Written on Janeiro 24th, 2012 at 9:11 am by

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Lá estava ela, a tia Thibaut, deitada na cama, pousando o olhar triste sobre a filha, chamada Carolina, que se atarefava a rematar um vestido, que devia entregar nessa tarde à Sr. a Delmis, esposa do presidente da Câmara.

Sentado ao pé do leito, Inocente, moço de 15 a 16 anos, esforçava-se por colar as folhas soltas de um livro velho e sujo. Trabalho inútil, porquanto, mal colava a folha, logo a puxava sem esperar que secasse. Inocente recomeçava o serviço sem irritação, com uma paciência digna de melhor resultado.

– Ó Inocente – disse-lhe a mãe -, como queres segurar as folhas, puxando-as dessa maneira, sem dar tempo a secarem?

INOCENTE – Que remédio têm elas! Para verificar se estão seguras é que puxo por elas. Se puxo pelas outras e não vêm, por que razão não há- de suceder o mesmo a estas?

MÃE – É porque estão soltas, filhinho…

INOCENTE – Precisamente por isso, é que as quero colar. Preciso de um catecismo, não há que ver. Foi mesmo o Sr. Abade quem mo disse; disse-mo também a Sr. a Delmis… A Carolina deu-me o dela; mas como não é novo, quero pô-lo como tal.

MÃE – Se queres que as folhas fiquem seguras, dá tempo a secarem as que vais colando.

INOCENTE – Que faz ao caso?

MÃE – É que assim nunca mais se despegam.

INOCENTE – Se assim é, sempre as vou deixar

até amanhã, para ver o efeito.

Tendo colado todas as folhas soltas, o Inocente foi pousar o livro na mesa onde a irmã colocava a obra e os papéis.

INOCENTE – Não haverá meio de acabares com isso, Carolina? Estou com uma fome… Bem sabes que são horas do jantar.

CAROLINA – Mais cinco minutos; são mais dois

botões para coser… Assim! Pronto. Ora cá está! Vou levar o vestido, mas volto num pulo a preparar tudo. Não saias do pé da mãezinha, para lhe chegares o que te pedir.

INOCENTE – E se não me pedir nada?

CAROLINA (a rir) – Nada lhe darás.

INOCENTE – Nesse caso, prefiro ir contigo e tomar um pouco de ar. Estou aqui fechado há tanto tempo!…

CAROLINA – Mas é que a mãe não pode ficar

só… doente como está… Olha… Parece que tu é que podias ir levar o vestido a casa da Sr.a Delmis… Vou embrulhá-lo bem, põe-lo debaixo do braço, e leva-lo a casa dela; perguntas pela criada e entrega-lo da minha parte. Entendeste bem?

INOCENTE – Se entendi! Meterei o embrulho debaixo do braço, vou com ele a casa da Sr. a Delmis mando chamar a criada, e entrego-lhe o vestido do teu mando.

CAROLINA – É assim mesmo. Agora, vai num pé e vem noutro, pois, à chegada, já tens o caldinho na mesa.

Inocente pegou no embrulho e lá foi a correr. Chegado ao destino, perguntou pela criada.

– Procure-a na cozinha, meu rapaz; naquela primeira porta à esquerda – foi a resposta que recebeu de um carteiro que ia a sair.

O caminho da cozinha era bem conhecido de Inocente. Saudou à entrada, e apresentou o embrulho à Rosinha.

INOCENTE – Rosinha, aqui tem um presente, que lhe manda a minha irmã; um vestido que ela mesma arranjou. Para o ter prontinho agora à noite, teve que lhe dar.

ROSA – Um vestido para mim? Ó que gentileza a da boa Carolina! Ora mostra cá, que tal é ele?

Rosa desatou o embrulho, desenrolando um lindíssimo vestido de musselina cor-de-rosa e branco. Soltou um grito de admiração e, em agradecimento, presenteou Inocente com um beijo e com um pedaço de pudim. Subiu depois ao quarto, para experimentar o vestido, que lhe ficava como se tivesse sido feito para ela.

Muito satisfeito pelo bom desempenho do recado, Inocente deitou a correr para casa.

– Lá dei o recado, Carolina. A Rosinha ficou contente; beijou-me e deu-me este pedaço de pudim. Não me faltaram ganas de me atirar a ele, mas preferi guardá-lo para te dar a ti e à nossa mãe.

CAROLINA – Foi uma acção muito linda, Inocente; muito obrigada. Mas a sopinha está na mesa; vamos a ela.

INOCENTE – Que é o jantar?

CAROLINA – Um caldo de couves e toucinho, e

uma salada.

INOCENTE – Ora bem; gosto do caldo de couves

e da salada também; o pudim fica para o fim.

Sentaram-se ambos à mesa. Antes de começarem

a comer, teve Carolina o cuidado de servir a mãe, que

não podia sair da cama, pois sofria de paralisia geral. Inocente atirava-se à comida, como esfaimado que estava. Ninguém falava. Chegada a vez do pudim, Carolina perguntou a Inocente se fora a Sr. a Delmis quem lho dera.

INOCENTE – Qual o quê? Se nem vi tal senhora! Disseste-me para perguntar pela criada, e eu assim fiz.

CAROLINA – Então, nem ao menos sabes se a senhora ficou contente com o vestido?

INOCENTE – Verdade seja que nem nisso pensei.

Mas que nos importa que ela esteja ou não satisfeita? Foi a Rosinha que recebeu o embrulho, e foi ela que achou bonito o vestido, e que se ficou a rir e a dizer que eras uma rapariga muito amável.

CAROLINA (com surpresa) – Uma rapariga muito amável! Não fiz favor nenhum em enviar o vestido à dona!

– Disso não sei nada; repito apenas o que ouvi à Rosinha.

Carolina ficou bastante admirada com a satisfação da Rosa. E mais admirada ficou ao ver chegar o afilhadito da Sr. a Delmis, chamado Colas, todo esbaforido, à procura do vestido que ficara de ser entregue nessa mesma tarde.

CAROLINA – O vestido já para lá está há uma

hora; até foi Inocente quem o levou.

COLAS – Como a senhora o manda buscar, parece que o não recebeu.

CAROLINA (para Inocente) – Não o entregaste à

Rosinha?

INOCENTE – Sim, foi mesmo a ela que o entreguei, como tu recomendaste.

CAROLINA – Então, foi a Rosinha que se esqueceu de lho entregar. Corre depressa, Colas, e diz à senhora que o vestido já lá está, em poder da Rosinha, há uma hora.

O pequeno lá foi a correr; mas Carolina não deixou de ficar inquieta, pois receava qualquer tolice de Inocente; ele, porém, respondia a todas as perguntas invariavelmente o seguinte:

– Entreguei o embrulho à Rosinha, como tu mandaste.

Carolina pôs-se então a preparar tudo para se deitarem. Havia cinco anos que a mãe, enferma, não saía da cama, muito menos podendo ajudar a filha nos arranjos da casa; mas Carolina chegava para tudo; activa, laboriosa e ordenada, mantinha sempre a casa num estado de asseio, que fazia sobressair os velhos móveis. Com o trabalho, supria às necessidades da família, da mãe especialmente. Inocente tinha muita vontade de a ajudar; contudo, por falta de capacidade, a irmã só lhe podia confiar o serviço que fizessem em conjunto. O nome dele era Babylas; mas, tendo-se um dia metido até aos joelhos num regato abrigado por uns chorões, a fim de, no seu entender, se abrigar da chuva e evitar de molhar um fato novo que nesse dia vestira, foi alvo de grande troça dos companheiros, que lhe passaram a chamar Inocente, por, para não se molhar, se ter metido na água. A partir de então, só o trataram por Inocente, nome que lhe ficou e pelo qual até os membros da família o começaram a tratar. De rosto meigo e regular, aspecto apatetado, boca levemente entreaberta, estatura e modos desajeitados, tudo dava nas vistas e denotava um certo desarranjo mental, embora inspirando simpatia e interesse. Estava ele a ajudar a irmã a limpar e arrumar tudo, quando Carolina estremeceu ao ouvir na porta uma pancada forte.

– Entre quem é! – disse ela, perturbada.

Rosa empurrou a porta, com força, e entrou por ali dentro, de rosto afogueado pela cólera.

– De futuro, menina – disse, dirigindo-se a Carolina, espero que não voltará a repetir essa brin cadeira de mau gosto, e fazer-me zangar com a minha senhora, talvez para tomar o meu lugar.

CAROLINA – Que é que a Rosinha quer dizer? Não sei que razões de queixa possa ter de mim; nunca pensei em indispô-la com a sua patroa.

ROSA – Foi talvez para ela ficar contente comigo, que Carolina me enviou, como se fosse para mim, um vestido que era para ela, pois lho tinha dado a fazer, e de que estava à espera, não? Visto-o muito inocentemente, cuidando ser uma agradável surpresa sua, e eis senão quando me vejo interpelada pela Sr. a Delmis, minha patroa, que estava a ver não sei já quê à janela. Ao reconhecer o vestido dela, prega-me uma descompostura mestra em plena rua, e faz-me voltar para casa, a fim de despir e entregar-lhe o vestido, que Carolina me enviara de presente! Tola que fui: ainda gratifiquei com um pedaço de pudim o parvo do seu irmão, esse cúmplice da sua maldade!

CAROLINA – Muito me admira o que me conta, Rosinha. O vestido que mandei levar à Sr. a Delmis pelo meu irmão, era, naturalmente, para ser entregue à senhora, por seu intermédio; podia lá supor que a menina o ia considerar um presente de uma pobre rapariga, que mal angaria com que alimentar a família? O meu irmão também não merece recriminações pois desempenhou-se bem do recado que lhe dei.

ROSA – Bem, bem, menina! Avenha-se lá como entender, mas esteja certa de que, se pretende fazer- me despedir da casa onde estou a servir, para tomar o meu lugar, desde já a previno de que não ficará lá muito tempo. A patroa é caprichosa e avarenta; paga mal e não perde nada de vista; ralha por tudo e por nada; dá por conta as achas e as velas; fecha o açúcar, o café, os doces, o vinho, tudo, numa palavra: é uma casa de fome, de balbúrdia. E depois, com crianças sempre de um lado para outro e a incomodarem-nos constantemente… Pode lá aturar-se? Digo-lhe já, para saber com o que tem a contar.

CAROLINA – Não tenho vontade nenhuma de ir servir para casa da Sr. a Delmis, garanto-lhe. Bem sabe a Rosinha que tenho a meu cargo mãe e irmão, que não posso abandonar. Todavia, se a casa é assim má, como é que já lá está há um ano, e porque parece tão zangada só por imaginar que eu a quero fazer sair de lá? Sempre me pareceu a Sr. a Delmis boa para todos e especialmente para consigo, Rosinha; tratou-a muito bem na sua doença, cuido eu; mandou-a velar três noites, e não lhe recusava o que lhe podia ser bom e agradável. Deve-lhe gratidão, e não é falando assim dela que lhe prova o seu reconhecimento.

ROSA – Não preciso das suas lições, menina, bem sei o que devo dizer e fazer. Já vejo que sabe lisonjear a Sr. a Delmis para lhe apanhar o dinheiro; mas saberei desmenti-la e arranjar-me para, de futuro, lhe não saírem tão bem os seus vestidos. Ora espere, que pouco tempo há- de durar a sua reputação de boa costureira.

CAROLINA – Porque não haviam de ficar tão bem como dantes os vestidos, tendo eu sempre com eles os mesmos cuidados? Trabalho o melhor que sei e Deus abençoa o meu trabalho; não me retire Ele a Sua bênção, e nada mais receio.

ROSA – Pois sim, amorzinho, conte com isso; no momento próprio saberei dar-lhe uma ajuda: tesourada aqui, prega acolá, e verá para onde vai a sua reputação.

CAROLINA – É lá possível, Rosinha! Não quero crer em tal maldade!

INOCENTE – Que te quer ela fazer, irmãzinha?

Ora diz-mo, que eu saberei impedi-la.

ROSA – Era mesmo o cretino que vinha impedir-me de fazer aos vestidos o que bem me parecesse! Vê lá se és capaz, meu pateta!

INOCENTE – Há mais senhoras na terra sem ser a Sr. a Delmis, sua velhota; e creia que chegarei para você, se fizer mal à minha irmã.

ROSA (furiosa) – Velhota, eu! Que queres dizer com isso? Velha, eu que já recusei mais de vinte casamentos, e…

INOCENTE – Ora venham lá os nomes; sempre quero ver se me apresenta um só que seja.

ROSA – Ora, os nomes! Posso cá lembrar-me agora!

INOCENTE – Ao menos, um!

ROSA – Lá vai: o Taillochon, do moinho.

INOCENTE – O marreca? Ah ah ah, Com uma corcunda maior do que ele, pernas tortas, focinho de macaco Ah ah ah Ora aí está um rico marido. Sr. a Taillochon! Ah! ah! ah! Está-lhe a matar!

ROSA – Foi por isso que o não quis, seu estúpido! Mas há mais: o merceeiro Bursiflo.

INOCENTE – Merceeiro de pataco, com o nariz torto, a face direita do tamanho da cabeça, bêbado a toda a hora! Ora aí está outro que tal! Se forem todos dessa força, era melhor não falar neles… Bursiflo! Francamente! E e ntão Taillochon Ah ah ah. É muito boa!… Entre os dois venha o diabo e escolha.

Irritada ao rubro pelas observações de Inocente, a Rosa atirou-se a ele, na intenção de lhe fazer sentir o valor do seu punho; mas Inocente, que previra o ataque, agarrou numa cadeira, com a ligeireza própria dos quinze anos, e colocou-a entre si e a assaltante, no momento em que esta, de braço lançado, lhe ia aplicar um bofetão monumental. Está bem de ver que não foi ele o ferido, mas Rosa, cujo braço, batendo na cadeira, caiu sem movimento. O grito de dor soltado por Rosa cruzou-se com o grito de triunfo soltado por Inocente. Agarrando-o pelo casaco e puxando-o para trás, Carolina colocou-se de permeio, evitando que eles se agredissem. Mas Rosa estava vencida, a cólera era-lhe abafada pela dor. Os gemidos que soltava mostravam bem quanto dolorosa tinha sido a pancada dada pelo braço na cadeira, braço agora amparado pelo outro. Deixou Carolina examinar a ferida e friccionar com pomada a parte dorida. Saiu depois disso, sem dizer palavra e fechando a porta violentamente.

A promessa de Carolina

Durante a cena precedente, a tiaThibaut conservou-se imóvel, embora muito agitada. Depois da Rosinha partir, chamou o filho e perguntou-lhe:

– Ó Inocente, porque é que a Rosa julgaria que a tua irmã lhe fizera presente do vestido da Sr. a Delmis?

INOCENTE – Eu sabia lá que o vestido era da Sr. a Delmis? Não fiz mais do que repetir à Rosinha o recado de Carolina.

MÃE – Mas que foi que tu disseste? Ora repete lá as tuas palavras.

INOCENTE – Já não me lembro. Penso que disse: Menina Rosa, aqui está um vestido que a minha irmã fez para você, e que me mandou embrulhar e entregar-lhe.

MÃE – E a Rosinha julgou que era para ela?

INOCENTE – Naturalmente, pois até eu assim pensei. Ora, se eu assim o entendi, porque não devia ela entendê- lo também?

CAROLINA – Já compreendo agora a razão da sua fúria: supôs que eu me tivesse querido divertir à custa dela e levar a patroa a ralhar-lhe.

MÃE – Para que dás recados desses ao Inocente? Não sabes que ele é…

CAROLINA – Muito prestável, e esforçando-se

por se desempenhar o melhor possível das incumbências, bem o sei, minha mãe; só está contente quando me presta algum serviço!

INOCENTE – Na verdade, bem quisera eu, boa Carolina, estar sempre a prestar-te serviços, mas não sei como isto é; em vez de te auxiliar, prejudico-te. Bem sabes que é sem querer.

MÃE – Para que te metes então nos serviços dela, se reconheces que não os consegues fazer bem?

CAROLINA – O minha mãe, às vezes é-me de muita utilidade.

INOCENTE (tristemente) – Deixa lá, minha boa Carolina; ainda há pouco impediste a mãe de me chamar parvo. Bem sei que o sou, mas não tanto como se julga. Terei a inteligência necessária para te vingar da Rosinha, podes estar certa disso.

CAROLINA – Proíbo-to, Inocente; nada de vin ganças, meu amiguinho; é preciso ser bom e caritati vo, perdoando aos que nos ofendem…

INOCENTE – Não me importo de perdoar aos que me ofendem a mim; agora, aos que te ofendem ati, isso nunca! Tu, uma bonacheirona, que não fazes mal a uma mosca!

CAROLINA – Não penses mais nisso, Inocente, peço-te. Defende-me, não me importa, como fizeste tão valentemente há pouco, mas não penses nunca em vingar-me. Olha – acrescentou ela -, lê esta passagem da vida de Jesus Cristo: verás como Nosso Senhor te dá o exemplo do perdão. Trata de O imitar.

Inocente pegou no livro e pôs-se a lê-lo com atenção, enquanto a mãe chamava a filha e lhe falava assim:

– Filhinha, que será deste infeliz quando eu deixar de viver? Enquanto for viva, vale-nos o rendimento do primo Lérot pelo aluguer do quiosque; mas eu não estou para durar muito; sinto que as forças me abandonam de dia para dia; as mãos começaram a sofrer da paralisia das pernas; prende-se-me, às vezes, a cabeça; fez-me muito mal a cena de há pouco. Que será de ti, querida filha, a braços com o Inocente, que é incapaz de ganhar a vida e te impedirá de arranjares uma boa colocação? Infeliz Inocente!

– Peço-lhe, mãezinha, que não se incomode por minha causa – disse Carolina, abraçando-a ternamente -; a mãe bem sabe que não trabalho mal e que não me faltará que fazer; posso ganhar facilmente a minha vida e a de Inocente, que tratará da casa e fará os recados, ajudando-me o melhor que puder. Além de que a mãe está longe de se encontrar doente como imagina; há-de viver muito tempo ainda, querendo Deus; e dentro de alguns anos o mano será um bom operário, igual a qualquer outro.

MÃE – Duvido muito, filhinha. O meu pobre Inocente há-de ser sempre o que é agora, causando-te arrelias e embaraços.

CAROLINA – Arrelias, não, minha mãe. Embaraços, talvez; mas conto com a protecção de Deus e aqui lhe faço a promessa solene de nunca abandonar o meu pobre irmão, haja o que houver.

MÃE – Obrigada, querida filha, muito obrigada. Contudo, se vires que ele é um obstáculo à tua vida, vê se o colocas em casa de alguma alma piedosa e caritativa, que o receba por amor de Deus. Consulta para isso o Sr. Abade; bem sabes que ele é bondoso e está sempre disposto a auxiliar-te.

CAROLINA – Creia, minha mãe, que nunca

abandonarei o meu pobre irmão.

MÃE – Nunca… nunca… obrigada… nunca… Ó meu Deus! Nem sei onde estou… nem já posso pensar… Minha pobre cabeça… Tudo acaba… Ah!…

Inocente, ó Inocente, vai depressa chamar o Sr. Abade! – exclamou Carolina, precipitando-se para a mãe, que perdera os sentidos.

INOCENTE – Se o encontrar, que lhe hei-de dizer?

CAROLINA – Trá-lo aqui, depressa; diz-lhe que a mãe está muito mal.

Saindo precipitadamente, Inocente foi, a correr, chamar o abade.

– Olá! Inocente! – disse o pároco, num sorriso afável. – Que te traz por cá, meu rapaz! Precisas de mim?

INOCENTE – Venha depressa, Sr. Abade; a minha mãe está muito mal. A Carolina manda dizer que fosse já, já.

O pároco ergueu-se, pegou no chapéu e no bordão, e lá foi com Inocente, sem mais palavra. Poucos minutos depois, estavam à porta da tia Thibaut; o pároco entrou à frente, indo encontrar Carolina, ajoelhada, a rezar aos pés da cama da mãe; sentindo entrar o pároco, ergueu-se, fazendo-lhe sinal para se aproximar.

A tia Thibaut abriu os olhos e tentou falar, mas só pôde articular palavras entrecortadas:

– Minha filha!… Pobre Inocente!… Deus… não abandonará… Morro… Pobres filhos… Obrigada… Perdão.

O pároco mandou sair Carolina e Inocente, pôs-se de joelhos junto do leito da tia Thibaut, e falou em voz baixa; ela compreendeu por certo, pois o rosto voltou à sua calma; tentou fazer o sinal da cruz e juntou as mãos, elevando os olhos para o crucifixo, que estava na sua frente. O pároco foi continuando a falar e a orar, respondendo-lhe ela por sinais e palavras entrecortadas, e prolongou bastante esta conversa, que parecia consolá- la. Receoso de cansar a pobre enferma, quis o pároco afastar-se, mas o olhar suplicante, que ela lhe lançou, reteve-o junto do leito. Chamou Carolina, que chorava com Inocente na sala.

– A mãezinha está muito mal, minha menina; acaba de ter novo ataque. Que foi que o médico disse para fazer neste caso?

CAROLINA – O médico já cá não vem há muito tempo, Sr. Abade. Quando do primeiro ataque de que resultou a mãe ficar paralítica, disse ele que nada se podia fazer; que em caso de novo acidente, o que se devia era mandar chamar o Sr. Abade; e foi o que eu fiz.

ABADE – Receio, pobre menina, que o médico

tenha razão. De facto, não vejo que remédio a possa aliviar. Como sempre, ela está bem calma, muito resignada e conformada com a vontade divina; prometi-lhe que não vos abandonaria, e antes vos consolaria e ajudaria nos embaraços, que fatalmente ides ter. Bem conheço a coragem e a piedade de que a menina tem dado provas. Porque sempre teve confiança em Deus, Ele não a abandonará, como não abandonará o seu irmão.

Carolina só respondeu com soluços; ajoelhada aos pés do abade, recebeu deste uma bênção paternal e as melhores palavras de conforto, à mistura com lágrimas.

Inocente continuava a soluçar na sala onde se refugiara; mas as suas lágrimas eram mais por ver chorar a irmã, do que pelo estado da mãe, cuja gravidade ele não atingia. O pároco foi ter com ele e, passando-lhe afectuosamente a mão pela cabeça, aconselhou-o a não chorar para não agravar o desgosto da irmã.

INOCENTE – Sr. Abade, eu choro por vê-la chorar; não chorava se a visse satisfeita, pois não vejo outro motivo de choro. Mas, sempre queria saber porque é que estamos a chorar.

ABADE – A tua irmã chora por saber que a vossa mãe está mal, muito doente.

INOCENTE – A mãe está como sempre esteve, na cama.

ABADE – Mas cuida que ela vai morrer esta

noite, e é o que entristece a tua irmã.

INOCENTE – Não há motivo para tristeza. A mãe está sempre a dizer: Ai! Senhor, se me quisésseis levar desta vida! Que feliz eu não seria se morresse! Já não sofreria mais! Além disso, a mãe também me disse que, depois de morta, iria ter com Nosso Senhor, com a Santíssima Virgem, com os anjos… Até eu queria ir também. Sinto-me aborrecido quando a Carolina trabalha, e a mãe diz que lá no Céu nunca a gente se aborrece. Diga à Carolina que não chore; peço-lho, Sr. Abade; ela é-lhe tão obediente…

Sorrindo tristemente, o pároco aproximou-se de Carolina, à qual transmitiu as palavras do Inocente, e pediu-lhe que fizesse o possível por não chorar enquanto o pobre rapaz não estivesse a dormir.

Carolina olhou para a mãe e para o crucifixo, comprimiu as mãos cruzadas sobre o coração como para reprimir os sentimentos, e, indo de rosto calmo ter com Inocente, abraçou-o com muita ternura.

CAROLINA – Sou eu então a causa das tuas lágrimas, meu pobre irmão? Perdoa-me, que eu não torno a chorar. Olha, não vês como já estou calma… não vês?… Já não choro.

Inocente olhou para ela com atenção.

INOCENTE – É verdade; então já estou contente também. Não me posso conter! Tenho de chorar quando tu choras, e rir quando tu ris. Garanto que isto é superior a mim. É que gosto tanto de ti! Tu és tão bondosa!

CAROLINA – Obrigada, muito obrigada, meu amiguinho. Mas não achas que é já tarde? Deves estar cansado; são horas de deitar.

INOCENTE – E tu?

CAROLINA – Também me vou deitar, mas depois de preparar alguma coisa para a mãezinha.

INOCENTE – Falas a sério? Não vais ficar a péY

Não tornas a chorar?

CAROLINA – Podes estar descansado; vou dormir até às cinco da manhã. Vai, Inocente, vai, meu irmão; faz a oração da noite e deita-te.

– Não te esqueças de rezar pela nossa mãeacrescentou ela, abraçando-o.

Assim confortado, Inocente, que se sentia fatigado dos trabalhos do dia, seguiu os conselhos da irmã, indo para a cama, onde, minutos depois, dormia a sono solto.

Morte da tia Thibaut

Ao voltar para o quarto da mãe, Carolina encontrou o pároco a orar pelo descanso eterno daquela alma que acabava de comparecer diante de Deus, para receber a recompensa da sua piedade, do seu longo sofrimento e resignação. Esses padecimentos tinham durado alguns anos; mas a felicidade agora era para sempre.

Vendo a mãe sem vida, Carolina abafou um grito que se lhe escapava do peito e, caindo de joelhos, deu livre curso à dor e às lágrimas, que o seu sofrimento exigiam. Entendendo conveniente deixá-la expandir a sua dor, o pároco tomou-lhe a mão, depois de os soluços começarem a acalmar, e, fazendo-a ajoelhar diante do crucifixo que recebera o último olhar da mãe, disse- lhe com voz cheia de doçura e piedade:

– Querida menina, dê graças a Deus por terem acabado os sofrimentos da sua mãe; peça-lhe coragem para lutar contra o isolamento e as privações. Lembre-se de que Deus, tão bom, não a abandona e que, se lhe envia sofrimentos, é para resgatar as suas faltas e melhor recompensar a sua resignação, obediência e devoção.

CAROLINA – Bem sei, Sr. Abade, bem sei Mas, minha mãe, minha pobre mãe! Fico sozinha no mundo.

ABADE – Não, a menina não está só. Resta-lhe um dever, grande dever a cumprir; aquele que sua mãe lhe legou. A menina é agora o único amparo de seu irmão… A tarefa é dura; mas Deus a ajudará.

CAROLINA – Ah É verdade Resta-me o meu

irmão. O meu irmão. Deus me ajude, pois sinto-me fraquejar.

ABADE – Deus há-de protegê-la, minha filha. Nunca duvide da sua bondade e, sem discutir, aceite e agradeça o que ele lhe enviar.

CAROLINA – Assim farei, Sr. Abade. Faça-se a Sua vontade soberana e não a minha.

Depois de se ter esforçado por animar Carolina, disse-lhe o bom pároco:

– Querida menina, vou chegar depressa a casa, para lhe mandar aqui a velha Anica, visto a menina não poder ficar sozinha junto de sua mãe. Ela está habituada a velar e a vestir os defuntos. Voltarei cá de manhã cedo, e não precisa de se incomodar com o funeral, pois tomarei isso a meu cuidado. Não se inquiete com nada; ore por ela e por si e confie na misericórdia do Todo-Poderoso. Adeus, querida menina, até amanhã, Deus a abençoe, bem como a esta casa!

Lançando de novo a bênção à mãe e à filha, o abade saiu.

Ao ver-se sozinha, Carolina já não procurou conter- se. Não obstante a sua resignação à vontade divina, deixou-se arrastar pela violência da dor. Os gemidos e soluços acordaram Inocente, embora ela tivesse a precaução de fechar a porta. Ouvindo a irmã chorar, Inocente levantou- se, vestiu- se à pressa, entreabriu a porta de mansinho e viu Carolina dobrada sobre os joelhos, de rosto banhado em lágrimas, os olhos no crucifixo e as mãos juntas nos joelhos.

– Ó Carolina! – disse em tom de censura. Sem se levantar, Carolina enxugou precipitadamente os olhos.

– Enganaste-me, Carolina! Eu dormia por confiar na tua palavra… Carolina, tu estás desgostosa! Porque choras?

A irmã indicou-lhe com o dedo o corpo inanimado da mãe e disse em voz abafada:

– Morreu.

Inocente chegou-se à cama e olhou atentamente para a mãe, dizendo depois:

– Já não sofre, não! Não sofre… olha o seu rosto calmo… Tinha razão… Quando eu morrer – dizia ela – hei-de ser muito feliz; irei ter com Nosso Senhor, com a Santíssima Virgem e os anjos… Já vejo que é feliz… Olha, até parece sorrir.

E Inocente correspondeu ao sorriso que julgava notar, depois do que, voltando-se para a irmã, perguntou:

– Qual a razão do teu choro, se ela é feliz? Não gostas que o seja?

CAROLINA – Ó irmãozinho, pensa que nunca mais a veremos, nem lhe ouviremos a fala e já nada podemos fazer por ela.

INOCENTE – Podemos rezar, como disse no outro dia o Sr. Abade. Não tornaremos a ouvi-la gemer nem queixar- se, como também a não veremos sofrer mais. Preferes então poder olhar por ela do que sabê-la feliz?… É estranho! Cuidava que gostavas muito dela.

CAROLINA – É por gostar dela que choro a sua morte.

INOCENTE – É um amor bem curioso! Chorar porque a mãe é feliz sem ti! Chorar por ela já não sofrer ao pé de ti!

CAROLINA – Não é por nada disso, Inocente. Se me acontecesse morrer, tu não choravas por mim, lá por eu ser muito feliz junto de Nosso Senhor?

Depois de reflectir um pouco, Inocente respondeu:

– Talvez chorasse um bocado… talvez… mas a satisfação de te saber feliz e a certeza de ir um dia ter contigo serviam-me de consolação, enquanto esperava a minha vez de morrer.

– Este pequeno tem mais juízo do que nós todos, minha pobre filha – disse uma voz forte, que fez voltar Carolina e Inocente.

Era a Anica, que entrara havia pouco e se detivera a escutar a conversa de Inocente com a irmã.

– Tens razão, meu menino, lá isso tens; contudo, é bem triste nunca mais tornarmos a ver as pessoas da nossa afeição. É precisamente como um remédio; mau de tomar, mas de efeitos benéficos. E agora, vai para a cama, meu amiguinho; não temos que te dar a fazer, e estorvar-nos- ias em vez de nos ajudares.

INOCENTE – E a Carolina?

ANICA – Eu cuidarei dela; não te aflijas…

INOCENTE – Não a deixa chorar?

ANICA – Ah! Se te parece! Ainda queria ver se ela era capaz de chorar, depois do que tu lhe disseste!

Tranquilizado pelas palavras e pelo todo resoluto de Anica, Inocente, ainda mais satisfeito pela momentânea calma da irmã, beijou-a umas poucas de vezes e rogou a Deus que tornasse a mãe feliz.

– E a mim também, Senhor – acrescentou -, fazei-me feliz, bem como à mana Carolina e ao Sr. Abade, que é tão bom. Dessa forma seremos todos felizes, e a Carolina não terá razão para chorar.

Voltou para a cama, adormecendo tranquilamente.

Ao despertar, de manhã, foi ter com a irmã, e viu o quarto cheio de gente: espalhara-se a notícia do falecimento da tia Thibaut e acudiram as vizinhas, umas com pena, outras por bisbilhotice, mas bem poucas por caridade. A filha passara a noite em oração junto da mãe, que a Anica amortalhara num lençol branquinho.

Pálida, extenuada, triste e prostrada, Carolina recebia reconhecida, mas sem dar resposta, os testemunhos de verdadeira ou fingida simpatia das vizinhas. Umas falavam com volubilidade; outras só a irritavam com as consolações que apresentavam.

– Que vai agora fazer ao seu irmão? – perguntou uma dessas mulheres. – Ele vai estorvá-la na vida. Se o metesse no asilo?

– Isso nunca! – respondeu Carolina, pondo-se de pé junto ao leito da mãe, ao qual se apoiava.

– Nunca! Prometi a minha mãe que nunca abandonaria o meu desditoso irmão, e não conto faltar à promessa.

– É muito lindo, na verdade – replicou a Anica, com ar descontente -, mas agora, como se há-de arranjar para o alimentar? Podem viver ambos com o fruto do modesto trabalho de Carolina?

– Deus proverá, e a mãe não deixará de pedir por nós.

– A moça é cabeçuda – disse a mulherzinha -, mas veremos como se há-de arranjar.

– Nem sempre há-de ser com o trabalho – disse alguém, que fez voltar a cabeça a Carolina e a Ino cente.

– Por que motivo não há-de ser sempre pelo trabalho que a minha irmã há-de arranjar a sua vida?

– perguntou Inocente, avançando para Rosa, pois fora ela quem proferira tais palavras.

– Vai perguntá-lo à Sr. a Delmis, se o queres saber, meu garoto.

Carolina já não ouvia; voltara a ajoelhar-se junto ao cadáver da mãe.

Inocente, porém, algo intrigado com as palavras da Rosa, olhou uns momentos para a cara falsa e maliciosa dela e, deslizando para a porta, entreabriu-a e desapareceu. Indo a casa da Sr. a Delmis, pediu para lhe falar. Mandaram-no entrar para o quarto dela.

SR.a DELMIS – Então, que desejas, meu rapaz?

– perguntou ela, interessada.

INOCENTE – Venho perguntar à senhora o motivo por que minha irmã não poderá viver do seu trabalho.

SR.a DELMIS – Não compreendo, Inocente.

torna a dizer. Porque me vens fazer tal pergunta? INOCENTE – Foi a Rosinha que me disse para o

vir perguntar à senhora, pois, se assim não fora, eu não me permitia vir aqui incomodá-la.

SR.a DELMIS – A Rosinha? Que ridícula brincadeira! Onde está a Rosa? Onde a viste?

INOCENTE – Está em nossa casa, minha senhora;

está lá com todas as velhotas do bairro.

SR. A DELMIS – Porque têm lá uma reunião de

velhotas?

INOCENTE – Vieram ver o que faz e diz Carolina

junto ao cadáver da mãe.

SR.a DELMIS (surpresa) – Junto ao cadáver? Então… a tua mãe morreu?

INOCENTE – Morreu esta noite, minha senhora.

SR.a DELMIS (sempre admirada) – E não sentes pena com a morte de tua mãe?

INOCENTE – Sinto, sim, minha senhora; mas por

outro lado até estou satisfeito.

SR.a DELMIS (indignada) – O que tu dizes é

abominável! Pois quê? Não gostavas de tua mãe, tão boa para ti?

INOCENTE – Peço desculpa, senhora; é justamente por gostar muito dela que me sinto contente por não mais a ver sofrer e a saber feliz.

SR.a DELMIS – Mas não a tornas a ver!

INOCENTE – Peço desculpa, senhora, mas vê-la-ei no outro mundo. Ouvi dizer que nos tornávamos a encontrar depois da morte para nunca mais nos deixarmos, sempre felizes, sem mais sofrimento de espécie alguma. Já vê a senhora que seria bem ingrato da minha parte afligir-me com a felicidade da mãe. Quem me dera ir ter com ela!

SR.a DELMIS (em ar pensativo) – Pobre criança…

Talvez tenhas razão… E Carolina?

INOCENTE – Sinto dizer-lhe que Carolina ficou a chorar… Não lhe deve querer mal por isso; talvez ela não tenha bem a certeza de que a mãe é feliz… Bem sabe a senhora que Carolina, sempre a trabalhar, não tem grande tempo para reflectir. Além de que lá estão aqueles diabos das bisbilhoteiras a zumbir-lhe não sei o quê aos ouvidos. E o Sr. Abade ausente e a Rosinha a dizer-lhe das boas!… Nem me lembrava! Deixa-me correr em socorro de Carolina. A Rosinha tem medo de mim; bem sabe que eu não me fazia rogado para lhe dar uma bofetada, se incomodasse minha irmã.

SR. A DELMIS – Espera por mim, Inocente; quero acompanhar-te. Não sabia da morte da tua pobre mãe.

E seguiu com Inocente para casa de Carolina, onde deu com Rosa, a tagarelar num grupo de mulheres; acercando-se dela, perguntou se ali é que era o mercado.

ROSA – Vim dar os pêsames à Carolina, minha senhora, em vista deste triste acontecimento.

– Bonitos pêsames! – exclamou a velha Anica, indignada. – Não dizia senão tolices, e até a ameaçava de lhe tirar as freguesas!

ROSA – Eu? É lá possível! Jesus Senhor!

ANICA – Tanto é possível, que assim é. Está para aí há meia hora a dizê-las de tal calibre, que nem sei como a maldade lhe não secou ainda a língua. Mas não é você, sua malvada, quem prejudicará uma menina piedosa e honesta como Carolina.

ROSA – Espero que a senhora não dê ouvidos às falsidades desta velha.

ANICA – Velha é você! Ora a atrevida a lançar o veneno aos outros! Tem para dar e vender, minha linda! Mas não é a mim que ele há-de fazer mal. Comigo não pega.

SR.a DELMIS – Por favor, cale-se, amiga Anica!

Discutir dessa forma no quarto da morta! É demasiada crueldade para a infeliz Carolina. E tu, Rosa, põe-te já a andar e não voltes a pôr aqui os pés.

ROSA – Respeito demasiado a senhora para deixar de cumprir as suas ordens. Não tenho vontade nenhuma de vir fazer as papas do idiota nem de limpar as lágrimas da irmã.

– Meu irmão, meu pobre irmão! – exclamou doridamente Carolina, segurando Inocente, prestes a arremeter contra Rosa.

– Saia já! – disse autoritariamente à criada a Sr. a Delmis, agarrando- a por um braço e levando-a para a porta.

Não se atrevendo a resistir à patroa, Rosa foi-se embora.

– Sinto muito o que acaba de se passar, querida Carolina – disse a Sr. aDelmis, tomando-lhe as mãos. – Chegando a casa, passarei à atrevida um severo raspanete. E, se a tornar a ofender, ponho-a na rua.

CAROLINA – Suplico-lhe, minha senhora, que

lhe perdoe; a pobrezinha ainda estava irritada por uma altercação que teve com Inocente, mas no fundo não há ali maldade; foi um repente, que lhe há-de passar… Peço também à senhora que me continue a favorecer com as suas ordens, para a senhora e para os meninos.

SR. A DELMIS – Mas com certeza, minha querida Carolina; acabo de adquirir vestidos de verão e estou

a contar com Carolina para mos fazer, o mais breve possível.

– Vou dar-lhes começo, uma vez acabada a cerimónia do enterro, minha senhora – disse Carolina, a limpar as lágrimas irreprimíveis -, e pode contar com toda a minha aplicação.

Chegava o abade. Depois de ajoelhar junto do cadáver, foi ter com a Sr. a Delmis, suplicando-lhe que continuasse a proteger os dois órfãos, e ficando a conversar uns segundos com ela. A Sr. a Delmis quis levar consigo Carolina, que se opôs tenazmente a abandonar a mãe, enquanto lha não viessem tirar para sempre.

Dispersou a multidão. Para evitar as visitas importunas dos curiosos, Carolina fechou a porta, ficando apenas com Inocente e Anica, que a ajudaram a pôr a casa em ordem. Após uma noite dolorosa, de vela ao cadáver da mãe, aimda tiveram, Carolina e Inocente, de assistir à impressionante cerimónia do enterro. De volta à casa deserta, Carolina chorou deveras, não podendo o próprio Inocente impedir-se de chorar também. Contudo, foi ele quem animou a irmã, repetindo os argumentos da véspera.

– Temos bastante serviço, irmãzinha – disse quando a viu mais serena – roupa a lavar, coisas da mãe para arrumar; e depois… os vestidos da Sr.a Delmis para arranjar.

Vingança de Rosa

A obra ficou pronta no fim da semana. Carolina foi entregá-la à Sr. a Delmis acompanhada por Inocente, que era portador do embrulho. A primeira cara que viram foi a de Rosa, que lhes disse em tom de voz seca e impertinente:

– Que desejam? Que vêm pedir? A senhora não dá mais esmolas; tem muitos pobres a quem as dar.

CAROLINA (com brandura) – Nós não vimos pedir esmola, Rosinha; o meu irmão vem ajudar-me a trazer os vestidos que a senhora mandou fazer. Tenha a bondade, menina, de a prevenir de que os venho trazer, e que desejava provar-lhos, a ver como lhe ficam.

ROSA (em tom brusco) – Deixe ficar isso aí; a senhora está agora ocupada e não precisa da menina para ver como lhe ficam os vestidos.

CAROLINA – Quando posso vir receber, Rosinha?

ROSA – Tem muita pressa, já vejo. Supõe-se então a única pessoa a receber?

CAROLINA – Não, mas é que tive de pagar as despesas do funeral de minha mãe, com o que gastei todas as economias que possuía.

ROSA – Ora vejam no que dá o orgulho! A

menina quis fazer de rica; muitas velas, missa cantada, tudo à grande, e agora, sem pão para comer, lembrar-se de vir bater à porta dos patrões, sem

mesmo lhes dar tempo de ver como ficou a obra.

Carolina não deu resposta; chamou pelo irmão

abriu precipitadamente a porta e afastou-se a passo

rápido, supondo-se seguida por Inocente; mas este

irritado pelos modos insolentes de Rosa e tendo lido

no rosto contraído de Carolina que a irmãzinha fora

gravemente insultada, em lugar de a acompanhar, pegou num balde de água gordurosa que ali estava, e, chegando-se a Rosa, que lhe voltara desprezativamente as costas, enterrou-lho na cabeça, encharcando-a de água suja da cabeça aos pés. Depois desta façanha, abriu rapidamente a porta da cozinha, sem estrondo, e foi ter com a irmã a correr.

Quase sufocada pela água, Rosa conseguiu libertar-se do balde, e olhando à sua volta, espantada e

raivosa, encontrou-se sozinha. Correu e abriu a

porta, mas não viu ninguém. Julgando que o seu

algoz se tivesse escondido em casa, encetou logo as

suas buscas, correndo de quarto em quarto, até que

chegou à sala de visitas, onde se encontravam os

patrões com alguns amigos a conversar.

À vista de Rosa enfurecida, encharcada, a escorrer água gordurenta e fétida, levantaram-se todos, perguntando com certo terror:

– Então que foi? Que aconteceu?

ROsA – Que bandido! Que miserável! Ando à

cata do malandro, desse patife que me encharcou.

Onde está ele? Viram-no por acaso? Onde se escondeu? Procurei-o em vão por toda a casa.

SR.a DELMIs – Endoideceste, Rosa? Em que estado te puseste! De que bandido é que falas?

ROSA – Do que me enfiou um balde pela cabeça abaixo Ah!, Que se o encontro, parto-lhe os dentes! Faço-o tomar banho na panela!…

SR. DELMIS – Ora vê se te calas! Já basta de tolices! Vai já mudar de roupa; estás-me a emporcalhar os móveis e o chão.

Começando a retomar a serenidade, e vendo que o patrão se mostrava deveras descontente, nada compreendendo desta partida que ela não explicava bem, Rosa calou a boca e foi-se lavar e vestir, ficando tanto mais abespinhada quanto é certo não saber a quem atribuir a gracinha. Ainda desconfiou de Inocente; mas, não o vendo a seu lado e julgando-o demasiado tacanho para entender as impertinências que ela dissera à boa da Carolina, convenceu-se de que ele partira com a irmã, não lhe reconhecendo engenho para se vingar tão habilmente, nem destreza para se esquivar tão de pronto, que ela não o visse. Preferiu supor que alguém se tivesse introduzido na cozinha atrás de Carolina, e se escondesse na casa, talvez até na própria cozinha, e se raspasse enquanto ela lhe andava na peugada, de quarto em quarto. Lançou todo o seu rancor sobre a pobre Carolina, e resolveu começar imediatamente com as suas vin ganças; para tanto, ocupou- se durante parte da noite em cortar e coser de novo os vestidos da Sr. a Delmis, estreitando-os para não lhe poderem servir.

No dia seguinte, falou-lhe a Sr. a Delmis do despropósito da véspera, e Rosa explicou-se calma e suavemente. Não podendo impedir-se de rir com a história da irritação da criada, perguntou-lhe, para mudar de assunto, se a Carolina ainda não trouxera a obra.

ROSA – Acaba de a trazer agora mesmo, minha senhora. Se deseja, levo-lha ao quarto.

SR.a DELMIS – Pois sim; quero experimentar o vestido, embora não seja preciso, pois a Carolina é cuidadosa e hábil; está sempre tudo bem. Lá quanto a isso, a verdade se diga: é uma costureira incomparável!

Quando lhe foram levados os vestidos, a Sr. a Delmis experimentou um deles; as mangas não entravam e a cava era estreita.

SR.aDELMIS – Ó Rosa, vê isto; o braço não

entra na manga, que está muito apertada.

ROSA – Pensa isso? É talvez a fazenda que não dá de si. Se puxar um pouco…

SR.a DELMIS – Puxo quanto posso, mas não vai. Se puxasse mais, rebentava a costura.

ROSA – E é verdade! Tem razão, minha senhora. Como demónio foi isso? Carolina, que trabalha tão bem, que nunca lhe estragou nada!

SR.a DELMIS – Deixa-me experimentar o outro. Esperemos que me fique melhor.

ROSA – A senhora bem pode imaginar que a Carolina não lhe ia estragar logo dois vestidos.

A Sr. a Delmis experimentou.

SR.a DELMIS – Ora ainda bem! Neste ao menos

as mangas entram bem… Ah! Céus! O peitilho não une à frente! É impossível abotoá-lo.

ROSACarolina enganou-se nas medidas, pela certa. Ou não seria ela quem fazia os vestidos em vida da mãe?

SR.a DELMIS – Quem havia então de ser?

ROSA – Já me tinham dito que era a mãe que cortava e alinhavava os vestidos, limitando-se a Carolina a cosê-los. Sempre julguei falsas essas afirmações; mas, a julgar pelo que sucede com os vestidos da senhora, sou obrigada a concluir que me tinham falado verdade.

SR.a DELMIS – Porque não me avisaste? Só lhe teria dado a fazer um vestido, para ver como ficava. Aposto que os demais também não servem. A culpa será tua, Rosa; estou muito descontente com a tua reserva.

ROSA – Minha senhora, diz-se tanta coisa que não é verdade! Se fôssemos a dar crédito a tudo o que se diz, e a repeti-lo por toda a parte, prejudicar-se-ia muita gente, que tem necessidade de ganhar o seu pão. Não gosto de Inocente, que é estúpido e grosseiro; mas não desgosto de Carolina, e não iria aproveitar-me da sua infelicidade para lhe fazer perder as boas graças da senhora e o seu ganha-pão. A senhora tem sido tão boa para com ela! À senhora é que ela deve todas as suas freguesas.

SR.a DELMIS – Não há dúvida que me saiu muito reconhecida, estragando- me dois vestidos!

ROSA – Talvez os outros estejam bem. Mas a senhora não os pode provar, visto Carolina os ter ainda em casa.

SR.aDELMIS – Mas estes? Como se há-de consertar uma coisa demasiado estreita?

ROSA – A senhora ainda tem o pano que cresceu, do qual pode fazer novos peitilhos e mangas novas.

SR.a DELMIS (encolerizada) – E comprar novos vestidos, não? Cala-te, Rosa; fazes-me perder a paciência com a tua vontade de querer desculpar uma pateta que me enganou fazendo-me crer que sabia trabalhar, quando era a mãe que lhe fazia o mais difícil. Vai-me chamar Carolina.

Rosa não se fez rogada, deitando a correr para casa da costureira.

– A minha patroa manda-a ir lá – disse ela, com ar triunfante e escarninho.

É, com certeza, para me pagar – pensou Carolina, que para ali se dirigiu sem dizer palavra.

Carolina perdeu a língua! – continuou Rosa

zombeteiramente.

A interpelada lançou-lhe um olhar triste e digno, replicando serenamente:

– O que a menina me dizia não requeria resposta.

Rosa não se atreveu a responder; a suavidade e

tristeza de Carolina ocasionaram-lhe um certo remorso, e as olhadelas terríveis de Inocente faziam recear um ataque em forma.

A primeira a sair foi Carolina. Rosa seguia-a de

largo, preferindo não assistir à cena que supunha ir

passar-se entre a patroa e Carolina.

– A senhora mandou-me chamar? – perguntou

Carolina, entrando em casa da Sr. a Delmis.

SR.a DELMIS (com uma cólera reprimida) – Sim, mandei-a chamar; não calcula porquê?

CAROLINA – Suponho que seja para me pagar, como pedi por intermédio da Rosinha. Sinto incomodar a senhora, mas a morte da minha pobre mãe obrigou-me a despesas, que me levaram as minhas parcas economias, e conto agora com a senhora, que

sempre foi tão bondosa comigo.

SR.aDELMIS – Sim, na verdade; e a menina

paga-me desonesta e ingratamente. Tem razão em vir

receber; é o último dinheiro que recebe de mim…

Aqui tem o que lhe estava a dever antes destes vestidos de agora, que lhe não pago, e peço que me

devolva os que lá tem a fazer.

Carolina ouvia a Sr. a Delmis com uma surpresa

crescente. Estava muda e interdita, procurando explicação para tal descontentamento. Lá se via sobre a

mesa o dinheiro, sem que ela fizesse o mais leve

movimento para falar nem para pegar nele, pois não podia conceber arrecadar o que não lhe era devido. Erguendo os olhos, a Sr. a Delmis ficou comovida

com a expressão de dor estampada no rosto da infeliz menina.

– Leve o seu dinheiro – replicou ela, mais suavemente -; não digo que não lhe pague nunca o trabalho dos últimos vestidos, mas é preciso que a menina os arranje, pois não os posso vestir tal como estão… Mas fale, menina; está-me aí muda como uma estátua.

CAROLINA – Peço desculpa, minha senhora… é que… estou espantada… não compreendo a censura que me faz. Em que pude eu desagradar-lhe?

SR.a DELMIS – Fazendo-se passar por aquilo que

não é, e continuando a receber as minhas encomendas após a morte da sua mãe.

Redobrou a surpresa de Carolina.

CAROLINA – Mas… foi a senhora que mandou lá fazer os vestidos… Após o falecimento de minha mãe preciso, mais do que nunca, de trabalhar… Não posso entender as censuras da senhora.

– Censuro-a de me haver estragado os vestidos, que estão horríveis – exclamou a Sr. a Delmis, com impaciência – e de não me ter prevenido de que era a sua mãe quem cortava, e que a menina apenas sabe coser a obra já preparada.

CAROLINA – A senhora ouviu dizer isso e acreditou! E contudo conhece- me há três anos! Sem embargo, foi acreditar nessa calúnia!… Não pergunto quem me caluniou, pois bem o adivinho. Só o que digo é que nunca a minha falecida mãe pôs a mão na minha costura, pois nem tinha força para segurar a tesoura. Toda a obra que entreguei à senhora, e com que ficou tão satisfeita, foi minha e só da minha

mão… Bem pode calcular que eu não lhe exigirei o dinheiro que me recusa, apesar de ganho honestamente… Tenho a honra de lhe apresentar os meus respeitos ao deixá-la para nunca mais aqui voltar, agradecendo mais uma vez as amabilidades que teve comigo e com a minha falecida mãe.

A Sr. a Delmis ficou, por sua vez, muito surpreendida com as palavras calmas e dignas de Carolina, que se retirou antes de ela a poder reter.

Explicações

No regresso encontrou Rosa, que lhe deu os bons- dias, com ar de troça. Sem olhar para ela, Carolina foi andando e, ao entrar em casa, fechou a porta, e foi ajoelhar-se aos pés da cama vazia da mãe onde rompeu em soluços. Admirado, Inocente perguntou-lhe:

– Porque choras dessa maneira, Carolina? E tentava consolá-la.

CAROLINA (estremecendo) – Estás aí, Inocente?

Eu julgava-me só.

INOCENTE – Diz lá, irmãzinha, porque choras assim?

CAROLINA – Porque a Sr.a Delmis cuida que a

enganei, que não sei trabalhar, que lhe estraguei os vestidos e que era a nossa mãe que cortava. Diz que não me paga o trabalho de toda a semana passada e que não me dá mais serviço.

INOCENTE – É então por isso que tu choras? No

entanto, bem sabes que tudo isso é mentira!

CAROLINA – Pois sim, mas custa muito ser-se

caluniada, quando se é séria.

INOCENTE – Sim, É curioso eu de mim não me

incomodo nada com isso. Quando me disseram uma

vez: Ó Inocente, tu foste às maçãs; faltam-me lá

muitas, eu pus-me a rir, e disse: não roubei coisa

nenhuma; procurem noutra parte o ladrão, pois eu é

que não fui. Se a Sr.a Delmis me dissesse: Ó Inocente, tu cavaste mal a horta; as ervilhas não querem aparecer… eu responder-lhe-ia, sem perturbação:

minha senhora, a cava foi bem feita; se as ervilhas

não nascem, desconfie da Rosinha que, naturalmente, pregou alguma partida. E se me chamasse mau e ingrato, eu responder-lhe-ia sem me afligir:

Engana-se, minha senhora, pois eu sou bom e reconhecido; quem deveria envergonhar-se era a senhora, de ter assim tão maus pensamentos. Se queres, irmãzinha, eu vou dizer à Sr.a Delmis que tu és honesta, que trabalhas na perfeição, que não lhe

estragaste os vestidos, e que, não te pagando o teu

trabalho, é uma caloteira; que, não te dando mais

trabalho, o pior é para ela. Queres que lho vá dizer?

Chego lá num pulo.

CAROLINA – Isso não, Inocente; por favor, não

lhe digas nada; deixa-a lá com o dinheiro. Não me

faltarão freguesas; tenho até de mais. Tenho ainda, para acabar, vestidos e roupa de baixo para a esposa

do adjunto, para a professora e ainda para outras

pessoas.

INOCENTE – Então não choras mais, pois não?

CAROLINA – Não; está prometido. Mãos à obra!

INOCENTE – Ora, ainda bem! Sabes que o

Sr. Abade nos diz que devemos receber de cara alegre o que Deus nos envia. Por mim, estou sempre

contente…

CAROLINA (sorrindo) – Excepto quando te

aborreces à beira da roupa suja.

INOCENTE – Ah!, É verdade que estúpido que

fui dessa vez… mas… reflecti depois, e garanto- te que não perdi o meu tempo.

Inocente a falar e alguém a bater à porta.

– Entre – disse Carolina. – Olha, é o Tomás!

TOMÁS – Peço desculpa, menina; venho do

mando da Sr. a Grébu, a esposa do Sr. adjunto, buscar

os vestidos dela.

CAROLINA – Nem sequer os comecei ainda, Tomasinho; mas vou já tratar deles.

TOMÁS – Não, não é isso, menina; a Sr. Grébu

manda-me levar a fazenda dos vestidos; bem sabia

que a menina ainda não tivera tempo de os acabar.

CAROLINA – Então não quer que lhos faça?

TOMÁS – Assim parece, menina.

CAROLINA – E não sabes a razão?

TOMÁs – Isso não sei. Ia a passar diante da casa

da mulher do Sr. presidente da Câmara, quando fui

chamado pela Sr. a Grébu, que estava lá. Aproximei- me e ela disse-me: Ó Tomás, corre já a casa da

Carolina e pede-lhe os meus vestidos; que tos entregue no estado em que estão, acabados ou por acabar, com todos os retalhos. Quem dera que ela ainda os

não tivesse principiado!

CAROLINA – E a Sr. a Delmis estava com ela?

TOMÁS – Isso não vi; só lá estava a rir-se a

Rosinha; mas ria com tanto gosto, que até eu me pus

a rir, só de a ver. E vin a correr e a rir.

CAROLINA – Bem, Tomasinho. Ó Inocente, vai

ao armário grande do quarto, e traz os bocados de lã

que lá estão; trá-los embrulhados num papel cinzento que está em cima do armário, e entrega-os ao

Tomasinho; olha, não te enganes.

Com a pressa de obedecer à irmã, Inocente foi ao armário, tirou os vestidos depois de bem os examinar, embrulhou-os no papel e fez deles entrega a Tomás.

– Adeus, menina – disse Tomás, com o embrulho nas mãos. – Boa tarde, Inocente.

Mais uma maldade de Rosa – pensou Carolina. – Contanto que me não faça perder assim toda a minha freguesia!

Como tinha muito mais a fazer, Carolina foi, após uns momentos de reflexão, buscar roupa branca para passajar. E a primeira coisa que lhe deu na vista, ao abrir o armário, foi o embrulho dos vestidos da Sr. Grébu.

Inocente, ó Inocente! – exclamou ela, aterrada. – Que foi que tu deste ao Tomasinho? Encontro aqui no armário a obra da Sr. a Grébu!

INOCENTE – Dei os vestidos em bocados, como

mo ordenaste.

CAROLINA – Mas que vestidos? Eu não tinha

outros; são estes.

INOCENTE – Não foram esses que eu dei, pois esses são novos e os que eu dei eram velhos, aqueles que meteste aqui noutro dia, por estarem em retalhos e não poderem servir para nada.

CAROLINA – Que é que foste fazer! São capazes de supor que os quis roubar. Corre, Inocente; corre atrás de Tomás e volta com ele dizendo- lhe que te enganaste, que os vestidos estão em meu poder.

INOCENTE – Eu vou, irmãzinha, eu vou. Nada de aflições! É uma fatalidade Carolina dizer sempre uma coisa por outra e, depois, o estúpido sou eu!

Assim pensava Inocente enquanto ia correndo. Mas por mais que se despachasse, não conseguiu alcançar Tomás, que chegara antes dele. Ao desembrulhar o pacote, a Sr. a Grébu soltou um grito, dizendo:

– Veja, minha amiga, veja o que ela me envia em lugar dos meus ricos vestidos novos.

Isto dizia ela à Sr. a Delmis, mostrando-lhe três velhos vestidos, em farrapos, que exibia indignada.

SR.A DELMIS – É incrível, isso! É caso para a

mandar prender. Sr. Delmis – prosseguiu -, chegue aqui num pulo; venha, que o caso é urgente.

– Então que foi? – perguntou ele, saindo do seu gabinete de trabalho.

SR. A GRÉBU – O que há é que tenho de mandar já prender a Carolina Thibaut por ladra; guardou

dois vestidos já cortados que lhe dera para fazer, e aqui tem o que me envia em lugar deles.

SR. DELMIS – É impossível! Há-de haver qualquer engano.

SR.a GRÉBU – Que engano pode haver? Pedi-lhe a devolução dos meus vestidos e eis o que recebo. Esta é forte!

SR. DELMIS – Precisamente por ser demasiado

forte é que eu digo que deve haver equívoco.

SR. A DELMIS – És sempre assim; não dás ouvidos

a ninguém, não acreditas em ninguém; no mundo só tu tens juízo; os outros são todos parvos. Eu sustento que houve um roubo e intimo-te, como autoridade, em nome da minha amiga, e esposa do adjunto, a mandares já prender a ladra, que se permite querer ficar com os vestidos da Sr. a Grébu.

Um sorriso, acompanhado de um encolher de ombros, foi a resposta da autoridade. Quando ia a responder, chega Inocente esbaforido, seguido, ou antes, agarrado por Rosa, que o retinha com todas as forças, e de quem ele procurava desembaraçar-se a pontapé e a murro.

As duas mulheres soltaram um grito, seguido de

vários outros.

– Assassino! Assassino! É o irmão da ladra. Está

a esganar a Rosa! Quem acode!

– Calem-se lá – ordenou o Sr. Delmis. – Estão

a sobressaltar a cidade.

– É isso mesmo que nós queremos, visto que te

falta coragem para deter os criminosos – concluiu a

Sr.a Delmis.

– Cale-se, Rosa; largue Inocente e deixe-o falar!

Que queres, meu rapaz?

INOCENTE – Foi a minha irmã que me mandou dizer ao Sr. Presidente que ela se explicou mal, como

lhe sucede tantas vezes comigo. Eis o que me disse:

Vai ao armário, e traz os vestidos já cortados, da

Sr.a Grébu>>. Em face disto, eu entendi que vestidos

cortados eram vestidos em bocados, não é assim, Sr. Presidente?

– Continua, Inocente – disse-lhe o presidente, sorrindo, pois já começava a compreender tudo.

INOCENTE – Pego nos vestidos mais rotos, como

ela me dissera, embrulho-os em papel cinzento, como também me ordenara, e dei-os ao Tomás, sempre

na conformidade das ordens dela. Vai senão quando, depois de ficar um momento como uma estátua, sem

mexer, sem rir, muito pálida, dirige-se para o armário

e exclama: Ai, meu Deus! Tu que fizeste, ó Inocente? Por Deus! Cá estão os vestidos! Inocente, corre depressa. Que vão elas dizer! Talvez julgarão que…

Diz que te enganaste! Que os vestidos estão aqui em

casa… E não sei que mais de ladra… de Tomás… de

alcançar. E então, Sr. Presidente, eu deitei a correr, a

correr, mas o Tomás correra mais do que eu. E

então, ainda para mais, não me vem aquela Rosa

impedir a passagem, a dizer: Não passarás!

Ah! Isso é que entro – respondi. – Isso é que não, – repete. Isso é que sim. Ela agarra-me pelo casaco, e eu atiro-lhe um pontapé; ela responde com um soco. mas que valente murro. Consigo escapar- lhe, servindo-me das mãos e dos pés, só para obedecer à minha irmã, e cá estou.

O presidente, muito divertido com a narração de Inocente, voltou-se para as senhoras, dizendo:

– Qual de nós tinha razão?

Voltando-se depois para Rosa, que ficara à porta, vermelha e arquejante, disse:

– Se voltar a fazer o que fez hoje, Rosa, será imediatamente despedida.

E dirigindo-se a Inocente:

– Leva o embrulho, meu rapaz, e diz à tua irmã que não se aflija, que devolva à Sr. a Grébu o que lhe pertence, e que, se precisar de mim, estou pronto a prestar-lhe qualquer serviço. Tu és um belíssimo rapaz, muito bom… muito honrado. Diz à Carolina que me interesso muito por ambos.

Contentíssimo, Inocente cumprimentou o presidente, a esposa deste e a Sr. a Grébu.

– As senhoras têm ordens a dar-me? – perguntou ele, com a sua maior amabilidade.

– Vai-te embora, e não ponhas mais os pés em minha casa – foi a resposta da Sr. a Delmis.

Inocente olhou para ela, admirado e, sem dizer nada, foi-se embora, depois de uma derradeira sau dação ao presidente.

– Que mal vos fez este pobre Inocente? – perguntou, sorrindo, o presidente.

SR.a DELMIS – Fizesse o que fizesse; não é nada contigo. Não vale mais que a irmã.

SR. DELMIS – Eu julgava a irmã dele da tua

predilecção; tens-lhe dado a fazer todos os vestidos…

SR.a DELMIS – Dei, dei, mas já não dou.

SR. DELMIs – Então, porquê? Será por ter perdido a mãe e por necessitar, agora, mais do que nunca, de ganhar a vida?

SR.a DELMIS – Foi por me estragar os últimos vestidos, de forma a não poder vesti-los.

SR. DELMIS – Pensava que ela trabalhava lindamente.

SR.a DELMIS – Sim, na verdade; enquanto a mãe viveu, pois era ela quem trabalhava e cortava o pano.

SR. DELMIS – Quem foi que te disse isso?

SR.a DELMIS – Foi a Rosa.

SR. DELMIS – Ah! Ah! Foi a Rosa. E como o

soube ela?

SR.a DELMIS – Soube-o por lho terem dito, e acreditou-o depois que viu tão mal feitos os meus últimos vestidos.

SR. DELMIS – Quem trouxe para prova os teus

vestidos?

SR.a DELMIS – A Rosa.

SR. DELMls – Desde quando os tinha ela?

SR.a DELMIS – Havia uns cinco minutos.

SR. DELMls – Ah!… Então o caso muda de figura!

SR.a DELMIS – Que queres dizer com isso?

SR. DELMIS – Pensava que, se os tivesse recebido na véspera, os teria descosido e estragado, só por ódio a Carolina, que ela não pode ver.

SR.a DELMIS – Não pode ver? Pelo contrário, estima-a muito. Ainda mo disse esta manhã. SR. DELMIS – Ah! Sim? Enquanto ia fazendo Carolina perder-se no teu conceito! Os meus relatórios policiais afirmam claramente que ela a detesta e que é má bisca. Estás bem certa de que os vestidos não foram trazidos de véspera?

SR.a DELMIS – Foi ela quem mo disse; não tirei outras informações, como bem podes crer.

O Sr. Delmis não disse mais palavra e, saudando a Sr. a Grébu, voltou para o gabinete.

Ficando sós, as duas senhoras entreolharam-se.

– Qual é a sua opinião acerca disto? – perguntou, por fim, a Sr. a Grébu.

SR. A DELMIS – Não sei… nem sei que pensar do caso. Mas olhe; façamos uma coisa: peguemos nos vestidos e vamos mostrá-los a Carolina, a título de os mandar consertar.

SR.a GRÉBU – Ora, nem mais; vamos lá então.

Fazendo um embrulho dos dois vestidos, a Sr. a Delmis lá foi acompanhada pela Sr. a Grébu. Ao ver entrar as duas senhoras, Carolina, surpresa e aterrada, ergueu-se precipitadamente.

SR.a DELMIS – Nada receie, Carolina; esta manhã ouvi dizer que a menina não sabia confeccionar vestidos, pois era a sua falecida mãe quem os cortava; cheguei a crê-lo ao ver que me não ficavam bem os vestidos que me mandou, e que agora lhe trago para a menina ver se os pode arranjar.

CAROLINA – Muito obrigada, senhora; eu não me atrevia a pedi-los, depois do que a senhora me disse esta manhã.

E, desembrulhando o pacote, examinou os dois vestidos.

CAROLINA – Os peitilhos e as mangas sofreram retoque, minha senhora; foram cortados.

SR.a DELMIS – Como é isso possível, se os provei

cinco minutos depois que a menina mos levou?

Carolina pareceu muito surpreendida.

CAROLINA – Dá-me licença que lhe pergunte quando foi que os experimentou?

SR.a DELMIS – Esta manhã, às dez horas.

CAROLINA – Pois eu levei-lhos ontem, antes das quatro da tarde.

SR.a DELMIS – Eu estava em casa; porque não mos entregou pessoalmente?

CAROLINA – A Rosinha não quis, alegando que a senhora estava ocupada.

– É deveres estranho! – disse a Sr. a Delmis. CAROLINA – A senhora quer ver? Cá estão as costuras desfeitas e os sinais de corte do pano. Veja a senhora como está mal cosido. Não é meu costume entregar a obra tão mal acabada.

SR.a DELMIS – Lá isso é verdade. O seu trabalho

é sempre cuidado e meticuloso.

CAROLINA – Querendo deixar os vestidos, tratarei de os consertar, aplicando-lhes retalhos, o melhor possível. Simplesmente, pedir-lhe-ei o favor de se dar ao incómodo de vir prová-lo aqui.

– Muito bem, sim senhora – disse, sorridente, a Sr. a Delmis. – Já adivinho o que a menina receia… Ó Inocente, a Rosa gosta da tua irmã?

INOCENTE – Não, minha senhora; pelo contrário: não a pode ver.

SR. A DELMIS – Então, porquê, e desde quando?

Inocente contou então à Sr. a Delmis o caso do vestido, a cólera da Rosinha, as suas ameaças a respeito dos vestidos feitos pela irmã. Surpreendida, a Sr. a Delmis ouvia a narração, ora rindo das ingenuidades de Inocente, ora indignada com a maldade de Rosa.

SR.a DELMIS – Eu tratarei de impedir que se repitam esses actos de malvadez, minha pobre Carolina. Vou ralhar-lhe quando chegar a casa.

INOCENTE – A senhora quer que a ajude?

SR.a DELMIS (rindo) – Não, Inocente, não; o que lhe vou dizer só eu o posso fazer. Dir-lhe-ei que trate de arranjar outra casa, se quer continuar com as suas maldades.

E, despedindo-se de Carolina e do irmão, foi para casa na companhia da Sr. a Grébu, que não abriu a boca.

SR. A DELMIS – Admira-me que não tivesse dito nada; supunha que ia dar ordens a Carolina para lhe fazer os vestidos.

SR.a GRÉBU – Prefiro esperar que os seus estejam prontos, a fim de me convencer de que é ela quem os arranja.

SR.a DELMIS – O quê? Ainda acredita no que disse a malvada da Rosa?

SR.a GRÉBU – Um poucochinho; quando tiver uma prova, e essa prova ser-me-á dada pelo modo como vierem os seus vestidos, então ficarei convencida.

As senhoras voltaram a casa. Rosa tinha saído. Pouco depois, recebia a Sr. a Delmis a visita de várias amigas, que a vinham consultar sobre o que deveriam fazer a respeito de Carolina, que estragara os vestidos da Sr. a Delmis, e que os devia estragar todos, pois não sabia cortar.

– Quem lhe disse tal mentira? – perguntava a Sr. a Delmis.

– A Rosa – era a resposta de todas.

A Sr. a Delmis justificava Carolina, destruindo, assim, o mal que lhe queria fazer a inimiga da pobre órfã.

Louça partida

De volta a casa, Rosa foi chamada à presença da Sr. a Delmis, que, depois de lhe comunicar o que soubera, a preveniu de que a não queria mais ao seu serviço; que ia arranjar nova criada. Rosa fingiu que chorava, protestou a sua inocência e deu sinais de ir desmaiar. Entrava nesse momento o Sr. Delmis; vendo a cena, agarrou numa bilha cheia de água e despejou-a toda sobre Rosa, que logo voltou a si e lhe deitou um olhar enfurecido.

SR. DELMIS (com um riso escarninho) – Fique-te de memória, Rosa, este excelente processo de fazer voltar a si a pessoa acometida de chiliques: água fria, até nos sentirmos completamente bem.

Rosa não se atreveu a responder, saindo precipitadamente. Uma vez na cozinha, chorou de raiva e, na sua fúria, deitou açúcar nos pratos salgados, sal e pimenta nos cremes e pastéis, sendo o resto do jantar temperado do mesmo modo extravagante, a ponto de ficar intragável.

A patroa gritava que a cozinheira queria envenenar a família. O patrão foi à cozinha e pregou a Rosa uma valente descompostura, a que esta respondeu atrevidamente, o que fez zangar o Sr. Delmis, que a ameaçou de a pôr imediatamente na rua. Rosa dizia que não se importava; que não se dava naquela casa; que facilmente arranjaria melhor, etc. .

SR. DELMIS – Pois prepare as suas coisas que, de

amanhã em diante, não a quero em minha casa.

ROSA – Com muito gosto e sem saudades; hei-de dizê-las bonitas da sua casa, deixe estar!

SR. DELMIs – Fora daqui, pode a sua língua de trapos dizer o que entender; mas, até lá, exijo que se cale.

ROSA – Não queria mais nada? A língua é minha, e a ninguém dou o direito de impedir-me de fazer dela o uso que entender.

A cena passava-se na copa. Para encurtar razões, o Sr. Delmis puxou a porta e fechou-a, dando duas voltas à chave e sem ligar importância aos gritos nem às ameaças dela, tirou a chave, meteu-a no bolso e voltou para a sala de jantar, onde a esposa e os filhos se vingaram no queijo, na manteiga, nos rábanos e na fruta que escapara ao furor de Rosa.

SR.a DELMIS – Então como explica ela a sua

linda obra?

SR. DELMIS – Explicá-la? Boa! Ainda me cobriu de insolências. Tive de a pôr na rua, o que não obstou a vê- la redobrar de fúria. Lembrei-me de a fechar na copa, onde a vou deixar até à noite, para lhe refrescar o sangue alterado pela cólera.

O Sr. Delmis a acabar de falar, e a ouvir-se um enorme estrondo na cozinha, que era por baixo da sala de jantar.

– Que foi aquilo? – exclamou o Sr. Delmis. E ainda mais!… E continua… mas que será? Parece louça a partir-se.

SR. A DELMIS – Ai! Senhor! A copa estava cheia

de louça! Que é que fizeste, homem? É Rosa a quebrar tudo.

SR. DELMIS – Encerrei a fera no covil, mas vou

pôr cobro aos estragos.

SR. A DELMIS – Pôr cobro? Depois de tudo partido! Minhas ricas chávenas de porcelana florida! Ah!

Sr. Delmis, que ideia a sua de fechar aquela malvada em tal sítio!

SR. DELMIS – Eu sabia lá?… Mas talvez ainda

não esteja tudo estilhaçado; vou já ver.

E o Sr. Delmis, seguido da esposa, e esta dos

filhos, precipitou-se para a copa, cuja porta abriu.

Logo se lhe ofereceu à vista um espectáculo lamentável: pratos, chávenas, travessas, terrinas, etc. , tudo

esmigalhado no chão. De tamanco na mão, Rosa

dava cabo dos poucos objectos que ainda tinham

escapado ao seu furor; de olhos cintilantes, rosto

afogueado, cabelos desgrenhados, braços nus, parecia uma fúria. Ao ver a porta aberta, precipitou-se

para forçar uma passagem.

-Hás-de pagá-las na cadeia! – exclamou o

Sr. Delmis, pretendendo segurá-la pelas saias. A Rosa, porém, dando com o tamanco no Sr. Delmis, obrigou-o a soltá-la e fugiu, deixando aterrados os filhos e a Sr.a Delmis.

– É uma autêntica fúria! – exclamou o Sr. Delmis. – Posso lá deixar impune tal procedimento!

Como autoridade, podia levantar-lhe um auto e

metê-la na cadeia.

Dito isto, subiu ao escritório, enquanto a mulher

e os filhos verificavam os estragos, procurando em

vão alguma coisa que tivesse escapado ao seu furor;

mas nada escapara: tudo em cacos!

– E agora, mamã, que fazer? – perguntou Emília. – Não temos quem nos sirva.

SR.a DELMIS – Agora não há tempo de pensar nisso; quando teu pai vier, falaremos no caso.

EMÍLIA – Entretanto, caso seja da vontade da

mamã, eu e o Jorge faremos o serviço.

SR. A DELMIS – Isso é impossível, queridos filhos.

Pois como havíeis vós de ir ao mercado, preparar as refeições, servir à mesa e arranjar os quartos?

EMÍLIA – Então, mamã, se fôssemos pedir à Carolina que nos viesse ajudar?

SR. A DELMIS – Ora aí está uma belíssima ideia!

Quando o papá voltar ao salão, iremos ter com ele e falar-lhe nisso.

JORGE – A mamã quer que vá ver se já lá está?

SR. DELMIS – Pois sim, meu filho; vai lá, e volta

a dizer-mo num pulo.

Correndo para as escadas, Jorge viu o pai já de volta. Indo ao seu encontro, a Sr.a Delmis lembrou- lhe que seria bom ir a casa de Carolina pedir à boa rapariga que os viesse ajudar, até arranjarem outra criada.

– De muito bom grado – respondeu o Sr. Delmis. – É uma ideia excelente, susceptível de melho ria ainda.

SR. A DELMIS – De que forma?

SR. DELMIS – Propondo a Carolina a entrada para o nosso serviço exclusivo.

SR. A DELMIS – Bem lembrado! Mas, mas Inocente? Que destino lhe dará ela?

SR. DELMIS – Pô-lo-á em qualquer casa ou estabelecimento de caridade, pois não há dúvida que Inocente não pode estar ao serviço de ninguém.

Pegando na sombrinha e no chapéu, a Sr. a Delmis pôs-se a caminho da casa de Carolina. Iam conversando sobre a prisão de Rosa, a que o Sr. Delmis tinha renunciado, embora esta bem o tivesse merecido.

– Ficaria com o futuro estragado – acrescentou ele – preferi, pois, amedrontá-la, sem executar a ameaça.

A chegada dos esposos Delmis causou grande

surpresa a Carolina. Inocente ofereceu-lhes logo cadeiras. A senhora expôs a Carolina a finalidade daquela visita inesperada. Esta respondeu com simplicidade.

-Agradeço muito a confiança com que sou

honrada, mas não posso aceitar, com mágoa o digo, a

amável oferta da senhora.

SR.a DELMIS – Então porquê, diga, Carolina?

Dou-lhe mais vantagens do que as que granjearia

durante o ano com o trabalho mais intenso de costura, aqui em sua casa.

CAROLINA – É que não posso deixar meu irmão, minha senhora. Que seria dele sem mim?

– Não se incomode por causa do seu irmão – objectou o Sr. Delmis -; eu encarrego-me da sua entrada em qualquer estabelecimento de caridade, onde ficará muito bem.

Carolina voltou-se para Inocente, que olhava para ela com tristeza e afeição. Meneando a cabeça, ela respondeu:

– Nunca, senhor; nunca abandonarei Inocente; prometi-o à minha mãe, e hei-de cumprir a promessa; nunca o abandonarei.

SR.a DELMIS – Isso não é racional, Carolina; a sua existência seria bem mais feliz e estaria mais garantida em minha casa. Teria um ordenado superior ao que ganharia na sua. Quando doente, seria tratada como tal, recebendo sempre o ordenado; ao passo que, aqui, uma doença levá-la-ia à miséria: à menina e a Inocente.

CAROLINA – Tem toda a razão no que a senhora

diz; não posso, porém, faltar à promessa feita à minha mãe, nem esquecer que, longe de mim, o meu pobre irmão não podia ser feliz.

INOCENTE (de olhos rasos de lágrimas) – Carolina, ó Carolina! Não me deixes, não vás para longe de mim. Se não te vir, morrerei como a nossa mãe.

CAROLINA – Não, irmãozinho, não me separarei

nunca de ti. Só por morte.

INOCENTE – O caso então seria diferente! Saberia que eras feliz, que Deus te queria na sua glória, e trataria de morrer também depressa, para ir ter contigo.

– Oiça, Carolina – replicou o Sr. Delmis, comovido com a dedicação da irmã e o afecto do irmão

-, há um meio de conciliar tudo: é Carolina entrar ao nosso serviço e levar consigo o seu irmão. Desta forma, cessam todos os obstáculos.

CAROLINA -Com Inocente! Oh! O senhor é

demasiado bondoso e por demais generoso. Não me atrevo aceitar… Receio… Talvez o senhor se esqueça…

SR. DELMIS (sorridente) -Não me esqueço de nada, Carolina; antes penso que Inocente nos será de grande utilidade para muita coisa: servir à mesa, esfregar os quartos, ajudar na horta, fazer recados… Oh! descanse; já vejo o seu receio. Eu explicar-lhe-ei tão bem os recados que lhe der a fazer, que não haverá possibilidade de se enganar.

INOCENTE – Pode lá ser! Eu em sua casa, a comer e a trabalhar ao seu serviço, sem deixar a minha boa Carolina?

SR. DELMIS – Sim, meu rapaz, é essa a minha

proposta. Quereis aceitá-la?

INOCENTE -Eu, de mim, aceito. Aceita também, Carolina; anda, despacha- te, que o patrão pode mudar de ideias.

SR. DELMIS (sorrindo) – Isso é que não, Inocente; não mudo de ideias quando elas são boas; só o faço quando são más.

INOCENTE -Está muito bem! Mesmo muito

bem! Posso dizer que aprovo a sua proposta. Oxalá ela se mantenha! Pode contar com a minha estima e com a de minha irmã, não é assim, Carolina?

CAROLINA – Peço desculpa, senhor, se lhe dou a

impressão de hesitar, mas sinto-me de tal modo reconhecida à oferta, tão generosa, do senhor e da senhora, que nem mesmo me sei exprimir. Será para mim a maior das felicidades o poder manifestar, pelo meu zelo e dedicação, a minha gratidão por todas as bondades do senhor e da senhora.

SR. A DELMIS – Então aceita, Carolina?

CAROLINA – A senhora duvida de que aceito, reconhecida e feliz?

SR. DELMIS – Então, é preciso que entre já, boa

Carolina, porque a Rosa já se foi embora.

CAROLINA – Ela deixou a senhora?

SR. DELMIS – Isto é: fui eu que a pus na rua, por

me haver insultado grosseiramente.

Receosa de agravar a irritação contra a Rosa, Carolina reprimiu a sua surpresa e indignação. Pediu licença para só entrar ao serviço no dia imediato, a fim de arranjar tudo, pôr a casa em ordem e levar aos donos a roupa branca e os vestidos que lhe tinham dado afazér. Os patrões concordaram e despediram-se de Carolina, depois de lhe recomendarem que chegasse cedinho para fazer o almoço. E lá ficou ela com Inocente.

As boas amigas

Depois de fecharem e arrumarem tudo, Carolina empacotou a roupa e os vestidos que devia restituir às freguesas, e lá foi com Inocente, que levava o embrulho, distribuir tais objectos pelas donas.

– Muito folgo – disse a Sr. a Grébu – com a sua entrada para o serviço da Sr. a Delmis, minha boa

amiga, embora eu lhe pudesse arranjar patrão

mais agradável, menos gente, menos trabalho, maior

ordenado, gratificações, e serviço menos pesado;

mas, o mal está feito… mais vale não pensar nisso.

Contudo, se não se derem na casa dos Delmis, têm a

minha a seu dispor. Soubesse eu que se queriam

empregar, não eram os Delmis que os apanhavam, não… Nunca se pode saber o que desejam, tão sornas e metidos consigo eles são!… Não é que desgoste

deles, pois, pelo contrário, gosto imenso desses caros

amigos; mas, lá por gostar deles, não quer dizer que

seja cega. O que se vê escusa candeias… Rosa então

contou-mas bonitas! Enfim, lá se avenham. Deus é

testemunha se me importa a vida deles. Desejo que

seja mais feliz do que foi Rosa, minha boa Carolina.

Mas não se esqueça do que lhe disse: em minha casa, melhor mesada, menos trabalho e uma patroa bonacheirona. Então, adeus; ou melhor, até à vista, assim

o espero.

Carolina e o irmão saíram, depois de terem cumprimentado; ela ia calada.

-Que pensas da Sr.a Grébu e do que nos

contou? – foi a pergunta de Inocente, de olhos fitos

na cara da irmã.

CAROLINA – Não penso nada, nem de tal me

lembrava já.

INOCENTE – Pois eu, por mim, penso cá certa

coisa.

CAROLINA – Então, que é?

INOCENTE – Penso que ela é fraca bisca, falsa, ruim, bisbilhoteira, e que lho direi na cara, se ela vier

engraxar a Sr. a Delmis.

CAROLINA – Rogo-te, Inocente, que não digas

nada. Na nossa nova posição temos necessidade de

muita descrição, sem andarmos a levar a uns aquilo

que ouvimos aos outros. Não vás dizer nada do que ouves; guarda-o para ti e para mim.

INOCENTE – Está bem, irmãzinha, só te falarei a ti. Mas sempre te digo que a Sr.a Grébu é uma…

CAROLINA – Chiu! Estamos a chegar à casa da

Sr. a Ledoux.

Carolina teve de recomeçar a narração, repetindo os motivos de não poder continuar com a obra.

SR. A LEDOUX – Sinto deveras perdê-la, pois é uma boa costureira… É vantajosa, decerto, a entrada ao serviço do Sr. presidente… não porque a casa seja lá grande coisa… serviço muito pesado, crianças insuportáveis… e a fome que lá passou a Rosa! Esses Delmis olham para tudo o que se mete à boca… Ah! É por gostarem de brilhar, de meter figura! A Sr. aDelmis anda sempre com vestidos novos arruinando-se nesse espavento! Contudo, sempre lhe dou os parabéns, Carolina, embora pudesse ter arranjado bem melhor colocação… Se mo tivesse dito… Aqui em minha casa! Que diferença!… Ficará para depois… A menina não fez um contrato vitalício!… Adeus, Carolina. A minha casa está- lhe sempre aberta, não o esqueça. Adeus.

– Mais uma – disse Inocente, à saída, a rir.

-Sempre são de uma amabilidade para com a Sr. a Delmis!

– É de lamentar – respondeu Carolina -, tanto mais quanto é certo os senhores Delmis serem muito bons para todos.

INOCENTE – Quê! Ora, ora!

CAROLINA -Que bicho te mordeu? Porque

resmungas esse ora, ora, ?

INOCENTE – É que… não to queria dizer, mas sempre o faço. Esta Sr. a Delmis não foi lá muito boa para ti há pouco… por causa dos vestidos… sabes?

CAROLINA – É preciso ver que supunha que eu a havia enganado, que lhe tinha dado cabo dos vestidos.

INOCENTE – E porque teve ela pressa em acreditar em tal disparate? Porque não veio entender-se contigo, em vez de dar ouvidos à malvada da Rosa?

CAROLINA – Porque não supunha que a Rosa fosse tão malvada, que mentisse dessa forma.

INOCENTE – Mas podia crer que tu fosses sofrivelmente malvada para a enganar…

CAROLINA – Estás-me a sair muito espertalhão; deves antes ser bondoso e indulgente, perdoando aos que te ofendem.

INOCENTE – Não tenho dúvida em perdoar aos que me ofenderem a mim, embora já não pense do mesmo modo quanto aos que te ofendem a ti.

CAROLINA -Olha, Inocente. Se Deus fizesse como tu, onde estaria a nossa felicidade?

INOCENTE – É que a Deus nunca ninguém lhe ofendeu a irmã.

CAROLINA – Pois não; mas mataram-lhe o filho;

é bem pior!

INOCENTE – É verdade!… De facto, visto entrarmos ao serviço da Sr. a Delmis, que no-lo foi pedir pessoalmente, não ponho dúvida em perdoar-lhe… não há que ver: perdoo-lhe.

Carolina só respondeu com um sorriso e foi a casa da Sr. a Piron fazer entrega, como às demais, da obra que não pudera concluir, por falta de tempo.

– É bem aborrecido! – disse mal-humorada a freguesa. – Era melhor não se ter encarregado de um serviço que não podia acabar! Não é nada correcto, menina!

CAROLINA – A senhora bem pode compreender que não me era possível prever a morte de minha pobre mãe, e muito menos o oferecimento da Sr. a Delmis.

SR.a PIRON – Mas podia fazer esperar a

Sr. a Delmis até estarem prontos os meus vestidos. Nem ela nem a menina morreriam devido a essa demora.

CAROLINA – É que a Sr. a Delmis ficou bastante

embaraçada pela saída de Rosa

SR.a PIRON – Ai! A Rosa foi-se embora! Muito folgo com isso. Oxalá lhe sirva a lição, para tratar os criados com mais humanidade… Ai! A Rosa despediu-se? E a menina sabe a razão? Conte-me lá isso, Carolina.

CAROLINA – Como não estava lá, minha senhora, não sei o que se passou; nada posso, portanto, contar.

SR.a PIRON – Ande lá, minha boa Carolina, não seja assim desconfiada; pode ter a certeza de que nada direi. Houve escândalo? Foi ela que se foi embora, ou foi despedida? Que disse o Sr. presidente? Soube da saída da Rosa?

CAROLINA -Peço desculpa, minha senhora, mas a verdade é que nada sei do que pergunta.

SR.a PIRON – Ora a tolinha! A fazer-se esquisita, como se já fizesse parte da familia Delmis. Deixe estar que não há-de aguentar lá muito tempo, digo-lhe eu… Uma senhora exigente, avarenta, irritável, vaidosa, insuportável… Faço votos por que se dê bem nessa nova ocupação. Bem fez em saber calar-se; daquela gente havia lindas coisas a dizer! Adeus, menina.

Chegados a casa e tomada uma refeição frugal, recolheram-se depois de terminarem os últimos preparativos e de porem tudo em ordem na casa que tinham de abandonar no dia seguinte.

Inocente dormiu a sono solto, mas levantou-se mal a irmã o chamou, vestiu-se à pressa, a fim de seguir com Carolina para casa dos novos patrões. Lá, ninguém tinha despertado ainda; entraram na cozinha, a fim de começarem os preparativos para o almoço.

– Olha, que desordem aqui não vai! – exclamou Carolina.

– E nós é que temos de limpar tudo! – acrescentou Inocente.

CAROLINA – Vê se arranjas uma vassoura para varrer enquanto eu lavo a louça.

Inocente lá foi para o lado da copa.

– Ai! O que aqui vai! – exclamou, ao ver a louça partida. – Anda cá, irmãzinha. Tudo partido! Porcelanas, cristais.

Tendo acorrido, Carolina mostrou tanto espanto como Inocente.

– Ai! Senhor! Que vai dizer a senhora? Contanto que não cuide que fomos nós que a partimos…

INOCENTE – Nem um prato, nem uma chávena, nem um copo que não esteja estilhaçado! Nem se pode entrar sem andar por cima de cacos.

CAROLINA – Faz uma pilha deles, a fim de desembaraçar a copa; olha, aqui tens uma vassoura.

Meteram mãos à obra, e, graças ao seu esforço e ao hábito de Carolina de gostar de ter tudo sempre limpo, os únicos vestígios de fúria da Rosa era o monte de cacos, que a rapariga desejava mostrar aos patrões.

CAROLINA – Vai buscar água neste caneco. Eu

acendo o lume para a aquecer.

Pouco depois, já o lume crepitava e a água fervia numa cafeteira limpa e luzidia.

A Sr. a Delmis entrou na cozinha.

– Já a trabalhar? – exclamou ela, satisfeita. Foram vocês que limparam a cozinha, já vejo. Pois bem precisada estava.

CAROLINA – Fomos, sim, minha senhora, eu e o meu irmão. Limpámos e arrumámos tudo.

INOCENTE – A senhora quer ver o que está ali na copa? Mas não suponha que fui eu ou Carolina quem partiu tudo aquilo.

SR.a DELMIS – Bem sei; já demos ontem por isso; foi a Rosa, enfurecida por a termos despedido.

CAROLINA – A senhora já sabe que a porcelana e os cristais estão feitos em cacos?

SR.a DELMIS – Eu sei, já vimos. E preciso juntar

tudo aquilo, Inocente.

INOCENTE – Já está, minha senhora.

SR.a DELMIS – Já? Sim, senhores, isso é que se

chama trabalhar!

INOCENTE – É assim mesmo, minha senhora; eu e Carolina somos assim! Sabemos o que fazemos. Cuido que os patrões vão ficar bem servidos connosco.

CAROLINA – Cala a boca, Inocente. É feio a

gente gabar-se.

SR. A DELMIS – Deixe-o falar, Carolina; é preciso

deixá-lo exprimir tudo o que lhe vem à cabeça.

INOCENTE – Vês, Carolina? Tu mandas-me calar; a senhora quer que eu fale. Mas se eu dissesse à senhora tudo o que me vai pela cabeça!… Vi tanta coisa de ontem para cá!…

CAROLINA – Olha se te calas, que estás a aborrecer a senhora.

SR.a DELMIS – Ah! Isso é que não! Pobre rapaz! Fala, fala à vontade.

CAROLINA – Tenho receio de que… abuse da

excessiva bondade da senhora, e. .

INOCENTE -… isto é, tens medo de que eu conte à senhora o que nos disseram ontem as suas amigas…

Bonitas amigas que a senhora tem!

CAROLINA (com aspecto grave, de censura) Inocente, que foi que tu prometeste?

INOCENTE – Verdade seja que prometi e mantenho a promessa, como vês, pois nada disse ainda, como a senhora pode testemunhar, das bisbilhotices

da Sr. a Grébu e da outra Sr. a Ledoux, e mais da

outra… Sr. a Piron: Ah! Ah! Ah!

SR.a DELMIS – Mas que foi? Que houve? Que se

passou?

Carolina fartara-se, em vão, de fazer sinais a Inocente, mas este não olhava para ela e já estava para

retomar a palavra, quando Carolina se apressou a

responder:

– Absolutamente nada, minha senhora… nada

que valha a pena relatar. Quando ontem fui devolver

a obra que não podia fazer, algumas freguesas não

ficaram satisfeitas. Foi o que foi. A senhora bem sabe

que Inocente se diverte com qualquer ninharia.

Achou esquisito que aquelas senhoras se zangassem

e é o que ele pretende contar à senhora.

Inocente tentou falar, mas ficou mudo diante de

um gesto imperioso da irmã. Por mais que a

Sr. a Delmis o interrogasse, não houve maneira de o

fazer sair do silêncio. A pedido de Carolina, a senhora deu-lhe as ordens para o almoço e para o serviço

de todo o dia, explicando-lhe o que havia de fazer e, terminado o almoço, confiou-lhe as chaves da

despensa, da rouparia, e de todos os armários. Inocente ia-as seguindo por toda a parte, maravilhado

com todas as coisas que via, com grande satisfação da

patroa, que lhe permitia meter o nariz em tudo. A

irmã receava qualquer desconchavo ou qualquer ingenuidade;

longe, porém, de se zangar, a Sr. a Delmis achava graça às reflexões de Inocente, incitando-o a continuá-las. Ao ver os vestidos nos guarda-roupas, Inocente não ocultava a sua admiração e espanto.

– Que lindos vestidos! Ai! Que lindos padrões! Que pena que a senhora não seja mais nova! Como lhe haviam de ficar bem!

– Como assim? Achas-me então velha? Nem todos pensam como tu! – disse a patroa, um pouco arreliada.

INOCENTE – Eles não o dizem, é verdade; mas a senhora bem sabe que ninguém diz tudo o que pensa. Verdade seja que a senhora não é tão velha como Anica, criada do Sr. Abade; mas, para usar vestidos tão lindos e tão frescos, eu preferia que a senhora fosse da idade de Carolina.

– Então, que idade me dás tu? – replicou a Sr. a Delmis, esforçando-se por sorrir.

– Suponho que a senhora não deve ter mais de quarenta anos – disse Inocente com ar de ladino.

SR. A DELMIS – Pois muito obrigada! És deveras generoso!… Quarenta anos, não!… Na verdade! Quarenta anos!… Pois só tenho trinta.

INOCENTE – Trinta ou quarenta, é a mesma coisa; digo que a senhora tem quarenta, porque tem a aparência de os ter; ora aí está.

CAROLINA (inquieta) – Que bondade a sua, minha senhora, em escutar as tolices do meu irmão! Que sabe ele de idades das pessoas? Quer ter a bondade de dizer-me se o lugar dos vestidos é ali? Parece-me que estão bastante apertados, o que os amarrotará.

SR. A DELMIS – Isso fica ao seu cuidado, Carolina, pois que entende mais disso do que eu.

CAROLINA – Vou passá-los a ferro, antes de os pendurar. A senhora não deseja pôr esta noite este vestido lilás e verde, que tão bem deve dizer com a tez fresca e os cabelos loiros da senhora?

SR.a DELMIS (com satisfação) – Pois sim, Carolina.

A Sr. a Delmis retomara o seu ar amável. E satisfeita por ter afastado o incipiente mau humor da patroa, Carolina foi continuando a falar dos vestidos e de penteados e ofereceu-se para a pentear à moda, o que a Sr. a Delmis se deu pressa em aceitar. Depois recolheu ao quarto, para se preparar.

CAROLINA -Enquanto penteio a senhora, ó Inocente, tu retiras os talheres e lavas a louça; limpa tudo muito bem e arruma as porcelanas na sala de jantar.

INOCENTE – Pois sim, Carolina; mas olha lá: porque te mostravas tão descontente quando eu falei na idade da senhora?

CAROLINA – É porque nunca se deve falar na idade da patroa, e rogo-te que não voltes a falar à senhora em tal assunto.

INOCENTE – Embora não compreenda a razão, não tornarei a falar em tal, visto que isso te desagrada.

SR.a DELMIS (a chamar) – Carolina, ó Carolina, estou à sua espera!

CAROLINA -Olha a senhora a chamar-me; corre para o teu serviço, e trata de não partires nada.

INOCENTE – Sossega, que não farei como a Rosa… E esta agora de Carolina não querer que eu fale à senhora em idades!… Qual a razão?… Será por ela não ter o juízo próprio da sua idade?… É isso pela certa… mas devia ser mais razoável… embora o não seja mesmo nada… Pois é lá de pessoa ajuizada mandar fazer vestidos berrantes, como se fora uma rapariga nova?! Ora vejamos – continuou Inocente, enquanto examinava os vestidos -, cá está um todo cor-de- rosa, que havia de ficar bem à Carolina! E este azul- claro com grandes peónias! É esquisito, na verdade… Vejamos agora o lilás, que Carolina lhe quer fazer vestir esta noite! Bom para senhora nova! Bonito de mais! – acrescentou, abanando a cabeça.

Terminado o exame, Inocente passou à sala de jantar, tirou os talheres, lavou os copos, os pratos, a louça de porcelana, e, como lho indicara Carolina, arrumou tudo em cima da mesa e do aparador, à medida que os ia limpando. Depois, desceu à cozinha, varrendo e pondo tudo em ordem. Quando a irmã voltou para arranjar o almoço, ficou muito satisfeita, e pediu a Inocente que fosse visitar o abade e lhe desse parte da mudança que se operara na sua posição. Tudo fora tão rápido, que não tivera tempo de o consultar.

Encontro inesperado

Contente por poder dar uma passeata, Inocente meteu- se ao caminho. Quando ia a entrar numa ruazinha que dava para o passal, sentiu abrir, com precaução, a porta de uma granja abandonada, e saiu de lá furtivamente certa pessoa, como a temer ser vista; a porta não lhe deixava ver Inocente. Olhou para a direita e para a esquerda, e ia a precipitar-se para a rua, quando deu com ele. Abafando um grito, quis

voltar para a granja, mas Inocente, que a reconhecera, interceptou-lhe a passagem.

INOCENTE – Ah! É a Rosinha! Que faz aqui escondida? Porque foge de mim?

ROSA -Cala-te, por amor de Deus! Não me queiras perder!

INOCENTE – Perdê-la! Pelo contrário, torno a

encontrá-la.

ROSA – Não é isso o que eu quero dizer. Não digas que me encontraste, que estou nesta granja.

INOCENTE – Ora, porque não havia de dizer? Há nisso algum mal? Tenho a certeza de que a Carolina não se vai zangar.

ROSA – É que, se souberem onde estou, virão buscar-me para me meter na cadeia; a guarda…

INOCENTE – A guarda! Olá! Então fia fino. E

porquê? Que fez a Rosinha?

ROSA – Bati no presidente da Câmara e parti a louça.

INOCENTE – Ah! Foi você que fez aquela linda obra? Pois não há dúvida! Olhe que passei duas horas a apanhar os cacos… e é por isso que a querem meter na cadeia?

ROSA – Pois é; disse-o o Sr. presidente, e eu raspei-me, vindo esconder-me aqui, mas estou com fome. Ia agora a casa do Sr. Abade pedir-lhe um bocado de pão e o favor de interceder por mim junto do Sr. Delmis. Tenho medo da cadeia!

INOCENTE (compadecido) – Tem razão! Pobre Rosinha! É preciso que tivesse sido bem má para a quererem meter na cadeia! Que fazer para salvá-la?

Ia Rosa a responder-lhe quando ouviu passos de homens a chegar à azinhaga, onde se encontravam. Puxando Inocente, com força, internou-se com ele na granja, fechou a porta e foi esconder-se por detrás de

uma alta meda de feno seco que ficara esquecida a um canto. Inocente quis falar.

– Por amor de Deus, não abras a boca, senão estou perdida! – disse ela, em voz baixa e de mãos erguidas.

Inocente deixou-se ficar imóvel e aterrado; os passos avizinhavam-se lentamente. Quando chegaram em frente à granja, os guardas – porque eram eles – sentaram-se na soleira da porta, que lhes oferecia um assento cómodo e acolhedor. Conversavam baixinho; Inocente quis apanhar o sentido da conversa deles, mas só pôdde surpreender palavras desconexas:

– Escondida talvez… no presbitério… deve ter tido medo… boa lição… Rosa dos campos… Rosa dos bosques… Ah! Ah! Ah!, Após um descanso de alguns minutos, os guardas continuaram a marcha; riam, chamando pela Rosa dos campos.

Tornando a ficar tudo silencioso, Rosa saiu do esconderijo; estava a tremer, mais tremendo ainda Inocente.

ROSA – Preciso de comer; já não posso aguentar a fome. Por favor, Inocente, vai-me arranjar um bocado de pão.

Inocente batia os dentes; tremiam-lhe os joelhos; mas, comovido pelo sofrimento da sua antiga inimiga, dirigiu-se para a porta, que abriu depois de ter levantado a lingueta. Ao sair, deu de cara com um guarda.

– Ah! – gritou ele, caindo e ficando estendido no chão.

CABO – Então! Que susto foi esse? Quando se tem medo da guarda, é mau sinal… Ora, levanta lá o nariz, para ver quem és.

Mas Inocente não se mexia, o que levou o cabo a erguê-lo à força.

CABO – Olha! É Inocente! És tu, meu rapaz! Porque é que tens hoje medo de mim? Todavia, nós somos velhos amigos. Que fazias aí fechado na granja? Se calhar, não estavas sozinho, pois não?

E, não fazendo caso de Inocente, o cabo quis penetrar na granja.

– Ó! Não entre! Não entre! – exclamou Inocente, metendo-se-lhe no caminho. – Por favor, não entre!

Mas vendo inúteis os seus esforços, disse:

– Tenha pena de uma pobre rapariga semimorta de fome.

CABO -Uma rapariga! E quase a morrer de fome! De quem falas tu? Ou cuidarás que ando atrás de alguém?

INOCENTE – O quê? Então o senhor não anda à procura da Rosa, a antiga criada do Sr. presidente?

CABO – A Rosa? Então é preciso prendê-la? Sabes porquê? Que fez ela?

INOCENTE – Eu não sei de nada; supunha que o senhor estava com aqueles senhores guardas que se sentaram aqui na soleira da porta e que falavam em prender a Rosa.

CABO – Não, estive em licença. Ao regressar há pouco, saí a fazer a ronda, quando dei de cara contigo. Pelo que dizes, os meus camaradas têm ordem de prisão contra a Rosa, que se escondeu aqui na granja, e que tu me queres impedir de apanhar. Mas prineiro está a obrigação.

Com isto, entra o cabo pela granja dentro e começa a busca.

Enquanto remexia por entre pipas vazias, foi Inocente ocultar com as costas e meda de feno atrás da

qual se agachara Rosa. Como não desse com coisa nenhuma do seu lado, o cabo voltou-se para o sítio onde estava Inocente e, notando-lhe o ar inquieto, dirigiu-se para ele.

– Sai daí, vamos, pois já vejo que ela está aí escondida. Deixa-me apanhar a caça.

Mas Inocente recusava sair, o que levou o cabo a pegar-lhe por um braço e a fazê-lo rodopiar como um pião; ao deslocar o feno, ficou muito surpreendido de não ver ninguém.

CABO – É curioso! Eu ia jurar que ela estava aqui.

INOCENTE (batendo palmas) – Fugiu! Raspou-se! Tanto melhor. Mas por onde é que se escapou?

CABO – Então, ela, na verdade estava escondida atrás deste feno?

INOCENTE – Lá isso estava, não há dúvida; agora por onde ela se safou é que não sei dizer, pois aqui à porta estávamos nós.

CABO – Ah, maroto! Tu és cúmplice dela, pois ajudava-la a esconder-se.

INOCENTE – Eu encontrei-a aqui à porta, como me encontrou o senhor; mas, ao ouvir passos fora, voltou a meter-se dentro da granja, arrastando-me consigo; e antes de eu voltar a mim, da surpresa, ouvimos os seus camaradas – que se sentaram à porta – falar da Rosa; ouvimo-los rir, com vontade, e, depois de descansar, tornaram a partir. Foi então que Rosa me pediu para lhe ir buscar um bocado de pão. Com pena dela, ia a sair para satisfazer-lhe o pedido, quando esbarrei consigo e tive medo; é quanto sei dizer… Mas para onde teria ela fugido? Nem vejo porta nem janela…

CABo – Olha, marcha adiante de mim para casa do Sr. Abade, onde, pelo visto, devem encontrar-se

os meus camaradas; quero saber se é ou não verdade

o que me contaste.

INOCENTE – Pois vamos lá; precisamente, a minha irmã tinha-me incumbido de um recado para ele.

E lá foram. O cabo puxou a porta, mas sem a

fechar de todo.

– Ó Inocente – disse -, vai sozinho a casa do

Sr. Abade. Como estou cansado espero aqui os

meus camaradas. Diz-lhes isto mesmo.

E Inocente lá foi, sem desconfiar de nada. Encontrando o pároco sozinho, perguntou-lhe pelos guardas.

ABADE – Não vi guarda nenhum, meu amigo.

Que tens tu com os guardas?

INOCENTE – Não sou eu que pretendo saber

deles, Sr. Abade, mas o cabo que ficou na azinhaga

da granja é que pergunta por eles.

ABADE – Eles raras vezes cá vêm a casa. Era

para isso que vinhas ver-me?

INOCENTE – Não, Sr. Abade, isso foi um recado

de ocasião. O que me traz aqui é uma incumbência

de minha irmã. Deseja ela que eu conte ao Sr. Abade

o que se tem passado connosco.

E contou-lhe o sucedido, nos últimos dias. O pároco aprovou tudo o que Carolina tinha feito, e disse

a Inocente que achava muito bem e se sentia muito

contente por os saber em casa do presidente Delmis.

– E em casa da senhora, não? – exclamou, sorrindo, Inocente.

ABADE -E… e em casa da senhora também!

Porque estabeleces diferença entre o patrão e a

patroa?

INOCENTE (a esfregar a cabeça) – Porque… é

que… olhe, Sr. Abade, eu não sei explicar mas… não

é bem a mesma coisa… a Sr. a Delmis, sabe… parece

que é preciso estar sempre a adulá-la, a gabá-la… e eu cá para isso é que não sirvo… Tem vestidos, ah! Cada vestido. Se o Sr. Abade os visse, era da minha opinião, e concordava em que ela não se parece nada com o Sr. Delmis.

ABADE (a rir) – Pois claro! Então já viste ho mens de saias? Evidentemente que não, usam sempre a mesma coisa: fato e sobretudo.

INOCENTE – Bem sei… mas não é isso… é uma coisa… como dizer?. Como duas manteigas: parecem iguais… saboreia-se uma e sabe bem; a gente gostava de estar sempre a comer; saboreia-se a outra e… ah! porcaria! tem ranço; põe-se de parte.

O pároco ria cada vez mais, embora Inocente não risse, mas abanasse a cabeça. Por fim, disse pensativamente:

Carolina não gosta de ranço, mas tem de o comer… e até eu – acrescentou com um suspiro.

ABADE – Ora vamos, Inocente; não estejas para aí a atemorizar-te sem razão; a Sr.a Delmis tem génio, isso tem, mas não se pode dizer que seja má senhora. E, como Carolina é meiga e branda, tudo correrá sem novidade. Adeus, meu amigo, adeus.

E Inocente foi-se embora. Ao tornar a passar na granja ouviu barulho e, como a porta estava aberta, meteu a cabeça e viu com surpresa Rosa estendida no chão, enquanto o cabo acabava de lhe amarrar as pernas e os braços.

Depois de Inocente partir, o guarda, que supunha haver ali qualquer esconderijo, entreabrira a porta devagarinho, entrara sem ruído, estendera-se no chão num cantinho escuro. Depressa ouviu um leve ruído, parecendo provir de debaixo do chão e, pouco depois, viu mexer-se umas tábuas sobre o solo, e aparecer uma cabeça, que se pôs a olhar em redor.

Como não visse ninguém, e julgando-se em segurança, Rosa, porque era ela, acabou de sair do buraco onde penetrara, tapando-o com tábuas, aparentemente pousadas no chão, sem deixar suspeitar um esconderijo; dirigiu-se sem barulho para a porta, e grande foi o susto ao sentir duas mãos a puxar-lhe pelas pernas e a fazê-la cair de bruços. Antes de poder gritar, o cabo, que saíra rapidamente do seu cantinho, atirara-se a ela, amordaçara-lhe a boca para a impedir de gritar, e ámarrara-lhe os pés e as mãos, de que, em legítima defesa, ela começara a servir-se.

– Ó Sr. Cabo – exclamou Inocente -, não lhe faça mal! Pobre Rosa! Tire-lhe o lenço! Não vê que a abafa?

CABO – Lá por isso, meu rapaz, tira-lho tu, se assim o desejas. Ora aí a tens agora bem segura. Onde estão os meus camaradas? Não os encontraste?

INOCENTE – Nem eu nem o Sr. Abade os vimos.

CABO – É muito aborrecido, isso! Que vou eu agora fazer desta rapariga? Não tenho ordem de prisão contra ela! Ora vamos lá, minha linda, quer-me dizer a verdade? Porque é que se andava a esconder?

– Disseram-me que o Sr. Presidente me tinha dado ordem de prisão – respondeu ela, a tremer.

CABO -Mas que fez para isso? Fale, diga a verdade; porque a queria prender o Sr. Presidente?

ROSA – Depois de uma zanga, bati-lhe.

CABO – Bateu no Sr. Presidente! Então, minha amiguinha, está bem arranjada!… Como, porém, eu não recebi instruções, vou desamarrá-la, visto não estarem aqui os meus camaradas, e conduzi-la a casa do Sr. Presidente, que fará o que bem entender.

ROSA – Misericórdia, Sr. Guarda! Não me faça atravessar a cidade! Que vai dizer o povo se me vir atravessar a cidade, amarrada de pés e mãos e acompanhada por um guarda?

CABO – Olhe, pena tenho eu; mas acima de tudo está o dever. O que posso fazér é ficar aqui de guarda; enquanto Inocente vai receber as ordens do Sr. presidente. Vai, Inocente, vai, meu rapaz; vai dizer ao Sr. presidente que a Rosa está aqui, bem segura, com sentinela à vista; que diga o que devo fazer.

E lá foi Inocente a correr; entróú na casa, atravessou a cozinha, como uma seta, sem ligar atenção ao chamamento da irmã, que ficou aterrada com a palidez e a marcha precipitada déle.

– Impossível! – disse-lhe a correr. – O cabo está à espera. É impossível!

Penetrou assim na sala de visitas, onde trabalhava a Sr. a Delmis sozinha, e continuou a andar sem prestar mais atenção à patroa do que prestara à irmã, penetrando, sem bater à porta, no gabinete do Sr. Delmis, que falava com um guarda.

SR. DELMIS (impaciente) – Que desejas tu? Não vês que me incomodas? Estou ocupado.

INOCENTE – Não faz mal, Sr. Presidente. É preciso que venha já comigo à granja da azinhaga do Sr. Abade. Está lá presa e amarrada a Rosa. Manda perguntar o cabo o que deseja que faça dela.

SR. DELMIS – O rapaz está tolo. Que é que dizes, homem?

INOCENTE – Digo que é preciso ir imediatamente, porque o cabo pede a sua comparência.

SR. DELMIS – Então que há? De que cabo falas

tu?

INOCENTE – Lá porquê, não o sei eu. Foi o

Sr. Bourget que prendeu a Rosinha.

SR. DELMIS – Vá ver o que foi, Sr. Guarda; enforcado seja eu se percebo alguma coisa do que Inocente diz.

INOCENTE -Todavia, é bem claro. O cabo Bourget pede a comparência do Sr. Delmis, porque tem a Rosinha presa.

SR. DELMIS – E porque a prendeu?

INOCENTE – Sei lá! Ela está cheia de fome. A seu pedido, eu ia-lhe arranjar um bocado de pão, quando esbarro com o cabo, cujos camaradas já tinham seguido. Voltámos a procurar a Rosa, e nada de dar com ela. O cabo manda-me embora, a casa do Sr. Abade, procurar os camaradas; na volta encontro o Sr. Bourget a amarrar as pernas à Rosa; desato-lhe o lenço que a abafava, e ele diz-me para vir aqui perguntar ao Sr. Presidente o que deve fazer à rapariga. E aqui está!

SR. DELMIS – Vamos lá ver, Sr. Guarda. Há-de

haver um equívoco em tudo isto. Anda connosco, Inocente; guia-nos até à granja.

Pegou no chapéu e saiu pela escada lateral, na companhia do guarda e de Inocente, que ia correndo à frente. Não tardaram a chegar à granja, onde encontraram Rosa, sentada no chão e a devorar um bocado de pão que tinha nas mãos atadas. Junto dela estava o cabo, que não a perdia de vista.

– Que significa esta comédia? – perguntou o Sr. Delmis, ao entrar. – Porque prendeu esta rapariga e por que razão é que me manda chamar por Inocente?

CABO – Se não fosse caso urgente, eu não tomava a liberdade de incomodar o Sr. Presidente. Soube que uns camaradas meus andavam à procura desta rapariga. Como dei com ela, não a perdi de vista. Não sabendo que lhe fazer, mandei pedir ordens, ficando eu de guarda à rapariga, pois vejo que é manhosa e que se raspa, se a perco de vista um minuto.

SR. DELMIS – E porque é que os seus camaradas procuravam esta rapariga? Quem lhes deu tais ordens?

CABO – Isso é que eu não sei. Eu mesmo preciso de explicação, e foi por isso que mandei pedir ordens. A rapariga escondia-se e declarava-se perseguida; tive de a deter provisoriamente.

SR. DELMIS – Porque te escondias tu, Rosa?

ROSA – Para me escapar, pois tenho medo da cadeia.

SR. DELMIS – Mas quem é que te queria pren der?

ROSA – Encontrei a Sr. a Grébu, que me disse: Fizeste-a bonita em casa do Sr. Delmis, Rosinha; ele vai-te engavetar, se te não esconderes. A esta hora já a guarda anda à tua procura. Foi por isso que tratei de me esconder, pois não queria ir para a cadeia.

SR. DELMIS – E o Sr. Cabo, porque andou atrás

dela e a prendeu?

CABO – Andei atrás dela pela informação que me deu Inocente, de que os meus camaradas a procuravam. Prendi- a, porque ela própria me confessou que andava a fugir dos guardas.

SR. DELMIS – Há em tudo isso um equívoco, que é preciso esclarecer, Sr. Cabo. Entretanto, desamarre as mãos da prisioneira, e deixe-a ir em paz… E tu, Rosa, foste tu mesma que te castigaste. Na verdade, eu podia ter-te mandado prender, mas tive pena de ti e perdoei-te. A tua consciência inquieta é a causa dos teus desgostos de ontem para cá.

Primeiras tolices

Rosa lá se foi, envergonhada, sem dizer palavra; e o cabo, a rir do engano, também se retirou com o

guarda, a quem concluiu a explicação incompleta de Rosa e de Inocente. Quanto a este último, voltou para casa com o Sr. Delmis, conversando alegre mente e dando as suas opiniões.

INOCENTE – A causadora de tudo isto, Sr. Presidente, é sem dúvida a Sr. a Grébeu. Não há que ver: é uma tremenda mexeriqueira; bem andará o patrão em desconfiar dela.

SR. DELMIS – Assim faço. Conheço bem toda essa gentinha amiga de minha esposa.

INOCENTE – Bonitas amigas, não haja dúvida! No lugar do patrão, havia de lhas dizer boas.

SR. DELMIS – IsSo é tudo muito bonito! E a minha mulher?

INOCENTE -Então o patrão acredita que a senhora goste de tais amigas? Que gosta delas como eu gosto da minha Carolina? Deixe-se disso!… A senhora não é parva nenhuma!

SR. DELMIS – Olha cá, Inocente, como arranjas tu a saber tanto? Como adivinhas assim?

INOCENTE – Com a minha cabeça e com o meu coração; adivinho, porque sei o que Carolina diria e faria. Vi e ouvi muito no tempo em que essas senhoras faziam as suas encomendas a minha irmã, e quando vinham a nossa casa falar disto e daquilo, de Fulano e de Sicrano.

SR. DELMIS – Ora conta lá o que viste e ouviste dizer.

INOCENTE – Ah! Isso é que não; não posso ir

contra a proibição de Carolina.

SR. DELMIS – Ah! sim? Então obedeces sempre

a tua irmã?

INOCENTE – Cegamente; mesmo quando não

percebo a razão do que me proíbe.

SR. DELMIS – Se Carolina te mandasse fazer uma coisa, e eu outra, a qual de nós obedecias tu?

INOCENTE (raciocinando) – A quem obedeceria eu?… Ora, vejamos… O senhor é o patrão… e Carolina, a minha irmã… Devo obedecer ao patrão… Disse-o Carolina… Ora, espere lá… Já vejo: obedecia a Carolina e não ao senhor!

SR. DELMIS (sorridente) – Muito obrigado. E então porquê?

INOCENTE – Porque uma irmã é sempre irmã, não muda, ao passo que um patrão muda de um dia para o outro. Se me for embora, já deixa de ser meu patrão; não será assim?

SR. DELMIS (a rir) – Bravo, Inocente! Muito bem

pensado.

Iam ambos a rir quando chegaram a casa. O patrão ria das saídas de Inocente, e este, de ver rir o Sr. Delmis. O almoço estava à espera. A irmã ia para lhe ralhar por ter tardado a pôr a mesa; ele, porém, declarou-lhe não ter sido sua a culpa, como lho provaria depois da refeição. Foi, pois, obrigada a protelar as censuras que se aprestava a fazer-lhe. O almoço foi considerado excelente; Inocente serviu-o lindamente; sentia-se orgulhoso dos elogios que lhe fazia o Sr. Delmis; eis senão quando, ao levantar uma compoteira de medronhos, a prendeu no penteado da patroa e a virou, espalhando-lhe o conteúdo na cabeça e no vestido.

– Desastrado! – exclamou ela, erguendo-se da mesa. – Escangalhou-me o penteado e manchou-me o vestido! Pode lá suportar-se?

Inocente olhava para aquilo calmamente.

– Não está nada perdido – disse. – Carolina tornará a arranjar o penteado; quanto ao vestido, também o mal não é grande, pois não é nada bonito… Sim, minha senhora, é verdade! – continuou, ao ver a senhora pronta a responder, enfurecida. – Mesmo nada bonito! Não fica nada bem à senhora! Parece muito mais nova e branca com o vestido de manhã do que com este.

SR.a DELMIS (encoleriZada) – Seu atrevido!

INOCENTE (com surpresa) – Mas, atrevido, porquê? Pois que foi que eu disse? Não será verdade, talvez? Ora pergunte- o ao patrão.

O Sr. Delmis sorria; mas ao apelo de Inocente, ergueu os olhos e deu com o rosto irritado da mulher, e com a cara espantada e algo apalermada de Inocente. Encolheu os ombros e desviou a vista sem dizer nada.

INOCENTE – Vê como o patrão não diz nada? Tivesse eu dito qualquer disparate, logo o patrão mo dizia. Tenho porventura culpa de os penteados da senhora, tão cómicos, se virem esbarrar nas travessas? Carolina que diga se eu lhe toco no cabelo! Nunca o faço, porque ela penteia-se com simplicidade.

SR.a DELMIS – Na verdade, não é possível ter em casa um rapaz tão insuportável!

O marido ia a falar, quando entrou Carolina a perguntar o que tinha havido.

SR. DELMIS – Não foi lá grande coisa. Inocente

esbarrou com a compoteira nos cabelos da senhora e despejou-lha pela cabeça abaixo.

– E o patrão agora está zangado, com certeza!

– exclamou Carolina, assustada. – Foi deveras lamentável! O lindo vestido da senhora todo manchado! Os seus bonitos cabelos encharcados de molho das framboesas! Se a senhora der licença, eu vou arranjar-lhe o penteado e limpar-lhe o vestido; fazendo isso já, as nódoas desaparecem.

Acalmada com a compaixão de Carolina e com o elogio aos seus cabelos, a Sr. a Delmis deixou a sala, acompanhada por ela, que lançou a Inocente um olhar de triste e suave censura.

Inocente, até então impassível, pôs-se a andar, a grandes passadas, de um para outro lado da sala, a bater na testa e a dizer:

– Fiz asneira! Bem o notei na cara de Carolina! Se o patrão quisesse ter a bondade de lhe dizer que não se zangasse comigo. Não foi de propósito; Toda a gente pode esbarrar com uma compoteira, de passagem! Que penteado aquele! Podia eu lá saber que lhe tinham soprado os cabelos, até lhe porem a cabeça do tamanho de um alqueire? Não me parece justo que me lancem agora as culpas; não acha, patrão?

SR. DELMIS – Olha, Inocente, tu não cometeste uma acção má, mas foste desajeitado e impertinente. Ora, não se pode ser nem uma coisa nem outra.

INOCENTE – Isso é fácil de dizer, patrão; eu

queria vê-lo no meu lugar a andar com uma dúzia de pratos e travessas, como eu esta noite, sem partir nada (porque ninguém pode dizer que eu tivesse partido coisa alguma), e só por uma compoteira entornada por cima de um vestido feio (porque ele é

feio, senhor; pode crer no que lhe digo), sobre um vestido feio, digo, e sobre uma cabeça penteada… penteada de uma forma… Enfim, se o patrão acha a senhora bonita assim penteada, nada tenho a alegar; mas… fosse eu o patrão, far-lhe- ia mudar o penteado… no que só tinha a lucrar… isto é, eu não digo que a senhora ficasse de todo bonita, não… não quero dizer isso. mas não ficaria feia de todo. de todo. de forma a não se rirem dela nas bochechas.

Inocente – replicou o Sr. Delmis de sobrolho carregado -, se tornas a falar dessa maneira, zangamo-nos contigo.

INOCENTE – Não há perigo, patrão, de eu dizer à senhora o que disse ao Sr. Delmis. Suponho, contudo, que o patrão não se zangará comigo, nem me trairá, e que Carolina também não virá a saber o modo como eu me exprimi. Bem me tinha dito a minha irmã: Nunca fales em idade diante da senhora, .

SR. DELMIS – Ai! ela disse-te isso?

INOCENTE – Pois disse, sim, senhor; e, afinal, eu esqueci-me, e disse diante da senhora que ela parecia velha! Ah, bem tem razão Carolina para estar fula comigo! Ai meu Deus! que infeliz eu sou! Carolina indisposta comigo!

SR. DELMIS – Sossega, meu rapaz! Hás-de dizer

a Carolina que perdoei, que estou satisfeito; desta forma, já ela não ficará zangada contigo. Bom, até logo. Levanta a mesa, olha, não quebres coisa alguma, e nada temas. Serei teu amigo e defender-te-ei.

INOCENTE – Obrigado, senhor, muito obrigado. Quanto grato lhe estou! Nunca esquecerei a sua amizade. Também eu serei seu amigo, e amigo capaz de se deixar matar pelo patrão!

Uma bela sobremesa

Carolina ganhava todos os dias ascendente junto dos patrões, devido à sua inteligência, actividade e habilidade para todo o serviço, bem como à sua prontidão em servir os amos. De manhã cedo, antes de ninguém ter despertado em casa, ia ela à missa e orar sobre a campa da mãe, a quem pedia o auxílio para continuar o trabalho esmagador a que, por dedicação e ternura pelo irmão, se votara. Se fosse sozinha, podia continuar a ser costureira, com o que ganhava lindamente a vida, além disso, livres os domingos e as noites. Em casa da Sr. a Delmis, era igual ao da semana o serviço dos domingos e dias santos, pois tinha de arrumar os quartos com Inocente, ajudar a vestir a senhora e as crianças, preparar as refeições, pôr e levantar a mesa, lavar a louça, etc. O único prazer que tinha era o de assistir à missa cantada e às vésperas, e de ir passar uma hora ao presbitério. Durante a sua ausência, Inocente brincava com os meninos. Não raro fazia perder a paciência à senhora, mas divertia os pequenos com as suas ingenuidades, sendo frequentes os seus desastres. Raro era o dia em que não quebrasse qualquer coisa, ou não cometesse qualquer desacerto. O patrão desculpava-o o melhor que podia e o reconhecimento de Inocente manifestava-se por um olhar cheio de ternura. Desde o princípio, o Sr. Delmis reconhecera nele um fundo de bondade, dedicação e afecto, qualidades que o tornavam indulgente para as tolices que se iam tornando menos frequentes à medida que o hábito do serviço lhe proporcionava mais segurança e destreza. Mais de uma vez o Sr. Delmis ajudara Carolina a ocultar da senhora as asneiras de Inocente. Um dia o pobre moço quebrara um jarrão que lhe haviam entregado para nele colocar flores; desolada, Carolina não sabia como afrontar o desgosto da patroa. O Sr. Delmis, que presenciara o acidente, foi a casa do vendedor de loiça fina para substituir o jarrão partido, e, por sorte, encontrou um igualzinho, que se apressou a trazer aos consternados irmãos. Tão boa acção foi recompensada com a alegria de Inocente e algumas palavras ingénuas e afectuosas, bem como pelo reconhecimento de Carolina, que lhe garantia a dedicada afeição dos desditosos órfãos.

Carolina avisou um dia o irmão de que ia haver um grande jantar, nessa tarde, e que tinha de andar depressa para ter tudo disposto, e arranjar a mesa convenientemente.

INOCENTE – Que entendes tu por convenientemente?

CAROLINA – Melhor que de costume; terás de

escolher os pratos que não estejam esborcinados; limparás muito bem tudo de antemão, para não teres de o fazer durante o jantar; porás musgo debaixo da fruta; finalmente, arranjarás a coisa de forma que a aparência agrade, que a mesa pareça bem, e que os patrões fiquem satisfeitos.

INOCENTE – Lá pelo patrão não vinha o mal; está sempre bem disposto. Agora a senhora, isso fia mais fino; é difícil de contentar.

CAROLINA – Chiu! Ah! que se a senhora te ouvisse…

INOCENTE – E então? Se me ouvisse… Não digo

a verdade, talvez? Então não é verdade que, por mais

que eu faça, por mais que me mate, ela há-de estar

sempre a ralhar, e há-de achar sempre que censurar?

Pois não ficou levadinha da breca, o outro dia, só por

eu ter amarrado o bico ao papagaio?

CAROLINA – Se te parece! O bichinho ia morrer

à fome, pois nem comer podia…

INOCENTE -Ora, que grande desgraça! Uma

bestinha maldosa, que não faz senão repetir o que eu

digo, que me insulta do nascer ao pôr do dia, que me

dá cada bicada enquanto eu trabalho, que me irrita e

me azeda o génio, e tudo por simples maldade, só

para não me deixar acabar a horas!

CAROLINA – Está bem, está bem; mas vai tratar

de aprontar tudo para o jantar e não te esqueças de

preparar bem a sobremesa.

E lá foi Inocente, a cantar. A irmã seguiu-o com a

vista, e voltou para o fogão, passando um lenço pelo

rosto, para limpar algumas lágrimas que brotavam

contra sua vontade.

Coitado do meu irmão! – disse para consigo. Por mais que o mande calar que o incite a ser mais

cuidadoso, o ajude no seu trabalho, lhe diga que seja

comedido nas palavras, a senhora antipatiza com ele, cada vez mais. Já não me atende, como dantes; torna- se atrevido. Basta o papagaio para o pôr

fora de si. Pressinto que, dentro em breve, a patroa

não o poderá manter ao serviço. Se não fosse o

patrão, já ela o tinha despedido, há muito. Claro que, se ele for despedido, eu também não poderei ficar.

Terei, pois, de voltar à agulha, para ganhar a vida.

Mas, pela certa, não ganharia o bastante. Pagam tão

pouco! E Inocente não tem fastio!… coitado do rapaz!

Carolina voltou ao trabalho; preparou a carne, pôs ao lume as caçarolas e, enquanto as vigiava, apressou-se em acabar um vestido com que a senhora muito desejava aparecer ao jantar. Por seu lado, Inocente também não estava ocioso: tratava de preparar a mesa.

Ora, vamos lá a ver como é que eu hei-de arranjar a minha sobremesa, – disse ele, depois de colocar os pratos, copos e talheres. – Carolina recomendou- me que tratasse de dispor bem a sobremesa, colocando musgo por debaixo da fruta. Ora, para utilizar o musgo, é preciso tê-lo; para tê-lo é preciso ir buscá-lo. Vou apanhá-lo ao jardim.

E, se bem o disse, melhor o fez. Lá foi, e regressou com ele, a cantar.

Ora agora, mãos à obra! Que é que a senhora tem para a sobremesa? Maçãs? Bem!… Peras! muito bem!… Compota de damasco!… e de ameixa! Ah, isso vai ser mais difícil de arranjar… Como diabo hei-de eu fazer para colocar a compota em cima do musgo? Não me virá o molho estorvar?

Reflectindo um instante:

Já sei como arranjar – disse ele. – Estendo o musgo na compoteira (e vai fazendo o que diz), pego na compota e despejo-lha em cima… Alinho e disponho convenientemente os damascos no musgo… Fiquei com os dedos besuntados! O musgo chupou todo o molho… Agora as ameixas… assim… prontinho… Estranha compota, não há que ver!… Olé! As formigas que o musgo tinha, a afogarem-se no molho! Ui! como se debatem! Eu bem as ajudava a safarem-se, se não temesse as ferroadas. Isto de formigas é uma peste! Sabem lá ser reconhecidas… Pronto! Está visto. Vamos agora às maçãs e às peras!

Depois de concluir a disposição da fruta, e de haver colocado, nos diversos pratinhos, os biscoitos, o maçapão, as amêndoas, avelãs, coscorões, pão-de-ló e outra pastelaria, começou a dispor tudo em cima da mesa. Encantado com o bom gosto e imaginação que desenvolvera, olhava para a mesa, com satisfação, andando em volta dela para admirar a sua obra.

Falta qualquer coisa ao centro – disse ele -, falta, não há dúvida… alguma coisa bem alta… Ah, já dei com ela!… , E correu para o papagaio, agarrando no poleiro em que dormia o seu inimigo, e colocando-o, sem barulho e sem abalo, mesmo no centro da mesa! Envolveu de musgo o poleiro, de modo a formar uma pirâmide, cujo cimo era o Louro profundamente adormecido.

E então Inocente julgou-se um talento. Nunca – disse para si mesmo -, nunca apareceu na mesa coisa tão bonita! Vou impedir que entrem na sala, para terem a surpresa ao jantar, .

E saiu, fechando a porta e metendo a chave no bolso. Ao chegar à cozinha, deu nas vistas a Carolina o seu aspecto radiante.

CAROLINA – Tu que tens, Inocente, para estares assim tão contente?

INOCENTE – Há bem motivo para isso, irmãzinha. Garanto que não tens visto muitas vezes a mesa arranjada, como eu a tenho lá em cima.

CAROLINA – Estás bem certo de nada faltar? Não tiveste qualquer das tuas tristes invenções?

INOCENTE – Tristes? Pois dás esse nome às minhas ideias engraçadas e elegantes?!. .

CAROLINA – Ai Senhor! Sempre tomas uns ares mais solenes! Ora, diz lá o que fizeste, Inocente, ou melhor, vou subir à sala de jantar e dar uma vista de olhos pela mesa.

INOCeNTE – Podes ir; mas já te digo que não

verás coisa alguma.

CAROLINA – Porque não hei-de eu ver o que lá

está?

INOCENTE – Há lá muito que ver, mas nada

verás, porque a chave está aqui no bolso.

CAROLINA – Tiraste a chave? Vai já lá pô-la na

fechadura, que a senhora pode querer lá ir…

INOCENTE – Pois não há-de entrar, digo-to eu.

CAROLINA – Não pode ser. Vais fazê-la zangar mais uma vez. Lá está ela a chamar por mim. Vai pôr a chave na fechadura, Inocente.

INOCENTE – Ó Carolina, por favor, deixa-me fazer- lhes a surpresa. Ai! que lindo que está!

CAROLINA – Arranja lá como te parecer, pobre irmãozinho; mas eu receio que haja qualquer falta.

INOCENTE – Não falta nada. Está tudo perfeita mente.

CAROLINA – Fica então a olhar pelas caçarolas, enquanto eu ajudo a vestir a senhora.

E lá foi ela, ficando Inocente encantado com o lance teatral que esperava. A senhora não teve tempo de inspeccionar o serviço de Inocente, pois chegaram os convidados logo que ela acabou de se arranjar. Entre estes estavam as senhoras Grébu, Ledoux e Piron.

– Para a mesa – disse a patroa, depois de Inocente anunciar que ia servir o jantar.

Este seguiu de perto os convivas, a fim de gozar da surpresa e admiração gerais. Efectivamente, a abundância e boa disposição da sobremesa mereceu a admiração de todos. Mas Inocente nem ouvia coisa alguma, de consternado pelo lugar vazio do Louro.

– Para que é esta pirâmida de musgo? – perguntou a Sr. a Grébu. – Que vai pôr-lhe em cima, minha boa amiga?

SR.aDELMIS – Absolutamente nada… Não

percebo… Nem a tinha visto ainda…

SR. DELMIS – É para ponto de vista e para indi car o centro da mesa – disse o Sr. Delmis, que já previa qualquer triste invento de Inocente.

– É qualquer tolice de Inocente – replicou com azedume a Sr. a Delmis. – Para que é este musgo, ó Inocente? Fala, rapaz! Não ouviste a pergunta?

– A senhora deve desculpar – respondeu, embaraçado, Inocente, deitando um olhar de súplica ao Sr. Delmis. – Eu pensei, visto faltar um centro de mesa, porque bem deve estar lembrada que, quando o patrão quis comprar um, a senhora achou muito caro…

SR.a DELMIS (impaciente) -… Bem! Bem! E dePOiS?

INOCENTE – Pensei então que… que, se pudesse colocar ali o Louro, que lindo efeito não resultaria!

Mas, se aí coloquei o Louro, foi só para agradar e honrar os patrões que são os donos, a quem cabe a honra de todas as coisas. Ora, o Louro é um miserável… Sim, senhores – continuou Inocente, excitado -, é um malicioso… a senhora bem deve calcular que não é nada agradável ter na casa um inimigo tão cruel. Ora vejam as damas e cavalheiros… as porcarias que ele fez na mesa… roeu as amêndoas, espalhou as maçãs, arrancou o pé às peras. Toda a sobremesa saqueada, devastada!… Peço desculpa… mas… não posso conter as lágrimas… hi, hi, hi… ao ver perdida… toda a honra… e glória… que me cabia… hi, hi, hi! pela maldade… hi, hi, hi! desse bruto. Um de nós tem de desaparecer. Já previno os patrões: mal irá a um de nós…

SR. DELMIS – Acalma-te, Inocente… Não faz

mal. Não é por isso que o jantar deixará de agradar; a sobremesa nem por isso está menos bonita. Esqueçamos o Louro pela sopa que esperamos e que nos vais servir.

INOCENTE – É grande a sua bondade em tratar-me por amigo; na verdade tem direito a todos os

meus serviços, e é com grande prazer que lhe vou trazer a sopa.

Com o serviço de jantar, que Inocente levou a cabo activa e zelosamente, e sem que nenhum acidente desagradável o viesse perturbar, esqueceu este o seu desgosto. Simplesmente, chegada a altura da compota, e quando a Sr. a Delmis a procurava, ficou irritada e tratou Inocente de estúpido e idiota, ao ser por este informada de a ter espalhado sobre o musgo das compoteiras. A Sr. a Piron ria, sem poder conter-se, em companhia das Sr. as Grébu e Ledoux; pensou mesmo em dirigir a Inocente umas palavras irónicas. Lançando a essas senhoras uns olhares irritados, Inocente disse- lhes:

– Gosto pouco que se riam de mim; lá que os meus patrões se permitam censuras, estão no seu direito; mas que outros se associem, isso não consinto.

Inocente, esqueces que estás a falar a amigas da minha esposa? – perguntou o Sr. Delmis, mostrando-se descontente.

INOCENTE – Amigas! Lindas amigas, na verdade! Se querem que eu repita as palavras que nos disseram há três meses, quando viemos para casa dos patrões, o senhor ficará edificado…

– Por favor, Sr. Delmis, não ralhe a esse pobre rapaz – interrompeu a Sr. a Grébu -; bem sabemos que não nos podem ferir as suas palavras. Sabe lá o que diz!

INOCENTE – Ai! Eu não sei o que digo! Então já vai ver se.

SR. DELMIS (em tom seco) – Basta, Inocente.

Leva-nos o café à sala.

E, oferecendo o braço à Sr. a Grébu, saiu dali, com todos os convivas.

Inocente reprimiu o seu descontentamento. Ao contar a Carolina o que se passara no jantar, esta suspirou, mas não deixou transpirar censura alguma ao infeliz irmão.

À noite, a Sr. Delmis não disse nada; e, no dia imediato, os dois irmãos retomaram o serviço, como habitualmente.

Os canários

Andavam os dois irmãos na limpeza da sala de visitas. Inocente, que se sentia cansado, estendeu-se numa poltrona. Nisto, ouviu-se tocar a campainha da porta, sem que ele se incomodasse. Ao segundo toque, Carolina voltou-se para ele, dizendo:

– Não ouviste tocar? Porque não vais abrir?

INOCENTE – Ai de mim, não posso; não tenho

tempo.

CAROLINA – O quê? Não tens tempo? Que tens

que fazer?

INOCENTE – Descansar; e ainda tenho para um bom quarto de hora.

CAROLINA – Que disparate estás para aí a dizer?

Queres brincar, não?

Soou terceiro toque, mais violento do que os primeiros. E Inocente sem se mexer. Por fim a irmã foi abrir, depois de olhar para ele com tristeza, dizendo com os seus botões:

Ah, pobre rapaz! Já vejo que é impossível acostumá- lo ao trabalho.

Abre a porta e entra um criado, com uma gaiola.

CRIADO – Bons dias, menina. Como sou novo na terra, não estou bem certo se é aqui a morada dos senhores Delmis. Sou portador de dois canários para os filhos da Sr.a Delmis. Quer ter a bondade de lhos entregar da parte da minha patroa, Sr.a Pierrefond, se faz favor?

CAROLINA – Muito obrigada; não me esquecerei. É aqui realmente que moram os Srs. Delmis.

O criado pôs-se a olhar para Inocente, que ria, apalermado.

CRIADO – De que se está a rir o rapaz? Que rosto tão bem apanhado! Parece tolo.

INOCENTE – Parece o que parecer. Que tem com isso? Creio que não o molestei, a si; porque me vem então incomodar?

CRIADO – Desculpe-me, pois não tive intenção de o contrariar; simplesmente, estava a pensar em voz alta.

INOCENTE – Ainda bem! Está perdoado; mas de futuro, trate de pensar melhor, para não falar de mais.

O criado foi-se embora a rir e a gesticular, como que a querer dizer que julgava Inocente atacado de loucura. Carolina deu mostras de contrariada.

CAROLINA – Porque foi, ó Inocente, que falaste assim àquele criado que não conhecias? Ele não se te dirigiu.

INOCENTE – Achas, então, que não me disse nada, tendo-me tratado por estúpido, tolo, e o mais que pensava mas não se atrevia a dizer?

CAROLINA – Arranjas maneira de altercar com todos. Bem vês que os patrões não gostam disso, mas, há um tempo para cá, estás sempre pronto a atacar, não suportando nada. Tornas-te muito familiar com o patrão e malcriado com a senhora.

INOCENTE (a zangar-se) – E porque havia eu de suportar o que eles não suportam? Ora, experimenta dizer aos senhores que são tolos, estúpidos, cretinos, desajeitados, quebra-tudo, como me estão todo o dia chamar, e verás os ais e os gritos que nos soltarão! por fim, aborrece.

CAROLINA (acalmando-o) – Ora vamos, Inocentinho, não te zangues; tudo isso é por brincadeira, pois nem sequer pensam no que dizem.

INOCENTE – Cuidas isso?

CAROLINA – Tenho a certeza. Não se fale mais em tal. Vai acabar de fazer a limpeza da sala, enquanto eu vou tratar do almoço.

Inocente continuou a espanar. Chegando perto da gaiola, pegou nela, viu as aves e pôs-se a conversar com elas:

eCoitadinhas! Como se devem aborrecer aqui dentro… Sempre fechadas! Ai! Que aborrecimento! Dá pena ver estes inocentes passarinhos!… Palavra que não resisto; vou-os deixar voar pelo quarto; sempre os divertirá um pedaço.

E abriu a porta da gaiola, que pousou sobre uma mesa; os canários foram-se chegando para a porta aberta, acabando por fugir. Voaram, empoleiraram-se na barra da cortina de uma janela e puseram-se a cantar alegremente. Encantado, Inocente bateu palmas; as aves, atemorizadas, deixaram a cortina e tomaram a direcção de uma janela, que estava aberta, fugindo para longe no jardim, o que deixou Inocente petrificado.

Ai! Os grandes patifes! Pregaram-me uma destas! Já se viu coisa assim? Mas deixem estar que já os arranjo! Vou já fechar a grade do jardim; muito espertos serão eles se conseguirem abri-la e fugir para o campo.

E saiu apressadamente, voltando minutos depois, esbaforido. Nesse instante, entrou Emi ia na sala; pôs-se a olhar para todos os lados e viu a gaiola.

– Ah! Lá está ela! Vamos lá a ver as aves. Chegou-se à gaiola e viu, surpreendida, a porta aberta, e dentro nenhuma ave. Chamou por Inocente e perguntou-lhe:

– Não havia passarinhos dentro da gaiola? Onde é que eles estão, Inocente?

INOCENTE (com um sorriso parvo) – Ah, bem decerto, menina; pois, para que servia uma gaiola sem passarinhos?

EMÍLIA (olhando em volta sem ver nenhum)Onde estão eles, que não os vejo?

INOCENTE – A menina pode estar descansada, que eles não estão longe.

EMÍLIA – Muito queria vê-los, quer fazer o favor de mos ir buscar, Inocente?

INOCENTE – Isso agora, menina, há que esperar um bocado. Os passarinhos não são como a gente; são brutos como os animais. Embora os mandasse vir, dizendo que a menina desejava conhecê-los, tanto valia como nada. Creia a menina que não é má vontade minha, pois o meu desejo era contentá- la; nesse sentido faria tudo, menos dar aos brutos a minha inteligência.

EMÍLIA (num sorriso escarninho) – Eu pedia lá tanto! Guarde a sua inteligência, Inocente, e trate de a aumentar. Mas o que não estou é a compreender o que me diz, nem sei ainda onde param as aves com que me presenteou a minha prima Lúcia.

INOCENTE – Andam a passear, menina. Estavam aborrecidas da gaiola, foram dar um giro. Coitadas das pobres aves, sempre fechadas! Por fim cansam-se.

EMÍLIA (consternada) – Foi você que as soltou?

INOCENTE – Pois, decerto, menina; quem senão eu teria pena destes pobres bichinhos? Deixei-os sair, mas não tardam a regressar, pois eu fechei a grade do Jardim e, quando virem tudo fechado, não têm remédio senão voltar.

EMÍLIA (impacientada) – Você está cada vez pior, meu pobre Inocente! Não faz senão disparates!

INOCENTE (animando-se à medida que vai falando) – Então, se lhe digo, menina, que fechei a grade… Fiz o que pude. Pois que queria a menina que fizesse? Devia voar atrás deles? Então eu tenho asas? É maldade da parte deles, pois bem sabem que vão fazer com que me ralhem. Custava-lhes muito voltar, antes de a menina ter visto a gaiola vazia? É sempre a mesma coisa: todos a conspirar contra mim; já não posso mais. Até um papagaio e canários se aliam para fazer com que me descomponham!

E o pobre do Inocente deixou-se cair numa cadeira, a chorar.

EMÍLIA – Ora, meu pobre Inocente, vale lá a pena afligir-se por tão pouco!

INOCENTE – Tão pouco? A menina chama a isso pouco? Tudo o que faço resulta contra mim! Não há ninguém que não diga: O Inocente é um estúpido! Mas que valente estúpido que ele é! Até a minha irmã, a melhor e única amiga o diz! E cuida a menina que se pode tolerar isso, que me posso deixar insultar por irracionais! E que animais! Um papagaio e uns canários! Ah! não; é de mais! Nem sei que diga nem que faça; a minha cabeça estala.

E, levantando-se, Inocente andava de um para outro lado na sala, dando murros, desesperado, na parede, batendo na cabeça e puxando pelos cabelos.

Emília escapara-se e fora chamar Carolina.

Pobre Louro

Os dois a trabalhar, depressa concluíram a limpeza da sala, seguindo depois para a casa de jantar, onde dispuseram a mesa para o almoço. Mal tinham acabado de colocar a toalha, ouviram a senhora a chamar Carolina.

INOCENTE – Vais lá, Carolina?

CAROLINA – Pois que remédio? É para a

pentear e ajudar a vestir que me chama.

INOCENTE – E então o serviço, como há-de ser

feito sem ti depois da minha promessa?

CAROLINA – Isso é quando for possível; mas

agora é impossível.

INOCENTE – Então, só com dizermos é impossível, pode-se faltar a uma promessa?

CAROLINA – Sim… e não… Deve-se ver…

pensar… e fazer o que melhor for.

INOCENTE – E se acontecer o melhor não estar

bem? Olha, comigo dá-se um caso curioso: faço sempre o que me parece melhor, e sempre me dizem que está mal feito. Nunca concordam com o que eu faço. Pus o papagaio no centro da mesa, e era incontestavelmente o melhor que se podia fazer. Contudo, viste o resultado: precisamente como se eu tivesse feito uma tolice.

– Então, Carolina, onde é que está metida?gritou a Sr. a Delmis.

CAROLINA – Lá vou, minha senhora. Põe a mesa, Inocente. Mas, olha, não quebres nada. E saiu a correr, ficando Inocente a segui-la com a vista.

INOCENTE – Eu vou fazer o que me parece melhor, não há dúvida; mas serão eles da mesma opinião?

Inocente Ah Ah Ah Inocente é um estúpido! Mas que tolo não é Inocente! Ah! Ah! Ah!disse uma voz forte, vinda de trás da cortina.

INOCENTE – Que é aquilo? Quem está a falar em

mim?

PAPAGAIO – Louro Pobre Louro Espancado

por Inocente!

INOCENTE – Ah! És tu? Mentiroso! Gatuno!

Ave maldita Ah. és tu?. e estamos sós Vamos a elas, meu caluniador, meu aldrabão!

Precipitou-se para a janela, não tardando a descobrir o papagaio, que trepava pela cortina acima com o auxílio das garras e do bico. Vendo chegar o seu inimigo, o Louro apressou-se a subir, gritando:

– Ah Ah Ah O toleirão do Inocente!

Esta derradeira afronta acabou de exasperar Ino cente, e este formou um salto para o papagaio, que

estava quase fora do seu alcance; mas só lhe apanhou o rabo, de que lhe ficaram nas mãos algumas penas. Formou segundo salto para a cortina em que trepava o pobre Louro aterrado, que gritava ao mesmo tempo:

– Acudam! Inocente quer bater no Louro! Ai do Louro!

Desta vez, Inocente formara melhor o salto; agarrou-se com uma das mãos à cortina, e com a outra apanhou o papagaio pelo meio do corpo, e, apertando-o com forÇa, obrigou-o a largar a cortina.

– És meu agora, seu má-língua, seu atrevido, seu choramingas! – disse Inocente, fitando-o encolerizado. – Julgas então que tudo vai ficar em palavras? Vais ter o merecido castigo, meu malandro! Ora, toma, toma!

E, juntando a acção às palavras, descarregava no dorso e na cabeça do bicho uma saraivada de murros, fazendo gritar o infeliz com todas as forças.

– Ai, pobre do Louro! O Inocente está a espancá-lo!

– Ah! Estás a chamar? Ainda me queres fazer censurar! Ora grita agora se podes!

E, dizendo estas palavras, apertava as goelas do seu inimigo, que continuava a debater-se e a repetir em voz estrangulada:

– Acudam Acudam ao pobre Louro. Po… bre… Lou… . :

Mas já não pôde articular a última sílaba; expirou, abriram-se-lhe desmedidamente os olhos e o bico, caíram inertes as asas, e nas mãos de Inocente ficou apenas um cadáver.

Notando, finalmente, que o papagaio não se me xia, Inocente deixou-o cair por terra.

– Ora vai-te e não tornes a recomeçar; já vês que não levas a melhor.

O Louro nem uma nem duas.

– Ah! Estás a fingir de morto! Põe-te a andar grande patife!

E Inocente atirou-lhe um pontapé.

– Então, que terá ele? Que lhe daria? Não se mexe. Então eu. Hum! Hum Eu teria apertado de mais… E é que está imóvel como um defunto. (Inocente ajoelha e grita ao ouvido do bicho.) Então, Louro! Nada de asneiras… Havemos de ser amigos… Eu to garantu! Lourinho, ergue a cabeça!… Se te

digo que já não há perigo! (Inocente levantou-o; fica de mãos juntas diante do papagaio, a olhar para ele com terror. ) Penso… creio… que ele morreu como a minha mãe… vai ter com ela e dizer-lhe que fui eu que o matei. Oh Lá isso é bem capaz de dizer. pois mauzinho é ele! E a mãe é capaz de o acreditar, visto que não estou lá para me justificar… Ah! Sim, mas quando eu morrer também, irei explicar-lhe as coisas, de modo a desmascarar o Louro… Mas agora, que fazer? Todos eles dirão que fui eu… e a senhora vai ficar como uma bicha! Contanto que não mande embora a Carolina!… Ai! Senhor! Carolina, a minha pobre irmã! Que fazer! Que dizer?… Ah! Tenho uma ideia. Como o patrão se diz meu amigo, vou pedir que me aconselhe.

E, dando um pontapé no Louro, para o esconder debaixo da cortina, Inocente foi ter com o Sr. Delmis.

SR. DELMIS – Então, que houve, Inocente? Pareces assustado!

INOCENTE – Pois, se lhe parece! Se o patrão soubesse o que me aconteceu… Mas já não estou assustado, visto o patrão, como amigo, me proteger.

SR. DELMIS – Contra quem devo eu proteger-te, meu rapaz? Contra a Rosa ou a Sr. a Piron?

INOCENTE – Ah!, Patrão Muito pior do que isso.

– Ah O caso então é sério. – exclamou o Sr. Delmis, com ar grave. – Conta lá o que aconteceu.

INOCENTE – Foi assim, patrão. Estava eu a pôr a mesa, quando ouço uma voz, mas que voz! Se o patrão a tivesse ouvido, teria ficado tão impressionado como eu!

– SR. DELMIS – E que dizia essa voz, assim tremenda?

INOCENTE – Que dizia? Insultos! Coisas muito

desagradáveis.

SR. DELMIS – E quem era?

INOCENTE – O patrão já vai ouvir. Olho, volto-me, e quem descubro? O Louro, esse maldito, que me insultava; e trepava, trepava! Era ver como ele se desembaraçava… Porque este patife é cobarde, patrão sempre o conheci cobarde. Temo-lo então a subir para o alto da cortina. Salto atrás dele, apanho-lhe o rabo e com tanta força, que me ficam penas na mão… O malandro sobe sempre, enchendo-me de insultos… Palavra! Chega-me a mostarda ao nariz, formo um salto de gigante e apanho o tipo pelo meio do corpo… e estava seguro; puxo e ele larga a cortina. Eu estava irritado, como o patrão pode calcular. Bato-lhe a valer, mas o canalha grita por socorro. Aperto-lhe o gasganete (o Sr. Delmis agita-se). Espere. O patrão bem compreende que eu não podia deixar o animal chamar a atenção de Carolina e da senhora com os gritos que soltava; vou apertando e batendo! E não quer ver que ele me prega a partida de não se mexer nem gritar mais?

SR. DELMIS – Esganaste-o?

INOCENTE – Peço desculpa, senhor, mas foi ele que se esganou a si mesmo, remexendo-se como um possesso, a ponto de, ao largá-lo, estar morto… Foi assim mesmo. E venho agora solicitar o conselho do patrão. Que pensa, patrão? Como devo proceder para com a senhora? Ela vai logo dizer que fui eu.

SR. DELMIS (impaciente) – E como queres tu que

seja, infeliz? Foste tu, e só tu que mataste o Louro. Que queres que te aconselhe?

INOCENTE – Ai! Até o senhor se volta contra mim, julgando-me o causador da morte desse bicho hipócrita!

SR. DELMIS – Pois que queres tu que eu pense e diga? Que conselho esperas de mim?

INOCENTE – A esse respeito, não sei eu responder; se pudesse imaginar o que o patrão tinha a aconselhar-me, não precisava de lho perguntar.

SR. DELMIS – Nada tenho a dizer-te, nem sei o que tens a fazer. Só fazes asneiras, e depois vens ter

comigo para as reparar.

INOCENTE – Pois com quem é que o patrão quereria que eu fosse ter? Procurei um amigo. O

patrão é o meu único amigo cá na terra. A não ser

Carolina, tão boa para mim e que é minha amiga deveras, não tenho ninguém… Ninguém me disse

nunca como o fez o patrão: Inocente, eu defender-te- ei, serei o teu amigo… , E aqui está a razão de eu vir ter consigo.

E, dizendo estas palavras, Inocente tinha os olhos humedecidos de lágrimas. Impressionado pela humildade confiada do pobre órfão, o Sr. Delmis pegou-lhe nas mãos e disse, em voz comovida:

– Sim, fizeste bem, meu pobre rapaz. Vou tratar de te livrar desse sarilho. Onde está o Louro?

– Venha comigo, patrão, vou mostrar-lho – disse Inocente, dirigindo-se tristemente para a sala de jantar. – Está acolá – murmurou, levando-o ao pé do cadáver do papagaio.

– Infeliz Louro! – exclamou o Sr. Delmis, pegando nele e vendo se por acaso não teria ainda um sopro de vida.

INOCENTE – O patrão vai pôr-se a lamentar o

meu inimigo?

SR. DELMIS – O que não me impede de ser teu amigo, como to vou provar; mas é preciso que a patroa não desconfie absolutamente de nada disto… Traz cá a ratoeira que eu armei junto do bufete… Vês que há umas nozes na ponta do fio de ferro destinado a apanhar os ratos? Já vais ver o que eu vou fazer.

Pegando no Louro, o Sr. Delmis meteu-lhe a cabeça no nó corredio do arame da ratoeira, e apertou-o um pouco para fazer crer que o papagaio fora apanhado e estrangulado ao querer chegar às nozes, que se viam no fundo da ratoeira; recomendou depois a Inocente que pusesse a mesa, num instante, e retirou-se para o seu gabinete.

que bela ideia! – exclamou Inocente, batendo as palmas. – Estou salvo da patroa… e Carolina?… Deverei dizer-lho? Cuido que sim… seria mal feito ocultar dela o caso.

Descobre-se tudo

Com reflexão e raciocínio, Inocente acabou de pôr a mesa, entrando quase imediatamente a Sr. a Delmis com os filhos e mandando chamar o marido. Sentaram-se à mesa, indo Inocente buscar a perna de carneiro com salada, que Carolina preparara.

Começou o almoço, em silêncio; estavam todos com apetite, só pensando em servú-se e comer. Contrariamente ao seu costume, o Sr. Delmis estava sombrio. Deplorava a sorte do Louro, e sentia-se já farto de Inocente, que disparatava a cada momento, sem contudo o poder despedir, receoso de perder a irmã, de cujo serviço tanto gostava e que tão bem

sabia apreciar. A patroa mostrava-se taciturna, por nãó lhe terem acabado um vestido que ela contava levar a umas visitas. Intimidados pelo ar sério e grave dos papás, os meninos não se atreviam a falar. Quanto a Inocente, preocupado com a provável e próxima descoberta da morte do papagaio, fazia asneira sobre asneira.

– Serve-me de vinho, Inocente – disse Emília.

-Pronto, menina – respondeu ele, deitando vinho no copo.

EMÍLIA – Basta, já chega. Olha o que fizeste;

encheste o copo até transbordar!

INOCENTE – Não faz mal; já vai ver.

Inocente pegou no copo, voltou a despejar o vinho na garrafa, deixando cair algum na cabeça e no pescoço de Emília.

EMÍLIA – Eh lá, desajeitado! Molhaste-me a cabeça e o vestido! Que aborrecimento!

INOCENTE – Desculpe, menina, que não foi por mal. Não se queixasse a menina de ter muito vinho no copo, que já não veria o vestido com nódoas, pois eu não o teria despejado na garrafa.

EMÍLIA – Mas se me tinhas deitado vinho de mais…

INOCENTE – Não digo o contrário. Peço-lhe que

note que eu me limito a dizer as coisas sem acusar a menina; bem compreendo que não estou à altura de lançar a culpa sobre os patrões; devo eu arcar com tudo e calar- me.

SR. DELMIS – Devias então começar por te calar, pobre rapaz, visto não teres o juízo todo.

INOCENTE – Isso di-lo o patrão, mas nem todos

assim pensam. A Carolina, por exemplo.

JORGE – Se o Louro te ouvisse, já tinhas um

insulto pela certa.

INOCENTE – O Louro?! Ai, senhor! Então o

Sr. Jorge já sabe?…

JORGE – O quê? Que é que eu já sei?… Ó mamã, olhe para a cara do Inocente! Não lhe parece tão aflito?…

Erguendo para ele a vista, a Sr.a Delmis ficou, por sua vez, muito admirada com a ansiedade impressa no rosto de Inocente. O patrão encolheu os ombros, com impaciência. Indagando a causa da imobilidade de Inocente, Emília descobriu o papagaio no chão junto ao aparador.

EMÍLIA – Ora, aqui está o Louro que nos vai explicar o que tem o Inocente. Louro, Louro!… Que terá ele? Não se mexe… Fala, Louro, diz-nos o que te fez o Inocente.

O silêncio deste deu nas vistas da Sr.a Delmis, que se levantou da mesa, foi até junto do papagaio, quis pegar nele e soltou um grito, deixando-o cair.

– Está morto o meu pobre Louro! Foi apanhado pela ratoeira. estrangulado. morto há algum tempo; já está frio.

– Louro! – exclamaram os meninos, correndo para a mãe. – Louro! Quem o matou? Quem o estrangulou?

Ao dizer isto, Jorge voltou-se para Inocente, o qual, para disfarçar a sua atrapalhação, mudava os pratos de sítio, tornava a arrumá-los, limpava chávenas, cortava pão, etc.

SR.a DELMIS (em tom severo) – Inocente, como foi que o Louro se esganou?

INOCENTE – Como posso eu sabê-lo? Não ignora a senhora que ele não era meu amigo, como é o patrão, e, portanto, não me confiava os seus segredos, nem me contou como a sua gula lhe faria meter a cabeça na ratoeira para roubar as nozes dos ratinhos,

coitadinhos!… que não se regalam com guloseimas como esse maldito Louro.

SR” DELMIS – Mas tu sabias que o Louro se

tinha esganado!

INOCENTE – Como queria a senhora que eu o foubesse? Ora, pergunte-o ao patrão. Ele lhe dirá que nós não recebíamos as confidências do Louro.

SR.a DELMIS – Meu marido! – exclamou, voltando-se para ele a examiná-lo. – Que cara a tua, meu amigo… Gostavas tanto do pobre Louro, todavia, não pareces surpreendido nem contristado com a sua morte. Dir-se-ia que já sabias dela.

SR. DELMIS – Eu! Essa é boa! Como o poderia

saber? Quem mo viria dizer?

SR.aDELMIS – Tudo isto é bem singular… O

Louro, tão espertalhão, não se deixaria apanhar pela ratoeira… E depois… a cara espantada desse estúpido Inocente… o seu embaraço!… e até o teu!… pois pareces um estudante apanhado em falta… Julgo que dei com ela… Explica-me cá tudo direitinho… Não foi o Inocente quem?…

– Patrão, patrão, defenda-me! O senhor prometeu que me defenderia da senhora – exclamou Inocente, largando uma rima de pratos, que se fizeram em mil bocados, e juntando as mãos angustiadamente. – O patrão é o meu amigo, o meu único amigo.

SR. DELMIS – Vai à fava e deixa-me em paz!

Também já estou farto das tuas asneiras. Arranja-te como puderes. Não quero mais saber de reparar os teus disparates.

E o Sr. Delmis ergueu-se, atirou com o guardanapo, saiu da mesa e deixou a sala, fechando a porta com estrondo.

INOCENTE (admirado) – Ora, sim, senhor! Aí está um amigo de uma cana. E eu a contar com ele! Deixa-me agora sozinho!… Foi ele quem meteu a cabeça do Louro no arame, e agora, deixa-me assim! Bonito! Isto não é decente!

SR.a DELMIS – Que estás a dizer? Foi o patrão

que esganou o Louro?

INOCENTE – Eu não disse tal; não sou mentiroso

nem caluniador como era o Louro!

SR.aDELMIS – Então que aconteceu? Ora, vamos lá ver. Conta, diz o que se passou!

INOCENTE (com dignidade) – Não direi nada… Quando sou insultado, não digo nada… O patrão sabe tudo. É meu patrão!… era também meu amigo. . confessei-lhe tudo.

E por mais que lhe fizessem perguntas e o ameaçassem, tanto a senhora como os filhos não tiveram meio de lhe arrancar uma palavra.

Disse apenas ao juntar os cacos dos pratos:

– Tenho de deitar fora estes cacos, não vão dizer mais uma vez que fui eu que os parti.

E deixou a sala de jantar tranquilamente, desceu à cozinha, onde encontrou a irmã a trabalhar afanosamente no vestido da Sr. a Delmis, e postou-se diante dela com os braços cruzados.

Carolina! – disse ele.

A irmã levantou a cabeça e pareceu ficar sur preendida com o ar solene do irmão, que lhe disse:

Carolina, já não tenho amigo.

CAROLINA – Já não tens amigo? Pois que amigo tinhas tu?

INOCENTE – Era o patrão; já não é meu amigo.

CAROLINA – E porquê? Como o sabes?

INOCENTE – Sei-o, porque me abandonou! Já o não é, porque tem medo da mulher, não se atrevendo a pôr-se em contradição com ela. É falso o amigo que abandona o amigo no perigo… Já não tenho amigo…

CAROLINA – Ora, explica lá, Inocente, a razão

por que o patrão te abandonou. Nem sequer sei do

que tu queres falar.

Inocente fez à irmã a narração pormenorizada e

fiel do sucedido, não lhe ocultando coisa alguma, nem mesmo a última pilha de pratos partidos.

Como era de prever, Carolina ficou consternada, pois percebeu logo que a senhora não fecharia os olhos a esta falta do irmão, e que em breve estaria sem emprego, obrigada a retomar a sua profissão de costureira. Percebeu que se esgotara a paciência do patrão, o qual retirava a Inocente a protecção tão generosamente concedida até aí.

Carolina! – gritou uma voz aspéra.

– É a senhora! – disse Inocente. – Que te quer

ela? Não te deixes despedir! Mesmo que ela o queira, recusa terminantemente, ouviste?

– Farei o que Deus quiser – foi a resposta

calma da irmã. – Espera-me aqui, Inocente; não

subas sem mim.

INOCENTE – Fica descansada, que não sairei

daqui. Subir para me ralharem e insultarem, a patroa

e os filhos, e ser abandonado pelo patrão… nisso é

que não vou. Fico aqui à tua espera.

Carolina foi ter com a senhora.

Carolina – disse esta, de um modo seco -, a

menina tem de escolher entre mim e o seu irmão.

Acabo de saber por meu marido a sua última maldade estúpida; não o posso tolerar mais tempo. Se quer

ficar comigo, eu colocá-lo-ei numa casa de alienados

ou num asilo de mendicidade, ficando a menina livre

dele para sempre. Subir-lhe-ei o ordenado e dar-lhe- ei…

– Podia dar-me toda a sua fortuna, minha

senhora – respondeu, emocionada, Carolina -, que

eu não abandonaria o meu irmão nem faltaria ao

juramento que fiz a minha mãe, à hora da morte. Ao

entrar ao seu serviço, logo preveni a senhora de que

só com o meu irmão eu aceitaria a proposta que me

fez; prometeu a senhora sofrer-lhe as ingenuidades…

SR.a DELMIS – A menina chama ingenuidade às

suas constantes insolências! Agrada-me sobremaneira o seu serviço; desejo que se mantenha aqui, mas

sem o seu irmão.

CAROLINA – Tive a honra de dizer à senhora

que isso era impossível. Quando deseja a senhora que

partamos?

SR.A DELMIS – O mais depressa possível, por

causa do seu irmão, mal eu arranje substituta…

Vindo alguma visita, diga que eu não estou.

14

Outro amigo

Carolina saudou e saiu. Regressando à cozinha, encontrou Inocente em conversa com o cabo da guarda.

INOCENTE – Então, que te disse a patroa?

CAROLINA – Que deixamos o serviço quando a

senhora arranjar substituta.

CABO – O quê, menina Carolina, vai deixar o serviço do Sr. presidente? A menina que fazia tudo na casa, que trabalhava por três! E deixam-na partir? E então porquê? Porque parte a menina?

– É a senhora que me despede – respondeu Carolina, com voz comovida.

– Isso é lá possível, menina! – exclamou o cabo.

– Uma pessoa como a menina, tão piedosa, tão boa, tão honesta, tão activa, tão ajeitada!

CAROLINA – Contudo é verdade, senhor. Agradeço-lhe o bom conceito em que me tem. Quando a

gente se sente abandonada, é uma consolação encontrar uma pessoa que nos estima e nos protegeria em caso de necessidade.

CABO – Ah! quanto a isso, não tenha dúvidas, menina; protegê-la-ia com o mesmo zelo e afecto com que protegeria uma irmã.

– E a mim? – perguntou Inocente.

CABO – Também a ti, meu valente rapaz; também a ti, pobre Inocente.

INOCENTE – Ora, já podemos viver sossegados, sem nos atormentarmos, visto que o Sr. Cabo se constitui nosso protector.

CAROLINA – Cala-te, homem; falas de mais, abusando das boas disposições deste senhor.

INOCENTE – Como é que eu abuso? O Sr. Cabo

será um mentiroso?

CAROLINA – Ora, faz-me o favor de te calar; és um palrador.

INOCENTE – Isso é que não sou, Carolina; só te quero provar que o Sr. Cabo é um homem honrado. incapaz de uma mentira; e, se diz que nos protege, eu afirmo que o fará.

CAROLINA – Não digo o contrário; o que eu receio são as tuas exigências.

INOCENTE – Exigências! Então já alguém fez exigências exageradas a um irmão? Então não ouviste o que disse o Sr. Cabo há pouco, que te protegeria como se foras irmã dele? Pede-me alguma coisa a mim, teu irmão, e verás se és atendida ou não, e como o és.

Carolina não se atreveu a replicar; com receio de que o irmão pedisse ao cabo alguma exorbitância, como encontrar-lhes uma colocação, ou encarregar-se de lhe arranjar trabalho, ou conseguir que ficassem na casa do Sr. Delmis, o que ela não queria.

Notando o embaraço de Carolina, o cabo, que ouvira, sorridente, o raciocínio de Inocente, disse-lhe em tom alegre:

– Seu mano tem razão, menina Carolina; estou pronto a ajudá-los na medida do possível. É só dizer-me em que pnsso ser-Ihes útil.

CAROLINA – Saindo da casa da Sr. a Delmis, tenciono voltar com meu irmão para minha casa e retomar a minha profissão de costureira. Agradeço muito a sua bondade, Sr. Cabo. Se de futuro vier a precisar de um bom conselho ou de um apoio, lembrar-me-ei da sua amabilidade. Por agora, suponho não ter de o incomodar.

CABO – A menina Carolina é demasiado discreta. Conto contigo, Inocente, para me chamares, se tu ou a tua irmã precisarem de um amigo; porque eu sou teu amigo, Inocente; não o esqueças.

INOCENTE (abanando a cabeça) – Meu amigo… meu amigo. . Já não vou muito nisso. Enganaram-me uma vez, e não me fio já nos amigos… que surgem sem mais nem menos… O Sr. Delmis disse-me um dia: Conta com a minha amizade, Inocente… , Pois não há dúvida, bonito amigo! Trocou depressa essa amizade… por nada afinal… por um malvado de um papagaio.

– Ora experimenta, e depois dirás – replicou, a rir, o cabo. – Adeus, menina Carolina! Até à vista, Inocente!

E estendeu-lhe a mão, em sinal de amizade.

– Então, sempre é a valer? – perguntou Inocente, tomando a mão do cabo e apertando-a nas suas.

CABO – A valer, para a vida e para a morte!

INOCENTE – Como assim, para a morte? Não gosto disso. Para a vida, está bem; agora para a

morte, porquê? Depois de morto, já não será meu amigo. De resto, para que o queria eu? Estarei com Deus e os seus anjinhos, bem como com minha mãe…

e também com aquele… malvado Louro… Tenho medo de que me pregue por lá qualquer partida… o malvado, o mentiroso!

CABO (a rir) – Descansa, meu pobre amigo: Deus saberá bem se ele fala verdade ou mentira, e expulsá-lo-á para não te atormentar. Ora, desta vez sempre me vou embora. Vou subir ao gabinete do Sr. presidente.

Cumprimentou e saiu.

INOCENTE – Este cabo é um bom homem. Não pensas que seja um amigo a valer?

CAROLINA (hesitante) – Penso que sim.

INOCENTE – Dizes isso como se não acreditasses.

CAROLINA – Pois, como posso eu saber o que

ele é e o que virá a ser?

INOCENTE – Mas ele é que te conhece bem, pois falava muitas vezes com o patrão a teu respeito, e este dizia-lhe sempre: Sim, gosto imenso de Carolina; nunca mais torno a encontrar uma rapariga como ela! e mais isto e mais aquilo, coisas sempre agradabilíssimas, que eu muito me comprazia em ouvir; por isso é que, quando ouvia falar de ti, punha-me à escuta, sem pensar em trabalhar. O patrão via-o e não ralhava; punha-se a rir com o cabo… e comigo. Sentia-me satisfeito, e ficaria a rir durante horas seguidas.

O combate de Inocente

Truz-truz! Batem à porta.

Carolina vai abrir, entrando a Sr. a Grébu.

SR.a GRÉBU – Está a Sr.a Delmis?

CAROLINA – Não, minha senhora.

INOCENTE – Quê? Não está? A senhora está no

quarto.

CAROLINA (em voz baixa para o Inocente)Cala-te; ela ordenou-me que não deixasse entrar ninguém.

INOCENTE – Ah! Isso não sabia eu. Peço desculpa, minha senhora, mas julgava que a Sr.a ttnha proibido a entrada. bem estranho! Então ela não quer ver ninguém?

SR. A GRÉBU – Embora a Sr.a Delmis não queira

receber visitas, eu, que sou amiga dela, tenho sempre entrada franca.

INoCENTE – A senhora é amiga dela?

SR.a GRÉBU – Então não sou amiga dela, eu, que aqui venho constantemente e que sempre a recebo em minha casa?

INOCENTE – Isso não basta para fazer uma amiga, pela certa. Se eu tivesse um amigo que falasse de mim como a senhora fala dela, não o considerava meu amigo.

SR. A GRÉBU – Mas que tolo me saiu este Inocen te! Sempre a dizer impertinências! Lá como a senhora te aguenta é que não sei!

INOCENTE – Deixe que não me aturará muito tempo, nem também a senhora, pois a Carolina foi despedida esta manhã, e sem ela é que eu aqui não fico.

SR.a GRÉBU – A Carolina despedida! É lá possí vel? E então porquê? Tanto gostava da menina!

INOCENTE – A senhora nunca gostou de mim, pois desconfiava que eu entendia tudo muito bem; dizia-lhe cá umas coisitas… que a irritavam. E, depois, andava sempre a dizer que eu lhe partia tudo. Se tinha a infelicidade de quebrar um prato, uma chávena, uma garrafa… porque, na verdade, isso acontece a toda a gente!… lá se punham todos a gritar: Foi o Inocente! Dá cabo de tudo! É desajeitado! Como bem deve calcular, minha irmã não ficava nada contente e dizia sempre: Se o meu irmão for despedido, eu irei com ele! Bela rapariga! E seu dito, seu feito. Por causa de um maldito papagaio, que morreu, zangou-se a patroa e zangou-se o patrão, que não tornou a querer ser meu amigo; a senhora lembrou-se de me mandar embora, e a Carolina quer sair também. Aqui tem o motivo da nossa partida. Mas estou bem certo de que a patroa tem pena, e é até por isso que não quer receber ninguém. É que eu sabia do meu ofício… E então a Carolina!…

SR.a GRÉBU – Estou admirada; é caso para isso. E agora têm de procurar casa, não?

INOCENTE – É verdade, senhora; mas é preciso que o lugar seja bom, que satisfaça a Carolina, e que eu seja bem tratado.

SR.a GRÉBU – Ofereço-lhe a minha casa, Carolina; ando à procura de pessoa que possa substituir a

criada que vou despedir, porque é preguiçosa e impertinente. Ficaria satisfeitíssima se quisesse vir para o meu serviço. Só ponho uma condição: a de se separar do Inocente.

CAROLINA – Não posso aceitar, senhora. Ficarei

em minha casa com o meu irmão, se não conseguir colocar- me com ele, como desconfio. Voltarei à minha profissão de costureira.

SR.a GRÉBU (mal-humorada) – De maneira que, menina, recusa o meu oferecimento?

CARoLINA – A isso sou obrigada, minha senhora, visto não poder separar-me de meu irmão.

SR.a GRÉBU (ainda de mau humor) – Pois bem, menina. O mal é seu. Passe muito bem. Tenho de falar com a Sr. a Delmis; subo, pois, embora a contrarie, menina.

-Ah! isso é que não – exclamou Inocente, colocando-se em frente da Sr.a Grébu, que já ia a pôr o pé no primeiro degrau da escada. – Não quero que, por sua causa, ralhem à minha irmã.

Empurrando Inocente, a Sr.a Grébu pretendeu subir; mas ele avançou para ela, agarrou-a pela cinta e fê-la recuar, não obstante a sua resistência. Na luta, a Sr. a Grébu embaraçou-se no vestido e caiu, arrastando consigo Inocente.

Ouvindo-a gritar, Inocente quis fazê-la calar, apertando-lhe o gasganete, como fizera ao papagaio; mas o pescoço dela tinha outras proporções bem diversas, para ser abrangido todo pelas mãos do Inocente. Acercando-se do local, Carolina pedia ao irmão que largasse a Sr. a Grébu.

– Ah! isso é que não! – exclamava Inocente. Ia fazer com que te ralhasse. Acudam! Socorro, Sr. Cabo! – continuou ele, sentindo a Sr.a Grébu escapar-lhe.

O cabo, que deixava o gabinete do presidente, surgiu no alto da escada. Vendo Inocente a segurar uma mulher pelos vestidos, esta a querer escapar-lhe, a Carolina fora de si, a apertar o irmão nos braços para favorecer a fuga da Sr. a Grébu, cuidou que devia prestar auxílio a Inocente e, descendo as escadas num pulo, agarrou-se à Sr.a Grébu a pretexto de a levantar, reconhecendo-a imediatamente:

– Ah! pois era a senhora? Como é que…

SR.a GRÉBU (irritada) – Vou-me queixar ao

Sr. presidente deste malvado garoto. Ele mete-te na cadeia, meu toleirão. Despachar-te-ei para as galés.

INOCENTE (resoluto) – Diga uma palavra só que seja, e vou logo contar à patroa o que a senhora disse dela, quando Carolina foi a sua casa devolver a obra que não podia concluir. Não esqueci uma só palavra, e o patrão acreditar-me-á. Além de que, lá estará Carolina para me secundar.

– Ah! biltre! – gritou a Sr.a Grébu, sufocada de cólera.

INOCENTE (satisfeito) – Biltre quantas vezes a

senhora quiser! Mas tenho-a aqui segura, sua velha! SR. A GRÉBU – Deixe-me sair; preciso de tomar

ar fresco. . Eu asfixio… Sr. Cabo… dê-me o braço… leve-me para casa.

E foi-se embora pelo braÇo do cabo, que ia sorridente; este entendera quase tudo o que se passara e, de passagem, fez um gesto de despedida a Carolina e a Inocente.

Mal a Sr. a Grébu partiu, pôs-se Inocente a pular e a saltar na cozinha.

– Muito bem feito, sim, senhores! – cantava ele. – Tenho a velha nas minhas mãos!… e todas as outras!… Pela boca morre o peixe, diz o adágio! E a velha falou de mais…

Inocente meteu o nariz pela porta, e redobrou as gargalhadas.

– Ah ah ah O cabo já não pode mais. Olha, agora cai-lhe ela nos braços! Ah! ah! ah! Fez de propósito… A cólera abafa-a!… Olha, o cabo leva-a agora! Uf! que peso!… Pobre cabo!, . . Agora senta-a no chão. Está a limpar o suor! Ó Carolina, anda ver! A Sr.a Grébu, sentada no chão, e o cabo com uma cara de meter dó… Ah! ah! Lá se levanta ela e parte a correr. O cabo pôs-se a rir. Mas que ar de fúria que ela tem!… anda cá ver, Carolina!

Não vendo chegar a irmã, Inocente voltou-se e viu-se só. Enquanto se entregava à sua ruidosa alegria, o Sr. Delmis, que também ouvira o chamamento de Inocente e não via regressar o cabo, apareceu à porta da cozinha. Carolina pôs as mãos em ar de súplica, fazendo-lhe sinal para não entrar; receava que Inocente, na exaltação da sua alegria, proferisse algumas palavras ofensivas para a Sr. a Delmis ou para as suas amigas; apressou-se, pois, a sair ao encontro do patrão que a levou para o seu gabinete.

SR. DELMIS (inquieto) – Quer-me explicar, Carolina, o que aquilo significa? Que se passa? A que é devido este barulho, na cozinha, esses gritos de Inocente, o desaparecimento do cabo? Porque está assim pálida e a tremer?

CAROLINA (em voz trémula) – A Sr.a Grébu quis entrar à força para ir ter com a senhora, que proibira a entrada a quem quer que fosse. Inocente quis detê-la; como ela pretendesse escapar-se, meu irmão gritou. Bem sabe, patrão, que ele não tem… não é…

SR. DELMIS (sorridente) – Bem sei, bem sei, menina; e depois?

CAROLINA – A Sr.a Grébu… exaltou-se, e o cabo deu-lhe o braço para a acompanhar a casa; foi então que o patrão entrou.

SR. DELMIS – Então ela enfureceu-se, lutou com o Inocente e foi levada pelo cabo. Como cedeu ela a Inocente, em vez de vir apresentar queixa ao meu gabinete?

CAROLINA – É porque… porque… Não sei… não

me atrevo a dizê-lo…

SR. DELMIS – Fale, fale, menina; nada tema; o que a menina me disser não passará daqui.

Tranquilizada pela expressão de bondade do Sr. Delmis, Carolina contou-lhe o que se passara entre ela e a Sr. a Grébu, e como o irmão tivera a habilidade de a ameaçar com a revelação de tudo isso para obter o silêncio dela. O Sr. Delmis riu com gosto e prometeu não falar nisso à esposa nem a ninguém.

– E em que ficou com a minha mulher, menina? Ela ralhou consigo por causa de Inocente?

CAROLINA (com voZ muito comovida) – A

senhora despediu-nos! Já não pode suportar o meu irmão.

– Despedidos! exclamou o Sr. Delmis, dando um salto na cadeira. – Despedidos! Não pode ser! Não se tolera! Não quero que a menina nos deixe! vou já falar a minha mulher!

– Perdão, Sr. Delmis – disse Carolina, detendo- o.

– Muito lhe agradeço… oh! muito, e do fundo do coração… a sua grande bondade connosco, mas, suplico-lhe, considere que eu não posso ficar na casa contra a vontade da senhora; seria faltar ao respeito a ambos. O patrão bem vê que a senhora já não pode suportar o meu irmão. O senhor mesmo perdeu hoje a paciência com ele; e, contudo, não é fácil ser-se tão paciente como o senhor foi. Cenas como as de há pouco não se toleram numa casa pacata. Ora, eu não posso garantir que não voltem a repetir-se e com carácter mais grave ainda.

SR. DELMIS – Mas que vai ser da menina, coitada! Como há-de poder ganhar sozinha o pão de ambos?

CAROLINA – Não lhe dê isso cuidado, Sr. Delmis. Tenho confiança em Deus, que nunca me abandonou, e que certamente me protegerá.

SR. DELMIS (tristemente) – Devo então deixá-la

partir, Carolina? Muito me entristece esta separação. Terei sempre saudades suas, e até desse pobre Ino cente, tão afectuoso e dedicado, apesar da sua falta

de tino… Por mim nunca me separaria da menina. Infelizmente, não sou sozinho – acrescentou ele, num suspiro – e não me pertence ocupar-me do governo da casa. Fique, porém, certa de que não a perderei de vista, e que lhe conservarei sempre grande afeição, podendo contar com a minha sincera amizade.

Í Muito comovida para poder responder, Carolina limitou-se a beijar a mão que lhe estendia o patrão, deixando cair uma lágrima e saindo apressadamente.

Ao voltar à cozinha, sentou-se, apoiou a cabeça nas mãos e ficou a pensar no futuro. Compreendeu que a sua posição era pior do que antes da vinda para a casa da Sr.a Delmis, pois que nem esta nem a Sr. a Grébu, suas melhores freguesas de outrora, lhe dariam trabalho agora, e talvez mesmo a prejudicassem junto das suas amigas que, em tempos, lhe davam que fazer. E, se lhe faltasse o trabalho, como se arranjaria para granjear o sustento do irmão, incapaz de se colocar sem ela?

Deus virá em meu auxilio – disse ela. O Sr. Abade aconselhar-me-á e até talvez, me arranje serviço. Sempre me disse que não desesperasse; a minha pobre mãe sempre se reanimou com a oração; o mesmo farei eu, obtendo assim a calma e a paz do coração. Vejamos, entretanto, que dinheiro tenho, e para quanto tempo me pode chegar.

Carolina abriu uma caixa que estava numa prateleira, despejou o dinheiro nela contido e contou-o. Guardou-o, agradecendo a Deus a importância de que dispunha. Pouco depois entrava o irmão.

– Venho de casa do Sr. Abade – disse, logo de entrada. – Contei-lhe o que se passou. Suspirou e sorriu depois com um ar tão suave e tão contristado, que me deu vontade de chorar. Disse-me que era preciso arranjar trabalho; fui pedi-lo à Sr. a Piron, que me encheu de insultos; fui depois à Sr. a Ledoux, que me atirou uma vassoura às pernas. Aonde ir agora? Não sei.

CAROLINA – Meu bom Inocente, guardaremos isso para depois de termos deixado os patrões. Voltaremos por nossa casa e, quando tudo estiver bem limpo e arranjado, iremos ambos procurar trabalho, mas não a casa dessas senhoras, que não no-lo dariam. Anda agora ajudar-me, e acabemos o que temos entre mãos.

Mal haviam acabado, entraram a correr Jorge e Emília.

– Ó Carolina, ó Inocente! – exclamaram. Sempre é certo que se vão embora?

CAROLINA – Sim, minha menina e meu menino;

infelizmente é verdade.

EMÍLIA – E porque é que partem? Fiquem, fiquem sempre connosco. Eu e o Jorge muito sentiríamos a vossa ausência.

JORGE – Oh! sim, minha boa Carolina, meu bom Inocente, deixem-se ficar. Vou dizer ao papá que vos obrigue a ficar. Que pena ele terá! Ainda ontem dizia ao cabo: Se a Carolina nos deixasse, tudo iria mal na minha casa. E o cabo respondeu: Será assim onde quer que ela esteja, Sr. Delmis. Daquela têmpera não se encontram a cada esquina;

só de olhar para ela, até o coração ri… E o papá pôs-se a rir e disse: Nunca eu deixarei sair a boa da Carolina, a não ser que seja para a felicidade dela.

EMÍLIA – E visto não ser para a sua felicidade, mas sim por imposição da mamã, a Carolina não partirá. Ó Inocente, diz à Carolina que fique con nosco.

INOCENTE – Ah! isso é que não, pois ela não me

atenderia.

EMÍLIA – Então, porquê?

INOCENTE (com dignidade) – Não me atenderia, menina, porque é mais inteligente e ajuizada do que eu, e sabe melhor do que eu o que deve ou não fazer. Não lhe pedirei semelhante coisa, porque isso é contrário aos meus gostos, às minhas ideias e aos meus princípios; porque eu tenho princípios, menina… Não há motivo para riso… digo: aos meus princípios.

EMÍLIA – Eu não estou a rir, Inocente, garanto-te que não rio… nem eu nem o meu mano – acrescentou ela, virando-se como para olhar para seu irmão, mas na realidade para abafar a vontade de rir.

INOCENTE (com ar solene) – Tem a certeza? Hem! Hem!… Afirmo que é contrário aos meus princípios ficar numa casa onde não sou estimado, junto de um patrão que já não é meu amigo, ao serviço de uma senhora que nada tem de bom nem de agradável; às ordens de meninos que se insurgem contra mim e a favor de um papagaio mentiroso, ladrão, guloso, má-língua. Eis, menina, os meus princípios.

EMÍLIA (irónica) – Muito obrigada, Inocente.

INOCENTE – Não há de quê, menina.

CAROLINA -A menina tenha a bondade de desculpar o meu irmão, que não tem a intenção de ser desagradável.

JORGE – Mas fere, embora involuntariamente. Espero que a menina não pense como ele e que peça ao papá para a não deixar ir-se embora. É o que ele quer, pode ter a certeza.

Que belas línguas

Carolina não deu resposta, o que levou os meninos a irem ter com o pai para lhe pedirem o que ela não queria pedir. O Sr. Delmis fez-lhes saber que, em vista de Carolina recusar separar-se de Inocente, se tornava impossível impor à mamã um rapaz assim tacanho, desajeitado, bastante inconveniente e que se atrevia a lutar com as pessoas que a vinham visitar.

Por sua vez, a Sr. a Grébu não perdia o tempo; ia a casa das antigas freguesas de Carolina, a quem relatava as supostas insolências de que fora vítima.

– A Sr. a Delmis não pode mais. Apesar da sua vaidade, da sua pretensão de parecer nova e elegante, de nos querer meter a todas num chinelo com os seus penteados (bem ridículos; cá para nós), é obrigada a pôr os dois no olho da rua; ainda há bocado, eles se atreveram a não me deixar ir ter com a Sr.a Delmis, deitando-me ao chão, espancando-me, e quase que me esganavam, se não fosse o cabo da guarda empurrá-los e livrar-me de morte certa. O cabo teve até de acompanhar- me a casa, tal era o seu receio de que me perseguissem.

SR.a PIRON – Nunca pensei que a Carolina

SR. A GRBU – Sabe lá quem ali está, minha amiga! É gente perigosa, como bem notou o Sr. Delmis,

recusando-se a tê-los em sua casa. Creia-me, boa amiga, não dê trabalho à rapariga, para a obrigar a sair cá da terra com o malandro do irmão.

SR.a PIRON – O infeliz é meio apatetado; pareceu-me bom e pacato.

SR.a GRÉBU – Bom e pacato? Perverso, minha amiga, perverso é que ele é! Não tarda que lhe suceda alguma, verá! É capaz de matar alguém ao levar-lhe o trabalho feito pela irmã.

SR.a PIRON (aterrada) – Ai! Senhor! Pois cuida

isso?… Será ele capaz de… ?

SR.a GRÉBU – Capaz de tudo, minha senhora! De tudo, fique certa!

E assim de porta em porta, a Sr. a Grébu foi falando mal de Carolina às antigas freguesas, impedindo-a assim de ganhar a vida. Por sua vez, a Sr. a Delmis procurou uma substituta para Carolina; foi durante essa visita pelas amigas que soube do que se passara em sua casa entre a Sr.a Grébu e Inocente. A irritação fê-la activar as diligências, acabando por encontrar aquilo que lhe podia servir, embora essa substituta não soubesse confeccionar vestidos, nem tivesse o talento, a habilidade, nem a boa vontade de Carolina. Contratou-a logo, para começar o serviço já no dia seguinte. A Sr.a Grébu, que se encontrara com a Sr.a Delmis na casa de uma amiga, e que a auxiliara nas suas diligências, triunfava com o que julgava ser humilhação para os seus dois inimigos.

No seu regresso a casa, a Sr.a Delnis anunciou a Carolina e a Inocente, que, tendo já arranjado criada, podiam preparar-se para deixar a sua casa no dia seguinte, pois soubera da cena escandalosa passada com a Sr.a Grébu.

Carolina não respondeu; recebeu em silêncio a injusta acusação de ter insultado e mesmo espancado

Grébu. Inocente, porém, vendo tal silêncio e conhecendo o motivo generoso que levava a irmã a não se defender, avançou para diante da Sr.a Delmis que recuou aterrada, e disse-lhe em voz firme e resoluta:

– Espere, minha senhora! Ouça a justificação da minha irmã, que se cala para não me acusar; é mais generosa que a senhora, que acusa sem saber.

– Atrevido! – exclamou a Sr.a Delmis.

– Deixe-me falar – prosseguiu Inocente, alteando a voz e afastando a irmã, que em vão procurava fazê-lo calar – e não me faça perder a paciência, pois já me começam a irritar as suas injustiças. Fui eu que não deixei passar a Sr.a Grébu, para a impedir de ir incomodar a senhora, pois assim o recomendara, se bem se recorda. Fui eu que a atirei ao chão… que a fiz rebolar e lhe apertei o pescoço. Carolina nem lhe tocou; o cabo não a veio livrar, limitando-se a rir-se dela, levando-a contra a vontade, porque fazia caretas e dizia não poder andar. A senhora afirma que ela é sua amiga! Pois eu digo que é sua inimiga, que diz mal da senhora, escarnece dos seus vestidos, e quis roubar-lhe Carolina, pagando-lhe mais e melhor. O mesmo são as Sr. as Piron e Ledoux. Fica de sobreaviso, e Carolina está justificada. Estamos muito contentes por a deixar, e já, já; sentimos apenas ter de deixar o patrão, que é bom, não se parecendo nada com a senhora; não pensa só em vestimentos, em dentes e em cabelos!

– Atrevido! Miserável! – exclamou a Sr.a Delmis, não podendo conter a cólera.

E lançando-se para a frente, afastou Inocente com um murro e enfiou pela escada acima.

CAROLINA – Que fizeste, Inocente? Vai ficar

fula.

INOCENTE – E que tem isso? Disse-lhe as verdades; bom é que saiba o que ela e as suas amigas são.

CAROLINA – Mas vai fazer-nos todo o mal que

puder, impedindo-me de ganhar a vida.

INOCENTE – Cuidas isso? Será ela assim tão má?

CAROLINA – Infelizmente, tenho motivos para o recear.

E, sentando-se numa cadeira, ficou a orar, de rosto entre as mãos. Invocando o auxílio divino e da Santíssima Virgem pediu que lhe dessem forças e lhe poupassem a dor cruel de ver o irmão a braços com privações e sofrimentos.

A despedida

Inocente olhava para a irmã e adivinhava-lhe o sofrimento, compreendendo perfeitamente ser ele a causa principal do desgosto e dos embaraços dela. Marejaram-se- lhe de lágrimas os olhos, e procurou reparar o mal feito.

– Já dei com ele – pensou consigo. E, desaparecendo sem ela dar por isso, foi ter com o Sr. Delmis.

– Que desejas, Inocente? – perguntou o ex-pa trão, que se voltou para ele ao ouvir o barulho da porta a abrir-se.

– A Carolina está a chorar – disse Inocente, em voz baixa – e por minha culpa; venho rogar-lhe o favor, embora o senhor já não seja meu amigo, de vir em nosso auxílio e de reparar o que eu fiz.

– Porque me dizes que já não sou teu amigo? Garanto-te que ainda o sou e que sempre o serei – respondeu o Sr. Delmis.

INOCENTE – Não, fraquejou uma vez; já não conto com o senhor.

SR. DELMIS – Eu, fraco?… Esqueces, Inocente

Contas demasiado com a minha amizade!

INOCENTE – Não, nem já conto com ela. O senhor fraquejou quando me abandonou na questão do Louro. Em vez de me apoiar, o senhor disse: Arranja-te como puderes. E como havia eu de arranjar-me, se foi o senhor que encaixou na ratoeira

a cabeça do Louro? Que podia eu dizer? Se não me houvesse dado esse conselho, teria enterrado o papagaio no fundo da estrumeira, e já ninguém dava com ele.

O Sr. Delmis, que se ia acalmando à medida que Inocente falava, sorriu às últimas frases e, retomando seu aspecto bonacheirão, respondeu:

– Nada disso me explica a razão do choro de Carolina nem o que posso fazer para a consolar.

Inocente contou o que acabara de se passar com a senhora, e os receios da irmã.

– A coisa está feia – disse o Sr. Delmis, meio descontente com as palavras dirigidas por Inocente à esposa, meio contristado pelos legítimos receios de Carolina. – O caso está bicudo – repetiu. – Só vejo um meio: é tua irmã procurar trabalho em casa de freguesas novas… Sei lá… Pessoas de fora… Nem sei bem… Hei- de ver… Não me parece fácil… Mas também, que ideia a tua de ir falar à minha mulher em dentes postiços!…

– Ah! Isso é que não; não lhe falei dos dentes postiços; esqueci-me! – respondeu Inocente.

O Sr. Delmis não pôde impedir-se de sorrir.

– Ora deixa-me – respondeu. – Vou pensar nisso. Quando vir o cabo, falo-lhe no caso.

– Ah Isso sim – disse Inocente. – Ainda há bocado ele dizia a Carolina que a protegeria como se fora sua irmã. É, na verdade, agradável ter por protector um cabo; impõe respeito.

– Lá isso é verdade – disse a rir o Sr. Delmis. Nós vamos ambos tratar do caso, esperando que havemos de ser bem sucedidos.

Inocente foi-se embora, encantado; correndo para a irmã, relatou-lhe o que acabava de ouvir do Sr. Delmis, que afirmou ir protegê-los bem como o cabo.

– E mais o cabo! – exclamou Carolina. – Não quero isso! Saberei bem arranjar-me sem ele.

INOCENTE – Então vai dizê-lo ao patrão; pois está disposto a falar-lhe, segundo diz.

CAROLINA – Nada tenho que dizer ao patrão, visto nos irmos embora amanhã. E, se eu não puder viver aqui contigo, iremos para a terra da nossa mãe.

INOCENTE – Como queiras; eu sigo-te para toda

a parte.

O dia acabou triste. A senhora não se sentia bem ante o ar grave, quase descontente do marido; só os meninos falavam, mas também se mostravam preocupados com a partida dos dois irmãos. Apenas a Sr. a Delmis sabia que a separação se devia dar já no dia seguinte, e as crianças projectavam um passeio ao campo em companhia de Inocente.

A tardinha, foi Inocente, sem falar, fazer a entrega ao Sr. Delmis de um molho de chaves.

SR. DELMIS – Para que são essas chaves? Que

queres que faça delas?

INOCENTE – Apresento-lhas, patrão, porque são suas; e quero que as guarde, visto pertencerem-lhe.

SR. DELMIS – É a Carolina que as deve guardar.

INOCENTE – Era ela, patrão, mas já não é, visto que partimos amanhã de manhã cedo.

– Amanhã! – exclamou o Sr. Delmis, erguendo-se precipitadamente. – É impossível! Não se vai assim sem mais nem menos! A Carolina não faz isso, pela certa.

INOCENTE – Tem o patrão toda a razão. A Carolina não era capaz de tal procedimento. Mas a senhora assim nos despede, como se fossemos ladrões. Não seriam os vestidos que nós levaríamos! Uns vestidos que lhe ficam tão bem!. .

E Inocente pôs-se a rir; até o Sr. Delmis, não obstante a sua contrariedade, a custo reprimiu um sorriso; os meninos estavam consternados e a Sr.a Delmis, muito embaraçada.

SR.a DELMIS – Meu querido… entendi por bem procurar imediatamente nova criada… Esse Inocente é tão grosseiro… Não podemos expor as nossas visitas… às indelicadezas… aos murros desse palerma… Sabe como Carolina é susceptível… Não quis… ela antes quis…

SR. DELMIS -… não quis suportar o teu génio, preferindo furtar-se a ele quanto mais cedo melhor; compreendo e dou-lhe razão… Ó Inocente, meu amigo, vai chamar tua irmã. Preciso de falar-lhe. Acompanha-a ao meu gabinete.

Inocente deitou a correr e, dois minutos depois, trazia a irmã ao gabinete do Sr. Delmis, onde este a esperava.

SR. DÉLMIS – É então amanhã que parte, querida filha? Por afeição e por seu interesse, não pretendo retê-la aqui. Mais uma vez prometo velar pela menina e protegê-la do melhor modo que me for possível; contudo, não a deixarei partir, sem lhe dar uma prova da minha satisfação e amizade. Aos ordenados

que recebeu, desejo acrescentar uma quantiazinha que a ajudará a viver até lhe aparecer trabalho suficiente. Adeus, minha menina, adeus; o Senhor a abençoe e proteja, assim como a seu irmão. Conto ir vê-la a sua casa.

– Oh! senhor, obrigada; mil vezes obrigada pelas suas bondades – respondeu Carolina, cobrindo o rosto com o lenço, e retirando-se apressadamente para esconder as lágrimas, sem mesmo pensar em pegar no embrulho que o Sr. Delmis lhe dava.

– Toma, Inocente – disse ele, com voz comovida -, pega nisto e leva-o a tua irmã.

INOCENTE – Sim, senhor; e muito obrigado. Peço que se lembre de nós e vigie os que nos substituírem, que nunca trabalharão tão bem como nós, pode estar certo disso. Tenho pena de deixar o seu serviço, embora o senhor já não seja meu amigo; agora da senhora é que não levo saudades, pois não é nada boa; bem o diziam as outras senhoras. Mas não se incomode, visto não estar na sua mão remediá-lo. Vou com saudades suas, embora tivesse dado razão ao Louro contra mim.

– Adeus, meu amigo – disse o Sr. Delmis, es tendendo-lhe a mão.

INOCENTE – Seu amigo?. Pois bem, sim Seu amigo! Quero sê-lo; esqueço tudo, perdoo tudo e volto a ser seu amigo. Adeus!

O roubo

Depois de uma valente sacudidela à mão do Sr. Delmis, como despedida, o que o fez sorrir pela ingenuidade final de Inocente, este saiu, voltando para a cozinha, onde foi dar com Carolina debulhada em lágrimas.

-Não chores – disse-lhe ele -, já arranjei tudo.

A irmã levantou a cabeça.

INOCENTE – Sim, está tudo composto; perdoei ao patrão e voltei a ser amigo dele, ficando ele meu amigo também. Irá visitar-nos e tu verás como seremos felizes. Agora, acabemos de fazer os embrulhos. Queres que leve esta noite o mais volumoso?

CAROLINA – Pois sim; faz como entenderes – disse, com voz triste.

INOCENTE – Para que é tamanha tristeza, ó Carolina? O patrão é bom, não há dúvida; mas a patroa é má e enfadonha. O patrão disse que nos ia visitar. O cabo também não há-de faltar. Oh, não estejas a encolher os ombros; afirmo-te que irá, pois disse que gostava de ti como de uma irmã. Eu podia lá viver sem ti, eu que sou teu irmão? Ah! Já te ris! Ainda bem! Mostra-me agora o que é que devo levar.

Distraída com a tagarelice do irmão, Carolina ajudou-o a fazer um embrulho com a roupa branca e os fatos e vestidos dos dois. Depois de pronto, Inocente carregou com ele às costas e lá foi corajosamente, apesar da escuridão. Não reparou que era

seguido por um homem e uma mulher que se tinham

ocultado na sombra da parede quando transpôs a

porta e que se haviam insensivelmente acercado dele, com todas as cautelas, para não fazerem barulho e

assim mais facilmente atacarem.

Ao chegar a casa, única herança de sua mãe, sentiu- se agarrar de repente por trás, e antes que

tivesse tempo de gritar ou de se defender, foi fortemente dominado por mãos vigorosas e desembaraçado do embrulho. Quando pôde gritar por socorro e levantar-se, viu apenas duas sombras a fugir, numa das quais lhe pareceu reconhecer uma mulher da estatura e com as maneiras de Rosa.

Atemorizado e tremendo, voltou para casa do

Sr. Delmis. Carolina ficou muito impressionada com

a sua palidez; os dentes batiam-lhe e só pôde responder às perguntas da irmã depois de esta lhe ter dado a

beber um copo de água. Só então pôde contar o

roubo de que fora vítima. Carolina ficou tão aflita

com a agitação do irmão como com a irreparável

perda causada pelo roubo; é que o embrulho continha os seus melhores vestidos, e toda a sua roupa branca.

-É preciso ir já contar tudo aos nossos amigos – disse Inocente -, eles, que são hábeis, darão com os

gatunos.

CAROLINA – Mas só ao patrão; ele é que é a

autoridade e que dará as ordens.

INOCENTE – Pois bem, lá vou. Queres vir comigo?

CAROLINA – Não posso, que ainda tenho de

acabar o vestido da senhora; ainda me dá que fazer

uma boa hora.

INOCENTE – És de bom tempo! A incomodares-te por essa mulher! Vou então, sozinho, contar o caso ao Sr. Delmis.

Momentos depois, o presidente ouvia baterem-lhe à porta.

– Entre… disse ele. – Ah! és tu, Inocente? Que sucedeu? Estás coberto de pó… E que palidez a tua! Que tens, meu rapaz?

INOCENTE – Já não tenho nada, senhor. Roubaram-me tudo. Já não tenho o fato novo nem as minhas lindas gravatas. E Carolina, nem vestidos nem calçado; nada. Roubaram-me tudo.

SR. DELMIS – E quem foi que te roubou?

INOCENTE – Não sei, senhor; um homem e uma mulher… Havia de dizer que era a Rosa; era muito parecida…

SR. DELMIS – Como vieram eles roubar-te aqui

em casa?

INOCENTE – Ah! Mas é que não foi em casa que me roubaram… O patrão sabe que a senhora nos escorraçou… Assim mesmo… pôs-nos fora de casa. Quando se manda sair as pessoas num dia, chama-se a isso expulsar… A senhora tinha-nos, pois, expulso. Peço ao patrão que não me interrompa; assim, nunca mais acabarei.

SR. DELMIS – Vá, não te interrompo, não digo

nada.

INOCENTE – O patrão não diz nada, mas faz caras e gestos que equivalem ao falar. Eu entendo bem o que elas significam: Inocente é tolo! Inocente aborrece-me.

SR. DELMIS – Não é isso, não é isso! Vai dizendo.

INOCENTE – Portanto, a senhora tinha-nos deitado fora. Bem, O patrão não se mexa; vou continuar. Precisava de levar as nossas coisas. A Carolina chorava, que me cortava o coração. Para a distrair, propus-lhe fazer um embrulho, que eu trataria de levar já. Pôs-se a arranjá-lo, o que a distraiu e até a fez rir. Saí, já ao lusco-fusco. Fui andando, andando e

senti às costas um peso de mil libras, que me fez cair.

Num minuto, desapareceu o peso e o embrulho

também. Caíra de rosto para o chão; sacudi-me e

olhei; do lado do moinho vi um homem e uma mulher a correr; pareceu-me reconhecer a Rosa.

Ainda quis ir atrás deles, mas resolvi voltar para casa;

isto de gatunos é má raça. Contei à Carolina o que

estou a contar ao patrão, e eis tudo.

SR. DELMIS – Fizeste bem, vindo imediatamente

relatar o ocorrido. O caso é grave! Um roubo… praticado por dois… em plena rua… Tens de ir comigo a

casa do cabo, contar-lhe o que se passou, para eu dar

ordem de proceder a investigações.

INOCENTE – Pois sim; eu sigo o patrão. Consigo, não tenho medo; agora sozinho é que eu não me atrevia a passear na rua depois do que aconteceu.

O Sr. Delmis saiu com Inocente, depois de prevenir Carolina de que não se inquietasse com a sua demora, possivelmente prolongada.

INOCENTE – Porque cuida o senhor que poderemos estar muito tempo ausentes? Então o senhor vai

correr atrás dos ladrões? Com certeza não ignora que

aquela gente anda bem armada.

SR. DELMIS – Sossega, rapaz; não vamos correr

atrás deles, mas o auto leva tempo a redigir, e talvez

tenha de esperar o regresso dos guardas que vou

mandar à procura dos ladrões.

INOCENTE – Já compreendo. O senhor não se

quer expor; manda os guardas para apararem os

golpes.

SR. DELMIS (sorrindo) – Espero que eles não

apanhem, mas dêem. Demais, o que disse visa antes a tranquilizar Carolina, do que a outra coisa.

Enquanto falavam, chegaram à porta do cabo. O Sr. Delmis bateu. Foi o próprio cabo que veio abrir, admirando-se de ver o presidente, acompanhado de Inocente.

– Preciso de você, Cabo – disse o Sr. Delmis, entrando.

CABO – E porque teve o incómodo de vir cá?

Este meu amigo – acrescentou, passando amigavelmente a mão pela cabeça de Inocente – teria vindo

chamar-me, evitando assim esta maçada ao Sr. Presidente.

sR. DELMIs – A dificuldade estava em o seu amigo cá vir sozinho. Bem sei que, habitualmente, ele é

corajoso; mas acaba de ser roubado não longe daqui

e vem prestar declarações.

CABO -Roubado? Por quem? Que levaram

eles?

INOCENTE – Que me levaram? Toda a minha

roupa e a da Carolina que eu transportava para casa, às costas; foi para distrair a minha irmã, que estava a

chorar, e depois caiu-me sobre as costas um peso de

mil libras, que me fez afocinhar no chão, sendo-me

em seguida tirado tudo: peso e embrulho.

CABO – Viste alguém?

INOCENTE – Vi duas pessoas a fugir para os

lados do moinho.

– Ah Ah! Ah Para os lados do moinho exclamou o cabo, com ar pensativo e retorcendo os bigodes. – E conheceste a mulher?

INOCENTE – Pareceu-me reconhecer a Rosa. devo, porém, afirmar que não tenho a certeza, pois

estava escuro, ela corria muito e eu tinha os olhos

cheios de poeira e a tremelicar.

CABO (sempre pensativo) – A Rosa… Deve ser

isso… em casa do Miguel.

SR. DELMIS – Desconfia da Rosa e do Miguel?

CABO -Miguel mora para aquelas bandas, Sr. Presidente; ele já conhecia a Rosa há muito e até

estava para casar com ela. Bem sabe o Sr. Presidente

que o Miguel é fraca bisca, tendo já sido preso por roubo; Rosa encontra-se bastas vezes com ele em casa, trazendo de lá embrulhos com não sei o quê, que depois vende a retalho. Não me admiraria, se fizéssemos uma visita ao Miguel, de…

SR. DELMIS -… a encontrar lá, não é verdade?

CABO – Exactamente, Sr. Presidente; mas as visitas nocturnas não são permitidas sem ordem expressa.

SR. DELMIS – Foi por isso mesmo que aqui vim, Cabo. Dê-me uma folha de papel timbrado. O Sr. Delmis assinou logo um mandato de busca, por furto de roupas, à residência de Miguel.

– Ora aqui tem – disse. – Mande dois dos seus guardas, que darão conta do recado.

CABO – Peço desculpa, Sr. Presidente, mas também lá quero ir; basta tratar-se da menina Carolina e do meu amigo Inocente – acrescentou, estendendo a este a mão – para já não confiar o assunto a ninguém.

E, cingindo o sabre, passou as pistolas para o cinturão, envolveu-se na capa, chamou um dos guardas, que fez o mesmo, e lá foram ambos, sem barulho, em direcção ao moinho.

19

A captura

Ao avizinharem-se da casa de Miguel, antigo criado do conde de Trenilly, expulso por mau comportamento e preguiça, os guardas redobraram de precaução a fim de verem e ouvirem sem serem vistos nem ouvidos. Deram, pé ante pé, volta à casa sem descobrirem luz. Passando rente a uma escada que dava para uma janela do celeiro, o cabo ergueu os olhos e notou uma meia-claridade que iluminava o aposento. Fazendo sinal ao camarada, pegaram os dois na escada e estenderam-na no chão, agachando-se depois numa esquina da casa em completa escuridão. Não tardaram a ouvir ligeiro ruído; um homem aproximou-se do postigo do celeiro, olhou em roda e, não vendo ninguém, chamou, cuidadosamente, em voz baixa:

Rosa, Rosa, onde estás? Porque retiraste a escada?

Rosa, pois era ela, entreabriu a porta da casa, e respondeu também em voz baixa:

– Porque estás a chamar? Que desejas?

MIGUEL – Chamo-te para poder descer, com mil raios! Por que demónio tiraste a escada?

ROSA -Não tirei coisa nenhuma; a escada está aí.

MIGUEL – Se te digo que não está! Ah! malandra – acrescentou, falando para si -, hás-de pagá-las.

Rosa abriu de par em par a porta, saiu e lá foi às apalpadelas para o sítio em que devia estar a escada. Como não a visse, deu uns passos e caiu, tropeçando nela.

ROSA – Cá está ela! Caiu, naturalmente.

MIGUEL (em tom brusco) – Chega-a ao postigo.

Rosa pegou na escada e encostou-a, para Miguel poder descer. Quando se viu no chão, segurou Rosa por um braço e começou a aplicar-lhe uma valente sova, com um cacete que trazia. A princípio, ela limitou-se a dar uns gemidos misturados de súplicas; à medida, porém, que aumentavam as pancadas, subindo de violência e cólera, não podia reprimir uns gritos abafados, que se iam tornando agudos e terríveis.

– Ah! sua cadela! – gritava ele. – Queres-me perder? Calas-te ou quê, desalmada!

Julgando o correctivo exagerado, e receando pela vida de Rosa, o cabo saiu do seu esconderijo. Antes de poder agarrar Miguel, este, que o avistara e reconhecera, atirou à cabeça de Rosa uma última pancada, exclamando:

– Ah! velhaca! Vendeste-me!

Rosa caiu sem movimento. Ajudado pelo camarada, o cabo perseguiu e agarrou Miguel, amarrou-o em menos de um minuto e deu ordem ao guarda para subir ao celeiro de onde voltou com uma lanterna, após breve revista.

– Acenda uma vela na casa – disse o cabo – e deitemos esta mulher num colchão, se o houver.

– O homem, esse, está bem amarrado, podendo ficar aqui até acabarmos o inventário, que não demorará muito.

O cabo ergueu Rosa, que só fazia uns leves movimentos convulsos, e deitou-a numa cama que viu a um canto, passandó a fazer a busca. No quarto em que estava Rosa nada encontraram; mas no compartimento contíguo, nos armários e, sobretudo, no celeiro, deram com boa porção de objectos de toda a espécie. O embrulho de Inocente ainda nem estava desfeito; apenas o tinham desamarrado e aberto; tudo se encontrava lá dentro ainda. O cabo reconheceu peças de vestuário que vira Carolina e Inocente trazerem, mas não quis tocar em nada antes de bem averiguado o roubo.

– Precisamos de reforço para levar o Miguel e a Rosa – disse o cabo -; traga o Bourdon consigo.

O guarda lá foi, ficando o cabo de sentinela aos presos; um deles estava amarrado, e a outra, meio- desmaiada, não havendo perigo de fugirem. Enquanto esperava pelos camaradas, o cabo entreteve-se a passear de um para outro lado no quarto, com aspecto de preocupado, andando ora depressa, ora devagar, parando e falando consigo mesmo. Por fim, acalmou- se e disse:

– Hei-de consultar o Sr. presidente, pois é um homem de bom conselho, e farei o que me disser. Ele gosta destes pobres órfãos, e certamente me auxiliará.

Chegaram os guardas; arranjou-se uma maca para a condução de Rosa e foram ter com o Miguel, a fim de lhe desamarrarem as pernas. Qual não foi a surpresa de todos quando o não viram! Enquanto o cabo passeáva de um para outro lado, Miguel rompera a corda que lhe prendia as mãos roçando-a num ângulo da parede e, uma vez de mãos livres, fácil lhe foi desatar as cordas que lhe prendiam as pernas e, de rastos, deslizara até certa distância da casa, começando então a andar erguido, lentamente a princípio, e depois rapidamente, até ficar fora do alcance. Deixando a perseguição para o dia seguinte, voltaram a Rosa, que foi levada e deitada num quarto que precedia a cadeia; mandaram vir um médico, que a declarou em estado grave, pois a pancada na cabeça era muito inquietadòra. Ao despi-la, viram-lhe o corpo coberto de ferimentos, alguns já antigos. Isso provava que não era esse o primeiro correctivo do seu cúmplice, que se arvorara em seu tirano.

O Sr. Delmis tinha voltado para casa com Inocente. No dia seguinte, após a primeira refeição e a entrada da nova criada, Carolina e o irmão juntaram o resto das suas coisas e saíram para irem habitar a sua casa, que nunca mais deviam deixar. Tinham feito as despedidas, que foram muito afectuosas por parte dos meninos, muito comoventes com o Sr. Delmis, mas muito frias por parte da senhora. Carolina ia triste; Inocente ia sempre a olhar para ela e a tentar distraí-la, contando-lhe o que se passara na véspera entre ele, o Sr. Delmis e o cabo. A irmã sorria, apertava a mão do irmão, mas continuava a reflectir na sua penosa situação.

Regresso ao lar

Chegados a casa, Carolina sentiu-se muito emocionada pela recordação da mãe; olhou enternecida para todos os objectos de que se havia servido e a cama em que ela exalara o último suspiro. Enquanto Inocente, retomando os hábitos antigos, punha tudo em ordem, enchia de água as bilhas, acendia o lume, e se afligia por não ver nem pão, nem leite, nem sal, nem açúcar, nem manteiga, etc. , Carolina, voltando também aos velhos costumes, ajoelhara junto ao leito da mãe e orava com fervor, implorando o socorro de Deus e da Virgem Santíssima; pedia à mãe que a protegesse, que velasse por ela e pelo irmão.

– Pobre irmão! – dizia. – Que posso eu fazer dele? Far-me-á despedir de toda a parte; só arranja discussões e inimigos.

E chorava; mas as lágrimas não eram amargas; o coração enchia-se-lhe de esperança. Enquanto rezava, não deu fé de se abrir a porta. Estavam ali dois homens imóveis a contemplá-la, enternecidos. Um grito de Inocente, ao entrar pela porta traseira com um braçado de lenha, fê-la voltar a cabeça. Quem havia ela de ver? O Sr. Delmis em pessoa, acompanhado pelo cabo. Erguendo-se lentamente, Carolina aproximou-se deles. O Sr. Delmis apertou- lhe uma das mãos enquanto o cabo lhe apertava a outra, amigavelmente.

CABO – Menina Carolina, venho com o Sr. Delmis por causa do roubo de ontem; mas o principal motivo é renovar-lhe o meu oferecimento de serviços e pedir-lhe, por favor, que os não rejeite, tratando-me sem cerimónia, como irmã, sempre que necessitar de auxílio.

SR. DELMIS – Faço minhas, querida filha, as palavras do cabo; viemos para tratar do roubo; antes, porém, quero também oferecer-lhe os meus serviços. Se vier a encontrar-se em apuros, num embaraço, peço que não esqueça que terei muito gosto em poder ser-lhe útil.

CAROLINA (enternecida) – Muito obrigada, senhor; muito obrigada, Sr. Cabo; estou muito reconhecida a ambos… Sinto-me feliz… graças aos dois… realmente feliz pelo belo auxílio que Deus me envia.

INOCENTE – Só a mim é que ninguém diz nada!

Esquecem-se de mim?

CABO -Cá eu é que não te esqueço, amigo Inocente – acrescentou, sorrindo e estendendo-lhe a mão que ele apertou fortemente.

INOCENTE (para o Sr Delmis) – E o senhor também é meu amigo?

SR. DELMIS – Pois sem dúvida? Sou teu amigo

para a vida e para a morte.

INOCENTE – Olha! É curioso, até o senhor? Amigo para a morte, como o Sr. Cabo… É bem estranho. Para a morte. Então eu vou morrer?

SR. DELMIS – Não, não vais. Porque havias de

morrer? Não penses nessas coisas tristes.

INOCENTE – Triste porquê? Acho-as até alegres. Quem me dera morrer!

CAROLINA (com ar de censura) – Inocente, tu

queres então deixar-me?

INOCENTE – Não, mas queria morrer para ir esperar-te ao pé da nossa mãe. Tu não demorarias muito… a vir ter connosco. Não há tristeza na morte. Lembras-te do aspecto suave e satisfeito da mãe depois de morta?… E, além disso… queres saber, Carolina… receio que a nossa mãe esteja zangada comigo.

CAROLINA – Ora essa! Porque havia ela de estar

zangada contigo?

INOCENTE – Porque. bem sabes. esse maldito Louro… morreu… e lá está com a nossa mãe… a dizer-lhe que fui eu que o matei… diz toda a espécie de tolices que lhe vêm à cabeça… Bem sabes que é um mentiroso, um maroto. Ora, o que eu queria era dizer à mãe que ele é mentiroso, que não lhe dê crédito.

– Pobre irmão! Pobre irmão! – repetiu Carolina, entristecida. – Sossega, Inocente, que o Louro não está na companhia da mãe.

INOCENTE -Então, porquê? Se ele morreu…

CAROLINA – Porque ele é um animal; ora os animais não vão para o Céu, com os homens.

INOCENTE – Com os homens, talvez não; mas pode ser que esteja com as mulheres.

– Nem com as mulheres, meu palerma – disse, rindo, o Sr. Delmis. – Vê se perdes a mania de falar nos mortos e nesse Louro; gastamos o tempo a ouvir parvoíces. Olhe, Carolina: é preciso que a menina venha connosco para reconhecer as suas roupas na pilha de objectos furtados, encontrada pelo cabo em

casa do Miguel.

– Pois quê? Já apareceram? – exclamou Carolina, numa expansão de alegria. – Que grande serviço

nos prestou, a mim e ao Inocente! Só tínhamos a

roupa que trazemos vestida!

CABO – Dou-me por muito satisfeito por desta

vez ter sido bem sucedido, menina Carolina.

Contente por reaver o seu fato, Inocente pediu

licença para acompanhar a irmã, o que lhe foi concedido, sem dificuldade. Pouco depois, estavam na cabana de Miguel. Esta encontrava-se sob a vigilância

de um guarda, não fosse dar na cabeça a Miguel

voltar lá para levar as roupas e, sobretudo, uma saca

de dinheiro que o cabo achara debaixo da pedra do

lavadouro. Não se mexera em nada. Os quatro subiram ao celeiro, onde se conservava o embrulho de

Inocente.

– Lá estão! Lá estão! – exclamou, à entrada, Inocente. – Lá estão o meu fato de ver a Deus, as calças, os coletes, as gravatas, os vestidos e os

casacos de Carolina, a roupa branca, o meu catecismo e tudo o mais… Lá está tudo; não vês, Carolina?

– Sim, na verdade, está ali tudo – disse Carolina, examinando o conteúdo do embrulho. – O gatuno não lhe tocou.

CABO – Não lhe dei tempo, menina Carolina.

Logo que o Sr. presidente e o Inocente me deram

conta do que se passava, pus-me logo em campo com

o meu camarada Prévot, vindo direitinhos aqui surpreender os gatunos.

CAROLINA – Então eram muitos?

CABO – Apenas dois; o segundo era uma

mulher, Rosa, a antiga criada do Sr. presidente.

CAROLINARosa! Ladra! Oh, meu Deus, é lá

possível! Pobre Rosa!

CABO – Sim, pobre Rosa. Nem sei se conseguirá salvar-se; tem a cabeça e o corpo muito feridos; juntou- se a esse malvado, querendo à força casar com ele, que a explorava brutalmente, como se vê pelas marcas que tem no corpo.

CAROLINA – E onde está essa infeliz! Eu não a

poderei ver?

CABO – Está na prisão. Sempre lhe lembro que uma pessoa de tal jaez não merece a visita de uma menina como Carolina.

CAROLINA – Talvez eu a pudesse consolar, inspirar- lhe melhores sentimentos, levá-la ao arrependimento das suas culpas. Peço-lhe encarecidamente, Sr. Cabo, que me permita ir vê-la.

CABO – Tudo o que queira e quando queira, menina Carolina. Pode ir vê-la, se assim lho pede o coração.

CAROLINA – Obrigada, Sr. Cabo; muito obrigada pela sua bondade.

CABO – Muito feliz por lhe dar gosto, menina. Depois de levantado o auto relativamente às roupas de Carolina e de Inocente, a autoridade deu-lhes licença de as levarem consigo, o que logo Inocente fez, carregando com o embrulho às costas e, sem auxilio de ninguém, lá foi a caminho de casa, acompanhado do presidente e do cabo, sem falar da irmã. Foram até à porta, onde se separaram, entrando Carolina e o irmão em casa e seguindo o Sr. Delmis com o cabo a caminho das suas moradas, também.

– Ah! – disse Inocente, depondo o fardo. Vamos agora tratar do comer, não é assim, Carolina? Para começar, não temos nada em casa.

CAROLINA – Vou às compras, e tu acompanhas- me, para trazeres tudo para casa, enquanto eu vou à cadeia visitar a infeliz Rosa.

INOCENTE – Isso mesmo! Ai Que grande pândega. Olha, Carolina, estou muito satisfeito por termos voltado para casa… e penso que tu não estás menos… Ris? Bem, é bom sinal… vamos ser muito felizes aqui! Tu a costurar, eu a cozinhar… à tardinha, passearemos, teremos a visita dos nossos amigos e daremos dois dedos de conversa.

CAROLINA (com alegria) – Ora, ora, como tu vês as coisas! Pensas que não temos mais que fazer do que divertir-nos? Nem sequer tenho trabalho ainda.

INOCENTE – Ora! Deixa que não te faltará. O cabo há- de arranjar-to; disse-o o Sr. Delmis.

CAROLINA (admirada) – Disse-te isso o

Sr. Delmis?

INOCENTE -Disse-mo, sim, porque o cabo

conhece muita gente, é nosso amigo, e tem muito empenho em nos… tu vês pouco… mas eu percebo tudo… ajudar e sei que tanto o Sr. Delmis como o cabo são nossos amigos de verdade… Um presidente e um cabo… nossos amigos, hem? Já vês que hás-de ter muito serviço.

CAROLINA -Deus te ouça! Não se deve ser orgulhosa, quando se tem um irmão a sustentar. Aceitarei de muito bom grado.

INOCENTE – É o que fazes de melhor! Eu aceito tudo! Mas tudo, repara bem. Pão, presunto, queijo, café, seja o que for, contanto que se coma.

CAROLINA – Mas dinheiro não, Inocente! Dinheiro é que não!

INOCENTE – Lá isso… depende! Se não precisar dele, não aceitarei. Mas, precisando… cuido… sim… tenho a certeza de que o irei pedir ao Sr. Delmis.

CAROLINA – Lá ao Sr. Delmis, consinto; agora a

outros é que não, Inocente. E mesmo ao Sr. Delmis, nada peças sem mo dizer.

INOCENTE – E se não me dizes quando ele te

faltar?

CAROLINA – Dir-te-ei, não tenhas medo. Por

enquanto ainda há bastante.

INOCENTE – Então está bem! – exclamou, a pular de contente. – Vamos à praça comprar coisinhas boas.

CAROLINA – Não, Inocente; compremos só o preciso. Na nossa situação temos de habituar-nos a gastar só o necessário à vida.

INOCENTE – Como quiseres. Eu de mim só preciso de um bocado de pão e mais qualquer coisa… É quanto me basta. Ah, como me sinto contente por estar em nossa casa!…

Inocente mostrava-se radiante, saltando, dançando, abraçando Carolina, que sorria de o ver satisfeito.

– Ora, então, vamos lá – disse ela, pegando no cesto das compras que Inocente quis por força levar.

INOCENTE – Aonde vamos nós?

CAROLINA – Antes de mais nada, à padaria; depois, ao talho; em seguida, à mercearia; e, por fim, à quinta das Haies, para comprar manteiga.

– Isso é de mais! Vamos ficar sem dinheiro.

CAROLINA – Isso não, nada de aflições! Só o

preciso; hei-de ser razoável.

INOCENTE – Porque vais tu à mercearia? Passo

bem sem guloseimas.

CAROLINA – Também não é isso que eu lá vou comprar; precisamos mas é de velas, de sal, de pimenta, de sabão e de outras coisas que se não dispensam.

Começaram por ir a casa do abade para o informarem da sua saída do serviço do Sr. Delmis e lhe pedirem que se interessasse por eles, arranjando-lhes trabalho.

ABADE – Vou arranjar-lhe já, minha filha, e sem

sair daqui. acabo de receber do meu irmão uma peça de pano para mandar fazer camisas; também preciso de uma batina e de um casaco para o Inverno. Vou mandar-lhe isso tudo, e já a menina tem assim para uma temporada.

INOCENTE – Pois não acha, Sr. Abade, que estamos mais à vontade e seremos mais felizes em nossa casa do que na da Sr.a Delmis? O patrão era bom, mas a patroa…

ABADE (sorridente) – Ora, ora, Inocente, nada de maledicências. Contudo, devo dizer que tens razão, e que se a Carolina não faltar trabalho, tudo correrá pelo melhor.

Uma visita à cadeia

Carolina agradeceu ao abade e saiu com o irmão, para fazer as compras. Acabadas estas, dirigiu-se para a cadeia, a fim de ver a Rosa. O cabo estava à sua espera, à porta. Para ele se dirigiu Inocente, dizendo:

– Olhe, meu amigo. O senhor é meu amigo não é?

O cabo sorriu.

INOCENTE – Porque se ri?

CABO – Porque estou muito contente por os ver a ambos e por ser teu amigo.

INOCENTE – Ora, ainda bem… Já lhe vou mostrar o que a Carolina comprou.

CAROLINA – Olha que aborreces o Sr. Cabo, Inocente. Deixa-me pedir-lhe que me conduza junto da infeliz Rosa, que deve sentir-se bem desgraçada.

CABO – Sim, menina Carolina; ensinar-lhe-ei o

caminho. Já venho ter contigo, Inocente.

Precedendo Carolina, o cabo fez-lhe subir uns

degraus e percorrer um extenso corredor, no fundo

do qual se via a porta da prisão, que abriu. Lá estava

Rosa estendida numa cama e parecendo dormir.

CABO – Entre, menina; se vê que tem medo,

deixo-me ficar aqui.

CAROLINA – Medo não tenho; e talvez ela goste

mais de estar só comigo.

CABo – E se ela a ofende ou lhe bate?

CAROLINA -Julgo que não terá forças para

tanto; está tão pálida; parece tão doente!

CABO – Antes de a deixar aqui sozinha, deixe-me falar-lhe, para ver em que disposições ela se

encontra. Rosa – chamou o cabo -, a menina Carolina quer vê-la. Estará disposta a recebê-la bem?

Rosa abriu os olhos e olhou para Carolina. Pelas

faces pálidas e ensanguentadas rolaram-lhe duas

grandes lágrimas.

ROSA – A Carolina vem ver-me? Como é boa!

Que bondade a sua! Eu, que procedi tão incorrectamente para consigo! Perdoe-me, Carolina! Estou

bem castigada… sou bem infeliz!

CAROLINA – Minha pobre Rosa, é de todo o

coração que lhe perdoo; sinto muito encontrá-la

assim doente nesta horrível prisão.

ROSA – Deus castigou-me! Está a menina bem

vingada! Eu tencionava despojá-la das suas coisas.

Esse desgraçado Miguel queria roubar-lhe todos os

seus bens, e eu devia ajudá-lo a arruiná-la; tencionávamos entrar-lhe em casa e levar-lhe tudo o que encontrássemos.

CABO – E se a menina Carolina resistisse? Se gritasse por socorro?

ROSA – Cuido que ele a mataria.

CABO – Desgraçado! Matá-la! Assassinar uma jóia, uma excelente criatura! É preciso ser malvado, não ter coração.

ROSA – É com toda a sinceridade que me arrependo de me ter prestado a semelhante crime… Perdoe-me, Carolina, eu lhe suplico! – acrescentou Rosa, pondo as mãos.

Como única resposta Carolina inclinou-se para ela e beijou-lhe o rosto ferido; o semblante de Rosa foi iluminado por um raio de alegria; agarrou na mão de Carolina e, levando-a aos lábios, deu largo curso aos soluços.

ROSA – Ah! Como o Sr. Cabo tem razão! Excelente criatura! Boa Carolina, ajude-me no meu arrependimento; desejo falar ao Sr. Abade antes de morrer.

CAROLINA – Esteja descansada que há-de ver o Sr. Abade, e tenho a esperança de que não morrerá ainda, minha pobre Rosa. Sr. Cabo, peço-lhe o favor de ir chamar o Sr. Abade… peço-lhe, meu caro Sr. Bourget.

CABO – Minha boa Carolina, isso é que me é impossível! Estou de serviço. Não posso abandonar o meu posto, pois para mais estou sozinho de guarda à prisão. Creia que tenho muita pena, mas, acima de tudo, está o dever.

CAROLINA – Tem razão… Já me esquecia… Como arranjar?

CABO – E se mandássemos o Inocente?

CAROLINA – Muito boa ideia! Tenha a bondade

de mandar lá o Inocente e depois volte.

O cabo não a deixou repetir; encontrando Inocente na sala, disse-lhe que fosse chamar o abade, para confessar a Rosa que estava a morrer. O rapaz lá foi a correr; antes, porém, entregou o cesto ao cabo.

– Tome bem cuidado nele – recomendou. –

São as nossas provisões; não deixe ninguém mexer aí,

nem lhe mexa o senhor.

CABO – Fica descansado, meu amigo; aí ninguém porá a mão; eu de mim preferia morrer de fome a roubar a tua irmã.

O cabo não resistiu a levantar a tampa do cesto;

antes de voltar a tapá-lo, ajuntou às magras provisões

que continha, um frango, dois ovos fresquinhos e um

frasco de compota de groselha; seguidamente fechou-o num armário e voltou para junto de Carolina.

– Tome cuidado com o Miguel – dizia Rosa. Ele há-de pregar-lhe alguma partida. Tem uma chave

que abre a porta de trás da sua casa. Cabo, vele por

ela; veja se apanha o Miguel… Miserável! Prometeu-me casamento… e matou-me… Carolina, não me

abandone… a sua presença é-me precisa… Ai! Se o

Sr. Abade viesse…

CABo – Há-de vir, Rosa; o Inocente foi chamá-lo.

De facto, minutos depois, chegava a toda a pressa

o abade, ignorando do que se tratava. Ao ver a Rosa, percebeu que ela não tinha grande tempo de vida.

Mandando sair Carolina e o cabo, ficou a sós com

ela. Carolina não saiu do corredor, desejando não se

afastar dali; o cabo trouxe-lhe uma cadeira e foi ter

com Inocente, que andava muito inquieto à procura

do cesto.

– Está aqui, está aqui – disse o cabo abrindo o armário. – Sei bem guardar as coisas.

Abrindo o cesto, Inocente soltou uma exclamação de surpresa.

– Quem foi que pôs tudo isto aqui no cesto?

CABO – Fui eu, meu amigo… No primeiro dia, a gente nota a falta de muita coisa… Carolina também já não dispõe de tempo para cozer a carne… Foi por isso que me permiti juntar essas coisitas.

INOCENTE – Obrigado, Sr. Cabo. Já vejo que o

senhor é um amigo às direitas. Embora não o pareça, eu sou muito reconhecido. Nem sei o que faria por si… Olhe, deixava-me matar, e com satisfação!

CABO – Não te deixes matar por ninguém, amigo Inocente; vive para nós. Sem ti a Carolina não se sentia feliz.

INOCENTE -Ela chorava, mas… o senhor consolava-a, não é verdade? Faria a minha vez de irmão, não é assim? Prometa-mo, meu caro amigo.

CABO – Pois, sim, prometo; dedicar-me-ia a ela, nunca mais a deixando… com a condição de ela o querer.

INOCENTE – Ah! Isso quer ela; gosta muito do

senhor; bem o noto quando alguém fala de si.

CABO – Que é que tu notas, quando se fala de

mim?

INOCENTE – Noto que isso lhe dá prazer, que

sorri, que fica contente… Se o senhor ficasse sempre ao lado dela, eu não me importava de morrer.

CABO – Porque falas tu sempre em morrer, meu amigo? És novo e tens saúde.

INOCENTE – Pois sim, mas em sonhos vejo minha mãe tão bonita, no meio de uma luz tão bri lhante, rodeada de anjinhos tão lindos! Todos eles a chamar por mim, a aproximar-se de mim, sem poderem levar-me! Ontem esforcei-me por ir com eles, sem o conseguir; um deles então, todo de fogo, a quem chamavam anjo da morte, veio tocar-me; o Senhor apareceu, cortou os laços que me prendiam à terra, e eu voei com os anjos, que me levaram a minha mãe. Que contente eu não estava! E depois… não quer saber? Ao chegar perto de minha mãe, vi o Louro a fugir, fitando-me com olhos furiosos! Os anjos escorraçavam-no; que engraçado! E ele sempre a querer passar, sem conseguir… Ai! O que eu ria! Sentia- me lá tão bem!… tão bem, que não queria sair dali, mas… E aqui está porque eu quero morrer, e cuido bem que vou morrer.

O cabo ia ouvindo Inocente e retorcendo o bigode. Ambos se calaram, ficando a pensar.

– É singular! – disse, por fim, o cabo, a meia-voz. – Será um aviso, um pressentimento? Coitada da Carolina! Como pode ela ficar só!

INOCENTE – Pois não é verdade que ela não pode ficar só? Eu bem lho dizia. É preciso que o senhor ou o Sr. Delmis fique junto dela… O senhor ainda há pouco mo prometeu.

CABO – E continuo a prometer bem sinceramente, como a um irmão!

– A Rosa está a morrer – disse o abade, entrando -; Carolina encontra-se junto dela; já nem ouve nem diz nada; morre com bons sentimentos. Confessei-a e dei-lhe a Santa-Unção, esperando que Deus se amerceie da sua alma. Visto estarmos sós, Sr. Cabo, vou falar-lhe numa coisa que a Rosa me encarregou de transmitir-lhe: parece que o Miguel tenciona introduzir-se esta noite com os mais sinistros projectos na casa de Carolina; como ela tem algum dinheiro, quer roubá-la, e talvez assassiná-la. Por isso a Carolina não pode dormir em casa, enquanto não for preso o Miguel; deve destacar um dos

seus homens para apanhar esse miserável no momento do assalto à casa. Eu levo a Carolina para a minha

residência uns dias; dormirá com a minha sobrinha.

Mas, e o Inocente? Não pode tomar conta dele?

CABO – Com todo o gosto, Sr. Abade, e muito

lhe agradeço por me dar a oportunidade de ser útil a

esses pobres órfãos. O Inocente ficará em minha casa

e dormirá na minha cama, enquanto eu velar lá em

casa deles, até deitar a mão a esse bandido do Miguel.

INOCENTE – Ai! Eu não quero ficár aqui; quero

ir com o Sr. Cabo, para o ajudar a guardar a casa.

CABo – Meu pobre amigo, tu não podes ajudar-me; pelo contrário, embaraçavas-me.

~ INOCENTE – Não, de embaraço é que eu não

servirei. Peço-lhe, por favor, que me deixe ir consigo.

Não tendo a Carolina, só estou satisfeito ao pé de si:

Tenho um pressentimento de que lhe acontecerá qualquer desgraça, não indo eu.

CABO – Pobre moço! Vais cansar-te, para nada, afinal.

INOCENTE – Não, não me cansarei; sentir-me-ei, pelo contrário, muito feliz. Que bela noite que vamos passar, como dois irmãos!

CABO – Está bem, já que tanto insistes, meu

amigo; prometo-te que irás comigo.

O abade e o cabo voltaram à prisão, onde encontraram Carolina ajoelhada junto ao leito mortuário

de Rosa, a rezar as orações dos agonizantes. Ajoelhando também, um e outro, rezaram com ela. Quando terminaram, o abade fez o sinal da cruz sobre a

fronte de Rosa e fechou-lhe os olhos, pois ela acabava de expirar. Em seguida, ergueu Carolina, dizendo:

– Venha, minha filha, acabou-se tudo. Rosa está

na presença de Deus, que a julgou na sua misericórdia e justiça.

CAROLINA – Mas ela não pode ficar assim abandonada; é preciso tratar do funeral e que alguém aqui passe a noite a velar-lhe o corpo e a rogar-lhe pela sua alma.

ABADE – Tudo isso será feito, minha filha; a menina vai comigo para casa, onde ficará com a minha sobrinha. Virei com a Anica cumprir essa tarefa, ficando eu a velar o cadáver.

CABO – Olhe, Sr. Abade, ela não pode ser enterrada sem o médico verificar a morte e a causa dela.

ABADE – Isso compete ao senhor, meu amigo; vá ou mande chamar o médico; dentro de uma hora cá estarei de volta com a minha criada. Venha, menina Carolina.

Dócil à voz do pároco, Carolina seguiu-o; antes de abandonar a casa, pediu para voltar lá com o irmão, a fim de se refazer da emoção, preparar a ceia e repousar um pouco, que bem precisava.

ABADE – Não pode ser, minha filha; a sua casa vai ser ocupada esta noite pelos guardas, para deterem o Miguel, que deve ir lá tentar apoderar-se das suas economiazinhas. Não é conveniente ficar com eles. O cabo encarrega-se de hospedar o seu irmão.

Carolina não replicou, mas, ao retirar-se, agradeceu cordialmente ao cabo os bons serviços que lhe prestava, e lá foi, silenciosamente, ao lado do pároco. Depressa chegaram ao presbitério, onde os aguardava a criada.

A criada do abade

ANICA – Até que enfim, chegou! Muito lindo, na verdade! Já cuidava que nunca mais voltaria!

O jantar há mais de um quarto de hora à espera!

Quem não está contente é a menina Pelágia, previno-o desde já.

ABADE (com bondade) – Nem tu, ao que vejo, minha Anica! Mas desta vez a culpa não é minha.

ANICA – Já sabia: a culpa nunca é do Sr. Abad.

Há sempre uma desculpa a dar.

ABADE – Se a desculpa for séria, não devo ser

culpado.

ANICA – Aí está! Mais uma das desculpas tortas

do Sr. Abade! A última palavra há-de ser sempre

sua.

ABADE – Excepto contigo, que ficas a ralhar até

eu não ter mais que alegar.

ANICA – É porque as suas razões não valem um

caracol. E ainda por cima nos traz Carolina! E qual a

razão do seu atraso! Ainda não se explicou a esse

respeito.

ABADE – Trago comigo a menina Carolina para

jantar e para cá ficar; e…

ANICA – Essa é boa! Já vejo que não tem gente

de sobra cá em casa. Onde quer que a aloje? Há

porventura algum quarto para lhe ceder! Acha que

lhe devo ceder o meu, e ir dormir para o galinheiro?

ABADE (alegremente) – Ah! Não, minha rabugenta; não irás dormir no galinheiro; dormes na tua caminha e a Carolina fica com a Pelágia, que é amiga dela e se sentirá muito satisfeita por a acolher.

ANICA – E então eu? Não gostarei dela, talvez? Já algum dia lhe fui desagradável? Mas que necessidade havia de a trazer, em vez de a deixar dormir sossegada em sua casa?

ABADE – Porque precisa de cuidados e de palavras amigas, após a cena a que acaba de assistir. Rosa morreu- lhe nos braços, na cadeia, onde a boa Carolina passou a tarde a tratar dela e a consolá-la.

ANICA – Então a Rosa morreu? Ora, ora, ora.

Estava assim ferida para morrer tão depresssa? Foi uma bonita acção de Carolina ir assim pagar àquela malvada, com o bem, o muito mal que lhe fez. A menina é muito boa. Deus saberá dar-lhe a paga. Vamos tratar de tudo. Na verdade, ela está muito pálida e trémula. Pobre menina!

CAROLINA – Foi contra a minha vontade que o Sr. Abade me obrigou a acompanhá-lo; sinto muito ter de a incomodar, e rogo ao Sr. Abade que me deixe ir embora. Vou ficar com meu irmão, ou irei ter com o Sr. Delmis, que foi sempre tão bom para mim.

ANICA – Que necessidade tem a menina do Sr. Delmis, estando nós aqui? Eu e a menina Pelágia chegamos bem, para a tratar.

ABADE – É justamente isso que ela quer evitar. Não te lembras do que estiveste para aí a resmungar? Como não havia ela de procurar asilo noutra parte, depois de te ver tão mal-humorada?

ANICA – Bom!… Fiz mal… bem o reconheço… Está satisfeito? Era isso que pretendia? Ande, menina Carolina, não tenha medo; não faça caso do que diz o Sr. Abade, sempre com a boca cheia de palavras vazias de sentido… Nada disto explica a razão de tamanho atraso, Sr. Abade.

ABADE – Tinha de assistir aos últimos momentos de Rosa. Não podia deixá-la morrer sem confissão… Vamos voltar lá, tu e eu, depois de ter comido

alguma coisa; tu, para a amortalhar, e eu para rezar

por ela.

ANICA – Já vejo aonde quer chegar. Vai passar

lá toda a noite, não? Cansar-se, dar cabo de si, como

sempre.

ABADE – Nem me cansarei, nem darei cabo de

mim; passarei lá tranquilamente a noite a orar por

aquela pobre alma, para que Nosso Senhor dela se

compadeça.

ANICA – Ó que homem este, meu Deus! Há-de

ter sempre a última palavra! Se isso não é orgulho, não sei o que seja.

ABADE (com gravidade) – É apenas a caridade de um cristão e de um padre, minha boa Anica. Basta

de discussões, vamos ver Pelágia.

Anica foi adiante, resmungando; sempre de mau

humor, ela assustava quem a não conhecia; mas debaixo desta aparência antipática, escondia um coração bem compassivo, uma grande afeição pelo abade e grande desejo de valer a todas as aflições. Assim foi que, ao pôr mais um talher para Carolina, lhe arranjou vinho para lhe dar forças, e preparou o café do

abade, tendo ainda o cuidado de ir buscar a capa

deste, não fosse ele ter frio durante a noite, e de

meter-lhe num dos bolsos a tabaqueira grande, bem

recheada de tabaco fresco.

Pelágia recebeu Carolina, muito afectuosamente.

PELÁGIA – Havemos de passar parte da noite

em oração pela infeliz Rosa, minha boa Carolina, e amanhã o Sr. Abade rezará a missa por intenção

dela; também nós pediremos a Deus por ela.

Carolina agradeceu a Pelágia o seu belo acolhimento; à mesa comeu pouco. O abade, mais habituado a cenas mortuárias, comeu o bastante para tranquilizar Anica, que gostava de o ver limpar tudo o que lhe punha no prato.

ANICA – Coma, Sr. Abade, coma; lembre-se de que tem de velar toda a noite… pois, quando reza, nunca dorme. Eu já assim não sou; chegada a minha hora, tenho de dormir, morra quem morrer… Mas não vejo comer… Olhem lá que grande refeição: um prato de sopa e dois bocados de carne… Aqui tem uma fatia de presunto com espinafres… sempre há-de provar um bocadinho… Mais um pouco, quando não seja senão para me fazer a vontade. Será para mostrar que sou má cozinheira que não come?… Não é lá muito amável… Ora ainda bem. Agora sempre comeu um bocadinho regular! É sempre assim… Ora agora, uma chávena de café com uma gota de aguar dente.

ABADE – Aguardente é que não, Anica, por favor.

ANICA – Já lá canta. Caiu. O Sr. Abade não pensa no que está para vir! Se não fosse eu, há quantos anos se encontraria já a fazer tijolo!

ABADE – O mal não era grande, Anica!

ANICA – Ai, Jesus! Não era grande mal! Como ele fala sempre irreflectidamente! Não era grande mal! Então que havia de ser da pobreza do bairro, dos infelizes, dos enfermos e dos que precisam dos seus conselhos e consolações? E de mim e da sua sobrinha?… Nós já não contamos para nada? É preciso ser-se bem egoísta para falar dessa maneira!… É maldade, palavra, grande maldade!… Não se perdia grande coisa. E dizer que foi ele, o homem de Deus, quem tal asseverou! Olhe, Sr. Abade, deixe-me beber este resto de café com uma gota de aguardente, para me refazer; na verdade, estou muito irritada.

ABADE – Bebe, bebe, minha velha Anica. Então

precisas de me pedir licença para tomar seja o que for? Tudo o que há em casa é tão teu como meu. Somos amigos velhos; vai para vinte anos que estamos juntos, que tratas de mim, que te esfalfas ao meu serviço, que lutas por mim mais do que lutarias por ti mesma, que me consagras um grande afecto, enfim, pois esta palavra resume tudo quanto se encontra junto ao amor de Deus.

ANICA – Lá isso é verdade; sou-lhe afeiçoada, respeitando-o e venerando-o como um santo, estando disposta a dar pelo Sr. Abade a minha vida com toda a espécie de torturas, como os antigos mártires.

E a voz de Anica, a princípio comovida e depois

trémula, acabou por ser entrecortada de soluços.

– Vamos lá – disse o abade, querendo cortar

dessa forma a terna explosão de Anica. – Pelágia, confio-te a menina Carolina. Até amanhã, minhas filhas.

CAROLINA – Sr. Abade, peço-lhe o favor de

recomendar bem o meu irmão aos cuidados do cabo; bem sei que ele fará o melhor que puder, mas sabido é também que o Inocente exige uma vigilância muito particular e cuidada; que o não abandone até à minha chegada.

ABADE – Fique descansada, minha filha, que

darei o recado, embora o julgue inútil, pois estou de antemão convencido de que não é precisa a recomendação; o cabo é pessoa séria e bondosa, em quem se pode confiar inteiramente. Sob as vistas dele, o Inocente está tão bem guardado como sob as suas ou as minhas.

Dito isto, o abade lá se foi com Anica, que levava

num braço a capa e ia a resmungar como compensação dos sentimentos que tinha exteriorizado.

Que ideia essa de passar toda a noite junto de um cadáver! – dizia, em surdina. – Como se as orações não tivessem o mesmo valor no quarto e na cama, como nessa maldita casa… Há-de ser sempre o contrário da outra gente… Passou-me lá alguma vez pela cabeça estar uma noite inteira face a face com um morto? Que linda companhia, não há dúvida!… e porque hei-de ser eu a amortalhadeira de semelhante mulher?… Que vantagem lhe advirá disso, a ele e a mim?… Há-de ser sempre assim! Não quer saber do incómodo que o serviço dá… Bastou passar-lhe isso pela cabeça, para ter de se fazer.

– Anica, estás com maus pensamentos – disse o abade, que a ouviu apesar de ela ter falado em voz baixa. – Foi um acto de caridade este para que te convidei. Essa desgraçada, que morreu assassinada, na cadeia, tem direito à tua compaixão, pois acabou os seus dias arrependida e abandonada.

ANICA – Não digo o contrário, Sr. Abade, não digo menos disso… São cá umas ideias que me passam pela cabeça… Reconheço que sou… uma… uma velha rabugenta, resmungona, mau carácter! – exclamou ela, convictamente. – Desculpe-me, Sr. Abade, que não volto a recomeçar; irei a seu lado com muito juízo… só o diabo do capote é que me vai

a dar cabo do braço.

ABADE – Quem to mandou trazer? Não me

serve de nada.

ANICA – Ora, aí está! Queria passar a noite a gelar naquela prisão tão húmida para apanhar uma

doença, não? Pois isso é que eu não consentia.

ABADE – Dá-mo então, boa Anica; é justo que

eu o leve, visto ter sido por minha intenção que tiveste esse cuidado, que muito te agradeço. E é bem verdade que me pode vir a fazer falta.

ANICA – Ora essa! É então caso para agradecer? O grande serviço! Evidentemente que tenho de pensar no seu agasalho, pois que o Sr. Abade pensa em tudo menos em cuidar de si. Agora, quanto a levar o capote, bom é que o faça eu, para me penitenciar das palavras de mau humor que há pouco proferi e que o Sr. Abade ouviu.

ABADE – Como quiseres, Anica, bem sabes que nem sempre sou eu o patrão.

ANICA – O que significa que sou eu que o atormento, fazendo do senhor uma vítima, não?

– Não é bem isso, mas quase – respondeu o pároco, sorrindo. – Mas eis-nos chegados; vejamos se o médico já cumpriu o seu dever.

O pároco entrou no compartimento do cabo, acompanhado de Anica. Inocente e o seu amigo cabo ainda estavam à mesa, a acabar de cear.

O pressentimento

O médico chegara logo depois da saída do abade, a fim de auscultar a doente; não o surpreendeu a notícia da morte dela. Registou o óbito após ter verificado que fora a pancada na cabeça a causa principal da morte. ela tinha ainda uma costela partida e diversos ferimentos pelo corpo. Logo à saída do médico, Inocente queixou-se de fome.

CABO – Isso não é difícil de remediar, meu amigo; vamos já para a mesa; há só o inconveniente de a comida estar fria, pois não tive tempo de a aquecer.

Inocente destapou o cesto, dizendo:

– Aqui está metade do frango e os ovos que me deu esta manhã. Carolina encontra-se em casa do Sr. Abade, e eu em sua casa; isto perdia-se, o que era uma pena, em verdade, pois o frango tem uma aparência tão apetitosa!

CABO – Não pensas nada mal, meu rapaz. Vamos para a mesa e atiremo-nos ao frango enquanto se cozem os ovos.

Abrindo um armário, o cabo tirou de lá pão e uma garrafa de vinho, pondo logo a mesa com a ajuda de Inocente, que comia e bebia com evidente satisfação.

– Nunca jantei assim tão bem! – disse ele. Nunca me senti tão satisfeito e tão à vontade! É como se me fosse acontecer alguma coisa boa, muito agradável!. Muito gosto do meu Cabo… muito gosto, na verdade. Nem sei como explicar o que sinto… É o mesmo sentimento que voto à Carolina… Está satisfeito?

CABO – Oh! Muito, na verdade; mais do que posso manifestar, meu caro Inocente – disse, sorrindo e apertando-lhe a mão. – Não tens medo dos meus bigodes?

INOCENTE – Medo! E dos seus bigodes! Essa é boa! Podiam eles ter o dobro da grossura, que não me assustavam. O seu aspecto é tão bondoso… lêem-se-lhe nos olhos tantas coisas… tão boas… tão agradáveis!

CABO (sorrindo) – Vou ficar envaidecido, Ino cente, com todas essas lisonjas.

INOCENTE – Lisonjas! E chama a isso lisonjas?…

Então isso lisonjeia-o? Pois tanto melhor!… Muito folgo de lhe dar gosto. Mas eu não lisonjeio; digo a verdade.

Inocente ficou pensativo, o mesmo fazendo o cabo. Dessas reflexões, em que estava mergulhado, o tirou Inocente, dizendo-lhe:

– Olhe, Cabo, eu não me despedi de Carolina; tenho de ir beijá-la.

CABO – Não te deixo sair sozinho; começa a ficar escuro.

INOCENTE – PoiS bem! Venha então comigo

desejar-lhe também as boas-noites, o que a sensibilizará deveras.

CABO – Eu posso lá sair daqui, meu amigo! Tenho de ficar até à chegada do Sr. Abade! O dever acima de tudo.

INOCENTE – E quando chegar o Sr. Abade?

CABO – Então, sim; poderei acompanhar-te lá; e, quando escurecer de todo, iremos para tua casa passar lá a noite, a fim de prendermos o patife do Miguel. Um dos meus camaradas já lá está escondido numa pilha de achas, e nós vamos para o interior da casa.

Foi então que chegaram o abade e a Anica.

– Já veio o médico, Sr. Cabo? – perguntou o abade, ao entrar.

CABO – Está tudo pronto e em ordem, Sr. Abade; a Anica já pode começar a amortalhá-la.

ANICA – Acha que posso fazer isso sozinha? E então nesta cadeia, onde tudo falta e onde se não vê um palmo adiante do nariz!

CABO – Quanto a ver, ó Anica, bastará acender uma vela; agora, para ajudante, vou chamar a mulher do meu camarada Prévot, que lhe prestará auxílio.

E, dizendo isto, saiu, voltando pouco depois na companhia da mulher do Prévot, que felizmente estava nas boas graças de Anica; dirigiram-se ambas para a prisão, onde meteram logo mãos à obra.

– Sr. Cabo – disse o abade -, sente-se aí junto a mim, e falemos de um assunto sério que lhe deve interessar.

CABO – Sinto muito ter de recusar, Sr. Abade, mas prometi ao Inocente acompanhá-lo a ver a irmã, de quem se quer despedir.

ABADE – Ele vê-a amanhã. Deixa-nos falar, Inocente, e podes assistir.

INoCENTE – Não, Sr. Abade, tenho de a beijar esta noite. Se o não fizesse, teria um remorso a abafar- me.

ABADE – Isso é uma criancice! Esqueces que tens dezasseis anos e que estás quase um homem feito.

INOCENTE – Será isso uma razão para esquecer a minha irmã? Cuida então que, por ser um homem, eu deixarei de beijar a minha irmã? O Sr. Cabo prometeu acompanhar-me, porque não quer deixar-me andar sozinho, de noite. Demoro pouco, não se aflija; depois falam à vontade.

ABADE – Então, até amanhã, Cabo, pois vou já para o meu posto, na cadeia, junto ao cadáver da infeliz.

O cabo apertou a mão do abade exprimindo-lhe o desgosto de não poder ficar a fazer-lhe companhia, e lá foi com Inocente. Chegados ao presbitério, o cabo quis ficar à porta e deixar entrar sozinho Inocente, que não tardou a voltar com os olhos vermelhos. Notando isto, perguntou-lhe o amigo:

– Que é que tens, pobre amigo? Choraste?

INOCENTE – Chorei, sim; não pude conter as lágrimas ao dizer adeus à Carolina; pareceu-me que era um adeus para sempre. Sinto-me triste esta noite e muito diferente do habitual; tenho vontade de me despedir dos meus amigos, do Sr. Delmis, do Sr. Abade, até da Anica, que não teria dúvida em beijar. A única consolação para mim é estar na sua companhia, Sr. Cabo – acrescentou, chegando-se bem para ele e apertando- lhe afectuosamente a mão.

CABO – Isso não é nada, meu amigo; é por não estares habituado a viver separado da tua irmã. Estou em dizer como o Sr. Abade: estás quase um homem feito; já não te deves portar como uma criança.

INOCENTE – Vou tentar. farei o que for possível… mas estou a ver que não posso. É como um peso

aqui sobre o coração.

O cabo passou-lhe amigavelmente a mão pela cabeça; Inocente deu-lhe o braço e foram andando

silenciosos. A noite escurecera deveras, e tornara- se tempestuosa; ribombava ao longe o trovão; o vento já sacudia a copa das árvores; o ar era pesado e o calor asfixiante. Sem dar por ela, o cabo fora muito além da prisão, dirigindo- se maquinalmente para a casa de Carolina, com Inocente. Ao ver-se tão perto do alvo, e a escuridão mais cerrada pela tempestade que se estava a formar, facilitando-lhe o acesso à casa sem ser notado, continuou a avançar, chegando pouco depois à porta de que Inocente tinha a chave. Tomando-a das mãos do companheiro, o cabo introduziu-a sem ruído na fechadura e abriu com precaução. O primeiro a entrar foi Inocente, logo seguido do cabo, que tinha de fechar e aferrolhar a porta.

– Fechemos as janelas – disse ele -; se nascer a Lua, vê-se de fora que as janelas estão abertas, o que levantará suspeitas.

INOCENTE – Onde vai o meu Cabo passar a

noite?

CABO – Numa cadeira, meu amigo; não vim para dormir, mas para velar.

INOCENTE – Também fico numa cadeira ao seu

lado; não tenho vontade de dormir.

CABO – Pelo contrário; vais-te deitar, pois não há necessidade de te cansares.

INOCENTE – Pois sim, mas o senhor também não

se deita.

CABO – Já estou acostumado. Demais, eu sou obrigado a velar…

INOCENTE – Pela minha irmã, como eu; pois não sou também irmão dela? Não devo ajudá-lo a velar por ela? E não devo eu estar acordado para contar à Carolina o que o senhor fizer e como se haverá para a captura do Miguel?

CABO – Faz como te aprouver, meu caro; não tenho coragem de opor-me ao que tão vivamente desejas.

INOCENTE – Muito obrigado, meu Cabo; cada

vez noto mais quanto verdadeira é a sua amizade. O senhor deixa-me agir quando é preciso, e faz bem, porque tenho um pressentimento que me diz que vou ser-lhe útil esta noite.

CABO – Meu caro Inocente, tu és-me sempre útil, pois me dás prova de amizade ficando a velar comigo.

INOCENTE – O quê? Liga então importância à

minha amizade?

CABO – Ligo grande importância, meu amigo; eu, que fiquei órfão em pequenino e que nunca encontrei um amigo verdadeiro, que me estimasse a valer, sinto-me muito comovido com a amizade que me testemunhas, meu caro Inocente, apesar de seres ainda muito novo.

Abnegação

Acabando de proferir estas palavras, pronunciadas em voz baixa, como todas as que antes tinham dito, abriu-se diante deles, com precaução, a porta que dava para o lavadouro, entrando de mansinho um homem portador de uma lanterna de furta-fogo, a cuja luz o cabo reconheceu Miguel. Inocente: comprimiu-se contra o cabo, que não se mexeu. Antes de penetrar no interior, e naturalmente para reconhecer o sítio em que se encontrava o móvel que devia encerrar as economias de Carolina, Miguel dirigiu a luz da lanterna para o lado em que estava o cabo. Ao vê-lo, expeliu um grito de raiva e apontou-lhe um revólver, que trazia na mão, antes de este poder atirar-se para o agarrar. Adivinhando a intenção de Miguel, Inocente lançou-se na frente do cabo, defendendo com o seu corpo o peito do amigo. Ouviu-se um tiro e Inocente caiu por terra antes de o

cabo ter tempo de prever e impedir tal movimento.

-Salvei-o! – exclamou o infeliz, na queda. Ó Carolina, eu salvei-lhe a vida!

– Bandido! – gritou, simultaneamente, o cabo, correndo em perseguição de Miguel.

Depressa o alcançou, pois este, aterrorizado, enganou-se no caminho, tendo-se metido pela horta, que estava cercada de uma sebe de espinheiros. Ainda tentou defender-se com uma faca que trazia na

cinta; mas, atordoado com o murro que o cabo lhe vibrou na cabeça, ficou estatelado no chão.

– Socorro, camarada! – exclamou o cabo, segurando Miguel com um joelho que lhe meteu ao peito.

– Socorro! Cordas para amarrar este bandido! Tenho-o seguro!

O camarada nada vira, mas, atraído pelo tiro do revólver, dirigira-se para o quarto e ali se lhe deparara Inocente banhado em sangue, mas sorridente, apesar de ferido.

– Eu salvei-o – disse, com voz estrangulada. Salvei o meu amigo! Ai Como estou contente! Não ouve?… Ele está a chamar! Vá depressa! Não se importe comigo.

O guarda, à luz da lanterna que, na fuga, Miguel deixara cair, tentava erguer Inocente para o deitar na cama, quando ouviu o apelo do cabo. Deitando mansamente no chão o ferido, lá foi na direcção da voz do chefe, entrecortada das maldições de Miguel, que voltara a si do seu desmaio e atordoamento.

Cinco minutos bastaram para o amarrar. ali ficou confiado ao guarda, enquanto o cabo corria em socorro de Inocente. Para deixar entrar a meia-claridade da Lua, que já se destacava das nuvens que a encobriam, lembrou-se de abrir as janelas. Ficou, desta forma, suficientemente iluminado o quarto para poderem ser proporcionados ao ferido os cuidados exigidos pelo seu estado grave. Levantando-o com precaução, a fim de não provocar o derramamento de sangue, pousou-o na cama onde a Sr. a Thibaut exalara o derradeiro suspiro, despiu-lhe o fato ensopado em sangue e vedou-lhe bem a ferida com um lenço. Logo que o sangue deixou de correr, voltou a si Inocente, que perdera os sentidos. Abrindo os olhos, deu com o rosto comovido e consternado do amigo que, inclinado sobre ele, lhe banhava as fontes e a testa com água fria, único recurso encontrado naquela casa durante tanto tempo abandonada.

Cabo… estou contente… vou morrer… em sua defesa… como me sinto feliz! Como gosto do senhor!… – disse ele, com voz ofegante.

– Cala-te, por Deus! Não fales! Qualquer palavra te faz soltar o sangue… Inocente, meu amigo!… Caro amigo! Como foste dedicado. Como foste corajoso!… Mas que fazer por ti? Posso lá deixar- te sozinho?

– Ó Prévot, traz cá o prisioneiro. Amordaça-o, se fizer barulho…

PRÉvOT – Oh! Se faz! Pragueja como um grosseirão.

CABO – Então amordaça-o e trá-lo.

O guarda não o deixou repetir a ordem; amordaçou com um lenço a boca do preso, e arrastou-o para

a sala onde Inocente se encontrava moribundo, velado pelo amigo.

PRÉvOT – Onde devo pô-lo, meu Cabo?

CABO – No chão, como cão que é. Agora vai

num pulo à prisão, conta ao Sr. Abade o que aconteceu e pede-lhe que chegue aqui; em seguida, vai

chamar o médico para dar cá uma saltada a bem ou a

mal. Corre, que eu respondo pelo assassino.

O guarda partiu e o cabo foi examinar as cordas

que prendiam Miguel, apertou-as mais e, com o pé, fê-lo chegar-se à parede do fundo da sala, sem ver

sequer os olhares furibundos que ele lhe lançava.

Voltou a sentar-se junto do leito do seu infeliz amigo, tendo o cuidado de ficar de maneira a não perder de

vista o preso, sem deixar de vigiar o seu desditoso amigo.

– Muito desejava ver o Sr. Abade – disse Inocente.

CABO – Ele não tarda aí, caro amigo; já o mandei chamar.

INOCENTE – Muito obrigado… Quando for dia… queria… ver… a Carolina

CABO – Eu irei pessoalmente buscá-la e trá-la-ei aqui ao pé de ti.

INOCENTE – O senhor… não a abandonará… pois não, Cabo? Servir-lhe-á… de irmão… em meu lugar… nunca a… há-de deixar… pois não? Diga… meu amigo… quer dizer?

CABO (com alma) – Oh!, Nunca, nunca, eu te juro! Só se ela não quiser.

INOCENTE – Ah! Isso… quer… ela… gosta…

muito… do senhor… Bem o notei… ela… sorria… sempre… que eu… lhe… dizia… que o senhor… viria… visitá-la.

CABo – Estás a falar muito, Inocente! Vais fazer sangrar a ferida.

INOCENTE – Não… não… fez-me… bem… dizer… o que disse. Coitada da pobre! Diga-lhe que não chore. que o senhor. a amará muito. que será… como seu irmão… Não se esqueça…

E fechou os olhos. O cabo olhava para ele com enternecimento.

Nunca – disse para consigo-ne senti assim tão comovido, tão perturbado! Por pouco me não punha a chorar como uma criança. Pobre rapaz! Colocar-se daquela maneira entre mim e o tiro que via iminente! Dar a vida para me salvar! Pobre rapaz! Onde encontraria um amigo destes?… E pede- me para não deixar a irmã! Claro que me devo dedicar a ela, para compensar, quanto em mim caiba, a perda que hoje sofre E que piedade a dela! Como é bondosa! Que dedicação pelo irmão! Que ordem no governo da casa, nas despesas!… Que modéstia no trajar!

Cabo… – disse Inocente, despertando -, acabo de ver minha mãe. . está à minha espera… como da outra vez… manda-me dizer-lhe… que o abençoa… que o quer… para filho… e… para… meu irmão… pois vai ser… meu irmão…

CABO – Pois sim, querido Inocente, serei e já sou teu irmão; mas não fales, que te faz mal.

INOCENTE – Não, não… quando tiver… visto… Carolina… já posso… morrer…

Estremecimento do cabo, sorriso de Inocente.

INOCENTE – De que… tem medo?… Estou… tão

contente… por morrer… Não… me sinto mal… Está- se… tão bem… lá em cima!… A mãe… é tão… feliz… e tão bela!… Lá todos… parecem sóis… só o Louro… é sujo… e feio… estão-no… sempre a enxotar… ainda… há pouco… eu ria, tinha um ar… tão irritado!…

E Inocente ainda sorria à lembrança da fealdade e do furor do Louro.

Abriu-se a porta e o pároco entrou todo emocionado.

– Então sempre é verdade, meu pobre amigo!disse, acercando-se do moribundo.

INOCENTE – Pobre, não… feliz, muito… feliz…

Sr. Abade; ora veja… e salvei-o… Que felicidade!… Carolina… já não… fica só… prometeu-mo… o Cabo… Não é verdade, meu irmão?…

CABO – É, sim, meu amigo; e é diante do Sr. Abade que te renovo esta promessa, que fará a minha felicidade, de ser não o irmão, o que é impossível, mas o marido de Carolina, a tua boa, excelente e santa irmã.

INOCENTE – Marido dela!… É verdade… ainda

melhor!… Vai haver uma boda… hei-de assistir… com minha mãe… embora… ninguém… nos veja… Lá estarei. . pela certa… e… hei-de… protegê-los.

– Sr. Cabo – disse o pároco -, quer aproveitar-se da minha estada aqui para ir chamar dois camaradas, que levem daqui o preso? Irei ter com ele à cadeia. Prévot não deve demorar com o médico; eu me encarrego de velar o Inocente.

Saindo precipitadamente, o cabo foi chamar dois guardas e voltou com eles para lhes fazer entrega de Miguel, recomendando-lhes que o vigiassem de perto, não fosse ele escapulir-se.

Atando uma corda ao braço de Miguel, os guardas desprenderam-lhe os pés e, segurando cada um pela extremidade da corda, obrigaram-no a andar, depois de bem amordaçado. Antes de deixar a casa, fartou-se de vomitar injúrias sobre o cabo, sobre o pároco e sobre Inocente, que defendera o cabo, que ele, Miguel, odiava de morte, mas principalmente sobre Rosa, cuja morte ainda ignorava e que supunha tê-lo traído.

CABO – Eis-nos, finalmente, libertos desse monstro, cuja vista me asfixiava. Se já um dia senti ódio contra alguém, foi contra este assassino do meu infeliz Inocente.

ABADE – Meu querido filho, se quiser ser um cristão verdadeiro, tem de perdoar a todos os seus inimigos.

CABO – Perdoar ao assassino do meu irmão e amigo, é, cuido eu, superior às minhas forças.

ABADE – Fá-lo-á, meu amigo, quando tiver sob os olhos o exemplo da inesgotável caridade dessa que há pouco tratou por santa: – Carolina.

CABO – Pois sim, Sr. Abade; queira dizer-lhe que, para me tornar melhor, necessito do seu auxílio.

CABO – Não me esquecerei de lho dizer, meu amigo; suponho, porém, que ela o não acha nada mau, como agora é.

Chegou finalmente o médico, tão ansiosamente esperado. Pegando na mão do ferido, debruçou-se sobre ele para lhe ouvir a respiração e examinar o ferimento.

– A aparência não é má – disse -; tudo depende da profundidade da ferida. Não havendo predisposição mórbida, podemos chegar á uma solução feliz.

ABADE – Por favor, Sr. Dr. Tudoux, dissipe-nos já toda a incerteza, e trate do ferinento do desditoso Inocente.

DR. TUDOUX – Compreendo a impaciência dos amigos. Examinemos a ferida e sigamos o caminho da bala.

Pegou nos instrumentos, sondou a chaga e viu que a bala se entranhara na coluna vertebral, donde não era possível extraí-la. Lançando ao cabo um olhar significativo, disse em voz baixa:

– Está perdido; não passa de hoje. Confesse-o, Sr. Abade, e não lhe recusem nada: fale, ou esteja calado, coma ou beba, é tudo indiferente.

O cabo lançou sobre o pobre Inocente um olhar doloroso; ele estava calmo e sorridente.

DR. TUDOUX – Tu sofres, meu rapaz?

INOCENTE – Alguma coisa, não muito… é só nas costas, ao mover-me…

DR. TUDOUX – Sentes-te tranquilo? Não tens nada que te inquiete ou perturbe?

INOCENTE – Não, senhor… estou até contentíssimo… pois salvei… o meu amigo… cuida… que vou morrer?

DR. TUDOUX – Não posso garantir nada; talvez

ainda te cures.

INOCENTE – Julga isso?… Pois eu… digo- lhe…

que vou… morrer… hoje mesmo… Vi minha mãe…

que mo disse… Disseram-mo… também… os anjos… Estou muito contente… Só queria… ver a Carolina… Já é dia… Cabo, meu irmão… pode-lhe dizer… que venha… quero falar-lhe… e despedir-me dela…

CABO – Ó Sr. Abade, não lhe parece conveniente ir bReve a prevenir e trazer a pobre menina? Eu fico aqui ao lado do meu amigo.

ABADE – Daqui a um bocado; deixemo-la descansar mais uma hora. Preciso de ficar junto deste desditoso moço; tenho que lhe falar. Quer ter a bondade de se afastar, Cabo? O que tenho a dizer-lhe deve ficar só com ele e comigo.

O cabo retirou-se com o médico, que foi acompanhar, a fim de lhe fazer umas perguntas acerca do estado de Inocente. O Dr. Tudoux manteve a afirmação de que o iriam chamar para verificar o óbito antes do fim do dia; que o doente ia brevemente cair num letargo entrecortado de leves convulsões, e que a morte seria rápida e suave.

Morte de Inocente e consolação

O diagnóstico do médico impressionou dolorosamente o cabo. Queria muito a Inocente, sentindo-se profundamente abalado com a afectuosa dedicação do pobre moço. Além disso, temia o efeito do profundo desgosto que o triste acontecimento iria causar em Carolina.

Ela tinha-mo confiado – dizia -; o meu dever

era entregar-lho de boa saúde, como ela mo dera.

Pois vai encontrá-lo agora ferido e moribundo! E

morre por mim, por me ter evitado a morte!

Deixou-se ficar uma boa hora embrenhado nestas

penosas reflexões; andava a passo largo, de um para

o outro lado, diante da casa em que o seu amigo

recebia as últimas consolações do abade; limpava, de

vez em quando, os olhos húmidos, sorrindo depois à

esperança de ser admitido a consolar e a proteger

Carolina no tempo que lhe restava de vida. Ouvindo

o abade chamá-lo, entrou no quarto, ficando assustado com a contracção das feições de Inocente, já bem

próximo do fim.

– São horas – disse o abade. – Vou buscar a

nossa desditosa Carolina. Fique a velar; ele tem a

alma pura, e parece ter recuperado a lucidez.

O cabo sentou-se à beira do seu amigo, que lhe

estendeu a mão, sorrindo.

– Caro amigo – disse o moribundo – estou melhor… já não tenho… tanta falta de ar; operou-se na minha cabeça não sei o quê, que me faz sentir feliz de morrer pelo senhor; parece que, assim, retribuo à Carolina tudo o que ela fez por mim… a ideia de a deixar entregue ao meu amigo, ameniza a separação… que não durará muito… pois lá vos aguardo no Céu, ao lado da mãe, que está à minha espera… Fique aí junto de mim, caro amigo… não me deixe só… não suporto a ideia de ficar sozinho… isto está para breve.

O cabo pegou nas mãos que lhe estendia Inocente e apertou-as nas suas. Tinha decorrido uma escassa meia hora sobre a saída do abade, quando a porta voltou a abrir-se, por ela entrando precipitadamente Carolina, pálida, lavada em lágrimas. Ajoelhando junto ao leIto mortuário do irmão, envolveu-o nos seus braços trémulos. Os soluços não lhe deixavam articular palavra. Retribuindo-lhe os beijos, o irmão disse-lhe, sorrindo:

– Não chores, Carolina; estou satisfeito, sinto-me feliz. Bem sabes que eu tinha vontade de morrer. Vou para junto da mãezinha. Mas não te deixo só; dou-te um irmão e amigo do meu coração… Peço-te, querida irmãzinha: casa com ele, correspondendo assim aos seus melhores desejos. Prometes, Carolina? Diga-lhe, meu amigo… ó Carolina, eu vou morrer; diz-me que sim.

O cabo aproximara-se de Carolina, que, por única resposta, lhe estendeu uma das mãos, que a outra retinha- a Inocente nas suas.

Carolina – disse, comovido o cabo – juro ao meu querido amigo moribundo que consagrarei a minha vida a fazer da sua felicidade a minha ocupação primacial.

– Tu não respondes, Carolina? – tornou Inocente, inquieto. – Ora diz: não o amas, não queres

ser a mulher dele?

– Sim, amo-o e serei a sua mulher – respondeu

ela, com voz quase inaudível.

– Obrigado, irmãzinha, muito obrigado… adeus, querida irmã… dá-me a tua bênção… Adeus, meu

irmão… Sr. Abade… . onde está ele?… Já não vejo

bem.

– Aqui, ao teu lado, meu filho – respondeu

o pároco, que acompanhara Carolina e que estava a

preparar os santos óleos para a cerimónia da Santa-Unção.

Inocente parecia ter adquirido o estado de plena

consciência de que sempre estivera privado; deu provas dos melhores sentimentos religiosos, continuou a

consolar Carolina e o cabo, e pediu para ver o

Sr. Delmis, desejo que o cabo se apressou a satisfazer. Ao notificar o presidente do terrível acontecimento da noite e o desejo da vítima, o Sr. Delmis

acompanhou imediatamente o cabo, vindo encontrar

o desditoso Inocente ainda com vida, mas de respiração cada vez mais apressada, de fala mais lenta, de

voz mais fraca. Reconheceu logo o Sr. Delmis, ao

qual disse:

– Muito… lhe agradeço… a sua… vinda… Gostava muito… do senhor… Fiz-lhe… muitas vezes…

perder… a paciência… Perdoe-me… Peça… à senhora… que me perdoe… dê-me… a sua mão… em sinal…

de perdão.

Muito comovido para poder responder, o

Sr. Delmis estendeu-lhe a mão, sem proferir palavra;

o moribundo levou-a aos lábios, beijando-a muitas

vezes; tomou seguidamente as de Carolina e do cabo, que juntou nas suas, beijando-as igualmente.

– Agora… estou pronto… disse com voz arquejante. – Meu Deus!… Cheguem-me aos lábios… o crucifixo da mãe. Assim. Adeus. até à vista. Carolina… meu irmão… Sr. Abade… Sr. Delmis… Jesus!… Senhor!… Virgem Santíssima!… Lá vou… minha mãe… lá vou…

Exalando um suspiro, Inocente estreitou convulsivamente o crucifixo de encontro ao coração e entregou a Deus a sua alma pura… Estavam todos ajoelhados junto ao leito do agonizante; decorreram uns minutos durante os quais só se ouviam os soluços de Carolina e as orações do pároco, ao qual se juntaram o Sr. Delmis e o cabo. O pároco ergueu-se, olhou, enternecido, para o rosto suave e calmo do defunto, lançou a este corpo sem vida a derradeira bênção, e, levantando Carolina, confiou-a ao protector que lhe legara o seu tão amado irmão. Ela não resistiu ao movimento do pároco e, depois de um último beijo e de um derradeiro olhar para o pobre Inocente, caiu, semidesfalecida, nos braços do futuro marido.

– Sr. Abade – perguntou o cabo com voz concentrada- que fazer desta pobre menina? Não posso levá-la comigo e, todavia, aqui é que ela não pode ficar.

– Aproveite o desmaio para a levar até ao jardim, a tomar ar – respondeu o pároco -; depois de estar melhor irá para a minha casa.

CABO – Obrigado, mil vezes obrigado, Sr. Abade! Onde pode ela estar melhor do que na sua casa? O que V. Rev. a faz por ela, é a mim que o faz, e a minha gratidão há-de ser eterna.

ABADE – O seu reconhecimento ser-me-á provado se a fizer feliz e se amar bem a Deus, meu amigo.

CABO – Pois, tem a minha palavra de soldado, Sr. Abade.

O cabo levou Carolina, que estava inteiramente desmaiada, sentou-a no relvado do jardim e humedeceu-lhe a testa e as fontes, com água fresca. Voltando a si, deu novamente curso às lágrimas, lágrimas doces e consoladoras, pois nada houvera de amargo e cruel na morte do irmão; queria morrer e morria feliz por ter dado a sua vida pela do amigo, deixando a irmã entregue a um homem bom e honrado, cujo coração dedicado e amante substituiria o que lhe era arrancado.

O cabo consolou-a suave e afectuosamente; contou- lhe certos pormenores que ela desconhecia, o

ferimento e a generosa dedicação do irmão; falou-lhe do futuro, do paternal oferecimento do bom pároco, terminando por renovar-lhe a promessa de se consagrar inteiramente à felicidade dela. Conseguiu acalmar a primeira violência da sua dor; a alma doce e terna de Carolina recebeu facilmente os carinhos do seu bom amigo, depressa se encontrando em condições de andar, apoiada ao braço do cabo.

CAROLINA – Deixe-me dizer o derradeiro adeus a meu irmão, pois será um grande alívio para a minha dor.

CABO – Querida Carolina, receio que a comoção volte a mergulhá-la no estado de que acaba de sair.

CAROLINA – Nada receie; já passou o primeiro abalo; parece que a bela alma do meu irmãozinho está ao lado da minha a conformar- me; ele há-de alcançar-me de Deus a necessária coragem para suportar a separação. Confie em mim, meu amigo; pois não estou habituada à resignação?

CABO – Venha, então, minha querida; vamos beijar, pela última vez, o nosso irmão.

O cabo conduziu-a ao quarto, onde o abade orava pela alma que voltara ao seio de Deus. O Sr. Delmis tinha deixado a casa. Carolina avançou para a cama, a passo firme, debruçou-se sobre o rosto risonho do irmão, depôs- lhe na fronte e nas faces descoloridas beijos muito ternos, orou uns momentos ajoelhada aos pés dele, e levantou-se quando o cabo já começava a inquietar-se com a sua imobilidade.

– Vamos – disse ela, com o semblante banhado em lágrimas, porém calma e resignada. – Sr. Abade, estou pronta a acompanhá-lo; diga-me apenas quem ficará junto de meu irmão.

– Eu – respondeu o cabo.

– Vai ser a Anica, que já está habituada – disse o pároco. – Se houver precisão do seu auxilio, chamá-lo-ão, Sr. Cabo.

O cabo acompanhou o pároco e Carolina até à porta; ficou a segui-los com a vista; e voltou para junto do amigo, que beijou na face.

Adeus, querido amigo e irmão – disse, contemplando-o. – Quiseste-me muito durante a vida, e manifestaste-me a tua afeição mais ainda na morte, visto que, depois de te haveres sacrificado para me salvar, ainda me deixaste, como herança, esse tesouro de bondade, de sabedoria e de piedade, que é a tua irmã. Querido irmão, alcança-me também essas virtudes, que a tornam tão querida, para que eu possa merecer a sua estima e a sua ternura. Adeus, pobre amigo. Vela por nós e reza por ambos.

Tendo assim orado, o cabo sentiu renascer-lhe na alma uma extraordinária calma; rezou suavemente e sem amargura. Anica não tardou a chegar.

– Mais um cadáver para amortalhar! – resmungou à entrada. – Porque o deixou matar? Não podia defender esta pobre criança?

CABO – Deus assim o quis. Se dependesse de mim, teria recebido de muito bom grado a bala que o

vitimou a ele.

ANICA – Mas, para que foi que o levou consigo? É de pessoa ajuizada? Levar uma criança à cata de um bandido, de um assassino!

CABO – Ele é que quis vir; não me largava; gostava muito de mim.

ANICA – Linda desculpa! Um guarda fazer a vontade a uma criança! Tem que se lhe diga, na

verdade!

CABo – Vamos a saber: foi para me censurar que a Anica aqui veio, ou para me ajudar a prestar os últimos serviços ao infeliz Inocente?

ANICA – Para o ajudar? O senhor percebe lá alguma coisa disto? Só servia para me atrapalhar. Chegue- me o que é preciso, ande.

CABO – Então, que é preciso? Responda, se quiser que lhe chegue alguma coisa – disse o cabo, já impaciente.

ANICA – É só isto que o senhor sabe? Bem, deixe-me arranjar sozinha, para acabar mais depressa. Estes senhores guardas servem só para prender a gente.

– Diabos a levem, velha resmungona – exclamou o cabo, já sem paciência. – Faça lá o que entender e chame por mim, quando tiver acabado.

– Espere lá por isso, seu guarda de má morte resmoneou entre dentes a Anica, irritada com as palavras do cabo.

E ao vê-lo sair, prosseguiu, sem deixar de preparar o que era preciso:

Então é de quem tem juízo? Um homem de trinta anos deixar matar em seu lugar uma criança! Pobre Inocente! Fazê-lo caminhar para a morte, como se ele fosse guarda. Isto é gente sem coração! E essa infeliz Carolina! Bonita situação a dela! Sem irmão, sem ninguém! Se o cabo raciocinasse um pouco, dava-lhe todos os seus bens… E é que o Sr. Abade é muito capaz de a deixar ficar lá em casa! Que lindo encargo para mim! Como se não me bastasse já o Sr. Abade, que não quer saber de nada, e a Pelágia, que não sabe senão rezar. Orar é bom, não digo que não; mas é lá de vez em quando! Sempre que eu não estou, ela cozinha, e bem, não há que ver, faz a barrela, ensaboa, passaja e remenda. Lá de costura sabe ela a valer! ainda ela que faz as batinas e a roupa branca do Sr. Abade, como poucos sabem fazer. O vestido que ela me fez há pouco, também não ficou nada mal. Mas que é isso tudo em comparação com o que eu tenho a fazer?

Assim resmungando, Anica foi concluindo a mortalha do infeliz do Inocente. Colocou-o depois no leito coberto de lençóis brancos, acendeu duas velas que trouxera consigo, pôs nas mãos do finado o crucifixo que lhe descansava sobre o peito, e sentou-se numa poltrona à espera de duas vizinhas a quem, à passagem, dissera para irem também velar o cadáver. Estas não tardaram a chegar; e depois de umas bisbilhotices e de umas considerações banais, tiraram das algibeiras dos aventais as provisões de café, açúcar, aguardente e pão que julgaram precisas para durante a noite.

Sempre a passear de um para outro lado do jardim, achava o cabo que a Anica demorava muito na sua fúnebre ocupação; já cansado de esperar, penetrou no interior da casa. Qual não foi a sua surpresa ao ver as três mulheres repoltreadas cada uma na sua cadeira, a comentar sossegadamente os recentes acontecimentos!

– É assim que me previne, Anica? – disse em tom descontente.

ANICA – Visto sermos já três, não vejo que o

senhor seja preciso.

O cabo encolheu os ombros e acercou-se do amigo, envolto na mortalha; dobrou o joelho, recitou uma oração por sua alma e saiu sem uma palavra, direito à prisão, para ver o que se passava.

Conforme as ordens que dera, tinham ido chamar o juiz de paz, a fim de proceder ao inquérito sobre o duplo assassínio cometido por Miguel; aguardava-se a chegada do magistrado incumbido de instruir o processo e ordem de transferir o criminoso para a sede da comarca.

Seguiu-se, a rigor, o estatuído pela legislação. Miguel foi interrogado; confirmaram-se os dois assassínios, e lá foi o criminoso, bem amarrado. Depressa se realizou o julgamento. O assassino foi condenado.

Enterro e casamento

As formalidades requeridas para a verificação do crime e do óbito tomaram ao cabo todo o dia. Quando se viu livre, dirigiu-se para o presbitério a colher notícias de Carolina; encontrou-a triste, não ocultando, de vez em quando, uma lágrima furtiva, que se lhe soltava, não obstante toda a sua coragem e resignação. Recebeu-o com um sorriso, esperando que ele tomasse a iniciativa de retomar a conversa da manhã

no ponto em que a deixara, desejosa de obter ainda mais esclarecimentos sobre os pressentimentos do irmão e sobre as visões que tivera da mãe e dos anjos; sorriu à lembrança do Louro e do medo que o desditoso moço manifestava pelos maus intentos do papagaio. O cabo informou-se delicadamente do dia e da hora do enterro, prometendo organizar ele mesmo o préstito fúnebre. Chegava nessa altura o pároco, que aproveitou o ensejo para falar ao cabo na conveniência, ou melhor, na necessidade de apressar o casamento, tratando, logo a seguir ao funeral, da publicação dos proclamas e demais formalidades exigidas. O cabo voltou-se para Carolina, como a interrogá-la sobre a sua vontade.

– Cá de mim farei o que o Sr. Abade me aconselhar – disse ela, como em resposta ao gesto do noivo.

ABADE – Muito bem, minha filha; é uma resposta bem de harmonia com a sua habitual sensatez e doçura; eu e o cabo vamos tratar do assunto.

CAROLINA – Desejo apenas que tudo se faça sem ostentação nem ruído, só em família, de harmonia com o luto dos nossos corações.

CABO – Assim penso também, Carolina. Só o nosso pobre irmão é que estará presente ao acto, como o afirmou antes de morrer.

Carolina chorou, mas sorria pouco depois. Foi entre lágrimas e sorrisos que passou o dia seguinte, como aliás, o anterior.

Realizou-se o enterro. O caixão era acompanhado por enorme multidão, pois fora grande, na cidade, a impressão causada pela morte de Inocente, vítima da sua dedicação, todos querendo prestar-lhe a homenagem da sua admiração e respeito. À frente, seguiam o cabo e o Sr. Delmis. Escondida num cantinho da igreja, Carolina orava, debulhada em lágriimas; sentia-se porém, consolada e fortalecida, como

se a alma do irmão se tivesse fundido na sua. Ao

levarem o caixão da igreja para o cemitério, Carolina

seguiu-o a distância e, caindo de joelhos junto a uma

árvore que inteiramente a ocultava, derramou muitas

lágrimas à lembrança da longa separação que Deus

lhe impunha. Sempre submissa e calma, não deixou

de agradecer a Deus o ter acolhido o irmão na bem-aventurança, furtando-o a maiores e mais longos sofrimentos.

Enquanto orava, chorosa, sentiu que a levantavam suavemente: era o abade com o cabo, que a viram, de regresso do cemitério, tendo vindo arrancá-la à sua dor. O cabo ainda trazia os olhos humedecidos; levantou a noiva sem dizer palavra e, dando-lhe o braço, conduziu-a à morada provisória que lhe cedera a caridade do bom pároco.

Decorreram calmos os quinze dias que precederam o casamento; a velha Anica nem já se atrevia a ralhar, com medo do cabo, que lhe havia soltado um hem! terrível, de uma vez que ela se lembrou de começar a dizer quaisquer palavras contra Carolina.

O dia do casamento foi tão calmo como os anteriores. Os padrinhos de Carolina foram o Sr. Delmis e

um dos seus amigos; os do cabo, dois camaradas.

Após a cerimónia, houve em casa do abade um almoço para os recém-casados e para os padrinhos.

Seguidamente, separaram-se todos. Os noivos foram ao túmulo de Inocente fazer a sua visita de

núpcias. Enquanto Carolina, ajoelhada junto do marido, rogava ao irmão que lhes abençoasse a união, ambos sentiram encherem-se-lhes os corações de

uma calma deveras extraordinária. Comunicaram tal

facto um ao outro.

– É a intercessão do nosso irmão – disse Carolina, apertando a mão do marido.

– Tinha prometido velar por nós – respondeu o cabo com a mão da esposa entre as suas.

O cabo levou para sua casa Carolina, que logo começou a pôr o lar em ordem. Depois de terem passado aí alguns dias, resolveram deixar aquela residência triste e apertada, indo instalar-se na casa de Carolina.

– Terei lá dulcíssimas recordações, meu querido

– disse ao marido -, recordações nada tristes, pois lá morreram os meus entes queridos, como bons cristãos que sempre foram.

Carolina voltou ao ofício de costureira; longe de lhe faltar, o trabalho tornou-se tão abundante, que se viu obrigada a tomar, primeiro, uma, depois, duas e, por fim, muitas ajudantes. O seu lar prosperava em todos os sentidos; Deus abençoou a bondade e a ternura de ambos, concedendo- lhes muitos filhos, os quais, educados cristamente por pais cristãos, fizeram a alegria e o orgulho destes.

O Sr. Delmis continuou sempre a testemunhar a Carolina e ao marido a mesma amizade, visitando-os amiúde depois de acabado o trabalho do dia. A Sr. a Delmis, essa é que nunca perdoou a Carolina o tê-la deixado, depois de iniciada nos segredos do seu toucador; quanto aos pequenos, esses depressa esqueceram Inocente e a irmã, embora ficassem muito impressionados com a morte do primeiro.

Não levou muito tempo que a Sr. a Delmis se não zangasse com as amigas, as Sr.aas Grébu, Ledoux e Piron; diziam mal umas das outras sempre que podiam, e descompunham-se quando se encontravam.

Rosa foi enterrada sem formalidades no canto mais afastado do cemitério; só o abade e o cabo é que lhe foram deitar água benta na cova.

O abade viveu muitos anos ainda, sendo ele quem baptizou e casou os filhos de Carolina; o génio cada vez mais avinagrado de Anica levou-o a despedi-la; lá foi, a ralhar e a lastimar-se, viver de uma tençazinha que lhe dava o bom prior. Pelágia chamou a si o serviço da casa, após a saída de Anica; metia, às vezes, mulheres a dias. Tudo começou a correr melhor e, sobretudo, com mais calma do que dantes. Pelágia consagrou a vida ao serviço do tio, a quem sobreviveu poucos meses.

Na cidade de… vive ainda a memória de Inocente e da sua dedicação. Sobre a campa encontra-se uma cruz de pedra com uma inscrição, em que se lêem o nome, a idade e o ano do falecimento dele. Sem querer revelar-lhe o nome, diremos, todavia, que fica na Normandia, a algumas léguas de Verneuil.

FIM

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