Written on Janeiro 26th, 2012 at 9:13 am by

Num desses tristes dias de Inverno, em que o nevoeiro, amarelado e espesso, invade a tal ponto as ruas de Londres, que é preciso conservar acesos os focos eléctricos e as lâmpadas dos estabelecimentos como durante a noite, uma carruagem avançava lentamente através das espaçosas ruas da grande cidade, transportando uma pequenita, muito aconchegada ao pai.

Sentada à turca, com os pés sob o corpo, os seus olhos, profundos e sonhadores, iam contemplando quem passava.

Causava impressão aquele olhár numa criança, como ela era ainda, visto que Sara Crewe tinha apenas sete anos. Mas, apesar de tão pouca idade, a vivacidade do seu pensamento era invulgar; sonhava, imagináva coisas extraordinárias, e a sua cabecinha estava cheia de interrogações que fazia a si própria, acerca das pessoas crescidas e do vasto mundo que era seu domínio.

No momento em que começa a presente história, recordava ela a viágem que acabava de fazer, desde Bombaim até Londres, com o pai, o capitão Crewe. Revia o grande navio, os hindus que iam e vinham silenciosamente, as crianças que brincavam na ponte e algumas senhoras, ainda novas, mulheres de oficiais, que haviam procurado fazê-la falar e que se tinham divertido muito com as suas respostas inesperadas.

Mas, o que Lhe parecia ainda bem mais extraordinário, era pensar que, depois de ter vivido sob o sol escaldante das Índias e, em seguida, num grande navio, em pleno oceano, se encontrava, agora, naquela carruagem desconhecida, que a levava através de ruas onde o dia era tão escuro como a noite. Isto parecia-lhe um prodígio e, instintivamente, chegava-se ainda mais para o pai.

– Papá – disse ela, com a sua vozita misteriosa. – Papá!

– Que é, filhinha? – respondeu o capitão Crewe, olhando carinhosamente para a pequenita, ao mesmo tempo que a aconchegava mais a si. – Em que pensa a minha Sarinha?

– É aqui o “lugar”? Já chegámos – murmurou Sara, aproximando-se cada vez mais dele.

– Já, minha filha. Chegámos finalmente.

Pequenina como era, Sara sentiu perfeitamente toda a tristeza que palpitava na voz do pai.

Parecia-lhe que havia já muito, muitos anos, que ele começara a falar-lhe no “lugar, “, como ela dizia sempre. Não conhecera a mãe, que morrera quando ela tinha nascido, de forma que nunca sentira a sua falta. O pai, só por si, parecia-lhe ser toda a sua família – aquele papá tão novo, tão belo, que a animava quanto podia. Gostavam muito um do outro e brincavam constantemente os dois. Sara sabia que era rico, porque algumas pessoas, julgando que ela não compreendia, tinham-no dito na sua presença, acrescentando que, quando fosse crescida, seria, também, rica.

Vivera sempre num magnífico bungalo”v (1), onde numerosos criados a saudavam respeitosamente, chamando-lhe “senhora” e deixando-lhe fazer tudo o que ela queria.

Tivera todos os brinquedos possíveis, animais de toda a espécie, uma ayah (2) que a adorava, e compreendera, pouco a pouco, que ser rica era possuir tudo aquilo. A palavra riqueza não evocava nada mais para ela.

Durante a sua curta existência apenas uma ligeira nuvem toldara o seu belo céu; era a ideia do “lugar” para onde o pai a levaria um dia.

O clima da Índia é mau para as crianças e, em geral, mandam-nas, o mais cedo possivel, para Inglaterra, quase sempre para um colégio.

Sara tinha visto partir outras crianças e ouvira falar nas cartas que elas escreviam aos pais, lá de muito longe. Sabia que também havia de partir um dia e, embora algumas vezes se sentisse entusiasmada com as descrições que o pai costumava fazer-lhe da longa viagem no vapor e do país para onde a levaria, o seu coração sofria com a ideia de que tinha de separar-se dele.

– E o papá não pode vir para o colégio comigo?

– perguntara, quando tinha cinco anos. – Eu ajudava-o a estudar as suas lições.

– Mas tu não vais ficar muito tempo separada de mim, Sarinha – respondia ele sempre. – Irás para uma casa muito bonita, onde encontrarás outras meninas e brincarás com elas. Mandar-te-ei livros bonitos e tu crescerás tão depressa, que te parecerá que passou apenas um ano quando te vires tão crescida e tão sábia, que já possas voltar, para tomar conta do teu papá:

(n) Casa do campo. (n) Ama.

Esta ideia agradava-Lhe imenso. Governar a casa do pai, montar a cavalo com ele, presidir à mesa quando dessem grandes jantares, conversarem os dois, ler os seus livros, era, para ela, a vida que sonhava. E se, para o merecer, fosse preciso ir-se embora, para esse “lugar”, lá longe, na Inglaterra, muito bem: partiria. A promessa de encontrar outras meninas deixava-a indiferente. Os livros consolá-la-iam bem mais que as tais meninas. Preferia os livros a tudo o mais e passava o tempo a inventar belas histórias que contava a si própria. Às vezes, contava-as também ao pai, que as achava muito bonitas.

– Então, papá – disse ela, com doçura -, se já chegámos, temos de nos resignar.

Esta frase, tão estranha na boca de uma criança, fez rir o capitão Crewe, que beijou a filha. No fundo, embora procurasse cuidadosamente dissimular o seu desgosto, o capitão não se conformava com a separação. A sua Sarinha, tão original, tinha sido para ele uma verdadeira companheira e sentia, de antemão, a sensação de isolamento que experimentaria quando, de regresso à Índia, entrasse em casa e não encontrasse a sua figurinha gentil, vestida de branco, para o receber, como dantes. Ao pensar isto, apertou-a mais e mais contra si, enquanto a carruagem chegava à praça silenciosa, onde se erguia o edifício que marcava o fim da viagem.

Em uma grande casa cinzenta, exactamente semelhante a todas as outras casas construidas do mesmo lado, tendo apenas, como nota particular, sobre a porta de entrada, uma reluzente placa de cobre, onde, em letras pretas, estava gravada a seguinte inscrição: MISS MINCHIN, COLÉGIO DE MENinAS.

– Eis-nos chegados, Saradisse o capitão, o mais alegremente que pôde.

Ajudou-a a descer do carro; em seguida, subiram os degraus de pedra e ele tocou a campainha.

Muitas vezes, durante os tempos que se seguiram, Sara devia ter dito, de si para si, que a casa era parecida com a sua proprietária. Tinha um ar respeitável e estava convenientemente arranjada, mas a habitação era feia e o mobiliário de um aspecto agressivo; as próprias poltronas pareciam estofadas com pedras. No vestibulo tudo era austero, tudo parecia frio à força de reluzir, mesmo as faces rubicundas da lua- cheia que servia de mostrador ao grande relógio. O salão, onde introduziram o capitão e a filha, tinha um tapete com desenho geométrico e severo; as cadeiras eram todas em ângulos, e um maciço relógio de mármore esmagava com o seu peso o tampo do fogão, que era de mármore também.

Sentada numa cadeira de acaju, de costas rígidas, Sara observava, com olhar penetrante, tudo que a cercava.

– Nada disto me agrada muito, papá – suspirou ela. – Mas estou convencida de que os soldados, mesmo os mais valentes, não gostam de ir para a guerra…

O capitão Crewe pôs-se a rir. Era novo, alegre, e nunca se cansava das reflexões espontâneas da filha.

– Minha querida Saradisse ele. – Que vai ser de mim, quando não tiver mais ninguém para me falar com tanto juízo? Porque ninguém é tão ajuizado como tu.

– Mas porque é que as coisas ajuizadas que eu digo o fazem rir? – perguntou Sara.

-Porque tu és muito engraçada quando as dizes – respondeu ele, continuando a rir.

E, de repente, pegou-Lhe ao colo e beijou-a muito, ao mesmo tempo que deixava de rir e os seus olhos brilhavam como se estivessem cheios de lágrimas.

Nesse mesmo instante, Miss Minchin entrou. E logo Sara achou que ela era parecida com a casa: grande, fria, respeitável e feia. Tinha uns grandes olhos, tão expressivos como os de uma carpa e, nos lábios um sorriso de comando.

Este sorriso acentuou-se mais quando Miss Minchin viu o capitão e Sara. A senhora que a tinha posto em comunicação com o capitão Crewe contara-lhe várias coisas interessantes acerca dele e, entre elas, que era muito rico e estava disposto a gastar imenso dinheiro com a filha.

– É uma honra para mim ser encarregada da educação de uma tão linda criança, que logo se vê ser muito inteligente – disse ela, pegando na mão de Sara e acariciando-a entre as suas. – Lady Meredith falou-me da sua notável precocidade. Uma criança inteligente é um verdadeiro tesouro numa casa como a minha.

Sara ficou imóvel, com os olhos fixos em Miss Minchin. Como sempre, atravessavam-lhe o cérebro mil pensamentos diferentes.

“Porque diz ela que eu sou bonita? – pensava a pequenita. – Eu não sou bonita. A neta do coronel Grange, a Isabel, é que é bonita: tem as faces cor-de-rosa, com duas covinhas, e cabelos loiros, compridos. Eu tenho cabelos pretos, curtos, olhos verdes, e, para mais, sou magra e a minha pele não é branca. Sou uma das crianças mais feias que tenho visto. Miss Minchin começa por mentir. ”

Sara enganava-se, quando imaginava ser feia. Não se parecia, certamente, com Isabel Grange, mas tinha um encanto estranho muito pessoal. Delgadinha e leve, alta para a sua idade, possuía uma fisionomia profundamente expressiva e cheia de vivacidade. Os seus cabelos eram negros, espessos e encaracolados nas pontas; os olhos, de um cinzento-esverdeado, eram admiráveis, com longas pestanas negras, cuja cor desagradava talvez a Sara, mas que muita gente apreciava. Apesar de tudo isto, estava convencidíssima da sua fealdade, e os elogios de Miss Minchin não produziram o efeito desejado…

Se eu dissesse que ela é bonita, mentiria, e eu teria a certeza disso – pensava a pequenita. – Creio mesmo que sou tão feia no meu género como ela o é no seu. Porque mentiu?”

Sara devia ter, mais tarde, a resposta a esta interrogação, ao descobrir que Miss Minshin repetia exactamente a mesma frase a todos os pais que lhe confiavam as filhas.

De pé, ao lado do pai, Sara ouvia-o cunversar com miss ninchin. As duas filhas de lady neredith haviam sido educadas naquele colégio, e o capitão Crewe decidira-se em virtude das boas informações recebidas. Internaria ali a filha, mas em condições especiais: queria que tivesse um quarto, e uma sala só para ela, uma carruagem, um poney e uma criada para substituir a ayah que cuidava dela na Índia.

– Quanto à sua instrução, estou tranquilo – disse o capitão Crewe, sorrindo. -A grande dificuldade estará em impedir que aprenda demasiado depressa e tudo ao mesmo tempo. Passa a vida curvada sobre os livros. Não os lê, devora-os: é uma lobazinha! A sua fome de leitura reclama, sem cessar, novos livros e são livros para pessoas adultas que ela prefere, livros franceses ou alemães, tanto como ingleses, história, biografias, poesias, que sei eu! Tire-lhe esses livros, Miss Minchin, quando ela ler de mais! É preciso que passeie no parque, montada no ponney ou, então, que vá comprar uma boneca nova. Gostava de a ver brincar mais vezes com bonecas.

– Papá – observou Sara -, se eu for comprar uma boneca de dois em dois ou de trés em três dias, acabo por ter tantas, que não posso gostar de todas quanto devo. As bonecas devem ser como

verdadeiras amiguinhas. Emily será a minha amiga.

O capitão olhou para miss Minchin e miss Minchin olhou para o capitão.

– Quem é Emily – perguntou ela.

– Explica tu quem é, Saradisse o pai.

Os seus olhos cinzento-esverdeados tinham uma expressão doce e grave, quando respondeu:

– É uma boneca que eu ainda não tenho, uma boneca que o papá me vai comprar. Iremos escolhê-la os dois. Chamar-se-á Emily. Será a minha amiga, quando u papá se for embora; e é para lhe falar dele que eu a quero.

O sorriso parado de miss Minchin teve, novamente, uma expressão admirativa.

– Que espírito tão original – disse ela. – Oh que deliciosa criança.

– Sim — disse o capitão, apertando a filha contra o peito. – É o meu tesouro. Terá muito cuidado com ela, não é verdade, Miss nIinchin?

Sara não se separou do pai enquanto ele esteve em Londres. Saíram juntos, correram as lojas, com praram inúmeras coisas, muitas mais, certamente, do que precisavam; mas o capitão, novo e inexperiente, queria que a filha tivesse tudo quanto achava bonito e, também, tudo o que lhe agradava a ele, de maneira que, entre os dois, compraram um enxoval muitíssimo mais luxuoso do que era próprio para uma menina de sete anos. Tinha vestidos de veludo, guarnecidos a pele, vestidos de rendas e outros todos bordados; chapéus com soberbas penas de avestruz, casacos e golas de arminho, caixas cheias de luvas, de lenços, de meias de seda, e tudo isto em tal quantidade que, nos estabelecimentos, as empregadas diziam umas às outras, em voz baixa, indicando a pequenita de grandes olhos profundos:

-Deve ser uma princesa estrangeira, talvez a filha de algum rajá da Índia.

E, finalmente, compraram Emily; mas foi preciso ir a muitas lojas de brinquedos e verem muitas bonecas, antes de a descobrir.

-Eu queria que ela não se parecesse com uma boneca – explicou Sara. – Que ela tivesse o ar de me escutar, quando eu lhe falasse. O que é mais aborrecido, com as bonecas, é que elas nunca dão a ideia de ouvirem o que lhes dizemos.

Mostraram-lhe bonecas grandes e pequenas; bonecas com os olhos pretos e olhos azuis, caracóis escuros e longos cabelos doirados; bonecas vestidas e outras por vestir.

– O papá compreende – dizia Sara -, se a compro sem vestidos, levá- la-emos a casa de uma costureira que lhe fará tudo por medida. Os vestidos ficam sempre melhor quando são provados.

Depois de muito procurar, decidiram os dois ir a pé para verem melhor as montras, enquanto a carruagem os seguia lentamente. Haviam já passado dois ou três estabelecimentos, sem entrar, quando, ao aproximar- se de uma loja de aparência modesta, Sara estremeceu e apertou o braço do pai.

– Ó papá – exclamou ela -, aqui está Emily!

A sua carita tornara- se muito rosada e os seus grandes olhos acinzentados tiveram a mesma expressão de felicidade que teriam se houvesse reconhecido uma amiga muito querida.

– Ela está à nossa espera – continuou a pequenita. – Entremos depressa.

– Ó meu Deus – disse o capitão, alegremente

– Quem nos apresentará a Sua Alteza?

– O papá apresenta-me a mim, e eu apresento o papá – disse Sara. – Mas eu reconheci-a logo à primeira vista, e talvez ela me tivesse reconhecido também.

A boneca tinha, realmente, um lindo olhar. Era de bom tamanho, transportava-se com facilidade. Possuia uma soberba cabeleira castanho-doirada, toda encaracolada, grandes olhos azuis e pestanas espessas, mas pestanas verdadeiras e não apenas um simples traço de pincel sobre as pálpebras de porcelana.

– Não há dúvida, papá – disse Sara, que olhava para a boneca, face a face. – Não há dúvida de que é a Emily!

Emily foi, pois, comprada e, em seguida, levada a uma casa de modas para crianças, onde encomen daram para ela um guarda-roupa tão sumptuoso como o de Sara: vestidos de veludo e de musselina bordada, roupa guarnecida de rendas, luvas, peles e meias de seda.

– Quero que ela seja amimada – dizia Sara – porque eu sou sua mãe, ao mesmo tempo que ela é a minha amiguinha.

Todas estas compras teriam divertido muito o capitão se não fosse o triste pensamento que o preocupava cada dia mais: não tardaria a ter de separar-se da sua querida companheirazinha, a quem tão carinhosamente amava.

Uma vez, levantou-se a meio da noite e foi, docemente, contemplar Sara, que dormia com a boneca nos braços. Os seus cabelos negros e os cabelos doirados de Emily misturavam-se sobre a almofada; ambas possuiam lindas camisas de dormir, enfeitadas com renda, e admiráveis pestanas que Lhes ensombravam as faces mimosas. Emily tinha de tal forma o ar de uma verdadeira criança, que o capitão se sentia feliz de a ver ali, e suspirou profundamente.

“Ó, minha Sarinha – pensava ele -, nem tu imaginas, com certeza, a que ponto o teu papá vai sentir a tua falta!”

No dia seguinte, Sara foi, definitivamente, confiada a Miss Minchin.

O paquete para a Índia partia no outro dia de manhã. O capitão Crewe explicou a miss Minchin que os Srs. Barrow e Skipworth, que o representavam em Inglaterra, estavam à sua disposição no caso de ela precisar de qualquer esclarecimento ou conselho, e pagariam todas as despesas de Sara. Ele próprio escreveria duas vezes por semana à filha, a quem desejava que fossem proporcionados todos os prazeres que lhe apetecesse.

-Sara é muito razoável e nunca pedirá nada que possa ser-lhe prejudicial – explicou ele.

Depois, conduziu a filha aos seus aposentos e despediram-se. Sentada sobre os joelhos do pai, Sara segurava-lhe, com as duas mãos, a gola do casaco e olhava intensamente.

– Parece que queres aprender de cor como eu sou – disse ele, acariciando-lhe os cabelos.

Ela lançou-se-lhe nos braços e, ao vê-los assim abraçados, dir-se-ia que não podiam separar-se um do outro.

Quando a carruagem, que levava o capitão, se pôs em andamento, Sara, sentada no chão, junto da varanda da sua sala particular, com o queixo apoiado nas mãos, seguiu-a com o olhar até que ela dobrou a esquina da praça. Emily estava também sentada ao lado da pequenita, que, de vez em quando, olhava para ela. E, quando Miss Amélia, irmã de Miss Minchin, recebeu ordem de ir ver o que fazia a nova educanda, encontrou a porta fechada.

– Fechei a porta – explicou lá de dentro uma

voz delicada, mas um pouco nervosa. -Peço o favor de me deixarem ficar completamente só.

Miss Amélia era uma criatura gorducha e baixa, que admirava imenso a irmã mais velha, de quem sentia certo medo. Tinha melhor coração do que Miss Minchin, mas por coisa alguma do mundo seria capaz de lhe desobedecer. Retirou-se agitadíssima e foi dizer à irmã:

– Nunca vi uma criança tão singular! Imagina que se fechou à chave, por dentro, e que nem se ouve mexer.

– É preferível isso a gritar e a bater o pê no chão, como fazem tantas outras – replicou Miss Minchin. -Amimada, como é, esperava eu que ela pusesse a casa em alvoroço. Porque, se há alguma criança que tenha sido escandalosamente estragada com mimo, é esta!

– Já lhe abri as malas e arrumei todas as suas coisas – disse Miss Amélia. – Nunca vi nada semelhante: casacos com arminho e zibelina, toda a roupa guarnecida a rendas… Já viste os vestidos dela? Que te parece?

– Parece-me perfeitamente ridículo – respondeu secamente Miss Minchin. – Mas tudo isso fará vista, quando Sara marchar à frente das outras alunas, ao domingo, para ir à missa. Na realidade, fizeram-lhe um enxoval de princesa!

Lá em cima, fechada no quarto, Sara, sentada no chão, com Emily ao lado, não desfitava o olhar da esquina da praça onde o capitão havia desaparecido, sempre a enviar- lhe beijos, como se não tivesse coragem de terminar.

UMA LIÇãO DE FRANCêS

Quando, na manhã seguinte, Sara entrou na aula, firmaram-se nela muitos olhos curiosos. Todas as outras alunas, desde Lavínia Herbert, que com quase treze anos se considerava já uma senhora, até Lottie Legh, a benjamina, que contava apenas quatro, tinham conhecimento da sua chegada. Também sabiam que, a partir daquele dia, Sara era o ormamento e a glória do Colégio Minchin.

Uma ou duas pequenas haviam, mesmo, tido a sorte de avistar a criada particular de Sara, chegada na véspera à noite. Era francesa e chamava-se Mariette.

Lavínia, que tivera artes de passar em frente do quarto de Sara, quando a porta estava entreaberta, vira a criada abrir uma caixa que certa loja de modas enviara.

– Que linda roupa – dizia ela, em voz baixa, à sua amiga Jessie, fingindo que estava a estudar geografia. -Nunca vi tanta renda! Ouvi a miss Minchin dizer à irmã que tudo aquilo era disparatado para uma criança. A minha mãe também me

costuma dizer que as crianças devem vestir-se com simplicidade. Olha para Sara: as rendas aparecem-lhe por baixo do vestido!

– E tem meias de seda – segredou Jessie, que parecia não levantar o nariz do atlas. – Que pés tão pequenos! Nunca vi pés assim!

– Oh – respondeu desdenhosamente Lavínia

-é por causa do feitio especial das pantufas que ela usa. A minha mãe diz que um sapateiro habilidoso pode fazer parecer pequenos mesmo os pés que sejam grandes. Eu cá não a acho nada bonita. Tem os olhos de uma cor esquisita.

– Sim, não é bonita como se costuma ser – respondeu Jessie, percorrendo ràpidamente toda a classe com o olhar. – Mas, quando se olha uma vez para ela, apetece olhar mais… Tem umas pestanas tão compridas E os olhos são quase verdes!

Sara conservava-se, muito ajuizadamente, no seu lugar, e esperava que lhe indicassem o que devia fazer. Tinham-na colocado mesmo ao lado de miss Minchin. Os olhares que se fitavam nela não a embaraçavam absolutamente nada. Pelo contrário, divertiam-na e, por sua vez, olhava também para todas aquelas meninas com interesse.

“Em que pensarão elas – perguntava Sara a si própria. – Gostava de saber se elas gostam de miss Minchin, se as lições lhe agradam e se alguma tem um papá parecido com o meu… ”

Tinha falado muito do pai a Emily, naquela manhã.

– Agora vai ele no mar – dissera ela. – Temos de ser muito boas amigas e dizer tudo uma à outra. Olha para mim, Emily; nunca vi olhos tão bonitos como os teus. Mas gostava muito que pudesses falar!

Sara tinha a cabecita cheia de sonhos e ideias, e persuadia-se de que seria já uma consolação convencer-se de que Emily era viva, ouvindo e compreendendo tudo quanto ela lhe pudesse dizer.

Quando Mariette lhe vestiu o vestido azul-escuro, reservado para as horas de aula, e lhe pôs nos cabelos uma fita da mesma cor, a pequenita aproximou-se de Emily, sentou-a numa cadeira de palha e colocou-Lhe, diante, um livro aberto, dizendo:

– Podes ler durante a minha ausência. E vendo a criada olhar para ela, surpreendida, Sara explicou-lhe, como se estivesse perfeitamente convencida do que dizia:

– Eu creio que as bonecas são capazes de fazer muitas coisas, mas não querem que nós saibamos… É muito possível que Emily leia, fale e ande, mas só o fará quando estiver sòzinha. Tu compreendes, se nós soubéssemos que as bonecas podem fazer o mesmo que nós, obrigávamo-las a trabalhar. Foi por isso que elas tomaram, umas com as outras, o com promisso de guardar segredo… Se tu ficares no meu quarto, Emily não se mexerá donde está; se te fores embora, ela começará a ler ou irá à janela ver quem passa. Mas, logo que ouça passos na escada, voltará para a cadeira, para que a encontremos como a deixámos.

“Que extraordinária criança!” – pensou Mariette. E, quando foi almoçar; contou às outras criadas tudo o que se passara com Sara. Sentia que se dedicaria a valer àquela pequenina tão original e inteligente, que a tratava com tão bonitas maneiras.

Mariette já se encontrara ao serviço de outras crianças que estavam longe de ser assim delicadas. Sara tinha um modo encantador e meigo de dizer: “Fazes favor, Mariette. Obrigada, Mariette”.

– Agradece-me – explicava a criada às colegas

– como se eu fosse uma senhora.

E acrescentava:

– Tem o ar de uma princesinha.

Em resumo: Mariette estava encantada com a sua patroa pequena e contentíssima com o seu novo lugar.

Entretanto, na aula, depois de Sara e as outras alunas se terem observado à vontade, miss Minchin bateu na secretária, com ar solene, e disse:

-Meninas: vou apresentar- lhes a sua nova companheira.

Todas as pequenas se levantaram e Sara fez o mesmo.

– Espero – continuou miss Minchin – que serão amáveis para Sara Crewe; esta menina vem de muito longe, da Índia. Logo que terminem as aulas, travarão conhecimento com ela.

As alunas cumprimentaram Sara, cerimoniosamente. Ela fez uma pequena reverência e em seguida todas retomaram os seus lugares, recomeçando a observação com o olhar.

Saradisse miss Minchin, em tom doutoral -, aproxime-se.

A directora tinha pegado num livro, que ia folheando. A pequenita, delicadamente, foi até junto dela.

– Como o seu pai escolheu uma criada francesa para o seu serviço particular – começou miss Minchin -, concluo que ele deseja que a menina estude o francês, a fundo.

Sara parecia um pouco embaraçada.

-Eu penso que o papá escolheu esta criada porque… julgou que me dava prazer com isso…

– Receio – interrompeu miss Minchin, com um sorriso irónico -que a menina seja amimada de mais e que, por isso, esteja convencida de que tudo e todos pretendem apenas agradar-lhe. Mas neste caso, a minha convicção é que seu pai quer que a menina aprenda bem francês.

Se Sara fosse mais velha, e se não estivesse tão abituada a ser, sempre, escrupulosamente bem educada,

teria podido, em poucas palavras, desiludir Miss Mínchin. Mas a pequenita sentia-se corar: Miss Mimchin parecia tão severa e autoritária, tão convencidda de que Sara não sabia uma palavra de francês, que ela não ousou contrariá-la: isso parecia-lhe uma grande indelicadeza… E a verdade, afinal, era que o capitão Crewe, tendo casado com uma francesa, começara a falar francês com a filha desde muito pequenina, de forma que esta falava aquela lingua com a maior facilidade.

Timidamente, Sara tentou ainda explicar:

– Eu… eu não aprendi, pròpriamente, mas…

Um dos maiores desgostos de Miss Minchin era, exactamente, não saber falar francês e esforçava-se por dissimular cuidadosamente esta humilhante lacuna. Por essa razão, não desejava discutir sobre tal assunto, que podia expô-la a perguntas embaraçosas, feitas pela nova aluna.

– Basta – disse ela, secamente. – Se não aprendeu, é preciso aprender imediatamente. O professor, Sr. Dufarge, não tarda aí. Vá folheando este livro enquanto ele não chega.

Sara sentia as faces escaldar. Voltou para o seu lugar, abriu o livro, fitou gravemente a primeira página, muito decidida a não rir, como teria feito qualquer menina mal educada, mas, em todo o caso, era engraçado ver-se condenada a soletrar, como qualquer principiante “le père”… “la mère”… “le fils”… palavras que ela conhecia perfeitamente, havia já tanto tempo.

Miss Minchin não deixava de a observar.

– Parece descontente, Saradisse ela -, e eu estou aborrecida por ver que a menina não tem vontade de estudar francês.

– Pelo contrário, minha senhora, tenho vontade, mas… – respondeu Sara, tentando novamente explicar-se.

-Não diga sempre “mas”, quando falam consigo

– exclamou miss Minchin, não a deixando con cluir. E ordenou:-Pegue no livro.

Sara, com a maior obediência, recomeçou a ler, com aplicação “la fille”, “le frère”, “la soeur”…

Ao mesmo tempo ia pensando: “Talvez eu possa explicar-me, quando o Sr. Dufarge vier… ”

Efectivamente, o professor de francês chegou pouco depois. Já não era novo; tinha um ar distinto e, mal fixou Sara, compreendeu logo que se tratava de uma criança invulgar e sentiu, por ela, um vivo interesse.

-Tenho, então, uma nova aluna, não é verdade? – perguntou ele.

-O pái desta menina, o capitão Crewe, tem um grande empenho em que ela comece a aprender francês – explicou Miss Minchin. – Mas eu receio, que, por um capricho de criança, não esteja disposta a isso.

– É pena – disse o professor, dirigindo-se, gentilmente, à pequenita. E continuou:-Talvez que eu consiga convencê-la quando principiarmos as lições, porque o francês é uma bela língua.

Sara foi até junto do Sr. Dufarge. Começava a faltar-lhe a coragem, e ergueu para ele os seus grandes olhos suplicantes. Tinha a certeza de que o professor ia compreender imediatamente, e começou, com a maior simplicidade, a explicar tudo num francês correcto e límpido: miss Mimchin não tinha compreendido; o que ela queria dizer era que não tinha aprendido o francês nos livros, mas sim com o pai e os amigos do pai, que lhe falavam sempre nessa língua. Por isso, aprendera a ler e a escrever francês ao mesmo tempo que aprendera inglês. O pai gostava muito daquela língua porque a sua querida mamã, que ela não chegara a conhecer, era francesa. Tinha o maior prazer em aprender tudo o que o Sr. Dufarge entendesse por bem ensinar-lhe, e o que ela pretendera explicar a miss Minchin era apenas, que já conhecia todas as palavras que vinham naquele livro.

Ao dizer isto, Sara mostrou ao professor o livrinho que a directora lhe havia dado.

Ao ouvir falar tão correctamente, miss Minchin estremeceu e pôs- se a olhar para ela por cima das lunetas, com ar de pessoa quase escandalizada.

Quanto ao Sr. Dufarge, sorria com um sorriso de verdadeira satisfação: ao escutar aquela voz fresquinha de criança falar nitidamente a sua língua natal, pareceu-lhe ter sido transportado, de repente, para a sua terra que, por vezes, nos dias sombrios e brumosos do inverno inglês, lhe parecia tão distante… Mal a pequenita acabou, tomou-Lhe o livro das mãos e envolveu-a num olhar de bondade e simpatia. Depois, dirigindo-se a miss mIinchin, disse:

– Pouco terei a ensinar-lhe. Fala francês como uma francesa. Tem uma pronúncia perfeita!

– Porque foi que a menina não me disse isso?

-exclamou Miss Minchin, envergonhada.

– Eu quis dizer… – respondeu Sara -, mas não fui capaz…

miss Minchxn sabia perfeitamente que a pequenita tentara explicar tudo e que, se o não fizera, a culpa fora apenas sua.

Mas vendo que as outras alunas tinham compreendido o que se passara, sem perder nada daquela cena, e que Lavinia e Jessie sorriam por detrás dos livros, a directora sentiu-se irritada ao máximo.

– Silêncio — gritou, dando uma pancada na secretária. – Não quero ouvir ninguém a rir!

Desde esse dia, nasceu na sua alma um rancor surdo contra a aluna de quem se mostrara, a principio, tão orgulhosa.

HeRMENGARDA

No decorrer daquela manhã tão agitada, Sara reparara numa condÌscípula da sua idade, cujos olhos, de um azul muito pálido, não se desfitavam dela. Era uma pequena gorda, com aparência de pouco inteligente, mas que possuia uma boquita redonda, sempre com um jeito de mimo. Usava os cabelos louros, muito claros, apertados em grossa trança, atada por uma fita; tinha enrolado a trança em volta do pescoço e com os cotovelos apoiados sobre a estante, ia mordiscando as pontas da fita, ao mesmo tempo que olhava para Sara, com espanto e admiração.

Quando o Sr. Dufarge se dirigira a Sara, a pequenita estremecera e parecia um pouco ansiosa; mas, ao ouvi-la responder-lhe em francês, tornava-se vermelha de surpresa. Ela, que chorava tantas lágrimas amargas, ao verificar a inutilidade dos seus esforços para se lembrar da tradução francesa das palavras mãe ou pai, como não havia de considerar um verdadeiro prodígio a nova companheira, a quem não sòmente aquelas palavras como muitas outras pareciam familiares, e que sabia conjugar os verbos e misturá-los com os adjectivos, como se se tratasse de um simples passatempo?

Absorvida pela contemplação de Sara, continuava a morder a fita com tal ardor, que chamou a atenção de Miss Minchin, a qual, satisfeita por ter encontrado um pretexto para desabafar a sua irritação, Lhe ralhou severamente:

-Que significam esses modos, Miss Saint-John? Tire os cotovelos de cima da estante, a fita da boca, e ponha-se direita!

A pobre Miss Saint-John estremeceu de novo; Lavínia e Jessie riam baixinho, olhando para ela, o que a fez corar ainda mais. As lágrimas quase saltavam dos seus pobres olhos de criança sem defesa. Sara percebeu tudo imediatamente, pois não podia ver sofrer ninguém sem desejar imediatamente ir em seu auxílio.

O pai costumava dizer:

“Se Sara fosse um rapaz e houvesse nascido uns anos mais cedo, teria percorrido o mundo, de espada na mão, para libertar os oprimidos e castigar os maus. ”

Não admira, portanto, que durante toda a manhã ela tivesse seguido com o olhar aquela sua nova companheira gorducha e triste. Viu logo que a outra tinha grande dificuldade em aprender as lições e que havia poucas probabilidades de vir a ser a glória do colégio… A lição de francês, em especial, foi quase uma tragédia… A pronúncia de miss Saint-John fazia sorrir o Sr. Dufarge, mesmo sem ele querer, e Lavinia, Jessie e as outras alunas troçavam ou olhavam-na com desdém. Sara era a única que se mantinha séria. Fazia de conta que não ouvia a sua desventurada condiscípula que disse: “lé bon pang” em vez de “le bon paim” e outras coisas neste género. Tinha muito amor-próprio e uma noção muito viva da dignidade pessoal; por isso revoltava-se ao ouvir as risadas das outras, e ao ver a cara envergonhada e aflita de miss Saint-John.

“Isto não tem graça nenhuma – pensava ela, debruçando-se sobre o livro. – Não percebo por que motivo se riem assim”.

Depois da aula, quando as alunas se reuniram, em grupos, Sara foi procurar miss Saint-John. Ao vê-la sòzinha e triste, metida no vão de uma janela, dirigiu-se a ela e procurou um pretexto para conversarem. Disse-lhe apenas as palavras vulgares que qualquer menina da sua idade diz a outra naquelas circunstâncias, mas a sua voz possuía um som doce e afectuoso, ao qual ninguém podia ficar insensivel.

– Como se chama? – perguntou.

Para compreender o espanto de miss Saint-John, é preciso não esquecer que, nos colégios de meninas, uma “nova” é sempre, ao princípio, um ser um tanto misterioso; que todo o colégio, na véspera, à noite, falara da “nova” e repetira, a seu respeito, histórias mais ou menos contraditórias, até ao momento em que o sono fizera calar a curiosidade geral. A chegada de uma aluna que tem carruagem, um “poney”, uma criada particular, e que vem da Índia, não é um acontecimento banal.

– Chamo-me Hermengarda Saint-John – respondeu a outra.

-E eu Sara Crewe. O seu nome é bonito e parece-se com os que encontramos nos livros.

– Gosta dele-balbuciou Hermengarda. -Eu… também gosto do seu.

A infelicidade de Miss Saint-John era ter um pai notàvelmente instruído e inteligente. Às vezes, esse facto parecia ser uma verdadeira calamidade. Um pai que aprendeu tudo quanto quis, fala sete ou oito línguas e tem uma vasta biblioteca, a qual se pode dizer que sabe de cor, espera, naturalmente, que a filha saiba, pelo menos, as suas lições quotidianas,

e se lembre, quando mais não seja, de alguns factos históricos, ou faça, sem erros, um ponto escrito de francês. Hermengarda era, pois, uma grave preocupação para o Sr. Saint-John, que não podia explicar a si próprio como uma filha sua era tão completamente desprovida de vivacidade intelectual e incapaz de triunfar fosse em que fosse.

A pobre pequena era, sem contradição possível, a pior aluna do colégio.

– No entanto, é preciso que ela chegue a aprender qualquer coisa! – dizia o pai a miss Minchin.

Em consequência desta recomendação, Hermengarda passava a maior parte do tempo a chorar ou a ser castigada. O pior era que, se conseguia aprender qualquer coisa, esquecia-a cimco minutos depois ou, na maioria dos casos, ficava sem compreender uma única palavra. Não admira, pois, que ela contemplasse Sara quase com respeito.

– Fala francês, não é verdade? – perguntou timidamente miss Saint-John.

Sara sentou-se num dos bancos do vão da janela, cruzou as pernas e, unindo as mãos sobre os joelhos, respondeu:

-Sei alguma coisa de francês porque ouvi sempre falar esta lingua à minha volta. Se a menina estivesse no meu lugar, ter-lhe-ia acontecido a mesma coisa.

– Oh isso não! Eu não era capaz – exclamoú Hermengarda. Nunca consegui aprender.

– Porquê – perguntou Sara, com curiosidade.

Hermengarda abanou a cabeça, fazendo saltitar a trança sobre os ombros, e contimuou:

– Não ouviu, há pouco, a minha lição? É sempre assim. Não sou capaz de pronunciar bem as palavras. São muito dificeis…

Calou-se um momento: depois acrescentou, com um tom de respeito na voz:

– A menina é muito inteligente, não é?

Sara olhou, através do vidro, a praça húmida, onde os pardais esvoaçavam sobre as grades enferrujadas e os ramos das árvores enegrecidas pela fuligem. Reflectia. Ouvira dizer muitas vezes que era inteligente; perguntava agora a si própria se era verdade e como tinha isso acontecido… Por fim, respondeu:

– Não sei. não sou capaz de Lhe explicar…

Vendo a expressão desapontada da bondosa carita de faces rechonchudas, Sara teve vontade de rir e mudou de conversa.

– Gostavas de ver Emily? – perguntou ela à outra, tratando-a familiarmente.

– Quem é Emily? – interrogou Hermengarda por sua vez.

– Vem ao meu quarto e verás – disse Sara, estendendo-lhe a mão.

Dirigiram-se as duas para a escada e, enquanto atravessavam o vestíbulo, Hermengarda foi perguntando, já com mais familiaridade:

– É verdade que tu tens uma sala de recreio só para ti?

– É – respondeu Sara. – Meu pai recomendou isso a Miss Minchin porque eu, para me distrair, invento histórias e conto-as a mim própria; não gosto que me oiçam. Quando penso que está alguém a escutar, já não sinto prazer nenhum.

Tinham chegado ao corredor que conduzia ao quarto de Sara. Ao ouvir o que ela dissera, Hermengarda parou, como que sufocada, e exclamou:

– Tu inventas histórias?! Falas francês e inventas histórias? Isso é verdade?

Sara olhava para ela, admirada, e apenas disse:

– Mas, inventar uma história é uma coisa muito fácil, que qualquer pessoa pode fazer. Tu nunca experimentaste?

De súbito, apertou mais a mão da companheira e disse, baixando a voz:

– Aproximemo-nos da porta sem fazer barulho; eu vou abrir de repente… Talvez a possamos surpreender.

Ao dizer isto, ria, mas lá bem no seu intimo tinha uma secreta esperança que lhe fazia brilhar mais os olhos. Embora não fizesse a mais leve ideia do que se tratava, Hermengarda notou a transformação da sua nova amiguinha e sentiu-se impressionada. Que seria? Fosse o que fosse, devia ser uma coisa importantissima…

Por isso, seguira Sara; andando nos bicos dos pés e toda trémula de comoção.

Atingiram a porta sem fazer o menor ruido. Sara abriu bruscamente e, aos olhos das duas pequenas, surgiu o quarto, muito tranquilo e bem arrumado, com um bom lume no fogão, a arder serenamente, e uma admirável boneca sentada a um canto da chaminé, na atitude de quem lia um livro atentamente.

– Oh! ela voltou para a cadeira antes que nós a pudéssemos ver! – disse Sara, desapontada. É sempre assim! São mais rápidas do que um relâmpago…

Os olhos de Hermengarda iam, pasmados, de Sara para a boneca e da boneca para Sara.

– Ela anda? – perguntou a pequenita, cada vez mais espantada.

– Está claro que sim – respondeu Sara. Pelo menos, estou convencida disso, ou procuro convencer-me e, nesse caso, para mim é como se fosse verdade. Tu nunca fizeste assim para acreditares em qualquer coisa?

– Não – declarou Hermengarda. – Explica-me como é.

Miss Saint-John estava de tal forma encantada com Sàra, que olhava para ela sem prestar a menor atenção a Emily, e, no entanto, Emily era a mais linda boneca que ela até então tinha visto.

– Sentemo-nos – disse Sara. – Vou tentar ensinar-te. É tão fácil que, depois de começar, já não somos capazes de parar e continuamos todos os dias… É delicioso. Escuta, Emily apresento-te Hermengarda Saint-John. Hermengarda, apresento-te Emily. Gostarias de lhe pegar um bocadinho ao colo?

– Oh! gostava muito – disse Hermengarda. Ela é tão bonita!

Sara pôs-lhe a boneca nnos braços. Hermengarda nunca julgara poder viver uma hora tão agradável como a que passou ali, até ao momento em que a sineta as chamou de novo ao rés-do-chão.

Sara, sentada sobre o tapete, em frente do fogão, com os olhos brilhantes e as faces coradas, contou-lhe mil coisas maravilhosas. Falou-lhe da viagem que fizera e da Índia! Mas o que fascinava Hermen garda era tudo quanto a sua nova amiguinha inventava acerca das bonecas que, afirmava ela, andavam, falavam, e faziam tudo quanto queriam, quando ficavam sòzinhas, escondendo ciosamente o seu poder e tornando-se imóveis, num abrir e fechar de olhos, logo que alguém entrava no quarto onde elas se encontravam.

– Compreendes – dizia Sara, com o ar mais sério deste mundo. – É uma espécie de magia.

E de repente, ao contar-lhe como descobrira Emily, Sara mudou de expressão. Dir-se-ia que uma nuvem viera ensombrar a claridade dos seus grandes olhos. Soltou um suspiro tão profundo, que mais parecia um gemido; depois cerrou muito os lábios, como num grande esforço de vontade. Hermengarda sentiu confusamente que, neste momento, se Sara fosse uma criança vulgar, teria chorado. Mas tal não sucedeu.

– Estás triste – perguntou timidamente miss Saint-John.

– Estou – respondeu Sara, após um minuto de

silêncio. E explicou:

– Mas não é no corpo…

Depois, numa voz muito baixa, que ela queria

manter firme, perguntou:

– Gostas muito do teu pai?

Os cantos da boca de Hermengarda contrairam-se. Ela compreendia perfeitamente que a sua dignidade de aluna de um colégio de primeira categoria não lhe permitia responder a verdade: nunca fizera a si própria semelhante pergunta e preferia tudo a passar dez minutos junto do pai. A pobre pequena estava sèriamente embaraçada.

– Quase nunca o vejo – murmurou. – Ele

passa a vida na biblioteca, a ler.

-Pois eu gosto do meu acima de tudo no

mundo – disse Sara. – Aqui tens a razão por que

estou triste: é por ele haver partido.

Ao dizer isto, escondeu o rosto entre as mãos e

ficou imóvel.

“Desta vez, vai chorar… ” – pensou Hermengarda, assustada.

Mas não; Sara não verteu uma lágrima. Os

cabelos negros tombavam-Lhe sobre a cara, e ela

mantinha-se na mesma imobilidade. Depois, sem

levantar a cabeça, foi dizendo:

– Prometi-lhe ser corajosa. E hei-de sê-lo! Precisamos sempre de sofrer qualquer coisa na vida…

Pensa no que sofrem os soldados! O papá é um

soldado. Se houver guerra, tem de suportar a fadiga, a sede e talvez ferimentos graves. Pois bem, tenho a certeza de que não diria uma única palavra para se lamentar. Nem uma!

Hermengarda contemplava-a e experimentava

por ela um vago sentimento de adoração. Sara era

tão maravilhosamente diferente de todas as pessoas

que a rodeavam!

Não tardou que erguesse a cabeça e sacudisse

os cabelos, sorrindo de forma estranha. Por fim

disse:

-Se eu puder falar muito e contar-te tudo

quanto me passa pela cabeça, fazendo de conta que

acredito no que digo, sentir-me-ei mais corajosa.

Isto não faz esquecer, mas dá força.

Sem saber porquê, Hermengarda sentiu a garganta apertada e os olhos húmidos.

– Lavínia e Jessie são amigas íntimas – disse

ela com voz alterada. – Seria tão bom se nós também o fôssemos… Queres que eu sej a tua amiga?

Tu és inteligente e eu sei, perfeitamente, que sou a

aluna mais estúpida do colégio, mas… eu gosto

tanto de ti!

– Ainda bem! Não imaginas como estou contente – exclamou Sara. – Sim, vamos ser muito amigas. E, queres saber? –

Ao dizer isto a expressão iluminou-se-Lhe. -Vou ajudar-te a estudar as lições de francês!

LOTTIE

Se Sara fosse uma criança semelhante à maioria, a vida no Colégio de Miss Minchin, tal como estava organizada, teria sido perigosa para ela.

Era tratada não como uma criança, mas como uma hóspeda de cerimónia, cuja presença honrasse a casa. Se ela fosse caprichosa e altiva, tanta lisonja e mimo torná-la-iam insuportável. Se tivesse disposição para a preguiça, não teria feito nem aprendido absolutamente nada. No seu íntino, Miss Minchin não gostava dela, mas era suficientemente prudente para fazer ou dizer qualquer coisa que pudesse desgostar tão preciosa aluna. Porque ela bem sabia que, se alguma vez Sara mandasse dizer ao pai que o colégio Lhe desagradava; ou que se sentia ali imfeliz, o capitão Crewe a viria buscar imediatamente.

Miss Minchin chegara à conclusão de que a melhor maneira de conquistar a simpatia de uma criança E satisfazer-lhe todas as vontades, era elogiá-la e deixá-la fazer tudo quanto ela quiser. Em consequência disto, Sara era constantemente felicitada pela sua aplicação ao estudo, pelas suas boas maneiras, pela amabilidade com que tratava as condiscipulas e pela generosidade com que socorria os mendigos que Lhe pediam esmola; o mais simples dos seus actos era posto na lua, como se costuma dizer, e se ela não fosse, de seu natural, ajuizada e prudente, tornar-se-ia bem depressa uma pequena vaidosa e antipática.

Mas no seu cèrebrozinho havia os mais sensatos pensamentos, sobre ela própria e sobre o destino

que lhe coubera neste mundo. De vez em quando

chegava mesmo a falar nisto a Hermengarda.

– É o Destino que prepara tudo na vida – costumava dizer. – Eu, por exemplo, recebi todas as

boas qualidades: gosto de estudar e aprendo fàcilmente o que me interessa; tenho um papá bom, belo e inteligente, que me dá tudo quanto eu quero. É possível, mesmo que, no fundo, eu não seja boa; mas

quando se receberam todos os dons que eu recebi e toda a gente nos anima, como não havemos também de ser amáveis? Pergunto a mim própria se sou realmente uma menina gentil ou se, pelo contráriosou uma criança insuportável. – e, ao dizer isto, a

sua fisionomia tomava uma expressão de grande

perplexidade. – Talvez que eu seja terrível e nunca

ninguém o chegue a saber, simplesmente porque

nunca tive uma contrariedade na vida!

– Lavínia também não tem contrariedades replicou Hermengarda, em tom insistente – e Deus

sabe como ela é desagradável!

Sara coçou a ponta do narizito, com ar de quem

reflecte, e ficou a meditar sobre aquele problema.

Por fim, disse:

– Talvez seja por ter crescido…

Ela tinha ouvido dizer a niss Amélia que o

rápido crescimento de Lavínia afectara a sua saúde

e o seu génio e, caridosamente, aproveitara esta

benévola explicação.

A verdade, porém, é que Lavínia tinha imensos ciúmes de Sara. Até à vinda desta, fora ela a pessoa mais importante do colégio. As condiscipulas obedeciam-lhe sempre, porque Lavínia era capaz de se mostrar odiosa, se lhe resistissem. Tiranizava as mais pequenitas e tomava grandes ares para com as outras da sua idade. Era bonita e as suas “toilettes” eram mais luxuosas do que as das outras, chamando a atenção quando saíàm a passear, até ao momento em que apareceram os casacos de veludo, os regalos de peles, as plumas de avestruz de Sara, e em que esta foi colocada, por Miss Minchin, à frente das outras alunas. Lavinia sofrera com isso uma decepção enorme.

Depois, à medida que o tempo ia passando, tornava-se evidente que Sara era, na realidade, superior, não porque se mostrasse desagradável mas, ao contrário, porque nunca o era.

Jessie, sem querer, tinha excitado o furor da sua amiga intima, dizendo:

– É preciso fazer justiça a Sara Crewe. Não é vaidosa, e tem razão para o ser, como nenhuma de nós. Eu, por mim, penso que não resistiria à vaidade, se tivesse tantas coisas bonitas e fosse tão admirada como ela é. Chega a ser vergonha a maneira como miss Minchin a põe em evidência quando vêm visitas ao colégio.

“-Sara, tem de vir à sala contar coisas da Índia a M. me Musgrane… ” – disse Lavinia, que imitava maravilhosamente Miss Minchin. E continuou:-“A nossa Sarinha vai falar francês com Lady Pitcin… Tem boa pronúncia… , ” A verdade é que não foi no colégio que ela aprendeu francês. Nem precisou, para isso, de grande inteligência; ela própria diz que nunca estudou e aprendeu simplesmente ouvindo conversar o pai. Quanto a este, não acho que o facto de ser oficial da Índia baste para o tornar notável.

– Mas – disse lentamente Jessie – ele matou tigres. Até matou aquele de que tiraram a pele que está no quarto de Sara. É por isso que ela a estima tanto; deita-se-lhe em cima, acaricianhe a cabeça e fala-lhe, como se falasse a um gato.

Sara passa o tempo a fazer maluquices – disse Lavfnia, com aspereza. – A mamã diz que esta mania que ela tem de inventar histórias é ridícula e, quando for crescida, não passará de uma excêntrica.

Efectivamente, Sara ignorava a vaidade. Tinha uma almazinha afectuosa e partilhava generosamente com os outros os seus dons e os seus privilégios. As alunas mais pequenas, habituadas a ser censuradas e empurradas pelas mais velhas, sabiam que a única das suas condiscípulas que as não fazia chorar, era exactamente a mais invejada de todas. Sara tinha um coração maternal, e, quando alguma caía ou esfolava os joelhos, encontrava sempre, junto dela, ajuda, consolações e algum bombom ou caramelo que tirava da algibeira do bibe. Nunca as repelia nem fazia alusões trocistas ao facto de serem ainda pequenitas.

-Quando se tem quatro anos, têm-se quatro anos 1- dissera ela, serenamente, a Lavínia, num dia em que esta dera uma bofetada a Lottie (que feia acção!), chamando-lhe empecilho. E continuara, com um olhar cheio de convicção – Mas no ano seguinte terá cinco, depois seis e só faltarão catorze anos para ter vinte!

– Meu Deus – exclamou Lavínia, trocista -, como tu sabes fazer bem cálculos!

Mas ninguém podia negar que dezasseis e quatro fazem vinte, e vinte anos era a idade com que as alunas mais audaciosas do Colégio Minchin sonhavam.

Assim, as pequenitas adoravam Sara. Muitas vezes haviam já sido convidadas – elas que eram sempre desdenhadas! – a tomar chá no seu quarto, a brincar com Emily; a lanchar, utilizando o serviço de chá de Emily, um de flores azuis e cujas

chávenas continham uma respeitável quantidade de chá muito doce. Nunca nenhuma das petizas vira um serniço de chá de boneca tão bonito.

E, a partir desse dia, Sara foi considerada como uma rainha ou uma deusa, por todas as alunas da classe infantil.

Lottie Legh adorava-a a tal ponto que, se Sara não tivesse um coração maternal, ter-se-ia irritado com tantas manifestações de carinho.

Lottie fora internada ali por um pai aimda muito novo e frívolo, que achara ser aquela a melhor solução para a pequenina. A mãe morrera e, como desde a prinmeira hora da sua vida, fora considerada apenas como um bonito brinquedo, como um macaquinho ou um cãozinho de luxo, tornara-se uma criatura intolerável, Quando ela queria ou não queria qualquer coisa, punha-se a berrar; e, como apetecia sempre o que não podia ter, e não queria, nunca, o que Lhe convinha, era raro que a sua voz estrídula não se ouvisse em qualquer canto da casa.

Esta pobre criança descobrira, não se sabe como

– ou ouvira, sem dúvida, dizê-lo a seu pai – que uma menina que não tem mãe, deve ser lamentada e amimada. Fizera desta descoberta uma arma de que se servia a propósito de tudo.

A primeira vez que Sara se ocupou dela, foi certa manhã em que, passando em frente de um quarto, ouvira Miss Minchin e Miss Amélia esforçando-se por fazer cessar a gritaria da criança, que, percebia-se perfeitamente, se recusava a ceder. E recusava-se tão enèrgicamente, que Miss Minchin era obrigada a gritar também, num tom severo e autoritário, para se fazer ouvir.

– Porque chora ela? – perguntava niss Minchin.

– Oh Oh Oh – foi a resposta. – Não tenho mãezinha!

– Vamos, Lottie – dizia, já impaúente, Miss Amélia. – Cala-te. Não chores mais, não chores mais!

– Oh! Oh! Oh – recomeçava Lottie, com toda a força dos seus pulmões. -Eu já não tenho mãezinha!

– O que ela precisava era de chicote – exclamou Miss Minchin. -Vais apanhar, demónio!

Ao ouvír isto, Lottie gritou com mais força do que nunca. Miss Amélia sentiu lágrimas nos olhos. A voz de Miss Minchin tornou-se terrível.

De repente, a directora, impotente e indignada, saiu do quarto, deixando Miss Amélia a contas com a indisciplinada pequena.

Sara parou no vestíbulo e perguntava a si própria se devia entrar; conhecia Lottie havia pouco tempo mas, apesar disso, pensava que talvez conseguisse consolá-la.

Ao sair do quarto, Miss Minchin viu Sara e ficou um pouco contrariada com a ideia de que gritara talvez demasiadamente e fora bastante áspera, com prejuízo da sua própria autoridade.

– Ah! A menina Sara está aqui – exclamou com um sorriso que pretendia ser amável.

– Parei – explicou Sara ~- porque reconhecí a voz de Lottie e pensei que, talvez, não tenho a certeza, eu pudesse acalmá-la. Dá licença que experimente, miss Minchin?

– Se for capaz disso, será quase um milagre… Mas duvido respondeu secamente Miss Minchin, repuxando os lábios.

Depois, vendo que Sara ficara um pouco admirada com aquele acolhimento tão frio, mudou imedia tamente de atitude e disse, num tom amável:

– É verdade que a menina tem habilidade para tudo! Tenho a certeza de que será bem sucedida. Entre!

E afastou-se para a deixar passar.

Quando Sara entrou no quarto, Lottie, deitada no chão, gritava e batia com os pés no sobrado, com quanta força tinha. Junto dela, estava ajoelhada Miss Amélia, vermelha, a transpirar, como se fosse a própria estátua da consternação. Procurava por todos os meios fazer com que a pequena sossegasse e passava, sem transição, da doçura à severidade.

– Pobre criança!- dizia ela. – Eu bem sei que não tens mãe…

Logo a seguir, em tom diferente, ordenava:

-Se não te calas, Lottie, és castigada! Pobre anjinho… Vamos, vamos… És feia, e má! Vais apanhar… Tu verás!

Sara aproximou-se tranquilamente. Não sabia ainda o que faria, mas estava convencida de que era preferível não dizer assim, ao acaso, tantas coisas contraditórias.

Miss Amélia – disse ela, em voz baixa. Miss Minchin deu-me licença para eu ver se sou capaz de a acalmar… Posso experimentar?

Miss Amélia lançou-lhe um olhar desesperado e balbuciou:

-Julga que será capaz?

– Eu não sei – murmurou Sara. – Mas vou tentar, mesmo assim…

Miss Amélia levantou-se, ofegante; as pernitas de Lottie continuavam a agitar-se violentamente.

– Vá-se embora, devagarinho – pediu Sara. Ficarei ao pé dela.

– Oh Sara – choramingava niss Amélia – Nunca tivemos uma aluna tão difícil de aturar. Não podemos continuar a tê-la aqui.

Mas, ao mesmo tempo que falava, ia-se esquivando, satisfeita por ter encontrado uma boa desculpa

para o fazer.

Sara, de pé, junto da pequena fúria, olhou para ela durante alguns momentos, sem falar. Depois, sentou-se no chão, ao lado da outra, e esperou. Além dos gritos raivosos de Lottie, não se ouvia mais nada no quarto. E a pequenita, habituada a ouvir as pessoas crescidas suplicarem-lhe que se calasse, ou ralharem-Lhe severamente durante os seus ataques de mau génio, ameaçando-a e acarinhando-a, assustadas com os seus caprichos, não compreendia… Gritar com todas as suas forças, bater com os pés no chão e verificar que a única pessoa presente parecia não lhe ligar a menor importância, era um fenómeno digno da sua atenção!

Entreabriu os olhos, até então muito fechados, e viu quem estava junto dela: era apenas outra criança, exactamente aquela pequena que era dona de Emily e de tantas outras coisas lindas. Essoutra criança olhava para Lottie e parecia reflectir profundamente.

Lottie quis recomeçar a sua gritaria, mas a calma que reinava na sala e a serenidade da fisio nomia de Sara impressionaram-na, e o seu primeiro grito não teve força nem convicção.

– Eu-não-te-nho-mãe-zinha – recomeçou ela, numa voz bastante mais baixa.

Sara continuou a olhar fixamente para Lottie, mas nos seus olhos havia uma expressão de simpatia.

– Eu também não tenho mãe – disse ela.

Esta resposta espantou a outra. Cessou de agitar as pernas e ficou imóvel, a olhar para Sara. Uma ideia nova basta, algumas vezes, para fazer calar uma criança que chora e que coisa alguma puderá até então acalmar.

Deve dizer-se também que se Lottie detestava a autoritária Miss Minchin e a indulgente Miss Amélia, tinha, em compensação, um “fraco” por Sara, apesar de a conhecer pouco.

Não queria, ainda, ceder, mas os seus pensamentos tomavam um novo rumo e, depois ne um soluço amuado, perguntou:

– Onde está a tua mãe?

Sara não respondeu logo. Haviam-lhe dito que a mãe estava no Céu; meditara bastante sobre esse assunto e acabara por formar uma opinião muito sua.

– Está no Céu – disse, por fim. – Mas tenho a certeza que ela desce algumas vezes à Terra para me vir ver; eu é que a não vejo. Deve suceder o mesmo com a tua. Quem sabe se a tua mãe e a minha nos estão a ver neste momento? Talvez se encontrem aqui as duas, neste quarto…

Lottie ergueu-se bruscamente e olhou em volta de si. Era uma bonita criança de cabelos encaracolados e olhos redondos, que lembravam miosótis orvalhados.

Mas, se a sua mamã ali estivera durante a meia hora que acabava de decorrer, não a tinha comparado a um anjo do Céu, com certeza…

Sara continuava a falar, e fazia-o com tal convicção, que Lottie escutava-a atentamente, mesmo sem querer.

Haviam-lhe explicado que a mãe tinha umas grandes asas, e mostrado estampas onde se viam umas senhoras vestidas de branco, a quem chamavam anjos. Mas o que Sara contava parecia ser uma coisa verdadeira, como se falasse de um belo país onde viviam pessoas a valer.

– Lá em cima há muitos campos, todos em flor

– dizia ela, abandonando-se à sua imaginação e falando como se sonhasse. – São campos de lírios, e, quando passa sobre eles a brisa, esta fica toda perfumada. E, como a brisa sopra constantemente, respira-se sempre aquele delicioso perfume. As crianças brincam nos campos e colhem ramos de lírios para fazer coroas. Todos os caminhos deste país brilham. E depois, ninguém se fatiga, mesmo que tenha andado muito, Quem quiser, pode voar. Há muros de pérolas e oiro em toda a volta da cidade, mas são baixínhos, que é para nos podermos debruçar, olhar para a Terra, cá em baixo, e enviar sorrisos e mensagens carinhosas às pessoas que estimamos.

Fosse qual fosse a história que Sara tivesse começado, lottie, certamente, não gritaria mais, e ter-se-ia deizado prender pelo encanto da narrativa, mas não se pode negar que esta história erã mais bonita do que as outras. Entretanto, Lottie aproximara-se mais de Sara e ouviu-a até ao fim, sem perder uma só palavra. Quando acabou, pareceu-Lhe que tinha sido muito pequena, e fez uma cara pouco tranquilizadora.

– Eu quero ir para esse país – gritou ela. Eu… não tenho mamã neste colégio !…

Sara sentiu o perigo e saiu do seu sonho. Pegou na mão gorducha de Lottie e puxou a pequenita para si, sorrindo-lhe carinhosamente.

– Serei eu a tua mamã – disse ela. – Vamos divertir- nos a dizer que tu és minha filha. E Emily será tua irmã.

Reapareceram nas faces de Lottie as suas engraçadas covinhas.

– É verdade – perguntou.

– Com certeza – respondeu Sara, pondo-se de pé, num salto. -Vamos prevenir Emily. Em seguida vou lavar-te a cara e pentear-te.

Lottie concordou, alegremente, e pôs-se a pular ao lado de Sara, sem se lembrar já de que o “drama” que acabava de passar, começara, exactamente, porque ela recusara deixar-se lavar e pentear para o almoço, tornando-se forçoso recorrer à autoridade da majestosa Miss Minchin.

A partir daquele dia, Sara passou a ser mãe adoptiva.

BECKY

O maior prestigio de Sara estava no dom que possuía de contar histórias e dar a tudo quanto dizia uma aparência de descrição maravilhosa.

Era isto, mais ainda do que o seu luxo e a sua riqueza, que atraía para ela as condiscípulas; e era isto mesmo que mais inveja causava a Lavínia e a algumas outras pequenas, que não conseguiam, apesar de tudo, deixar de sentir o encanto do extraordinário talento de Sara.

As pessoas que na infância tiveram alguém que lhes contasse, assim, histórias fantásticas, recordam durante toda a vida essas horas de deslumbramento, em que escutavam a voz que lhes ia falando de fadas, encantos e aventuras espantosas, que transportavam a sua imaginação infantil a um mundo maravilhoso.

E evocava, muitas vezes, os grupos que formavam com outras crianças, conservando-se, durante horas, quietas e caladas, de olhos fitos na pessoa que contava.

Sara, não somente sabia contar histórias, como

gostava muito de o fazer. Quando, sentada no meio

das condiscípulas, começava a inventar coisas maravilhosas, os seus olhos verdes pareciam maiores e

mais brilhantes; as faces tornavam-se-lhe coradas e insensivelmente, começava a acompanhar com gestos

as suas palavras. A voz, ora doce, ora forte, o corpo

flexível, os movimentos expressivos das suas mãostudo contribuía para dar relevo às passagens dramáticas ou românticas do seu conto.

Por vezes, esquecia- se de que falava com outras

crianças; via realmente fadas, vivia com os reis, as

rainhas e as formosas castelãs de quem ia contando

as aventuras. Acontecia chegar an fim da narrativaofegante, exausta. Então, colocava a mãozita no

peito, sobre o coração, e sorria, como se estivesse troçando de si própria.

– Quando vos conto tudo isso – dizia ela parece-me que é verdade, que aconteceu assim, e

esqueço-me do colégio, da aula e até de que me

estão ouvindo. Chego a convencer-me de que soueu própria, cada uma das personagens da história.

É extraordinário!

Havia cerca de dois anos que Sara estava no

colégio de niss Minchin.

Num dia de Inverno, enevoado e triste, quando

descia da carruagem, toda embrulhada no seu casaco

de veludo guarnecido de peles, viu, debaixo da

escada da cave, o vulto de uma pequenita, mal arranjada, que espreitava para fora, através das grades; com o pescoço estendido e os olhos dilatados. A sua

carita suja possuía uma expressão ao mesmo tempo

ardente e tímida, que chamou a atenção de Sara.

E ela sorriu à criança, como sorria sempre a toda

a gente.

Mas a outra julgava, com certeza, que não

lhe era permitido olhar para a aluna mais rica do colégío. A sua cabeça desgrenhada desapareceu, como a de um diabinho que recolhe à sua caixa, e fugiu para a cozinha com tal precipitação, que, se não tivesse um ar tão miserável, Sara teria rido com vontade.

Nesse mesmo dia, à noite, enquanto Sara contava uma das suas histórias, rodeada por um auditório atento, o mesnno vulto, pequeno e triste, entrou na aula, transportando um balde de carvão demasiadamente pesado para as suas forças, e ajoelhou junto do fogão, para encher a fornalha e varrer as cinzas. Estava mais asseada do que à tarde, mas mostrava o mesmo ar assustado. Via-se que tinha medo de escutar ou olhar em volta de si. Colocou o carvão, bocado a bocado, com as mãos, para não fazer barulho, e sacudiu cuidadosamente as tenazes. Mas Sara compreendeu logo que aquilo que se estava passando na sala interessava vivamente a criadita e que ela cumpria a sua obrigação devagar, na esperança de apanhar algumas palavras, aqui e acolá, da história que estava contando. Por isso, Sara levantou a voz e esforçou-se por falar bem distintamente:

“- As sereias nadavam docemente naquela água verde e clara como o cristal, levando atrás de si uma rede de pesca tecida com pérolas. A princesa estava sentada sobre um rochedo todo branco e olhava para elas.

Era a história maravilhosa de uma princesa amada por um tritão e que fora viver com ele nas deslumbrantes cavernas submarinas.

A criadita, de joelhos diante do fogão, varrera o chão uma vez, outra vez, e recomeçava a varrê-lo de novo, mas estava de tal forma absorvida a ouvir, que perdeu a noção da realidade. E, sem saber como, encontrou-se sentada sobre os calcanhares com a vassoura imóvel nas mãos. A voz de Sara transportava-se

às grutas todas iluminadas de um azul muito pálido, com o chão coberto de areia dourada. Parecia-Lhe que, à sua volta, se balouçavam exóticas flores e ressoavam longínquos e estranhos concertos.

A vassoura escapou-se-Lhe dos dedos calejados pelo trabalho e Lavínia Herbert voltou a cabeça.

– Esta rapariga está a ouvir a história… disse ela.

A pequena apanhou a vassoura e pôs-se em pé. Depois, pegando no balde do chão, fugiu, como uma lebre assustada.

Sara sentiu dentro de si uma surda irritação e respondeu:

– Eu bem sabia que ela estava a ouvir. Mas que mal havia nisso?

Lavínia levantou a cabeça com uma impertinência elegante, e replicou:

– Não sei se a tua mãe gostaria de te ver contar histórias às criadas. A minha, sei eu, com certeza, que não gostava.

– A minha mãe – exclamou Sara, com um olhar estranho. -Estou certa de que isso Lhe seria indiferente. Ela sabe, tão bem como eu, que as histórias são para ser contadas a toda a gente.

– Eu julgava – continuou Lavínia, num tom severo – que a tua mãe tinha morrido.

– Então tu pensas que, pelo facto de ter morrido, ela já não se preocupa comigo? – respondeu secamente Sara, que sabia dar à sua voz um tom grave, quando queria.

– A mamã de Sara sabe tudo – murmurou Lottie – e a minha também. Não falo de Sara, que é a minha mamã no colégio de Miss Minchin, mas da outra… Lá, onde ela está, há caminhos reluzentes e campos de lírios, que toda a gente pode colher.

– Sim, senhora! É muito bonito – exclamou

Lavinia, escandalizada. – Então também inventas histórias acerca do Paraíso?

-Como sabes tu que as minhas histórias não são verdadeiras? – perguntou Sara. – O que eu te posso afirmar – contimuuou ela, com uma veemência que não tinha nada de angelical – é que tu nunca o conseguirás saber, se não te tornares mais caridosa do que és agora. Vem comigo, Lottie.

Ao dizer isto, saiu da sala, na esperança de encontrar ainda a criadita, mas ela desaparecera sem deixar traço.

-Quem é a pequenita que trata do fogão.

-perguntou ela, nessa mesma noite, a Mariette. Mariette deu-lhe muitas explicações. Quem era aquela pequena? Ah! bem podia Miss Sara fazer essa pergunta a quem quisesse. Era uma pobre abandonada que haviam admitido como ajudante de cozinheira, mas, na verdade, ela trabalhava em toda a párte, menos na cozinha. Era ela quem engraxava o calçado, limpava os fogões, subia e descia as escadas com grandes baldes de carvão, lavava o sobrado e os vidros, enfim, era o “pau mandado” de toda a gente.

Tinha catorze anos, mas estava tão raquitica, que parecia ter apenas doze. Na verdade, a própria Mariette confessava ter pena dela. A pobre criança era de tal forma tímida que, se por acaso alguém se lhe dirigia, os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas, tão grande era o medo que sentia.

– Como se chama? – perguntou Sara que, sentada junto da mesa, com o queixo apoiado nas mãos, não perdia uma única palavra de Mariette.

Devia chamar-se Becky. Mariette ouvia todo o Pessoal dizer, “Vai fazer isto, vem cá, Becky, mais de cem vezes ao dia.

Sara ficou muito tempo a olhar para o lume e a pensar em Becky, nesno depois de a criada se ter retirado, e inventou logo uma história, cuja heroina desgraçada era ela. Parecia-lhe que a pobrezita nunca

conseguira matar inteiramente a fome. Desejava

ardentemente tornar a encontrá-la. Depois disso avistou-a várias vezes, mas Becky mostrava-se sempre tão assustada e desejosa de não ser vista, que era verdadeiramente impossível falar-lhe.

Mas, algumas semanas mais tarde, numa outra

tarde igualmente brumosa, Sara, ao entrar na sua

sala particular, encontrou-se em frente de um quadro

comovedor. Na sua poltrona Favorita, junto do lume

que brilhava, Becky, com o nariz mascarrado, o

avental sujo, a touca ao lado, caída sobre uma orelha, e um grande balde vazio a seu lado, dormia profundamente, vencida pela fadiga, que ultrapassara

os limites de resistência das suas forças infantis.

Tinham-na mandado preparar os quartos para

a noite. Eram muitos, e ela andara o dia todo de um

lado para outro, sem parar. Deixara para o fim os

aposentos de Sara, tão diferentes dos outros quartos simples e nus, onde havia apenas o estritamente

necessário, considerado suficiente para as alunas vulgares.

Aos olhos da pobre criada, a sala de Sara era

um salão luxuoso, quando, na realidade, não era

mais do que uma divisão clara e alegre.

Mas havia ali gravuras, livros, objectos curiosos

trazidos da Índia e, além disso, um sofá e uma cadeira estofada. Havia também um bom lúme, os

cobres da chaminé a reluzir e, no meio de tudo isto, sentada numa cadeira proporcionada ao seu tamanho, Emily, como se fosse a deusa daquele lugar.

Becky costumava guardar o quarto de Sara para

o fim do seu dia de trabalho, porque a vista de todas

aquelas coisas tão bonitas repousava-a, e também

porque esperava sempre poder sentar-se, durante

alguns minutos, na bela poltrona, olhar para tudo o

que a rodeava e pensar no maravilhoso destino daquela menina a quem tudo aquilo pertencia e que

pelos dias de geada, passafa embrulhada em soberbos casacos, que as pobres deserdadas da sorte, como ela, procuravam, ao menos, ver de longe, através

das grades da cave.

No referido dia, as suas pobres pernas fatigadas haviam experimentado um alívio tão grande, quando se sentara, que uma sensação de bem-estar a invadira inteiramente; entorpecida pelo reconfortante calor do fogão, com os olhos fixos nas brasas avermelhadas, e um vago sorriso nos lábios, a cabeça inclinara-se-lhe pouco a pouco, sem ela própria dar por isso, as pálpebras foram-se- lhe cerrando e, no fim, adormecera.

Não havia ainda dez minutos que tinha adormecido, quando Sara entrou. O seu sono era tão profundo como o da “Bela Adormecida no Bosque! simplesmente, a pobre Becky estava longe de se parecer com a princesa do conto, pobre, feia, cansada como estava!

Ao lado dela, Sara parecia uma criatura vinda de um mundo diferente.

Regressava de uma lição de dança e, embora houvesse essa lição todas as semanas, o dia em que vinha o professor de baile era, para todas as alunas, um dia de contentamento.

Exibiam-se, nessa ocasião, os vestidos mais bonitos, e como Sara dançava invulgarmente bem, dispensavam-lhe especial atenção, e Mariette recebera ordem de a vestir com a máxima elegância possível.

Naquele dia trazia um vestido cor-de-rosa; Mariette comprara botões de rosas naturais e fizera uma coroa que entrelaçara nos seus cabelos negros e encaracolados.

Sara acabava de aprender uma dança encantadora, no decorrer da qual parecia uma grande borboleta a esvoaçar pela sala e, por isso, trazia o rosto

afogueado de animação e prazer.

Entrava no aposento, esboçando ainda alguns

passos de dança, quando avistou Becky a dormir como um justo, com a touca tombada sobre a orelha…

– Oh! – exclamou Sara. – Pobre pequena !

Não teve um minuto, sequer, de irritação, ao ver a sua cómoda poltrona ocupada por aquela pessoa enfarruscada. Pelo contrário, estava encantada por encontrar a heroína da história que inventara e por ter, finalmente, ocasião de Lhe falar.

Aproximou-se docemente e contemplou-a. Becky ressonava levemente.

“Gostava que ela acordasse sòzinha – pensava Sara. – Contraria-me ter de a acordar; mas, se por acaso Miss Minchin a surpreende aqui, fica furiosa. Vou esperar um momentinho. ”

Sentou-se na borda da mesa, balouçando as pernas, tão esbeltas nas suas meias de seda cor-de-rosa, e perguntou a si própria o que devia fazer. Miss Amélia podia, muito bem, entrar de um momento para o outro, e Becky seria severamente repreendida.

“Mas ela está tão fatigada! – -pensava Sara.

– Tão terrivelmente fatigada!”Um bocado de carvão que caiu da fornalha, veio pôr fim à perplexidade de Sara. Becky estremeceu e abriu os olhos com um suspiro de pavor. Não dera por ter adormecido; havia apenas alguns instantes que estava ali – pensava… e eis que, de repente, se encontrava, confundida, na presença daquela maravilhosa menina, que parecia uma fada cor-de-rosa, e olhava para ela com interesse, lá do alto da mesa onde se empoleirara.

Pôs-se de pé, num pulo, e esforçou-se por colocar a touca direita, na cabeça. As mãos tremiam- lhe. O que ela fizera! Deixar-se adormecer descaradamente na poltrona de uma das meninas do colégio! Iam pô-la na rua, sem Lhe pagar a soldada! E a pobre rapariga começou a soluçar.

– Oh miss, miss, Peço-lhe perdão – balbuciava ela – Perdoe, miss!

Sara saltou para o chão e veio até ao pé dela, dizendo-lhe, tão gentilmente como se falasse a uma das suas condiscípulas:

– Não tenhas medo. Isto não tem importância.

– Eu não fazia tenção, juro, miss – protestava Becky. – A culpa foi do calor do fogão e, também, porque eu estava muito cansada… Não foi por atrevimento!

Sara sorriu, amigàvelmente, e pôs a mão sobre o ombro da criadita.

-Como não querias tu dormir se estavas tão fatigada? – disse ela. – Tu ainda não estás bem acordada!

A pobre Becky devorava Sara com os olhos. Nunca ninguém Lhe falara com tanta doçura. Estava habituada a ouvir ralhár, a ser mandada e até, muitas vezes, a receber pontapés. E, afinal, aquela menina, linda como os anjos, vestida de cor-de-rosa, dizia-Lhe que ela também tinha o direito de estar fatigada e, mesmo, de se deixar adormecer! A mão, tão delicada de Sara, pousava sobre o ombro de Becky, o que Lhe parecia verdadeiramente incrivell.

-A menina não está zangada? Não vai contar à senhora?

-Não direi nada, podes estar tranquila! O coração de Sara sofria, ao verificar o terror que se estampara na cara mascarrada da criadita.

Teve, mesmo, uma sensação de desgosto intolerável. Então, uma ideia, como só ela era capaz de ter, atravessou-lhe o espirito. E acariciou as faces de Becky.

– Na realidade; nós somos semelhantes! – exclamou Sara. -Foi só por um puro acidente que tu nasceste no meu lugar e eu no teu!

Becky não compreendia. Estas considerações eram demasiado elevadas para o seu espírito; e depois

para ela, a palavra “acidente” significava, apenas, uma terrível calamidade, tal como: ser atropelada por uma carruagem, cair de uma escada e ser levada ao hospital.

– Um acidente, miss – murmurou ela, respei tosamente. – Acha?

– Acho, sim – respondeu Sara, que a fitava com olhos sonhadores.

Depois, vendo que Becky não a compreendia, disse-Lhe noutro tom:

– Já acabaste o teu trabalho? Podes ficar aqui mais um bocadinho?

Becky sentiu-se, mais uma vez, sufocada, e perguntou:

– Eu Aqui?

Sara foi abrir a porta e espreitou para o corredor, deixando passar uns momentos para certificar-se se via ou ouvia qualquer coisa.

– Não anda por aqui ninguém – explicou ela. -Tu já arranjaste todos os quartos, talvez possas

demorar-te um pouco. Tenho a certeza de que havias de gostar de comer um bolo…

Os minutos que se seguiram foram, para Becky, como um sonho. Sara abriu um baú e deu-lhe uma grossa fatia de bolo, regalando-se de ver a pobre criada devorá-lo com avidez. Falou com ela, fez-lhe perguntas, e tudo isto com um ar tão alegre, que o pavor de Becky começou a acalmar-se a ponto

de a pequenita se atrever – ela, a miserável Becky – a fazer perguntas a Sara.

– Esse vestido… – começou ela, olhando o vestido cor-de-rosa com uma espécie de inveja – é o mais bonito que a menina tem?

– É um dos vestidos que eu costumo vestir para dançar – respondeu Sara. – Gosto muito dele. E tu?

Becky conservou-se, durante alguns instantes, muda de admiração. Depois, respondeu em voz

baixa, com respeito:

– Uma vez, vi uma princesa. Eu estava na ruatal, com muita gente que tinha ido ver as pessoas ricas

entrarem na Ópera. Havia uma senhora para quem

todos olhavam mais do que para os outros. E diziam: nÉ a princesa”. Era uma menina crescidatoda de cor-de-rosa: casaco, vestido, flores, tudo!

Quando vi a miss sentada na mesa, julguei que era

a princesa, porque é muito parecida com ela.

– Tenho pensado muitas vezes – disse Saracom a sua voz musical – que gostava imenso de ser

princesa. Queria saber o que elas pensam, o que elas

sentem. Agora, vou imaginar que sou uma princesa.

Becky continuava a não compreender as palavras de Sara, mas olhava para ela com os olhos fixosnuma espécie de adoração.

Sara saiu do seu sonho e fez uma nova pergunta a Becky:

-Estiveste a ouvir-me, naquela noite, lá em

baixo, na aula?

– Estive – confessou a pequena, novamente

dominada por um vago terror. – Eu bem sei que não

devia, mas era tão bonito! Não fui capaz de me

dominar…

– Até gostei que ouvisses – declarou Sara. –

Quando contamos histórias ficamos sempre contentes se percebemos que gostam de nos ouvir. Querias

saber a continuação?

Becky sentiu, outra vez, que Lhe faltava a respiração, e exclamou:

– Eu? Tal qual como se fosse uma aluna do

colégio? A linda história do príncipe e das sereias

pequeninas que nadavam, a rir, com estrelas nos

cabelos!…

Sara fez um sinal afirmativo, com a cabeça.

Depois disse:

– Hoje, receio bem que já não tenhas tempo.

Mas diz-me a que horas vens arrumar o meu quarto que eu procurarei estar aqui e contar-te-ei um bocadinho

todos os dias, até que a história acabe. É uma história muito comprida e muito bonita. E eu acrescento-lhe sempre qualquer coisa.

Ai – suspirou Becky, com convicção. – Bem me importa, a mim, que o balde de carvão seja pesado ou que a cozinheira me atormente, quando eu puder pensar na história durante todo o dia!

– Podes muito bem fazer isso. Contar-te-ei a história do princípio ao fim – disse Sara.

Quando Becky voltou para a cozinha, não era a mesma que havia subido a escada, ajoujada sob o peso do carvão. Tinha uma fatia de bolo, na algibeira, vinha quentinha e refeita das canseiras do dia; mas não foram apenas o calor do lume e o bolo que lhe haviam dado forças: fora, também, a presença de Sara.

Depois de ela ter saido, Sara voltou para o seu lugar favorito, no canto da mesa. Pousou os pés numa cadeira, pôs os cotovelos nos joelhos e o queixo

encostado às mãos.

“Se eu fosse princesa… uma verdadeira princesa – pensava ela – poderia ser muito generosa

para os pobres; mas, mesmo sendo princesa apenas na minha imaginação, posso inventar pequenas coisas que lhes dêem prazer, como fiz há bocado com

Becky. Ela sentia-se tão feliz como se eu lhe tivesse dado uma grande esmola. Vou passar a imaginar também que, fazer coisas pequenas, com intenção de tornar os pobres felizes, é ser generosa. Hoje fui muito generosa. ”

AS MINAS DE DIAMANTES

Pouco tempo depois do que acabámos de contar, Sara recebeu notícias que excitaram não sòmente a sua curiosidade como a de todo o colégio, tornando-se o assunto de todas as conversas durante muitas semanas.

O capitão Crewe contava, numa das suas cartas, uma história interessante:

Acabava de receber a visita inesperada de um dos seus antigos condiscípulos, que possuía na Índia grandes terrenos, nos quais haviam sido descobertos diamantes. O proprietário desses terrenos fizera a viagem para organizar a exploração das preciosas ninas.

Se tudo corresse bem, como era natural, estava na posse de uma riqueza tão considerável, que só pensar nela lhe causava vertigens. E como tinha uma grande estima pelo capitão Crewe, seu amigo de infância, queria proporcionar-lhe maneira de aumentar também a sua fortuna, tornando-o seu associado.

Foi isto, pelo menos, o que Sara compreendeu, ao ler a carta do pai.

Evidentemente, tanto ela como as condiscípulas teriam mostrado muito menos interesse se se tratasse de qualquer outro objecto de negócios, por mais vantajoso que fosse. Mas, isto de “minas de diamantes” parecia-se tanto com as “Mil e Uma Noites” que ninguém podia ficar indiferente.

Sara, encantada, fez logo a descrição dos túneis em labirinto, que desciam ao centro da terra, e de cavernas com as paredes, o tecto e o solo coberto de gemas refulgentes, onde trabalhavam indígenas de pele bronzeada, munidos de pesadas picaretas. Hermengarda e Lottie escutavam-na, deslumbradas, e exigiam que a descrição recomeçasse todas as noites.

Tudo isto irritava prodigiosamente Lavínia, que logo começou a dizer a Jessie, em segredo, que não acreditava nas tais minas de diamantes.

– A minha mãe tem um anel com um diamante, que custou muito caro. E, no entanto, esse diamante não é muito grande. Já vês que, se essas minas existissem, os donos seriam tão ricos, que se tornariam ridículos!

– É talvez a sorte que espera Sara… respondeu a outra, com um riso trocista.

-Ela não precisa de ser mais rica para ser ridícula!~observou Lavínia em tom de desprezo.

– Tu não a podes ver. – disse Jessie.

– Não é isso – replicou Lavínia com azedume -; mas não creio em minas cheias de diamantes.

-A verdade é que a alguma parte os hão-de ir buscar – respondeu Jessie e perguntou – Sabes o que Gertrudes me contou?

– Não; nem me interessa, se, por acaso, é qualquer coisa a propósito dessa celebérrima Sara!

-Pois é, justamente, acerca dela! Uma das suas novas manias é imaginar que é princesa: Não pensa noutra coisa, mesmo durante as aulas; diz que aquela ideia a ajuda a estudar melhor as lições. E quis persuadir Hermengarda a fazer o mesmo; mas a Hermengarda acha que é gorda de mais para ser princesa…

– Hermengarda é muito gorda, e Sara é muito magra… – disse Lavínia.

jessie riu novamente, com malícia, e continuou:

Sara diz que, para ser princesa, não tem importância ser bonita ou feia, rica ou pobre. O que importa são os nossos pensamentos e as nossas acções.

-Naturalmente, ela imagina que poderia ser princesa mesmo que andasse a pedir esmola pelas

ruas – respondeu Lavínia. – Nesse caso vamos tratá-la por Vossa Alteza.

As aulas tinham terminado, naquele dia, e as duas amigas estavam sentadas na sala de estudo, em frente do fogão, gozando a hora mais agradável para todas as alunas – aquela em que dão por findos os seus trabalhos.

Miss Minchin e Miss Amélia preparavam-se para tomar chá na sua salinha particular. Era o momento em que as alunas podiám conversar à vontade e fazer confidências, principalmente quando as mais pequenas se conservavam tranquilas, em vez de questionarem e correrem ruidosamente de um lado para o outro, como costumavam fazer. Quando o barulho era maior as mais velhas intervinham, ralhavam, e davam- lhes o seu sopapo; porque estavam incumbidas de as manter na ordem e, se não o fizessem, miss Minchin e miss Amélia não tardariam a aparecer encurtando assim aquela deliciosa hora de liberdade.

Lavinia falava ainda quando a porta se abriu e Sara entrou com Lottie, que se habituara a segui-la

por toda a parte, como um cãozinho.

– Aí está èla, com essa insuportável garota – murmurou Lavínia. – Visto que gosta tanto dela, porque a não guarda no seu quarto? Não tarda cinco minutos que a petiza não comece a gritar por qualquer coisa…

Lottie tivera, de repente, o desejo de ir brincar para a sala de estudo, e pedira a sua “mãe adoptiva” que a acompanhasse. Correu a juntar-se a um grupo ne petizas da sua idade, que brincava a um canto, e Sara acomodou-se num banco que estava no vão da janela, disposta a ler um livro que trouxera. Era uma história da Revolução Francesa, e não tardou que a descrição horrivel dos prisioneiros da Bastilha – esses homens tanto tempo metidos em mas morras que, ao serem libertados, pareciam fantasmas, com a barba e o cabelo a esconder-lhes inteiramente o rosto – a absorvesse inteiramente.

A imaginação de Sara levou- a tão ràpidamente para longe do Colégio Minchin, que Lhe foi deveras desagradável ser chamada à realidade por um grito agudo de Lottie.

Nada era mais difícil para ela do que dominar a sua irritação, quando alguém a interrompia durante as horas da leitura. Todos aqueles que gostam de ler, decerto compreendem isto.

-É tal qual como se recebesse uma bofetada e sentisse um desejo invencível de dar outra em paga… – tínha Sara dito, um dia, a Hermengarda.

-É preciso que eu me domine ràpidamente, para não dizer palavras desagradáveis.

Teve, na realidade, que fazer um grande e rápido esforço sobre si própria, quando, naquele dia, fechou o livro e saltou para o chão.

Lottie divertia-se a escorregar sobre o pavimento encerado da sala e, depois de ter enervado Lavmia e Jessie com o barulho que fazia, acabara por cair, magoando-se num joelho. Agora, gritava e esperneava no meio de um grupo de amigas e adversárias, acarinhada por umas e repreendida por outras.

– Cala-te, chorona! Cala-te imediatamente!- ordenou, Lavinia.

– Eu não sou chorona – soluçava Lottie. Sara! Sara!

– Se ela não se cala, Miss Minchin ouve-a, com certeza! – exclamou Jessie. – Vamos, Cala-te, Lottiezinha, se queres um “penny” novinho em folha.

– Não quero o teu “penny”, – replicou Lottie. E como, ao olhar para o joelho, visse uma gota de sangue, recomeçou a chorar com toda a força.

Sara precipitou-se na sala e ajoelhou ao pé da pequenita, passando-lhe os braços em volta do pescoço.

– Vamos, Lottie, vamos – disse ela. – Que prometeste tu à tua Sara?

– Chamaram-me chorona – gritava Lottie, lavada em lágrimas.

Sara acariciava-a, mas falava-lhe num tom sério, que Lottie conhecia muito bem:

– E é verdade, minha querida Lottie, se continuares. Que me prometeste tu? Que foi?

Lottie sabia perfeitamente o que tinha prometido. Por isso, preferia mudar de assunto.

– Eu não tenho mãezinha – começou ela. Não tenho mãezinha nenhuma!

– Tens, sim. Tens uma mãezinha – disse Sara, alegremente. – Esqueces-te de que Sara é tua mamã? Já não queres que a Sara seja tua mamã?

Lottie chegou-se muito para ela, a murmurar baixinho palavras que ninguém entendia, com ar de consolação.

-Vem sentar-te no banco da janela, ao pé de mim – continuou Sara – e contar-te-ei uma história.

– Contas – disse Lottie, com voz de mimo. Contas-me a história das minas de diamantes?

(i ) Moeda inglesa.

– As minas de diamantes – interrompeu Lavínia. -Insuportável piegas! A minha vontade era dar-lhe uma bofetada!

Sara ergueu-se, de um salto. É preciso não

esquecer que ela fora bruscamente arrancada à leitura da história impressionante da Bastilha, e que lhe

fora necessária uma forte dose de força de vontade

para vir tomar o seu lugar junto da sua “filha adoptiva”. Sara não era um anjo e não tinha a menor

simpatia por Lavínia.

– Pois bem – exclamou ela com veemência. O meu desejo era dar-te uma bofetada, a ti. Mas

não o farei – continuou dominando-se. – Ou antes,

gostaria de te bater, mas não o quero fazer. Nós

não somos duas garotas da rua e já temos idade para

nos sabermos conduzir.

A ocasião era óptima, e Lavínia não a quis perder. Por isso, respondeu:

– Ora essa, Alteza! Nós somos princesas, creio eu. Pelo menos, uma de nós duas. Que glória para miss Minchin contar uma princesa entre as suas alunas!

Sara deu um passo para Lavínia, como se quisese esbofeteá-la, e talvez esse pensamento Lhe atravessasse o cérebro. A sua inocente mania de imaginan os mais extraordinários sonhos, era a sua felicidade. Nunca falara nisso às companheiras de quem

não gostava.

Aquela recente ideia de se imaginar princesa era um ponto delicado, no qual ela não queria que

ninguém tocasse. Guardava ciosamente o seu segredo, e eis que Lavínia troçava dele diante de todo o colégio… Sara sentiu o sangue subir-lhe ao rosto.

Mas conseguiu vencer-se. Quando se é princesa, não

é próprio deixar-se dominar pela cólera. A sua mão

tombou e ela ficou imóvel durante alguns segundns. Depois, começou a falar numa voz novamente

firme e segura; levantou um pouco a cabeça e todas as outras pequenas escutaram:

– É verdade: às vezes, imagino que sou uma princesa, a fim de chegar a conduzir-me como se o fosSe realmente.

Lavínia não sabia que dizer. Muitas vezes já verificara que Lhe faltavam os argumentos quando discutia com Sara. A verdadeira razão disto era as alunas tomarem sempre uma atitude de aprovação, quando a outra falava.

Naquela tarde, Lavínia viu todas olharem para Sara com um interesse enorme. Gostavam de histórias de princesas e esperavam que ela lhes contasse uma; como se obedecessem todas ao mesmo desejo, aproximaram-se dela. Por isso, o último comentário ne Lavinia não teve o melhor êxito…

– Espero – disse ela – que não te esqueças de nós qùando subires ao trono…

– Com certeza que não – respondeu Sara. E sem acrescentar mais nada, ficou imóvel, olhando fixamente para Lavínia, até que a outra resolveu retirar-se, pelo braço de Jessie.

A partir desse dia, as alunas que invejavam Sara, começaram a chamar-lhe “Princésa”, quando queriam metê-la a ridículo; ao passo que as outras, que a estimavam, lhe davam esse tratamento como prova de afeição.

As admiradoras de Sara estavam encantadas com o esplendor daquele título e com a originalidade que lhe dera causa; até miss Minchin, que fora posta ao corrente do que se passava, contava aquela anedota às visitas que recebia, como se estivesse persuadida de que tal facto dava um certo brilho aristocrático ao seu colégio.

Quanto a Becky, achava este título de princesa o mais natural possível. As suas relações com Sara, iniciadas naquele dia de chuva e frio, em que Becky se deixara adormecer na poltrona do seu quarto, tinham progredido muito. Diga-se, desde já, que Miss Minchin e Miss Amélia não estavam perfeitamente

informadas disso… Tinham notado que Sara se mostrava extremamente bondosa para com a criaditamas ignoravam totalmente os minutos encantadores

e, ao mesmo tempo, arriscados, em que Becky, depois

de ter preparado os quartos com surpreendente rapidez, chegava à salinha de Sara e punha no chãocom um suspiro de alivio, o balde de carvão. Então

Sara contava-Lhe um capítulo de alguma história

maravilhosa; certos produtos alimentares, dos mais

apetitosos, saíam do seu baú, e Becky fazia-lhes

honra… ou metia-os na algibeira, para se regalar

com eles, mais tarde, na solidão das águas-furtadas

onde dormia.

– Mas tenho que ter cautela, quando como…

dissera ela, um dia-, porque, se deixo cair migalhas, as ratazanas vêm apanhá-las…

– As ratazanas!- exclamou Sara, horrorizada.

– No teu quarto há ratazanas?

– Um regimento delas… – respondeu Becky, com a maior calma. – Há sempre ratazanas e ratos

nos sótãos. A gente acostuma-se depressa ao barulho que eles fazem, a correr de um lado para o

outro. Eu já estou de tal forma habituada, que só

dou por isso quando passam por cima do meu travesseiro.

– Ui!- exclamou Sara.

– Nós habituamo-nos a tudo… – replicou Becky.

– Se a menina tivesse nascido como eu, sucedia-lhe

o mesmo. Gosto mais dos ratos que das pessoas

fingidas…

-Também eu – concordou Sara – porque

julgo que os ratos sempre se podem apanhar, enquanto que uma pessoa hipócrita não me parece

fácil…

Havia dias em que Becky não se atrevia a ficar

mais do que uns breves minutos naquele lindo quarto

tão quentinho; nesses dias as duas amigas trocavam apenas algumas palavras e metiam ràpidamente um pacotinho na algibeira, à moda antiga, que Becky usava debaixo do vestido, presa à cintura por um nastro vermelho.

Sara descobrira, assim, mais um interesse na sua existência: procurar e descobrir coisas boas, alimentares e saborosas, que pudessem meter-se num pequeno pacote. Sempre que saía a pé ou de carruagen, inspeccionava, com o olhar, todas as montras de restaurantes e pastelarias. No dia em que teve a ideia de trazer dois ou três pastéis de carne, sentiu que fizera uma verdadeira descoberta. Os olhos de Becky brilharam, à vista dos pastéis.

– Oh, miss – murmurou ela. – Isto é bom e alimenta. O que alimenta é melhor. Os bolos são deliciosos, isso é verdade, mas derretem-se na boca, não se sentem passar… A menina compreende? Ao passo que isto, enche o estômago.

– Meu Deus – disse Sara, lentamente. – Eu penso que ter o estômago cheio de mais não é lá muito bom, mas acredito que te dê satisfação.

Becky ficou, efectivamente, contentissima com os pastéis de carne e bem assim com as sanduíches de fiambre e os pãezinhos com mortadela que Sara lhe passara a comprar, regularmente. Pouco a pouco, a criadita começou a sentir-se menos fatigada e a não ter fome, e o balde do carvão parecia-lhe menos pesado.

De resto, o balde podia pesar muito ou pouco; a cozinheira podia estar de péssimo humor; o trabalho podia ser penoso e excessivo; a ideia dos momentos que passaria junto de Sara, na sua confortável salinha, dava coragem a Becky para suportar tudo.

Na realidade, a presença de Sara, mesmo sem as gulodices que costumava dar-lhe, bastava para reconfortar a pobre pequena. Quando tinham apenas o tempo indispensável para trocar algumas palavras eram sempre palavras carinhosas, que aqueciam o coração; e quando era possível Becky demorar- se mais, havia sempre uma história, ou uma conversa divertida, que ela recordava depois, ao serão, e revivia na memória, quando estava deitada, lá em cima, nas águas-furtadas. Sara, que obedecia apenas às suas tendências, porque era naturalmente boa e generosa, estava longe de supor o que representava para Becky o papel de fada benéfica que desempenhava junto da pobrezita. Quando se é dotado de uma alma terna e compadecida, as mãos abrem-se, por si, e o coração também. E se algumas vezes as mãos estão vazias, o coração, se é inesgotável e pode dar semnpre coisas belas, boas e doces: consolações, conforto, alegria – e a alegria é, muitas vezes, o mais eficaz

de todos os dons.

Becky nunca, na sua breve e miserável existência, soubera o que era rir. Foi Sara quem a ensinou, e ria também com ela. E, sem que o suspeitasse, uma gargalhada espontânea fazia tão bem a Becky como um bolo ou um pastel de carne.

Algum tempo antes de Sara completar onze anos, recebeu ela uma carta do pai, que não parecia

escrita com a boa disposição habitual. Dizia que estava fatigado e que se sentia esmagado pelo trabalho e pelas preocupações que lhe causavam as

famosas e grandes minas de diamantes.

“Vê tu, minha Sarinha – dizia ele -, o teu papá não é, positivamente, um homem de negócios; os planos, os relatórios e o resto dão-lhe cabo da cabeça. O teu papá não percebe nada disto e tudo Lhe parece fantástico. Tenho febre e passo uma parte da noite às voltas, e a outra parte a debater-me com pesadelos.

“Se a “minha senhorazinha” aqui estivesse, tenho a certeza de que ela me daria, com o seu ar grave, um bom conselho. Não é verdade, mínha senhora?”

Uma das brincadeiras favoritas do capitão Crewe era chamar “senhorazinha” à filha, por causa do seu ar sério, que lhe dava o aspecto de uma criança de outro tempo.

Nessa carta contava-lhe também o pai tudo o que preparava para festejar o aniversário do nascimento da sua querida menina. Entre outras coisas encomendara, em Paris, uma nova boneca, cujo enxoval seria uma verdadeira maravilha.

A resposta de Sara a esta carta, em que o pai lhe perguntava se a boneca seria bem recebida, era uma obra-prima de diplomacia.

“Começo a estar muito crescida – escreveu ela

– e não terei, nunca mais, outra boneca. Esta será a última, e esta ideia é muito grave. Se eu soubesse fazer versos, estou certa de que um poema, sobre “a última boneca”, seria lindo. Mas não sou capaz de compor poesia! experimentei e ri com vontade! O que escrevi não se parecia absoIutamente nada com Coleridge ou Shakespeare… Ninguém tomará, nunca, o lugar de Emily, mas serei muito amiga da “nova Boneca” e tenho a certeza de que todo o colégio rejubilará com ela. As alunas gostam todas de bonecas, embora as “grandes” (as que vão quase nos quinze anos) afirmem que já não têm idade para isso. ”

O capitão Crewe tinha uma terrível dor de cabeça quando leu esta carta, lá longe, na sua casa de campo. Diante dele, sobre a mesa, amontoavam-se cartas e papéis, que o enchiam de receio e ansiedade; apesar disso, riu como há muito tempo não ria.

“Oh – pensava ele – à medida que vai crescendo, a minha Sara vai-se tornando ainda mais espirituosa. Permita Deus que este negócio se faça e me deixe livre, para ir beijá-la! Quanto daria eu, meu Deus, para ter os seus bracinhos em volta do meu pescoço, neste momento!”

O aniversário de Sara devia ser celebrado com

uma grande festa no colégio. A sala de estudo seria

sumptuosamente decorada. Ali se abririam, com

grande solenidade, as caixas que continham os presentes. No salão de miss Minchin, servir-se-ia

um lanche magnífico.

Quando o grande dia chegou, todas as alunas

estavam numa agitação indescritível. A manhã passou-se sem elas próprias saberem como, tantos eram

os preparativos.

Ornamentaram a sala de estudo com festões de

azevinho, tiraram as estantes e os bancos vermelhos foram dispostos em volta da sala, encostados

à parede, e dissimulados com cobertas vermelhas.

Quando Sara entrou na sua sala particular

encontrou em cima da mesa um estranho pacote; mal feito, embrulhado num papel cinzento, grosseiro. Compreendeu que se tratava de um presente

e adivinhou imediatamente donde vinha. Abriu o

embrulho com ternura: continha uma pregadeira

para alfinetes, feita de flanela vermelha, já um pouco

desbotada, e sobre a almofada, desenhada por alfinnetes de cabeça preta, havia estas palavras: “Um

aniversário feliz”

– Oh I – exclamou Sara, comovida. – Que trabalho que ela teve! Estou tão contente… que tenho quase, vontade de chorar.

De repente, a sua fisionomia teve uma expressão de profunda surpresa. Debaixo da pregadeira

havia um cartão de visita com um nome impresso

em caracteres bem legíveis: “Miss Amélia Minchin”.

Sara voltava e tornava a voltar o cartão, entre

os dedos nervosos.

Miss Amélia – pensava ela. – Que quer isto

dizer?”

Mas, naquele instante, ouviu a porta abrir-se

docemente e viu a cabeça de Becky a espreitar: No

seu rosto havia um sorriso bom, feliz, e ela entrouarrastando os pés e torcendo nervosamente as mãos.

– Gostou, Miss Sara – perguntou ela.

– Gostei muito – respondeu Sára. – Querida Becky, que fez sozinha esta linda pregadeira!

Becky fungou, alegremente; os seus olhos estavam brilhantes de felicidade.

– Só tem a flanela, e a flanela já não é nova; mas eu queria oferecer-lhe qualquer coisa e lá consegui fazer isto, às escondidas, de noite. Eu bem sabia que seria dificil a menina imaginar que era uma pregadeira de cetim cor-de-rosa, com alfinetes de diamantes… Eu própria quis acreditar que era assim, enquanto a ia fazendo. O cartão de visita…

– acrescentou ela, com hesitação – creio que não fiz mal em o tirar do cesto dos papéis. Acha… miss Amélia tinha-o deitado fora. Eu não tenho cartões com o meu nome e não é próprio oferecer um presente sem lhe juntar um cartão. Foi por isso que pus o de Miss Amélia.

Sara saltou-Lhe ao pescoço e beijou-a nas duas fáces. Sem saber bem porquê, sentia a garganta apertada.

– Oh Becky – exclamou, com um riso trémulo. – Gosto muito de ti, sabes? Gosto muito de ti!

– Oh Miss Sara – murmurou Becky. – Mil vezes obrigada, mas isto não tem importância: a flanela… a flanela até já está um pouco usada…

AINDA A MINA DE DIAMANTES

Foi com toda a solenidade que Sara entrou na aula ornamentada com azevinho.

Miss Minchin, ostentando o seu melhor vestido de seda, conduziu-a pela mão. Seguiu-se um criado com uma caixa que continha a última Boneca”; uma criada de quarto vinha logo após, carregada com uma segunda caixa, e Becky, com um avental lavado e uma touca nova, fechava a marcha com um terceiro pacote.

Sara teria preferido mil vezes entrar com simplicidade, mas Miss Minchin chamara-a à sua sala particular e comunicara-lhe o seu desejo.

– É um grande dia – declarou ela – e deve ser celebrado como convém.

De maneira que Sara fez a sua aparição à frente de uma espécie de cortejo, sentindo-se confusa ao ver as alunas mais crescidas tocarem nos braços umas das outras, e as mais pequenas agitarem-se alegremente nas cadeiras.

– Silêncio, meninas – disse MiJs Minchin, porque se levantara um murmúrio geral. – James, ponha a outra caixa numa cadeira. Becky!

Este último nome foi pronunciado de uma forma breve e severa, porque Becky, contagiada pela agitação geral, esquecera-se completamente do que fazia, e sorria para Lottie, que saltitava de alegria, impaciente.

A dura voz de Miss Minchin surpreendeu-a a tal ponto que, por pouco, não deixou cair o embrulho. Para pedir desculpa, fez uma pequena reverência, tão desajeitada, que Lavínia e Jessie começaram a rir baixinho.

– Tu não estás aqui para olhar para estas meninas – continuou Miss Minchin. – Que esperas? Vamos, põe aí a caixa!

Becky obedeceu com uma precipitação angustiosa, e dirigiu-se apressadamente para a porta.

– Podem retirar-se – ordenou Miss Minchin n aos criados, com um gesto breve.

Becky desviou-se respeitosamente, para que os outros passassem. Mas não pôde deixar de lançar um olhar de pena para a caixa que estava em cima da mesa. Via-se um bocado de cetim entre as dobras do papel de seda.

Miss Minchin – disse, sùbitamente, Sara. Becky não pode ficar?

Era preciso ter audácia para fazer semelhante pergunta a Miss Minchin.

A directora estremeceu. Depois, pôs a luneta e olhou para a sua “brilhante aluna” com ar de reprovação.

– Becky – exclamou ela. – Oh! Minha querida Sara

A pequena deu um passo na direcção de Miss Minchin, e disse:

-Desejo que fique, porque também há-de gostar de ver os meus presentes. Ela também é criança.

Miss Minchin estava sufocada. Os seus olhos iam de Sara para a criadita e desta para Sara.

– Mínha querida menina – continuou ela.

Becky é ajudanta de cozinheira. As ajudantas de cozinheira… claro… não são crianÇas.

Evidentemente que nunca Lhe tinha ocorrido semelhante ideia.

As ajudantas de cozinheira eram, para ela, máquinas de lavar loiça e de deitar carvão na fornalha, nada mais.

– Mas Becky é uma criança – afirmou Sara, tranquilamente. – Eu sei que isto a divertirá. Tenha a bondade de permitir que ela fique, em honra do meu aniversário.

Miss Minchin logo respondeu, com ar muito digno:

– Visto que me faz esse pedido como um favor pessoal, pode ficar. Rebeca, agradece a miss Sara a sua bondade.

Becky tinha-se consentrado, no limiar da porta torcendo a ponta do avental, ao mesmo tempo ansiosa e encantada.

Avançou fazendo uma reverência; e, enquanto agradecia, em frases curtas e hesitantes, os seus olhos trocaram com os de Sara um longo olhar carinhoso.

– Oh! Mil vezes obrigada, miss! Estou-lhe muito reconhecida, miss! Eu tinha um grande desejo de ver a boneca, miss, isso é verdade! Muito obrigada, miss! E também muito obrigada à senhora – disse, com uma reverência assustada; e, dirigindo-se a miss MIinchin, acrescentou – Muito obrigada por me ter permitido aqui ficar.

Miss Minchin fez, de novo, com a mão, um gesto breve, desta vez na direcção do canto mais próximo da porta.

– Fica ali – ordenou ela. – Não te ponhas muito perto das meninas.

Becky obedeceu, com o coração a pulsar de alegria. Pouco Lhe importava o lugar que Lhe destinavam, desde o momento que lhe permitiam ficar ali, durante a festa que ia realizar-se.Nem sequer ficou perturbada quando Miss Minchin, depois de

tossir ruidosamente, retomou a palavra:

– Meninas – anunciou ela. – Tenho uma coisa

para lhes dizer.

– Vai fazer um discurso – murmurou uma das

mais crescidas. -Quem me dera já que ela chegue

ao fim.

Sara sentiu-se pouco à vontade. Visto que era

a sua festa, Miss Mínchin ia, com certeza, falar dela.

E era agora muito desagradável estar ali, de pé numa

aula, a ouvir um discurso em sua honra.

– Todas sabem que a nossa querida Sarnha faz

hoje onze anos – comeÇou ela.

– Oh, querida Sara – murmurou Lavinia irònicamente.

– Muitas das meninas também já fizeram onze

anos; mas os dias do aniversário de Sara são um

pouco diferentes dos das outras meninas. Quando

ela for crescida herdará uma grande fortuna, que

será seu dever gastar útil e generosamente.

– As minas de diamantes – troçou Jessie em

voz baixa.

Sara não a ouviu; mas, enquanto os seus olhos

verdes não se desfitavam de Miss Minchin, sentia as faces tornarem-se-lhe vermelhas. Todas as vezes

que Miss Minchin falava de dinheiro, Sara experimentava por ela um verdadeiro sentimento de aversão; e toda a gente sabe que detestar as pessoas crescidas é uma falta de respeito.

– Quando o seu excelente pai, o capitão Crewe,

ma confiou – prosseguiú Miss Minchin – disse-me, em ar de brincadeira: “Receio que a minha filha

venha a ser, um dia, terrivelmente rica… “. E eu

respondi-Lhe: “Ela receberá, na minha casa, uma

educação, digna da menina mais rica do mundo!”.

Ora, Sara tornou-se a nossa aluna mais brilhante;

a maneira como ela fala francês e dança honra o

colégio. Tem maneiras tão delicadas, que vós mesmas lhe chamais “Princesa Sara”. Oferecendo-vos esta recepção, Sara dá-vos uma prova de grande amabilidade. Espero que saibais apreciar a sua generosidade, dizendo alto, todas ao mesmo tempo: “Obrigada, Sara”.

As alunas levantaram-se imediatamente, e, como no dia longínquo da chegada de miss Crewe ao colégio, disseram todas à uma:

– Obrigada, Sara!

Lottie saltava e mexia-se sem parar, no seu banquinho. Sara parecia intimidada: Fez uma reverência graciosa às condiscípulas e disse:

-Eu é que lhes agradeço o terem vindo à minha festa.

– Muito bem! Muito bem, Sara – aprovou miss Minchin. – É o que fazem as verdadeiras princesas, quando o seu povo as aclama. Lavinia (e isto foi dito num tom glacial), parece-me que a menina fez troça. Se tem ciúmes da sua condiscípula, podia, ao menos, exprimir os seus sentimentos de uma forma mais elegante… Agora, minhas filhas, vou deixá-las, para que se divirtam à sua vontade.

Apenas miss Minchin saiu da aula, toda a disciplina e boa compostura, mantidas até então, desapareceram. Os bancos foram abandonados em tumulto, e todas as alunas, grandes e pequenas, se precipitaram para os presentes. Sara inclinou-se sobre uma das caixas, com ar de quem está maravilhada.

– São livros, tenho a certeza! – disse ela. I, levantou-se um murmúrio de desapontamento, e Hermengarda parecía consternada.

– Então o teu papá manda-te livros como presente do aniversário? Nesse caso é tão terrível como o meu. Não os abras, Sara.

– Eu adoro os livros – respondeu Sara, rindo. Mas a suá atenção voltou-se para a caixa maior.

Quando de lá tirou a “Última Boneca”, foi uma

aparição tão bela, que todas as outras alunas soltaram gritos de alegria e recuaram, contendo a respiração, para melhor admirarem aquela maravilha.

– É quase do tamanho da Lottie – murmurou

uma.

Lottie batia as palmas, saltava e ria.

-Tem um vestido de baile e um abafo de

noite forrado de arminho – observou Lavinia.

– Aqui está a mala da roupa – declarou Sara.

– Vamos abri-la para ver o enxoval.

Sentou-se no chão e deu volta à chave. As

outras pequenas comprimiam-se à sua roda, soltando

exclamações, enquanto ela examinava, um a um, os vários compartimentos da mala, e retirava o seu

conteúdo. Nunca houvera, no colégio, uma excitação assim.

Sara ia mostrando: golas de renda e meias de

seda; um cofre com um colar e um diadema que

pareciam feitos de brilhantes verdadeiros; um casaco

de lontra e um regalo igual; vestidos de baile, de

passeio, de visitas; chapéus, roupões e leques.

Lavínia e Jessie esqueceram-se de que já eram

muito crescidas para se interessarem por bonecas e

soltavam, como as outras, gritos de entusiasmo, pegando nos objectos para melhor os examinarem.

– Imaginemos – disse Sara, enquanto punha

um grande chapéu de veludo sorridente e impassível proprietária de todas aquelas riquezas -, imaginemos que ela compreende o que nós dizemos e

que está toda contente por se sentir admirada.

– Tu estás sempre disposta a imaginar qualquer

coisa – exclamou Lavínia, com ar superior.

– Bem sei – replicou Sara, serenamente. – Mas

isso distrai-me. Não há nada mais agradável do que

fazer suposições. Tem-se, quase, a impressão de se

ser uma fada. Quando se acredita em qualquer

coisa com todas as nossas forças, é como se fosse

verdade.

-É muito bom sonhar assim, quando se tem tudo o que tu tens – disse ainda Lavinia. – Mas poderias, por acaso, fazer o mesmo, se fosses uma pobre mendiga e vivesses num sótão?

Sara deixou de arranjar as plumas do chapéu e tomou uma atitude pensativa.

– Creio que podia – respondeu ela, por fim.

– É, sobretudo, quando se é pobre, que se tem necessidade de inventar e imaginar constantemente qualquer coisa… Mas, na realidade, talvez seja menos fácil…

Mais tarde, Sara devia pensar muitas vezes que

– coisa estranha! – foi justamente no momento em que ela acabava de pronunciar aquela frase, que miss Amélia entrou na sala.

Sara!- disse a irmã da directora. – O procurador de seu pai, Sr. Barrow, pede para falar com miss Minchin, e como deseja que a conversa seja particular e o lanche está preparado na nossa sala, era preferível as meninas irem lanchar já, a fim de que a minha irmã possa receber aqui a visita.

Um lanche é uma coisa que nunca se recusa, e muitos olhos brilharam mais intensamente ao ouvir estas palavras.

Miss Amélia mandou que se colocassem em forma e tomou a dianteira do cortejo, levando Sara pela mão. A soberba boneca ficou sòzinha, em cima da poltrona, com os seus esplendores dispersos em volta: vestidos, casacos e roupa espalhados sobre os móveis.

Becky, que não era admitida ao lanche, cometeu a grande imdiscrição de se demorar ainda meio minuto, para lançar um derradeiro olhar a todas aquelas maravilhas.

Miss Amélia ordenara-lhe que voltasse ao seu trabalho, mas ela ficou para levantar do chão, primeiro, um regalo, depois um casaquínho, e enquanto contemplava aqueles objectos com verdadeiro respeito,

78

ouviu a voz de miss Minchin, no vestíbulo.

Cheia de terror, com a ideia de ser apanhada em

flagrante delito de desobediência, precipitou-se para

debaixo da mesa, que estava coberta por um grande

pano, que chegava quase ao chão.

Miss Minchin entrou, seguida por um senhor

baixinho, seco, e nariz pontiagudo, que se mostrava

um tanto perturbado. A própria Miss nVIinchin parecia ansiosa e olhava para o senhor baixinho com

ar intrigado.

Sentou-se, digna e hirta, indicando-lhe, com a

mão, uma cadeira.

– Sente-se, Sr. Barrow – disse ela.

O Sr. Barrow não obedeceu imediatamente a

esta intimaÇão. A sua atenção estava presa à

uma Boneca e às magnificências espalhadas à sua volta.

Pôs a luneta e contemplou tudo com evidente reprovação. A boneca, muito direita na sua cadeira, parecia fitá-lo com desdenhosa indiferença.

– Quando se pensa no que tudo isto deve ter

custado – observou brevemente o Sr. Barrow. Tecidos esplêndidos, Um enxoval encomendado a uma

modista de Paris! Este homem esbanja o dinheiro…

Miss Minchin sentiu-se ofendida com aquela

crítica severa, feita ao seu melhor cliente. Na verdade, ninguém, nem mesmo o procurador do capitãotinha o direito de se permitir semelhante atrevimento.

– Desculpe-me – disse ela, secamente -, mas

não compreendo o que quer dizer.

– Semelhantes presentes – prosseguiu Barrowno mesmo tom – para uma criança ne onze anos

é pura extravagância!

A atitude de Miss Minchin tornou-se ainda mais

rígida.

– O capitão Crewe é imensamente rico – torrnou ela. – Só as minas de diamantes…

Barrow voltou-se bruscamente para ela e exclamou:

– As minas de diamantes não existem! Nunca existiram!

– Como? Que significam essas palavras.

– Pelo menos – respondeu ele, secamente – era melhor que nunca as tivesse tido!

– Não tem minas de diamantes – proferiu miss Minchin, encostando- se ao espaldar da cadeira, com a sensação de que um sonho maravilhoso acabava de se desfazer…

-Ah! As minas de diamantes são, na maioria dos casos, uma origem de ruina e não de riqueza

– declarou Barrow. – Quando um homem não sabe nada de negócios, devia defender-se, como do fogo, das minas de diamantes, de ouro, ou de qualquer outra coisa, a que os amigos, que se dizem íntimos pretendem associá-lo. O defunto capitão Crewe…

Miss Minchin soltou um grito.

– O defunto capitão Crewe – articulou, com dificuldade. – O defunto! O senhor não veio anunciar-me que o capitão…

o capitão Crewe morreu, minha senhora – respondeu Barrow, com a voz brusca -, e eu estou aqui para lhe participar. Foi vitimado pelas Febres e pelos tormentos que passava por causa dos negócios. As febres não o teriam, talvez, aniquilado, se não estivesse tão esgotado de energias, e os cuidados não o teriam, talvez, morto, sem as febres… Mas, enfim, morreu e eu fui encarregado de lhe participar a sua morte.

Miss Minchin recaiu sobre a cadeira, esmagada por um surdo pavor.

– Donde Lhe vinham os cuidados – perguntou ela.

– Da famosa mina de diamantes – replicou Barrow -, do “excelente” amigo que o arrastou para esse negócio e para a ruína que se lhe seguiu.

Miss Minchin estava lívida.

– A ruína! – pronunciou ela, com esforço.

– Perdeu tudo. O capitão Crewe era muito rico.

O tal amigo, que tinha comprometido na mina toda

a sua fortuna pessoal, persuadiu-o a fazer o mesmo.

Depois, naturalmente, este “excelente amigo”, um

dia, desapareceu. O capitão Crewe já estava doente

quando recebeu a notícia desse desaparecimento.

O golpe foi demasiado forte para ele. Morreu em

pleno delírio, chamando pela filha, a quem não deixa

um centavo.

Miss Minchin compreendia, finalmente. nunca

experimentara tão terrível decepção. A sua mais

brilhante aluna, o seu cliente mais rico – tudo perdido! Parecia-lhe ser vítima de um roubo, como se

a explorassem, e que o capitão, Sara e Barrow eram

todos igualmente culpados.

– Quer, então, convencer-me – exclamou ela

– de que Sara não herdará nada e que, em vez de

uma herdeira rica, eu tenho, agora, no meu colégio, uma menina pobre?

Barrow, cheio de sagacidade, compreendeu que

era prudente salvar, ali mesmo, a sua responsabilidade.

– assim mesmo – afirmou ele. – Sara fica

sem recursos. Já nos informámos: não lhe conhecen mos um parente nem um único amigo íntimo. É a

senhora, quem terá de ocupar-se dela.

Miss Minchin correu para a porta. Dir-se-ia que

o seu primeiro movimento foi ir suspender a festa cujos ecos alegres e bastante ruidosos chegavam até ali.

– É monstruoso! – exclamou. – Neste mesmo

instante, está ela na minha sala, vestida de sedas e

rendas, dando uma recepção à minha custa!

– À sua custa, sem dúvida, minha senhora repetiu tranquilamente Barrow. – O Banco Barn Í row e Skipworth não tem nada mais que ver com este assunto. Nunca houve ruina mais rápida e completa. O capitão Crewe morreu sem liquidar a nossa última conta, que era das mais importantes.

Miss Minchin voltou para trás. A sua indignação era cada vez maior. A situação tornava-se ainda pior do que ela imaginava.

– E dizer – gritou – que eu tinha tanta confiança nele, a ponto de fazer toda a espécie de despesas, verdadeiramente loucas, com esta garota! Fui eu quem pagou esta ridicula boneca e o seu extravagante enxoval. O capitão queria que todos os desejos da filha fossem satisfeitos. Tem uma carruagem alugada ao mês, uma criada de quarto, e fui eu quem pagou tudo isso, depois que recebi o último cheque.

Barrow não tinha nenhum motivo que o leaasse a prolongar a sua visita para ouvir as recriminações de Miss Minchin. Fizera a comunicação de que estava encarregado, salvaguardara a responsabilidade da sua casa e, além disso, não sentia a menor simpatia por aquela directora de colégio transformada em fúria.

– Que hei-de eu fazer agora? – continuava miss Minchin, que parecia esperar que Barrow a livrasse de dificuldades. – Que hei-de eu fazer agora?

– Não há nada a fazer – disse ele, guardando a luneta na algibeira. – O capitão Crewe morreu, a filha ficou sem família e sem fortuna. A senhora é a única pessoa que tem responsabilidade desta criança.

– Ela não me é nada, e eu recuso-me, absolutamente, a assumir essa responsabilidade.

Miss Minchin estava lívida de furor.

Barrow dirigiu-se para a porta.

– Não posso remediar coisa alguma – disse ele, ainda, com indiferença. – E repetiu – A nossa casa fica absolutamente alheia a este triste caso, que nós

lamentamos mais do que é possível dizer.

– Se o senhor imagina que vai lançar-me, assim sem mais nem menos, esta criança nos braços, engana-se – declarou miss Minchin, com a voz abafada pela raiva. – Fui roubada, explorada! pô-la-ei na rua!

Se ela não tivesse perdido completamente o domínio sobre si própria, a sua hipocrisia habitual tê-la-ia impedido de pronunciar semelhante frase. Masvendo-se com o encargo de tomar conta de uma pequena amimada, por quem sentira, sempre, certa antipatia, não se pudera conter.

Barrow, sem se perturbar, continuava a aproximar-se da porta.

– No seu lugar, eu não faria nada disso, minha

senhora – disse ele, com grande fleuma. – Isso não

causará bom efeito. Não faltarão logo as más lIinguas a censurar o seu colégio. Toda a gente dirá que

a senhora abandonou uma das suas alunas por ela ter

ficado sem família e sem dinheiro.

Ele bem sabia o que dizia… E também sabia

que miss Minchin era muito interesseira e bastante

esperta para compreender que o bom senso lhe não

permitia cometer uma acção que lançaria pùblicamente sobre ela, uma acusação de desumanidade.

– Fará muito melhor se a conservar consigo e

lhe arranjar uma ocupação – acrescentou. – Parece

que ela é muito inteligente. Poderá, quando crescer, prestar-lhe serviços preciosos.

– Não é preciso crescer. Poderá prestar-mos

imediatamente – exclamou miss Minchin.

– Estou certo de que a senhora saberá tirar da

situação todo o partido possível – disse Barrow, com

um sorriso irónico. – Não tenho dúvida alguma

sobre isso! Até à vista, minha senhora!

Cumprimentou e saiu. Miss Minchin ficou, durante alguns segundos, a olhar furiosamente para

a porta. .

O que ele dissera era a pura verdade, ela bem o sabia. Não lhe restava outro recurso. A aluna que fora a glória do colégio, passara a não ser mais do que uma indigente. E todo o dinheiro que Miss Minchin adiantara estava perdido para sempre.

Enquanto ela estava ali, acabrunhada com a ideia da injustiça que a viera ferir, um ruído de vozes chegava até aos seus ouvidos. A isso, pelo menos, podia ela pôr termo imediatamente.

Mas naquele mesmo instante, a porta abriu-se e apareceu Miss Amélia, que recuou, ao ver a fisionomia alterada da irmã.

– Que aconteceu – perguntou ela.

Com uma voz cheia de furor concentrado, miss Minchin respondeu com outra pergunta:

– Onde está Sara Crewe?

Sara – balbuciou Miss Amélia, desconcertada. – Mas… naturalmente… está na tua sala, com as outras alunas.

– Tem ela, por acaso, um vestido preto no seu sumptuoso guarda-roupa – perguntou Miss Minchin, com ironia.

– Um vestido preto – balbuciou, de novo, miss Amélia. – Um vestido preto?

-Ela tem vestidos de todas as cores. Pergunto-te se não tem um preto.

Miss Amélia começou a fazer-se pálida e disse:

– Não… quero dizer, sim Mas está muito curto. É um vestido velho, de veludo, e ela cresceu tanto, que já o não pode vestir.

-Vai dizer-lhe que tire esse absurdo vestido de seda cor-de-rosa, e que vista o preto, esteja ele como estiver. O veludo e os enfeites acabaram para ela.

Era de mais. Miss Amélia levantou as mãos ao céu e comeÇou a choramingar:

– Oh minha irmã! Oh minha irmã! Mas que sucedeu

Miss Minchin não esteve com rodeios. Disse

secamente:

-O capitão Crewe morreu, sem deixar um

centavo. E nós temos de ficar com esta pequena

caprichosa e adulada a nosso cargo.

Miss Amélia deixou-se cair pesadamente sobre

a cadeira mais próxima.

-Gastámos, para lhe satisfazer todas as fantasias, somas enormes, de que nunca mais seremos

reembolsadas. Manda parar, imediatamente, esta ridicula festa, e diz a Sara que mude de vestido, sem

demora.

– Eu – exclamou Miss Amélia, sufocada. É indispensável… que eu… vá…

– Neste mesmo instante! Ou queres ficar aqui a olhar para mim, como uma parva? Vai…

A pobre Miss Amélia estava habituada a ser tratada assim. Reconhecia que a sua inteligência era

das mais medíocres, e que as pessoas da sua espécie são, em geral, encarregadas de todas as missões

desagradáveis, tal como entrar numa sala repleta de

raparigas que se divertem, a dizer à rainha da festa

que, de repente, passou a ser uma pobre pequena

sem família e sem dinheiro, e que deve, sem tardar, ir vestir um vestido preto, usado e curto.

Mas era forçoso executar a ordem que recebera, visto o momento não ser, evidentemente, propicio a objecções.

Enxugou os olhos, esfregando-os a ponto de

ficarem vermelhos, depois saiu da

Receba grátis a Newsletter do Histórias Infantis!

Muitas e muitos histórias infantis para contar.

, , , ,

Comentários fechados.