Written on Março 22nd, 2011 at 9:45 am by

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Era quarta-feira. A chuva não parava.

Anita vestiu a gabardina amarela e calçou as botas verdes para sair com a mãe. Iam as duas escolher uma cómoda numa loja de antiguidades. Chamava-se O Sótão, nome que lembrava objectos de outros tempos. E Anita gostava de bolos, de bonecas e de coisas antigas.

Enquanto a mãe falava com a empregada da loja, Anita rebuscava tudo com os olhos. Só com os olhos, porque não era permitido tocar nos objectos expostos.

E descobria coisas engraçadas: chapéus velhos, relógios a que apetecia fazer girar os ponteiros, flores secas, um fantoche encarnado em cima do piano e sobretudo… bonecas, muitas bonecas!

Anita bem via que as bonecas já tinham muitos anos. As caras eram de porcelana, os vestidos estavam desbotados, os cabelos pareciam de seda. Seriam cabelos verdadeiros? Anita tinha vontade de os acariciar. Estendeu a mão…

Anita, não mexas aí – disse a mãe quando a viu tocar na boneca.

Anita baixou a mão, mas aproximou-se para ver melhor. Era a boneca mais bonita! Estava sentada numa cadeira de palhinha e tinha um xaile sobre os ombros.

– Mamã, gostava tanto de ter esta boneca nos meus anos! Dás-ma? A mãe aproximou-se e disse:

-Tens razão. É muito bonita. Quando eu era pequena, havia uma no sótão da avó, mas, um dia, o tio Filipe partiu-a.

Anita sentiu o coração bater mais depressa, quando ouviu a mãe perguntar à empregada:

– Quanto custa?

Na cabecinha de Anita os pensamentos não paravam. Já imaginava o baptizado da boneca. Ia chamar-lhe “Elisabete”. E começava a sentir um formigueiro nos braços de tanto desejar apertar a boneca contra si e acariciá-la.

A empregada disse:

– Lamento muito, minha senhora, mas estas bonecas já estão vendidas. Um coleccionador viu-as na montra. Vem buscá-las esta tarde.

E continuava a sorrir! Como podia ela sorrir quando Anita estava tão triste que fazia tudo para não chorar?

– Não estejas triste, querida – disse a mãe -, havemos de encontrar outra.

Depois saíram debaixo de chuva. A rua estava cinzenta. Anita nem pensava em saltar por cima das poças de água.

– Queres um bolo de nozes?

Anita abanava a cabeça. – não, não… – De amêndoa, então?

Anita voltou a abanar a cabeça.

– Estás doente, querida?

– Estou com tanta pena!

Ninguém no mundo podia avaliar aquele desgosto. Um desgosto a sério, um desgosto que até tirava a vontade de comer bolos, de saborear fatias de pão com doce durante o programa de televisão ou de ver desenhos animados!

Não, não era um desgosto a fingir!

Chegaram a casa.

Ao fim da tarde vieram entregar a cómoda que a mãe de Anita tinha comprado. Anita nem sequer olhara para o móvel na loja. Só agora reparou que as gavetas tinham puxadores grandes como só conhecia das ilustrações do seu livro preferido.

Por instantes esqueceu a boneca e abriu a primeira gaveta.

Que surpresa! Escondida no meio de

um monte de rendas velhas estava… UMA BONECA! Não tão bonita nem tão grande como a da cadeira de palhinha.

Mas esta também se podia chamar Elisabete e também merecia o carinho

de uma menina!

Anita estava só. A mãe tinha descido com o vendedor. Num instante, Anita agarrou na boneca e foi escondê-la debaixo da cama. Quando voltou a correr, a mãe observou:

– Olha! Esqueceram-se de tirar isto da cómoda antes de a entregarem!

E pegou nas rendas.

-Vais ficar com elas? – perguntou Anita.

– Claro que não! Era um roubo! Vou entregá-las amanhã na loja. Não, Anita não se considerava uma ladra e no entanto… Que havia de fazer?

“A Elisabete é minha. É a MINHA boneca. Nunca mais a hei-de entregar”, pensava Anita.

Mas assim Anita não podia brincar com a boneca. Toda a gente ficaria a saber. Nem sequer podia adormecer com ela nos braços porque os pais iam todas as noites ao seu quarto dar-lhe um beijo. E onde iria esconder a boneca quando a mãe aspirasse o quarto, aos sábados?

Anita teve pesadelos horríveis nas noites seguintes.

As colegas corriam atrás dela e gritavam: “Ladra!” e apontavam-na com o dedo. Anita acordava lavada em lágrimas. Sentia permanentemente um nó na garganta. Não, não era possível viver assim.

– Não te sentes bem, Anita? – perguntava

a professora na aula.

– Não te sentes bem, Anita? – preocupavam-se os pais em casa.

não se sentia bem, na verdade. Anita sabia o que tinha a fazer. Era horrível mas não havia outra solução. Esperou que a mãe fosse ao jardim dar de comer aos pássaros. Depois, vestiu a gabardina, calçou as botas verdes, tirou Elisabete do seu esconderijo, abriu a porta da rua e correu, correu, correu… até à loja de antiguidades.

Quem lá estava nesse dia era um senhor alto, de barbas.

– Bom dia. Venho entregar Elisabete… enfim a boneca que ficou esquecida na gaveta da cómoda da minha mãe.

Colocou Elisabete sobre uma mesinha, virou costas e regressou o mais depressa que pôde. A mãe nem se apercebeu da sua ausência. Agora Anita já não era ladra mas o nó permanecia na garganta.

Estendeu-se em cima da cama. Ouviu o telefone tocar ao lado. A mãe atendeu e veio à porta do quarto:

-Vou sair, não te preocupes, querida. Volto já.

“Estou doente e vou estar doente o resto da vida”, pensava Anita.

A mãe podia demorar-se o tempo que quisesse. Ela, a Anita, nunca mais sairia dali. E acabou por adormecer.

Anita, vens?

Já serão horas de jantar?

Anita pôs água nos olhos inchados e foi ter com os pais à sala. Mas o que era aquilo? A avó também lá estava! E a tia Amélia. E o tio Filipe. E…

– Parabéns, Anita!

– Parabéns, minha querida!

Anita mal podia acreditar. Tinha-se esquecido completamente. Era a primeira vez que se esquecia de tal coisa. Mas com que disposição iria ela festejar os anos, quando se sentia tão infeliz?

Cada um vinha com uma prenda para lhe oferecer e a mãe sorria:

-Vais ficar contente.

Por cortesia, Anita abriu os embrulhos. Eram puzzles, livros, chocolates. Sempre as mesmas coisas…

O último embrulho era o da mãe. Anita cortou o fio. – Oh!

Elisabete apareceu no meio de papéis de seda.

– Tiveste sorte – explicou a mãe -; as pessoas da loja foram muito simpáticas. Tinha-lhes pedido que me avisassem no caso de receberem outra boneca até hoje à noite e há bocado um senhor telefonou…

Anita apertava a boneca contra si. Já não sentia o nó na garganta. A vida parecia-lhe tão bela que lhe apeteceu cantar. E nos olhos de vidro da boneca de porcelana havia também um brilho de felicidade.

Sim, porque as bonecas também gostam de ser estimadas…

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