
A casa estava toda desarrumada. Estava tudo de pernas para o ar e tudo coberto de farinha. Estava tudo fora do sítio. Porque a mulher do moleiro tinha onze filhos e era muito desordenada e distraída, e nunca tinha tempo para nada. Se não fosse
Oriana não se poderia viver naquela casa.
Oriana entrou e olhou à sua roda. Suspirou ao ver tanta desordem. Depois foi buscar uma vassoura e um espanador

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e varreu e limpou a casa toda. Com a sua varinha de condão colou as coisas partidas. Lavou a loiça e arrumou-a nos armários. Escovou os fatos e pendurou-os. Coseu toda a roupa que estava dentro do cesto da roupa e arranjou os brinquedos partidos.
Quando acabou de fazer tudo isto olhou à sua roda. A casa estava linda, cheia de ordem e de limpeza. Então Oriana sorriu e foi-se embora.
E quase todos os dias Oriana arrumava a casa do moleiro. Mas a moleira nunca percebia que tinha ali estado uma fada, porque saía sempre de casa atrasada e a correr, e como era muito distraída não reparava que deixava tudo desarrumado e de pernas para o ar. E quando chegava a casa não se espantava nada de encontrar tudo em ordem, porque não se lembrava de que tinha deixado tudo fora de ordem.
Oriana saiu de casa do moleiro e foi a casa do Homem Muito
Rico.

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III – O HOMEM MUITO RICO

O Homem Muito Rico não tinha nem mulher, nem filhos, nem amigos. Só tinha criados.
A casa dele ficava no meio dum jardim muito bem tratado, com relva, arbustos, flores e ruas de areia.
Oriana deu a volta à casa para ver por onde é que havia de entrar. As portas estavam todas fechadas à chave e Oriana não as podia abrir. Porque em casa do Homem Muito Rico as fechaduras eram tão caras que nem uma varinha de condão as podia abrir. Mas havia uma janela aberta. Era a janela da sala. Oriana espreitou e viu que na sala não estava pessoa nenhuma. Só lá estavam as coisas. Mas reinava uma atmosfera de grande má disposição. Os sofás e as cadeiras davam cotoveladas uns nos outros, as cómodas davam coices nas paredes, as jarras diziam às caixas e aos cinzeiros que não as apertassem, e as flores diziam:
– Não posso mais, não posso mais, falta-me o ar!
A sala estava cheia como um ovo.
Oriana entrou e as coisas puseram-se todas a falar ao mesmo tempo.
Oriana, Oriana, tira-nos daqui – gritavam as flores.

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Oriana, diz à jarra que não me empurre – pediu a caixa.
Oriana, diz à mesa que não me pise com tanta força – pediu o tapete.
Oriana, diz ao sofá que não me dê cotoveladas – pediu a cadeira.
Oriana, diz ao biombo que se chegue para lá – pediu a parede.
Oriana – pediu o espelho -, tira-me daqui. Eu estou sempre a ver, vejo tudo. Esta sala cheia de coisas, esta sala sem espaço, sem vazio, sem largueza, cansa e magoa os meus olhos de vidro.
– Sosseguem, acalmem-se, não falem todos ao mesmo tempo pediu a fada.
Então as coisas calaram-se todas e depois a mesa disse:
Oriana, não podemos estar aqui. Não cabemos nesta sala.
Nesta sala há coisas de mais. Estamos todos apertadíssimos. E somos coisas com feitios diferentes e não nos entendemos bem.
Eu sou uma mesa antiquíssima; estava na sala de jantar dum convento. Eu sou comprida, mas a sala era grande e eu cabia lá bem porque, além de mim, só lá estavam os bancos. Aqui sinto-me muito mal. As coisas estão sempre a dar-me encontrões. Há uma grande embirração entre mim e o sofá doirado. Eu sou toda lisa, ele é todo feito de torcidos. Não nos podemos entender. Eu sou uma mesa de convento, fiz voto de pobreza, não posso viver nesta sala. Oriana, toca-me com a tua varinha de condão e faz-me ir pelos ares para o meu convento.

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(gravura)

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Depois falou a cómoda:
– Sou uma cómoda muito bonita e muito antiga. Durante dois séculos morei no solar de uma quinta. Estava numa sala muito grande e quem entrava via logo como eu era bonita.
Durante o dia eu ouvia as vozes das crianças rindo no jardim e ouvia-as correr umas atrás das outras pelo corredor. À noite ouvia só o cantar. do vento, das rãs e o correr da fonte no jardim. Nos dias de festa acendiam-se muitas luzes. As pessoas passavam ao meu lado e diziam:
– Que cómoda tão bonita!
E o dono da casa respondia:
– Foi o meu pai que a mandou fazer.
E daí a umas dezenas de anos havia outro dono da casa que respondia:
– Foi o meu avô que a mandou fazer.
Passavam mais dezenas de anos e havia outro dono da casa que respondia:
– Foi o meu bisavô que a mandou fazer.
Tornavam a passar mais dezenas de anos e havia outro dono da casa que respondia:
– Foi o meu trisavô que a mandou fazer.
Porque eu ia de geração em geração. E conheci os pais, os filhos, os netos e os netos dos netos. Eu era uma pessoa da família. Quando fui vendida todos choraram. As lágrimas das árvores caíam gota a gota no chão e as suas folhas faziam mil sinais de adeus. Aqui é diferente. Aqui ninguém é meu amigo, nem os

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homens, nem as coisas. Quando alguém diz que eu sou bonita o dono da casa responde: “Comprei-a por cem contos.” Oriana, leva-me daqui. Leva-me outra vez para a sala do solar da quinta. Depois falou o espelho e disse:
– Eu estava num palácio e em frente de mim havia espaço, espaço, espaço. E o chão era de mármore liso e brilhante. E eu estava no fundo de uma galeria silenciosa e solitária. E contemplava o mudar das horas do dia. Vi os reis e as rainhas, pálidos no dia da coroação, com as suas coroas cintilantes e pesadas. Vi os ministros, os conselheiros e os homens importantes com o seu nariz comprido, a sua cara de caso e o seu ar solícito. E vi as namoradas de vestido branco que nas noites de baile fugiam um instante para a galeria solitária.
Elas deslizavam rápidas e leves negando sempre a flor que lhes pediam. E vi as multidões das revoluções que passavam, desesperadamente, partindo tudo, à procura de justiça. Vi, vi, vi.
Eu sou um espelho; passei toda a minha vida a ver. As imagens entraram todas dentro de mim. Vi, vi, vi. E agora estou nesta sala onde não há um lugar onde os meus olhos de vidro descansem. Oriana, tira-me daqui e põe-me em frente de uma parede branca, nua e lisa.
E uma por uma todas as coisas foram pedindo que as levasse para outro sítio.
– Minhas queridas coisas – disse Oriana -, eu não posso fazer o que me pedem. Se eu as fizesse desaparecer daqui, o dono da casa teria um grande desgosto. E eu não posso entrar numa casa para dar desgostos ao seu dono.
– Então o que é que se há-de fazer? – perguntaram as coisas.

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– Nada – disse Oriana. – Nesta sala tudo tem um ar irremediável. Quando entro nas outras casas, faço aparecer as coisas que faltam. Mas aqui não falta nada. Aqui está tudo a mais. Era preciso tirar coisas. Mas eu não posso entrar numa casa e tirar o que lá está.
– Então se não nos podes tirar daqui faz crescer a sala para nós cabermos.
– Tenho muita pena – disse Oriana – mas é impossível. Quando o dono desta casa a mandou fazer disse ao arquitecto: “Faça-me uma casa pequena, por causa das invejas.”
As coisas calaram-se um instante, pensaram e disseram:
Oriana, convence o dono da casa a dar-nos de presente a alguém que não tenha móveis.
– Isso – disse Oriana – é uma óptima ideia. Já sei o que vou fazer.
Em cima da mesa estava um bloco de papel e uma caneta. Oriana pegou na caneta e escreveu:

Quem dá aos pobres empresta a Deus. Dá metade dos teus móveis aos pobres.

– Óptimo – disseram as coisas.
Orianadisse o espelho -, peço-te que tires da minha frente aquela bailarina de Saxe. Estou farto de a ver o dia inteiro sempre com um pé no ar em posição de desequilíbrio. Os meus olhos de vidro não têm pálpebras. Só as noites são as minhas pálpebras. Mas durante o dia nunca posso fechar

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olhos. E estou cansadíssimo de passar os dias a ver uma bailarina com o pé no ar.
A bailarina estava numa prateleira em frente do espelho.
Oriana pegou nela e pô-la no outro lado da sala, em cima da cómoda, de maneira a que o espelho não a visse.
– Obrigado – disse o espelho.
Então ouviram-se passos no corredor e Oriana escondeu-se atrás do biombo.
A porta abriu-se e entrou o Homem Muito Rico.
Mal entrou viu o bloco de papel que estava em cima da mesa.
Leu o que lá estava escrito, ficou furioso porque era muito avarento, e exclamou:
– Que grande atrevimento!
Depois viu que a bailarina tinha sido mudada de sítio, ficou outra vez furioso e exclamou:
– Oh!
Tocou a campainha e apareceu o mordomo.
– Chama imediatamente os criados todos – disse o Homem Muito
Rico.
Daí a um instante entraram os criados todos. Puseram-se em bicha em frente da porta. O Homem Muito Rico voltou-se para eles, virando as costas à mesa onde estava o papel e à cómoda onde estava a bailarina, e disse:
– Passaram-se nesta casa duas coisas escandalosas. Ai de quem as fez! Quero que o culpado se acuse. Quero saber quem é que escreveu sentenças no papel e quem é que mudou a bailarina do sítio.
Os criados estavam assustadíssimos. Oriana, ouvindo este discurso, ficou muito aflita com o que tinha feito. Num abrir e fechar de olhos tocou com a sua varinha de condão no bloco,

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fazendo desaparecer o que lá estava escrito e tocou na bailarina, fazendo-a voar para cima da prateleira.
O Homem Muito Rico pegou no bloco, virou-o para os criados e disse:
– Quem escreveu isto?
Os criados viram uma folha em branco e responderam:
– No bloco não está nada escrito.
O Homem Muito Rico pensou que estava a sonhar.
Não sabia o que é que havia de dizer nem sabia que cena é que havia de fazer. Tossiu e disse com uma voz muito severa:
– Quem é que tirou a bailarina da prateleira?
Mas olhou para a prateleira e viu que a bailarina já lá estava outra vez. Pensou que estava doido. Ficou outra vez furioso e muito envergonhado com a figura que estava a fazer. Não sabia o que é que havia de explicar aos criados. Tornou a tossir e disse:
– Eu estava a fazer uma experiência. Já se podem ir embora.
Os criados foram-se embora e o Homem Muito Rico sentou-se numa cadeira e começou a falar sozinho:
– Isto, foi uma partida. Mas foi tão bem feita que eu não percebi nada. Foi com certeza a criada da sala. A estas horas estão todos na cozinha a rir-se de mim. Tenho que despedir a criada da sala.
Oriana estava aterrada.

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– Que casa horrível – pensava ela -, aqui tudo dá mau resultado. Não consegui ajudar ninguém.
Enquanto pensava isto espreitou por cima do biombo. O Homem
Muito Rico estava sentado de costas para ela e Oriana viu que ele era careca como um ovo. Então ficou cheia de pena.
Resolveu pôr-lhe cabelo. Tocou-lhe com a sua varinha de condão na careca e imediatamente a careca se cobriu de milhares de cabelinhos muito curtos. O Homem Muito Rico sentiu comichão na cabeça. Foi ao espelho ver o que era. E viu que tinha a cabeça cheia de cabelo novo a nascer.
Primeiro não acreditou no que viu. Esteve um instante de boca aberta, sem poder falar Depois gritou:
CABELO!
CABELO!
CABELO!!?
Quando acabou de gritar, disse:
– Porque será que me nasceu cabelo? Há tantos anos que eu era careca e experimentei tantos remédios que nunca, até hoje, tinham dado resultado!
Ficou um instante calado e de repente bateu com a mão na testa, exclamando:
– Já sei, já descobri o que foi. Foi aquela viúva que me veio pedir um emprego para o filho! Ela começou a falar da sua pobreza e eu comecei a falar da minha falta de cabelo. Ela disse:
“- Não tenho dinheiro nenhum!
“E eu respondi:
“- Não tenho cabelo nenhum!
“E ela então disse-me que me ia mandar um remédio que fazia crescer o cabelo. E no dia seguinte mandou-me

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um frasco com um remédio dentro. Eu pus o remédio e nasceu o cabelo! Tenho de lhe agradecer! Tenho de lhe arranjar um emprego para o filho! Vai ser já!”
E o Homem Muito Rico, muito excitado, pegou no telefone e marcou um número.
Foi a viúva que veio ao telefone. Disseram-se bons-dias e depois o Homem Muito Rico disse:
– Minha senhora, estou desvairado e louco de gratidão.
Ajoelho-me aos seus pés e beijo as suas mãos. Imagine que já tenho cabelo! Se calhar até vou ter caracóis! E até me parece que o cabelo que me está a nascer é loiro. Os grandes ideais da minha vida foram sempre ser rico e ser loiro. Até aqui só tinha conseguido ser rico. Agora, graças a si, vou ser loiro!
Loiro! Loiro! Quero-lhe agradecer. Quero falar com o seu filho!
O filho da viúva veio ao telefone e o Homem Muito Rico disse-lhe:
– Tenho um lugar para si! Um lugar magnífico, perfeito, ideal.
Basta lá ir duas vezes por semana e ganha trinta contos por mês. Não tem nada que fazer. É um lugar importantíssimo.
Tinham-mo oferecido a mim, era para mim, mas agora é para si!
Ouvindo isto, Oriana pensou:
– Até que enfim! Consegui fazer qualquer coisa nesta casa. Já me posso ir embora! Uf!
E saiu pela janela.

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IV – O PEIXE

Cá fora a tarde estava maravilhosa e fresca. A brisa dançava com as ervas dos campos. Ouviam-se pássaros a cantar. O ar parecia cheio de poeira de oiro.
Oriana foi pela floresta fora, correndo, dançando e voando, até chegar ao pé do rio. Era um rio pequenino e transparente, quase um regato e nas suas margens cresciam trevos, papoilas e margaridas. Oriana sentou-se entre as ervas e as flores a ver correr a água. E ouviu uma voz que a chamava:
Oriana, Oriana.
A fada voltou-se e viu um peixe a saltar na areia.
– Salva-me, Oriana – gritava o peixe. – Dei um salto atrás de uma mosca e caí para fora do rio.
Oriana agarrou no peixe e tornou a pô-lo na água.
– Obrigado, muito obrigado – disse o peixe, fazendo muitas mesuras. – Salvaste-me a vida e a vida de um peixe é uma vida deliciosa. Muito obrigado, Oriana. Se precisares de alguma coisa de mim lembra-te que eu estou sempre às tuas ordens.
– Obrigada – disse Oriana -, agora não preciso de nada.
– Lembra-te da minha promessa. Nunca esquecerei que

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te devo a vida. Pede-me tudo quanto quiseres. Sem ti eu morreria miseravelmente asfixiado entre os trevos e as margaridas. A minha gratidão é eterna.
– Obrigada – disse a fada.
– Boa tarde, Oriana. Agora tenho de me ir embora, mas quando quiseres vem ao rio e chama por mim.
E com muitas mesuras o peixe despediu-se da fada.
Oriana ficou a olhar para o peixe, muito divertida, porque era um peixe muito pequenino, mas com um ar muito importante.
E quando assim estava a olhar para o peixe viu a sua cara reflectida na água. O reflexo subiu do fundo do regato e veio ao seu encontro com um sorriso na boca encarnada. E Oriana viu os seus olhos azuis como safiras, os seus cabelos loiros como as searas, a sua pele branca como lírios e as suas asas cor do ar, claras e brilhantes.
– Mas que bonita que eu sou – disse ela. – Sou linda. Nunca tinha pensado nisto. Nunca me tinha lembrado de me ver! Que grandes que são os meus olhos, que fino que é o meu nariz, que doirados que são os meus cabelos! Os meus olhos brilham como estrelas azuis, o meu pescoço alto e fino como uma torre. Que esquisita que a vida é! Se não fosse este peixe que saltou para fora da água para apanhar a mosca, eu nunca me teria visto. As árvores, os animais e as flores viam-me e sabiam como eu sou bonita. Só eu nunca me via!
Oriana estava maravilhada com a sua descoberta. Debruçada sobre a água não se cansava de se ver. As horas passavam e ela continuava conversando com a sua imagem.

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Até que o Sol se pôs, veio a noite e o rio escureceu. Oriana deixou de ver o seu reflexo. Levantou-se e ficou algum tempo imóvel a cismar. Depois olhou à sua volta e disse:
– Chegou a noite! Como o tempo passou depressa!
Então lembrou-se de que era a hora de ir visitar o seu amigo
Poeta. Porque a única pessoa crescida a quem Oriana podia aparecer era ao Poeta. Porque ele era diferente das outras pessoas crescidas.
O Poeta morava no fundo da floresta, numa torre muito alta e muito antiga, coberta de heras, de glicínias e de roseiras.
Oriana voou sobre as árvores através do primeiro azul da noite. A porta da torre estava aberta, mas Oriana entrou pela janela com a brisa. As rosas da trepadeira estremeceram e dançaram quando ela chegou.
– Hoje vens tarde – disse o Poeta.
– Estive debruçada sobre o rio a ver o meu reflexo – respondeu
Oriana. – Demorei-me porque fiquei encantada com a minha beleza.
Oriana – pediu o Poeta -, encanta a noite.
Então Oriana tocou com a sua varinha de condão na noite e a noite ficou encantada.
E o Poeta disse-lhe:
– O que tu me trazes é muito mais do que a beleza. No mundo há muitas meninas bonitas. Mas só tu é que podes encantar a noite porque és uma fada.
Então Oriana sentou-se na beira da janela e contou as histórias maravilhosas dos cavalos do vento, da caverna dos 2

dragões e dos anéis de Saturno. O Poeta disse-lhe os seus

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versos, que eram claros e brilhantes como estrelas. Depois ficaram os dois calados enquanto a Lua subia no céu. Até que um sino trouxe de longe o som das doze badaladas da meia-noite e Oriana e o Poeta despediram-se.
No dia seguinte de manhã Oriana foi levar a velha à cidade.
Mas mal voltou da cidade voou rapidamente para o rio.
Ajoelhou-se na margem e inclinou-se sobre a água. O seu reflexo apareceu todo doirado de sol à tona do rio.
– Mas que bonita que eu sou! – disse Oriana. – Hoje ainda estou mais bonita do que ontem. Serei eu realmente tão bonita como me vejo na água?
Oriana olhou bem para os outros sítios do rio onde se reflectiam as árvores. E pareceu-lhe que o reflexo das árvores no rio era mais bonito do que as próprias árvores.
– Se calhar – pensou ela – o meu reflexo é mais bonito do que eu! Como é que eu hei-de saber a verdade?
Então lembrou-se do peixe e chamou-o:
Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
O peixe apareceu e disse:
– Bom dia, Oriana. Aqui estou.
Peixedisse a fada -, preciso de ti. Quero saber se o meu reflexo no rio é mais bonito do que eu.
– Nada no mundo é tão bonito como tu – disse o peixe.
– Tu és muito mais bonita do que o teu reflexo. Tens os olhos mais brilhantes, o cabelo mais doirado, a boca mais vermelha.

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– Achas que sim? – perguntou Oriana.
E ficou a cismar.
De repente teve uma ideia: lembrou-se do espelho. Pensou:
– Vou ver o que diz o espelho.
Disse:
– Até logo, peixe.
E, rápida como uma seta, dirigiu-se a casa do Homem Muito
Rico.
A janela estava aberta e a sala estava vazia.
Oriana entrou, disse bom-dia às coisas e pôs-se em frente do espelho:
– Espelho – disse ela -, olha-me bem, mostra-me como eu sou:
vi o meu reflexo no rio e achei-me linda. Mas tenho medo de que o rio me tenha embelezado e lisonjeado como lisonjeia a paisagem. Mostra-me bem como eu sou para eu ver se o peixe disse a verdade e se eu sou ainda mais bonita do que o meu reflexo no rio.
Orianadisse o espelho -, sou, como já sabes, um espelho antiquíssimo. Há séculos que todas as meninas bonitas se põem em frente de mim para ver como são e todas querem saber se haverá no mundo alguém mais bonito do que elas. Vê-te bem. És muito bonita, mas há uma coisa muito mais bonita do que tu.
– O que é? – perguntou Oriana, ansiosamente.
– Uma parede branca, nua e lisa.
– Não me fales mais nessa parede – disse Oriana, desconsolada.
Mas depois olhou-se muito no espelho e disse:
– Eu acho-me linda.
– Ainda bem – disse o espelho. – Mas não imaginas a

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quantidade de meninas que pelos séculos fora se olharam nos meus olhos de vidro e disseram: “Acho-me linda!”
– Então adeus – disse a fada, um pouco zangada.
– Não te vás já embora. Quero-te pedir uma coisa.
– O que é?
– Tira outra vez o cabelo ao Homem Muito Rico.
– Mas porque é que eu hei-de fazer essa maldade?
– Porque ele passa o dia em frente de mim, a ver-se em mim e a dizer: “É um cabelo lindo.” E eu já não o posso olhar.
– Nesta casa – disse Oriana – tudo dá mau resultado.
E foi-se embora.
Cá fora pensou:
– Nunca mais volto a esta casa: o espelho fez troça de mim.
Aqui nada há que falte e tudo é irremediável.
E foi outra vez para o rio.
Sentou-se à beira da água e apareceu o peixe:
Peixedisse Oriana -, vi-me no espelho do Homem Muito
Rico, e achei-me muito bonita, tão bonita como neste reflexo do rio. Mas o espelho disse-me que havia uma parede branca que era ainda mais bonita do que eu!
– Os espelhos são uns sonhadores, estão sempre a imaginar o que não vêem. És muito mais bonita do que uma parede. Eu nunca vi ninguém tão bonito como tu. Mas acho que é uma pena andares tão mal penteada.
– Ah?! – disse Oriana, inquieta.
– Tens de mudar de penteado – disse o peixe. – Eu ensino-te

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E o peixe começou a ensinar:
– Faz risca ao lado, puxa os caracóis mais para trás, puxa a onda da direita mais para a frente, põe a onda da esquerda mais para trás e faz caracóis na nuca.
Oriana fez tudo quanto o peixe disse, mas ele ainda não ficou contente. Mandou-a desmanchar o que tinha feito e recomeçar tudo outra vez. Oriana fez e refez ondas e caracóis. Até que começou a escurecer.
– Agora está melhor – disse o peixe. – Mas amanhã vamos experimentar outro penteado.
– Então até amanhã – disse Oriana.
E foi lentamente, cismando, pela floresta fora.
Era quase noite quando chegou à torre do Poeta. Sentou-se na beira da janela e perguntou:
– Achas que estou diferente?
– Não – disse o Poeta. – Acho que estás igual.
– Mas mudei de penteado.
– Não tinha reparado.
Oriana ficou calada, desconsolada com a resposta. O Poeta pediu-lhe:
Oriana, enche o ar de música.
Oriana tocou com a sua varinha de condão no ar e o ar encheu-se de música.
Estava lua cheia e o luar inundava tudo. Cheirava a madressilva e a rosas.
Oriana – pediu o Poeta -, dança a dança da noite de hoje.
Então Oriana começou a dançar no ar, em pontas dos pés, a “Dança da Noite de Luar da Primavera”.

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Dançava como as flores dançam no vento, e os seus braços eram iguais ao correr dos rios.
O Poeta sentou-se na beira da janela a vê-la e do fundo da floresta vieram os veados, os coelhos, as aves e as borboletas, para verem a dança da fada.
Até que o vento trouxe de longe o som das doze badaladas da meia-noite. Oriana despediu-se do Poeta e desapareceu.
No dia seguinte, de manhã, Oriana, depois de levar a velha à cidade, foi a correr ajoelhar-se em frente do rio. O peixe já estava à sua espera. Começaram logo a ensaiar penteados. O peixe mandou-a fazer uma coroa de flores, para pôr na cabeça.
Oriana passou a manhã e a tarde a colher flores, a ver-se no rio e a ouvir os elogios do peixe. Esqueceu-se de ir a casa do moleiro e a casa do lenhador. Esqueceu-se de tomar conta dos animais. Esqueceu-se de regar as flores. Mas à noite foi visitar o Poeta.
E, daí em diante, Oriana foi abandonando um por um todos os homens, animais e plantas que viviam na floresta. Um dia abandonou também o Poeta. Foi porque uma tarde o peixe lhe disse:
– Vista à luz do Sol és linda, mas de noite, vista à luz de uma chama, deves ser ainda mais bonita.
E nessa noite Oriana, em vez de ir visitar o Poeta, encheu a margem do rio com pirilampos e fogos-fátuos e passou a noite a ver-se na água.
Foi uma noite maravilhosa. Parecia uma festa extraordinária e fantástica no meio do silêncio e da escuridão da floresta.
Os fogos-fátuos e os pirilampos eram iguais a estrelas

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(gravura)

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pequeninas e Oriana via-se na água rodeada de luzes, de chamas e de sombras, com os seus olhos brilhantes, os seus cabelos luminosos, a sua coroa de lírios e as suas asas transparentes.
E daí em diante nunca mais foi ver o Poeta. Esqueceu-se de todos os seus amigos. A única pessoa que ela continuava a visitar era a velha, porque sentia imensa pena quando a ouvia dizer que em tempos idos tinha sido nova e linda e agora era velha, enrugada e feia. Por isso, todas as manhãs lhe acendia o lume, lhe punha leite na caneca, café na lata, açúcar no açucareiro, pão com manteiga na gaveta e depois a guiava ao longo do caminho da cidade, para que ela não caísse nos abismos.
Mas mal voltava da cidade com a velha ia rapidamente para o rio, mirar a sua beleza e ouvir os elogios do seu admirador peixe.
E, durante a Primavera, Oriana enfeitou-se com coroas e colares feitos de madressilva, margaridas, narcisos, flor de laranjeira, papoilas.
Depois, no Verão, Oriana enfeitou-se com cravos, rosas e lírios. E no Outono enfeitou-se com folhas vermelhas de vinha, com dálias e crisântemos.
Mas quando chegou o Inverno só havia violetas.
E ao fim de algum tempo o peixe disse:
– Eu acho que o roxo das violetas diz muito bem com o branco da tua pele e o loiro do teu cabelo. Em todo o caso há já dias e dias que não mudas de enfeites. Acho que devias variar.

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– Como é que eu hei-de variar? – respondeu Oriana. – Agora é
Inverno e não há outras flores na floresta.
O peixe pensou um bocado e disse:
– Podias enfeitar-te com pérolas.
– Mas onde é que eu hei-de ir buscar pérolas?
– Espera um instante – pediu-lhe o peixe.
E passado algum tempo voltou com um anel que deu à fada.
– Toma este anel
Oriana pegou no anel e ele disse-lhe:
– Põe o anel no teu dedo e voa até ao mar.
E quando chegares à orla das ondas chama pelo peixe Salomão, mostra-lhe o anel e pede-lhe que te traga mil pérolas do mar do Oriente.
Oriana assim fez.
Voou sobre florestas, montes, cidades e campos até que chegou a uma praia muito grande e deserta, onde se quebravam, cheias de espuma, as ondas do mar.
E foi até à orla das ondas e chamou:
Peixe, peixe, peixe Salomão.
E apareceu um peixe preto e azul com os olhos vermelhos, e perguntou:
– Quem me chama?
– Sou eu, a fada Oriana. Trago-te este anel.
– Diz o que queres.
– Quero que me tragas mil pérolas do mar do Oriente.
– Senta-te naquele rochedo – respondeu o peixe Salomão – e espera que eu volte.

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Oriana sentou-se no rochedo e esperou sete dias e sete noites.
De vez em quando lembrava-se da velha, mas pensava:
“Com certeza que o peixe não se há-de demorar. Ela nem vai dar pela minha falta. Conhece tão bem o caminho que, com certeza, não há-de cair no abismo.”
Depois da sétima noite o peixe apareceu ao romper o dia.
Trazia uma grande casca de tartaruga que tinha lá dentro as mil pérolas.
– Obrigada, peixe Salomão – disse a fada.
E, pegando na casca de tartaruga, voltou para a floresta.

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V – A RAINHA DAS FADAS

Mal chegou à beira do rio, Oriana chamou: – Peixe, meu amigo, aqui estão as pérolas.
E o peixe trouxe do fundo do rio dez fios de prata e Oriana enfiou as pérolas e fez dez colares.
Enrolou um colar à volta do pescoço, enrolou um colar à volta de cada braço e entrançou nos seus cabelos os outros sete colares.
Depois debruçou-se nas águas. Era um dia de Inverno muito luminoso e transparente. E Oriana viu o seu reflexo mais claro e mais nítido do que nunca. E nunca se tinha achado tão bonita. O brilho redondo das pérolas rodeava o seu pescoço, reflectia-se na sua pele, iluminava o seu cabelo.
– Nunca, nunca vi nada tão bonito! – exclamava ela.
– Pareces a rainha do mar, a princesa da Lua, a deusa das pérolas – disse o peixe.
– Nunca mais me vou embora da margem do rio – disse Oriana. Quero passar o resto da minha vida a olhar para mim.
Mas de repente Oriana calou-se. Porque ouviu no ar um

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silêncio. E nesse silêncio levantou-se uma voz, uma voz alta, direita e severa que chamou:
Oriana!
Oriana estremeceu e voltou-se. Ao seu lado em pé no ar, estava a Rainha das Fadas.
E a voz alta, direita e severa tornou a falar: – Oriana, o que é que estavas a fazer?
Oriana, pálida, respondeu:
– Estava a olhar para mim.
– E a tua promessa?
Oriana baixou a cabeça e não respondeu. – Orianadisse a voz
– , faltaste à tua promessa e abandonaste a floresta.
Abandonaste os homens e os animais e as plantas. As crianças tiveram medo e tu não as consolaste, os pobres tiveram fome e tu não lhes deste comida, os pássaros caíram do ninho e tu não os apanhaste, o Poeta esperou por ti até às doze badaladas da meia-noite e tu não apareceste. Abandonaste o lenhador, o moleiro, o Poeta. Por fim até abandonaste a velha. Não cumpriste a tua promessa. Durante uma Primavera, um Verão e um
Outono passaste os dias e as noites debruçada sobre um rio, a ouvir os elogios de um peixe, apaixonada por ti. Por isso,
Oriana, deixarás de ter asas e perderás a tua varinha de condão.
E, dizendo isto, a Rainha das Fadas fez, no ar, um gesto com a sua mão. E no mesmo instante, assim como as folhas das árvores no Outono caem dos ramos, assim Oriana viu as suas asas caírem dos seus ombros e ficarem de repente secas e mortas como dois papéis velhos. E o vento passou e levou-

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-as pelo ar. Oriana correu atrás delas, mas já não podia voar e as asas desapareceram. E viu a sua varinha de condão partir-se aos bocados e desfazer-se em poeira, que caiu no chão.
E Oriana quis apanhar a poeira, e ajoelhou-se no chão. Mas a poeira já estava misturada com a terra e as mãos de Oriana só conseguiram apanhar terra.
E a voz alta, direita e severa tornou a chamar:
Oriana!
Oriana levantou-se e, com a cara coberta de lágrimas e as mãos cheias de terra, pediu à Rainha das Fadas:
– Dá-me outra vez as minhas asas! Dá-me outra vez a minha varinha de condão! Perdoa-me a minha vaidade. Eu sei que faltei à minha promessa, sei que abandonei os homens, os animais e as plantas da floresta. O peixe encheu-me de vaidade com os seus elogios. Olhei tanto para mim que me esqueci de tudo. Mas dá-me outra vez as minhas asas. Eu quero voltar a ser como dantes. Quero voltar a ajudar, os homens, os animais e as plantas. Mas sem varinha de condão e sem asas eu não posso ser uma fada. Preciso das asas para voar ao encontro de quem me chama; preciso da varinha de condão para poder ajudar os que precisam de mim.
Mas a voz alta, direita e severa da Rainha das Fadas respondeu-lhe:
– Vai pela floresta fora e vê o mal que fizeste. Vê o que aconteceu aos homens, aos animais e às plantas que tu abandonaste. A olhar para ti esqueceste-te dos outros. Só tornarás a ter asas quando tiveres desfeito todo o mal que fizeste. Só

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tornarás a ter asas quando te esqueceres de ti a pensar nos outros.
E mal acabou de dizer estas palavras, a Rainha das Fadas desapareceu.
E Oriana ficou sozinha à beira do rio, com a cara cheia de lágrimas e as mãos cheias de terra.
E ajoelhou-se ao pé do rio para lavar as mãos. Mas quando viu na água a sua imagem sem asas começou a soluçar e a dizer:
– Asas, asas, ai minhas asas! Que feio que é uma fada sem asas! Que ridículo que é uma fada sem asas! Ninguém vai acreditar que sou uma fada. Vão julgar que sou só uma menina bonita. Mas eu não quero ser uma menina bonita, quero ser uma fada.
Oriana sentia-se muito triste e muito sozinha.
Lembrou-se do peixe e pensou:
– Vou pedir ao peixe que me ajude. Ele é que teve a culpa disto tudo.
E pôs-se a chamar:
Peixe, peixe, meu amigo!
Mas o peixe não apareceu.
Oriana tornou a chamar:
Peixe, peixe, vem-me consolar! Vem ver como estou triste, olha o que me aconteceu!
Mas o peixe não apareceu.
– Deve ter fugido para longe – pensou Oriana. – Vou esperar que ele volte.

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E esperou, esperou, sentada à beira do rio. Mas passaram muitas horas e o peixe não apareceu.
– Que mau amigo – pensou Oriana -, estou triste e ele não me vem consolar.
Então Oriana lembrou-se dos amigos antigos que ela tinha abandonado. E lembrou-se de que a Rainha das Fadas lhe dissera:
– Vai ver o que aconteceu aos homens, aos animais e às plantas que tu abandonaste.
E, levantando-se, limpou as suas lágrimas e começou a percorrer a floresta.

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VI – A FLORESTA ABANDONADA

Estava tudo muito quieto e muito calado. A floresta parecia despovoada. Não se ouviam pássaros. Não havia nenhuma flor.
Mas havia muitos cogumelos venenosos. E Oriana chamou:
– Pássaros, esquilos, veados, corças, coelhos, lebres!
Então ouviu um barulho no chão e, pequenina e preta, a víbora apareceu.
– Bom dia – disse a víbora.
– Bom dia, víbora – respondeu Oriana. – Onde é que estão os outros animais?
– Foram-se todos embora para os montes. Como a fada Oriana os abandonou e não tinham ninguém para os proteger dos tiros dos caçadores, eles tiveram de fugir para muito longe. Só ficaram os ratos, as víboras, as formigas, os mosquitos e as aranhas.
– Ah! – disse Oriana, corando de vergonha.
E perguntou:
– Sabes quem eu sou?
– Não – disse a víbora. – Vejo só que és uma menina muito bonita.

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– Não sou uma menina bonita. Sou uma fada, sou a fada Oriana.
– Ah! Mas que esquisito! Onde é que estão as tuas asas?
Nunca ninguém viu uma fada sem asas.
– Agora não tenho asas, mas daqui a dias vou voltar a tê-las. É uma história que não te posso contar.
– Eu, como ando sempre metido debaixo da terra, nunca te tinha visto, mas já tinha ouvido falar de ti.
– Sim? O que é que te disseram de mim?
– Contaram-me que dantes eras muito boa e tomavas conta da floresta, mas um dia abandonaste os teus amigos todos porque te apaixonaste por um peixe.
– Isso é mentira – disse Oriana, furiosa. – Nunca me apaixonei pelo peixe. Que história tão estúpida!
– Pois fica sabendo que é isso o que se diz.
Até contam que tu passavas horas e horas debruçada sobre o rio a fazer penteados e a enfeitar-te com flores só para o peixe te dizer que estavas muito bonita.
– Mas eu nunca me apaixonei pelo peixe. Eu passava horas ao pé do rio porque gostava de me ver no rio.
– Talvez seja como dizes. Mas o peixe contou aos outros peixes, que contaram aos pássaros, que contaram aos coelhos, que contaram às víboras, que tu estavas louca de amor por ele e que só pensavas em te enfeitares para que ele te achasse bonita.
Oriana estava indignada. Sentia-se ridícula. Olhou para a víbora e disse:
– Isso é uma mentira muito estúpida. Uma fada não se

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pode apaixonar por um peixe. Essa história é má-língua. É a célebre má-língua das víboras.
E, virando as costas, Oriana seguiu o seu caminho, mas enquanto se afastava ouviu o riso mau e sibilante da víbora:
– sssssssssss.
Ao fim de muito andar chegou à casa do moleiro. A porta estava aberta. Lá dentro estava tudo na maior desordem: as gavetas e os armários abertos e vazios, o chão e os móveis cobertos de poeira, e havia por todos os lados coisas partidas. A casa parecia ter sido abandonada há muito tempo. O lume estava apagado, os quartos cheios de teias de aranha. Oriana pegou numa vassoura e num trapo e começou a varrer e a limpar a casa. Então ouviu um ruído e uma voz que a chamou:
Oriana!
Era um rato.
Oriana, não vale a pena arrumares a casa. Já não vive aqui ninguém senão eu. O moleiro, a moleira e os seus filhos foram viver para a cidade.
– Ah! Mas porquê? – perguntou Oriana.
– Um dia desapareceu um dos filhos mais novos, aquele que tem caracóis pretos e que tem quatro anos. O moleiro e a moleira procuraram-no durante nove dias pela floresta toda sem o encontrar, e ao fim de nove dias o moleiro disse:
– O nosso filho perdeu-se na floresta, ou foi comido pelos lobos, ou caiu ao rio, que o levou afogado para longe. Não vale a pena procurá-lo mais. Vamo-nos embora da floresta antes que torne a acontecer outro desastre.
– Há muito tempo que eu sentia que ia acontecer uma

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coisa má – disse a moleira. – Ultimamente tudo me corria torto. Quando eu chegava a casa encontrava tudo desarrumado.
Os meus filhos estavam sempre a cair ao rio e voltavam sempre para casa sujos, rotos e cheios de feridas. Vamos depressa embora da floresta.
E depois desta conversa o moleiro e a mulher fizeram as malas e as trouxas, puseram tudo numa carroça e foram com os filhos para a cidade. Por isso não vale a pena arrumares a casa.
– Foi tudo por minha culpa – suspirou Oriana -, fui eu que os abandonei. Os filhos do moleiro caíam ao rio e voltavam para casa sujos, rotos e feridos porque eu não tomava conta deles.
Até que um se perdeu. Ai como é que eu hei-de desfazer o mal que fiz?
E dizendo isto Oriana pôs-se a chorar ao pé do lume apagado.
– É uma grande tristeza – disse o rato. – E foi realmente tua a culpa.
Oriana pegou na vassoura, dizendo:
– Apesar de tudo, vou acabar de arrumar e limpar a casa.
Quando chegou ao fim das limpezas, a fada despediu-se do rato e foi outra vez pela floresta fora. Pelo caminho havia pedras que lhe magoavam os pés e tojos e matos que a picavam. Quando ela tinha asas, voava por cima dos caminhos maus e só pousava no chão os seus pés quando o chão estava coberto de musgo, de relva macia ou de areia fina.
“Que difícil que é a vida dos homens”, pensou ela. “Eles não tem asas para voar por cima das coisas más.”

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Andando, Oriana chegou à cabana do lenhador. Também ali o lume estava apagado, o chão coberto de pó.
A cama, a mesa e os bancos tinham desaparecido. Então Oriana ajoelhou-se ao pé do lume apagado e chorou. E ouviu uma voz dizer:
Oriana, que é feito das tuas asas?
Era uma formiga.
– A Rainha das Fadas tirou-me as minhas asas porque eu faltei à promessa que lhe fiz.
– Foi um castigo justo porque tu esqueceste e abandonaste os teus amigos. Vê o que aconteceu nesta cabana. O lenhador e a mulher eram muito pobres. Mas todas as manhãs tu aqui entravas com três pedrinhas brancas. E transformavas as pedras em dinheiro, em roupa, em pão. Até que houve uma manhã em que tu não vieste. E daí em diante passou a haver fome, frio e miséria nesta cabana. E um dia o lenhador disse à mulher:
“- Não podemos continuar a viver com tanta miséria. Vamos para a cidade procurar trabalho.
“E fizeram uma trouxa com os seus trapos e pegaram nos móveis às costas e com o filho pela mão partiram para a cidade. Iam tristes e choraram muito quando se despediram desta cabana, onde eram felizes, no tempo em que tu todos os dias os visitavas com três pedras brancas.”
– Ai, formiga – disse Oriana, soluçando -, como é que eu hei-de desfazer todo o mal que fiz? Só agora é que eu compreendo como a minha promessa era importante. Só agora é que eu compreendo como a floresta precisa de mim.

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– Não sei que conselho te hei-de dar – respondeu a formiga. Mas já que estás arrependida de nos teres abandonado, já que queres voltar a ajudar os homens, os animais e as plantas, faz-me um favor.
– O que é? – perguntou Oriana, limpando as lágrimas.
– Pega numa pedra branca e transforma-a numa pedra de açúcar.
– Ai, formiga! – disse Oriana. – Já não tenho varinha de condão. Não posso fazer o que me pedes. Já não sirvo nem para ajudar uma formiga.
– Então se não me podes ajudar, adeus, Oriana. Tenho muito que fazer.
E, com um ar muito atarefado, a formiga foi-se embora.
Oriana suspirou, levantou-se e saiu da cabana.
Cá fora já anoitecia. A fada pôs-se a caminho da torre do
Poeta. A torre ficava longe e o caminho era selvagem, cheio de picos e de pedras. Oriana caminhava cortando a cada instante os seus pés. Não se ouvia cantar nenhum pássaro, não se via correr nenhum coelho, não se via aparecer nenhum veado com o seu ar majestoso e os olhos húmidos de doçura. Em toda a floresta pairava o silêncio, o abandono, a solidão. Quando
Oriana chegou à torre, era já noite fechada. E ela levava os pés em sangue e o coração pesado.
A porta da torre estava aberta. Oriana entrou, subiu as escadas, pensando:
– O Poeta vai-me consolar, vai-me dizer o que hei-de fazer.
Ele vai encostar a minha cabeça ao seu ombro para que eu possa chorar, chorar até que a minha solidão se desfaça.

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Oriana abriu a porta do quarto do Poeta. E viu que o quarto estava vazio.
Os papéis que dantes cobriam os móveis e o chão tinham desaparecido. Mas a lareira apagada estava cheia de cinza de papéis queimados. E o vento, que entrava pela janela, espalhava as cinzas. Estava tudo coberto de cinza.
Oriana atravessou o quarto e os seus pés feridos deixaram pegadas vermelhas de sangue sobre a cinza macia e branca. E ela ajoelhou-se em frente dos papéis queimados e, com a cara coberta de lágrimas, disse:
– Vim à procura do meu amigo e não o encontrei. Oh, como é que poderei desfazer o mal que fiz! Eu quebrei a felicidade dos homens, dos animais e das coisas. Eu esqueci a minha palavra e abandonei a minha promessa. Agora só encontro lumes apagados, casas vazias e cinza.
Então uma aranha desceu do tecto, agarrada ao seu fio brilhante, e perguntou:
– És a fada Oriana?
– Sei que sou Oriana, mas já não sei se sou fada. Faltei à minha promessa e a Rainha das Fadas castigou-me: o vento levou as minhas asas e a minha varinha de condão transformou-se em poeira.
É um castigo justo – disse a aranha -, porque tu abandonaste os teus amigos. Ouve o que aconteceu nesta casa: uma noite tu não vieste. E no dia seguinte, mal caiu a noite, o Poeta encostou-se à janela à tua espera. E quando uma folha mexia, quando um ramo seco estalava ou quando a brisa fazia dançar as ervas, – ele dizia: “É Oriana.” Mas

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(gravura)

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não eras tu. Tu nunca mais voltaste. E ele esperou noites e noites sem fim. Sem ler, sem escrever, sem fazer nada.
Passeava pelo quarto e falava sozinho. Até que uma noite, quando cantou o primeiro galo da madrugada, ele disse:
Oriana mentiu. Ela tinha-me dito: “Nunca nunca te hei-de abandonar”. Mas eu tenho esperado, esperado, esperado. As noites têm passado devagar, uma por uma. Oriana já não aparece.
O mundo está desencantado. Quero ir para a cidade e quero tornar-me igual aos outros homens.
Quero tornar-me igual aos homens que não acreditam em encantos e que não escrevem versos. Vou queimar todos os meus livros e papéis.
“E depois de ter dito isto fez um grande fogo na lareira com os livros e papéis onde estavam escritos os seus versos.
“Ficou sentado a ver arder o lume e o reflexo da chama dançava na sua cara pálida e triste. E quando tudo se desfez em cinza, ele levantou-se e partiu para a cidade. E eu vi-o desaparecer na luz fria da madrugada.”
– Foi minha a culpa – disse Oriana. – Como é que eu agora poderei fazer renascer os seus versos da cinza? Como é que eu hei-de fazer que a alegria e a amizade do meu amigo renasçam desta cinza? Ai, como o peixe me iludiu e me enganou com os seus elogios! Eu quero desfazer o mal que fiz. Irei à cidade buscar os meus amigos homens; irei aos montes buscar os meus amigos animais.

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E, levantando-se do chão, Oriana despediu-se da aranha e partiu para a cidade. Atravessou outra vez a floresta, ferindo os seus pés nas pedras e rasgando-se nos tojos. Passou pelo caminho cheio de abismos e, quando era meio-dia, chegou à cidade.

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VII- A CIDADE

As ruas estavam cheias de gente e Oriana sentiu-se muito perdida e muito tonta no meio de tantas casas, de tanto barulho, de tanta agitação. Olhava por todos os lados à procura de alguém que a pudesse ajudar. Mas só via desconhecidos, que passavam sem sequer a ver.
Resolveu perguntar ao sinaleiro:
– Diga-me, se faz favor, senhor sinaleiro conhece um moleiro que veio da floresta e que tem onze filhos?
– Nesta cidade há um milhão de pessoas e eu não conheço moleiros. Siga, siga, está a interromper o trânsito!
E Oriana seguiu, empurrada pela multidão.
Depois perguntou a um vendedor de jornais:
– Diga-me, se faz favor. Sabe onde vive um moleiro que veio da floresta e que tem muitos filhos?
– Nesta cidade vive tanta, tanta gente! Como é que eu hei-de saber onde vive o moleiro? Deixe-me passar!
Então Oriana entrou numa loja de chapéus e a dona da loja veio ter com ela a correr.

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Oriana perguntou:
– Conhece um moleiro que veio da floresta e que tem onze filhos?
– Não, não conheço. Mas tenho aqui um chapéu lindo que parece feito de propósito para si. Sente-se em frente do espelho e vai ver como fica bonita.
Mas Oriana lembrou-se do peixe e saiu da loja a correr. Depois viu um homem que estava sentado numa esplanada a beber cerveja e perguntou-lhe:
– Conhece um moleiro que veio da floresta e que tem muitos filhos?
– Não conheço nenhum moleiro, mas quero conhecê-la a si, porque nunca aqui na cidade vi uma menina tão bonita.
Oriana tornou a lembrar-se dos elogios do peixe e fugiu, espavorida.
E assim foi perguntando pelo moleiro a muita gente, mas ninguém lhe dava resposta certa. Depois de ter percorrido muitas ruas cheias de lojas, de carros e de homens, foi ter a um bairro muito pobre, do outro lado da cidade. As ruas eram escuras e estreitas e sujas. Tão escuras, tão estreitas, tão sujas, que o sol, quando ali chegava, empalidecia.
– Que sítio tão triste! – pensou Oriana.
E passou um gato.
– Olá, gato – disse Oriana. – Sabes onde é que mora um moleiro que veio da floresta e que tem onze filhos?
– Sei – disse o gato. – Vem atrás de mim. Atravessaram duas ruas e entraram no número 9537. Subiram até ao quarto andar e bateram à porta.

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A mulher do moleiro apareceu.
– Bom dia – disse Oriana. – Eu sou a fada Oriana e vim da floresta à tua procura.
– Que coisa tão esquisita – disse a moleira. – Onde é que estão as tuas asas?
Oriana contou-lhe a sua história e pediu-lhe que voltasse para a floresta.
– Daqui em diante – disse ela – tornarei a tomar conta dos teus filhos e a arrumar a tua casa.
Mas a mulher do moleiro não acreditava no que ela dizia.
– Eu não acredito em fadas. Só acreditarei nas tuas palavras e só irei de novo para a floresta se primeiro me trouxeres o meu filho que se perdeu.
E, tendo dito isto, fechou a porta.
Oriana, muito triste, voltou-se para o gato e disse:
– Ninguém acredita em mim. Estou tão, tão cansada! Diz-me:
sabes onde mora o lenhador que veio da floresta? Talvez ele acredite em mim.
– Não, não sei – disse o gato.
E despediram-se.
Oriana foi outra vez sozinha pelas ruas fazendo perguntas a que ninguém respondia.
Até que encontrou um cão vadio.
– Diz-me, cão, sabes onde mora o lenhador que veio da floresta com a mulher e o filho?
– Sei – disse o cão. – Vem atrás de mim.
E Oriana seguiu o cão até que chegaram os dois a um bairro miserável. As casas eram feitas de latas, as mulheres

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eram pálidas e desgrenhadas, os homens tinham fatos rotos e caras por barbear. As crianças brincavam na lama.
– É ali – disse o cão apontando para um casebre meio desfeito.
Oriana espreitou para dentro do casebre.
A mulher do lenhador estava sentada no chão e tinha o filho a dormir no colo. Estavam os dois tão pálidos e tão magros que
Oriana mal os reconheceu. Não havia nem cama, nem colchão, nem banco, nem móvel nenhum. Havia só, a um canto, um monte de trapos.
Oriana sentiu os seus olhos encherem-se de lágrimas. Sentiu um nó na garganta e um terrível peso sobre as suas costas. Era como se tivesse umas asas de chumbo. E, chorando, falou assim à mulher do lenhador:
– Eu sou a fada Oriana, que te abandonei. É por minha culpa que tu és tão desgraçada. Perdoa-me o mal que eu te fiz e ajuda-me a desfazê-lo.
– Que mal é que tu me fizeste? – perguntou a mulher.
– Eu nunca te vi.
Oriana contou-lhe tudo. A mulher respondeu:
– Eu sempre pensei que na floresta devia haver uma fada. Ai!, porque é que nos abandonaste? Ouve a nossa história:
“Quando chegámos à cidade o meu marido arranjou um emprego no cais. Mas o que ganhava era muito pouco. Alugámos um quarto, mas ao fim de algum tempo não podíamos pagar a renda e o senhorio pôs-nos na rua e ficou com os nossos móveis. Então viemos para este casebre, e com os

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nossos trapos fizemos uma cama no chão. E veio o Inverno, e o vento e a chuva não nos deixavam dormir. E nós púnhamos o corpo do nosso filho entre os nossos corpos para que a chuva não o molhasse e o vento não o gelasse. E o Inverno continuou.
Um dia o nosso filho adoeceu, e não parava de tossir. E durante a noite o calor do nosso corpo não chegava para o aquecer. Veio o médico, deu-lhe um remédio e disse: “Ele precisa de dois cobertores bem quentes.” E no dia seguinte, depois do trabalho, o meu marido foi pela cidade pedir esmola de porta em porta. Mas só lhe deram seis moedas e ele precisava de cinquenta para comprar os cobertores. E no dia seguinte ele passou perto duma loja, onde estavam cobertores à venda. E ele era um homem bom e honrado, mas o nosso filho estava a morrer de frio. Por isso roubou dois cobertores e fugiu. Mas veio o dono da loja e chamou a Polícia e foram atrás dele. E gritavam:
“- Agarra que é ladrão!!! Ladrão! Ladrão!”
“E levaram-no preso e meteram-no na cadeia. E eu fui à porta da cadeia pedir por ele, com o meu filho nos braços. Mas mandaram-me embora e disseram-me que o pai do meu filho era ladrão. E agora eu estou aqui sentada e não posso fazer nada, nada. Tu, que és uma fada, ajuda-nos.
– Que mau é o mal que eu fiz! – disse Oriana. – Quando eu me debruçava sobre o rio via os meus cabelos, a minha cara, o meu pescoço igual a uma torre branca e direita. E o mal que eu fazia parecia-me bom e lindo. Mas agora eu vejo

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que o mal que eu fiz é casas vazias, lumes apagados, fome, frio, lágrimas, prisões.
– Ajuda-me – pediu a mulher do lenhador.
– Volta comigo para a floresta – disse Oriana. – Eu prometo que de hoje em diante nunca mais te abandonarei.
– Só vou contigo se primeiro fores à prisão buscar o meu marido. Sem ele não posso ir.
– Então espera por mim – disse Oriana. – Eu vou buscar o teu marido.
E Oriana foi outra vez pela cidade fora. Andou, andou, até que chegou à porta da prisão. Era uma porta triste, escura, cheia de manchas de humidade.
– Bom dia – disse ela ao guarda. – É aqui que está preso um lenhador que roubou dois cobertores de lã?
– É aqui – disse o guarda.
– Peço-te que o soltes. Ele é meu amigo e não é um ladrão.
Eu sei que ele não é um ladrão.
– Roubou – disse o guarda. – Por isso é um ladrão.
– Ele roubou porque o filho dele estava a morrer de frio, por isso não é um ladrão.
– A lei diz que ele é um ladrão – respondeu o guarda.
– Não quero que digas que ele é um ladrão – disse Oriana.
– Estás a insultar a autoridade. Vou-te mandar prender – disse o guarda.
E chamou:
– Venham cá dois guardas prender esta rapariga.
Oriana, quando ouviu isto, fugiu a correr. E ninguém a conseguiu agarrar, porque, embora ela já não tivesse asas, ainda era uma fada e por isso corria muito mais depressa do que os homens.

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E Oriana foi pela cidade fora. Ia tão aflita que falava alto sozinha. E as pessoas riam-se, dizendo:
– É uma doida que vai a falar sozinha.
E Oriana fugia, envergonhada.
Mas havia outras pessoas que diziam:
– Ai que menina tão bonita! Nunca uma menina tão bonita pisou as ruas desta cidade. Parece um lírio de Maio, parece uma estrela.
E quando ouvia isto, Oriana fugia ainda mais, porque se lembrava dos elogios do peixe.
Até que anoiteceu. Apagou-se a luz do Sol e acenderam-se as luzes da cidade. Havia luzes azuis, luzes verdes, luzes brancas, luzes amarelas, luzes roxas, luzes vermelhas. E o chão da cidade era brilhante e preto.
Oriana pôs-se à procura do Poeta.
Procurou-o nas ruas, nas praças, nos jardins públicos.
Procurou-o nos cafés, nas pastelarias, nas esplanadas, nas tabernas. Procurou-o nos miradouros, nas paragens dos eléctricos e nas saídas dos cinemas. Até que as luzes da cidade se foram apagando uma por uma. E quando cantou o primeiro galo, de madrugada, só já havia uma casa com luz.
– É ali – disse Oriana.
E caminhou para a luz. Foi ter a uma rua larga com casas altas. Oriana já por ali tinha passado de tarde. Mas a essa hora a rua estava cheia de gritos, de pessoas, de movimento, de barulho, de carros. Agora estava tudo quieto e calado. As portas e as janelas estavam fechadas. Só havia uma porta aberta, onde brilhava a luz que ela tinha visto.

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Oriana espreitou e viu uma grande sala com muitas mesas pequenas que tinham tampas de mármore brancas e frias. Era um café que de dia estava cheio de gente. Agora não havia ali quase ninguém. Havia só um criado com sono, encostado ao balcão, quatro homens escuros sentados à roda de uma mesa, à direita da entrada, e, ao fundo, sozinho, sentado em frente de um copo vazio, estava o Poeta. Oriana atravessou a sala em silêncio e sentou-se em frente dele. O Poeta estava tão perdido nos seus pensamentos que nem a viu chegar. Os seus olhos olhavam para longe e não viam. A fada tocou-lhe levemente na mão, dizendo:
– Sou eu. Sou a fada Oriana. Voltei!
Orianadisse ele, rindo.
E ficou um momento calado. Mas depois o seu sorriso desfez-se, a sua cara tornou-se triste e dura. E perguntou:
– Onde é que estão as tuas asas?
– Já não tenho asas – respondeu Oriana, baixando a cabeça.
– Onde é que está a tua varinha de condão?
– Perdi-a – disse Oriana.
– Se és Oriana, encanta a noite.
– Não posso.
Então o Poeta disse-lhe, quase gritando:
– Não és Oriana. A tua cara é igual à cara da fada Oriana, mas mentes porque não tens asas e não podes encantar a noite. Não és Oriana. O Mundo está desencantado. Oriana vive na floresta com as árvores, com o vento, com as flores. Aqui não há
Oriana. Vai-te embora. Depressa.

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Falava cada vez mais alto. As pessoas começavam a olhar para eles. Oriana tapou a cara com as mãos. E o Poeta gritou:
– Desaparece!
Oriana levantou-se e, escondendo a cara, saiu a correr do café. Ouviu os criados e os quatro homens rirem quando ela passava. Fugiu pela rua fora e os risos e as troças corriam atrás dela.
E Oriana voltou para a floresta.

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VIII- A ÁRVORE E OS ANIMAIS

Quando lá chegou nascia o dia. A madrugada estava branca de névoa. Era a hora em que os pássaros acordam e começam a cantar. Mas os pássaros tinham fugido para os montes e ninguém cantava.
– Que silêncio! Que silêncio! – murmurava Oriana. – Vê-se bem que os meus amigos pássaros fugiram. Ai como eu estou sozinha!
Ai como eu estou cansada! Não sei para onde hei-de ir e não posso dar mais um passo.
E dizendo isto Oriana encostou a cabeça ao tronco de uma árvore e começou a chorar.
Era um tronco forte, áspero, negro. E Oriana rodeou-o com os seus braços e colou a cara à casca rugosa. Então a árvore baixou-se e, com os seus ramos, pegou nela ao colo. Cobriu-a com a sua folhagem e pôs duas folhas sobre os seus olhos. E
Oriana adormeceu.
Era manhã alta quando acordou. Mil raios de sol atravessavam a floresta. Oriana viu o céu azul através das folhas verdes.
Espreguiçou-se, respirando fundo os perfumes da terra.
Sentiu-se cheia de alegria por tudo ser tão bonito.
E disse:

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– Que linda manhã!
Mas de repente lembrou-se do dia da véspera. Lembrou-se do lenhador, da moleira e do Poeta.
Pensou:
“Tenho de encontrar um remédio. Com certeza que há um remédio.
Tem de haver um remédio. Mas o que é que hei-de fazer?”
E, pondo o cotovelo no joelho e o queixo na mão, Oriana pôs-se a pensar. Até que exclamou:
– Vou procurar o filho do moleiro. Os animais que foram para os montes devem saber onde ele está. Vou pedir que me digam como é que o hei-de encontrar. E vou-lhes pedir também que venham comigo à cidade ajudar-me a soltar o lenhador. E talvez que a raposa, que é tão inteligente, consiga convencer o Poeta de que eu sou uma fada.
E, radiante com a sua ideia, Oriana faz um passo de dança.
Depois voltou-se para a árvore e disse:
– Obrigada, árvore. Apesar de eu já não ter asas, tu viste que eu era uma fada. Quanto eu cheguei ao pé de ti vinha triste e cansada, mas tu deste-me a tua paz e cobriste-me com as tuas folhas. E agora eu vou procurar o filho do moleiro. Ontem eu chorava e julgava que não podia salvar os meus amigos e que não havia remédio para a minha tristeza. Mas tu cobriste os meus olhos com as tuas folhas e enquanto eu dormia a minha tristeza desfez-se. Esta manhã é tão verde e tão azul! E eu estou tão contente porque tenho a certeza de que há um remédio!

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Oriana despediu-se da árvore e foi a caminho dos montes.
Os montes eram longe e estavam todos azuis.
Oriana andou, andou.
E pensava:
– Que difícil que é a vida dos homens, porque não têm asas!
E andou, andou, andou.
Ao pôr do Sol os montes ficaram escuros contra o céu vermelho.
E veio a noite e o luar caiu sobre os campos.
Oriana procurou uma árvore para dormir, porque as fadas só podem dormir nas árvores.
E encontrou um pinheiro.
Durante a noite o pinheiro dizia:
– Quando passa o vento imagino que sou um mastro.
Logo de madrugada Oriana pôs-se a caminho.
Chegou ao alto dos montes e chamou todos os animais.
E disse-lhes:
– Sou a fada Oriana.
Eles disseram:
– Mas onde é que estão as tuas asas e a tua varinha de condão?
Oriana contou-lhes a sua história e perguntou:
– Sabem onde é que está o filho do moleiro? – Está aqui disse o veado, que apareceu detrás de um penedo com o filho do moleiro às costas.
– Dá-mo – disse Oriana -, eu quero levá-lo à mãe dele.
– Uma fada sem asas – disse o veado – é uma coisa

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muito esquisita. Não te posso entregar uma criança, porque uma criança é uma coisa sagrada. Não posso entregar uma criança a quem diz que é uma fada, mas não pode mostrar as suas asas.
– Eu sou uma fadadisse Oriana -, mas não posso provar que sou uma fada.
– Apresenta testemunhas – disse o coelho.
– De qualquer maneira – disse a raposa – não podemos ter confiança nela. Por um lado, não tem asas e por isso não parece uma fada. Por outro lado, mesmo que seja a fada Oriana, não podemos ter confiança nela. Porque a fada Oriana abandonou-nos, faltou à sua promessa e atraiçoou a sua palavra.
– Eu faltei à minha promessa, mas estou muito arrependida disse Oriana. – Há três dias que estou sempre a chorar.
– Apresenta uma testemunha – disse o veado.
– O peixedisse a fada – assistiu a tudo. Ele é que teve a culpa de eu me ter esquecido dos homens, dos animais e das plantas que vivem na floresta. Ele viu a Rainha das Fadas levantar a mão no ar e ouviu-a dizer que eu ia perder as minhas asas. Ele viu o vento que levou as minhas asas!
– Se o peixe disser que viu as tuas asas desaparecerem, levadas pelo vento, e que foi a Rainha das Fadas que te castigou, e que tu és a fada Oriana, nós acreditamos em ti-  disse o porco-espinho.
– E se todos acreditarem em ti – disse o veado – eu entrego-te o filho do moleiro para o levares à mãe dele.

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(gravura)

65

– Vou procurar o peixedisse Oriana. – Amanhã ao meio-dia venham ter comigo à beira do rio.
– Amanhã – disseram todos os animais – vamos ter contigo à beira do rio.
– Até amanhã – disse Oriana.
E pôs-se outra vez a caminho.
Andou, andou, andou.
E no dia seguinte, mal nasceu o dia, Oriana estava debruçada sobre o rio, chamando:
Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
Apareceu o peixe.
– Bom dia, Orianadisse ele, com ar mal disposto. – Estás muito mal penteada.
– Não tenho tempo para me pentear – disse Oriana.
– Há coisas muito mais importantes do que estar bem penteada.
Tenho de salvar todos os homens, os animais e as plantas que vivem na floresta. Tenho de desfazer o mal que fiz. Eu vi a tristeza da mulher do moleiro, e vi a miséria do lenhador, e a solidão do Poeta. Quero tornar a ser boa. Quero ajudar os outros. Diz aos animais que tu sabes que eu sou uma fada.
Oriana – respondeu o peixe -, eu sou muito teu amigo, mas realmente não posso deixar de ter respeito pela Rainha das
Fadas. A Rainha das Fadas está muito zangada contigo porque tu te portaste muito mal.
– Foi tua a culpa – disse Oriana.
– Perdão – disse o peixe -, não foi minha a culpa. Eu não sabia que tu tinhas feito uma promessa de tomar conta

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dos homens, dos animais e das plantas que vivem na floresta. Não tenho nada a ver com o assunto.
– Não vale a pena discutir – disse Oriana. – Só te quero pedir isto: como eu não tenho asas, os animais não acreditam que eu seja uma fada. Dizem que as fadas têm sempre asas. Eu quero que tu lhes digas que viste a Rainha das Fadas tirar-me as asas e que sabes que eu sou a fada Oriana.
– Está claro – disse o peixe – que eu sei que tu és a fada
Oriana. Mas essa história dos animais não me diz respeito.
Peixedisse Oriana -, no dia em que eu te salvei tu disseste: “Quando quiseres vem ao rio e chama por mim. Pede-me tudo quanto quiseres.” E por isso agora eu peço:
diz aos animais que eu sou a fada Oriana.
– Sabes – disse o peixe -, quando uma pessoa nos atira à cara o favor que nos fez perde o direito à nossa gratidão.
Oriana ficou muito corada, sem saber o que havia de responder.
Apeteceu-lhe cuspir naquele peixe importante e covarde. Mas lembrou-se do lenhador, que estava na prisão, da mulher do moleiro, que não sabia do filho, e do Poeta, que já não acreditava em fadas. E resolveu ter paciência. Disse:
Peixe, eu peço-te que digas aos animais que eu sou a fada
Oriana.
– Está bem – disse o peixe. – Eu não quero ser ingrato. Quando chegarem os animais, chama por mim.
– Obrigada, obrigada, obrigada! – disse Oriana.
– Até já – disse o peixe, com um ar cerimonioso e bem-educado.
E desapareceu.

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Oriana pôs-se à espera dos animais. O Sol foi subindo no céu.
Até que chegou o meio-dia. E ao meio-dia apareceram os animais.
Vinham todos em bicha, com um ar muito sério. À frente vinha o lobo. No fim vinha o veado, que trazia às costas o filho do moleiro.
– Bom dia – disse Oriana.
– Bom dia – responderam os animais. – Onde está a tua testemunha?
– Vem já – disse a fada. – Está à espera do meu chamamento.
E, ajoelhando-se à beira do rio, Oriana chamou:
Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
O peixe não apareceu.
Oriana tornou a chamar:
Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
E o peixe não apareceu.
– Então o peixe? – perguntaram os animais.
– Ainda não teve tempo de chegar – respondeu a fada.
E tornou a chamar:
Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
Mas o peixe não apareceu.
– Está atrasado – disse Oriana.
– Muito – disse o porco, que era pontualíssimo -, já passa do meio-dia.
– Vamos esperar – disse o veado.
E puseram-se à espera.
De vez em quando Oriana chamava:

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Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
Mas o peixe não aparecia.
O Sol começou a passar para o outro lado do rio.
Os animais começaram a zangar-se. Oriana estava aflita e envergonhada.
– Afinal o peixe não aparece? – perguntou um coelho.
– Não aparece – concluíram todos.
– Deve ter-lhe acontecido alguma coisa – disse Oriana
– ele prometeu que vinha servir de minha testemunha.
– Mas não veio – disse a raposa.
Oriana começou a chorar e disse:
– Talvez alguém o tenha pescado.
Alguns animais começaram a rir, outros zangaram-se.
– Disseste que o peixe vinha ser tua testemunha, e o peixe não apareceu – gritou-lhe o lobo.
– Disseste que eras uma fada e não tens asas – resmungou o porco.
– E também não tens varinha de condão – acrescentou a raposa.
– Não tem testemunha, e não é fada – gritaram os animais todos. – Vamos embora.
– Eu sou uma fadadisse Oriana.
– Mentes! – gritaram os animais.
– Não minto – disse Oriana.
E voltando-se para o veado, com a cara cheia de lágrimas,
Oriana pediu:
– Dá-me o filho do moleiro! Acredita em mim. Eu sou uma fada.

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– Não – respondeu o veado. – Eu não acredito em ti.
– Vamos embora – disse o lobo.
Oriana ficou sozinha.
E chorando, dizia:
Peixe, peixe, peixe covarde! Passaste dias e dias a dizer-me que eu era linda e agora eu chamo por ti e não apareces. Peixe ingrato, mentiroso e covarde! Salvei-te a vida e agora não me ajudas. Estou sozinha, sozinha! Quem me há-de ajudar!
Então ouviu atrás de si um barulho. Calou-se e escutou. E uma voz doce, meiga e ondulada chamou:
Oriana.
Oriana voltou-se e viu ao seu lado uma fada muito bonita, que a olhava sorrindo. Os seus olhos eram pretos e brilhantes, os seus cabelos eram iguais a serpentes azuis-escuras, as suas asas eram de mil cores, como as asas das borboletas. E trazia na mão esquerda outras duas asas.
Orianadisse ela -, queres tornar a ter asas?
– Quero, quero – disse Oriana.
– Estas asas que trago na minha mão esquerda são para ti.
– Para mim? – repetiu Oriana, que nem acreditava no que ouvia.
– Sim.
– Dá-mas depressa, depressa! – pediu Oriana, tremendo.
– Primeiro tens de fazer uma promessa.
– Que promessa? – perguntou Oriana.

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(gravura)

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Então a fada de cabelos pretos sorriu e disse:
– Eu sou a Rainha das Fadas Más. Se queres que eu te dê estas asas, tens de prometer que de hoje em diante passarás a cumprir as minhas ordens.
– E quais são as tuas ordens? – perguntou Oriana
– As minhas ordens – disse a Rainha das Fadas Más – são estas:
“Sujar a água das fontes.
“Pôr teias de aranha em cima das flores.
“Fazer secar as sementes que estão na terra a germinar.
“Roubar a voz dos rouxinóis. Azedar o vinho.
“Roubar o dinheiro dos pobres. “Empurrar as crianças. Apagar o lume dos velhos. “Roubar o perfume das rosas. Atormentar os animais. “Desencantar o mundo.”
– Não! Não! Não! – disse Oriana, recuando com horror.
– Eu não quero fazer essas coisas.
– Se não prometes fazer estas coisas, não te dou estas asas disse a fada dos cabelos pretos.
– Antes quero não ter asas.
– Sem asas não podes ser uma fada.
– Antes quero não ser uma fada.
– Pensa bem, Oriana: estas asas têm mil cores, como as das borboletas, e com elas poderás voar no ar, em vez de andares com tanto custo, passo a passo, sobre a terra, rasgando os teus pés nas pedras dos caminhos.
– Antes quero ser boa – disse Oriana. – Quero ser boa, mesmo que por isso não possa ter asas.
– Que pena que eu tenho de ti, Oriana! – disse, rindo, a fada má. – Tu fazes tudo de pernas para o ar: primeiro perdeste as tuas asas por causa dos elogios de um peixe. E agora eu trago-te duas asas iguais às das borboletas e tu não as queres. Tenho dó de ti, Oriana: és tonta e pateta e não sabes escolher.
E a fada dos cabelos pretos desapareceu a rir.
Oriana ficou sozinha e pensava:
– Nunca, nunca mais terei asas. Porque me enganei, perdi as minhas asas azuis. Porque não quis ser má, perdi as asas iguais às asas das borboletas. Agora é como se eu não fosse uma fada. Ninguém nunca mais acreditará que sou uma fada.
Talvez eu própria até me esqueça de que sou uma fada. Tenho de viver como se fosse uma rapariga como as outras. Nunca mais poderei voar por cima dos caminhos cheios de pedras. Tenho de caminhar passo a passo pelos caminhos cheios de pedras, como as outras raparigas. Mas posso, ao menos, ser boa. Posso ir para a cidade e ajudar os outros. Tenho de ir para a cidade, porque é lá que a vida dos homens é mais difícil
E Oriana pôs-se a caminho da cidade.

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IX – O ABISMO

Andou, andou, e quando ia já quase a meio caminho viu ao longe um vulto que vinha da cidade avançando ao seu encontro. Era um vulto escuro, todo curvado, que caminhava devagar, encostado a um pau. Oriana percebeu logo que era a velha. E pensou:
– Coitada da velha! Eu nunca mais a vim ajudar e ela, quase cega, anda sozinha por este caminho tão perigoso ao lado do abismo. De hoje em diante vou tornar a guiá-la todos os dias, como antigamente.
E apressou o passo para chegar mais depressa ao pé da sua amiga.
Mas de repente Oriana deu um grito. Porque viu a velha enganar-se na direcção, e começar a caminhar para o abismo.
– Ai! – disse a fada -, ela vai cair no abismo!
Gritou:
– Pára! Pára!
E começou a correr.
Oriana estava muito longe da velha e a velha estava muito perto do abismo. Mas a velha andava muito devagar e Oriana corria muito depressa.

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Corria, corria.
E gritava:
– Pára! Pára!
Mas a velha era surda e catracega e, sem ver nem ouvir, caminhava devagarinho.
– Se eu tivesse asas já lá estava! – pensava Oriana.
E corria, corria.
A certa altura a velha parou para descansar. Estava a um passo do abismo. Oriana, a dez passos dela, pensou:
– Ainda chego a tempo!
Mas quando Oriana já estendia o seu braço para a agarrar a velha deu um passo em frente e caiu no abismo.
– Ai! – gritou Oriana.
E esquecendo-se de que não tinha asas, saltou no abismo, para salvar a velha.
Conseguiu apanhá-la pelas pernas e depois quis voar, mas não pôde. E lembrou-se de que não tinha asas.
– Ai de nós! – disse ela.
Viu debaixo de si o fundo abismo aberto como uma enorme boca que a ia devorar.
– Ai, ai, ai! – gritava a velha.
E caíam, caíam.
Mas de súbito, como um relâmpago, apareceu no ar a Rainha das
Fadas. Estendendo o seu braço, ela tocou em Oriana com a sua varinha de condão.
E no mesmo instante Oriana parou de cair e ficou imóvel, suspensa no ar, segurando a velha.
E a voz alta e direita disse:

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Oriana, cumpriste hoje a tua promessa. Para salvar a velha, esquecendo-te de ti, saltaste no abismo. E o teu dó pela tua amiga foi tão grande que nem te lembraste de ter medo. Porque tu és a fada Oriana a quem foram entregues as plantas, os animais e os homens da floresta. E és tu que os guardas para que eles possam viver em paz. Quando tu os abandonaste, os animais fugiram para os montes, as flores secaram e os homens foram para a cidade, onde se perderam nas ruas cruzadas. Mas hoje tu cumpriste a tua promessa. Por isso eu ordeno que de novo nasçam duas asas nos teus ombros.
E dizendo isto, a Rainha das Fadas fez um gesto no ar com a mão direita.
E logo nos ombros de Oriana apareceram outras asas.
– Asas, asas, ai, minhas asas! – gritou Oriana, tremendo de alegria.
E dando-lhe a sua varinha de condão, a Rainha das Fadas disse-lhe:
– Toma esta varinha de condão e não esqueças nunca mais a tua promessa!
E mal acabou de falar, a Rainha das Fadas, como um relâmpago, desapareceu.
Então Oriana voou com a velha até ao caminho e, pousando-a no chão, guiou-a até à floresta.
Tonta de susto, a velha olhava à sua roda e dizia:
– Ai, parece que voltaram as fadas!
Mas Oriana já tinha desaparecido, pois, rápida como uma seta, voava para os montes.

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Quando ali chegou, chamou o veado, o lobo, a raposa, o porco-espinho e os coelhos e pediu-lhes o filho do moleiro.
Os animais viram que ela era uma fada com asas e varinha de condão e entregaram-lhe a criança.
Oriana tomou-a nos braços e voou muito alto, por cima das nuvens, até à cidade.
E quando viu a rua onde morava agora o moleiro, desceu do ar e bateu à porta da casa. A porta abriu-se e apareceu a moleira, que deu um grito ao ver o seu filho ao colo de uma fada.
– Está aqui o teu filho que tinhas perdido – disse Oriana.
– Agora – disse a moleira – vejo que és uma fada. Amanhã voltaremos todos para a floresta.
E Oriana foi à prisão. Com a sua varinha de encantar adormeceu os guardas, abriu as grades e soltou o lenhador.
E nesse mesmo dia o lenhador, a mulher e o filho voltaram para a floresta.
E quando chegou a noite, Oriana entrou no café. O criado dormia, encostado ao balcão; os quatro homens conversavam de costas para a sala. Na mesa do fúndo, pálido e sozinho, estava o Poeta.
Oriana atravessou o café, sem que ninguém a visse. Parou em frente do Poeta e tocou-lhe ao de leve na mão.
Ele levantou a cabeça e viu-a. Viu as suas asas e a sua varinha de condão. E viu que ela estava em pé no ar, sem que os seus pés tocassem no chão.
– Sou eu – disse ela.
– Agora vejo que és tu. Agora vejo que és uma fada. Obrigado,
Oriana, porque tu voltaste.

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Oriana deu-lhe a mão e, sem que ninguém os visse, saíram do café. Atravessaram a cidade e as suas ruas cruzadas com anúncios luminosos. Atravessaram as praças, as avenidas e os cais. E saíram da cidade.
Foram pelo caminho ao longo do abismo até à floresta.
A lua cheia iluminava os montes e os campos.
Quando chegaram à floresta, o Poeta pediu:
Oriana, encanta tudo.
E Oriana levantou a sua varinha de condão e tudo ficou encantado.

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