Written on Abril 19th, 2011 at 3:16 am by

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Hoje acaba a ceifa. Anita ajuda o dono da quinta a arrumara palha. Ao sentar-se para descansar um pouco, um pequenino nariz, muito cor-de-rosa, desperta-lhe a atenção. Oh! É um coelhinho bravo, cheio de medo. Só se lhe vê a cabeça a aparecer num montinho de palha.

– Coitadinho de ti! – diz a Anita ao tirá-lo para fora. – Isto foi um milagre! Como é que conseguiste escapar às lâminas da máquina?

Mas agora não tenhas medo: vais para casa comigo e vou pôr-te o nome de Pimpim.

 

– Que amoroso! – diz a mãe da Anita. – Mas olha que ele deve ter fome!

– Vou buscar um biberão – sugere a Anita. – O da minha boneca deve servir.

O Pimpim cresce depressa e não larga a Anita, que se diverte imenso a brincar com ele.

João e Sofia, os vizinhos da Anita, trazem todos os dias comida para o Pimpim: dentes-de-leão, cascas de maçã, vagens de ervilhas…

– Olha, a ponta da orelha é azul – nota a Sofia. – Podia-se chamar o Azulinho.

 

– Que triste está hoje o Pimpim – observa o João.

– É verdade – concorda a Anita. – Começo a ficar preocupada… Há já alguns dias que ele perdeu o apetite, não brinca e já nem se quer lavar!

– Parece-me que ele precisa de andar à solta – diz a Sofia.

<!–[if !supportLists]–> <!–[endif]–>O Pimpim não é um coelho doméstico, é um coelho bravo – acrescenta o João. – Não gosta de estar preso. Era melhor soltá-lo.

– Eu sei – diz a Anita -, mas não o podemos soltar num sítio qualquer! O avô já muitas vezes me lembrou que, quando começamos a tratar de um animal, ficamos responsáveis por ele!

 

Depois do pequeno-almoço a Anita pôs-se a caminho da floresta. Quando lá chegou, um rebuliço despertou-lhe a atenção:

– Olha, Pimpim! É a dança dos chapins! Todos os anos, por esta altura, reúnem-se em bandos: os chapins-carvoeiros, os chapins-azuis, os chapins-reais, os chapins-de-poupa… e até mesmo as carriças entram na roda!

Todos juntos debicam os frutos dos arbustos e enchem-se de insectos. Não achas maravilhoso? Vais gostar muito de viver aqui! Vês aquela cancela no fim do atalho? É ali que começa a floresta!

 

O gaio, esse palrador, que vê tudo e tudo ouve, é o primeiro a avistar a Anita.

– Estou a ver um caçador! Tem um ar feroz. Já apanhou um coelho e tudo! – grita ele.

De repente, a floresta pára:

– Vamo-nos esconder! – aconselha a raposa.

<!–[if !supportLists]–> <!–[endif]–>Fujamos! – diz a corça.

– Olhem que não é um caçador – assegura o pisco. – É a Anita! Conheço-a muito bem!

 

Oferece-me sempre minhocas deliciosas, na Primavera, quando vai jardinar.

Aos poucos acalmam-se os ânimos.

– Falso alerta! – grita o gaio. – É uma amiga. Não tenham medo.

– É verdade – concorda o chapim. – No Inverno, ‘ela dá-nos sementes e migalhas de pão.

 

– Vamos seguir o riacho – propõe a Anita. -Assim não nos perdemos. Atenção, podes escorregar!… Olha, Pimpim – acrescenta a Anita, muito entusiasmada. – Pegadas de texugo! Contaram-me que um texugo uma noite desceu à aldeia, andou a roubar as vinhas e empanturrou-se de uvas! Ao ver aquela penca preta e aquele grande traseiro, o Tio Martinho confundiu-o com um urso e apanhou um susto. E estas marcas no lodo? Estou a reconhecê-las: O avô mostrou-me umas iguais na capoeira, o ano passado; são pegadas de doninha, que sai de noite para atacar as galinhas! É melhor não ficarmos aqui, é um sinal perigoso para os coelhinhos.

 

– Quando penso nos perigos que terias corrido se te tivesse deixado vir sozinho até sinto arrepios! Depressa, vamos embora, e – quietinho! – não te voltes para trás: um gato-bravo está a observar-nos!

 

– Podíamos parar aqui – propõe a Anita.

Mas mal acaba de dizer isto um grupo de javalis surge do lamaçal soltando grunhidos. Anita e Pimpim fogem em direcção a um tronco atravessado sobre o riacho.

– Vem, Pimpim! Vá, mais depressa! Eles aqui já não nos podem seguir!

 

– Uf! Já estamos do outro lado.

Nunca pensei que me custasse tanto deixar-te entregue à Natureza – suspira a Anita, um pouco desanimada.

 

Anita e Pimpim observam atentamente uma pequena pluma avermelhada: é um esquilo com a cauda levantada, como um penacho, agarrado a uma pinha.

De repente, abandona a pinha e desaparece nas alturas. Na clareira, um grupo de caçadores avança. Sem perder um segundo, Anita foge na direcção contrária.

 

Afogueada, chega a outra clareira onde os veados brincam com as corças. O grande veado, de hastes imponentes, inclinando a cabeça para trás, brama aos quatro ventos. À sua volta as corças estremecem.

– Fujam! Fujam! Vêm aí os caçadores! – grita a Anita.

 

-Num abrir e fechar de olhos os veados desaparecem, cada um para seu lado.

– Começo a achar a floresta um sítio muito perigoso para um coelhinho como tu – observa a Anita, já desesperada por não encontrar um lugar ideal para o Pimpim.

De repente, um barulho ao longe fá-la virar-se para trás. É o Julião, o lenhador, que anda a desbravar terreno. – Se lhe fôssemos pedir ajuda? – propõe a Anita. – Ele conhece bem a floresta e pode indicar-nos um sítio seguro. Vamos até lá!

– Olha a minha amiga Anita! Que fazes aqui? – Pergunta Julião. – Devia ralhar contigo! Não é boa ideia andares a passear sozinha.

 

– Ando à procura de um cantinho seguro para deixar o meu

querido Pimpim. – explica a Anita, contando-lhe depois a história do coelhinho.

– Conheço um bom sítio no fim da floresta – diz Julião. – Se não tens medo, salta para o tractor. O meu dia de trabalho está a chegar ao fim, eu levo-te até lá. Pelo caminho, Julião explica a Anita:

– O melhor lugar para o Pimpim é uma tapada onde possa encontrar outros coelhos.

 

– Olha estas tocas! Já viste que há amoras aqui? Vais-te regalar! O sítio não podia ser melhor! exclama a Anita.

 

Anita pôs o Pimpim em cima de um tronco e agora faz-lhe as últimas recomendações:

– Tem cuidado, Pimpim. Não te aventures mais pela floresta. Evita o bufo e o falcão, desconfia do gavião, da fuinha, do tourão e da raposa. Eu venho visitar-te depois. Fica prometido!

O Sol põe-se. Anita tem de retomar o caminho para casa. Pimpim, imóvel, vê-a afastar-se.

Ao deixar a Anita no lugar onde acaba a floresta e começam os campos, Julião obrigara-a a prometer que voltaria para casa antes do cair da noite.

 

Meses depois, numa manhã de Dezembro, a Anita vai de visita à tapada. A Natureza tirita sob um manto de geada. Os lenhadores conversam, sentados à volta de uma fogueira.

Anita continua o seu caminho, fazendo estalar sob os pés as folhas geladas.

 

Pimpim! Pimpim! – chama a Anita. Assustada pelos gritos, uma multidão de coelhos escapa-se pela tapada.

Anita ia jurar que viu uma ponta da orelhinha azul a correr por entre as ervas.

– Ao menos, podia ter dado os bons-dias! – pensa a Anita, arreliada. – Não faz mal! Não me vou pôr a chorar por causa de um coelhinho sem importância.

 

FIM DO LIVRO

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