Written on Janeiro 22nd, 2012 at 9:06 am by

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O colégio

GASPAR – Mas que lesma! Vamos chegar tarde.

LUCAS – Olha o grande mal! O colégio é tão aborrecido!

GASPAR – Como sabes se nunca lá estiveste?

LUCAS – É fácil de supor. Estar metido três horas dentro de quatro paredes, aprender coisas sem se saber para quê, ser repreendido, apanhar pancada de um professor impertinente… Achas isso agradável?

GASPAR – A sala é grande…

LUCAS – Mas abafada.

GASPAR – Qual história!… Depois, nunca se aprende de mais… e é coisa muito divertida, aprender.

LUCAS – Sim, quando é para trabalhar ao ar livre; mas não para quebrar a cabeça.

GASPAR – Nada disso… Além de tudo o mais só nos ralham quando somos mandriões…

LUCAS – Sempre te digo que se não fosse meu pai obrigar-me a ir para o colégio, eu nunca lá entraria.

GASPAR – E ficarias ignorante como um burro.

LUCAS – E que tem isso?

GASPAR – Todos troçaríamos de ti.

LUCAS – Isso que importa? Não seria por esse motivo mais infeliz.

GASPAR – E quando receberes cartas, nem sequer poderás lê-las.

LUCAS – Nunca as recebo.

GASPAR – Mas quando fores crescido?

LUCAS – És tu que as lerás, visto quereres ser sábio.

GASPAR – Enganas-te! Não tas lerei pois não ficarei contigo.

LUCAS – Porquê?

GASPAR – Porque me aborrecerias deveras; não saberás ler nem sequer escrever.

LUCAS – Mas saberei outras coisas. Saberei lavrar, gradar, ceifar, partir lenha, guiar cavalos.

GASPAR – Hás-de ver: tornar-me-ei sábio, farei máquinas, livros, ganharei muito dinheiro, terei operários e viverei como um príncipe.

LUCAS (rindo) – Ah! ah! ah! Que belo príncipe! De blusa e de socos! Ah! ah! ah! Chegamos. Dêem passagem a Sua Alteza!

Lucas abre a porta do colégio, rindo às gargalhadas, e faz entrar Gaspar, repetindo:

– Passagem a Sua Alteza!

Todos se viram; o mestre desce do estrado, apanha Lucas pelas orelhas, dá-lhe um sopapo e empur ra-o. Gaspar escapa-se e vai sentar-se, muito envergonhado por causa do irmão.

Tocou a sineta para regressarem a casa. Os irmãos continuaram a conversa.

LUCAS – Que vida vai ser a tua?

GASPAR – Já to tenho dito. Fazer como o magricela do Sr. Féréor, que era um ferrageiro e tem milhões e fábricas em toda a parte e terra em vários pontos, e solares, e manda em milhares de operários e é tão feliz, que não é possível ser-se mais.

LUCAS – Feliz? Por isso ele grita tanto, e corre atrás dos seus operários como o cão atrás do gato; anda continuamente como o Judeu Errante, não descansando nem em dias santos nem aos domingos.

GASPAR – Não digo menos disso, mas possui milhões e a Legião de Honra, solares e terras em tal quantidade que não sabe o que há-de fazer delas; e todos o cumprimentam e temem.

LUCAS – É certo que o temem mas não gostam dele; e tu és o primeiro a chamar-lhe velho pergaminho, velho avarento, unhas de fome e não sei que mais.

GASPAR – Porque não é bondoso, não dá nada aos pobres e é ríspido para os operários; mas hás-de ver que não farei como ele.

LUCAS (rindo) – Nada disso verei porque ficarás o que és: operário a ajudar o pai a fazer prosperar a fazenda.

GASPAR – Mas eu não quero trabalhar na terra; já to tenho dito, não trabalharei nela.

PAI – Que estão a fazer? Preciso de vocês para apanhar a erva.

Gaspar e Lucas avistaram o pai que os fora esperar ao caminho, e parecia pouco satisfeito com aquela longa ausência.

Lucas correu ao encontro dele.

– Aqui estamos, pai; demorámo-nos, porque eu e o Gaspar vínhamos a discutir.

PAI (com rudeza) – E porque discutiam em vez de andar? Bem sabem que eu sozinho não posso apanhar a erva.

LUCAS – Está bem, pai. Vou já. Gaspar quer ser uma pessoa importante e eu estava a troçar dele.

PAI – Ah! queres ser uma pessoa importante? Ainda és muito novo, meu rapaz. Vai depressa à erva; eu vou buscar os atilhos e daqui a pouco estou com vocês.

O pai entrou no pátio da quinta; Lucas correu para o campo; Gaspar caminhava mais morosamente, repetindo:

– A erva, a erva! Que me importa a mim a erva? Ora é uma coisa, ora outra. Nunca se descansa nesta malfadada quinta. É arreliante, aborrecido!… E o palerma do Lucas que gosta deste trabalho pesado e maçador! Não percebe nada! É tapado como uma porta!

PAI (juntando-se-Lhe) – Olha lá, tens as pernas atadas? Pareces uma tartaruga a andar. Vê teu irmão, lá em baixo, pronto para o trabalho.

GASPAR – É que… tenho de estudar.

PAI – Estudar o quê?

GASPAR – As lições marcadas pelo mestre.

PAI – Quero lá saber do teu mestre e das suas lições! O teu dever é ajudar no trabalho da quinta; de momento não conheço outro. Vamos, anda, mexe-me essas pernas.

O pai empurrou com rudeza Gaspar, que estava maldisposto, mas foi obrigado a estugar o passo como o pai. Quando chegaram ao campo, Lucas trabalhava com afinco e já enfeixara parte da erva.

– Olha Gaspar: a forquilha está ao pé da árvore

– indicou ele ao irmão, que parecia procurar qualquer coisa.

O pai entregava-se já ao trabalho com a sua gente e ainda Gaspar estava a pegar na forquilha.

– Toma cautela – aconselhou Lucas a meia voz.

– O pai está a olhar para ti e parece pouco satisfeito.

GASPAR (em tom carrancudo) – Deixa-me em paz; se não está satisfeito, eu não o estou mais. Todos me aborrecem.

O pai continuava a olhar e notando a manifesta má vontade de Gaspar, abeira-se dele e dá-Lhe uma pancada com a forquilha.

– É para te dar coragem para o trabalho, mandrião! Começa, ou far- te-ei trabalhar mais rudemente do que imaginas.

Gaspar sabia muito bem que o pai não era para graças quando se tratava de trabalho e foi obrigado a entregar- se a sério à tarefa, mas maldisposto e de má vontade; em vez de remover a erva com a forquilha, empurrava-a deixando metade sem lhe tocar. O pai espreitava-o disfarçadamente.

Trabalharam assim perto de duas horas; estava calor; tinham sede. O campo encontrava-se limpo; antes de passar para o outro lado, o pai chamou os seus trabalhadores, a quem disse:

– Está calor; bebamos alguns copos e comamos uma bucha; vamos assim receber a recompensa do nosso trabalho.

Os trabalhadores, contentes com este quarto de hora de folga, agruparam-se junto da grande macieira bem copada que os abrigava do Sol. Lucas acudia, vermelho, a suar. Gaspar ia também tomar o seu lugar, mas o pai repeliu-o com rudeza, dizendo:

– Não ganhaste o teu lugar entre nós, grande preguiçoso; vai apanhar a erva, que apenas empurraste, e quando acabares, virás refrescar-te; mas antes, não.

Gaspar, sucumbido, não se atreveu a retorquir e deixou-se ficar de pé, imóvel, prestes a chorar. Embora não tivesse trabalhado bem nem muito, o suor escorria-lhe pela testa e sentia grande vontade de beber. Lucas, compadecendo-se dele, disse ao pai:

– Perdoe-lhe; já estava cansado do colégio, já tinha calor; por isso é que trabalhou tão frouxa mente.

PAI – E tu não estiveste no colégio como ele? Não tinhas também calor?

LUCAS – Sim pai, mas comigo é diferente. Trabalho menos no colégio do que Gaspar, e suporto melhor o calor e o trabalho do campo.

PAI – Porque tens coragem e entusiasmo pelo verdadeiro trabalho, e ele não passa de um maricas. Merece castigo. Não morrerá por causa disso e melhor trabalhará no futuro.

– Vamos. – prosseguiu, dirigindo-se a Gaspar.

– Faz o que te digo e avia-te.

O tom do tio Tomás não admitia réplicas. Gaspar pegou de novo na forquilha e começou tristemente a sua tarefa. Lucas levantou-se e foi para junto dele antes que o pai pudesse detê-lo.

LUCAS – Não te amofines, Gaspar. Eu vou ajudar-te; daqui a pouco temos a tarefa acabada e ainda chegas a tempo de comer uma bucha e beber um copo.

GASPAR – E tu? Também deves estar fatigado.

LUCAS – Ainda não; de resto, embora o estivesse, sentir- me-ia com forças para te ajudar.

GASPAR – Obrigado, Lucas… Tu sabes o que é o trabalho de uma fazenda! E queres que eu passe a vida a suar a aborrecer-me para apenas ganhar com que viva? Tão tolo não sou eu! Posso fazer melhor que isso e porei em prática a minha ideia quando for maior.

LUCAS – Ouve Gaspar; não há tanta diferença entre a fadiga do lavrador e a fadiga do colégio. Simplesmente, o meu trabalho é bom para a saúde, dá-me forças, apetite e sono; e tu, com os teus livros, cansas a cabeça, tornas- te macilento, dormes mal, sonhas uma multidão de coisas que não se compreendem.

Assim conversando e discutindo; findaram o trabalho. Lucas ouvira várias vezes o pai chamá-lo, mas fingira não ter ouvido, para mais depressa libertar o irmão da tarefa.

– Agora – disse Lucas, rindo – sou todo ouvidos e ouço o pai que quase enrouqueceu a chamar-me… Aqui estamos! – gritou. – Acabámos o servicinho!

Depressa chegaram junto dos outros que se encontravam debaixo da macieira e ambos pediram de comer e de beber. O pai apressou-se a dar a Lucas uma boa fatia de pão e um copo de vinho. Serviu menos abundantemente Gaspar.

TRABALHADOR – Não gostas de virar a erva, meu rapaz?

GASPAR – Não gosto do que cansa e causa calor.

TRABALHADOR – Ah! ah! ah! És fidalgo! E como queres que as coisas caminhem se ninguém quiser cansar-se, suar ou trabalhar?

GASPAR – Eu quero trabalhar mas em livros e escritas.

TRABALHADOR – Ah! Queres ser escrivão. Bonito emprego! Pois eu antes prefiro tornar-me vermelho como um rabanete a trabalhar a terra, do que empalidecer como um nabo, a espiolhar os livros.

GASPAR – Não hei-de ficar pálido de todo. O velho Sr. Féréor é pálido?

TRABALHADOR – Nem por isso. É de um tom violáceo, atirando para preto, à força de queimar o sangue a percorrer as estradas dia e noite para experimentar os fornos. Imaginas que é cor bonita para um cristão?

GASPAR – Não é a cor do Sr. Féréor que quero atingir: é a sua situação.

PAI – E supões, meu pateta, que conseguirás arranjar os milhões que ele tem ganho?

GASPAR – E porque não? Se ele os ganhou, eu não posso também ganhá-los?

TRABALHADOR – Ah! ah! O rapazito é ambicioso!

PAI – És parvo! De que te servirão os milhões depois de morreres?

GASPAR – Hão-de servir-me tanto quanto a si servem a erva e o trigo.

PAI – Lá nisso tens razão, depois de morto; mas durante a vida é melhor.

GASPAR – Como?

PAI – Porque vivo como activo lavrador que sou; não queimo os miolos a estudar nos livros; só me contento com o que Deus me dá e não atormento o coração a desejar os milhões que Deus não quis conceder-me, visto ter-me feito nascer camponês.

Gaspar não se atreveu a responder, porque nada de bom tinha a replicar. Acabou-se a meia hora de descanso e todos se levantaram.

TOMÁS – Agora, rapazes, guardemos a erva que foi enfeixada esta manhã. Tu, Guilherme, vai buscar a carroça grande. Tu, Lucas, ajuda a recolher o gado. Tu, Gaspar, apanha os ancinhos e as forquilhas e vai levá-los para junto dos feixes. E vocês, mulheres e rapazes, vão fazer atilhos ali para debaixo da macieira e apanhar a erva seca para ser ligada.

Todos se dirigiram a executar o trabalho indicado, rindo, cantando e apressando-se. Gaspar suspirava e enraivecia-se contra os trabalhos do campo.

Contudo, era preciso que trabalhasse e que, como dizia o pai, ganhasse o seu pão.

Amanhã – pensava – procederei de outro modo e hei-de ter uma boa hora de descanso, enquanto o pateta do Lucas se derreterá a trabalhar no campo.

Gaspar é rudemente castigado

No dia seguinte, de manhãzinha, o rendeiro chamou toda a sua gente; o tempo estava magnífico.

TOMÁS – Vamos, rapazes, venham todos; toca a trabalhar; as mulheres ficam na quinta para cuidar dos animais e fazer atilhos; é preciso que hoje todos aqui fiquem. Tu, Lucas, vens connosco, e tu, Gaspar, vai ajudar a mãe e às oito horas levarás o nosso pequeno- almoço ao campo.

GASPAR – E depois vou para o colégio?

TOMÁS – Hoje não há colégio, meu rapaz; este trabalho é urgente.

GASPAR – Mas, pai, o mestre vai ficar pouco satisfeito.

TOMÁS – Ora, deixa-me em paz com o teu mestre. Preciso de ti e por isso ficas.

O rendeiro foi juntar-se aos outros enquanto Gaspar permanecia imóvel e consternado.

– Não há colégio! Não há colégio! – repetia. E, contudo, preciso de lá ir; tenho de falar ao Sr. Tapefort.

Reflectiu por instantes. O semblante iluminou-se- lhe enquanto dizia:

– É Isso mesmo!

E correu à quinta, pegou num livro e foi ter com a mãe que batia manteiga.

GASPAR – Mãezinha: o pai disse-me que ficasse na quinta; eu vou restituir ao mestre o livro que me emprestou e volto já.

MÃE – Sim, filho, vai; mas não te demores, pois preciso de ti para me ajudares a bater a manteiga; sinto os braços cansados e não tenho quem me substitua. Foram todos para o campo.

Gaspar hesitou, por momentos. A pobre mãe suava tanto, que causava dó; ele via que a mãe precisava realmente de alguns instantes de descanso; que a enganava sob o pretexto de levar o livro ao professor e que faria bem em renunciar a tal nessa ocasião, mas o amor pelo estudo foi superior a tudo e saiu a correr.

Pobre rapaz! – pensou a mãe. – Como corre para voltar mais depressa! Estou tão fatigada, meu Deus! Sinto os braços entorpecidos.

E entretanto continuava a bater a manteiga que não queria coalhar.

MÃE – É singular! Há mais de uma hora que bato a manteiga e ela não coalha! Gaspar não deve demorar-se; daqui à escola a distância não é grande.

Gaspar, porém, não aparecia, e os braços da mãe cada vez estavam mais cansados. Enquanto ela se atormentava, Gaspar, tranquilamente sentado na aula, escrevia, lia, fazia contas. A aula ainda não estava aberta, mas pedira licença para lá se instalar.

– Porque – disse ao mestre – mais tarde não posso; precisam de mim na quinta; meu pai deseja que eu vá tratar da erva e não quero ficar atrás dos meus condiscípulos.

MESTRE – Mas teu pai vai ralhar-te quando te souber aqui, pois tens que fazer na quinta.

GASPAR – Ah, se lhe desse ouvidos, nunca viria à escola. Diz que são tolices e que não preciso de me mirrar por causa dos livros, que já sei bastante…

MESTRE – Faz o que quiseres. Nos livros aprende-se muita coisa.

GASPAR – Bem sei e é por isso que quero tornar-me sábio como o Sr. Féréor. Ora aqui está uma pessoa que fez fortuna.

MESTRE – Acautela-te, amigo, em quereres subir demasiado! E, principalmente, não desobedeças ao teu pai. Não esqueças que o respeito pelos pais é superior a tudo.

GASPAR – Mas eu não lhes falto ao respeito.

O mestre saiu, deixando Gaspar continuar o seu trabalho e repetindo-lhe que não desobedecesse ao pai e que só aparecesse na escola quando tivesse licença. Gaspar estudou com tanto entusiasmo que se esqueceu da hora, continuando a trabalhar com os outros que chegaram às oito e meia; davam nove horas quando a porta do colégio se abriu e Lucas entrou açodado.

LUCASGaspar, Gaspar, o pai manda-me procurar-te. Anda depressa; está todo zangado e diz que se não lhe obedeces imediatamente, virá ele mesmo buscar-te e te levará daqui, à chicotada.

Toda a aula se movimentou; o mestre mandou Lucas sair, pois alvoraçava a aula.

LUCAS – Mas eu preciso de levar o meu irmão daqui. O pai ordenou-me que o levasse e que, se o senhor aqui o conservasse sem consentimento dele, faria queixa ao inspector.

MESTRE – Vai, vai, meu pobre rapaz; tens de obedecer a teu pai; vai depressa com o Lucas.

GASPAR – Mas senhor professor…

MESTRE – Aqui não há mas, nem meio mas, meu amigo; precisas de obedecer a teu pai, bem sabes. És bom rapaz, muito estudioso e muito inteligente. Hás-de seguir por bom caminho, prometo-te, mas mais tarde, quando teu pai te der licença.

Gaspar levantou-se, a suspirar, e seguiu morosamente Lucas, que, impaciente, batia os pés.

Quando saíam da aldeia, Lucas desatou a correr, dizendo ao irmão:

– Anda, despacha-te, Gaspar. Se soubesses como o pai está irritado! Estávamos à espera do pequeno- almoço que já tardava! Não sabia porque demoravas e parecia pouco satisfeito. Quando viu, porém, que não tinhas ajudado a mãe a bater a manteiga, que foras para a escola, que a pobre mãe estava extenuadíssima, que não podia virar a vasilha e que a manteiga não coalhara, ficou tão fulo, que nós todos trememos. Foi cortar uma vergasta à mata e receio bem que seja para te dar com ela.

Gaspar estugou o passo e pôs-se a chorar.

– Meu Deus, meu Deus! Que vai ser de mim! Quando está irritado não atende a coisa alguma, bate às cegas.

E continuava a correr; Lucas corria mais depressa ainda, esperando acalmar o pai antes que Gaspar lhe aparecesse. Gaspar, porém, perdera tempo em se resolver a sair da aula; caminhava devagar até sair da aldeia. A cólera do pai aumentava em vez de diminuir. Quando os avistou, dirigiu-se-lhes e, sem ouvir as súplicas de Lucas, sem olhar ao terror de Gaspar, sem dizer palavra, agarrou-o pelos cabelos e, com a vergasta que empunhava, deu-lhe tanta pancada, que Gaspar começou por pedir perdão e depois passou a soltar lamentosos gritos que fizeram acudir a mãe e a gente da quinta.

A mãe agarrou os braços do marido e tirou-Lhe a vergasta que tão rudemente fora aplicada.

MÃE – Bateste-Lhe forte de mais. Quando estás zangado nem sabes o que fazes.

PAI – Sim, cheguei-lhe para que o sinta, e, se torna a fazer outra, ainda apanha mais.

Gaspar chorava, Lucas chorava igualmente, a mãe estava pouco satisfeita e as raparigas da quinta agruparam-se em volta de Gaspar e de Lucas para os consolar.

RAPARIGA – Não chores, Lucas; tu não apanhaste.

OUTRA RAPARIGA – Isso não. Não eras tu que fugirias para o colégio com receio ao trabalho.

RAPAZ – Ora, vamos, Gaspar, não é preciso chorar. O caso está arrumado e ele não repetirá a dose.

OUTRO RAPAZ – Não foste o único a apanhar; eu também apanhei e não estou pior por isso.

RAPARIGA – Sem contar que não tinhas razão para correr para o colégio e deixar-nos em jejum.

OUTRA RAPARIGA – E deixares a tua mãe cansar-se com a manteiga, sem lhe dares uma ajuda!

PAI – Já acabaram? O trabalho atrasou-se por causa deste mandrião. Vamos! Agarrem nas forqui lhas e nos ancinhos e voltemos para o campo! Adiante de mim, seu doutor; acabarei por te ensinar o que me parece não saberes e por te convencer de que é bom não me fazeres zangar.

Gaspar caminhava com o mesmo passo do pai; um pontapé fê-lo espertar. Lucas abeirou-se do pai, a quem pediu:

– Não bata mais em Gaspar; já lhe bateu demasiadamente.

PAI – Bati-lhe e ainda lhe hei-de bater mais, se essa for a minha vontade. E tu nada tens a dizer; isto não é contigo.

LUCAS – É comigo é, pois Gaspar é meu irmão e não gosto de o ver sofrer.

PAI – Deixa-me em paz! Se sofre, a culpa é dele.

Lucas não ripostou; chegaram ao campo; todos se entregaram à tarefa, mas sem entusiasmo e sem alegria. Tomás amedrontara toda a gente.

Quando chegou a hora do almoço, notaram, ao sentarem-se à mesa, a ausência de Gaspar.

PAI – Onde está esse mariola? Ainda há pouco vinha ao pé de nós.

Ninguém respondeu; tinham visto muito bem Gaspar meter-se por uma pequena mata que ladeava o caminho, mas não quiseram dizer-lho.

PAI – Almoçaremos bem sem a sua companhia e, se voltar tarde de mais, pior para ele.

Comeram em silêncio; ninguém falava, ninguém ria. Tomás estava contrafeito; compreendia que se excedera e que dera pancada de mais no filho. Findava o almoço quando, pálido e triste, apareceu Gaspar.

PAI – Chegaste tarde, ronceiro. Acabámos; já nada há para ti.

Gaspar não respondeu; ia para se afastar, quando Lucas correu para ele.

LUCAS – Toma, meu pobre Gaspar: o pão que me sobrou e um ovo; guardei-o para ti.

Tomás lançou-lhe terrível olhar e arrancou-lhe o pão que ele oferecia ao irmão.

PAI – Pois atreves-te a dar-lhe de comer quando eu lho recuso?

LUCAS – Parece-me que não procedo mal em dar-lhe a minha parte e, nesse caso, não receio que me castigue.

PAI – Bem sabes que não quero que cada um seja servido à parte, e quando chega atrasado pior um pouco; tem de esperar pela noite.

MÃE – Mas tu não sabes o que atrasou Gaspar. Ora repara como está pálido.

Tomás fitou o filho e indagou em tom irónico:

– Que tens? Estás enraivecido? É essa a tua doença?

Gaspar continuou mudo; a palidez aumentou e caiu sobre um banco. A mãe e Lucas acudiram.

MÃE – Que tens, meu filho?

Gaspar não respondeu e desmaiou.

O tio Tomás começou a assustar-se, mas não se atreveu a dar a percebê-lo: tinha medo de que o desmaio fosse causado pelo castigo da manhã.

Todos se juntaram em volta de Gaspar, que não tardou em recuperar os sentidos.

MÃE – Sofres, meu filho? Que te dói?

GASPAR (com voz fraca) – Tenho fome; desde ontem que nada como.

MÃE – Deus do Céu! Porque não comeste? Depressa, Lucas, dá-lhe um prato de sopa; parece-me que ainda está quente.

Lucas prontamente trouxe a sopa; Gaspar comeu-a com avidez.

MÃE – Mas diz-me, Gaspar, como fizeste para ainda não teres comido até esta hora, três da tarde?

GASPAR – Esta manhã fui para o colégio; depois, fui vergastado; o pai, ainda por cima, obrigou-me a trabalhar; já não podia ter-me nas pernas quando voltei do campo; sentei-me um bocado à sombra, na mata; mas a fome espicaçava-me; levantei-me e pus-me a andar como pude.

– Estás a ver Tomás? – observou a mãe em tom de censura.

PAI – Olha a grande coisa! Não lhe causou grande mal. Dêem-lhe de comer e acabem lá com isso!

MÃE – E ralhares tu com Lucas quando este oferecia de comer ao irmão! É mais caritativo do que tu, e tu, que és o pai do rapaz, tens obrigação de o alimentar.

PAI – E quem te disse que lhe recuso o sustento? Ele não passa de um pateta; eu sabia lá que tinha ido para o colégio em completo jejum! Mas, basta! O tempo urge e o trabalho não luz. Fica com o teu mandrião; eu vou com os outros.

Na manhã seguinte, Lucas pediu licença, ao pai, para ir à escola com Gaspar.

PAI – Perdeste a cabeça, rapaz? Também me vais fazer aborrecer com a escola?

LUCAS – Não, pai; mas o mais importante do trabalho já está feito; só nos resta guardar a erva. O nosso professor não gosta de nos ver faltar; está a aproximar- se a época dos prémios e, se faltássemos muitos dias a seguir, nada teríamos: nem eu nem o Gaspar.

PAI – Visto isso, vai, mas a minha vontade era deter Gaspar; o mestre gosta muito dele e por isso não há perigo de lhe recusar os prémios.

LUCAS – Seja como for. Não leva a bem que os bons discípulos faltem, porque o inspector pode aparecer e querer interrogá-los e que se os que sabem mais não estão, o colégio fica mal colocado.

PAI – Tu bem fazes para me convencer. Ontem não te importavas tanto com o colégio como hoje; tu queres ir ao colégio para que o Gaspar vá também.

LUCAS (rindo) – É isso mesmo, pai. Adivinhou. Mas note que Gaspar sente muito desgosto quando não vai ao colégio; nem pregou olho em toda a noite! E depois, como havia de dormir? Doía-lhe o corpo todo.

PAI (aborrecido) – Está bem, está bem! Que vá! E tu ficas porque conseguiste os teus fins.

Lucas agradeceu e correu a anunciar a boa notícia a Gaspar, que deixara triste, a queixar-se das dores.

LUCASGaspar, Gaspar! Podes ir para o colégio! o pai consente! vai depressa diz ao mestre que eu fico para ajudar na recolha da erva.

O rosto de Gaspar tornou- se radiante; agradeceu a Lucas, comeu à pressa e saiu logo, esquecendo as dores e correndo tanto como na véspera.

Desde então, o tio Tomás nunca mais aludiu ao colégio. Gaspar frequentava-o com regularidade; Lucas faltava todas as vezes que havia trabalho urgente.

Fazia grande arranjo na quinta. Com Gaspar não se podia contar, de maneira que ele aproveitava- se desse desprezo para ler e escrever durante quase todo o dia.

A distribuição dos prémios

Aproximava-se a distribuição dos prémios; os pequenos andavam agora todos inquietos; os preguiçosos, mesmo os que nada tinham a esperar, perguntavam uns aos outros que prémio lhes caberia. Antes da distribuição devia representar- se uma comédia escrita pelo próprio mestre. O teatro estava

armado no pátio. Algumas árvores abrigavam diversas cabeças do ardor do Sol. Na primeira fila de cadeiras e bancos figuravam a autoridade local, o adjunto e as famílias. Os pais chegavam em chusma. Lucas já se instalara num banco com os seus pais. Tendo chegado cedo, haviam escolhido um bom lugar à sombra de uma árvore. Gaspar fora nomeado mestre de cerimónias, para ajudar o professor a manter a ordem, a colocar toda a gente e, finda a comédia, a apresentar os prémios que se iam distribuir. O pátio estava repleto. Chegou a hora: um rufar de tambor anunciou o começo do espectáculo, sendo o pano lentamente descerrado por Gaspar e por outro rapaz, deixando ver uma floresta onde dormia um viajante.

Um ladrão surgiu no horizonte e preparava-se para roubar o viajante, quando um rapaz, que atravessava a floresta e empunhava nodoso cacete, se aproximou com rapidez e, sem fazer bulha, assentou tão forte cacetada na cabeça do gatuno, que este rolou, desfalecido. O viajante, acordando com o ruído julgou a princípio que os dois homens quisessem assassiná- lo; o rapaz, porém, explicou-lhe o caso; o viajante exprimiu o seu reconhecimento, quis dar ao seu salvador um rolo de moedas de ouro, que o rapaz, possuidor de alma generosa, recusou; o viajante leva-o consigo, chega a casa, conserva na sua companhia o rapaz, que é pobre e órfão, e ao qual dá cuidada educação. O rapazito torna-se sábio; amealha fortuna e todos ficam satisfeitos.

Aplausos e bravos se fizeram ouvir mais de uma vez; no fim, chamavam o autor; o mestre apareceu, trazido por seis dos melhores discípulos; uma coroa

desceuentamente sobre a cabeça dele; cumprimentou para a esquerda, para a direita e para o centro, enquanto os entusiásticos aplausos continuavam. A coroa tornou a subir; o mestre cumprimentou pela última vez e saiu, dando lugar aos pequenos que iam receber o prémio pelo seu trabalho.

O palco voltou a encher-se; o mestre reapareceu à frente da autoridade local e do adjunto, para quem tinham sido trazidas duas poltronas. Iniciou-se a chamada:

Prémio literário: GASPAR TOMÁS. Prémio de aplicação: GASPAR TOmÁs. Prémio de bom comportamento: GASPAR TOMÁS.

E assim, consecutivamente, até os prémios serem todos distribuídos. Os primeiros foram todos ganhos

por Gaspar; Lucas não mereceu um único, mas foi preciso arranjar-lhe também um, porque, nos campos normandos, um professor que não desse algum

prémio mesmo aos piores, concitaria contra si os pais e as famílias, que se tornariam

seus encarniçados inimigos. A Lucas, pois, foi concedido o prémio de boa disposição, que deveras o satisfez. A cada prémio descia a coroa sobre a cabeça do discípulo e tornava a subir para voltar a descer em segui da. Quando Lucas, último de todos, descia a recebê-lo a corda partiu-se e a coroa caiu-lhe em cima do nariz. Soaram grandes gargalhadas. Lucas justificou o prémio recebido, rindo de boa vontade com o

acidente. Gaspar vergava ao peso dos livros e das coroas com que fora contemplado. Lucas veio ajudá-lo.

LUCAS – Dá cá, dá cá. A minha carga é leve; posso muito bem ajudar a levar a tua.

GASPAR – Pobre Lucas! Foste pouco contemplado.

LUCAS – Seja como for, gosto do meu prémio; quanto ao prémio de trabalho, sei muito bem que não o mereço.

GASPAR – E como querias obtê-lo, se faltas tanto ao colégio?

LUCAS – Isso é verdade. Todas as vezes que há trabalho urgente na quinta.

GASPAR – Se assim continuas nunca mais aprendes coisa alguma.

LUCAS – Ora! Hei-de saber o que for possível para dirigir a quinta; é o que faz falta ao pai.

– Tens razão, Lucas – disse o pai. – Aproveitarás mais com a quinta do que com os livros. Os que Gaspar ganhou são bonitos, não digo o contrário, mas não dão tanto proveito como cem feixes de erva.

GASPAR – Servir-me-ão para apanhar duzentos feixes de erva onde vocês só apanham cem, e isto já é alguma coisa.

Muitas pessoas vieram cumprimentar Tomás por todas as coroas de Gaspar e riram um pouco do insignificante prémio de Lucas.

– Por Deus! – volveu o pai. – Prefiro, embora não seja melhor, o prémio de boa disposição, de Lucas, a todos os prémios de ciência, de Gaspar.

Por seu lado, Gaspar não estava completamente satisfeito; não podia evitar certas inquietações a respeito do seu futuro. A ambição penetrava-lhe pouco a pouco no peito e tornava-o silencioso e taciturno. Os primeiros êxitos pareciam entristecê-lo em vez de lhe darem felicidade.

Enquanto o tio Tomás conversava com os amigos, um sujeito muito alto, muito rubicundo, muito loiro, abeirou-se de Gaspar.

– Ser você que apanhar todos os prémias?

– Sim, senhor – respondeu Gaspar, modestamente.

FRÕLICHEIN – Ser bonita tal coisa! Três prémias! Seu pai, como chamar- se?

GASPAR – Tio Tomás.

FRLICHEIN – Querer dar-Lhe um palavra.

GASPAR – Ei- lo. É este indivíduo que conversa ao pé da porta.

FRÕLICHEIN – Bela! Bons tardes mein herr Que faz você de seu filha?

TIO TOMÁS – De qual?

FRLICHEIN – O que ganhou todos prémias.

TIO TOMÁS – Quer fazer dele alguma coisa?

FRÕLICHEIN – Querer ensinar mecânique.

TIO TOMÁS – Para que serve isso?

FRÕLICHEIN – Para contramestre!

TIO TOMÁS – Ora, ora! Eu rio-me dos seus contramestres. Entre os do Sr. Féréor não há um único que vá à missa. Gastam o dinheiro no café e maltratam os subalternos. Não, não! Não cedo os meus filhos para se tornarem vadios, fumadores, frequentadores de cafés.

FRÕLICHEIN – Ser pena, pois eu dar bela posição para seu filha.

TIO TOMÁS – AgradeÇo-Lhe, mas preciso dele, conservo-o comigo.

Frlichein afastou-se pouco satisfeito e foi falar ao mestre-escola.

FRLICHEIN – Você ter uma rapaz que eu desejar para mim.

MESTRE-ESCOLA – A quem se refere? Ao que ganhou todos os prémios?

FLICHEIN – Justamente. Querer essa rapaz

para meu serviça.

MESTRE-ESCOLA – É falar com o pai.

FRLICHEIN – Mas o pai não querer dá-la.

MESTRE-ESCOLA – Nesse caso, não pense

mais nisso.

FRLICHEIN – Você talvez poder.

MESTRE-ESCOLA – Nada posso; só o pai é

que pode resolver.

O mestre-escola meteu-se em casa e Frólichein

afastou-se, descontente.

– Não deixar perder de vista esta rapaz. Demónia de pai!

O tio Tomás voltou para casa com a mulher e os

criados. Felicitava Gaspar pelos prémios recebidos.

– Contudo – acrescentou -, empregarias melhor o tempo se fizesses como teu irmão.

LUCAS – Pai, quem é este homem que lhe falou

à saída do colégio?

TIO TOMÁS – É um homem que não conheço e

me pediu que lhe cedesse Gaspar.

GASPAR – Para quê?

TIO TOMÁS – Para te ensinar mecânica e fazer

de ti contramestre.

GASPAR – E quando principio?

TIO TOMÁS – Não principias nada, pois não te

cedo. Imaginas que vou ceder-te assim ao primeiro

que aparece? Queres que te meta numa fábrica com

todos esses mariolas que jogam, bebem, não põem

os pés na igreja e só sabem arruinar a algibeira e a

saúde?

GASPAR – Mas eu conheço muitos que são

bons.

TIO TOMÁS – Bons para arrastar os outros a maus caminhos. Que se te não meta isso na cabeça. Não quero e não cedo.

O tom seco e positivo do pai inibiu Gaspar de responder, mas disse de si para si que tornaria a ver o tal sujeito e o incitaria a insistir, a despeito da recusa do pai. Após alguns momentos de silêncio, Lucas desatou a rir.

– Pelo que vejo, Gaspar, os teus prémios não te alegram; em vez de te mostrares satisfeito, aparentas um ar grave, descontente, que entristece. Não dás palavra.

GASPAR – E que queres que te diga?

LUCAS – Sei lá! Mas quando se está contente não se mostra essa cara.

GASPAR – Tenho a cara de todos os dias.

LUCAS – Nada disso. Quando, por exemplo, Mateus e Julião desceram do estrado, parecia ler-se-Lhes nos olhos a felicidade, embora só obtivessem os segundos prémios, e no fim da distribuição foram beijar os pais. Tu nada disseste nem ao pai nem à mãe; não lhes deste prova alguma de amizade e até, para dizer tudo, tens um aspecto de aborrecido.

GASPAR – Porque me contrariam, porque não me deixam seguir o meu caminho como entendo.

O Tio Tomás voltou-se.

– Que estão vocês a dizer? De que caminho falam?

LUCAS (rindo) – Do caminho do colégio, pai. Gaspar não gosta do caminho que levamos.

TIO TOMÁS – E por onde quer ir?

LUCAS – Não sei lá muito bem. Bem sabe que ele tem ideias diferentes das de toda a gente. Chegámos e vamo-nos regalar com uma torta que a mãe fez esta manhã.

O jantar foi apurado: coelho salteado guisado de legumes com toucinho e a famosa torta acompa nhada de creme; a boa disposição de Lucas fez voltar a alegria, que a taciturnidade de Gaspar fizera desaparecer. Depois de bem comidos e de bons risos, saíram para tomar ar. Gaspar ficou para examinar os seus livros.

Na manhã seguinte, o Tio Tomás recebeu a visita do secretário de Féréor.

– Venho visitá-lo, Tio Tomás, da parte do Sr. Féréor. É para lhe pedir o seu rapaz, aquele que obteve todos os prémios.

TOMÁS – Para que o quer Féréor? Já lá está tanta gente! Que utilidade tem o meu rapaz?

SECRETÁRIO – Era para acabar de instruí-lo e fazê-lo contramestre.

TOMÁS – Não quero metê-lo entre esses mariolas da fábrica; os filhos são meus. Ficarão onde o bondoso Deus os fez nascer.

SECRETÁRIO – Faz mal, tio Tomás, faz mal. Seu filho fugirá contra a sua vontade. Tem ambições e isto não pode retê-lo.

TOMÁS – Veremos mais tarde, quando tiver mais idade.

Lucas entrou, açodado, e disse:

– Está lá fora esse homenzarrão ruivo que se exprime de maneira esquisita e quer falar consigo; esteve muito tempo a conversar com o Gaspar e insistiu em falar-lhe.

TOMÁS – Que entre. Que me quer esse alemão?

FRLICHEIN (entrando) – Bom dia, mein herr. Venho buscar seu filha.

TOMÁS – Estou farto disto! Repito o que lhe disse já: não quero ceder- lhe Gaspar. Conservo comigo meus filhos até terem idade de me deixar.

FRLICHEIN – Ter empenha na rapaz… Ser bom para trabalhar e aprender.

SECRETÁRIO – O senhor é estrangeiro; porque quer levar-nos as crianças mais inteligentes?

FRLICHEIN – Tomo-as à minha conta e educo-as. Mas isso não é com você.

SECRETÁRIO – É comigo, é, sim senhor, porque o meu patrão, o Sr. Féréor, quer ter Gaspar e há-de tê-lo.

FRLICHEIN – Estar enganada. Não o terá. Herr Tomás, dar-lhe trezentas francos por ano quando estiver apto.

SECRETÁRIO – E eu dou-lhe trezentos e cinquenta.

FRLICHEIN – Eu pagar-Lhe a aprendizagem.

Tomás ouvia, de braços cruzados, as ofertas daqueles cavalheiros. E continuava a acenar negativamente.

– Acabou-se! – disse por fim. – Tudo isso é muito bonito, mas eu não quero. Bom dia, meus senhores.

E Tomás voltou para a quinta.

Quando Gaspar passou pelos cavalheiros, cumprimentou-os e percebeu o motivo da visita, porque ambos haviam conversado com ele antes de falarem a Tomás. Nenhum deles retribuiu o cumprimento, tão animados estavam na discussão.

A vaca malhada

Passados alguns dias, ao fim da tarde, Gaspar estava a ler ao pé de uma árvore, enquanto Lucas fazia um cesto. Divertia-se de quando em quando a fazer cócegas no nariz e nas orelhas de Gaspar com as tiras, e ria ao vê- lo tão atento que nem dava pela brincadeira; imaginava que eram as moscas que lhe passavam pela cara e que ele afugentava maquinalmente, continuando a sua tarefa. As cócegas repetiam- se tantas vezes, que acabaram por impacientá-lo.

– As moscas estão insuportáveis, esta tarde – bradou. – Não me deixam trabalhar!

Lucas soltou uma risada.

GASPAR – De que te ris? Achas engraçado que as moscas me importunem?

LUCAS – Não são as moscas, sou eu que te faço cócegas com as tiras do cesto.

GASPAR – Tu? Que estupidez! Livra-te de metocares.

Gaspar retomou a leitura e Lucas o cesto; tinha na mão uma grande tira com que foi acariciar o rosto de Gaspar.

– Outra vez! Já estou aborrecido. Não quero que me toques. Ouviste? Não quero.

LUCAS – Zangas-te sem motivo; agora não fiz de propósito.

– Não recomeces – tornou Gaspar em tom seco e descontente.

Lucas estava muito perto do irmão, tão perto, que uma ponta da tira aflorou ainda a cara de Gaspar, o qual se virou para Lucas e lhe deu um murro.

Lucas arrancou o livro das mãos do irmão e arremessou-o para longe; Gaspar pegou no cesto de Lucas, partiu-o, fazendo o mesmo às tiras.

LUCAS – Andaste mal, Gaspar; o pai mandara-me fazer este cesto, de que precisava para amanhã, e tu despedaçaste-o.

GASPAR – Porque me aborrecias com as tuas cócegas?

LUCAS – Porque te não afastaste de mim?

GASPAR – Tu podias fazer o mesmo.

LUCAS – Não, porque eu tinha de deslocar as tiras, a ferramenta, o cordel e depois porque o teu trabalho não me incomodava; o incomodado eras tu. E agora, que irá dizer o pai?

Gaspar não respondeu: estava inquieto, porque sentia ter feito asneira. Lucas apanhou os destroços do cesto e voltou para a quinta, afim de fazer outro. Gaspar retomou a leitura, mas não dava grande atenção ao livro.

Lucas não contara o desastre acontecido ao cesto; recomeçara outro e apressava-se em acabá-lo para não se dar pelo ataque de mau humor de Gaspar. Enquanto trabalhava com ânsia, Guilherme veio sentar-se-lhe defronte.

GUILHERME – Não me vês, Lucas? Vim aqui trazer um recado para teu pai.

LUCAS – Ah! és tu? Estava tão entretido com o cesto, que não dei pela tua chegada. Que recado vens trazer?

GUILHERME – É uma carta para teu pai. Não sei o que vem dentro. Disseram-me apenas que era urgente.

LUCAS – Espera; vou chamá-lo; está ali a medir aveia para a criação.

Lucas foi ter com o pai e disse-lhe:

– Está aqui o Guilherme com uma carta; diz que é urgente.

O pai pôs de parte a aveia e dirigiu-se a Guilherme.

TOMÁS – Que temos, rapaz? Que me quer teu pai?

GUILHERME – Não sei, Sr. Tomás. Explica na carta o que é.

TOMÁS – Eu não sou muito forte na leitura. Saberás decifrar estas garatujas, Lucas?

Deu a carta a Lucas, que a examinou e a restituiu, dizendo:

– Não sei ler letra manuscrita.

TOMÁS – Exactamente como eu. Corre depressa a prevenir Gaspar; como é sabichão, vai-nos ler isso.

Lucas partiu a correr e foi chamar Gaspar, que deixara perto da quinta. Mas quando lá chegou ti nha desaparecido. Depois de o haver procurado e chamado durante algum tempo e como não o visse aparecer, voltou para trás.

LUCAS – Não o encontrei, pai; naturalmente foi para longe.

TOMÁS – Não há perigo de que volte para tra balhar. Aborrece-me com os seus livros. Está bem,

Guilherme. Diz a teu pai que não posso dar-Lhe resposta alguma. Dar-lha- ei mais tarde.

GUILHERME – Sim, Sr. Tomás. Vou imediatamente, pois recomendou-me que não me demorasse no caminho. Boa tarde Sr. Tomás; até depois, Lucas.

LUCAS – Até depois Guilherme! Vais amanhã ao colégio?

GUILHERME – Não; já não me deixam ir.

Guilherme cumprimentou e partiu.

– Que pena – volveu Tomás – não termos podido decifrar a carta! Se não estivesse tão atarefado, eu próprio iria saber o que o pai do Guilherme me quer. Pois tu ainda não sabes ler?

LUCAS – Mas, pai, só há um ano que vou ao colégio, e falto muitas vezes.

TOMÁS – E o Gaspar, que não aparece! Onde diabo estará ele metido?

Gaspar não tinha pressa de aparecer; julgava que o chamavam por causa do cesto; as costumadas conclusões desses assuntos eram sempre pancada. Gaspar queria deixar abrandar a cólera do pai e resolveu voltar para casa só à hora do jantar.

Quando chegou ao anoitecer, olhou assustado para a cara assombreada do pai, que lhe perguntou bruscamente:

– Onde tens estado, mandrião, vadio?

GASPAR (timidamente) – Andei a passear, a ler, pai.

TOMÁS – Quando és preciso, nunca te vêem. Tinha uma carta urgente para leres; procuraram-te por toda a parte… mas, sempre a mesma história. Quando podes ser útil para alguma coisa, somes-te.

Gaspar nada respondeu; estava amedrontado.

– Olha – tornou o pai. – Aqui tens a carta. Lê-a.

Gaspar pegou na carta e leu:

A vaca malhada que querias possuir e pela qual não te decidiste, parece agradar ao vizinho Camus; vem-ma comprar; dá-me duzentos e cin quenta francos por ela. Se te convém por este preço, vem buscá-la; responde já; se não mandares dizer que a pretendes, não te quero mal por isso. Camus paga- a e leva-a logo.

Teu amigo de sempre,

Guilherme

– A vaca! A vaca malhada! – bradou Tomás. Vendida, levada! E eu ficava com ela pelos duzentos e cinquenta francos! E este negócio falhou, por não saber ler! E tu, Lucas, madraço calaceiro! Não tens vergonha de não saberes ler? Há quinze meses que andas no colégio!

LUCAS – Pois sim, pai, mas são mais as vezes que falto do que aquelas em que lá vou!

TOMÁS – E porque faltas? Porque não fazes como o Gaspar, que nunca falta? Seja assim! Esse sempre aproveita o tempo. Com ele, nunca se está embaraçado! Sabe o que tu nunca chegarás a saber, meu parvo! Ao menos as mensalidades do colégio não ficam perdidas.

LUCAS – Mas é o pai que me manda ficar sempre para trabalhar na quinta! Bem sabe que não é

para mandriar ou para passear que não vou ao colégio: e que eu saiba, o pai nunca se queixou do meu trabalho. Custa muito ser tratado e repreendido como mandrião, quando se faz o que se pode; tanto mais que é para melhor trabalhar que não vou ao colégio.

O pobre Lucas chorou amargamente.

MÃE – Não é justo, Tomás! Lucas diz a verdade. eras tu quem o impedia de ir para o colégio como o Gaspar, a quem ralhavas e barafustavas sempre que o vias partir. Eras tu quem…

TOMÁS – Cala-te! Não me maces com os teus discursos. Não é menos verdade que fiquei sem a vaca malhada e não encontrarei outra igual.

MÃE – De quem é a culpa? Porque não aprendeste a ler?

TOMÁS – Cala-te, já te disse. Não me atormentes os ouvidos… Vamos para a mesa; já é tarde. Gaspar, estuda em casa o tempo que quiseres; não me zangarei por isso.

Gaspar, surpreendido e radiante, agradeceu ao pai e sentiu-se feliz como nunca o estivera havia dois anos. O pobre Lucas continuava a chorar.

TOMÁS – Ainda não acabaste, ignorante? Não te perdoo, porque me fizeste perder a vaca malhada.

O desventurado Lucas quis replicar, mas a mãe fez- lhe sinal para se calar, a fim de não aumentar a injusta irritação do pai. Lucas, um pouco conformado com o amistoso sinal da mãe e com os dos criados da quinta, enxugou os olhos e comeu como os outros. Findo o jantar, Tomás levantou- se da mesa e foi a casa de Guilherme, a ver se ainda podia reaver a vaca malhada.

– É impossível! – volveu Guilherme. – Camus pagou-a e levou-a.

TOMÁS – Porque não esperaste por mim?

GUILHERME – Eu supunha lá que te fazias de importante comigo. Se me mandasses dizer que não tinhas quem te lesse a carta diria ao Camus que voltasse amanhã; estava, porém, muito apressado, e como pensei que a vaca malhada não te conviria pelo preço, entreguei-lha logo.

Tomás não teve remédio senão reflectir sobre os inconvenientes de uma instrução descuidada; e tanto reflectiu, que caiu no excesso contrário e resolveu não só animar Gaspar, mas ainda obrigar Lucas a ir todos os dias ao colégio, até saber tanto como o irmão.

A feira

Avizinhava-se a data da feira. Lucas insinuou ao

pai que levasse lá uma novilha recentemente comprada, a fim de se desfazer dela.

TOMÁS – Vendê-la? Mas mete-se-te na cabeça

que quero vender um animal que adquiri apenas há

um mês ?

LUCAS – Acredite, pai. Não é boa, nunca será

leiteira; venda-a antes que a conheçam na terra. Dirá que veio de Trappe e isso fará com que a venda

bem, pois sabe-se que as vacas de lá têm fama.

TOMÁS – Mas porque achas que não será boa

vaca leiteira ?

Lucas fez-lhe ver todos os defeitos e sinais pelos quais se podia reconhecer que não seria leiteira. O pai hesitou: confiava nos bons olhos de Lucas, mas receava desfazer-se de um animal vindo de Trappe. No entanto, sempre se resolvera na véspera, a ir à feira.

TOMÁS – Lucas: vamos amanhã à feira; levarás a novilha; vendo-a.

LUCAS – Faz bem, pai. Verá que não tem pena

dela.

Lucas levantou-se no dia seguinte, muito cedo, e partiu com o pai. Colocaram-se no recinto da feira, encontraram um poste, onde prenderam a novilha, à

espera de comprador.

– Uma novilha que veio de Trappe – anunciou Lucas a um homem que parecia ser feitor.

FEITOR – De Trappe? As suas vacas têm fama.

– E com razão. A mãe desta novilha é um belo exemplar.

Lucas não mentia, pois a vira em Trappe. O feitor prosseguiu no exame da novilha. Lucas Percebeu logo que o outro não conhecia nada do assunto.

LUCAS – Ora veja este pêlo, esta bonita cabeça!

FEITOR – Sim, sim, mas as hastes são defeituosas.

LUCAS – Isso é conforme a vaca. E esta é da raça mais apurada.

FEITOR – Quanto pedem por ela?

LUCAS – Meu pai é que vai dizer. Pai, está aqui um sujeito a perguntar quanto quer pela novilha.

Tomás olhou, surpreendido, para o filho.

LUCAS – Sim, a novilha da Trappe, este senhor conhece as boas vacas da Trappe e sabe que esta é da mais apurada raça.

Tomás entrou em negociações com o homem, que era feitor numa propriedade perto. Após demorado regateio, o feitor acabou por pagar mais do que ela custara. O feitor entregou o dinheiro, chamou o criado da quinta e levou o animal, radiante por ter adquirido uma pechincha, enquanto Tomás também estava radiante por ter feito o negócio.

Antes de deixar a feira, quis dar uma volta pelo recinto para ver se descortinava algum animal para substituir a novilha que vendera. Ao olhar para um lado e outro, notou uma vaca que lhe fez palpitar o coração: era muito semelhante à tão lamentada malhada.

TOMÁS – Lucas vês ali aquela vaca?

LUCAS (com vivacidade) – É a malhada.

TOMÁS – Ou outra parecida, se não é a mesma. O tio Camus não é tão estúpido, que se desfaça de semelhante animal.

LUCAS – Sempre é bom ver; a mim parece-me ela.

Aproximaram-se e viram logo que era a mesma.

TOMÁS – Lucas, vai ver se é Camus quem a vende, mas não lhe digas nada; não quero demonstrar que tenho empenho na vaca.

No momento em que Lucas ia partir, chegou Camus.

CAMUS – Bons dias, Tomás. Andas à procura de uma vaca para comprar? Vendo-te a minha.

TOMÁS – Eu também tinha um animal para vender: o negócio fez-se e agora ando a dar uma volta pela feira com Lucas.

CAMUS – Não queres esta malhada? Formoso exemplar! Um arrátel de manteiga por dia! Um leite magnífico, um animal que nunca seca.

LUCAS – Até aí sei eu, pois já a vi na casa do vizinho Guilherme.

CAMUS – Ora não metas o nariz onde não és chamado.

LUCAS – É que nós conhecemos a vaca malhada. Meu pai não a quis há um ano.

CAMUS – É verdade, Tomás? Então não percebes nada disto.

TOMÁS – Ora, ouve. Tu que a revendes passado um ano é porque não estás contente com ela.

CAMUS – Pelo contrário, é a melhor do estábulo. Mas eu compro vacas para depois as vender e ganhar alguma coisa.

TOMÁS – E quanto queres pela malhada?

CAMUS – Cedo- ta por trezentos francos, nem menos um centavo.

TOMÁS – Não queres mais nada? Há um ano deste por ela menos cinquenta francos.

CAMUS – Não valia mais do que isso.

TOMÁS – Valia, sim. Mas eu não te pago isso.

CAMUS – Quanto dás, então?

TOMÁS – Para te falar com franqueza, não sei. Não tenho empenho nela e, além disso, pedes muito.

CAMUS – Mas, repara que é a melhor vaca da feira. Como é para ti, abato cinco francos e fica o caso arrumado.

TOMÁS – Cinco francos? Se dissesses quarenta, talvez o negócio se fechasse.

CAMUS – Acredito! Um animal tão bonito! Cedendo-to por duzentos e noventa francos, ainda perco, verdade verdadinha, ainda perco.

TOMÁS – E eu se te der duzentos e sessenta e cinco francos pela vaca, não faço bom negócio.

À força de conversa, de discutir, de regatear, sentiram ambos as goelas secas; contando ganhar alguns francos com isso, foram abancar a um café com Lucas.

Após infindas discussões, combinaram que Tomás ficaria com a malhada por duzentos e setenta e cinco francos e que pagaria a despesa do café.

Por fim Tomás estava de posse da vaca malhada tão chorada. Quando a pagou e a segurou pela corda, já não dissimulava a sua alegria e confessava a Camus como ficara arreliado por lhe haver falhado havia um ano e que não a largaria por trezentos francos. Camus estava desesperado.

– Quem o tivesse adivinhado! Obrigou-me a perder vinte e cinco francos! E o Lucas, que só dizia mal. Isso não é bonito, Lucas! Na tua idade não se deve ser tão manhoso.

Camus bem se arrependeu, enquanto Tomás, todo radiante levava a vaca.

TOMÁS – Corre à minha frente, Lucas, para dizeres à mãe que a malhada é nossa. E a ti a devo; porque, se não insistes em vender a novilha Trappe, eu não teria dinheiro para comprar malhada.

Lucas partiu; Tomás seguiu- o de longe, puxando pela vaca. Não estava ainda a dois quilómetros

da aldeia quando Lucas desapareceu, sempre a correr.

O pobre rapaz vai esfalfar-se – dizia consigo Tomás. – E ainda o humilhei, o injuriei, tratei mal durante mais de um ano! E ele tudo suportou sem um queixume! Pensar eu que, ao cabo desses maus tratos, me fez conseguir a malhadinha! Que miserável sou! Já não quero que vá para o colégio.

Tomás, que sempre se excedia, ora indulgente, ora severo em demasia, estugou o passo para alcançar Lucas e levar-lhe essa agradável notícia. Quando, porém, apareceu na quinta, Lucas já lá chegara havia algum tempo e a mãe esperava o marido e a vaca malhada.

Lucas, Lucas – gritava o pai, de longe -, estou ansioso por te dizer que já não voltas para o colégio, que empregarás o tempo como quiseres, todos os dias.

LUCAS – Obrigado, pai, mas prefiro, se me dá licença ir ao colégio pelo menos meio dia. Deste modo, poderei ser útil na quinta e saberei ler e escrever.

TOMÁS – O quê? Agora queres saber ler?

LUCAS – Decerto, pai; se soubesse ler teria a malhada há um ano.

TOMÁS – Como quiseres, filho; tens certa razão no que dizes.

Gaspar é desejado por todos

As coisas continuavam como de costume; Gaspar passava os dias no colégio a estudar. Lucas trabalhava na quinta de manhã, e, depois do almoço, ia para o colégio. Gaspar tinha quinze anos. O seu desejo de aprender e vencer mais aumentav A alegria da sua idade já desaparecera. Mal se en tretinha com os divertimentos e jogos dos compa nheiros; silencioso e pensativo, punha-se de parte e deixava-se levar pelas suas ideias ambiciosas. Bastantes vezes as propostas que o pai recusara tão abertamente lhe acudiam ao espírito. Entretanto, nunca mais ouvira falar do alto alemão nem do velho F réor. Nova distribuição de prémios se devia realizar dentro de breves dias.

Nas vésperas, enquanto Gaspar ajudava o professor a arranjar a sala e a rotular os livros destinados aos prémios, a porta abriu-se e viram aparecer a cabeça ruiva e o comprido pescoço de Frlichein.

FRLICHEIN – Então minha boa amiga, haver reflectido em meus ofertas? Chegar o momento de felicitá-la. Quantos anos ter?

GASPAR (sorrindo) – Mais um ano do que o ano passado; quinze.

FRLICHEIN – Brava! Ser bonita idade! Que dizer seu pai?

GASPAR – Nada, mas deixa-me livre, já não me proíbe de estudar.

A cabeça sumiu-se e o mestre pôs-se a rir, dizendo:

– Este endemoninhado alemão não me larga a porta. Se teu pai aceitar as propostas dele, ficarei bastante contente.

GASPAR – Eu também; o que quero é começar.

MESTRE – Para isso precisas de deixar a casa e a terra.

GASPAR – A terra não, se vou para a fábrica de Féréor. Quanto à casa, não me dá grande abalo. Lucas anda sempre pelo campo; minha mãe está atarefada com os amanhos da quinta; meu pai, ora diz que sim, ora diz que não; um dia contraria-nos injuria-nos, bate-nos; no dia seguinte, sem se saber porquê, deixa-nos fazer o que na véspera o fizera zangar.

MESTRE – O que quer dizer que não gostas nem tens saudades de ninguém.

GASPAR – É isso, pouco mais ou menos.

MESTRE – De facto, nunca mostraste ter muito coração. Além disso, Gaspar, visto havermos chegado a este ponto, sempre te digo que há muito que te observo e, para falar com franqueza, não estou contente contigo. Ninguém, decerto, é mais pontual do que tu à aula e tens aproveitado bastante com as lições. Estás muito mais adiantado do que os outros e, contudo, não estás satisfeito como eles. Pensas demasiadamente no fim que pretendes atingir e esqueces os meios por que podes atingi-lo. Lembra-te de que não basta alcançar a riqueza; é mister, principalmente, seguir um caminho recto. Submete-te mais a teus pais, perdoa-lhes as censuras que te façam; respeita e sê grato aos teus superiores e a todos aqueles que se interessam por ti, mostra-te afectuoso e bom camarada com as crianças da tua idade; lembra-te, principalmente, de que o amor de Deus e a caridade são os teus primeiros deveres; de contrário, embora sejas rico comó Féréor, nunca serás mais feliz do que ele; sentirás continuamente que alguma coisa te falta; o teu coração endurecerá; ninguém te estimará se tu não estimares pessoa alguma. Continuarás a procurar a felicidade sem nunca mais a encontrares. Deves sentir que isto é justo; pensa bem.

Enquanto Gaspar conversava com o mestre, Frlichein corria a passos largos para se entender com Tomás e levar-lhe o filho.

Tomás estava em casa; não acertava as contas de um negócio que realizara; faltavam-lhe dez francos que não encontrava. Assim, estava maldisposto quando a porta se abriu e surgiu Frlichein.

– Outra vez o alemão? – rezingou.

FRLICHEIN – Bons dias, herr Tomás. Que ter a dizer de seu filha?

TOMÁS – Já lho recusei duas vezes. Deixe-me os rapazes; isso é comigo.

FRLICHEIN – Mas, herr Tomás. Sua rapaz tem quinze anos. Ser boa idade. Ser bem paga; a rapazar contenta.

TOMÁS (em tom aborrecido) – Não vendo os meus filhos.

FRLICHEIN – Mas, por Deus… Não valer pena zangar. Não lhe desejar mal. Pelo contrária: desejar melhor bem possible. Verá o que eu fazer por rapaz. Será rico como o judeu daqui.

TOMÁS – Aqui não há judeus.

FRLICHEIN – Se dizia judeu é para rir; mim referir à velho Féréor. Eh! eh! eh!

TOMÁS (irritado) – Féréor é tanto judeu como qualquer outro. Não quero que um estrangeiro venha insultar um francês, um homem que faz viver toda a região.

FRLICHEIN – Ora, vamos, herr Tomás não zangar! Que lhe dizer eu? Desejar apenas sua rapaz. ada mais. Dizer que seu filha ir ganhar quatrocentos francos por ano e que se a portar bem, dentro de dois anos, ganhar quinhentas francos, ser vestida, sustentada, etc.

Tomás, abalado com tão vantajosas condições, amaciou e, após algumas dúvidas sanadas, disse-lhe que ia pensar, que falaria a Féréor antes de se resolver.

FRLICHEIN – Diaba! Não ser preciso consultar Féréor. Prometerá muita mas nada fará.

TOMÁS – Isso é comigo. Nada resolverei sem

lhe falar.

FRLICHEIN – Andar mal, andar mal, herr Tomás. Eu querer seu filha já e ele intrujar você… Verá.

TOMÁS – Se me enredar, eu me desenvenciálharei. Boas tardes. Estou com um negócio entre mãos e não posso perder o tempo em conversas.

Frolichein saiu, descontente e inquieto; desejava bastante Gaspar. A inteligência, a perseverança e a boa vontade desse rapaz deviam torná-lo um homem invulgar e, no prazo de três a quatro anos, seria deveras útil na sua fábrica. Queria dar uma lição a Féréor, com quem competia no fabrico de ferros e metais.

Tomás, que era esperto, viu bem o partido que podia tirar desta concorrência.

Cederei Gaspar ao que me oferecer mais – pensou. – As duas fábricas equivalem-se, há bom e mau. Preferia que ficasse connosco, como Lucas, a entrar nessas fábricas com essas mecânicas que nos trituram com as suas rodas e engrenagens, se não há cuidado. Mas visto que absolutamente o

querem…

A distribuição de prémios fez-se como os anos transactos, apenas com a diferença de que, antes do começo do espectáculo, o mestre anunciou que a aptidão, a inteligência e aplicação extraordinárias de Gaspar Tomás o punham fora do concurso e que em substituição de todos os prémios que merecera, apenas lhe fora concedido um prémio excepcional e único, o Dicionário das Ciências e das Artes e um belo volume de Matemáticas Especiais.

Todos ficaram satisfeitos, porque os primeiros prémios seriam ganhos por diversas crianças, em vez de serem conferidos só a Gaspar. Este ficou radiante com as duas magníficas obras que lhe seriam utilíssimas para os estudos que de futuro havia de fazer.

Estava, como sempre, muita gente; aplaudiu-se a comédia, coroaram-se os bons estudantes; conversou-se.

Pouco a pouco os grupos foram-se afastando; só ficaram algumas pessoas que se felicitavam reciprocamente.

Frlichein meteu-se sorrateiramente no grupo do tio Tomás.

FRLICHEIN – Eu desejar felicitar o rapazinha e dar pequena lembrança por esta belo dia.

TOMÁS (secamente) – Obrigado. Gaspar foi-se embora com o irmão e os companheiros.

FRLICHEIN – Recear vir demasiada tarde. Pedir entregar seu filha este lembrança.

E quis meter na mão do tio Tomás um pequeno pacote.

TOMÁS – Que é isto?

FRLICHEIN – Ser pequeno bolsa; pequeno lembrança com qualquer coisa.

TOMÁS (trocista) – Dê-lhe o senhor mesmo, se quer; quanto a mim, nada ganhei no colégio; nada tenho a receber.

O tio Tomás afastou-se, a rir, com os seus amigos, do ar atarantado de Frlichein.

Foi retido no caminho pelo secretário de Féréor.

SECRETÁRIO – Bons dias, tio Tomás.

Deu-lhe vigoroso aperto de mão, prosseguindo:

– Parabéns! Seu filho ultrapassou todos os outros. E que honrosos prémios não recebeu!

TOMÁS – Sim, senhor. Não se portou muito

mal. Tem uma biblioteca.

SECRETÁRIO – E decide-se a colocá-lo, a tirar

ì vantagem da grande inteligência desse rapaz? Que

idade tem ele?

TOMÁS – Quinze anos feitos há dois meses.

SECRETÁRIO – É uma bela idade! Precisamente a idade própria para começar a estudar a

mecânica, matemática, geometria, etc.

TOMÁS – Talvez; nem eu nem minha mulher

temos pressa de nos separarmos dele. Minha mulher, principalmente, insiste em não o deixar partir.

E eu, compreende, não quero desgostá-la.

SECRETÁRIO – E como vai a bondosa tia Tomás?

TOMÁS – Muito bem, obrigado; saiu à frente

com Lucas e Gaspar. Vou ter com ela.

SECRETÁRIO – Posso acompanhá-lo?

TOMÁS – Ora essa; até pode comer connosco.

SECRETÁRIO – Obrigado, mas o Sr. Féréor

está à minha espera. Os negócios caminham lindamente! Bom fabrico; os operários bem pagos; os

rapazes são gente capaz e seguem bom caminho;

hão-de fazer fortuna.

Tomás evita responder; sabia muito bem que o

secretário de Féréor queria proceder de maneira a

que Tomás pedisse um lugar para Gaspar; não queria, porém, depreciar a mercadoria e esperou; por

seu lado também se tornava astuto, no interesse do

próprio Gaspar.

TOMÁS – Mas há outra fábrica que rivaliza

com essa e, segundo consta, também caminha bem.

SECRETÁRIO – Não é tanto assim, meu amigo.

Como havia de seguir bem com um alemão à testa

dela?

TOMÁS – No entanto, parece satisfeito; oferece

quinhentos francos como quem oferece cêntimos.

SECRETÁRIO – Oferece quinhentos francos?…

Então é porque já veio falar consigo…

TOMÁS – Aparece por aí algumas vezes.

SECRETÁRIO – Isso não é bom! Desconfie dele. Acautele-se com esse árabe! É um velhaco que mete as pessoas no coração. Eu sei para que ele quer o Gaspar. Mas livre-se de lho dar, passará uma vida miserável.

TOMÁS – Nada disso; as fábricas são a mesma

coisa.

SECRETÁRIO – Não creia tal. Veja a nossa!

Como está bem montada! Aí é que o Gaspar será

feliz.

TOMÁS – Sei lá! Pagam bem aos operários?

SECRETÁRIO – Isso é conforme; os indivíduos

vulgares não são muito bem pagos; mas tratando-se

de um rapaz inteligente que tem futuro, como o seu

rapaz, o caso muda de figura.

TOMÁS – Nesse caso, quanto pagariam a Gaspar?

SECRETÁRIO – Ora… quinhentos francos.

TOMÁS – Adeus, meu amigo… O alemão

também nos oferecia isso e eu recusei.

SECRETÁRIO – E seiscentos? Cedê-lo-ia por

seiscentos?

TOMÁS – Vou pensar. Preciso, antes de aceitar ou recusar, de falar com Frlichein, que ficou de voltar.

SECRETÁRIO – Nada resolva sem me prevenir.

TOMÁS – Está bem; far-lhe- ei saber quanto me oferece.

SECRETÁRIO – Conto com a sua promessa tio Tomás.

TOMÁS – Sossegue; só tenho uma palavra.

SECRETÁRIO – Bem; não me despeço, pois

breve aparecerei.

O secretário retirou-se e o tio Tomás ficou a rir. – Tenho-os na mão. Gaspar há-de obter boa colocação. Quanto a Lucas, conservá-lo- ei na quinta: vale por um homem. Começa a lavrar menos mal. Só há uma coisa que não consigo que ele faça: trabalhar ao domingo. Quanto a isso, por mais que

insista, prefere deixar perder uma ceifa a trabalhar aos domingos.

Enquanto repousava, reflectindo, com os cotovelos fincados na mesa, e a cabeça nas mãos, a porta abriu-se, dando entrada a Frlichein, que não fez barulho. O tio Tomás continuou a reflectir; Frolichein sentou-se, resolvido a esperar que Tomás despertasse, pois o julgava a dormir.

Por fim, Tomás levantou- se e bradou:

– Olha, é o Sr. Frlichein. Está aí há muito tempo?

FRLICHEIN – Há instantes. Vir lembrar que querer Gaspar.

TOMÁS – É teimoso! Acabei de falar com Férey, o secretário do Sr. Féréor, o qual me apresentou tão boas ofertas, que estou na ideia de Lhe ceder

o rapaz.

FRLICHEIN – Oh! mein Gott! Bom tio Tomás, eu dar-Lhe sempre mais do que esse homem do diaba Eu dar seiscentos francos.

TOMÁS – Féréor ofereceu-me o mesmo.

FRLICHEIN – Mein Goott! O mesma?

TOMÁS – Não resolverei o assunto sem me avistar com Féréor ou com o seu secretário.

FRLICHEIN – Que diaba tio Tomás! Esse judeu nunca lhe dar o que eu dar E, afiançar-Lhe, já dar de mais.

TOMÁS – Está bem, está bem, Sr. Frlichein.

hei-de ver isso.

FRLICHEIN – Quando receber resposta definitiva? I

TOMÁS – Não tenha pressa. Dentro de alguns dias far-lhe-ei saber pelo mestre-escola o que decidir.

FRLICHEIN – Boas noites, tio Tomás.

Acautelar-se com o judeu! Só lhe dizer isto.

Frlichein saiu pouco satisfeito. Além de ter em

mente acabar a educação mecânica de um rapaz tão

inteligente e trabalhador como Gaspar, sabia que o

seu rival Féréor se empenhava em possuí-lo, e ele

não queria que o outro triunfasse.

Na manhã seguinte, o tio Tomás referiu a

Gaspar o que se tinha passado entre ele e Frlichein.

– O secretário de Féréor vem cá hoje; é preciso resolver; por igual quantia, em qual das fábricas queres entrar?

GASPAR – Prefiro Féréor; é daqui, é pessoa conhecida e eu reconhecerei todos os companheiros.

Prefiro entrar para casa deste, pois já tem fortuna feita; a de Frolichein ainda não está bem consolidada… Bem vê, pai, que eu tinha razão em estudar como estudei, mesmo contra sua vontade. Assim, vou ganhar quatro vezes mais do que o Lucas.

TOMÁS – Sim, sim; fizeste bem, mas o Lucas também fez bem, porque a quinta…

Foi interrompido pela chegada do próprio Féréor. Todos se levantaram e tiraram os chapéus.

FÉRÉOR – Tio Tomás, consta-me que hesita em entregar-me o seu rapaz. Anda mal; tem capacidade, gosta de trabalhar, anseia subir; em minha casa estará melhor do que noutra qualquer e subirá mais depressa.

TOMÁS – Mas Frlichein…

FÉRÉOR – Não me fale em Frlichein; é um estúpido, um animal que nada vale, que será metido na cadeia por dívidas dentro de alguns anos. Fico com o seu rapaz por quinhentos francos e prometo-lhe aumentá-lo logo que possa. Encarrego-me da sua manutenção; não precisa de se preocupar com coisa alguma. Bons dias, tio Tomás; bons dias a todos. Tu, Gaspar, anda comigo; vou apresentar-te ao meu secretário Férey.

Gaspar fitou o pai, que não ousou retê-lo, e seguiu o novo patrão.

– Aqui tens – disse-lhe Féréor – uma moeda de cinco francos; é a tua gorgeta. Estás satisfeito ou zangado por te raptar, como faço?

GASPAR – Muito satisfeito; meu pai nunca se decidiria. O senhor assusta-o; não se atreve a resistir- lhe.

FÉRÉOR – Então, temem-me cá na terra?

GASPAR – Parece-me que sim. Quando o esperam na fábrica, estão atentos ao trabalho; não há perigo que se distraiam da tarefa.

Tem olhos de lince e excelentes ideias – pensou Féréor. – Pode ser- me útil.

– Soivrier, aqui está o pequeno Tomás que te trago. Cuida dele. é preciso que trabalhe com Férey e tu lhe ensinarás o que tem a fazer na fábrica; que, sozinho, se ponha ao corrente de tudo. Instala-o junto de ti e dá-Lhe o que for preciso para sua manutenção.

SOIVRIER – Sim senhor; cuidarei dele, como

diz, e incitá-lo-ei.

FÉRÉOR – Sim, sim; há-de ser- me útil e quanto

mais depressa, melhor. Até depois.

E Féréor saiu. Gaspar ficou com Soivrier.

SOIVRIER – Ora vamos, instalemo-nos. Onde estão as tuas coisas?

GASPAR – O Sr. Féréor não me deu tempo de trazer fosse o que fosse; vou à quinta e trago de lá o indispensável.

SOIVRIER – Não, não quero que saias daqui; deter-te- iam. Vou eu mesmo e trago as tuas coisas. Enquanto me ausento vais esticar o arame.

Soivrier levou Gaspar ao esticador de arames, mandou preparar o camto e dirigiu-se à quinta de Tomás.

Lucas aguardava o regresso de Gaspar para saber quando entrava na fábrica de Féréor; ficou surpreendido e penalizado ao ver aparecer Soivrier sozrnho. O pai e a mãe mostraram-se muito descontentes com o rapto do filho.

MÃE – Nem sequer mudou de camisa!

TOMÁS – Nem sei se o emprego Lhe agrada!

SOIVRIER – Sosseguem; virá visitá-los no domingo; despedir-se-ão dele mais à vontade no próximo domingo. Venho cá buscar as suas coisas. Faça

de tudo um embrulho, tia Tomás, e meta-lhe lá os

livros, que lhe são precisos.

MÃE – Eu não sei quais são; nunca os vi.

LUCAS – Sei eu, mãe; de resto, se alguns ficarem, virá buscá-los no domingo.

O embrulho depressa se fez e Soivrier meteu-se

logo no carro. Todos na quinta ficaram pasmados

com a rapidez desta Partida.

COCHEIRO – E assim que o Sr. Féréor faz os

seus negócios: é tudo num ápice.

TOMÁS – Parece-me que tem razão. Vês

mulher? Esperaria, hesitaria e talvez me tivesse resolvido pelo pior. Como Féréor apareceu pessoalmente, não pude resistir-Lhe, nem impor-lhe condições. Levou- mo! Nenhum de nós trocou palavra antes de Gaspar haver partido.

MÃE – Nem sequer o beijei!

TOMÁS – Beijá-lo-ás no domingo; parece-me

que já não está muito longe.

No dia seguinte ao daquela brusca partida, Frlichein, muito esperançado e resolvido a ultrapassar

todas as ofertas de Féréor, o seu rival, entrou de

mansinho em casa de Tomás que acabava de comer.

– Não incomodar-se, excelentes amigas – disse

ao ver que se levantavam da mesa.

TOMÁS – Já acabámos; não nos incomoda

nada.

FRLICHEIN – Eu vir ainda para dizer querer

levar sua rapaz.

TOMÁS – Bem sei; isso calculo eu. Mas, repare, Féréor tinha tanto empenho no pequeno, que me resolvi a ceder-lho; quando quer qualquer coisa há-de tê-la por força.

FRLICHEIN – Mas, tio Tomás, ele não precisar ter seu pequena; bem saber que não ser certo. Seu filha irá para a rua dentro de pouco tempa.

TOMÁS – Contudo, Féréor ainda ontem me dizia…

FRLICHEIN – O quê? O quê? Féréor ter estado cá ontem?

TOMÁS – Sim, senhor. Pessoalmente. Dizia-me…

FRLICHEIN (aterrado) – Mein Gott! Ser intrujado; raptar-Lhe rapaz…

TOMÁS – Já nada há a fazer. Levou-o ontem.

FRLICHEIN (ainda aterrado) – Levado? E deixá-lo levar! Pobre imbecil! E não ir buscá-lo? Não ir detê-lo?

TOMÁS – Não, senhor. Está tudo arrumado. Um empregado veio buscar a roupa.

FRLICHEIN (irritado) – Miserável! porque não esperou por mim? Eu dar mais do que esse gatuna, esse velhaca! E porque me fazer perder tanto tempa a pedir?

TOMÁS – Deixe-me em paz, senhor alemão. Fui eu que o chamei? Já estou farto das suas visitas que não pedi. Sempre lhe recusei Gaspar. Tenho culpa de que se fizesse bajulador para o conseguir? Viva, bons dias, tenho mais que fazer.

FRLICHEIN – Estúpida campónia! Já não querer teu Gaspar, mesmo que pedir-me de joelhos para o levar. Deixar aborrecê-lo em casa do gatuna, do bandida.

TOMÁS – Por quem é, vá-se embora, vá espairecer. Peço- lhe alguma coisa para Gaspar? Quero lá saber da sua cólera! Féréor esmagá-lo-ia como uma pulga se o importunasse.

FRLICHEIN (exasperado) – Uma pulga, uma pulga! Hás-de pagar-mas, patife, mariola.

Frlichein mostrou o punho e saiu ouvindo as gargalhadas de Tomás e de todos os da casa.

– Má peça, este cavalheiro!

TOMÁS – Não foi sorte Féréor ter vindo buscar o Gaspar?

MÃE – E pensar eu que estive inclinada a deixá-lo ir para casa deste brutamontes!

Quando Gaspar veio visitá-los no domingo seguinte, todos lhe formulavam perguntas sobre o que fazia, sobre os companheiros, sobre os contramestres, sobre o próprio Féréor.

GASPAR – Estou bem; sinto-me feliz; os companheiros não são maus; quanto a mim, os contramestres não são lá muito cuidadosos, isso não; deixam às vezes fazer coisas que não deviam fazer-se. Féréor aparece muita vez, mas não se demora; vê tudo por alto e não minuciosamente.

Em seguida a ter contado algumas coisas da fábrica, saiu com Lucas e com o pai para dar um passeio.

Primeiras habilidades

e primeiros êxitos de Gaspar

Lucas ia ao colégio mais frequentemente desde que Gaspar deixara a quinta, pois só a ele tinham para escrever uma carta, assentar as contas, etc. Começava a ler bem, a poder escrever claramente. O tio Tomás nada tinha a censurar-lhe, e na quinta todos viviam sossegados e felizes.

Na fábrica, Gaspar trabalhava com toda a energia, com toda a inteligência. Não era por causa de

Féréor que assim se aplicava, mas, por si próprio, !;; para seu aperfeiçoamento. Contudo, tornava-se deveras útil a Féréor, contando-lhe o que se passava e se dizia. Féréor gostava muito de saber tudo e

ninguém o trazia tanto em dia como Gaspar; por

esse motivo, levava-o muitas vezes para lhe fazer

ver, no próprio local, as coisas de que queria encarregar os contramestres.

– Como se porta o Urbano? – perguntou-lhe, certa vez, Féréor. – Está bem adestrado no trabalho?

GASPAR – Sim, senhor. Há-de aperfeiçoar-se.

Há dias teve uma questão com Cristiano, o contra-mestre. Decerto o senhor soube disso.

FÉRÉOR – Não. Cristiano nada me contou.

GASPAR – O quê? Nada lhe relatou?

FÉRÉOR – No seu caso, procederias assim?

GASPAR – Não. Não haveria pai, amigo ou

namorada que me impedissem de cumprir o meu

dever. Cristiano tem um lugar de confiança e deve

tornar-se digno dele, pondo o interesse do patrão

acima de tudo.

FÉRÉOR – Possuis bons sentimentos, Gaspar.

Interessas-te pelos meus negócios?

GASPAR – Ora essa? Os seus negócios são o

maior interesse da minha vida. E depois, o reconhecimento que Lhe devo torna-me desejoso de me

consagrar completamente aos interesses do meu benfeitor.

FÉRÉOR – Muito bem, Gaspar. Não esquecerei os serviços que me tens prestado. Encontra-te todas as quintas e segundas-feiras, à uma hora, perto da entrada da ponte; é a hora de almoço dos operários. Quando me vires aparecer, atravessarás o bosque e irás esperar-me ao meu chalet de azevinhos, onde ninguém tem o direito de entrar; assim poderemos conversar sossegadamente e pôr- me-ás ao corrente do que se passar.

GASPAR – Obrigado, Sr. Féréor. Os momentos que passo consigo são os mais felizes da minha vida; fazem-me bem ao coração.

Gaspar falava verdade; Féréor era para ele o meio mais cómodo de subir, o único para chegar à situação e à fortuna que queria ganhar a todo o custo, e era para ele da maior importância obter a absoluta confiança de Féréor. Podia, por meio dessas conversas bastante confidenciais, fazer com que o favor e a confiança do patrão se concen trassem nele; era o caminho da riqueza e do poder; só ele devia segui- lo, todos os outros deveriam ficar para trás.

Sentia certos remorsos em denunciar assim os companheiros, mas expulsava-os, dizendo: Quero ser rico e poderoso; demais, apenas digo a verdade; cumpro o meu dever junto de Féréor; o pior é para eles, que não cumprem o seu.

As coisas seguiram regularmente durante quase dois anos. Gaspar aproveitava-se das conversas às quintas e segundas-feiras para obter cada vez mais a confiança, quase amizade do patrão. Por sua vez era espiado por dois contramestres, sem nada desconfiar. Estes nunca tiveram nada a dizer dele. Nem uma falta ao serviço, nem um relaxamento no seu zelo, na sua actividade; nunca uma palavra imprudente,

nunca a mais leve censura contra Féréor. Submissão

perfeita, admiração profunda, dedicação absoluta, respeito constante, tais foram os sentimentos que

Gaspar fazia sempre transparecer por Féréor. Este

homem – que consideravam duro, orgulhoso, egoísta – ficou por fim sensibilizado com as vantagens que lhe ofereciam a inteligência e o afecto de Gaspar. Nunca encontrara tanta dedicação, tão verdadeiro afecto, tão sincero reconhecimento. Por toda a parte vira o interesse pessoal ser superior ao

dever. Este egoísmo tornara-o severo até à dureza, miserável até à desumanidade, desdenhoso até ao

orgulho. Só a desconfiança e o egoísmo lhe imperavam na alma, que nunca se abrira a qualquer sentimento afectuoso. O que via no comportamento de Gaspar, o que sabia dos seus sentimentos dispuseram-no a seu favor. Resolveu dar-lhe uma situação mais independente do que a de simples operário: encarregou-o da direcção de uma oficina de bobinas e de uma vigilância geral nas de arame e latão.

Gaspar honesto, pontual, activo e capaz, dirigiu

de tal modo essas oficinas, que Féréor nunca encontrou um motivo de censura, nada a mudar, nada a

aperfeiçoar. Féréor, generoso uma vez na sua longa

vida, aumentou em alguns anos os honorários de

Gaspar para mil francos, depois para dois mil e, por

fim, para três mil. A cada aumento, Gaspar fazia

transparecer um reconhecimento e uma alegre surpresa que lisonjeavam o amor-próprio do velho Féréor. Gabava continuamente a generosidade, a

bondade do seu excelente patrão; essas palavras,

espalhadas pelos outros, aumentavam-lhe o prestígio.

De vez em quando, as palavras do mestre-escola acudiam ao espírito de Gaspar; não sentia a consciência tranquila. Sabia bem que não tinha bastante afeição pelos pais e que Féréor era para ele apenas um meio de atingir os seus desejos; contra sua vontade, o seu coração seco e egoísta censurava-lhe, por vezes, a sua maneira de proceder para com os camaradas. Todos os dias conseguia novo progresso na confiança do patrão, mas a ambição que o devorava apenas lhe permitia a alegria de um êxito que percebia não estar ao abrigo de censuras.

A herança

Enquanto Gaspar subia vagarosa mas continuamente pelo caminho da riqueza, o tio Tomás e Lucas prosseguiam na sua vida útil e ocupada. Gaspar raras vezes vinha visitá-los: o domingo era o seu único dia de liberdade; Féréor ia igualmente nesse dia ao seu palacete da fábrica; gostava de lá encontrar Gaspar, que não perdia o ensejo de se apossar do espírito de Féréor, a quem acompanhava por toda a parte, sacrificando- lhe com prazer – afirmava – a visita a casa dos pais. Gaspar não mentia, visto o seu fito principal ser a riqueza e a posição. Ficava realmente mais satisfeito em estar às ordens do velho Féréor, que principiava a estimá-lo deveras e de

quem dependia o seu futuro do que em visitar os pais a quem quase não amava e que se lhe tinham tornado inúteis.

A ausência de Gaspar fez compreender melhor a Lucas a necessidade de aprender a ler e a escrever e prosseguiu as lições no colégio até que soube ler correctamente e escrever sem dificuldade.

Certo dia, o tio Tomás recebeu uma carta tarjada de luto. Lucas andava pelo campo; precisava de esperar pela sua volta para saber o que ela continha.

Lucas, Lucas – bradou Tomás de longe, ao

filho que regressava, vagaroso como um rapaz

cansado. – Anda depressa, Lucas: há aqui uma

carta para ler!

Lucas estugou o passo, e em breve se encontrou perto do pai.

– Aqui a tens, lê depressa. Não sei de quem é

mas vem tarjada de luto.

Lúcas abriu. Era uma carta de um notário a

anunciar-lhe o falecimento de uma velha prima que

casara e os deixara a seguir, havia mais de quarenta

anos, de quem ninguém se lembrava já, mas que não

esquecera a familia e a terra natal e que, não tendo

filhos, legara toda a riqueza ao primo Tomás, a

quem sempre estimara mais do que aos outros.

A surpresa de Tomás foi grande.

– Olha que excelente prima! Agora lembro-me

bem dela: fomos sempre muito amigos. Era eu

quem a defendia sempre que lhe ralhavam. Quando

casou com um negociante do Sul, fiz calar a boca

dos maldizentes que a censuravam por deixar a

terra… E a quanto monta a herança?

Lucas continuou a leitura da carta. Tinha perto de duzentos mil francos a receber, a maior parte em terras, e o restante em dinheiro. O notário acrescentava que o herdeiro devia comparecer o mais depressa possível para tomar posse de tudo e pagar os direitos de transmissão.

TOMÁS – Como hei-de ir? Como posso abandonar a quinta, o meu conchego, para correr atrás de uma riqueza? Tenho muita vontade de mandar dizer ao notário que arranje tudo pelo melhor, mas sem mIm.

LUCAS – Espere, pai, não se apresse. Consulte Gaspar, que lhe dará um bom conselho.

TOMÁS – E se tu lá fosses, Lucas? Ele aparece cá tão raramente! Estaremos mais de um mês sem o ver, se não o formos procurar.

LUCAS – Tem razão, pai; é justamente a hora de almoçar; deve estar em casa; vou lá.

TOMÁS – Pareces-me cansado para lá ires sem comer.

LUCAS – Tinha muito que fazer, pai; a cevada é tão abundante, que nos vimos para acabar a ceifa começada esta manhã.

TOMÁS – Já acabaram? Foi um meio dia bem empregado. Mas não comes antes de partir?

LUCAS – Vou já, de contrário passa-se a hora e, como sabe, não é possível falar-lhe quando está nas oficinas.

TOMÁS – Bem sei isso. Féréor a quem encontrei no outro dia felicitou-me pela sua pontualidade e disse-me que me não inquietasse com o seu futu ro, do qual se encarregava.

LUCAS – Vou comer uma sopa e sigo já.

Lucas engoliu um pequeno prato de sopa e correu à fábrica. Gaspar comia sozinho no seu quarto;

ficou surpreendido com a visita de Lucas.

GASPAR – Que vens cá fazer a esta hora? Há

alguém doente em casa?

LUCAS – Não, não; estão todos bons; venho

consultar-te por causa de um assunto.

GASPAR – E terei tempo? Dirige-te ao mestre- escola, que ele sabe o bastante para te resolver esse

assunto.

LUCAS – Qual história? Trata-se de uma herança de duzentos mil francos. Que queres tu que ele resolva?

GASPAR – Uma herança? Duzentos mil francos De quem?

LUCAS – De uma velha prima falecida em Bordéus e que deixa tudo ao nosso pai. Não sabe como proceder.

– Duzentos mil francos! – repetiu Gaspar, pensativo. – Ouve, deixa cá ficar a carta; vou lê-la

e pensarei no caso e talvez possa evitar ao pai a

maçada de lá ir.

LUCAS – E quando posso vir saber a resposta?

GASPAR – Depois de amanhã, talvez amanhã.

Far-te-ei saber pelo Henriquinho, que passa por

nossa casa todas as tardes ao voltar da fábrica.

Adeus, Lucas, adeus, vai-te embora; estou com

pressa.

LUCAS – Até mais ver, Gaspar. E não te demores, porque o pai ficou atarantado com essa

carta.

GASPAR – Atarantado? Não há motivo para

isso! Duzentos mil francos são uma boa maquia!

LUCAS – Sim, mas ele prefere não ter de lá ir, nem que para isso tenha de fazer qualquer sacrifício.

GASPAR – Tudo te direi. Vai-te embora, pois tenho de ir para o trabalho.

E, sem esperar que Lucas se despedisse, Gaspar correu em direcção à fábrica a fiscalizar a hora de entrada dos operários; os retardatários eram marcados implacavelmente: nenhuma consideração impedia Gaspar de cumprir o seu dever.

Lucas voltou a correr para a quinta. Acabavam de almoçar quando entrou. Os operários voltavam para o trabalho.

MÃE – Pobre rapaz! Estás vermelho e esbaforido! Tens o teu almoço quente! Senta-te, filho, e descansa; pareces-me extenuado.

LUCAS – É verdade que estou cansado, mãe, mas depois de comer, fico bem… Gaspar estava com pressa, não teve tempo de ler a carta do notário; não deu a sua opinião, mas ficou de nos dar resposta amanhã ou depois o mais tardar. Conto que poderá livrar-se da viagem, pai.

TOMÁS – Se tal acontecer, faz-me grande favor e receberá boa recompensa. Foi uma sorte, esta herança! Pensava tanto na prima como se ela nunca existisse.

No dia seguinte, Gaspar estava no seu posto, junto da ponte, à espera de Féréor.

Nada posso fazer sem lhe falar – pensava – e depois, ficará lisonjeado se Lhe pedir algum conselho… Estou cansado, quase não dormi a noite passada. Trata-se de um caso importante para mim; o começo do meu futuro, da minha riqueza.

Não esperou muito tempo. Féréor era a pontua lidade personificada. Assim que a carruagem parou, Gaspar encaminhou-se para o chalet de azevinhos.

Quando se instalaram, Gaspar teve o cuidado de

falar do seu caso antes que o interrogatório de Fédéor terminasse.

FÉRÉOR – E tu, Gaspar, tens alguma coisa de

particular a dizer-me?

GASPAR – Nada teria se não o soubesse benévolo, tão bom para mim e de tão sensato conselho.

Trata-se de uma importância de duzentos mil francos a receber, e aqui tem como…

Féréor apurou o ouvido.

– Duzentos mil francos é uma excelente quantia. Fala depressa; sou todo ouvidos.

Gaspar leu a carta do notário. Quando a acabou, disse:

– É esta a dificuldade. Era preciso que meu pai

lá fosse, mas não quer; transtorna-o muito e depois

não percebe nada do assunto; enganá-lo-iam.

FÉRÉOR – E que pensas fazer? Deves ter

reflectido muito desde ontem.

Féréor fitava-o com o seu olhar penetrante.

Gaspar sentia-se perturbado; tanto podia descer como subir na estima do patrão.

FÉRÉOR – Tens medo, Gaspar?… Prefiro isso… É sinal de que percebes de negócios.

E Féréor acentuou a palavra.

GASPAR – O patrão adivinhou. Tenho medo, mais medo da sua opinião do que de todo o mundo.

FÉRÉOR – Vamos meu amigo, sossega; fala

sem receio e com toda a franqueza. Ouves? Com

toda a franqueza.

GASPAR – Tudo Lhe direi.

FÉRÉOR – Senta-te; calculo que é assunto para demora; coloca-te bem defronte de mim, para te ver bem.

Gaspar sentou-se em frente de Féréor.

GASPAR – Quero fazer um negócio desta herança de meu pai, mas honestamente, sem o enganar.

Féréor sorriu.

GASPAR – Um negócio para mim. Se meu pai fizesse as coisas pessoalmente, metade da herança desapareceria em notários, advogados e papelada. Quero propor-lhe encarregar-me de tudo, de correr com todas as despesas, que devem orçar em mais de cinquenta mil francos, com a condição de que me ceda os direitos à herança, calculada em duzentos mil francos.

Ele guardaria cento e cinquenta mil francos, que lhe entregaria sem mais despesas. Eu ficaria senhor da herança; se ganhar, como espero, pedia ao patrão que tivesse a bondade de empregar esse dinheiro na sua fábrica; seria o começo da minha fortuna.

Gaspar, calou-se, fitando, inquieto, Féréor, que não o largava de vista, continuando a sorrir. Após alguns instantes de silêncio, Féréor agarrou nas duas mãos de Gaspar e apertou-as nas suas.

– Precisamente o que eu faria. É tudo o que há de melhor; ninguém perderá; pelo contrário, todos ganharão.

Gaspar, deveras contente, beijou a mão de Féréor, que sorriu, mas desta feita com benevolência.

FÉRÉOR – Mais uma pergunta. Em que prazo

te comprometias a pagar a teu pai os cento e

cinquenta mil francos?

GASPAR – Dentro de quinze dias.

FÉRÉOR – E onde e como encontrarás tal

importância?

GASPAR – Na sua caixa; conto que terá a

bondade de mos emprestar, tendo como garantia

toda a herança que meu pai cederá logo que a

receba.

FÉRÉOR – E se não tos emprestar?

GASPAR – Pedi-los-ei ao notário de Bordéus,

com a herança para penhor de pagamento.

FÉRÉOR – Está bem, Gaspar; previste tudo, arranjaste tudo: é um negócio bem pensado, muito

bem mesmo. Terás os cento e cinquenta mil francos

quando quiseres e autorizo-te a colocar na minha

fábrica o que te ficar da herança.

GASPAR – Obrigado, patrão, cem vezes obrigado e sempre obrigado. Foi o patrão quem me reécolheu, que me fez instruir, que me educou de modo a ter uma inesperada situação, e agora começa a minha fortuna com essa generosidade, essa bondade

nunca desmentidas.

FÉRÉOR – Sinto-me satisfeito por te prestar tal

serviço. Gaspar, tu, ao menos, não dirás que sou

avarento.

GASPAR (com calor) – Avarento! O mais generoso dos homens! O mais justo e o melhor dos

patrões! Que venham dizer o contrário na minha

cara! E eu, que nunca bati em pessoa alguma, cair- lhe-ei em cima com toda a força que Deus me deu!

– Obrigado, meu amigo – agradeceu Féréor com uma voz quase meiga que Gaspar nunca lhe notara.

E Féréor afastou-se depois de lhe haver apertado mais uma vez a mão.

Gaspar esperou alguns minutos para dar tempo a que o patrão desaparecesse; em seguida, entrou na floresta, saindo pelo lado oposto, e voltou para a fábrica, a fim de receber os operários e distribuir-lhes trabalho. Féréor não tardou a entrar também; examinou o trabalho, aprovou o que se fizera e disse a Gaspar em voz alta:

– Vai a casa de teu pai; diz-lhe o que te recomendei. Está de volta dentro de uma hora; dar-me-ás conta do que se combinou com ele.

GASPAR – Onde o encontrarei, patrão?

FÉRÉOR – Aqui ao lado, no meu escritório.

Gaspar, com o coração cheio de alegria, correu a casa do pai, que estava só com a mãe e Lucas.

GASPAR – Pai, venho pessoalmente trazer-lhe resposta ao assunto da carta do notário. Mas estou com pressa, como sabe. Explico tudo em poucas palavras. Aqui tem o que proponho. É preciso ir a Bordéus, onde terá de ficar até que a herança da prima Danet esteja nas suas mãos. Gastará muito dinheiro e perderá tempo: algumas semanas, alguns meses talvez, mas ficar-Lhe-ão cento e cinquenta mil francos; vale a pena deslocar-se.

O tio Tomás estava aterrado.

TOMÁS – Ir a Bordéus?! Permanecer lá semanas, meses! Morria de tédio e de tristeza! Vê se encontras outro meio. Esse não me agrada.

GASPAR – Ele… havia um meio, mas talvez o pai não aceite.

TOMÁS – Seja o que for. Diz lá.

GASPAR – Seria vender todos os seus direitos à herança mediante uma quantia que lhe seria entregue ao assinar um documento.

TOMÁS – É melhor assim. Quanto seria preciso pedir?

GASPAR – Cento e cinquenta mil francos, que é quanto lhe ficaria se fosse tratar do assunto a Bordéus, porque, desde que a herança é quase toda em terras e moradias, tinha muitas dificuldades a aplanar, muito tempo a perder, muitos adiantamentos a fazer.

TOMÁS – E quem poderia dar-me assim de repente tão importante quantia?

GASPAR – Eu me encarrego disso. Féréor é bom e generoso; não se recusaria a adiantar-ma.

TOMÁS – Féréor? Bom e generoso? Estás a gracejar!

GASPAR – Falo muito a sério.

TOMÁS – Se imaginas poder consegui-lo, dou-te o meu consentimento; faz tudo pelo melhor.

GASPAR – Está combinado. Vou tratar de en contrar alguém seguro e honesto. Até breve.

A hora adiantava-se; estugou o passo, pensando que ainda teria tempo de dar uma olhadela pelas oficinas antes de se dirigir ao escritório de Féréor.

À hora exacta, foi ter com Féréor. Quando chegou, este entrava também.

Gaspar esperou que Féréor o interrogasse.

FÉRÉOR – Então que disse teu pai?

GASPAR – Acabou por consentir.

FÉRÉOR – Conta-me como as coisas se passaram. E não esqueças nada, nem as tuas palavras nem as dos outros.

GASPAR – Assim farei.

E Gaspar começou o relato da conversa havida entre ele e o pai. Quando chegou à defesa da bondade e da generosidade do patrão, este fez um gesto de satisfação; examinou mais atentamente a fisionomia de Gaspar. Quando acabou de falar, volveu:

– Pensas o que estás a dizer?

GASPAR – Com toda a verdade.

FÉRÉOR – Está bem. Arranjaste bem o teu negócio. É conveniente concluí-lo depressa, para não lhes dar tempo de consultar amigos… que os enganariam. Vens esta tarde comigo à cidade; levarás o meu notário; redigirá o contrato na minha presença, copiá-lo-á; amanhã fá-lo-ás assinar por teu pai e será o começo da tua fortuna.

GASPAR – O patrão terá a bondade de pôr no contrato que, depois da mórte de meu pai, o lucro que eu tiver retirado deste negócio me será contado como herança e que meu irmão retomará a mesma importância na fortuna de meu pai.

FÉRÉOR – Direi isso ao notário. O que fazes é generoso; é mais do que honesto. Saio daqui a duas horas; apronta-te.

Féréor despediu Gaspar com um gesto. O patrão permaneceu alguns instantes imóvel e pensativo.

Estimar-me-á, realmente? – perguntava de si para si. – Não é possível! Nunca ninguém me estimou e eu nunca estimei pessoa alguma. Seja como for, é singular! Há seis anos que o tenho aqui e… e… não sinto o mesmo por ele que pelos outros. Se tivesse um filho como ele. Um filho. Enfim. verei mais tarde a forma de me afeiçoar a ele de maneira que a sua fortuna dependa só de mim. e os meus interesses sejam os dele.

Reflectiu durante largo tempo e depois saiu. Quando Gaspar saiu de casa dos pais, Lucas disse ao pai que tivera muita pressa em dar o seu consentimento.

LUCASGaspar vai rápido de mais. O pai devia esperar antes de se resolver.

TOMÁS – Esperar o quê? Para me arreliar e adoecer? Eu já não dormia por causa disso!

LUCAS – Poderia levar ao notário da cidade a carta do de Bordéus e saberia, ao certo, se poderia receber a herança sem lá ir.

TOMÁS (com secura) – O caso está resolvido com Gaspar e não se pode voltar atrás, e eu receberei os meus cento e cinquenta mil francos sem me preocupar com o resto.

Lucas não proferiu palavra; como o pai dissera, o assunto estava resolvido.

De facto, dois dias depois, enquanto jantavam,

viram, surpreendidos, entrar Féréor, acompanhado

por Gaspar e pelo notário.

FÉRÉOR – Não se incomode, tio, Tomás. Deixe-se estar sentado; vamos passar ao quarto

contíguo a fim de tratar do caso que sabe.

O tio Tomás, indeciso, levantou-se, abriu a porta e introduziu Féréor e quem o acompanhava. O notário leu o contrato, de que o tio Tomás não

percebeu palavra, e passou-lhe a caneta para assinar.

– Mas. – objectou o tio Tomás.

– O quê? Que é? – tornou Féréor, com esse tom seco e frio que assustava toda a gente. – Imagina que eu e Gaspar queremos enganá-lo? leram-lhe o contrato! Quer ou não receber imediatamente cento e cinquenta mil francos e renunciar à herança de Danet?

– Sim, decerto – respondeu o tio Tomás, aterrado. – Só queria saber…

– Assine – ordenou Féréor, dando-Lhe a caneta.

O tio Tomás, trémulo, assinou. Gaspar assinou por sua vez e, depois, Féréor.

O notário tirou um sobrescrito lacrado que apresentou a Féréor, que o recebeu, o abriu e contou cento e cinquenta notas de mil francos que deu a Tomás.

– Faça assinar o recibo – disse Féréor ao notário, que entregou a Tomás um papel que este assinou, sem saber o que fazia.

Féréor levantou-se, disse a Gaspar que o acompanhasse e ao notário que ficasse e saiu, depois de dizer adeus com a mão.

FÉRÉOR – Disseste ao notário que desse os passos necessários para te fazer entregar a herança?

GASPAR – Sim, patrão. Está tudo combinado.

FÉRÉOR – Estás feito proprietário; resta saber de quanto. Quero estar ao corrente deste negócio. É mister que esse dinheiro seja o começo da tua riqueza. Principiei com metade e, sem ninguém me ajudar, consegui em poucos anos melhorar; é preciso que faças o mesmo. Estou aqui para te amparar e quero que a tua riqueza seja feita depressa.

Gaspar sabia que Féréor não gostava de demorados agradecimentos nem de transportes de gratidão; assim, limitou-se a tomar a mão de Féréor, a

beijá-la e a dizer:

– Meu generoso benfeitor!

Féréor ficou mais lisonjeado com essas três palavras do que com estiradas frases de reconhecimento

que o maçariam e em que não acreditaria.

O notário, que ficara em casa de Tomás, devia

explicar o contrato, que ele não percebia. Era um

problema para Tomás.

Lucas foi, dos três, quem melhor compreendeu.

Ao ver que as explicações do notário resultavam

inúteis, tomou a palavra.

– Aqui tem o que é, pai. É Gaspar quem faz o

negócio consigo. Vendeu-lhe ou cedeu-lhe toda a

herança da prima Danet, mediante cento e cinquenta mil francos que Gaspar lhe pagou e cujo recibo o

pai assinou. Além disso, Gaspar compromete-se a

informá-lo da importância líquida da herança da

prima, para que eu, Lucas, não fique com menos do

que ele, após a sua morte. Aqui tem o que é.

NOTÁRIO – Muito bem, Lucas. Explicaste tudo perfeitamente em poucas palavras. Nada tem com que se preocupar, tio Tomás; a não ser em colocar o dinheiro. Se isso o embaraçar, fale comigo; colocá-lo-ei com segurança e vantagem.

TOMÁS – Faça tudo pelo melhor; tenho absoluta confiança em si. Eis-me livre desta herança; apenas tenho que me preocupar com algumas missas por alma da minha falecida prima.

O notário entregou ao tio Tomás a cópia do

contrato e saiu.

Adopção de Gaspar

Um belo dia, Féréor trouxe a Gaspar um rapaz dos seus dezassete anos, dizendo-lhe:

– Aqui tens um rapaz para ensinar, a fim de te ajudar na tarefa; é inteligente e trabalhador; deve ser- nos útil daqui a uns três anos. Vais instalá-lo no aposento pegado ao teu, para o viares e ajudares no trabalho.

GASPAR – Sim, patrão. Farei o melhor que puder.

Quando Féréor se retirou, Gaspar mostrou a André o aposento que devia ocupar e disse-lhe que arrumasse aí as suas coisas.

– Virei buscá-lo daqui a uma hora para o levar às oficinas.

Voltou, como dissera, e encontrou-o tristemente sentado na única cadeira que Lhe mobilava o pequeno quarto.

GASPAR – Que tem, André? Porque está triste?

ANDRÉ – Estou desgostoso por ter deixado meus pais.

GASPAR – Que tolice! Se o Sr. Féréor o visse a chorar por causa disso, não ficava lá muito contente.

ANDRÉ – Terei o cuidado de não chorar na presença dele; posso estar triste quando fico só.

GASPAR – Como quiser; contudo, é um disparate.

Gaspar levou-o às oficinas, que pareceram distrair e interessar André. Chegou mesmo a fazer algumas observações muito inteligentes a respeito das engrenagens e da marcha das bobinas.

Este rapaz tem a intuição da mecânica – pensou Gaspar. – Posso aproveitá-lo.

Quando Féréor pediu a Gaspar notícias sobre o seu protegido, Gaspar respondeu:

– Tem aparência de ser bom rapaz e inteligente; o que é preciso é que vença o seu desgosto.

FÉRÉOR (com secura) – Desgosto por ter entrado para a minha fábrica?

GASPAR (sorrindo) – Que quer? O rapazito tem pais a quem estima extremosamente, decerto, pois chora por os ter deixado e prometeu-me que há-de chorar sempre que esteja só.

FÉRÉOR – Bonita promessa! E tu que lhe disseste?

GASPAR (sorrindo) – Que era disparate. Que dizer a um rapaz de dezassete anos que chora por haver deixado o paizinho e a mãezinha?

Féréor sorriu, como única resposta.

FÉRÉOR – Que te disse das oficinas?

GASPAR – Achou- as soberbas. E a propósito das oficinas, fiz uma observação no tocante às bobinas: poderíamos obter mais força e gastar menos água, acrescentando-lhe uma engrenagem, ao sistema actual.

FÉRÉOR – Onde? Não vejo onde se poderia acrescentar.

– Olhe – respondeu Gaspar, desenrolando um desenho da engrenagem que propunha e que estudara após as observações de André.

FÉRÉOR – Foste tu que fizeste isso? Por Deus que a tua ideia é magnífica e havemos de a pôr em prática. Vem à oficina pensar a coisa como deve ser.

GASPAR (timidamente) – Permite-me uma observação?

FÉRÉOR – Fala, fala sem receio.

GASPAR – Não dê a entender que a ideia é minha. Se convivesse com os operários, como eu, e os ouvisse falar à vontade, veria como é importante deixá-los na crença de que tudo quanto é bom, útil, provém apenas do senhor, e que, onde outros não vêem possibilidade de aperfeiçoamento, o patrão vê-a e encontra-a. Perdoe o meu atrevimento e queira tomar conta do desenho da engrenagem.

FÉRÉOR – Aceito-o, meu amigo, e não esquecerei a tua opinião. Está bem assim e ficarei mais à vontade para conversar contigo acerca das minhas ideias e aproveitar as tuas.

GASPAR – Obrigado, patrão.

E fazendo crer que estava grato a Féréor, Gaspar lisonjeava o amor- próprio do patrão e ganhava terreno na sua estima e na sua confiança. Acompanhou-o à oficina. Féréor examinou os maquinismos das bobinas, achou útil e inteligente a engrenagem proposta por Gaspar. Conversou a tal respeito com os contramestres e ordenou a Gaspar que fizesse a experiência.

Este hábil procedimento de Gaspar aumentou muito a confiança e a amizade de Féréor; Gaspar, por seu lado, sentiu desenvolver-se pelo patrão um afectuoso reconhecimento que o surpreendeu também, pois havia muitos anos que apenas agia para seu próprio interesse ao trabalhar para Féréor.

gostarei eu dele? – perguntou a si próprio, ao mesmo tempo que o patrão também se interrogava. Se gosto dele, melhor; estou cansado de viver só para mim, sem estimar pessoa alguma.

As bobinas foram montadas dentro de poucos dias, e todos os operários admiraram o aperfeiçoamento mandado introduzir pelo patrão. Gaspar teve o cuidado de não ouvir as lisonjeiras apreciações dos operários, mas conseguiu que os contramestres lhas repetissem.

– O Sr. Féréor ficar-lhes-á grato – disse-lhes ele – , pois não há inventor que não goste de ser apreciado por peritos no assunto.

De maneira que os contramestres não deixaram de felicitar o patrão pelo seu engenho de mecânica.

Decorreram assim três anos; Féréor e Gaspar cada vez se afeiçoavam mais um ao outro. Gaspar aproveitava-se das ideias inteligentes mas incompletas, de André, e apresentava-as a Féréor, depois de as haver trabalhado e aperfeiçoado; André não dava por nada; não pensava mais nisso depois de haver conversado com Gaspar, que fingia não lhes ligar importância.

Certo dia em que André fora chamado à oficina e Gaspar trabalhava no escritório, o correio trouxe uma carta para André; Gaspar recebeu-a e pô- la em cima da mesa; deu-a a André quando este voltou da oficina.

ANDRÉ (depois de ler) – Singular pedido me faz um negociante de telha da minha terra! Diz-me que, sabendo que o Sr. Féréor fabrica chapas de cobre, deseja que lhe mande meia dúzia, de tamanhos diferentes, como amostra, para telhados.

Gaspar riu em coro com André dessa estranha encomenda.

ANDRÉ – Admira-me que o Sr. Féréor, que fabrica tantas chapas de cobre, ainda não faça chapas para telhados.

GASPAR – Não é trabalho para as nossas oficinas; não se trabalha o cobre como a tela alcatroada.

ANDRÉ – É pena que não se possa trabalhar como tecido.

GASPAR – Como queres que o cobre, que é um metal tão duro, se possa enrolar como o pano?

ANDRÉ – Podiam esticá-lo.

Gaspar e André ainda gracejaram durante muito tempo a respeito dessa ideia; Gaspar, porém, compreendendo que podia tirar daí alguma coisa boa, incitou André a desenvolver o seu pensamento, sempre com ar galhofeiro. Depois Gaspar, querendo fazê-lo esquecer-se, falou-lhe dos pais, da familia, de maneira que André nunca mais se lembrou daquelas coberturas de telhados senão como um disparate impossível.

Gaspar pensou tanto no caso, que, passados dois meses, tinha um plano para fabrico de cobre mais maleável e podendo ser enrolado como um pano.

Féréor chegou, deu a volta costumada, aprovou, como sempre, o que se fizera nas oficinas e meteu-se no escritório; não tardou a chamar Gaspar. Começou por interrogá-lo e ficou satisfeito com as

respostas. A sua última pergunta:

– E não há nada de novo?

Gaspar respondeu:

– Há qualquer coisa; aproveitei algumas ideias antigas do patrão e aqui tem o resultado.

Gaspar colocou diante de Féréor um plano de fabrico, depois um plano de maquinismos que inventara e, finalmente, um esquema dos seus resultados obtidos. Por meio de um processo químico dava ao cobre e ao zinco grande flexibilidade, podendo fabricar-se diariamente milhares de metros de tela de zinco ou cobre.

FÉRÉOR – Que é?

GASPAR – Novo invento, uma fonte de glória e de fama para o patrão; tela de cobre e zinco; e o patrão produzirá tela para cobrir telhados, sem despesa e sem trabalho, pois milhares de metros diários custam pouco.

Féréor não pôde dissimular a sua surpresa e admiração. Quanto mais examinava, mais satisfação demonstrava ainda. Contudo, nada disse. Depois de examinar muito Gaspar, levantou-se, apertou-o nos braços e disse-Lhe em tom comovido:

– Meu filho!

Nunca ninguém tinha visto Féréor comovido e cedendo a um impulso de sensibilidade. Recuperou o seu sangue- frio e prosseguiu:

– Desde hoje és meu filho. Há muito que penso nisso; a tua bela descoberta resolve-me; os nossos interesses serão comuns e estimar-te-ei sem receio de te perder. Queres ser meu filho, herdeiro da minha riqueza, perante a lei?

– Meu pai – redarguiu Gaspar, dobrando o joelho diante de Fédéor. – Continuarei a obedecer-lhe como fiel servidor, a servi-lo como homem feito, instruído por si, pois, se não fosse o senhor, nada seria.

– Levanta-te, meu filho, e vem esta tarde ao cartório do notário; tudo combinaremos.

Gaspar, no auge da alegria, beijou a mão sempre generosa para ele, que acabava de compensá-lo tão magnificamente pelo seu serviço fiel e dedicado de oito anos. Entrara aos dezasseis anos na fábrica; tinha agora vinte e quatro.

FÉRÉOR – Vai visitar teus pais, meu amigo. Vai falar-lhes no assunto e volta logo; não esqueças as oficinas.

GASPAR – Pode ficar sossegado. Todo o meu tempo será, como até aqui, dedicado a si.

Féréor sorriu benevolamente e continuou o seu trabalho interrompido pelo invento de Gaspar.

A ira do tio Tomás

Gaspar correu a casa do pai, que andava pelo campo; a mãe estava na quinta.

GASPAR – Mãe, venho participar-Lhe uma grande e agradável notícia: Féréor quer adoptar-me e venho, por sua ordem, contar-lhe o sucedido.

A tia Tomás ficou tão surpreendida que não pôde articular palavra. Gaspar olhava-a a sorrir e esperava pela resposta.

MÃE – Adoptar-te?! Tornares-te filho de Féréor? Renegares teus pais? Eu não quero. És suficientemente rico por ti próprio para viveres honestamente sem possuires os milhões de Féréor.

GASPAR – Mas, minha mãe, continuarei a ser vosso filho; é para ter o direito de lhe tratar dos negócios em casa dele, que me adopta.

MÃE – Pode muito bem conservar- te, sem te adoptar.

GASPAR – Decerto; mas é mais seguro adoptar-me.

MÃE – Deixa-me em paz. Eu não quero e recuso.

Gaspar esteve quase a arrebatar- se; habituado, porém, a dominar-se, conteve a sua irritação e volveu com frieza.

– Como quiser; o assunto resolve- se de toda a maneira, e, assim, só ofenderá gravemente Féréor. Onde está o pai?

MÃE – No campo. Acautela-te, não te vá receber à pancada e não te expulse a pontapés.

Gaspar encolheu os ombros e saiu, um pouco assustado com a recepção que o pai podia fazer-lhe. Encontrou-o pelo caminho, de volta a casa.

TOMÁS – Até que apareces! Há mais de um mês que não te ponho a vista em cima.

GASPAR – Venho trazer-Lhe uma boa nova pai. Féréor, sempre bom e indulgente para mim, deseja adoptar-me.

TOMÁS – Muito bem; estás na idade de proceder como entenderes. Ficar-me-á Lucas que foi sempre bom filho. Quanto a ti, nunca foste o que eu queria. Tens a tua fortuna garantida; tens os milhões que ambicionavas. Adeus, Gaspar. Já não precisas de mim como eu não preciso de ti; vai-te para casa do teu Féréor e eu vou preparar- me para deixar toda a minha fortuna a Lucas.

GASPAR – Proceda como quiser, pai. De boa vontade cedo a Lucas os meus direitos sobre a sua fortuna, e estou radiante, porque aproveito assim as intenções generosas do Sr. Féréor.

O tio Tomás humanizou-se ante aquelas palavras de Gaspar. Contava com resistência, ira e apenas encontrara serenidade e respeito.

TOMÁS – Sim, Gaspar; não me oponho a que te deixes adoptar por Féréor. Considera-lo como teu protector: sê seu filho. Eu tenho-o na conta de um ladrão que me roubou o filho que Deus me deu e não gosto dele; e só quero vê- lo quando não possa deixar de ser. Vai, pois, ter com o teu novo pai e abandona, por causa dele, teus velhos pais que já não te servem para coisa alguma. Adeus, Gaspar, vai-te embora: a tua presença desagrada-me e até me encoleriza.

GASPAR – Pai: antes de o deixar, peço-lhe a bênção.

TOMÁS – De boa vontade ta dou. Vive muito tempo, sê feliz. Acumula milhões sobre milhões e deixa-nos em paz como bons camponeses, sem te inquietares connosco. Vai ver tua mãe.

GASPAR – Já a vi, pai; recusa falar no assunto.

TOMÁS – Recusa? Pois já vais ver como a faço consentir. Acompanha-me e não fales, diga eu o que disser.

Gaspar acompanhou o pai; entraram na quinta.

TOMÁS – Perdeste o juízo, mulher. Porque recusas a Gaspar a licença de nos deixar para sempre, de viver a seu gosto, de se afogar em ouro até ao pescoço, de nos desprezar, de renunciar a nós? É indigno de que se tenha pena dele. Expulsou-nos do

seu afecto. Pois bem: expulsa-o também para longe do coração e da lembrança.

MÃE (chorando) – Não posso, Tomás: é meu filho.

TOMÁS – O teu verdadeiro filho, o teu único filho é Lucas; Gaspar trabalhou sempre para nos deixar. Concorda depressa e que se vá embora.

A tia Tomás hesitava. O pai volveu, irado:

– Já te disse: dá-Lhe o teu acordo e avia-te… Depressa. Diz que sim, a ver se isto acaba por uma vez!

– Pois sim – tornou a mãe, a chorar. – Vai, meu pobre filho, e sê feliz.

– Virei visitá-los mais vezes do que dantes – volveu Gaspar, beijando-a. – Adeus, mãe; bem sabe que a amo. Adeus pai.

TOMÁS – Adeus e vai-te embora.

Mal ele saíra, apareceu Lucas, que indagou:

– Que tem a mãe? Está a chorar? E o pai tem ar de contrariado e de descontente.

TOMÁS – Tua mãe é uma tola em chorar e eu não passo de um parvo em estar contrariado. Que nos importa que o Gaspar nos renegue? Já não nos tem dado tantos desgostos?

LUCASGaspar? Que fez ele? Veio cá?

TOMÁS – Veio, sim, a correr, todo satisfeito para nos dizer… vê se adivinhas!

LUCAS – Ganhou dinheiro?

TOMÁS – Sim, muito. Mas há melhor do que isso.

LUCAS – O quê? Não adivinho… Ah! já sei! Vai casar-se.

TOMÁS – Isso sim! Não pensa em tal.

LUCAS – Mas diga o que é, pai. Não consigo perceber.

TOMÁS – Escolheu outro pai. Achou que eu era muito bruto, muito campónio, muito vadio.

LUCAS – Percebo agora. O Sr. Féréor adopta-o.

TOMÁS – Isso mesmo. Já viste alguma coisa semelhante?

LUCAS – Ainda bem para ele. É o que pode acontecer- lhe de melhor.

TOMÁS – Pois quê, achas isso bem?

LUCAS – Decerto, pai. Desde menino, Gaspar gostou de estudas; desejou consagrar-se à mecânica; bem sabe que, apesar dos seus esforços, pai, ele apenas tinha amor ao estudo, ao colégio.

TOMÁS – Isso é verdade.

LUCAS – Aos dezasseis anos teve a sorte de entrar para a fábrica de Féréor. Fez carreira graças à sua aplicação, à sua extraordinária inteligência, ao seu zelo, à sua pontualidade. olhe o fruto do seu trabalho, da sua perseverança. E querem-Lhe mal por isso? E zangam-se por esse motivo? Meu pai e minha mãe, consintam que lhes diga que não é justo, não está certo.

MÃE – Parece-me que tens razão, Lucas. Tomás foste mau para Gaspar e para mim.

LUCAS – O pobre Gaspar devia ter ficado bastante triste por ser tão mal recebido quando corria a trazer- lhes uma boa notícia, que julgava regozijá-los.

TOMÁS – Mas isso em nada Lhe altera a sua situação para connosco.

LUCAS – E garante-lhe uma situação soberba e que ninguém pode tirar- lhe.

TOMÁS – E, contudo, é verdade… mas que animal eu sou! Pobre Gaspar! E quando me pediu a bênção, que bênção não lhe dei! Cada palavra era uma injúria. Que fazer, Lucas? Tu, que és ajuizado, aconselha-nos.

LUCAS – Querem que vá felicitá-lo e dizer-lhe que nem o pai nem a mãe pensaram que isso mudasse de qualquer forma a sua situação para connosco e que me encarregaram de levar-lhe a sua bênção, mas verdadeira, boa bênção, bem paternal, bem maternal? O pobre Gaspar ficaria contente com isso, tenho a certeza.

TOMÁS – Sim, Lucas. Vai depressa e acrescenta que lhe peço desculpa, que me portei como um miserável e que tem muita razão em preferir o bom Féréor a um bruto como eu. Vai depressa, meu rapaz; ficarei mais satisfeito quando obtiver o seu perdão.

MÃE – Beija-o por mim, Lucas: diz-lhe que o amo muito, que me sinto satisfeita com a sua felicidade.

LUCAS – Obrigado, pai; obrigado, mãe; eu vou.

E Lucas saiu a correr.

Chegou, esbaforido, a casa de Gaspar; entrou precipitadamente e atriou-se ao pescoço do irmão, que estava de pé junto da porta e lhe disse ao ouvido, beijando-o:

– Cuidado! O patrão está aqui.

Lucas virou-se e viu Féréor, que pareceu admirado com aquela brusca entrada.

LUCAS – Perdão, Sr. Féréor. Venho apenas abraçar o meu irmão e dar-Lhe o recado de meu pai

e de minha mãe. Permite-me que lho dê na sua presença, com a maior franqueza?

FÉRÉOR – Fala, meu amigo; gosto da franqueza.

Lucas agradeceu e deu amplamente o recado dos pais, sem omitir as injúrias que proferira o tio Tomás e as bênçãos do pai e da mãe.

GASPAR – Concede-me licença para dar a resposta diante de si?

FÉRÉOR – Concedo, sim, meu filho; gostaria mesmo de ouvi-la.

GASPAR – Diz a nossos pais que lhes agradeço, que os amo e que continuarei a ser sempre o seu filho respeitoso; mas que nada no mundo me fará esquecer o generoso benfeitor que teve a bondade de coroar os seus beneficios e a minha felicidade, concedendo-me o direito de lhe consagrar a minha vida e a minha inteligência; os seus desejos serão a minha lei. Vai, meu bom Lucas, a quem muito quero. Beija por mim nossos pais e diz-lhes que do coração os perdoo.

Lucas abraçou o irmão, cumprimentou respeitosamente Féréor e saiu.

FÉRÉOR – Parece-me bom rapaz, o teu irmão; agrada-me a sua fisionomia. Vamos, meu amigo; continuemos o nosso assunto; é preciso executar a tua ideia o mais cedo possível.

A nova oficina que Féréor mandou fazer para os cobres e zincos maleáveis de Gaspar era modesta, mas bonita.

Gaspar foi encarregado de dirigir tudo no novo empreendimento; pediu a Féréor para ter como auxiliar André, ao qual Gaspar reconhecera uma inteligência muito especial para tudo quanto dizia respeito a mecânica. Já não Lhe receava a concorrência, desde que Féréor tão magnificamente lhe recompensara o zelo e a dedicação.

Reaparecimento de Frlichein

Féréor seguia com vivo interesse os trabalhos de Gaspar e os aperfeiçoamentos do seu invento. Aguardava, impaciente, a inauguração da oficina, onde deviam fazer-se as primeiras experiências públicas no dia da adopção de Gaspar, depois de se haver certificado de que dariam honra ao inventor. Os documentos estavam prontos, preenchidas todas as formalidades legais.

Gaspar – disse um dia Féréor -, já preveniste os teus pais?

GASPAR – Esperava as ordens do patrão.

FÉRÉOR – Vai dizer-lhes que é na terça-feira próxima e convida- os para jantar nesse dia.

GASPAR – Não sou eu quem convida; é o patrão.

FÉRÉOR – És tu, meu amigo; tudo se torna comum entre ambos; és o meu único herdeiro; tens toda a minha confiança, toda a minha amizade e festejamos o primeiro dia da tua autoridade. Enquanto vou dar uma olhadela aos resultados do nosso último invento, vai a casa de teu pai.

GASPAR – Faço-me substituir por André na oficina?

FÉRÉOR – Sim, faz-te substituir sempre que sejas obrigado a ausentar- te. Se ele dirigir bem a oficina, talvez não seja mau confiar-lhe a sua completa direcção, como fiz contigo.

GASPAR – Serão cumpridas as ordens do patrão.

Gaspar saiu logo a avisar os pais. Féréor não dissera que se apressasse; mas, sempre pontual e ligeiro, só gastou o tempo estritamente necessário para dar conta da sua missão.

TOMÁS – Então, Gaspar, quando é a assinatura definitiva?

GASPAR – Vim precisamente para lhe falar no assunto, por ordem do Sr. Féréor. Deve ser na próxima terça-feira, na fábrica; haverá um jantar depois da primeira experiência; está convidado, assim como Lucas. Nesse dia há feriado na fábrica. Vai, pai, com a mãe e o Lucas?

TOMÁS – Sim, meu rapaz, iremos todos. Ah esquecia-me de te dizer que recebi ontem a visita de Frolichein. Tem qualquer coisa de importante a comunicar-te.

GASPAR – Que poderá ter para me dizer? A sua fábrica é concorrente da nossa. Se quer falar-me, que vá ter comigo à fábrica. Não quero falar- lhe fora das oficinas, como que às escondidas do Sr. Féréor.

Mal proferia aquelas palavras, a porta descerrou-se e surgiu a cabeça de Frlichein. Gaspar levantou-se para sair.

FRLICHEIN – Não ir embora, meu amiga; ter bom coisa para oferecer.

GASPAR – Obrigado; estou bem em casa do Sr. Féréor.

FRLICHEIN – Saber muito bem. Agora você ter fama. Antes gostar ser meu casa!

GASPAR (impaciente) – Não é possível, estou em casa do Sr. Féréor.

FRLICHEIN – Saber bem; apenas em seu casa ser melhor que no casa de herr Féréor. Estar mais contenta.

GASPAR (contendo-se) – Estou muito contente e não quero mudar.

FRLICHEIN – Preferir perder o que eu dar e ficar no fábrica desse velha patifa de Féréor.

GASPAR (irritado) – Vá-se embora, seu insolente! Eu o ensinarei a não injuriar o Sr. Féréor: fora daqui e não torne a pôr cá os pés.

Frolichein, estupefacto, quis responder, mas Gaspar não lhe deu tempo; agarrou-o pelos ombros e pô-lo fora.

Frlichein ficou à porta, não sabendo o que havia de fazer. Queria a todo o custo falar com Gaspar, a quem todos se referiam como sendo o principal director da fábrica de Féréor. Após alguns momentos de incerteza pensou:

– O rapaza ter feito bem; defender sua patrão. Proceder bem; defender também mim. Querer tê-lo e terei – o.

Frlichein descerrou de novo a porta, dizendo:

– Minha boa amiga, propor coisa sobervo; dar meu filha Mina em casamento; ser bonito, gentil raparigo.

A proposta era tão ridícula, que Gaspar não pôde deixar de rir. FrÓlichein voltou a entrar, rindo também.

– Você querer, ser verdade? Mein Goa, ser tão gentil! Ser bom par!

GASPAR – Se me quer falar, peço-lhe que vá ter comigo à fábrica. Preciso de conversar com meu pai.

Frlichein não arredava pé.

– Mas que fastidioso parvo! – disse Gaspar a meia-voz.

E Gaspar, fazendo sinal aos pais, entrou num aposento contíguo, aonde o seguiram. Tudo ficou combinado para terça-feira.

MÃE – Há uma coisa que me desgosta em tudo isto, Gaspar. É que nesse dia tão solene para ti, não se tivessem lembrado de rezar a Deus. Queria que houvesse uma missa a que todos assistíssemos, logo depois da adopção.

GASPAR – Tem razão, mãe; vou falar nisso ao Sr. Féréor. Participar- lhe-ei tudo quanto se combinou; mande-me lá o Lucas: vejo-o tão poucas vezes!

Gaspar voltou para a fábrica; chegando, porém, a meio do caminho, ouviu passos precipitados que pareciam seguirem-no. Voltou-se e viu o alemão, que dava enormes passadas e tentava apanhá-lo. Gaspar estugou o passo; Frólichein acelerou o seu; Gaspar desatou a correr e, a despeito da encarniçada perseguição de Frólichein, chegou ao gradea mento da fábrica antes dele; entrou com presteza e fechou o portão.

Mas o alemão, que continuava a dizer que queria aquele rapaz, não desanimou; tocou; abriu-se o portão e apareceu o porteiro.

– Querer falar ao meu amiga herr Gaspar.

– Está bem; vou preveni-lo. Olhe, chegou agora mesmo o patrão.

O alemão deu meia volta e, aterrado, encontrou-se com o próprio Féréor.

– Ah, mein Goa! Que ir ser de mim Mein Gon! Tentou abrir o portão; já estava fechado Féréor aproximava-se e já o reconhecera.

– Este mariola em minha casa? Que quererá ele?

– Mein Gon! Mein Lieber Gott – repetia o alemão, correndo de um lado para o outro, a ver se encontrava um buraco por onde pudesse escapulir-se daquele dédalo de oficinas.

Féréor fitava o seu concorrente com olhos coruscantes, divertindo-se com a sua atrapalhação.

FÉRÉOR (em tom seco) – Que vem o senhor cá fazer? Como se atreveu a entrar aqui?

FRLICHEIN – Respeitável herr, entrar para falar sua respeitável amiga Gaspar.

FÉRÉOR – E que tem o senhor com Gaspar?

FRLICHEIN – Venerável herr, eu vir. . vir. . para oferecer meu filha Mina em casamenta, um menina muita gentil.

FÉRÉOR – Endoideceu? Imagina que eu consentiria no casamento de sua filha com Gaspar?

FRLICHEIN – Perdoar, perdoar, estimável herr Féréor. Eu querer paz consigo e os suas.

FÉRÉOR – Saia daqui. O senhor já me roubou, de surpresa, ou corrompendo os meus operários, muitas das minhas invenções mecânicas; não quero que ponha os pés em minha casa. Saia, já Lhe disse. Não quero voltar a vê-lo.

FRLICHEIN – Respeitável herr, eu querer sair, mas não poder A portão está fechada; não poder abrir.

Féréor chamou o porteiro, que acorreu depois de haver prevenido Gaspar de que um alemão o procurava. Gaspar, adivinhando que esse alemão era o seu perseguidor, proibiu o porteiro de o deixar entrar. Quando este apareceu, encontrou Féréor a discutir com Frólichein.

FÉRÉOR – Porque deixou entrar este homem? Bem sabe que eu próíbo a entrada de estranhos.

PORTEIRO – Este senhor pediu para falar ao Sr. Gaspar; imaginei que o podia deixar entrar.

Frlichein tremia. O ruído do diálogo atraúa Gaspar, que julgava conhecer a voz de Féréor. Aproximou- se.

– O patrão recebe Frlichein? – inquiriu surpreendido.

FÉRÉOR – Pelo contrário; expulso-o. O porteiro deixou-o entrar, pois tinha perguntado por ti.

GASPAR – Sr. FrÓlichein, como se atreveu a perseguir-me até aqui? Eu tinha-o proibido de continuar as suas ignóbeis propostas.

FÉRÉOR – Onde o viste?

GASPAR – Em casa de meu pai, onde me encontrou e donde o pusera na rua, agarrando-o pelos ombros, porque me falou de si com uma falta de respeito que não admito seja a quem for.

FÉRÉOR – Fá-lo sair: expulsa-o.

– Saia, Sr. Frlichein – ordenou Gaspar, abrindo-lhe o portão.

FRLICHEIN – Mein Gott! Não querer fazer mal; apenas dar Mina a herr Gaspar. Vista não querer e tratar-me mal, ir empregar sua segredo para cobres e zincos e se fabricar ficar vocês arruinadas!

Frlichein já tinha passado para o lado de fora da grade, pois não se sentia em segurança, e foi-se embora, enterrando o chapéu na cabeça.

FÉRÉOR – Ouviste o que ele disse, Gaspar?

GASPAR – Ouvi. Alguém de cá nos traiu.

FÉRÉOR – Gaspar, meu filho, escreve os bilhetes de convite para todos os arredores, solares, administrações e fábricas. Escreve hoje mesmo, para abreviar o caso da patente de invenção. De seguida manda preparar um grande banquete nos armazéns, para todos os convidados. Que tudo caminhe bem. Que pare o trabalho das oficinas; leva contigo todas as pessoas de que precisares.

– Serão cumpridas as suas ordens, patrão.

– A partir de terça-feira, desaparece o patrão, meu amigo… Só teu pai! Sê-lo-ei de direito, como já o sou pelo coração.

Festejos para adopção de Gaspar

Gaspar executou fielmente as ordens de Féréor. Os cartões de convite ficaram prontos daí a duas horas, mercê da tipografia. Gaspar e André escreveram os endereços; os cartões foram distribuídos por homens inteligentes, que partiram a cavalo em várias direcções para entregar os convites num raio de vinte e cinco quilómetros. O correio levou os cartões com destino mais afastado. O banquete foi encomendado em Paris, a um grande restaurante, que se comprometeu a fornecer tudo e a mandar pessoal para o serviço da mesa.

As oficinas, libertas das máquinas, foram transformadas em amplas salas de banquete; grinaldas de flores, alternadas com coroas de carvalho e de louro, cercavam inscrições em louvor de Féréor. Em cada oficina havia-se colocado por cima da porta o seu busto coroado, com as mais lisonjeiras inscrições.

Féréor vigiara e dirigira o arranjo e as inscrições das oficinas, que só deveriam ser abertas à hora do banquete.

A oficina dos cobres e dos zincos foi particularmente cuidada e ornamentada.

No dia da cerimónia, estava um tempo magnífico: era em fins de Maio. Antes da chegada dos convidados para a experiência das telas de cobre e zinco, todos os operários e fornecedores da fábrica se juntaram no prado, em frente das oficinas. Um tiro de peça anunciou a chegada de Féréor, acompanhado por Gaspar. A carruagem parou a meio do prado. Féréor desceu lesto, apesar dos seus setenta anos; Gaspar colocou-se-lhe à direita. Os gritos e os vivas dos operários foram interrompidos por um gesto de Féréor, anunciando que ia falar.

-Meus amigos, meus filhos, meus senhores: agradeço- lhes os testemunhos de afecto que me prodigalizam. Se lhes tenho sido útil na minha vida para que me considerem benfeitor, assiste-me o direito de pedir-lhes que concedam uma parte desse reconhecimento a este rapaz que se mantém modestamente a meu lado e que tão bem me tem servido; recebe hoje a recompensa do seu zelo, da sua dedicação e da sua inteligência. Tornou-se meu filho, o herdeiro da minha fortuna e da minha glória. É tanto filho do meu coração, como do meu espírito. Participará, de futuro, da minha autoridade e todos Lhe devem respeito e obediência.

Féréor abriu os braços; Gaspar caiu neles, onde permaneceu longo tempo retido pelo pai adoptivo. Após este abraço, Féréor pegou-lhe na mão e levou-o a todas as filas de operários, que aplaudiam, davam palmas e riam da teatral exibição, em clara manifestação de regozijo.

– Aqui está o meu filho! Apresento-lhos o meu filho! – repetia Féréor.

Percorridas todas as fileiras, quando o contrato de adopção apresentado pelo notário foi assinado, Féréor, dando o braço a Gaspar, encaminhou-se para a estrada, seguido de todos os operários, e dirigiu-se para a igreja, onde o aguardavam o prior e o clero dos arredores e grandes cantores, que entoaram vibrante Te Deum, durante o qual o cura, escoltado pelos clérigos, levou Féréor, pai e filho, ao coro, onde lhes havia preparado um genuflexório e cadeiras de veludo e ouro.

A multidão já invadira a igreja; na primeira fila haviam colocado o pai, a mãe e Lucas. Principiou a missa, que foi participada com respeito e recolhimento por todos os assistentes. Gaspar, em presença de Deus, bom e misericordioso, que o protegera e o conduzira à glória que ambicionava, ficou deveras sensibilizado. Orou e sentiu a alma comovida de reconhecimento e de júbilo.

Finda a missa, o abade da freguesia abriu uma subscrição para os pobres, a fim, disse ele, de que pudessem também participar do regozijo geral. Féréor meteu no saco uma nota de mil francos; o abade quase desmaiou ao notar tal generosidade, tão inesperada. Gaspar deu cem francos. Os pobres lucraram assim com a adopção de Gaspar e, pela primeira vez, gabavam a generosidade de Féréor.

Depois da missa, foram para a fábrica; o notário sentou-se diante da grande mesa que se havia preparado no prado e todos puderam assinar como testemunhas o contrato de adopção já assinado por Féréor e Gaspar.

Um primeiro almoço foi servido nas mesas que tinham sido postas ao longo do prado; havia aí iguarias em abundância e para todos os paladares.

Às onze horas, tendo chegado os convidados dos arredores, Féréor dirigiu-se para a nova fábrica, a fim de assistirem à experiência do cobre e do zinco tornados maleáveis.

Quando se encontravam instalados, fizeram-nos ver e tocar as folhas de cobre e de zinco. Essas folhas, consideradas duras e rigidas como são todos os metais, foram metidas num tanque de pedra que continha o preparado químico; a folha foi em seguida colocada numa máquina; foi tomada por tenazes que a esticaram de tal maneira que, passados minutos, formava uma peça de tecido-cobre que foi enrolada como fazenda e correu as mãos de todos os assistentes. O mesmo se deu com o zinco. Todos ficaram sinceramente admirados com tão belo e útil invento.

Num momento de tumulto, ocasionado pela presteza dos que queriam ver e apalpar, Féréor apertou a mão de Gaspar e disse-lhe, baixinho:

– A tua glória é a minha; a minha glória é a tua.

Gaspar respondeu:

– Como me recompensa com o direito de lhe chamar pai!

O pai e a mãe Tomás choravam de alegria e de orgulho; todos os felicitaram pelo filho.

Ouviu-se então uma música, que precedia todos os contramestres, que marchavam a par. Chegando

em frente de Féréor, pai e filho, apresentaram-lhe duas taças de prata dourada, artisticamente cinzeladas, que tinham as usuais inscrições:

AO NOSSO VENERANDO PATRÃO, GLóRIA DA InDÚSTRIA, OS SEUS OPERÁRIOS RECONHECIDOS! AO NOSSO JUVENIL PATRÃO, ESPERANÇA DA INDÚSTRIA!

André leu, em nome dos contramestres e dos operários, um pequeno discurso, bem feito e bem pronunciado. Féréor aceitou as taças, e entregou a que pertencia a Gaspar, dizendo:

– Meus amigos, confesso estar muito sensibilizado pela homenagem prestada e aceito-a para mim e para meu filho. De futuro, obedecer-lhe- ão como se obedecessem a mim próprio; é digno de os dirigir. Vamos agora para a sala do banquete e o primeiro brinde será para os nossos bons e laboriosos operários.

– Bravo! bravo! – aclamaram de todos os lados.

Primeiro enternecimento

dos Féréor pai e filho

Todo o dia foi uma série de triunfos e de ovações.

À tarde, Féréor parecia cansado e, por isso, Gaspar propôs-lhe retirar-se, ao que Féréor acedeu.

– Efectivamente, meu amigo, estou muito fatigado. Manda preparar a carruagem.

Gaspar pouco demorou e anunciou que a carruagem estava pronta dentro de poucos instantes. Quando o cocheiro compareceu, Gaspar abriu a portinhola, ajudou Féréor a subir e instalou-se junto dele.

FÉRÉOR – Que fazes, Gaspar? Vai-te distrair; vão deitar um soberbo fogo de artifício.

GASPAR – Permita-me que o acompanhe, pai. Bem sabe que me sinto mais feliz junto de si, do que em qualquer outra parte.

FÉRÉOR – Então, anda daí, filho. Gosto muito de ti; eu, que nunca me afeiçoei a pessoa alguma, sinto o coração tomado pela tua ternura e pelos teus cuidados. Sinto-me feliz com a tua felicidade; gosto de te ter ao pé de mim. Resumindo: quero-te muito.

Féréor, ao proferir tais palavras, sentiu os olhos marejados de lágrimas. Ele, que nunca vertera nenhuma, sentia-se comovido. O seu enternecimento sensibilizou Gaspar; viu que outro sentimento, além da ambição e do interesse individual, lhe penetrava o coração. O seu reconhecimento transformara-se em verdadeira e profunda afeição. Cedendo a essa comoção, tomou a mão de Féréor e, caindo-lhe nos braços, beijou-o várias vezes; ambos choraram abraçados.

GASPAR – Pai, querido pai, que dia me não fez passar.

FÉRÉOR – E que excelente fim de tarde, meu filho!

GASPAR – Que glória não adquirimos hoje, pai!

FÉRÉOR – E a ti a devo. Reconheço-o com orgulho; em tempos passados, ficaria invejoso da tua descoberta; hoje, envaideces-me com ela. Felicito-me por te haver escolhido para filho. Eis-nos chegados; vem tomar posse dos aposentos que te mandei preparar; completarás o que tiver sido esquecido.

Pai e filho instalaram-se nos respectivos aposentos, que eram pegados. Os de Gaspar eram bons e não lhe faltava móvel algum essencial; de resto, ele não era exigente; o luxo era coisa desconhecida em casa de Féréor; uma cama sofrível, uma cómoda, uma mesa, uma poltrona e duas cadeiras constituíam todo o mobiliário, quer de um quer do outro; Féréor tinha a mais uma grande secretária e um móvel com gavetas para guardar papelada.

Gaspar deitou-se tão feliz, que não conseguiu logo dormir.

Depois de haver recapitulado todos os acontecimentos daquele ditoso dia, imaginou que tinha conseguido o seu fim; os milhões que desejava desde menino estavam-lhe garantidos; a sua situação na fábrica ultrapassava as suas esperanças; os negócios tomavam-lhe o tempo e não lhe davam margem ao tédio; gostava realmente do pai adoptivo, mas sentia com desgosto que esse afecto não era ainda a felicidade, que alguma coisa faltava para sua completa satisfação.

Não sei porquê – pensava -, afigura-se-me que a vida ainda não está completa.

E, contudo, cheguei ao alvo dos meus porfiados esforços, sou senhor do meu futuro. Meu novo pai estima- me realmente; só de mim depende a solidez e até o aumento da amizade que me dedica. Como reconhecer todas as suas bondades?

Nestes momentos, que devem ser os mais felizes da minha vida, porque é que o meu coração ainda não está satisfeito? Onde encontrarei a completa satisfação que me falta? Onde está a tranquilidade que dê a perfeita felicidade? O reconhecimento ao meu benfeitor proporciona-me alguns instantes de calma. Até agora, a minha vida só tem sido ocupada pelo trabalho; a ambição, que me levou continuadamente para o fim que atingi, apenas me proporciona uma incompleta felicidade. Preciso de mais ainda! Os gostos, as ideias e os hábitos de minha família são opostos aos meus; torna-se-me cada vez mais estranha. E podia ser de outro modo? Se ao menos possuísse um amigo que tivesse toda a minha confiança, a quem pudesse pedir conforto e conselhos! Mas desconheço a amizade. A missa desta manhã causou-me uma impressão singular que não posso definir. Parece-me ter empregado mal o tempo até agora. No entanto, tenho sido sempre honrado; a minha assiduidade ao trabalho e os meus seriços deram-me a situação em que estou. Que mais poderei fazer além do que já fiz?

Por fim, o cansaço acabou por dominar-Lhe a agitação e dormiu até de manhã. Para ir aos aposentos de Féréor esperou que lá entrasse alguém. Ao primeiro ruído que se fez ouvir, Gaspar entrou devagarinho e encontrou Féréor acordado.

FÉRÉOR – Logo que estejamos prontos e almoçados, meu filho, vamos às oficinas; não será má essa visita para pôr tudo em ordem e recomeçar o trabalho. André e Bernardo têm com que se entreter.

Enquanto esperavam pelo momento de sair, Gaspar, consoante as ordens do pai, tratou da correspondência, isto é, abriu todas as cartas, pôs de lado as que diziam respeito à fábrica e a negócios, e entregou a Féréor as cartas particulares.

– Meu pai, leremos tudo isso na carruagem; se assim o entender, ganha-se tempo.

FÉRÉOR – Muito bem, amigo; é o que costumo fazer. Vejo com prazer que tens as mesmas ideias que eu.

GASPAR – É que são as melhores, meu pai, e à força de conviver consigo vou tomando um pouco de si.

Féréor sorriu; não era insensível à lisonja. Quando se meteram na carruagem, ambos se entregaram à sua tarefa. A carta que Gaspar guardava para o fim, fê-lo indignar.

Leio-Iha ou será melhor não Lhe falar nela?, perguntava de si para si.

Após uns instantes de reflexão, disse consigo:

E melhor lê-la a meu pai, embora me seja dirigida.

Féréor concluíra a leitura da sua correspondência; fitou Gaspar e, com o seu olhar perspicaz, notou logo que qualquer coisa o atormentava.

FÉRÉOR – Que temos, Gaspar? Pareces contrariado.

GASPAR – Não se engana pai, estou-o até muito.

FÉRÉOR – De que se trata?

GASPAR – A carta é de Frlichein.

FÉRÉOR – Outra vez? Mas esse homem tem o Diabo no corpo! Atreve-se a escrever-te depois de ter sido despedido, expulso como um cão?

GASPAR – Não é orgulhoso; aqui tem o que propõe.

Gaspar leu:

Meu jovem amiga:

Mim ver você no bonito cerimónia de hoje; achá- lo a sua gosta. Propor mais uma vez dar Mina em casamenta. Dizer sua pai que se repelir meu pessoa outro vez, eu arruinar seu indústria. Achar melhor que você para o cobre e zinca; ganhar metade em mão-de- obra. Se quiser Mina, o nosso indústria caminhar bem juntos e desaparecer a rivalidade. Sermos sempre juntos e como amigas. Se recusar, fazer guerra de morte. Responder depressa e bem; então ir falar, daqui dois dias. Bom noite, meu jovem amiga. Mandar-lhe amostra do meu tecida de cobre e zinca.

Frlichein

Gaspar calou-se. Féréor estava lívido. Depois de haver examinado a amostra e após demorado silêncio, pediu a Gaspar que relesse a carta.

FÉRÉOR – É claro, aperfeiçoou o nosso invento e introduzi-lo-á. O triunfo obtido ontem será destruído por esse miserável. Como parar o golpe?

GASPAR – Ele propõe-lhe o meio, meu pai.

Féréor fitou, pasmado, Gaspar.

FÉRÉOR – Mas esse meio é impossível. Casar com a filha de um mariola a quem desprezas, a

quem expulsaste da tua casa, a quem eu pus fora, o qual não podemos ver sem repulsa.

GASPAR – Mas o seu nome e a sua glória, pai?

FÉRÉOR – Ouve, Gaspar. Há dois ou três anos, talvez não só tivesse aceitado como te pediria até que fizesses tal sacrifício; agora, tornar-se-me-ia bastante duro porque, como ontem te disse, soubeste despertar-me o coração. Estimo-te e serei infeliz com a tua infelicidade.

Parou durante instantes.

– Se ao menos a rapariga fosse boa e virtuosa…

– murmurou, como se falasse consigo.

Esta ideia, exposta assim despreocupadamente, decidiu Gaspar a fazer o sacrifício da sua felicidade íntima, para livrar o pai da desgraça que o ameaçava. Não hesitou.

GASPAR – É preciso aceitar a proposta deste patife.

FÉRÉOR – Que dizes? Que estás a dizer? Estás

doido!

GASPAR – Nada disso, meu pai. Estou em meu perfeito juízo. Prevejo para si uma série de inquietações, desgostos e tormentos, talvez mesmo de desgraças. Os seus interesses são os meus; deu-me o direito de me sacrificar por si; fá-lo-ei com prazer, com alegria, porque eu também, que nunca gostei de ninguém, quero-lhe muito e sinto-me desgraçado e perturbado com a ideia do mal que pode causar-Lhe esse malvado. Acredite, pai, sentir-me-ei mais feliz por lhe dar essa prova de afecto para enfrentar os males que nos ameaçam, do que se estivesse livre e independente, mas testemunha contínua das suas inquietações e dos seus desgostos.

A surpresa de Féréor transformou-se em ternura.

– Meu filho, meu querido, excelente filhoexclamou. – Meu Deus, como é bom amar e sentirmo-nos amados! Nunca fizera ideia alguma desta felicidade! Na verdade, meu querido filho, não sei se deva aceitar o teu generoso sacrificio. Lembra-te do desprezo que votamos a esse homem, da repugnância que teremos em nos encontrarmos continuamente na sua presença, em contacto de negócios com esse patifório!

GASPAR – Bem sei, pai; poupá- lo-ei o mais possível a esse custoso e odioso contacto. Dar-me-á a conhecer as suas intenções e transmitir-lhas-ei.

FÉRÉOR – E terás coragem para chamares pai a esse homem?

GASPAR – Isso seria demais! Tratá-lo-ei por senhor.

FÉRÉOR – Gaspar, meu pobre Gaspar, faço a tua infelicidade ao querer tornar-te feliz.

GASPAR (sorrindo) – Não, pai; dei-lhe tudo o que tenho de sensibilidade em meu coração e ficarei mais contrariado do que infeliz. Quando me sentir deveras irritado, virei consolar-me perto de si.

Gaspar apertou a mão de Féréor e disse:

– Vou responder hoje mesmo. E, começando o assunto, depressa ficará concluído. Há-de terminar antes do fim do mês.

Féréor não respondeu; estava preocupado. Ao chegarem à fábrica, ficaram surpreendidos com a ordem que reinava nas oficinas. Haviam desaparecido todos os vestígios do banquete e da festa; o prado estava liberto das mesas, das peças de artifício, das barracas, da sala do baile. Os únicos restos da festa eram inúmeros lampiões, globos e vidros de cor presos às árvores e que ainda não se tinham tirado por falta de tempo.

Féréor e Gaspar felicitaram os operários e contramestres pela sua presteza em restabelecer a ordem.

Nas oficinas também tudo estava nos seus lugares.

– Ninguém se deitou? – indagou Gaspar.

ANDRÉ – Ninguém. Depois do fogo de artifício voltaram a dançar e a comer até às duas da madrugada. Vendo que ficava pouca gente, lembrei-me de nos entregarmos à tarefa de pôr tudo em ordem; a gente da aldeia também nos ajudou; trabalhou- se o melhor que se pôde: os nossos operários, nas oficinas, onde não se permitiu a entrada de estranhos logo que as máquinas e engrenagens foram montadas; os trabalhadores e os estranhos cá fora.

– Pai – disse Gaspar, permite-me que lhes anuncie a concessão de um dia de folga que será pago como se trabalhassem?

– Muito bem, meu amigo; ia dizer-te o mesmo. É extraordinário como as nossas ideias se encontram!

Gaspar sorriu e encarregou André de espalhar essa agradável notícia entre os operários.

Depois de Féréor e Gaspar percorrerem tudo, inspeccionarem tudo, e ainda de admirarem as telas de cobre e zinco, Féréor disse para o filho:

– Tenho uma proposta a fazer-te, Gaspar.

GASPAR – Sou todo ouvidos, pai, e, por minha vez, far-lhe-ei um pedido.

FÉRÉOR – Creio ser conveniente, meu filho, irmos ambos visitar teus pais. Ontem quase não nos importámos com eles e mal tiveste tempo de os beijar. A nossa visita deve agradar-lhes.

GASPAR (rindo e beijando a mão de Féréor)É incrível como as nossas ideias coincidem; era justamente o que ia pedir-lhe!

FÉRÉOR – Então, vamos; manda preparar a carruagem, meu amigo.

Subiram para o trem que em poucos minutos os pôs à porta do tio Tomás. Lucas andava pelos campos, mas o pai e a mãe estavam em casa.

Visita à quinta e generosidade de Féréor

Ao rodar da carruagem, o tio Tomás saltou da cadeira e correu a abrir a porta. Féréor e Gaspar apearam-se.

Após alguns instantes de conversa, de felicitações e de agradecimentos, Féréor disse a Tomás, sorrindo:

– Trouxe seu filho e meu filho… meu querido filho, que deseja vê-lo e falar-lhe. Deixo-os em plena liberdade. Gaspar, mando-te a carruagem, quando precisar de ti; aí por volta das quatro ou cinco horas; almoça com teus pais, meu amigo. Há muitos anos que não almoças com eles; é bom que também tenhas um feriado.

Féréor voltou para a carruagem ajudado por Gaspar, que Lhe apertou a mão e o viu seguir.

– Excelente pessoa! – disse, ao voltar.

TOMÁS – Estimas, de facto, este homenzinho?

GASPAR – Pai, este homenzinho, como lhe chama, é o meu benfeitor. Nunca a sua bondade foi desmentida com respeito a mim; nunca me dirigiu uma censura, nunca demonstrou o mais pequeno descontentamento. Há nove anos que vivo sob as suas ordens; sempre me tratou bem, me animou; tem-me pago mais largamente do que o que prome teu, mais generosamente do que eu merecia. E, enfim, afeiçoou-se-me, estimou-me, amou-me, sim, quis tornar-se meu pai. Veja se não devo amá- lo também e ser-lhe sinceramente dedicado.

TOMÁS – Caspité! Falas dele com um entusiasmo! Defender-me-ias com tanto calor?

Gaspar sorriu e Quis responder. Mas enquanto hesitava, apareceu Lucas, que se atirou ao pescoço do irmão, bradando:

Gaspar! És tu, Gaspar? Que belo dia para ti o de ontem! Sinto-me satisfeito por te ver e conversar contigo um pouco à vontade.

GASPAR (em seguida a tê-lo abraçado) – Almoço com vocês. Estou de folga, hoje.

LUCAS – A primeira há nove anos; é uma grande alegria para nós. Onde está a mãe?

TOMÁS – Não deve tardar; foi preparar um frango, buscar ovos, manteiga, legumes, fruta, enfim, tudo o que é preciso para receber bem Gaspar. Estás habituado a boa cozinha e a nossa vai parecer-te mesquinha. Não é como o teu banquete de ontem.

GASPAR – Almoçarei muito melhor e com mais abundância do que como em minha casa onde estou constantemente a ser incomodado, apertado com trabalho.

Lucas convidou o irmão a ir dar com ele uma volta pelos campos; Gaspar admirou os progressos e os melhoramentos da cultura de Lucas.

– Há muito tempo – disse – que não passeio contigo e não tornei a ver estes campos que o pai me obrigava a cultivar!

LUCAS – Está-me cá a parecer que não levas vida muito agradável.

GASPAR – Tudo é agradável quando se chega ao fim que há em vista; é verdade que tenho passado muitas noites sem me deitar, muitos dias sem ter tempo para comer; tenho suportado fadigas, aborrecimentos, discussões constantemente repetidas, por que tinha o extremo desejo de vencer. Ultrapassei o meu fito mercê da amizade de Féréor. Avalia, pois, quanta gratidão lhe não devo e vê os cuidados que preciso ainda de ter para não perder o que com tanto custo consegui.

LUCAS – Que cuidados? Ninguém pode impedir-te de continuar a ser filho adoptivo de Féréor.

GASPAR – Sem dúvida, mas pode fazer de mim um filho deserdado e devo, para evitar tal fatalidade, continuar a condescender em tudo, e tornar- me necessário, indispensável para manter viva a afeição muito sincera que concebeu por mim e que ontem, de facto, agradavelmente me impressionou, quando ma confessou finalmente. Pobre homem! Disse-me que era a sua primeira afeição e viu-o chorar nos meus braços. Esse triunfo foi para mim tão agradável como inesperado.

LUCAS – E a verdade é que ele não passa por ser uma pessoa muito sensível.

GASPAR – Não, não é, e foi por isso que me comovi ao vê-lo chorar, ao abraçar-me e a confessar que me estimava. A alegria, a surpresa, o reconhecimento e até uma afeição sincera enterneceram-me por minha vez e chorei com ele… e devo dizer que tais lágrimas, as primeiras que chorei desde a infância, me pareceram doces; e é bem verdade que amo esse xcelente homem que tanto tem feito por mim e que possui, não o esqueço, o poder de destruir em parte o que fez.

LUCAS – Pobre Gaspar! Percebo a tua vida; não ta queria nem por um império.

GASPAR – Tu é que não percebes: compara o que teria sido com o que sou. Ainda me vejo a sair daqui em blusa, de socos, tímido, desajeitado, ignorante.

LUCAS – Como ignorante, se eras o mais sabedor do colégio?

GASPAR – Pobre ciência! Nada sabia comparado com o que sei agora. E eis-me filho de um milionário, mandando em milhares de indivíduos, saudado, obedecido e respeitado em toda a região, rodando em soberba carruagem; esperado e desejado em minha casa (porque eu agora tenho a minha casa), recebido com um sorriso amistoso e benévolo que me anuncia a solidez do meu poder: tudo isto, vê tu, é o meu paraíso neste mundo.

LUCAS – Um adventício inteligente pode estragar tudo isso e suplantar-te junto de teu novo pai.

GASPAR – Não, vigio continuamente e não deixarei de vigiar enquanto Féréor viver.

LUCAS – Assim sentes-te completamente feliz.

GASPAR – Completamente, não; além do receio de tudo perder se a afeição de Féréor viesse a diminuir ou até a extinguir- se, sinto como que um vácuo que não posso preencher. Pergunto de mim para mim qual será o meu futuro? Para quê e para quem devo continuar a trabalhar, a extenuar-me, a agitar-me? Falta-me qualquer coisa, mas não sei o que seja… Mas – acrescentou após alguns momentos de silêncio – não achas já tempo de voltar? Agora, fala-me de ti; até agora só temos falado de mim.

LUCAS – De mim, pouco há a dizer; é sempre a mesma vida; meu pai prejudica-a de certo modo com as suas zangas; não me bate, mas quando bebe demais, o que, como sabes, lhe acontece frequentemente, ralha algumas vezes com a mãe. Quanto ao mais, deixa-se levar com facilidade.

Os dois irmãos entraram na hora própria; a mãe ia pôr a mesa; Lucas correu a ajudá-la.

– Anda também, Gaspar; vem dar-me uma ajuda.

Gaspar acedeu, sorrindo; auxiliou-o desajeitadamente e sem alegria. Lucas notou-o e suspirou, pensando:

Já não nos pertence; já não é um irmão para mim, nem um filho para meus pais.

Gaspar reflectiu por seu lado:

Que estúpida vida levam aqui! Quanto não seria infeliz, se me visse obrigado a viver com eles! Como isto é diferente da minha fábrica! Que vida! Que actividade! Que animação! E quanto não prefiro Féréor a meus pais! Em casa deles, sinto-me mais incomodado, mais aborrecido! E, depois, a lembrança da minha infância, da dureza de meu pai, da indiferença da minha mãe, indispõe-me. Em tudo isto, Lucas é o único que me prende um pouco o coração, mas passo bem sem ele; não penso em tal, mas se a fábrica me faltasse, seria como um corpo sem alma. E se meu pai adoptivo viesse a desaparecer, sentir-me-ia como que abandonado, como um corpo sem cabeça. De tudo isto, sinto por vezes alguns remorsos. Mas, na verdade, sempre desejei deixar o campo e foi para isso que estudei.

MÃE – Então, Gaspar, em que estás a pensar, de braços cruzados e cabeça pendida?

GASPAR – Em nada, minha mãe, estava a recordar. a minha vida de casa há uns anos e o caminho percorrido.

MÃE – Andaste depressa, meu filho, e foste longe. Bem, sentemo-nos à mesa.

O almoço foi bom, mas decorreu triste. Gaspar desacostumara-se de rir; Lucas sentia-se pouco à vontade; os pais estavam descontentes com a atitude altiva de Gaspar, que os dominava pela sua invulgar inteligência e por toda a sua posição de senhor e de milionário, enquanto eles permaneciam simples lavradores agarrados à terra, como sempre o tinham sido.

Depois do almoço, Gaspar quis tornar a sair com Lucas, mas a carruagem veio buscá-lo. Deu-se pressa em despedir-se dos pais e do irmão e meteu- se no trem com alegria e presteza.

– Onde está meu pai? – inquiriu Gaspar ao descer da carruagem.

– No escritório, patrão.

Subiu a escada a quatro e quatro e saltou, mais do que entrou, no escritório de Féréor, cuja mão beijou e apertou nas suas.

GASPAR – Eis-me de volta pai! O tempo pareceu- me comprido.

FÉRÉOR – Realmente? Causaste-me prazer dizendo-mo, meu filho. Esperava-te impaciente.

GASPAR – E porque me não mandou buscar mais cedo?

FÉRÉOR – Não queria estragar o teu feriado, o primeiro há nove anos, e quis que gozasses na companhia de teus pais.

GASPAR – Quanto a isso… Os meus pais são o i senhor. A minha alegria, a minha ventura, é o senhor. A nossa fábrica é a minha mulher; as nossas

máquinas, os meus filhos, e o conjunto de tudo isto, a minha vida. Como vê, pai, é desnecessário conceder-me feriados.

Féréor ouviu-o com um sorriso tão satisfeito e fitou-o com ar tão afectuoso, que Gaspar ficou radiante por haver falado tão bem.

– Vamos escrever ao nosso patifório? – indagou Gaspar, sentando-se junto de Féréor.

FÉREOR – Gaspar, pensei demoradamente no caso. Digo-te mais: não pensei noutra coisa desde que te deixei. Acho o projecto irrealizável. Tens vinte e cinco anos, com um largo futuro diante de ti. Essa mulher e esse sogro pesarão sobre o teu coração, no teu espírito, na tua felicidade. É impossível, repito; seria para mim uma inquietação que me poria doente. Não pensemos mais nisso, estudemos o assunto e tentemos dar-Lhe outra solução, que certamente encontraremos.

GASPAR – Pai, essa gente não me pesará sobre o coração, pois que ele não é deles, mas seu; não pesará no meu espírito, porque só me ocuparei do pai e dos assuntos da fábrica; não pesará na minha felicidade, porque conto com a sua bondade e a súa generosidade habitual para dar a minha mulher o bastante para que me deixe tranquilo: nada terá a pedir-me e não terá contacto comigo. O pai será para nós um tratante como qualquer outro; pouco lhe falaremos; mandá-lo-emos o mais depressa possível para os escritórios. Este casamento dá-nos a segurança deque nos arriscamos a perder. É um sacrifício que lhe farei com verdadeira alegria e do qual, de resto, me aproveitarei como o pai para termos o descanso que doutro modo se nos afigura muito difícil.

FÉRÉOR – Meu filho, meu querido filho, pensa bem; quando uma pessoa casa é para sempre. Nem sequer conheces essa mulher; nunca a vimos; pode ser feia, estúpida, má, desajeitada, corcunda talvez! Sabe-se lá!

GASPAR – Nada disso me apavora, pai; se for feia, não olharemos para ela; se for estúpida, não lhe falaremos; se for má ou desajeitada pô-la- emos de lado e não nos importaremos com ela. O pai substituirá os filhos com que não conto. Como vê, continuaremos a viver muito felizes os dois.

FÉRÉOR – Bem! Visto que queres, aceito o teu sacrifício, meu querido filho, e não te dissimulo que faço os melhores votos ao aceitar este casamento, no interesse do nosso invento e do nosso sossego. Recebes de dote metade do que possuo, impondo-te como única condição que não me deixarás e que os

nossos negócios continuarão em comum, sem consentimento recíproco.

GASPAR – Mil vezes obrigado, pai, meu bom e generoso pai.

Gaspar beijou-lhe a mão e Féréor abraçou-o efusivamente.

FÉRÉOR – Escreve, meu filho, escreve e diz-lhe que venha depressa para cumprir o assunto com brevidade, a fim de nos libertarmos de todos esse velhacos e retomarmos a nossa vida tranquila. Eu vou escrever ao notário para redigir com urgência o meu documento de doação, para que saibas o que tens. Mas podes anunciar cinco milhões, pelo menos, sendo dois em terras, florestas e ouro; o resto nas oficinas e rendendo pelo menos vinte por cento: isto é, seiscentos mil francos por ano.

A surpresa de Gaspar divertiu e regozijou F réor, que lhe disse:

– Sim, meu rapaz, tens para ti cinco milhões para mim outros tantos.

GASPAR – Mas isso é de mais, pai! Demasiada

generosidade, Demasiada riqueza para mim. Que farei com tanto dinheiro?

FÉRÉOR – Meu amigo: sacrificas a tua vida eu apenas metade da minha fortuna: qual de nós tem melhor vantagem?

Gaspar, dominado pela alegria, pelo deslumbramento, pela felicidade, ajoelhou diante do pai adoptivo e, encostando- lhe a cabeça aos joelhos, chorou lágrimas que alegraram aquele que as fazia correr.

FÉRÉOR – Põe-te de pé, meu filho; acalma

e escreve a carta.

Gaspar enxugou os olhos, tornou a beijar a generosa mão que lhe consolidava a fortuna e, colocando- se em frente do seu benfeitor, redigiu a seguinte carta:

Senhor

Meu pai e eu aceitamos a sua proposta; casarei com sua filha. Não peço para a ver nem a conhecer; caso com ela; sabe como e porquê. Será nosso sócio em vez de ser nosso rival. Mercê da generosidade de meu pai, levo como dote cinco milhões que rendem quinhentos a seiscentos mil francos. Esperamo-lo para regularizar tudo e marcar o dia do casamento! Quanto mais depressa, melhor.

Tem a honra de o cumprimentar

Gaspar Tomás Féréor

GASPAR (sorrindo) – Pronto, pai; quer ler o pedido de casamento?

Féréor leu a carta, sorriu e devolveu-a a Gaspar, dizendo:

– Muito bem, meu amigo; fecha-a e manda-a seguir.

Gaspar fechou-a; a mão tremia-lhe; Féréor fitava-o; quando lhe viu tremer a mão, perturbou-se e disse a meia voz:

– Pobre rapaz!

Mas deixou seguir a carta que condenava Gaspar a um não desejado casamento.

– Vai tomar ar e dar uma volta pelas oficinas, meu filho; vê se está tudo em ordem.

Gaspar saiu; encontrava-se tudo pronto para receber os operários. Passeou pela floresta; depois de haver caminhado durante algum tempo, sentou-se no chalet de azevinhos que tão bem lhe servira para atingir os seus fins.

Pago caro – disse de si para si -, mas tenho-o na mão! Cinco milhões e ele outro tanto! Pobre pai! Que Deus mo conserve; amo-o realmente cada vez mais e é o único ente no mundo que posso amar. Essa criatura com quem vou casar é decerto feia, estúpida e desajeitada. O meu sacrifício é grande e cruel. Mas devia-o a meu pai, cem vezes mais paternal para mim do que meu próprio pai!… Aos vinte e cinco anos ser acorrentado para sempre e ai! só tendo para amar um pai bastante idoso. O lado mais custoso deste casamento é o pai! Um miserável a quem pus na rua e que, depois disso, teve o desplante de me oferecer a filha… Mais uma ilusão, perdida, menos um apoio para o futuro. A felicidade que não encontrava completa na fortuna, contava encontrá-la por fim nas alegrias do lar e da família. A satisfação de um grande dever cumprido só por si pode trazer um alívio à minha tristeza; faz nascer em mim, pela primeira vez, emoções a que não falta certo encanto, apesar da amargura dos meus outros pensamentos.

Gaspar permaneceu longo tempo ali, a meditar.

Efeito da alegria no tio Tomás

Enquanto Gaspar reflectia, Féréor felicitava-se pela determinação do filho.

Cinco milhões compensam grandemente o seu acto de dedicação – pensava. – Deve ser bastante feliz agora que sabe qual é a minha fortuna. É bom rapaz, amo-o de todo o coração. E como se me afeiçoou! É a primeira vez na minha vida que me vejo amado, mas realmente amado, sem cálculo, com inteira dedicação… Quereria que este casamento já estivesse feito. Esse patife do Frlichein já não poderá prejudicar-me quando a sua filha for minha nora. Pobre Gaspar!

No dia seguinte à carta, Frõlichein compareceu em casa de Féréor, que estava a almoçar com Gaspar. Este levantou-se, mandou-o entrar e fechou a porta.

FRLICHEIN – Meu jovem amiga…

GASPAR (com frieza) – Aqui tem meu pai é em casa dele que se encontra.

FRLICHEIN – Meu caro herr, vir. .

FÉRÉOR – Já sabemos porque vem aqui. É um assunto a liquidar com presteza. Meu filho casa com sua filha para evitar a concorrência que o senhor poderia fazer ao nosso invento. As condições serão: um dote de cinco milhões, pelo menos.

FRLICHEIN – Cinco milhões! Ser então

verdade! Não querer acreditar tão grande felicidade

para meu filha.

FÉRÉOR – Cale-se e deixe-me concluir. Sua

filha ficará instalada em minha casa. Pelo casamento, o senhor compromete-se a que não nos fará

concorrência alguma à nossa indústria; a coisa alguma estabelecer ou empreender sem nosso consentimento, a não fazer qualquer uso do roubo que nos

fez para as telas de cobre e zinco e a entregar-nos o

segredo do aperfeiçoamento que introduziu nas referidas telas.

FRLICHEIN – Ah, mein Got caro herr

FÉRÉOR – Peço que me não trate por caro

senhor! Eu não lhe sou caro, como o senhor também

não nos é caro. O senhor vende a sua filha para ser

associado da minha casa, dos meus negócios e para

garantir a sua fortuna. Gaspar paga a renda da sua

pessoa. Quando a mercadoria tiver entrado, apenas

teremos relações referentes aos negócios industriais… Encarrego-me do contrato. Quando poderemos assiná-lo?

FRLICHEIN – Dentro de quinze dias, se herr

seu filha achar bem.

GASPAR – Tanto me faz, mas quanto mais

depressa, melhor.

FRLICHEIN – Querer ver Mina?

GASPAR – É escusado; vê-la-ei no dia do casamento.

FRLICHEIN – Ser impossível. Ser preciso conhecimenta e que ver seu futura.

GASPAR – Não tenho tempo; os nossos negócios ocupam-nos constantemente.

FRLICHEIN – Mas que dizer familia?

GASPAR – Diga o que quiser; isso não é comigo.

FRLICHEIN – Só uma vez, meu bom herr; só para bom efeito.

GASPAR – Quando o contrato estiver pronto para assinar.

FRLICHEIN – Ver como Mina ser bonita. É o meu retrato!

FÉRÉOR – Gaspar, acompanha este senhor; a conferência terminou.

Gaspar abriu a porta e fechou-a logo que Frlichein a transpôs.

GASPAR (rindo) – Ouviu o que ele disse, pai? Mina parece-se com ele.

FÉRÉOR (sorrindo) – Que queres, meu rapaz? A sorte virou-se contra nós. Deixá-la-emos ficar no seu canto sem olhar para ela, como dizias. E agora, meu filho, é preciso tratar da instalação. Mandarás

chamar o meu estofador de Paris e fá-lo-ás preparar e mobilar os aposentos para ela na ala oposta à que utilizamos.

GASPAR – Sim, pai, mas conceda-me um último favor.

FÉRÉOR – Tudo o que quiseres, meu querido filho. Pede.

GASPAR – Conserve-me o quarto que ocupo junto do seu. Continuarei, assim, a estar ao seu alcance, tanto de dia como de noite. Se estiver doente, tratá-lo-ei, e enfim, continuaremos juntos a nossa bela vida.

FÉRÉOR – Meu querido filho: agradeço-te e concedo-te com júbilo o que me pedes. Nunca quereria reter-te longe da tua mulher, mas visto que o queres…

GASPAR – Vou escrever ao estofador, pai.

FÉRÉOR – E, quando acabares, não será mau ires falar a teu pai e a tua mãe.

GASPAR – É verdade; nada se deve fazer sem eles.

FÉRÉOR – Enquanto estiver nas oficinas a redigir com o notário o contrato que levaremos connosco irás a casa de teu pai. Virás ter comigo quando quiseres; partiremos às cinco horas.

GASPAR – Sim, pai. É preciso ir prevenir o notário?

FÉRÉOR – É, sim, meu amigo; manda preparar a carruagem para daqui a uma hora.

Decorridas duas horas, Gaspar estava em casa do pai. Achou-o indisposto e sem ter podido sair.

TOMÁS – Tu, outra vez? Andas em liberdade, desde que és Féréor Júnior?

GASPAR – Não, pai. Estou mais preso do que nunca; tenho um assunto a falar-lhe. Venho pedir a sua benção para. me casar.

TOMÁS (surpreendido) – Vais casar? Mas isso é novidade. E com quem?

Gaspar corou e respondeu:

– Com a menina Frlichein.

TOMÁS – Isso não é possível! A filha desse alemão que puseste na rua há pouco?

GASPAR – Precisamente. Sua filha chama-se Mina.

TOMÁS – Quantos anos tem?

GASPAR – Não sei.

TOMÁS – É rica?

GASPAR – Também não sei.

TOMÁS – É estranho! É bonita?

GASPAR – Ignoro. Nunca a vi.

TOMÁS – Mas não é possível? Como? Pois casas com uma mulher que nunca viste?

GASPAR – Sim, pai. É um casamento comercial. É para conveniência da fábrica.

TOMÁS – E se essa mulher é feia, tola ou má?

GASPAR – Apesar disso, devo casar com ela.

TOMÁS – Desgraçado! Mas vais levar uma vida de presidiário!

GASPAR – Não, pai. Viverei para Féréor e para a fábrica.

TOMÁS – E se tiveres filhos da tua horrível mulher?

GASPAR – Não conto tê-los, mas, se os tiver e se se parecerem com minha mulher, não olharei para eles.

TOMÁS – E que te dá o teu novo pai para concluir o negócio?

GASPAR – Cinco milhões, já, e outro tanto após a sua morte.

– Cinco milhões?! – repetiu três vezes o tio Tomás e calou-se.

MÃE – Misericórdia! Que vais fazer de tanto dinheiro? Visto que és tão rico, dá a teu pai uma moeda de dez francos para a pobre Maturina, a mãe de Henrique. Tem estado doente. O filho está na quinta de Millard. Deve a renda de casa e ameaçam pô-lo fora.

Gaspar tirou da algibeira duas moedas de vinte francos, dizendo:

– Aqui tem, mãe. Não faça cerimónia em pedir-me dinheiro para os pobres: dar-lho-ei sempre que quiser.

MÃE – Obrigada, meu filho: é um bom sentimento que tens e estou certa de que a tua caridade há-de valer-te a benção de Deus para o teu casamento.

Gaspar suspirou por única resposta, enquanto a mãe prosseguia:

– E quando é a cerimónia, meu filho?

GASPAR – O mais cedo possível, mãe; dentro de quinze dias… É mister que assistam: a mãe, o pai e Lucas.

Gaspar voltou-se para o pai ao proferir estas palavras e não pôde evitar um grito. O pai caíra com a cabeça inclinada na cadeira, de olhos esgazeados, o rosto violáceo, as mãos crispadas.

A mãe repetiu o grito de Gaspar e correu para o marido; tirou-lhe a gravata e pediu água. Gaspar trouxe- lha. Molharam-lhe a testa, a nuca, as fontes, mas ele não voltava a si.

Lucas! Lucas! Vão chamar Lucas! – bradou a mãe.

GASPAR – Eu corro a avisá-lo, mãe. Onde está?

MÃE – Anda a trabalhar no campo à beira-rio.

Gaspar para aíi se encaminhou com toda a presteza. Enquanto Lucas correu para a quinta, Gaspar foi em busca do médico, que estava em casa, e o acompanhou a casa do tio Tomás, que continuava no mesmo estado. Depois de haver empregado, inutilmente, todos os meios possíveis durante mais de uma hora, o médico tomou-lhe o pulso: já não batia, escutou a respiração que cessara. Teve de render- se à evidência.

– Morreu – disse ao ouvido de Gaspar. – Fulminou-o uma apoplexia.

Gaspar estava consternado. Fora a alegria dos cinco milhões que matara o tio Tomás. Lucas abraçou-se ao corpo do pai, a soluçar. A mãe soltou lamentosos gritos. Após uma hora de lágrimas e de soluços, chamou a criada da quinta e deram-se à tarefa de arranjar, convenientemente, o inanimado

corpo. Gaspar tentou confortar Lucas, que chorava amargamente.

GASPAR – Fica junto da mãe, Lucas. Vou mandar prevenir a administração para verificar o óbito. Volto depois.

Lucas apertou a mão de Gaspar, sem proferir palavra. Antes de se dirigir à administração, Gaspar foi à fábrica; encontrou Féréor no escritório.

– Meu pai – bradou ao entrar -, meu pobre pai, aquele que o era por parte de Deus, acaba de morrer.

FÉRÉOR – Morreu? Morreu? Mas ninguém te disse que ele estava doente.

GASPAR – Estava bem quando entrei, pai; passados instantes, foi fulminado por uma apoplexia.

FÉRÉOR – E qual foi a causa?

GASPAR – Os cinco milhões que possuo graças à sua generosa bondade, pai. Ficou tão assombrado, que mal pôde repetir três vezes: cinco milhões! E depois, ficou aniquilado na cadeira e não disse mais nada, nem sequer se mexeu.

FÉRÉOR – E o teu casamento? FrÓlichein vai imaginar que já não o queremos.

GASPAR – Não, pai; será, pelo contrário, excelente motivo para evitar a festa nupcial, para fazer o casamento sem barulho.

FÉRÉOR – E o luto?

GASPAR – O luto nada impede, desde que não façamos convites e não dêmos grande aparato à cerimónia. Este luto vai até ser-nos útil para não se fazerem as visitas obrigatórias e efectuar-se o casamento discretamente.

FÉRÉOR – E o contrato?

GASPAR – Será levado a casa deles para assinar; darão baile se quiserem, mas nós não vamos lá.

FÉRÉOR – Muito bem pensado, meu querido filho. Abrevia tudo; escreve ao alemão a participar-lhe a fatalidade e tenta dirigir algumas palavras amáveis à rapariga.

GASPAR – Tentarei, pai, mas eu detesto-a de antemão.

FÉRÉOR – Detesta-a quanto quiseres, mas sê correcto.

GASPAR – Obedeço, meu pai… Antes de escrever, preciso de ir à administração para fazer verificar o óbito e passar a certidão.

FÉRÉOR – Manda alguém. Não te falta gente para se encarregar dos teus recados. Meu filho deve ser obedecido e servido como eu próprio.

GASPAR – Obrigado, pai. Nada farei sem o consultar.

FÉRÉOR – Bem. Dá as tuas ordens, escreve as cartas e volta para casa de tua mãe. Está muito desgostosa?

GASPAR – Creio que sim, no primeiro momento; mas tem Lucas e o pai não a fazia muito feliz. Nunca a poupava; ficará mais tranquila só com o Lucas.

FÉRÉOR – Então, tanto melhor. E tu? Fala francamente: é um desgosto para ti?

GASPAR – É sempre doloroso perder um pai, mas o meu nunca me estimou; não posso ter muitas saudades; só a si o confessarei, porque é a única pessoa que amo lealmente no mundo e só a si digo o que penso.

FÉRÉOR – E se eu morresse, terias muita pena de mim?

GASPAR – O pai? Seria a maior desgraça da

minha vida! E inclinando-se ante o pai adoptivo, Gaspar beijou-lhe as mãos comovidamente. Féréor estava

radiante; apertou-o nos braços, fitando atentamente

a esbelta figura de Gaspar.

FÉRÉOR – Falas verdade, querido filho? Tens-me muito amor? Só gostas de mim e nunca amaste

outra pessoa que não fosse eu? É por isso que gosto

de ti como nunca gostei de ninguém. Vai, meu filho, e que Deus te abençoe.

Casamento de Gaspar

Gaspar escrevera a Frólichein uma carta muito hábil, delicada, embora fria, a fim de não apresentar mudança demasiado súbita entre a impertinência anterior e a linguagem própria de um futuro genro para um futuro sogro. Terminou por uma frase atenciosa para a noiva e pelo pedido instante de abreviar o casamento como desculpa da forçada ausência, que o condenava a morte de seu pobre pai. Afirmava que Féréor e ele estariam prontos dentro de um mês. Escreveu depois ao estofador e recomendou-lhe que nada poupasse e que fizesse a decoração com a máxima urgência. Tudo devia estar

em ordem no prazo de três semanas a contar da recepção da carta.

Antes de mandar seguir a correspondência, fê-la ler a Féréor, que a aprovou e lhe pediu que o auxiliasse nas contas para a partilha da sua riqueza com ele.

Gaspar adiantou a tarefa; a sua prontidão em calcular e classificar facilitou muito o trabalho que Féréor pretendia fazer. Deram juntos uma volta pelas oficinas; Féréor quis acompanhar o filho adoptivo na sua visita à quinta; foram de carruagem, para se dirigirem juntos à cidade.

A tia Tomás refizera-se do temvel choque da morte do marido; estava calma e conversava com Lucas a respeito das mudanças que traria na sua existência o falecimento do marido. A visita de Féréor lisonjeou-os muito; Féréor e Gaspar deram-lhe bons conselhos sobre a regularização da herança.

– Tu e a nossa mãe – disse Gaspar – são os seus únicos herdeiros. Eu cedo todos os meus direitos e acrescento-lhes os cento e quarenta mil francos que retirei da venda das terras da herança Danet. Graças à generosidade do meu pai adoptivo, esta cedência não é sacrificio e o bem-estar de vocês ficará aumentado.

A mãe agradeceu, beijando Gaspar; Lucas fez o mesmo. Regulou-se o que dizia respeito ao enterro, que devia realizar-se no dia seguinte às nove horas da manhã. Féréor disse querer assistir. Após esta visita, que demorou mais de uma hora, Gaspar e o pai adoptivo retiraram-se. O trajecto foi silencioso. Féréor pensou que a sua vez depressa chegaria; perguntava de si para si, pela primeira vez, o que fizera

pelos outros e quase se acusou de egoísmo e dureza. Entretanto os seus olhos fitaram com agrado Gaspar: a ideia do reconhecimento que lhe manifestava o filho adoptivo sacrificando-lhe a sua felicidade, deu-lhe um sentimento de calma e de ventura. Vendo todas as alegrias e todas as consolações que proporciona uma boa acção, lembrou-se do bem que poderia ter feito à sua volta, de todas as bençãos que atrairia sobre a sua cabeça, da veneração e do respeito que poderia ter inspirado. A sua resolução foi tomada; a sua alma, tocada pela graça divina, compreendeu que só na prática do bem devia encontrar a felicidade entre as suas riquezas.

Gaspar pensava na diferença dos seus sentimentos pelo pai que perdera e pelo outro, cuja conservação pedia a Deus; do primeiro só recebera durezas, reprimendas e pancada; do segundo apenas afeição, confiança e a sua magnífica situação. De quando em quando, em pensamentos mais vivos, apertava maquinalmente a mão de Féréor, que, sem dar por isso, conservava presa. Féréor, de início sur preendido, adivinhava os sentimentos que agitavam Gaspar, e deixou-se levar suavemente pela felicidade, nova para ele, de uma verdadeira simpatia.

O dia seguinte ainda foi bastante penoso para Gaspar, fatigante para Féréor e cruel para Lucas e para a mãe. Esta absoluta separação de um pai e de um marido impressionou-os fortemente. A assistência era grande. Todos os operários da fábrica tinham tido licença para assistir ao funeral do pai do seu novo patrão, e nenhum faltara. A família e os amigos eram também em grande número. Gaspar reconduziu na carruagem a mãe e o irmão e passou com eles parte da tarde. De volta ao escritório, notou que Féréor mostrava o semblante fatigado.

– Pai, não trabalhe; está cansado; permita que o leve a casa. Jantaremos, deitar-se-á e conversaremos dos nossos negócios.

Gaspar arrastou Féréor, meio por vontade, meio à força. Féréor, opondo certa resistência, deixou-se levar com visível satisfação. Jantou com apetite, deitou-se com prazer e adormeceu com calma, depois de ter visto e ouvido Gaspar, que o julgava adormecido, aproximar-se-lhe da cama, ajoelhar, beijando-lhe meigamente a mão e dizer em voz baixa:

– Dorme, querido e excelente pai. Dorme sossegadamente. Que Deus te conserve por largo tempo e com boa saúde! Que seria da minha felicidade se te perdesse? Esta detestável mulher que devo aceitar para assegurar a tua tranquilidade, nunca será nada para mim. Adeus, meu pai e meu amigo. Descansa das tuas fadigas.

Gaspar ainda orou durante certo tempo, levantou-se suavemente e deixou o quarto sem fazer bulha. Trabalhou grande parte da noite para acabar as contas do pai e deitou-se, exausto.

Os dias seguintes depressa se passaram; Gaspar esforçou-se por pensar o menos possível no seu casamento. Frlichein prevenira-o de que estaria pronto e de que salvo ordem em contrário, chegaria à cidade de… um mês depois da sua carta; pedia a Gaspar que lhe mandasse reservar um pequeno aposento para ele, para a filha e para as duas testemunhas, mas apenas durante dois dias, porque os negócios o obrigavam a voltar para casa.

Gaspar deu conta desta carta a Féréor, que mandou guardar num hotel os aposentos pedidos. O contrato de casamento estava pronto no dia marcado; foi o próprio notário quem o levou a assinar aos Frlichein, pai e filha, na véspera do casamento. Na volta, Féréor e Gaspar interrogaram-no a respeito da noiva; mas ele apenas pôde dizer que era considerada boa e piedosa.

– Ainda bem – disse Gaspar. – Distrair-se-á a praticar a caridade, a visitar pobres, a frequentar igrejas e não nos importunará.

– De resto – acrescentou o notário -, não a deixam ver pessoa alguma; os criados da casa nunca a vêem; vive sozinha com uma ama que a educou; só sai para ir à igreja e visitar os pobres e as irmãs de caridade.

Os aposentos estavam prontos e eram encantadores; o estofador nada esquecera: compunham-se de uma sala de entrada formando antecâmara, uma sala de visitas, dois quartos de dormir, toucadores com armários, etc. , e no fim dos aposentos, um quarto para a criada particular, com rouparia e porta de serviço.

No dia do casamento, Frlichein e a filha chegaram apenas à hora. Uma das testemunhas veio prevenir Féréor e Gaspar de que seguiriam directamente para a administração, depois para a igreja, e que era desnecessário ocuparem-se deles, que não se incomodassem para a ver, porque Mina estaria no toucador e não receberia ninguém. Esta advertência não passou despercebida a Féréor. Gaspar mandou perguntar a que horas a menina queria a carruagem, pois devia estar na administração às onze e meia.

– À hora que quiserem – mandara ela responder.

Mandou pedir a Féréor que desse licença à sua ama, que a tinha criado e lhe servia de criada particular, para levar as suas coisas para os aposentos que devia ocupar.

– Nada mais justo – volveu Féréor. – Fez muito bem. É delicada e correcta a sua forma de proceder. Não achas, Gaspar?

– Sim, fez bem – respondeu Gaspar, friamente.

Às onze e um quarto, Gaspar mandou à noiva a carruagem que devia ficar a pertencer-lhe; ele e Féréor meteram-se na sua e dirigiram-se para a conservatória.

GASPAR – A sua carruagem continuará a ser a minha, pai; a outra fica para a minha mulher… Pai, é muito duro ter que dizer: a minha mulher e ter essa estranha para sempre entre nós, a todas as refeições.

FÉRÉOR – Não será importuna, suponho; entretanto, se for exigente ou aborrecida, pô-la-ás na ordem.

GASPAR – Seja como for, sempre é desagradável ter connosco mulheres que se intrometerão em tudo, que quererão mandar na casa, que aborrecerão a nossa velha despenseira, a Sr.a Bonjean.

FÉRÉOR – Não, não, meu rapaz; vês tudo com cores muito negras. Essa rapariga não deve ter vontades; lembra-te de que tem apenas dezasseis anos. Habituá-la-ás como quiseres.

GASPAR – E a ama? As mulheres que educaram a patroa são insuportáveis.

FÉRÉOR – Se te aborrecer, mandá-la-ás embora.

GASPAR – Eis-nos chegados. Tornaremos a falar no assunto.

Gaspar ajudou o pai a descer: mal a carruagem se afastou chegou a da noiva; Féréor e Gaspar viram-se obrigados a esperar Frõlichein e a filha. Gaspar cumprimentou o pai, que foi o primeiro a descer, e apresentou a mão à filha para a ajudar a apear. Vinha envolta num véu; apenas se via um pequeno pé bem calçado e uma pequena mão, que ele sentiu tremer na sua; o pai deu-lhe o braço.

Quando a fez entrar na conservatória e Gaspar a pôde ver, recuou estupefacto. Tinha na sua frente o mais bonito e o mais gracioso semblante que seria possível imaginar-se. Estatura acima de mediana, aspecto elegante, encantador e distinto; cabeça deslumbrante, cabeleira farta, de louro acinzentado, rosto oval, feições finas e regulares, grandes olhos azuis, meigos, inteligentes e que deviam ser risonhos quando não estivessem, como agora, avermelhados por lágrimas recentes. A finura da pele, a brancura e a frescura da tez completavam a notável beleza de Mina. Esta largou o braço do pai, aproximou-se de Féréor, inclinou-se ante ele e quis beijar-lhe a mão; mas a beleza da futura nora, o seu ar triste e cândido, a humildade do seu gesto sensibilizaram Féréor; fugiu-lhe com a mão, e beijou Mina nas duas faces frescas e róseas.

– Obrigada, pai – agradeceu Mina, em voz baixa. – Tenha dó de mim e perdoe-me entrar à força na sua família.

Féréor tornou a beijá-la.

Gaspar não podia refazer-se do deslumbramento. Essa mulher que se lhe tinha afigurado feia, vulgar, autoritária, mostrava-se uma rapariga de dezasseis anos, bonita, simpática, graciosa, modesta, tímida. E devia ser inteligente, consoante o indicava o seu rosto.

A surpresa de Gaspar foi tão evidente, que Féréor não pôde deixar de sorrir. O administrador tinha chegado: estava no seu lugar, esperava; Gaspar deu alguns passos para se colocar ao lado de Mina. Quando o administrador perguntou a Gaspar se consentia em aceitar por esposa a menina Mina Frlichein, respondeu um sim com voz mal segura; e quando Mina teve de dar também o seu consentimento, as lágrimas cortaram-lhe as palavras; levou alguns momentos a refazer-se para proferir o sim que devia acorrentá-la a um homem que ela não conhecia, que não lhe testemunhara desejo algum de vê-la, de falar- Lhe, não julgava poder vir a amá-lo. Dissera pois o sim, porque o terror que o pai lhe inspirava não Lhe permitia tomar outra atitude.

Finda a cerimónia, Mina retirou-se sem sequer levantar os olhos para Gaspar, mas depois de ter cumprimentado Féréor. Ninguém falava; Féréor e Gaspar voltaram para a carruagem em direcção à igreja, para receber aí a noiva.

– É encantadora! – expandiu-se Féréor.

– Encantadora – concordou Gaspar. – Ainda não estou em mim da surpresa.

FÉRÉOR – E que voz tão meiga e suplicante quando me pediu que tivesse dó dela!

GASPAR – Pediu-lhe que tivesse dó? Quando?

FÉRÉOR – Quando a beijei. Pobre pequena! Tem um aspecto tímido que denuncia não ser feliz! É pena tão encantadora criatura ser votada à desgraça!

Gaspar não respondeu. A sua consciência começava a agitar-se; também tinha dó dela!

O sentimento de dedicação e de reconhecimento que o fizera aceitar tal casamento para assegurar a tranquilidade do pai, garantindo-lhe o futuro da fábrica, tinha-o aborrecido por instantes. Não se tinha lembrado da triste existência que preparava àquela pobre rapariga, sacrificada por um pai injusto, de quem o próprio Gaspar assim se tornava cúmplice. Esta ideia aterrava-o. Censurava-se já dos processos que usara a seu respeito e pensava em modificar o seu modo de proceder e reparar os males consoante os acontecimentos.

O casamento, a missa e a assinatura duraram uns três quartos de hora. Féréor fez subir Mina para a sua carruagem, em que ia com Gaspar. Mina continuava a chorar. O trajecto foi curto. Féréor conduziu Mina aos aposentos que lhe estavam destinados; a ama esperava-a.

FlÉR OR – Está em sua casa, minha filha; espero que se dará bem nela.

MINA – Obrigada pela sua bondade, meu pai; estou certa de me dar bem, visto ficar junto de si.

Ao concluir, Mina desfez-se em pranto. FÉRÉOR – Porque chora, minha filha? Todos se esforçarão por lhe tornar a vida serena e feliz.

MINA – Para mim não há felicidade neste mundo; o futuro há-de ser como o passado. Mas, pai, conceda-me um favor: não me separe da minha ama, da minha pobre ama que me educou, do único ente a quem amo e que me conforta.

FÉRÉOR – Minha pobre filha, ninguém lhe tirará a sua ama; é única senhora de tudo o que Lhe diz respeito. Não se inquiete e descanse das suas fadigas.

Féréor saiu; Gaspar esperou-o no quarto dele.

– Então, pai, perdura a primitiva impressão?

FÉRÉOR – Não só perdura, mas ainda aumentou. A pobre rapariga causa dó. Afianço-te que me enterneceu.

Féréor referiu ao filho adoptivo as poucas palavras que haviam trocado.

– Como vês, deve ter sido muito desventurada

e o pai tratava-a pessimamente. Devias lá ir um instante, Gaspar; nem sequer te conhece a voz.

GASPAR – Mas, meu pai, nada tenho a dizer-lhe. Não posso entrar sem motivo.

FÉRÉOR – Vai perguntar-lhe se não quer tomar alguma coisa; é conveniente.

Gaspar obedeceu com relutância e bateu à

porta.

– Entre – respondeu uma voz meiga e fresca.

Gaspar abriu a porta, entrou e ficou atarantado

e imóvel. Mina, ao vê-lo, soltou um grito, e, por seu

lado, permaneceu trémula e silenciosa. A ama estava presente.

GASPAR – Menina… Minha senhora… Venho

perguntar-lhe…

O embaraço de Gaspar dera coragem a Mina.

Levantou os olhos para ele e não pôde deixar de

sorrir pelo seu ar tão desajeitado e comprometido.

Gaspar, por seu lado, levantou os olhos e sorriu

também da figura que devia estar a fazer.

– Menina – tornou com a sua voz meiga -, venho perguntar-lhe se não deseja tomar qualquer

coisa. Mina hesitou em responder e olhou para a ama.

AMA – A minha pobre menina não se atreve a

dizer-lhe que tem fome; não comeu nada; desde que chegou não fez outra coisa senão chorar.

MINA – Ama, minha boa ama, para que lhe dizes isso?

GASPAR – Sou assim tão aterrador, menina?

MINA – Não; mas eu não o conheço.

GASPAR – Vou dar as minhas ordens, menina.

MINA – Obrigada; o senhor é bom.

Gaspar saiu, deu ordens e voltou para junto do pai, a quem contou o pouco que tinha dito. Féréor não respondeu e Gaspar retirou-se. Voltou para o seu quarto, meditativo e pouco à vontade.

Os seus sentimentos de piedade por Mina e o receio do seu próprio procedimento cada vez o dominavam mais. Sentia-se mais tocado pela meiguice e pela reserva da pobre Mina à medida que reflectia na injustiça das prevenções que tivera contra ela.

Lastimo ter sido duro, grosseiro até, para esta pobre pequena. Afigura-se-me evidente que o pai a obrigou a casar comigo, que ela não tinha vontade nenhuma; é certo que era infeliz em sua casa, consoante, pelo menos, o que disse a meu pai. A pobre menina parecia aterrada; amedrontei-a, e deve ter medo, depois do meu modo de proceder a seu respeito… E agora que fazer? Amanhã consultarei meu pai.

Mina cada vez causa mais dó a Gaspar

No dia seguinte, muito cedo, Gaspar abriu a porta do quarto do pai e viu que ele estava acordado.

FÉRÉOR – Já por aqui, meu amigo? Tens alguma coisa de especial a dizer-me, para te levantares tão cedo?

GASPAR – Sim, pai, qualquer coisa de muito especial a respeito de Mina.

– Ah, ah! – disse Féréor, sorrindo. – Que há de novo?

GASPAR – Há, meu pai, que não sei que procedimento adoptar depois da grosseira indiferença com que tratei esta pobre rapariga.

FÉRÉOR – Por Deus, meu amigo, eu também comparticipei da tua falta; participo também do teu arrependimento e estou resolvido a ser deveras amável com ela. Faz o mesmo.

GASPAR – Mas a minha situação perante ela é diferente da sua, meu pai. Tem a aparência de me temer muito; quanto a si, afigura-se-me que simpatiza consigo e que confia em si.

– Julgas isso? – indagou Féréor com manifesta satisfação.

GASPAR – Tenho a certeza, pai. E é aí que está o meu enleio. É tão diferente do que receávamos, que se me torna impossível tratá-la como projectámos antes de a conhecer.

FÉRÉOR – Tens muitíssima razão, meu filho; é mister que a trates como encantadora e amável mulher que o é.

GASPAR – Nunca poderei, porque também tenho medo dela.

FÉRÉOR – Medo de quê, filho? Tem um aspecto tão meigo!

GASPAR – Não sei porquê, mas causa-me medo.

FÉRÉOR (sorridente) – Ora, isso há-de passar. Sê delicado e amável com ela; todas as manhãs vai saber notícias, conversa, solicita-lhe a sua amizade, a sua confiança e todas as coisas se harmonizarão.

GASPAR – Decerto não tem os nossos hábitos, levanta- se muito tarde; teremos tempo de dar uma volta pela fábrica antes de estar pronta para almoçar; não fomos lá ontem.

FÉRlÉOR – Tens razão; manda vir a carruagem e informa-te do que ela quer para o pequeno-almoço.

Gaspar vestiu-se; eram sete horas quando foi executar as ordens do pai.

Ao abrir a porta do quarto, que dava para a escada do vestíbulo, viu Mina que descia com presteza; parou no vestíbulo; levava capa e chapéu.

– Vens, ama? – perguntou, voltando-se. Em vez da ama, avistou Gaspar, que também descia, e ficou indecisa.

Quando Gaspar se lhe juntou, estava vermelha como uma cereja, imóvel, de olhos baixos.

– Aonde vai tão cedo, minha senhora? – inquiriu Gaspar; cumprimentando-a.

MINA – A missa, onde vou todos os dias.

GASPAR – Sabe onde fica a igreja?

MINA – Não, mas com o auxilio da minha ama, hei-de encontrá-la.

GASPAR – Permite que lhe poupe o trabalho de procurar e lhe ofereça o braço?

MINA – Com muito prazer.

Gaspar pegou no chapéu e abeirou-se de Mina que, assustada e trémula, enfiou o braço no que lhe

oferecia o rapaz. Tremia tanto, que Gaspar se condoeu.

GASPAR – Tranquilize-se, minha senhora. Porque treme assim? Acredita que eu queira torná-la infeliz?

MINA – Não sei. Mas espero que não.

GASPAR – Ora, vamos; olhe para mim e diga-me se tenho aparência de mau.

Mina olhou, mas sem ver, porque as lágrimas lhe enevoavam a vista.

– Não vejo – volveu, sorrindo.

GASPAR – Porquê?

MINA – Porque choro.

GASPAR – É o que me apoquenta, minha pobre menina, o que me não deixou dormir durante toda a noite é pensar que estava aterrada na minha presença como se eu fosse um monstro, um celerado.

MINA – Eu também não dormi, estava com tanto medo.

GASPAR – Medo de quê? De quem?

MINA – De todos e de si principalmente.

GASPAR (sorrindo) – E porquê essa preferência, minha senhora?

MINA – Porque meu pai me disse o motivo por que me desprezava; deu-me a ler as suas cartas. Disse que não me queria ver. Como compreende, tudo isso não é nada animador.

GASPAR (com vivacidade) – Mas é uma abominação de seu pai. Não a conhecia; dizia-me que a menina era o seu retrato em mulher; ora veja se a alusão era tentadora.

Gaspar sorriu; Mina riu abertamente, e aquele

prosseguiu:

– E depois, se soubesse como as coisas se

passaram! Hei-de contar-lhas quando tivermos mais

tempo. E eu supunha-a muito estúpida, fastidiosa.

Avalie da minha surpresa quando a vi.

MINA – Achou-me a seu gosto?

GASPAR – Teria sido muito difícil de contentar

se a achasse de outro modo.

MINA – E seu pai?

GASPAR – Achou-a também encantadora e está deveras resolvido a amá-la como se fosse sua filha.

MINA – Obrigado por essas boas palavras. O

nosso pequeno passeio é o primeiro prazer que tenho desde que fui forçada a consentir em impor- lhe

a minha presença… para sempre Mas perdoe-me; suplico-lhe que me perdoe; tenho medo de meu pai; ameaçou-me com coisas tão terríveis se resistisse! Ocuparei o menor lugar possível em sua casa; não pedirei seja o que for; viverei com a minha ama. O senhor só me verá quando quiser. E se desejar nem dos meus aposentos sairei.

Gaspar escutava-a com dolorosa surpresa. Ia para responder quando chegaram à porta da igreja. Só

então é que Mina notou que se encontrava sozinha.

MINA – Ah, esqueci-me de esperar pela ama!

E não tomei sentido no caminho que percorri!

Gaspar consultou o relógio: ainda dispunha de

uma hora antes de voltar para acompanhar Féréor

às oficinas; Mina não devia ficar sozinha numa cidade que lhe era desconhecida. Resolveu esperar por

ela para a conduzir a casa.

GASPAR – Ficarei junto de si, minha senhora, e eu próprio a acompanharei.

Mina fitou-o, pasmada, e sorriu ao dizer-Lhe:

– Obrigada.

O rapaz fê-la entrar no banco de Féréor e colocou-se a seu lado. A missa ia principiar. Mina ouviu-a sempre ajoelhada, e Gaspar notou com pena que ela chorara durante todo esse tempo. Quando se levantou, tinha o rosto banhado em lágrimas. Não se atrevera a levantar os olhos para Gaspar, cujo braço aceitou, retomando o caminho da casa de Féréor.

Mina – disse-lhe Gaspar (Mina estremeceu) -, entristece-me com a sua demasiada humildade e resignação; está em sua casa, estando na de meu pai; a sua presença há-de ser-nos sempre agradável. E entre nós ambos, se há alguém a perdoar, não sou eu, mas a menina. É, pois, a si que peço perdão, do fundo da alma, por lhe haver demonstrado tanta frieza e indiferença. De futuro, não terá razão de queixa nem de meu pai, nem de mim, e dou-lhe plena autoridade para fazer cumprir todas as suas vontades. Os meus criados serão os seus, assim como os cavalos e carruagens.

– Obrigada – agradeceu Mina. – Conto não abusar da gentileza que me concede; de resto não estou acostumada a mandar.

Nada mais disseram até ao regresso ao palacete. Separaram-se no topo da escada. Gaspar apertou-lhe a mão ao deixá-la.

– Até ao almoço, Mina.

– Até breve, Gaspar – respondeu a meia-voz. E fugiu para o quarto.

Gaspar não andou, correu ao escritório do pai e contou-lhe como passara a manhã. Nada omitiu: Féréor pareceu contente e apertou-Lhe as mãos.

– Está bem, meu filho. Principiaste bem e daqui a alguns dias já não terão medo um do outro.

Foram visitar as oficinas e voltaram às onze horas para almoçar. Gaspar, seguindo o conselho do pai, foi pessoalmente buscar Mina.

Mina – chamou, batendo à porta e abrindo-a.

– Entre, Gaspar – respondeu timidamente, Mina.

GASPAR – Obrigado, minha boa Mina, por me haver tratado por Gaspar.

MINA – E obrigada, Gaspar, por me haver tratado por Mina.

GASPAR – Venho buscá-la para almoçar; o nosso pai espera-nos.

MINA – Desçamos, depressa.

E, correndo à frente de Gaspar, saltou lestamente de degrau em degrau e encontrou-se no vestíbulo.

MINA – Qual é o caminho, Gaspar?

GASPAR – Pela porta à direita; mas deixe-me dar-lhe o braço, Mina.

E Gaspar, tomando o braço da mulher, enfiou-o no seu. Entraram assim na sala de jantar, onde Féréor os aguardava e se adiantou para Mina, beijando-a na testa, enquanto dizia:

– Bom dia, Mina… Que vejo? Os seus bonitos olhos todos vermelhos? Ah! Mina, isso não está bem. É assim tão infeliz connosco, minha filha?

– Não hoje, meu pai – respondeu, beijando-o duas ou três vezes. – Gaspar foi muito bom para mim; teve a bondade de indicar-me o caminho da igreja e depois tratou-me por Mina, o que me causou grande prazer.

FÉRÉOR – E ainda tem medo de nós?

– De si, não, meu pai – volveu Mina beijando-lhe a mão. – De Gaspar ainda um pouco – acrescentou fitando-o com gracioso sorriso.

FÉRÉOR – Bom! Há progressos desde ontem. Vamos para a mesa, meus filhos. Gaspar e eu temos muito que fazer e não dispomos de tempo bastante para nos entregarmos ao prazer.

Findo o almoço, Mina voltou para os seus aposentos e Gaspar acompanhou Féréor à fábrica. Quando voltaram, Gaspar foi prevenir Mina de que o jantar estava na mesa. Ela agradeceu-lhe e aceitou-lhe o braço sem tremer. Começava a habituar-se à sua nova situação. À noite, Mina retirou-se para os seus aposentos com a ama, enquanto Gaspar acabava, com Féréor, o trabalho da manhã. Falaram muitas vezes de Mina e do encanto que ela espalhava à sua volta.

– É extraordinário! – observou Gaspar. Quanto me enternece a presença desta encantadora rapariga e como ela influi no meu carácter! O meu afecto por si adquire também qualquer coisa de mais meigo, de mais imtenso, à medida que a ela me afeiçoo, e mais profundamente sinto o que tem feito por mim.

– É certo – redarguiu Féréor – que parece modificar- nos completamente. Como tu, sinto-me melhor ao pé dela.

Mina, por seu turno, sentia- se feliz; saía de dia com a ama, lia, costurava, esperava impaciente o regresso de Féréor e de Gaspar.

Alguns dias depois do casamento, Gaspar disse a Féréor, ao levantar-se da mesa:

– Meu pai, acha conveniente que apresente Mina a minha mãe?

FÉRÉOR – Sim, meu filho. É mesmo necessário. Precisas de a levar lá hoje.

GASPAR – Estava a pensar nisso, meu pai. Mina, quer ir? Minha pobre mãe e Lucas ficarão muito satisfeitos em vê-la.

MINA – Quero tudo o que quiser, Gaspar.

GASPAR – Então, acompanharemos meu pai às oficinas e, depois de termos visto tudo, levá-la-ei a casa da minha mãe. Será precisa a carruagem?

MINA – Fica muito longe?

GASPAR – A um quarto de légua.

MINA – Ando duas ou três léguas sem me cansar.

GASPAR – Nesse caso, iremos a pé.

MINA – Prefiro andar a pé a andar de carruagem.

Mina na quinta

Mina foi vestir-se para o passeio. Gaspar deu o braço ao pai a fim de subirem a escada e todos três se encontraram no vestíbulo, prontos para sair.

Mina estava radiante; já não tinha os olhos vermelhos e brilhavam bastante; estava mais encantadora ainda do que nos dias anteriores; Gaspar não se cansava de fitá-la.

Mina ia alegre; familiarizara-se com o sogro e até com Gaspar; sorria para Féréor e dizia amiudamente:

– Sinto-me feliz, meu pai; feliz por me encontrar junto de si.

Olhara para Gaspar com ar um pouco malicioso, mas não acrescentara: e de Gaspar.

– Que bonita terra! – bradou. – Que encantador vale! Ah, lá vejo a fábrica! Como é magnífica! Que esplêndidos edifícios! Que felicidade não será viver aqui!

Féréor sorria e regozijava-se com a admiração de Mina; Gaspar tinha um aspecto feliz e meigo que nunca tivera. Mina entusiasmava-se cada vez mais, à medida que se aproximavam das magníficas oficinas instaladas no encantador vale; ia contemplando a paisagem, ora para a esquerda ora para a direita. Por fim, chegaram; saltou da carruagem, sem dar a Gaspar tempo para lhe apresentar a mão. Pediu ao marido que a deixasse sozinha ajudar o pai, que tropeçou ao pôr o pé no chão e quase caiu nos braços de Mina; ela amparou- o muito destramente e deu- lhe o braço.

Mostraram-lhe todas as instalações, todos os departamentos e oficinas; por toda a parte se viam grupos de operários para a receber e que ficaram encantados com a sua gracilidade, a sua beleza, as palavras amáveis que dirigiu a todos.

Gaspar estava deslumbrado e não deixava de contemplá-la; Féréor, que lhe dava o braço, não estava menos encantado do que o filho adoptivo. Quando tudo foi visitado e ela examinou particularmente o fabrico das telas de cobre e zinco, ergueu os olhos tristes para Gaspar, que estava junto dela, e disse-lhe, baixinho:

– Aqui está a causa da sua escravidão, pobre

Gaspar.

GASPAR – Diga antes, a causa da minha felicidade, querida Mina; o passado e o presente não se parecem.

Mina meneou a cabeça e nada respondeu.

GASPAR – Não acredita?

MINA – Creio que é bom e se compadece de

mim. Estou-lhe grata, acredite.

Féréor, depois de haver mostrado a Mina toda a

fábrica, disse a Gaspar que ia tratar agora de assuntos

inadiáveis, mas que não precisava dele.

– E tu, meu filho, leva Mina a casa de tua mãe;

encontrar-me-ás no escritório.

Separaram-se. Gaspar e Mina tomaram o caminho da quinta. Gaspar estava pensativo; Mina retomara a sua timidez.

GASPAR – Não diz nada, Mina? Já abandonou

a sua alegria de há pouco?

MINA – Foi o fabrico de telas de cobre e de zinco que me deu ideias tristes.

GASPAR – E falsas, pode acrescentar.

MINA – Falsas! O tempo se encarregará de nos

mostrar quem tem razão… Que bonito caminho este que seguimos! Estes bosquezinhos são frescos e encantadores.

A conversa prosseguiu. Gaspar pô-la ao corrente da sua família, dos principais acontecimentos da sua mocidade; de seguida, emudeceu. Mina falava de quando em quando; mas a seriedade de Gaspar assustou-a e também se calou.

Quando o marido entrou na quinta, encontrou a

mãe a tratar do amanho da casa, enquanto Lucas se

encontrava para os campos. Recebeu Mina entre a

roupa lavada e os ferros de engomar.

– Estou desolada por recebê-la nesta desordem, minha senhora – desculpou-se a tia Tomás, pondo

de parte o ferro e enxugando as mãos.

MINA (tristemente) – Minha senhora! Então, assim me repele, minha mãe?

MÃE – Meu Deus! É que… receio… nunca poder tratá-la por filha.

MINA – Sou assim tão repelente, que toda a

gente me demonstra antipatia.

MÃE – Antipatia?! Pois pode acreditar, minha

senhora, que a mulher de Gaspar não seja aqui recebida com solicitude?

– Então, beije-me, minha mãe – pediu Mina, abraçando a mãe de Gaspar – e não me torne a chamar minha senhora.

MÃE – Nesse caso, como devo tratar a minha

encantadora filha?

MINA – Sua filha ou Mina. Não é verdade, Gaspar?

Gaspar, sem lhe responder, cingiu-a ao peito e

beijou-a. Mina estremeceu e fitou-o com pasmo e

contentamento. A tia Tomás beijou-a também.

– E agora, minha mãe – volveu Mina, agarrando num dos ferros -, vou ajudá-la.

E Mina, atirando com o chapéu e a capa para

cima de uma cadeira, pôs-se a engomar com tal habilidade, que provou estar habituada a essa tarefa.

Gaspar e a tia Tomás estavam espantados. Mina

continuava a engomar.

MINA – Como vê, mãe, posso ser-lhe útil; minha ama ensinou-me todas as coisas precisas nos amanhos caseiros; em casa de meu pai, não era servida como o sou na de Gaspar. Vivíamos no nosso cantinho minha ama e eu, e servia-me a mim própria. E conhece bem que, quando nos sabemos servir a nós mesmos, também sabemos servir os outros.

– Que está a fazer, minha filha? – inquiriu a sogra, querendo tirar- Lhe o ferro.

Mina não queria largá-lo, mas a mãe teimava. Mina ria e perdia as forças.

– Socorro, Gaspar! – pediu Mina. – Acuda! A

mãe é mais forte do que eu.

Gaspar acorreu ao apelo de Mina e acudiu-Lhe

tão bem, que o ferro foi parar às mãos da mãe. Mas o

gelo derretera-se; a luta, em que Gaspar parte tão

activa tomara, fez desaparecer o enleio, o receio que

a mãe tivera perante o aspecto da sua encantadora e

elegante nora.

MINA – Está bem! Hei-de vingar-me da derrota

sofrida e Gaspar há-de pagar-mo, pois veio contra

mim em vez de me defender.

GASPAR – Como contra si? Eu apenas a amparei para evitar que escorregasse.

MINA – Deixá-lo! Visto terem-me tirado o

ferro, vou dobrar esta pilha de guardanapos. Gaspar, peço-lhe que me dê essa rima que está a secar ao

lume…

GASPAR – Suplico-te, Mina

MINA – Não é verdade, minha mãe, que esta

roupa deve ser dobrada?

MÃE – Decerto, minha filha; mas Gaspar tem

razão em querer impedi-la de fazer tal trabalho, que

não é próprio da sua situação.

MINA – A minha situação é ser sua filha, ajudá-la em tudo, tornar-me útil e agradável. Peço-lhe, querido Gaspar, que me dê esse monte maior para mim.

GASPAR – Não resisto a tão encantador apelo, querida Mina; aqui tem a roupa. E, contudo, eu não

devia obedecer-lhe.

MINA – Ainda deve obedecer-me por muito

tempo, pobre Gaspar, para expiar os agravos que

tenho de si.

MÃE – O quê, minha filha, Gaspar já lhe fez

alguns agravos?

MINA – Creio bem que sim, minha mãe. Se

soubesse as cartas que escreveu a meu pai a respeito

do nosso casamento e a ideia que tinha de mim…

Ah! ah! ah! Julgava-me feia, ruiva, gorda, suja, sei lá

que mais…

A tia Tomás e Gaspar não puderam deixar de rir.

– Encantadora criança! – observou a tia Tomás

a Gaspar.

MINA – E veja, minha mãe, como é mau! Ainda

não me deu uma ajuda. Estou certa de que Lucas não

faria o mesmo e que me daria a roupa quando eu

precisasse dela, como agora.

Lucas entrava no momento em que Mina comeÇava a falar; Gaspar fizera-lhe sinal para se calar, mas

à última reflexão de Mina, Lucas avançou lépido e

colocou em cima da mesa uma grande pilha de guardanapos.

Lucas! – bradou Mina, surpreendida. – Ah!

Vejam como adivinhei – acrescentou, arrumando os

guardanapos e apresentando a face ao cunhado. –

Eu tinha a certeza de que Lucas era um excelente

irmão.

LUCAS – Como me parece que deve ser uma

bondosa irmã… mi… minha senhora.

MINA – Minha senhora! Ah! ah! ah! Uma

senhora que arruma roupa! Mas não sabe que me

chamo Mina?

LUCAS – Não, não sabia. Gaspar nunca mo

disse.

MINA – Pelo que vejo, nunca me ligou importância. Mas tem razão, meu irmão: hei-de ser uma

boa irmã, uma boa filha… e uma boa esposa, se

Gaspar me der licença.

Mina baixara a voz e o rosto entristeceu-se-lhe de

súbito; a sua expressiva fisionomia mudou completamente. Com toda a mobilidade própria da sua mocidade e cândida inocência, passava com facilidade do riso às lágrimas e das lágrimas ao sorriso, ao mais pequeno pretexto.

Gaspar respondeu, beijando-lhe a mão. Mina pareceu satisfeita com a resposta e voltou à tarefa, com

grande destreza, o que admirou Lucas.

– Ah – disse a rir. – Como eu desejava possuir

uma mulher como a Mina!

– Veja, senhor! Lucas inveja sua mulher – volveu Mina, rindo e dirigindo-se a Gaspar. – Sossegue, Lucas quando se casar, chame-me; educarei minha cunhada de maneira a trabalhar depressa e bem.

A conversa prosseguiu alegre e agradável para

todos; Gaspar, Lucas e a tia Tomás tinham os olhos

postos na encantadora e graciosa Mina, que parecia

ter fascinado toda a gente. A roupa estava dobrada e

arrumada; as rodilhas penduradas na chaminé para

secarem; a mesa ficara livre: tudo se encontrava nos

seus lugares.

MINA – Agora, minha mãe, vou fazer um pouco

de princesa e peço-Lhe um bocado de sabão para

lavar as mãos, para não desgostar demasiado Gaspar

e meu pai.

Lucas correu a levar a Mina sabão e uma bacia de ì

água quente.

MINA – Obrigada, Lucas. Veja como Lucas é

atencioso, Gaspar; como me serve com solicitude.

LUCAS – Não tenho grande mérito, encantadora irmã.

GASPAR – Querida Mina, precisamos de ir embora. Estamos aqui há duas horas e meu pai…

MINA – Duas horas já? Como o tempo corre! Adeus, minha boa mãe – despediu-se, pondo a capa e o chapéu. – Breve voltarei e muitas vezes se Gaspar tiver a bondade de me conceder licençaacrescentou, lançando ao marido um olhar malicioso e risonho. – Gaspar é quem manda e eu obedeço.

– Está-me cá a parecer que vai ser o contrário

– volveu Gaspar, rindo.

Mina beijou a sogra, que lhe pagou na mesma moeda, e depois Lucas.

– Adeus encantadora irmã; volte breve – disse-lhe.

– Quando Gaspar me conceder licença – volveu Mina, sorrindo.

GASPAR – Minha maliciosa, bem sabe que a i sua vontade é a minha.

Grande desgosto de Mina; Gaspar explica-se

Quando se foram embora, Lucas e a mãe não esgotaram os elogios a respeito da encantadora e amável Mina.

– Que sorte a de Gaspar! – observou Lucas. Casa no interesse na fábrica e de Féréor; espera

uma mulher feia, má, estúpida e eis que lhe surge a mais encantadora rapariga que se pode imaginar.

Entretanto, Gaspar e Mina estugaram o passo e quase correram para chegar o mais depressa possível a casa de Féréor; Gaspar dava o braço a Mina para a fazer andar mais depressa ou para correr, e ambos riam com o desafio mútuo. Chegaram esbaforidos à fábrica, entrando pelo escritório de Féréor, precipitadamente.

GASPAR – Venho atrasado, pai?

FÉRÉOR – Não, meu amigo; pelo contrário, adiantado.

GASPAR – Ainda bem! Estava com medo de me deixar levar por Mina.

FÉRÉOR (rindo) – Ah! Foi Mina? Operou verdadeiro milagre.

MINA – Estive a passar roupa a ferro, meu pai. FÉRÉOR (surpreendido) – Passou roupa a ferro? Como foi isso, Gaspar?

– Oh, meu pai, não lhe ralhe; a culpa foi minha

– tornou Mina, rodeando com os braços o pescoço de Féréor, e beijando-o. – Sei muito bem de trabalhos caseiros e ajudei minha mãe, para a aliviar. E depois, não foi isso mais conveniente e mais amável do que deixá- la sozinha a tratar de tudo dela e do Lucas sem a auxiliar?

– Querida filha, és uma pequena feiticeira – respondeu Féréor, com um sorriso satisfeito.

– Obrigada, obrigada querido pai – agradeceu Mina. – Tratou- me por tu e isso saiu-lhe do coração! Oh, vejo bem, que há- de amar-me!

FÉRÉOR – Já te amo, minha filha. Quem poderá deixar de amar-te?

MINA (rindo) – Ouve o que diz o nosso pai? É mais sensível do que o senhor. Não é verdade, meu pai?

FÉRÉOR – Quero dizer o mesmo que tu, querida filha. Mas Gaspar não se atreve! sabe que tens medo dele e.

MINA – Agora já não, pai.

FÉRÉOR – Desde quando?

MINA (corando) – Desde a nossa visita a casa da mãe.

E acrescentou baixinho, ao ouvido de Féréor:

– Beijou-me; portanto, já não me detesta.

Féréor desatou a rir francamente.

– Que disse ela, meu pai? – indagou Gaspar, aproximando-se.

– Não diga, meu pai, não diga! – pediu Mina.

GASPAR – Depressa o saberei; meu pai confia-me todos os seus segredos.

MINA – Mas não os meus.

Féréor sorriu, apertou a mão de Gaspar e beijou as pequeninas mãos que estavam ao seu alcance.

FÉRÉOR – Repito: és uma verdadeira feiticeira. E agora, minha filha, vai-te embora. Gaspar vai mandar vir a tua carruagem; voltarás para tua casa e Gaspar virá trabalhar comigo.

MINA – Não posso ficar, meu pai? Sentava-me aqui num cantinho e não me mexeria.

FÉRÉOR – Não, minha filha; importunar-nos-ias.

Mina suspirou, beijou a mão de Féréor e saiu.

MINA – Importuná-lo-ia, Gaspar?

GASPAR – Sim… suponho… creio que sim. Eu recearia muito que se aborrecesse.

MINA – Mas não me aborreceria.

GASPAR – Que faria?

MINA – Contemplá-los-ia.

GASPAR (sorrindo) – E se eu fizesse o mesmo, como trabalharia eu?

MINA – Oh, consigo não há perigo.

GASPAR (rindo) – Não há perigo? É precisamente o perigo que meu pai previu.

MINA – Então adeus, Gaspar. Até breve. Não se demore muito tempo.

Mina meteu-se na carruagem e pôs-se a recordar o dia.

Mais algumas semanas decorreram assim; Mina cada vez se tranquilizava mais a respeito do seu futuro; Gaspar cada vez se afeiçoava mais à mulher; começava a achar neste afecto e no que dedicava ao pai a calma que por tanto tempo procurara; tinha menos dessas agitações, dessas inquietações que noutros tempos o entristeciam e, no entanto, sentia que ainda lhe faltava qualquer coisa para atingir o almejado fim.

Féréor tornava-se cada vez mais diferente, do que fora; a reserva e a frieza que lhe eram habituais tinham sido substituídas pela afeição e pela indulgência. Mina dava por essas modificações e contava cada vez mais fazer-se amada pelo marido.

Certo dia em que voltava do chalet de azevinhos, onde Féréor e Gaspar passavam a tarde, como de costume, reflectiu nos progressos que fizera no coração de ambos.

cCreio – pensou – que hei- de ser muito feliz. Meu pai já me estima, como é fácil de ver; minha mãe também e Lucas igualmente. Eu também os

amo deveras; são tão bons! Gaspar… esse, sim, inquieta- me; é verdade que é muito bom para mim. Quer reparar o que fez antes de casarmos. Diz- me coisas muito amáveis; parece estar contente comigo, mas não sei se gosta de mim como meu pai… Não, não me estima tanto; não é como os maridos das mulheres que eu conheço. Para mais, tratam- se por tu e eu e Gaspar não; depois, dão os bons-dias e as boas-noites, beijando-se, e Gaspar não me beija. Em resumo: permanecem juntos e Gaspar pôs-me no outro extremo da casa, o mais longe possível dele. Assim, terei de pedir licença a Gaspar para colocar uma cama no meu quarto para a minha ama, porque tenho medo de ficar sozinha no meu excelente aposento… E é magnífico tal aposento. E Gaspar que o tinha preparado para uma mulher feia, má… e corcunda talvez! Ah! ah! ah! Como deviam ter ficado pasmados quando me viram, pois sei que sou bonita! Gosto muito do meu rosto e da minha estatura! Se tiver filhas, desejo bastante que se pareçam comigo. E os rapazes devem parecer-se com Gaspar… pois é elegante. Gosto muito da sua figura; possui um ar distinto. E depois, é de boa estatura e bela presença. Se pudesse amar-me um bocadinho!… Muito, seria melhor… E se teima em não me querer, serei muito infeliz. Di-lo-ei a meu pai; talvez me conforte, pois gosta muito de mim. E ficarei sempre com ele e não com Gaspar. É mau para Gaspar. Que lhe fiz eu? Foi minha a culpa se me forçaram a casar com ele? Porque consentiu? Para me tornar infeliz? Não é bonito! É uma péssima acção, e contudo, tinha pena de não o amar. Eu também fui obrigada a casar, ejá comeÇo a gostar dele.

O resultado das suas reflexões foi um dilúvio de lágrimas. Desceu a carruagem, chorando como uma Madalena; os criados que a receberam, ficaram muito admirados e acusaram os patrões de crueldade para com a sua encantadora patroa, pela qual já se interessavam. Foram prevenir a ama e a despenseira; esta veio saber o que acontecera, se a senhora estava doente.

MINA – Não, senhora; agradeço a sua bondade. Estou muito bem; simplesmente…

SR. A BONJEAN – Perdoe, minha senhora, mas sinto-me apoquentada por ver a patroa tão desgostosa. Há muito tempo que estou cá em casa; é, pois, muito natural que me comece a interessar pela minha nova patroa.

MINA – Obrigada, querida senhora. Estou bastante satisfeita por me demonstrar amizade. Sinto-me reconhecida por me estimar. Meu Deus, meu Deus, como sou infeliz!

A despenseira, sensibilizada com as lágrúnas de Mina, não sabia como consolá-la; preveniu a ama, a Sr. a Gauroy, que foi para junto de Mina inquirindo:

– Que tens, minha filha? Minha querida menina, porque choras tão amargamente?

MINA – Minha ama, minha querida ama. Sou muito infeliz, pois Gaspar não me tem amor.

Como a ama não sabia o que se havia passado, nada pôde dizer para a persuadir do contrário; imaginou que Gaspar tivesse sido duro e malcriado para a sua querida menina e detestou-o mais um pouco do que anteriormente.

As horas passaram. Mina, fatigada de muitas noites agitadas e da recente dor, adormeceu na poltrona. Ainda dormia quando Gaspar entrou precipitadamente. Soubera pela Sr. a Bonjean tudo quanto se passara e o estado de desolação de Mina ao voltar. Gaspar e Féréor ficaram consternados com tão grande desgosto de que não percebiam bem a razão.

– Vai, meu filho – disse Féréor -, corre para junto dela; tenta captar-lhe a confiança e que ela te confesse o que a pôs nesse estado.

Assim, Gaspar entrou nos aposentos de Mina, que dormia. Parou defronte dela e contemplou por largo tempo essa atitude graciosa, esse encantador semblante que tinha ainda vestígios das lágrimas choradas. Gaspar ajoelhou junto dela e beijou-lhe meigamente a mão que lhe amparava a cabeça, lamentando:

– Pobre pequena!

Tais palavras, embora proferidas em tom baixo, acordaram Mina. Soltou um grito ao ver Gaspar, que a reteve na poltrona, indagando:

Mina, querida Mina, que tem?

MINA – Um grande desgosto, Gaspar.

GASPAR – E porquê, querida filha? Que fiz eu, meu Deus, para assim a afligir?

MINAGaspar, o meu querido Gaspar… não me tem amor.

GASPAR – Eu não lhe tenho amor! Que pode permitir- lhe tal ideia?

Mina referiu-lhe as reflexões que fizera e o resultado a que chegara.

À medida que Mina lhe descrevia os agravos dele recebidos, o rosto de Gaspar iluminava-se; confessou-lhe os seus verdadeiros sentimentos, a

ternura que lhe dedicava, o ardente desejo de lhe

provar a sua viva afeição e obter a dela. Prosseguiu:

– Farei como os maridos que conheces, minha

querida mulherzinha; tratar-te-ei por tu, permanecerei junto de ti; dar-te-ei os bons-dias e as boas-noites, beijando-te; farei tudo quanto quiseres; terás a minha confiança, dar-me-ás a tua e hás-de prometer nunca mais duvidar da minha ternura.

MINA – Não, nunca mais, meu amigo. Serei

feliz e já não chorarei.

GASPAR – E tratar-me-ás por tu, visto quereres que te trate também por tu?

MINA – Sim, Gaspar… peço-lhe… isto é, mandas chamar a minha ama?

GASPAR – Sim, querida filha, vou buscar-ta.

MINA – E voltarás com ela.

– Sr. a Gauroy, querida Sr. a Gauroy -bradou

Gaspar, agarrando e apertando as mãos da ama -, minha mulher chama-a; está muito contente comigo; acredita, finalmente, em que eu a amo de todo o meu coração.

A Sr. a Gauroy apertou também as mãos de Gaspar, com lágrimas nos olhos, e acompanhou-o aos

aposentos de Mina.

– Minha boa, minha querida ama – exclamou

Mina, correndo para ela e lançando-se-lhe nos braços-, ama-me, trata-me por tu: ficará junto de

mim, beijar-me-á a todos os momentos; confiará em

mim e eu confiarei nele.

GASPAR – E como não te dei os bons-dias esta

manhã, dou-tos agora na presença da tua ama.

E Gaspar cingiu-a nos braços e beijou-a ternamente.

A Sr. a Gauroy chorava de alegria; também apertou nos braços o marido da sua menina. Gaspar deixou-as, anunciando que ia sossegar o pai, que estava inquieto com o desgosto de Mina.

GASPAR – Pronto, meu pai. Está tudo harmonizado; a fonte das lágrimas de Mina estancou. Confessei-Lhe a minha ternura, a minha ventura: imagine que julgava que eu não a amava.

Gaspar contou minuciosamente ao pai os tristes pensamentos de Mina, a conversa que com ela tivera e o resultado obtido.

-As três provas de uma afeição sincera são, pois, tratá-la por tu, permanecer junto dela e beijá-la de momento a momento.

Féréor riu de vontade.

– Estás disposto a conceder-lhe essas três provas infalíveis?

GASPAR – Absolutamente disposto, pai. Lamento apenas deixar a sua companhia.

FÉRÉOR – A que vais ter vale bem a que perdes. Pensa bem que isso não podia durar sempre. Era grosseiro e insultuoso para ela. Tens agora a tua felicidade completa.

GASPAR – Sim, meu pai, e sempre graças a si. Não receie, querido, excelente pai, que esta ternura, nascida ontem, diminua em nada a que lhe dedico e que nasceu da gratidão; cresceu comigo, é a minha primeira afeição; não pode extinguir-se nem enfraquecer. O meu novo sentimento por Mina só pode desenvolver o primeiro, o primeiro que me fez sentir que eu possuía um coração!

-Compreendo-te perfeitamente, meu filho, e não tenho medo; Mina, tanto para ti, como para

mim, acaba a nossa educação nesse sentido. E agora, Gaspar, vai tratar da tua mudança; não tens muito tempo antes do jantar.

O rapaz deixou o pai e foi procurar a Sr.a Bonjean para vir ajudá-lo na muda; ficou surpreendido ao encontrar lá Mina.

GASPAR – Tu aqui, Mina?

MINA – Sim, Gaspar. Vim visitar a Sr. a Bonjean, que teve a bondade de se interessar pelo meu desgosto. Era justo que viesse anunciar-lhe a minha felicidade. Já lhe contei tudo; achou que eu tinha razão e que tu procederas mal; não é assim, Sr.a Bonjean?

SR.aBONJEAN – Decerto, minha querida senhora, e hei-de ralhar-Lhe quando o encontrar sozinho.

MINA – Ah ah ah Vais ser repreendido! É bem feito, por me haveres feito chorar tanto!

Gaspar contemplava-a e sorriia, dizendo:

– Minha querida Sr.a Bonjean, venho pedir-lhe que me ajude a mudar.

SR.a BONJEAN – Bem sei, bem sei; a senhora preveniu- me. Deixe isso a meu cargo e a cargo da Sr.a Gauroy: arranjaremos tudo.

MINA – E eu? Imagina que vou ficar de braços cruzados enquanto vocês se vão cansar a levar livros e roupas?

GASPARMina, querida pequena, vais-te fatigar; não estás habituada a este género de trabalho.

MINA – Não estou habituada? Mas eu tratava dos arranjos da casa com a minha ama: não éramos ricos; apenas tínhamos para nos ajudar uma jornaleira, uma viúva desagradável como eu.

Mina riu com gosto. Gaspar sorriu.

– Mazinha! Exploras o segredo que te confiei.

MINA – Bonito segredo! Há-de ser conhecido de toda a gente.

E prosseguiu:

– Íamos ao fim do mundo, a minha ama e eu: cozinhávamos, tratávamos do serviço caseiro, lavávamos e engomávamos as nossas roupas. E apenas tinhamos seis mil francos por ano para todas as despesas.

GASPAR – Oh! Mina, Mina! Pobre criança! Se eu conhecesse a tua desgraçada situação!

Mina lançou-se nos braços do marido.

– Já não serei infeliz, querido Gaspar, porque me amas e teu pai também.

Uma lágrima de Gaspar caiu nas faces de Mina.

– Oh! Gaspar, meu bom Gaspar! Não chores a minha vida passada; de contrário, vou chorar também.

Gaspar beijou-a, mas estava deveras comovido para poder falar.

MINA – E agora vou ter com a Sr.a Bonjean por causa da tua mudança. Porque se foi embora sem mim?

GASPAR – Porque é muito discreta; notou que ias falar-me em coisas íntimas.

MINA – Não devia ter falado diante dela?

GASPAR – Não, querida filha. Tudo quanto disseste, devias dizê-lo só a mim.

MINA – Serás o meu amigo perfeito. Poderei dizer-te tudo o que penso, tudo o que fiz, tudo o que desejo.

GASPAR – Tudo, minha amiga, tudo.

MINA – Então, vou dizer-to depressa… Não me ralharás? Não te zangarás se te pedir de mais?

GASPAR – Fala, minha filha, fala. Nada te recusarei.

MINA – Nesse caso eu tinha vontade de possuir um piano e músicas; gosto tanto de tocar! Tive algumas, mas poucas. A minha pobre ama comprava-mas com as suas economias, que não eram grandes, como podes calcular.

GASPAR – Como? É isso que hesitas em pedir-me? Amanhã encomendarei um piano de Pleyel.

MINA – E outra coisa, meu amigo. Queria ter algum dinheiro para distribuir pelos pobres.

GASPAR – Tanto quanto queiras, minha boa e excelente mulherzinha. Quanto queres?

MINA – Podes dar-me… vinte francos? É muito? – acrescentou, ao notar a surpresa do marido.

GASPAR – Muito? Mas, minha filha, isso nada é. Que queres fazer com vinte francos?

MINA – É muito, Gaspar. Eu e a minha ama faziamos fatos para os pobres; comprávamos- lhes pão, manteiga, lenha; adquire-se muita coisa com vinte francos! E ficavam tão contentes quando lhes levávamos tudo isso!

GASPAR – És um anjo. Depois de feita a minha mudança, dar-te-ei mil francos que renovarei quando esses se acabarem.

MINA – Mil francos?! Como és bondoso, Gaspar! Devem durar-me um ano ou mais, pelo menos assim o espero.

GASPAR – Não, Mina; sou demasiado rico para dar tão pouco. Dá sempre e quando haja necessidade; não me poupes a bolsa, que é a tua.

MINA – O quê?… Poderei dar dez mil francos por ano?

GASPAR – Não dez mil, mas cem mil, duzentos mil e até mais. Para quê aumentar a nossa riqueza já demasiado considerável?

MINA – Meu bom, meu querido Gaspar! Deus te abençoará e recompensará. Amo-te, Gaspar!acrescentou, lançando-se-lhe nos braços. – Quantos pobres deixarão de sofrer, graças a ti, à tua caridade! Vou depressa dizê-lo à minha ama.

Mina partiu, a correr. Gaspar ficou pensativo. Foi um anjo que Deus me deu! Será o meu bom anjo; conceder- me-á o que faltou até agora: a caridade. À medida que mais a amo, sinto-me melhor, mais disposto a praticar o bem, mais indulgente, mais meigo. Meu Deus! Quantas censuras não mereço! Quantas acções más na minha existência! Que ambição! Que egoísmo! O meu primeiro prazer data da minha ternura pelo meu pai adoptivo. Senti-me outro quando amei alguém. E agora sinto o meu coração expandir-se, encher-se de bons sentimentos; compreendo os desgostos, os pesares do coração; compreendo até a piedade, a oração, desde que acompanhei Mina à missa; levá-la-ei lá muita vez; a oração faz bem; deixa em nós qualquer coisa de suave, de agradável, que eu desconhecia até agora, E, acabando estes pensamentos, Gaspar orou a Deus intimamente para que lhe perdoasse a indiferença passada e o tornasse melhor para o futuro. Olhou em volta do quarto e não viu nem um Crucifixo, nem uma imagem da Virgem; no entanto, avistou a um canto do quarto uma almofada colocada aí

para ajoelhar diante da pequena mesa. Em cima dessa mesa estava uma caixa de forma estranha. Abriu-a e deparou-se-Lhe um modesto Crucifixo de madeira, uma estatueta da Virgem, um rosário de luxo, um livro de missa e um retrato em miniatura, que lhe pareceu o da própria Mina, mas envelhe cida.

Gaspar adivinhou que era o da mãe dela; ajoelhou; beijou umas poucas de vezes essa encantadora imagem; osculou também os pés do crucifixo e ia a colocá-lo no seu lugar, quando Mina surgiu. Soltou um pequeno grito alegre e, correndo para Gaspar

tomou-lhe a cabeça nas mãos, persignou- o na testa e beijou-o.

– Sê bendito, meu Gaspar; bendito por mim Mi pelo meu coração, por minha mãe e pelo bondoso Deus. Sinto- me feliz, meu amigo, por te ver rezar; se quiseres, rezaremos juntos a nossa oração da tarde; a da manhã é impossível, porque me levanto cedinho, enquanto tu ainda dormes provavelmente, mas nada nos impede de rezar a da tarde.

GASPAR – Desde hoje, meu bom anjo da guarda, desde esta tarde orarei a teu lado… E mandarei instalar aqui um oratório mais conveniente e mais cómodo para as nossas orações da tarde… e da manhã, pois não sou tão preguiçoso como imaginas.

MINA – Ainda bem! A tua mudança vai muito adiantada, meu amigo; restam apenas os teus papéis, em que não quis que tocassem.

GASPAR – Fizeste bem; anda ajudar-me a pô-los em ordem e a transportá- los.

Mina, muito orgulhosa por ser chamada para coisas desta importância, acompanhou Gaspar e começou a arrumar. Quando acabaram, perguntou-lhe se podia dar uma olhadela ao quarto do sogro.

MINA – Queria formar uma ideia sobre o quarto dele e saber se está bem instalado.

GASPAR – Entra, minha filha, entra; nunca está aqui a esta hora. Vou levar a minha última papelada.

Mina visita o quarto do Sr. Féréor

Piano e música

Mina entrou nos aposentos de Féréor; examinou demoradamente os móveis, os objectos. Depois de haver visto tudo, notou a falta de um Crucifixo e da imagem da Virgem.

Pobre pai! – pensou. – Não é crente como o Gaspar. Mas nós lhe faremos amar o bondoso Deus; oraremos muito por ele

E, ajoelhando-se aos pés da cama de Féréor, orou com fervor para que o seu bom pai amasse Deus acima de todas as coisas.

Enquanto rezava, Féréor entrou nos aposentos e ficou estupefacto ao ver Mina de joelhos junto da cama.

Mina – indagou, acercando-se e tentando meigamente levantá-la. – Mina, minha filha, que estás aqui a fazer? Que acaso te trouxe a este quarto?

Mina ergueu-se; tinha os olhos húmidos, a fisionomia grave; tomou a mão de Féréor nas suas e respondeu:

– Meu pai, desejei conhecer-lhe o quarto a fim

de o acompanhar pelo pensamento. Quis orar por si

nos seus aposentos. Rezei ardentemente pela sua

bondade, não só neste mundo, mas no outro. Pedi a

Deus que lhe enchesse o coração com o seu amor, e

aumentasse em si o espírito da caridade; e agora

peço-lhe, meu pai, o benfeitor de meu querido marido, que me abençoe; ainda não recebi a sua bênção. Gaspar ama-me agora, e a sua ternura fez de mim sua verdadeira filha.

Mina ajoelhou diante de Féréor, beijou ternamente a mão paternal que devia abençoá-la e recebeu essa bênção de cabeça inclinada, de lágrimas nos olhos e com o júbilo no coração.

-Que Deus te abençoe… , como te abençoo;

sim, abençoo-te do fundo do coração, onde conquistaste o teu lugar perto do meu querido Gaspar.

Agradeço-te, minha filha, teres vindo orar ao meu

quarto por mim. A tua benéfica influência me dará, espero-o, o coração cristão que me pedes e o espírito de caridade que me faltou até agora, devo confessá-lo.

A findar tais palavras, Féréor levantou Mina e

cingiu-a ao coração.

– Agora, querida filha, deixa-me só; tenho que

fazer. Manda-me Gaspar: preciso dele.

Mina correu em busca do marido.

– Meu pai não demonstrou descontentamento

por haveres entrado nos seus aposentos? – indagou

Gaspar, inquieto.

MINA – Pelo contrário, agradeceu-me, abençoou-me. Foi tão indulgente para mim! Os seus olhos fitavam-me com ar bondoso! Quase chorava quando me beijou, depois de me haver abençoado. Mas vai depressa, Gaspar. Teu pai está à tua espera ansiosamente.

– És um anjo – volveu o marido, saindo.

Féréor contou ao filho, comovido, o encantador e piedoso pensamento de Mina.

– Não é apenas ternura que sinto por esta amável menina, é também estima; e quando a conhecermos melhor, já não me admirarei se ambos tivermos um sentimento de respeito por esta criança tão boa e tão crente.

Gaspar ficou satisfeito ao ouvir falar assim o pai; o trabalho também se ressentiu. Féréor nada disse, porque também por várias vezes fora distraído pela lembrança dessa bondosa menina que orava por ele.

Na manhã seguinte, Mina foi à missa, na companhia do marido. O dia passou-se como o anterior; apenas Mina os não acompanhou à fábrica. Correu ao portão a esperá-los quando voltaram, e já não deixou Gaspar, mesmo quando trabalhava. Observou o género de ocupação a que se entregava e que ele lhe explicou. Nada disse, mas no dia seguinte, quando Gaspar quis pegar nas últimas páginas, encontrou as contas feitas.

Ao ver o pasmo do marido, Mina desatou a rir, explicando:

– Fui eu que vim em teu auxílio, meu amigo. Antes de casar, o pai mandava-me muitas vezes fazer as contas das oficinas e as verificações dos livros; e nunca me enganava; se meu pai encontrasse algum erro, ralhar-me-ia sem contemplação alguma. Assim, podes confiar-me todo esse trabalho; dar-me-ás grande prazer em proporcionar-me os meios de prestar serviço ao meu pai e a ti. E quando digo meu pai, refiro-me ao teu e não ao meu.

Alguns dias depois de Mina haver pedido um piano, avistou um, encantador, de pau-rosa incrustado de nácar e marfim e uma bonita estante do mesmo gosto cheia de livros de música que Mina tanto desejava e Gaspar mandara instalar na sala de visitas da mulher.

MINA – Piano! Música! Como te agradeço, meu amigo! Que belo piano! Que bonitos embutidos! Vou experimentá-lo depressa para ver se é tão bom como bonito.

GASPAR – Encomendei-o igual à dona: perfeito sob todos os aspectos.

– És lisonjeiro, Gaspar – tornou Mina, sorrindo. – A dona tem muitos defeitos.

GASPAR – Quais? Não tos conheço.

MINA – Primeiro: ser exigente; querer possuir todo o teu coração, todos os teus pensamentos, todo o teu tempo e eu sei ser isso impossível.

GASPAR – Salvo o tempo, que só me pertence em parte, tens tudo o que querias, minha encantadora mulherzinha.

Mina sorriu-lhe e abriu o piano.

Logo às primeiras notas, Gaspar reconheceu-lhe superior talento; executou diversos trechos, que Gaspar ouviu com desvanecimento. Depois, pôs-se a cantar; a sua voz cheia, sonora tinha um timbre doce e suave. Gaspar ouvia-a sem se cansar; por fim, Mina parou.

GASPARMina, minha amiga, canta, continua a cantar.

MINA – E o teu trabalho?

GASPAR – Fá-lo-ei esta tarde, esta noite, seja quando for; peço-te que continues a cantar.

MINA – Acedo porque o teu trabalho está feito. Estive no teu escritório; encontrei os teus livros

e, enquanto andavas pelas oficinas com meu pai, dei conta de tudo.

GASPAR – Assim, és a minha providência! Sabes tudo, fazes tudo, ajudas-me em tudo.

MINA (rindo) – É para te fazer aceitar a fatalidade de teres sido obrigado a casares comigo… Nada respondas, Gaspar, nada digas; vou cantar.

E Mina entoou a famosa ária: Di tanti palpiti, etc. Apenas acabou, aplausos e bravos se faziam ouvir na rua; Mina correu à janela que ficara aberta por causa do calor, e viu muita gente aglomerada no pátio do palacete. À vista de Mina, os aplausos redobraram; distinguiam-se algumas palavras soltas: encantadora, deslumbrante. Mina, pasmada e não pensando de modo algum que tais elogios lhe eram dirigidos, procurava descobrir o que poderia ter provocado tal entusiasmo; Gaspar também se abeirou da janela e reconheceu muitos rapazes da cidade que o cumprimentaram. Gaspar retribuiu o cumprimento e tirou Mina da janela, dizendo:

-Era a ti que aplaudiam, Mina. De futuro, querida Mina, fecha a janela quando quiseres cantar. Não gosto que toda esta gente se permita aplaudir-te e fazer-te repetir.

MINA – Por Deus, Gaspar, acalma-te! Se soubesses como tens um ar mau… e, contudo, amo-te assim mesmo, querido Gaspar.

Um criado bateu à porta.

– Entra – bradou Gaspar com voz forte.

– Alguns rapazes pedem para serem recebidos pelos senhores.

– Que vão passear – retorquiu Gaspar, enco lerizado. – Diz-lhes que a senhora não recebe e

que o patrão está a trabalhar e também não recebe pessoa alguma.

O criado retirou-se. Mina aproximou-se o mais possível do canapé em que Gaspar se sentara; deixou-se cair de joelhos junto dele e tomou-lhe a mão. Com voz tímida, inquiriu:

-Meu amigo, porque ficaste zangado? Causaste-me medo; julgava-te tão bom!

– Perdão, mil vezes perdão, minha querida Mina. Não passo de um doido e não sei que mosca me mordeu! Não tenhas medo de mim, suplico-te; não voltarei a ser ciumento por te ver aplaudida por estranhos.

Não tardaram a fazer as pazes, e Gaspar cumpriu. Habituara-se a resistir aos impulsos íntimos e dominou o seu ciúme. Depois de jantar, confessou-se ao pai na presença de Mina, que atenuou as injustiças de Gaspar e, a si própria, se acusou de imprudente. Féréor troçou um pouco de Mina, muito de Gaspar e acabou por pedir a Mina que cantasse.

Sentou-se ao piano, cantou admiravelmente e aguardou a opinião do sogro, que não dizia palavra; levantou-se, abeirou-se de Féréor e viu que dormia como um justo.

– Dorme – volveu baixinho e rindo.

– Está sempre tão cansado, o pobre pai! À noite não pode mais.

E Mina sentou-se no canapé junto do marido e começou com ele uma animada conversa.

Às dez horas era o momento de Féréor se deitar. Gaspar, que nunca esquecia os hábitos do pai adoptivo, levantou-se ao ouvir soar o relógio e olhou

meigamente Féréor. Quando este abriu os olhos, viuGaspar à direita e Mina à esquerda.

-Como lhe pareceu que eu tivesse cantado, meu pai? – inquiriu Mina, rindo.

Esta pequena malícia acabou de despertar Féréor. Tomou o braço de Gaspar; Mina acom panhou-os. Os filhos beijaram o pai e retiraram-se para os seus aposentos.

Cruel separação

Decorridos alguns dias, Mina teve um desgosto. Féréor anunciou-lhe que levava Gaspar para uma digressão de oito dias, a fim de tomar posse das

terras que constituíam parte do seu dote. Mina ficou consternada, chorou até; mas Féréor permaneceu inflexível e o próprio Gaspar lhe mostrou a necessidade de tal viagem.

– Meu pai – pediu Mina -, visto ficar sem o pai e sem o marido, dê-me licença de ir passar estes dias na casa da fábrica e na de minha mãe. Estarei sob a protecção dos seus bons espíritos ou, então, sob a da mãe e do irmão de Gaspar. Aqui, teria medo; não me atreveria a sair; recearia que meu marido… Enfim, ficarei melhor junto da minha ama e da minha sogra.

– É boa ideia, minha filha. Agrada-me e vejo que dá prazer a Gaspar. Partiremos depois de amanhã, cada qual para o seu destino. Tomarás a carruagem a fim de te dirigires à fábrica, enquanto nós tomaremos o comboio.

– Obrigado, meu anjo – agradeceu Gaspar, beijando-a. – Evitas-me grandes cuidados.

FÉRÉOR – E fica sabendo, minha filha, que durante a nossa ausência serás a soberana do palacete e da fábrica e que poderás dispor de tudo e ordenar o que te apetecer.

MINA – Obrigado, meu bom pai. Não usarei muito da minha autoridade: todos aqui adivinham os meus desejos; são demasiado bons para mim, que não tenho utilidade alguma.

FÉRÉOR – Fizeste um paraíso da minha casa, minha filha, e já não é pouco.

O dia da separação foi triste para Mina. Em primeiro lugar, o marido não pôde acompanhá-la à missa, porque tinha muito que fazer antes dessa ausência de oito dias. No resto da manhã mal o viu, pelo mesmo motivo. Durante a última refeição em comum, Mina não deixou de chorar. Féréor e Gaspar bastante se esforçaram por animá-la, mas nada conseguiram.

FÉRÉOR – Mas repara, minha pobre filha, que a demora é apenas de oito dias, e oito dias bem depressa passam.

MINA – Sim, meu pai, quando passaram, mas quando estão para vir?

FÉRÉOR – E depois, olha para a cara de Gaspar e vê quanto o entristeces com esse despropositado desgosto.

MINA – Perdoa, meu bom Gaspar. Tens razão: é uma tolice; ficarei muito bem, verás, e o pai ficará

contente comigo. Primeiro vou visitar a minha sogra, a quem ajudarei nos amanhos da casa, e irei passear com minha ama e Lucas. Irei visitar o Sr. Abade, que me levará a casa dos pobres… Ai, meu Deus! Já não tenho dinheiro! A minha ama emprestou-me ontem dez francos e dei-os à mulher

de um pobre homem que morreu afogado há oito dias e a casa de quem me acompanhou o Sr. Abade. Chorava que causa dó, essa pobre mulher. Chorei com ela; só pude dar- lhe dez francos. Tem dois filhos tão bonitos!

GASPAR – Minha querida, porque me não pediste dinheiro? É mister que nunca te falte. Meu pai, permite que diga na caixa para darem a Mina tudo quanto ela pedir?

FÉRÉOR – Decerto, meu filho; as nossas ordens nunca se contradirão.

MINA – Obrigada, pai; obrigada, querido Gaspar. Praticarei a caridade em nome de ambos e

farei com que todos orem por si e por meu marido. Uma coisa que me vai faltar é o piano, especialmente na ausência de Gaspar. Tocaria e cantaria todas as noites os trechos de que ele tanto gosta. Pensarei em ti, meu Gaspar, e contarei as horas que ainda nos separam.

GASPAR – E, sobretudo, não te aflijas.

MINA – Não, não; vai sossegado; compreendo que oito dias depressa passam.

Terminara o almoço. Foi preciso tratarem dos preparativos da viagem. Gaspar subiu com Mina, enquanto Féréor dava as suas últimas ordens. Mina desatou a soluçar, quando deu o último beijo a Gaspar; não podia resolver-se a deixá-lo.

GASPAR – Minha boa Mina, prometeste ter coragem e apoquentas-me com a tua aflição. Que há-de ser de mim longe de ti, sabendo-te apoquentada como se nunca mais nos tornássemos a ver?

MINAGaspar, meu querido Gaspar, terei juízo, prometo; em primeiro lugar, deixo-te ir… (desprendeu os braços do pescoço do marido) e depois, ponho o chapéu e parto. Minha ama, partamos.

GASPAR – A tua ama espera-te lá em baixo.

Mina ainda apertou o marido nos braços e desceu, amparada por ele. Beijou Féréor, que também descia; este fê-la subir para a carruagem, depois de a haver deixado beijar mais uma vez o marido; a ama subiu atrás dela, a carruagem rodou e Mina pôs- se a chorar; a ama, porém, soube animá-la, encorajá-la, distraí-la e Mina chegou à fábrica menos chorosa. Foi recebida amavelmente por André e pelos primeiros empregados; instalou-se no quarto ocupado por Gaspar quando lá ia; tinha recusado o de Féréor, que André lhe oferecia. Depois de haver ajudado a ama a arrumar tudo, pediu-lhe que a acompanhasse a casa da sogra. Chegaram no momento em que Lucas ia seguir para o campo. Mina correu para ele.

– Sou eu, Lucas – disse, beijando-o. – Oh! Lucas, se soubesse como sou infeliz!

LUCAS – Infeliz, irmãzinha? E porquê?

MINA – Está a rir-se, Lucas? Isso não está certo, porque sou realmente infeliz! Gaspar partiu… com meu sogro…

LUCAS – E depois?

MINA – Depois há-de voltar… daqui a oito dias.

LUCAS – Mas nada disso me explica o motivo

por que é infeliz, querida irmãzinha.

MINA – Pois não compreende? Porque são oito

dias sem ver o Gaspar.

LUCAS – E só por isso? Ah! ah! ah! Pobre

irmãzinha! Ah ah ah Querida cunhada, está indignada por me ver rir, mas afianço-lhe que isso não tem senso nenhum. Que são oito dias? Isso há-de acontecer-lhe frequentes vezes. Quem tem negócios, como Gaspar, há-de ausentar-se de quando em

quando.

MINA – Mas, meu Deus! Que vai ser de mim se

Gaspar me deixa muitas vezes sozinha?

LUCAS – Há-de habituar-se, querida irmã.

Agora não chore e vamos ter com minha mãe, que

está no jardim. A senhora que a acompanha vem

também?

MINA – Decerto; é minha ama, a Sr. Gauroy, i que me educou, que me estima como filha; não é verdade, minha ama?

AMA – Tu bem sabes, querida filha.

Encaminharam-se todos para o jardim, onde encontraram a tia Tomás colhendo ervilhas para o jantar.

MINA – Boa tarde, minha mãe; vimos ajudá-la, minha ama e eu. Vou passar alguns dias na fábrica, na ausência de Gaspar, que me deixou sozinha durante oito dias, e estou bem triste, minha mãe.

MÃE – Porquê, minha filha?

MINA – Mas, minha mãe, por não ver Gaspar

durante oito dias.

MÃE – Não há motivo para estar triste, minha

filha.

MINA – Sempre são oito dias, mãe!

MÃE – E que tem isso? Oito dias passam-se depressa.

Mina sentiu que esta repetição do raciocínio de Lucas representava a verdade da sua situação e arrependeu-se de haver inquietado e desgostado o marido por não ter sabido ser razoável. Resolveu de futuro ser mais animosa.

As ervilhas depressa foram apanhadas. Lucas voltara ao seu trabalho. Mina passou a tarde a ajudar em diversos trabalhos da quinta; voltou à fábrica para jantar; as primeiras coisas que viu foram o piano e as músicas. Soltou um grito de alegria e perguntou:

– Como vieram para aqui?

ANDRÉ – Foi o patrão que me deu ordem para os mandar buscar, a fim de a senhora os ter aqui antes de jantar.

MINA – Bom Gaspar! Como é atencioso! Obrigada, André. Quem o trouxe?

ANDRÉ – Os operários. Foram buscá-lo, minha senhora, e trouxeram-no com grande cuidado, segundo as ordens do patrão.

MINA – Agradeça-lhes por mim, meu bom André, e dê- lhes esta moeda de vinte francos. Parece-lhe bem? Meu marido diz-me sempre que não dou bastante.

ANDRÉ – É boa paga, minha senhora. Vão ficar muito satisfeitos. Não deixarão de receber o seu dia. É tudo ganho para eles.

MINA – Obrigada, André! Fizeram jantar para mim? Estou com fome.

ANDRÉ – Sim, minha senhora; o cozinheiro está aqui. E para a servir, é Félix, aquele que serve o patrão, que ficará às ordens da senhora e a quem eu auxiliarei se a senhora quiser.

Mina comeu pouco; estava triste; à noite tocou piano, cantou, escreveu uma carta a Gaspar, orou, chorou, deitou-se e adormeceu para só acordar às sete da manhã.

Levantou-se à pressa, vestiu-se e saiu com a ama para ouvir missa. Depois foi ter com o abade, falou-lhe dos pobres, soube com pesar que havia muitas familias verdadeiramente necessitadas, fez-lhas indicar e pediu ao abade que fosse almoçar com ela, a fim de a acompanhar nessas visitas.

MINA – Será uma vantagem tanto para si como para mim, Sr. Abade: aproveitar-me-ei da sua companhia e o Sr. Abade ganhará o coração dessa pobre gente, que saberá ser a si que devem certo bem-estar.

ABADE – Mas, menina, não sei a que devo este gracioso convite e aonde tenho de me dirigir para o aceitar.

MINA – À fábrica, a casa de meu sogro e de meu marido, que estão ausentes. Já não sou menina; sou a mulher de Gaspar Féréor.

ABADE – A senhora? Mas é mais do que sua mulher; afigura-se-me ser o seu anjo bom! Tinha ouvido falar, pelos operários da fábrica, da sua bondade e da sua piedade, mas ignorava que fosse a Sr. a Féréor a quem tenho a honra de conhecer pessoalmente e estar a falar.

Mina repetiu o convite, dizendo, ao sair:

– Ao meio-dia, sim, Sr. Abade?

O prior foi pontual e respondeu às inúmeras perguntas que Mina lhe formulou; a mulher de Gaspar soube com pena que nem o sogro nem o marido se importavam com os pobres da região e arredores.

MINA – E, contudo, Gaspar é bondoso; deu-me mil francos para os pobres logo nos primeiros dias após o meu casamento e disse-me que eu podia dar quanto quisesse, cem, duzentos mil francos.

ABADE – É que antes da senhora, não pensara nisso, e a sua caridade acordou a dele.

MINA – Não a deixarei adormecer, Sr. Abade esteja certo. Iremos socorrer todos os pobres; dar-Lhes-emos trabalho, roupa, casa, lenha, pão. Exigiremos que os filhos vão à escola e ao catecismo. Estabeleceremos irmãs de caridade, sala de asilo e muitas outras casas; será o meu primeiro ministro e peça sem cerimónia: verá como meu marido é bom e generoso para mim. E o Sr. Abade pagar-lhe-há tudo isso, orando muito por ele; não será assim Sr. Abade? Peço-lhe muitas orações para ele e para meu pobre sogro, que também é bom, mas que pensa tanto nos seus negócios, que esquece Deus e os que sofrem. E gosta bem de mim, esse bondoso pai. Foi ele o primeiro a ser bom para mim, que me chamou sua filha, que me tratou por tu. E isso tudo é muito bom; não lhe parece, Sr. Abade?

O prior não pôde deixar de rir, respondendo:

– Confesso, minha senhora, que não encontro grande mérito nisso.

– É porque o senhor não sabe tudo; ignora que, quando casei com Gaspar, ele imaginava que eu era ruiva, estúpida e enfadonha. Ah ah ah Rio-me sempre ao lembrar-me dessa esquisita ideia que ele e o meu pobre pai tiveram.

O abade estava muito admirado; tal confidência

denotava inexplicável infantilidade.

ABADE – Perdoe, minha senhora, uma pergunta indiscreta. Que idade tem?

MINA – Fiz dezasseis anos há três meses.

ABADE – Sim, é isso – volveu, rindo. – Dezasseis anos! É muito nova para ser casada.

MINA – Que quer, Sr. Abade? Eu não queria;

supunha que Gaspar e o pai eram muito maus.

Disse que sim porque meu pai me tratou pior do

que nunca. Assim, estava com medo ao sair da

carruagem na conservatória. Tremia tanto, que mal

me podia suster quando Gaspar me deu o braço.

Mas estou-lhe a contar uma porção de coisas,

Sr. Abade, e está chegado o momento de irmos visitar os nossos pobres. é favor esperar-me um pouco;

vou chamar a minha ama.

Que boa e encantadora rapariga! – elogiou intimamente o padre. – Mas não passa de uma criança.

Feliz influência de Mina

As visitas de Mina foram produtivas para os pobres. A tarde do dia seguinte passou-a ela em casa da sogra. Ao voltar, ficou agradavelmente surpreendida ao ver uma carta de Gaspar. Após algumas palavras ternas, escrevia- lhe ele:

As tuas orações e o teu exemplo já nos fizeram algum bem, minha mulherzinha bem amada. Pensámos nos pobres a socorrer e nas igrejas a reparar. Contamos instalar irmãs de caridade, salas de asilo, colégios; entender-nos-emos com o Sr. Abade para fazer reinar o bem- estar e a religião em todas as nossas propriedades. A tuu oração no quarto de meu pai sensibilizou-nos mais do que podes imaginar; levaste-me a fazer reflexões que nunca havia feito. O espirito de caridade, que pediste para nós, começa a frutificar em nossos corações; o meu, pleno de amor por ti, estará também dentro em breve, espero, cheio do amor do bondoso Deus, que me doou a minha querida Mina; continuarás a tua obra e farás de mim um verdadeiro cristão. O indiferente, o egoista, o ambicioso Gaspar far-se-á substituir por um cristão arrependido… Adeus, minha bem amada; nunca poderei dizer-te quanto te amo e

quanto reconhecimento sinto por Deus e por ti! O que é casár, por dedicação ao seu benfeitor, com uma noiva estúpida e enfadonha! Daqui a seis dias já estarei junto de ti: com que ventura não cingirei ao coração a querida feiticeirazinha que nele reina sem partilha!

Mina ficou encantada com esta carta, que beijou

mil vezes e quis trazer junto ao coração. Os oito dias

de separação findaram. Mina teve de voltar para a

cidade.

Viram-na partir com vivo desgosto. A tia Tomás

teve pena dela e chorou, tanto se lhe afeiçoara devido às suas excelentes qualidades. O abade pediu-lhe instantemente que voltasse muitas vezes. Prometeu e tornou para a cidade momentos antes da chegada de Féréor e de Gaspar, esperando-os à janela.

Quando os viu entrar no vestíbulo, saltou os degraus

em vez de os descer e encontrou-se nos braços do

marido. O sogro, mais vagaroso nos seus movimentos, só se lhe juntou depois de ela haver sido abraçada por Gaspar várias vezes. Tinha tanta coisa a contar-lhe, que o pobre Féréor pediu licença e foi descansar no escritório, onde o aguardava uma porção de trabalho; era o seu repouso e a sua ocupação

predilecta. Reuniram-se à hora do jantar. A calma, o repouso, o bom ar do campo haviam restituído a

Mina a frescura da tez, que tantos abalos, dores e

lágrimas tinham alterado levemente. Féréor felicitou-a por isso. Mina referiu todas as suas generosidades, o seu emprego do tempo; falou-lhe com

tanto entusiasmo dos bons resultados da sua caridade, que Féréor ficou sensibilizado e pediu-lhe que

continuasse assim em seu nome. Beijou-a, louvou muito os cuidados e atenções que haviam tido para com ela o pessoal da fábrica e a gente da aldeia e em especial André. Gaspar não a desfitava; estava extasiado. Quando, à noite, Mina subiu para o quarto e se dirigiu com o marido para a pequena mesa onde faziam as suas orações, soltou um grito ao notar um pequeno móvel formando oratório, com um magnífico Crucifixo, uma encantadora estatueta da Virgem, uma pia de água benta e velas. Todo o móvel era esculpido, representando cenas da vida de Cristo.

– Oh, Gaspar! – bradou Mina, beijando-o com ternura. – Como és bom e amável!

Gaspar não faltou às promessas que fizera à mulher: tornou-se cada vez mais crente e mais caritativo. Procurou reparar todo o mal que noutros tempos fizera a alguns operários inteligentes. Protegeu particularmente André, que obteve de Féréor o posto de confiança, muito vantajoso, que anteriormente fora ocupado por Gaspar. Féréor, tornado melhor pelo exemplo e ternura do filho e da nora, fez-se a providência da região, de que fora o opressor. Toda a região mudou de aspecto; a igreja tornou-se pequena de mais para a população que nela se comprimia. Na aldeia não havia um único indivíduo que não festejasse a Páscoa e não soubesse ler. Gaspar criou, a conselho de Mina, para a fábrica e para a aldeia, uma considerável biblioteca, composta de livros instrutivos, interessantes e recreativos. As outras propriedades de Gaspar gozaram dos mesmos melhoramentos; a miséria era quase desconhecida. O próprio Gaspar tornou-se tão

bom filho como bom irmão; Mina continuou a ser a

nora e a irmã adorada da sogra e de Lucas, que ela

visitava amiudadamente, não deixando de ajudá-la

nos arranjos da casa. O lar de Mina foi acrescido de

dois rapazes; o primeiro tem quatro anos e o segundo dois; Féréor ama-os com ternura; é o melhor dos

avós, como tinha sido para Gaspar o melhor dos

pais. Tem oitenta e quatro anos e possui o coração

mais novo do que o tivera na mocidade; acha-se

realmente feliz desde que compreendeu o amor a Deus e ao próximo. Repete muitas vezes que deve a Gaspar a sua primeira afeição e a Mina o desenvolvimento dos sentimentos do seu coração. Mina e Gaspar amam-se como nos primeiros dias do seu

enlace. Os negócios de Féréor e de Gaspar prosperam mais do que nunca; Gaspar goza agora da sua ventura sem reserva alguma; os seus pensamentos de ambição já não vêm, como em anos passados, lançar- lhe a amargura entre as suas alegrias e êxitos.

Desde a mudança operada, sente que a riqueza e as

honras apenas proporcionam verdadeiro prazer

quando empregadas em praticar o bem.

Lucas casou há dois anos; a mulher é uma bondosa rapariga, forte, crente, activa, de constante alegria; formam excelente casal e já têm um rapagão, do qual Mina pediu para ser madrinha.

– Será do segundo, minha mãe – dizia ela à tia

Tomás, que reivindicava os seus direitos. – Dêem-me o primeiro filho de Lucas. Não é verdade que

está de acordo? Diga que sim, querido irmão; tanta

vez me disse que nada podia recusar-me!

– Minha mãe, permite que lhe dê o meu consentimento? – perguntou Lucas à mãe, rindo.

Ora repare como Mina olha para si com ar suplicante.

MÃE – Faz a vontade a Mina. Quem pode resistir-lhe?

-Querida mãe, como é bondosa! – volveu Mina, beijando-a muitas vezes. – Obrigada, meu excelente irmão – acrescentou, beijando Lucas. Assim, serei a madrinha do meu pequeno Jorge, que é o nome do meu sogro e do meu filho mais velho e será também o do meu afilhado.

Gaspar ria e ficou muito contente com esta conclusão.

– Porque não lhe deste o nome de Gaspar, querida?

-Porque para mim só existe um Gaspar no mundo e não quero que haja segundo.

Frlichein já morreu há muito tempo. Meses depois do casamento da filha, foi vítima de uma explosão ao fazer experiências químicas absurdas. Ninguém da fábrica o lamentara; Mina rezou bastante por ele, mandou rezar muitas missas para a salvação da sua alma, pela qual conservava certas inquietações, porque morreu como vivera: sempre um mau rico.

FIM

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