Written on Fevereiro 2nd, 2012 at 9:22 am by

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– Era uma vez um homenzinho, tão pequenino como o vosso dedo mindinho.

– Tão pequeno como o meu dedinho pequeno, tio?

-Ezactamente, do tamanho do teu dedinho pequeno.

– Meu Deus, como era pequenino, esse homenzinho! Entretanto, o meu olhar vagueia pela sala, em busca de inspiração. Ah! aproxima-se o Natal, por isso será mais fácil contar uma história do Pai Natal.

– Diz-me, tio, como se chama o homenzinho? Lentamente respondo:

– O homenzinho chama-se.

E procuro encontrar um nome: João pequeno; Polegarzinho, Dedito, Pequenino, Pequenu.

Sim, senhor, Pequenu! Que boa ideia.

E foi assim, que já há alguns anos, nasceu Pequenu, e, desde então, tenho continuamente que contar histórias a seu respeito. Antes demais, é preciso que a história seja palpitante. O que as crianças preferem é que Pequenu se meta em sarilhos. Então meço cuidadosamente a minha

eloquência.

– E depois – gritam as vozes ansiosas.

Calo-me, e eles agitam-se. Recomeço então, falando pausadamente :

– Nessa altura entrou o Bigodes e.

– É o gato, não é ?

–Pois, já se sabe que é o gato!

-E ele irá ajudar o Pequenu?

– Isso ainda não sei -respondo com grande seriedade.

— Cala-te – interrompe o mais velho.

– Deixa o tio continuar -protesta outro.

Mas a ajuda chega sempre a tempo, e ouvem-se três suspiros de alívio, quando uma vez mais o pobre Pequenu se salva.

E foi assim que nasceram as minhas histórias do

Pequenu, e tenho tentado mantê-las sempre dentro do mesmo esp irito.

Os assuntos são escolhidos na vida quotidiana das crianças; fiz tudo para evitar dificuldades e palavras dificeis. Na leitura em voz alta, procurem imitar os ruidos.

Encontrarão muitas vezes nas minhas histórias as palavras e, então, ou, mas nunca os pronomes. Procuro designar os personagens pelos seus nomes, porque reparei que as crianças não os reconhecem por ele, ou ela.

Quantas vezes, depois de fer dito: E então ele disse. ouvi imediatamente : queres falar do Pequenu, não é, tio?

Ele ou Ela perdem o seu significado de pronome para uma criança que só conhece o nome.

É realmente muito agradável ler ou contar histórias, mas é preciso fazê-lo com seriedade e sobretudo, vagarosamente.

Contada ou lida, cada uma destas histórias deve durar aproximadamente quinze minutos.

PEQUENÚ

Todos diziam que estava um tempo horrível, e que nunca se tinha visto tanta chuva.

O céu estava cheio de grandes nuvens pretas; o vento soprava tão forte, que fazia ondas largas no rio.

– Bem – disseram todos ao mesmo tempo -, é melhor hoje não sairmos.

E as mães disseram aos seus filhinhos:

-Com este tempo, não se pode, nem pôr o

nariz fora da porta, ficavam todos molhados; é melhor brincarem dentro de casa.

Uma grande folha, flutuava no rio; dançava sobre as ondas como uma rolha, e o vento empurrava-a para a frente. Sobre esta folha, estava sentado um minúsculo homenzinho com uma fatiota muito engraçada. um pequeno carapucinho azul, camisinha branca às pintas vermelhas, e calcinhas azuis. O homenzinho tinha uma barbicha branca e chamava-se Pequenu.

Mas, como é que o Pequenu podia estar sentado na folha do castanheiro sem cair?

Precisamente por ser tão pequenino: tão pequenino como o teu dedinho pequeno!

Mas, apesar disso, o Pequenu tinha muito medo de cair à água, e agarrava-se à folha com quanta força tinha.

– Ai – suspirava ele, – que horrível temporal! Estou todo encharcado! Que vai ser de mim? Há tanto tempo que já ando sacudido, em cima desta folha, e tenho tanta fome!

-Que é que tu julgas que se tinha passado? Porque é que o Pequenu andava a boiar, em cima desta folha?

Antes deste acidente, Pequenu morava numa grande floresta, num país muito longe.

Um dia que ele tinha trepado quase até ao cimo dum grande castanheiro, o vento começou a soprar com toda a força.

Uh uh uh – assobiava o vento nos ramos. Pequenu esteve quase a ir pelos ares, mas conseguiu agarrar-se com toda a força a uma grande folha do castanheiro.

Uh! uh! uh!-e o vento soprava cada vez mais forte. De repente, santo Deus, que aflição, o vento arrancou a folha de Pequenu e lá foi tudo pelos ares!

– Socorro, socorro, – gritava o pobre Pequenu, mas ninguém ouvia a sua vozinha, e o vento levava-o pelos ares, bem agarrado à folha.

E o Pequenu voava sobre as árvores e os campos, sobre as casas e as quintas, sobre as cidades e as aldeias, longe, sempre mais longe, empurrado por aquele horrível vento!

Como o pobre Pequenu ia cheio de medo! De repente, começou a chover. Com o peso das gotas de água, a folha do castanheiro começou a descer, a descer. Pequenu via o chão a aproximar-se, e também um grande rio; e agora o Pequenu tinha mais medo que nunca. Fechou os olhos, aperto-us com muita força, e ploc, a folha caiu na água.

Mas o Pequenu não tinha largado a folha, e por isso agora flutuava no rio como um barquinho.

Numa volta do rio, Pequenu viu árvores em terra; a folha do castanheiro bateu na margem, e o Pequenu apressou-se a trepar para terra firme. Depois, sentou-se um bocadinho! Como estava cansado, pobre Pequenu!

Mas, que lhe havia ainda de acontecer? Pequenu viu chegarem-se a ele duas grandes patas vermelhas, sobre a erva verde; e depois, de repente, um bico muito comprido chegou mesmo ao pé dele.

– Atenção, atenção Dona Cegonha, -gritou Pequenu

– Quem me chama?-exclamou a Cegonha.

-Sou eu, o Pequenu.

A cegonha olhou muito admirada para aquele homenzinho tão pequenino.

– Homenzinho, donde vieste ?

– Venho de muito, muito longe, Dona Cegonha.

-E para onde queres ir, homenzinho?

– Sei lá, sei lá : bem gostava de voltar para a minha floresta, mas é tão longe, suspirou o Pequenu.

-Bem, mesmo aqui pertinho há outra floresta grande, posso lá levar-te, se quiseres.

– Oh, sim, se faz favor, Dona Cegonha – disse o Pequenu.

E a cegonha pegou no Pequenu com o bico e partiu a toda a pressa; flap, flap, cantavam as suas asas, levando o Pequenu.

Chegaram depressa a uma grande floresta. O ninho da cegonha era em cima duma árvore muito grande, mesmo lá em cima.

Clac, clac, clac, ouviu-se logo que chegaram. Era o Papá Cegonha que vinha saber notícias.

– Este é o Pequenu – disse a Mamã Cegonha. – Vem de muito longe.

Mas o Pequenu que estava todo molhado começou a tremer de frio.

-Anda sentar-te debaixo das minhas asas

– disse a Mamã Cegonha. – Num instante estarás seco e bem quentinho.

E o Pequenu não esperou que a Cegonha o chamasse outra vez. Passou a noite no ninho das cegonhas.

E foi assim que o Pequenu, o nosso homenzinho pequeno, chegou à floresta perto da cidade onde havia de viver tantas aventuras.

E, as aventuras começaram logo na manhã seguinte.

Pequenu – disse o Papá Cegonha -, a minha mulher e eu vamos fazer uma viagem, talvez seja melhor pôr-mos-te lá em baixo.

-Então está bem, se faz favor.

E o Papá Cegonha, com muito jeitinho, pegou no Pequenu e pousou-o em terra. Depois disse-lhe :

-Adeus Pequenu, espero que encontres depressa uma linda casinha.

-Obrigado, Papá Cegonha, e boa viagem. E o Pequenu entrou na floresta à procura duma casinha.

PEQUENÚ E O NINHO DAS TOUPEIRAS

Quando o Papá Cegonha o pousou em terra, Pequenu começou a andar na floresta. Como as árvores eram grandes! E o Pequenu dizia para consigo: Se ao menos eu encontrasse uma casinha para morar; o mais pequenino buraquinho já servia!

Mas o que seria aquele montinho que o Pequenu viu entre as ervinhas? E o Pequenu decidiu trepar para cima dele para ver melhor o que se passava à volta.

Mas, mesmo no momento em que chegou ao alto do montinho, o ninho das toupeiras, (pois o montinho era mesmo um ninho de

toupeiras) caiu de repente, e o Pequenu caiu lá dentro, com a terra toda em cima dele.

Mas que terrível susto; a terra cobria-lhe o corpo todo e até a cabeça; e estava escuro como à noite.

– Oh – suspirou Pequenu – só pergunto se algum dia conseguirei sair daqui.

E o pobre Pequenu ficou muito tempo enterrado; só podia mexer a cabeça e os braços.

-Mas como é possível que eu ainda respire ? – perguntava o Pequenu e com muito cuidado tentou arrastar-se.

Em breve Podia arrastar-se; passado um bocadinho conseguiu mesmo ter-se em pé. Mas continuava sempre muito escuro.

De repente que viu ele? Lá longe, muito longe, avistou uma luzinha que parecia avançar para ele. Ao princípio Pequenu não fez a mais pequena ideia do que podia ser aquela luzinha. Mas, de repente, compreendeu que era um pirilampo, que se aproximou de Pequenu, e depois parou.

– Que fazes aqui, homenzinho ? – perguntou o pirilampo-quem és tu ?

E agora imagina que o Pequenu era

velho, tão velho que já nem sabia quantos anos tinha; e, como era tão velho, compreendia a linguagem de todos os animais e sabia falar-lhes.

– Chamo-me Pequenu – explicou ele -, e caí aqui dentro.

-E eu chamo-me Luzinhas e estou contente por te poder ajudar; só tens que me seguir e eu levo-te a casa da família Remexida das toupeiras, que moram um pouco mais longe, no fim deste túnel.

– Obrigada, Luzinhas, – disse o Pequenu.

Luzinhas passou adiante para mostrar o caminho e iluminar a galeria escura, cavada pela Senhora Remexida.

Pequenu-disse o Luzinhas-, sabes que são todos cegos na família Remexida?

– Que tristeza – exclamou o Pequenu.

– Bem, não é assim tão triste, porque quando se mora toda a vida debaixo da terra, nos túneis escuros, não é preciso ver; mas as toupeiras têm os ouvidos apurados e isso substitui os olhos.

E o Pequenu não demorou a dar conta disso, pois, ao fim dalguns minutos, ouviu-se uma voz grossa do fundo do túnel, dizendo estas palavras :

-Quem anda no meu túnel?

– É o Pequenu – respondeu Luzinhas. – Caiu no teu túnel.

Um pouco mais tarde, Pequenu viu uma grande caverna, no fundo do túnel, e descobriu toda a família Remexida: Papá, Mamã, e oito meninos.

Pequenu apressou-se a contar-lhes a sua história e pediu que lhe mostrassem o caminho para sair.

O Senhor Remexido prometeu-lhe, mas quis primeiro mostrar-lhe a casa.

E foram todos em fila, primeiro o Senhor Remexido, depois o Pequenu e Luzinhas, seguidos da Senhora Remexida e dos oito meninos.

A primeira sala, era a sala de jantar, onde a Senhora Remexida instalou a sua família para comer; e ficou junto dos meninos para os vigiar. Se algum se não portava bem, apanhava uma palmada no nariz.

O seu marido continuou a visita com o Pequenu e Luzinhas; e chegaram a uma grande caverna, depois de terem atravessado um túnel a subir.

– E o quarto de dormir – explicou o Senhor Remexido – as crianças dormem todas do lado direito, e nós do lado esquerdo.

Passaram para outra cave e o Senhor Remexido disse :

– Aqui é que nos instalamos depois do nosso trabalho; juntamos os meninos e contamos- lhes histórias, antes de se deitarem.

– Como é bonito – disse o Pequenu. E não saem nunca ao ar livre?

-Quase nunca; aqui, debaixo da terra, temos tudo o que nos faz falta : a nossa comida e uma quantidade de coisas boas. Mas, vou levar-te lá para fora, se quiseres.

Pequenu seguiu o Senhor Remexido ao longo dos túneis escuros que não acabavam mais. Enfim, lá ao longe, viu a luz.

– Já sinto a saída perto, – disse o Senhor Remexido – mas, de repente, ficou quieto.

– Que se passa ? – perguntou o Pequenu. Chut Escutem!

Então o Pequenu ouviu:

– béu béu béu. Imediatamente Luzinhas apagou a lâmpada.

Béu béu béu

– O que é ? – perguntou o Pequenu.

– É o cão do guarda – segredou o Senhor Remexido – o guarda não gosta de nós por causa dos ninhos que fazemos.

Béu béu béu

E o Pequenu viu uma grande pata a meter-se no túnel e depois um focinho de cão.

-Depressa-gritou o Senhor Remexido-, agarra-te ao meu rabo, e tu, Luzinhas, trepa para as minhas costas.

E o Senhor Remexido correu a toda a velocidade para o fundo da galeria. E o Pequenu também corria agarrado à cauda do Senhor Remexido. Estava tudo escuro, mas, felizmente, Luzinhas acendeu logo a lâmpada.

Passaram por muitos túneis até o Senhor Remexido parar.

-Ah-suspirou ele-, cá estamos noutra saída que o cão não conhece.

E o Pequenu viu uma abertura redonda por onde entrava o sol.

Disse adeus ao Senhor Remexido e a Luzinhas e saiu do túnel escuro.

-Ai!-suspirou Pequenu mal chegou ao ar livre. – Que bom estar outra vez cá fora nesta linda floresta.

PEQUENU ENCONTRA UMA CASA

Pequenu estava na grande floresta, pertinho duma árvore e pensava: Preciso mesmo de encontrar uma casa, mas antes de mais nada, tenho que procurar de comer, pois tenho muita fome.

E viu umas lindas flores azuis que nasciam pertinho dali; pondo-se em bicos de pés chegava mesmo à altura de espreitar lá para dentro. Lá no fundo havia uma gotinha amarela, muito apetitosa e que cheirava muito bem.

– Oh – disse Pequenu -, mel!

Pegou na gota na palma da mão, e lambeu-a.

– Que bom que é – gritou Pequenu. Muito obrigado, querida flor, por me teres guardado este rico mel.

Correu para outra flor e começou a comer. Mas, de repente, que ouviu?

Zum zum zum E, neste mesmo instante, uma enorme abelha pousou sobre uma flor, mesmo ao pé do Pequenu, e deitou-lhe um olhar furioso.

E o Pequenu ficou muito admirado.

– Porque comeste o meu mel? – perguntou a abelha furiosa.

-Tinha tanta fome, Dona Abelha, foi por isso que comi um bocadinho de mel.

– Pois bem, vai-te já embora – disse a abelha, cada vez mais furiosa-, senão pico-te e dói-te muito.

Mas, neste mesmo instante, uma coisa branca caiu sobre a abelha.

Assustado, Pequenu escondeu-se debaixo da raiz de uma árvore.

Sabes o que tinha acontecido? Um rapazinho tinha-se aproximado muito devagar, em bicos de pés, com uma rede na ponta dum pau, e pousou-a de repente sobre a abelha, prendendo-a.

Zum zum zum – Estou presa. Zum, zum, deixem-me sair. – Socorro, socorro – gritava a pobre abelha.

O rapazinho sentou-se na erva e disse:

-Pois bem, abelhinha, vou-te meter na minha lata, e levar-te para casa.

Pequenu ouviu a pobre abelha queixar-se, muito infeliz por estar presa dentro da rede.

Debaixo da raiz, Pequenu viu o rapazinho levantar-se para ir buscar a lata.

Então, tão depressa como pôde, Pequenu trepou até à rede e levantou-a num canto.

-Depressa, depressa- murmurou-, sai daí.

A abelha apressou-se, mas o rapazinho voltou logo.

– Ail-gemeu a abelha-, ainda não posso voar, porque a rede magoou-me nas asas.

-Espera, vou-te agarrar por uma pata, disse o Pequenu, e vou arrastar-te até ao meu esconderijo.

Conseguiram abrigarse antes do rapazinho dar conta que a abelha desaparecera.

Pequenu e a abelha ficaram quietinhos,

enquanto o rapazinho por ali andou, mas quando ele foi embora, a abelha perguntou :

– Quem és tu ?

– Sou o Pequenu. E venho de muito longe.

– Eu sou a Gotademel e quero agradecer-te muito por me teres salvo; agora podes comer o mel que quiseres.

– És muito simpática, Gotademel – respondeu Pequenu. – Não me poderás indicar uma casinha para eu morar?

– Não, infelizmente não – disse Gotademel. A nossa colmeia é muito grande, mas tenho tantos irmãos e irmãs que, de certeza, já não há lugar para ti. Mas tenho uma ideia. Pode-se perguntar ao esquilo, ao Caudafarta se ele sabe dalguma casa.

E Gotademel, partiu, nesse mesmo instante.

-Bem, agora preciso de esperar pela Gotademel e pelo Caudafarta.

E o Pequenu instalou-se confortavelmente, na erva, e não tardou a adormecer.

Psch, psch, psch. Caudafarta, com a sua linda cauda castanha e bem farta, e o focinhito pontiagudo, saltava de ramo em ramo.

Zum, zum, zum, e a Gotademel acompanhava-o.

– E então, onde está esse Pequenu ?perguntou Caudafarta.

– Deve estar ao pé desta árvore, – respondeu Gotademel.

Caudafarta, inspeccionou tudo, do alto do ramo.

– Lá está ele – gritou Gotademel. – Vejo um carapucinho azul, além, na erva.

Então, Caudafarta também o viu.

– Espera um bocadinho – disse o esquilo.

Com uma dentada arrancou um ramito e deixou-o cair.

Bing! O raminho caiu mesmo em cima do bonezinho do Pequenu que acordou de repente e se levantou muito depressa para olhar à sua volta, muito aflito.

Gotademel começou a rir.

– Ah ah ah Já acordaste, Pequenu ?

– Ainda bem que és tu, Gotademel, disse Pequenu. Pensei que alguma árvore me caía em cima. Diz-me: sempre me arranjaste a casinha?

– Sim – exclamou a abelha -, e se soubesses como é linda!

-Psch, psch, psch o esquilo aos saltinhos descia da árvore.

-Bom dia Pequenu. Chamo-me Caudafarta e encontrei-te um lindo buraquinho numa árvore. Tens lá muito que comer e podes lá morar até ao fim da vida.

E o Pequenu achou que o esquilo era tão amoroso, que lhe deu um grande beijo na ponta do nariz.

COMO O PEQUENU FOI MORAR

PARA A CASA GRANDE

Pequenu abriu a boca e bocejou muito tempo.

– Oh como eu dormi bem – exclamou. E agora vou lavar os dentes.

Do bolso das calças tirou uma minúscula escova de dentes, tão pequenina que quase se não via.

– Amanhã – prometeu Pequenu -, partirei em exploração.

Mas que se está a passar mesmo neste momento?

Quatro homens muito grandes, aproximaram-se

com um machado ao ombro, e começaram a deitar abaixo a árvore onde morava o Pequenu.

Bum bum bum Que barulho os machados faziam!

– Meu Deus – suspirou Pequenu -, que me irá acontecer?

Com muito cuidado olhou para fora do buraquinho. Que medo teve dos lenhadores a deitarem abaixo a sua árvore! E nem sequer podia fugir!

– Meu Deus, meu Deus, que vai ser de mim E ouviu-se então um barulho terrível: Craque! craque! craque! Pequenu tapou os ouvidos com as mãos, e com o susto até deixou cair a escova de dentes. De repente, a árvore caiu com grande ruído. Pequenu caiu, de pernas para o ar, dentro da sua casinha, e bum, deu com o nariz contra a parede.

E ouviu os homens dizerem :

Bem, agora pomos a árvore no camião e levamo-la para a cidade.

Bum, badabum, badabum “, lá ia o camião aos saltos pelos caminhos da floresta. Pequenu agarrava-se à árvore, e, de vez em quando, suspirava!

– Só gostava de saber para onde vou, só queria saber para onde me levam.

Olhou para fora do buraco e que viu? Filas de grandes casas!

Já era noite, mas o Pequenu não se importava, pois a escuridão não deixava que os quatro lenhadores o vissem.

Resolveu sair do seu buraco para ver melhor, mas então aconteceu uma coisa horrível: a roda do camião bateu numa grande pedra; Pequenu saltou do seu buraco e caiu à rua.

Meu Deus, que medo ele tinha, pobre Pequenu! Lá estava ele sozinho naquela grande rua, com casas tão grandes, tão assustadoras!

Flic, floc, flic, floc Mas que é isto ? Enormes gotas de chuva caíam em cima do Pequenu.

Chovia cada vez mais e era noite escura. O pobre Pequenu já estava todo molhado. Uma enorme gota de chuva caía da beira do seu lindo carapuço; os sapatinhos estavam encharcados e a camisinha também. Pequenu foi a correr abrigar-se debaixo do respiradouro duma cave, e então começou a chorar.

Grandes lágrimas corriam devagar pela sua carinha.

– Homenzinho, porque choras?-gritou de repente uma voz fininha.

Pequenu olhou para toda a parte, até encontrar um lindo ratinho cinzento.

-Cortaram as árvores onde eu morava; lá na floresta – explicou a soluçar.

– Quem és tu ? – perguntou o ratinho.

-Chamo-me Pequenu – respondeu Pequenu com uma voz trémula, e agora não tenho casa.

-Pois bem, Pequenu, gostavas de morar na nossa casa? Chamo-me Cinzentinho e moro além, na Casa Grande, com os meus

quatro irmãos: Olhodeconta, Comilão, Fuçopreto e Finório.

-Oh! sim, com muito gosto-aceitou o Pequenu.

-Então trepa para as minhas costas e agarra-te bem às minhas orelhas – aconselhou Cinzentinho.

Pequenu trepou para as costas do ratinho e lá vão os dois aos saltinhos.

Como o rato corria depressa! Pequenu tinha que se agarrar com força para não cair e tinha tonturas.

Cinzentinho enfiou-se pelo buraquinho da porta, e pronto, cá estão eles na Casa Grande.

Enfiaram por um grande corredor, passaram por outro buraquinho e chegaram a um amoroso quartinho, onde quatro ratinhos muito curiosos olhavam para o Pequenu.

Pequenu olhou por uma frestinha da parede, e sabes o que viu?

Uma Mãe, um Pai, um Menino e uma Menina sentados à mesa.

No buraquinho dos ratos, estava tão bem, tão quentinho e não chovia!

Pequenu – perguntaram os ratos -, queres viver connosco?

-Oh, sim, gostava muito, mas estou todo molhado e tenho tanto frio!

Então os cinco ratinhos deitaram-se logo à volta dele.

Pequenu não demorou a aquecer e a dormir.

E foi assim que o nosso Pequenu foi morar para a Casa Grande.

O buraquinho de ratos onde o Pequenu estava instalado era mesmo por trás do armário da sala de jantar.

-Está-se bem aqui, não está, Pequenu?

-perguntou um dos ratos.

– Está, está – respondeu o Pequenu com a sua vozita muito fina. Gostava muito de olhar para dentro da casa, parece-me que agora não está lá ninguém.

Com muito cuidado Pequenu passou a cabeça pelo buraco, entre os pés do armário, e deu uma olhadela pela sala, que, afinal, não

estava absolutamente vazia: o Rapazinho, sentado à mesa, brincava com animais de madeira.

-Venham ver – chamou o Pequenu virando-se para os ratos – o Rapazinho tem uma linda colecção de animais em cima da mesa: uma vaca, um cavalo, um elefante com uma grande tromba, e muitos outros.

Quando o Rapazinho tinha todos os animais em fila, dava uma pancadinha no primeiro, e zumba, caíam uns por cima dos outros.

Pequenu e os ratos tiveram tanta vontade de rir que o Pequenu teve que meter o carapucinho na boca para o Rapazinho não ouvir as gargalhadas.

Mas, de repente, parou de rir porque o lindo elefante caiu ao chão.

Quando se levantou para o apanhar o Rapazinho pôs-lhe um pé em cima. Pequenu esteve quase a gritar: atenção Rapazinho, vais partir o teu elefante! Mas não se atreveu porque o Rapazinho descobria logo o buraco dos ratos. E, o que tinha de acontecer, aconteceu. O pé do Rapazinho fez força na tromba do elefante, e craque, a tromba quebrou-se.

Aflitíssimo, Pequenu cobriu a boquinha com a mão. O Rapazinho baixou-se para apanhar o elefante, mas, quando o viu quebrado começou a chorar.

Pequenu teve tanta pena do Rapazinho que se lhe arrasaram os olhos de lágrimas.

Mas a Mãe entrou neste mesmo instante e, quando viu o elefante quebrado, ficou muito aborrecida, e ajudou o Menino a arrumar os bichos numa caixa.

À noite, quando todos estavam a dormir, Pequenu disse aos ratos:

– Vamos fazer uma coisa : colamos a tromba do elefante, e amanhã o Rapazinho fica todo contente.

Saíram todos do buraco e treparam para

a mesa.

O Pequenu e os cinco ratos precisaram de toda a sua força para abrirem a caixa. Então o Cinzentinho perguntou:

– como vamos fazer, Pequenu?

-Com toda a certeza há cola no armário – disse o Pequenu. – Vão procurá-la.

Aos saltinhos os ratos correram para o

armário.

O Pequenu tirou o elefante e a tromba da caixa, e os ratos trouxeram a cola para cima da mesa.

Pequenu meteu o rabito do Comilão no frasco da cola, e esfregou-o na tromba do elefante, e o Cinzentinho ajudou a pó-la no lugar.

– Pronto, Agora vamos depressa arrumar a cola, são horas de nos deitarmos. E tu – disse o Pequenu ao elefante- não te mexas até de manhã, e ficarás com a tromba como nova.

Mas que se está a passar agora? O Pequenu queria ir-se embora e não podia. Uma gotinha de cola caíra em cima da mesa, o Pequenu pós-lhe o pé em cima, e agora estava colado à mesa.

– Cinzentinho, Olhodeconta, Comilão,

Fuçopreto, Finório -gritou Pequenu -, venham ajudar-me.

Mas, mesmo neste instante, abriu-se a porta, e quem havia de entrar? Bigodes, o gato.

Já se sabe que os ratos, corre que corre, fugiram logo.

– Olá Pequenu – miou Bigodes – que estás a fazer em cima da mesa?

– Bem – respondeu o Pequenu -, estou a ver a caixa dos bichos de madeira.

Pequenu, acaso não viste ratos por aqui ?

– Não – respondeu o Pequenu que sabia muito bem o que o gato queria fazer aos ratos.

-Mas o que eu vi, Bigodes, foi um prato de leite na cozinha.

-Miau, miau-miou o gato-, vou já ver isso. E foi-se embora a toda a pressa.

-Depressa, depressa, Cinzentinho, Olho- deconta, Comilão, Fuçopreto, Finório – gritou Pequenu-, depressa, venham ajudar-me.

Os ratinhos vieram a toda a pressa. Pequenu atou os rabinhos todos à volta da cinta e gritou:

– Um, dois, três!, Os ratos puxaram todos ao mesmo tempo e a cola desprendeu.

Corre que corre, todos se apressaram a entrar para o buraquinho, mesmo no momento em que o Bigodes entrava. Não vendo ninguém na sala disse:

olha, com certeza o Pequenu foi deitar-se.

Na manhã seguinte, o Pequenu ouviu o Rapazinho dizer alegremente.

– Mãe, Mãe, olha! Compuseram o elefante! Como seria?

A Mãe apressou-se a vir ver e disse:

– Com certeza foram as fadas.

E o Rapazinho gritou o mais forte que pôde.

Muito obrigado, lindas fadas.

E o Pequenu ficou muito satisfeito por o Rapazinho estar outra vez tão contente.

À entrada do seu buraquinho, Pequenu observava a grande sala.

Já há muito tempo que estava a ver em cima da mesa, uma maravilhosa árvore de Natal, com velinhas de cor, bolas, estrelas, grinaldas e fios prateados.

A sala estava vazia e o Pequenu disse com a sua vozinha fina:

-Cinzentinho, queres vir comigo ver esta linda árvore?

Cinzentinho achou que era uma boa ideia; pós o Pequenu às costas, e corre que corre lá foram para dentro da sala.

Primeiro saltaram para uma cadeira, e depois para a mesa.

Pequenu juntou as mãozinhas e disse:

-Meu Deus, que linda é! Cinzentinho, e se trepássemos até ao cimo da árvore? Lá de cima víamos tudo.

E treparam ambos. E o Pequenu dizia sem parar :

– Olha que linda bola vermelha! Oh que lindos fios prateados. E estas velinhas, não achas que são lindas? Olha! Olha que maravilhoso avião, parece mesmo de prata.

-Eu do que gosto mais são dos fios prateados – respondeu Cinzentinho -, que, de ramo em ramo, seguia as grinaldas.

– Tem cuidado – gritou o Pequenu assustado-, podes cair.

Mas o Cinzentinho riu-se porque era muito ágil. E chegaram ao cimo da árvore de Natal onde brilhava uma linda estrela de prata.

Mas, de repente, que havia de acon tecer?

A porta abriu-se e o Pai entrou! E o Pequenu ficou tão assustado que quase caiu ao chão.

-Cinzentinho, Cinzentinho, que vamos fazer?- murmurou ele.

Depressa, Pequenu, esconde-te atrás da vela.

E o Cinzentinho, enfiou-se dentro duma bola de algodão; escondido atrás da

sua vela, Pequenu viu o Pai acender um fósforo e principiar a acender as velinhas todas.

Pequenu, quietinho como um rato, olhava para ele. Quando a árvore estava toda iluminada, o Pai, chamou a Mãe e os Meninos para a verem.

– Ai meu Deus – suspirou o Pequenu.

Como hei-de escapar? É impossível e eles vão apanhar-me.

Já começava a ter muito calor porque as velinhas aqueciam muito à sua volta.

-Cinzentinho-chamou em voz baixa-, se soubesses que calor tenho.

Dentro da sua bola de algodão, o ratinho respondeu sufocado:

a mim também me falta o ar!

-Que arrependido estou de ter feito esta subida – suspirou Pequenu.

E, através da árvore, deitou uma olhadela a ver o que os Meninos estavam a fazer.

Sentada ao piano, a Mãe tocava lindas canções de Natal; os Meninos e o Pai cantavam.

Pequenu ficou tão encantado que até se esqueceu do calor das velas. Mas a que estava mais pertinho dele começou a inclinar-se, e gotas de cera bem quente começaram a cair no carapucinho, e uma caiu-lhe mesmo na ponta do nariz.

– Ai ai ai – gritou com a dor -, e, largando as mãozinhas, caiu de ramo em ramo.

Felizmente, viu o aviãozinho prateado pertinho dele.

Ging! Caiu dentro do avião e na queda quebrou o fio que o prendia à árvore.

Assustado Pequenu cobriu os olhos com as mãozinhas.

Com a velocidade o vento desgrenhava- lhe os cabelos; afastou dois dedos para ver o que se passava, e então, que viu? O avião

voava pela sala levando o seu passageiro!

Passou por cima duma mesa cheia de presentes, depois por cima duma cadeira, depois dum banco, e, por fim, aterrou no chão.

O Pequenu nem se atrevia a olhar; mas ouviu uma voz que o chamava:

Anda depressa Pequenu, anda depressa!

Com muito cuidado olhou e viu que o avião pousara ao pé do buraco dos ratos.

Dum salto estava no chão e correu para o buraquinho com quanta pressa tinha.

Mal acabava de entrar quando ouviu um dos Meninos dizer:

– Olha, minha Mãe, o aviãozinho caiu!

A Mãe apanhou-o e pó-lo outra vez na árvore.

Mas o Cinzentinho? Onde estaria o Cinzentinho? E o Pequenu e os quatro ratinhos estavam numa aflição.

– Meu Deus, meu Deus – suspirava o Pequenu -, que vai ser do pobre Cinzentinho?

Os ratinhos e o Pequenu juntaram-se à volta do buraco para verem melhor e observarem a árvore de Natal. De vez em quando, viam Cinzentinho tirar a ponta do focinho e metê-la outra vez para dentro, muito depressa.

Os Meninos estavam muito contentes com as prendas de Natal. Mas, neste

momento, deram nove horas, que era a hora de ir para a cama.

O Pai, apagou as velas, e pronto, acabou a festa.

Pequenu e os ratos estavam calados e aflitos porque o Cinzentinho ainda não tinha voltado. De repente, uma coisa branca entrou pelo buraco dentro e assustou todos os habitantes.

– Vai-te embora – diziam eles – correndo para todos os lados.

Mas a coisa branca falou com a voz do Cinzentinho:

Sou eu!

E realmente era o Cinzentinho todo branco por causa do algodão. Muito contentes puzeram-se a dançar numa roda à volta do companheiro.

Os quatro irmãos de Cinzentinho escovaram-no com os seus rabos, e o Pequenu ajudou-os com a sua escovinha de fato.

E, depois, todos muito cansados, foram-se deitar.

Pequenu, dentro do buraco dos ratos, observava o que se passava na sala. E o que ele via era muito interessante.

O Pai, a Mãe e os dois Meninos tinham vestido os fatos mais bonitos e a mesa estava cheia de coisas boas. Havia muitas qualidades de bolos, bolinhos, biscoitos e muitas sanduíches, e, como é natural, um bolo de Natal.

Cheio de curiosidade, Pequenu colava a sua carinha no buraco dos ratos para ver melhor.

Mas, neste momento, tocaram à porta da rua.

O Pai, a Mãe e os Meninos, saíram para

a entrada, e o Pequenu ouviu um barulho

de vozes excitadas. Até dava saltinhos com

tanta curiosidade.

Então a porta abriu-se e entrou um

grupo de meninos e meninas com fatinhos

muito bonitos.

Os Meninos cá de casa convidaram os

amiguinhos, pensou Pequenu.

E era verdade.

Brincaram às escondidas, à cabra-cega, às estátuas, às rodinhas, etc.

Pequenu olhava e dava palmas com muita alegria.

Depois de tanta brincadeira os Meninos sentaram-se à mesa para o lanche; puseram na cabeça chapéus de papel e tocavam assobios. Mas que grande barulheira! Depois do lanche todos se instalaram à

volta do fogão e cantaram lindas canções de Natal.

Mas, de repente, ouviu-se lá fora um alegre carrilhão, e os Meninos interromperam as canções para escutarem; então a porta abriu-se devagarinho e um homem muito velhinho, com uma comprida barba branca, entrou na sala. Tinha um enorme casaco comprido vermelho, e um capuz também vermelho, com pele branca à volta; e aos ombros trazia um grande saco.

Pequenu achou-o muito simpático.

Boa tarde, Pai Natal, disse o Pai apertando-lhe a mão.

Todos os Meninos se levantaram para o cumprimentarem, e o Pequenu compreendeu então que se encontrava em frente do Pai Natal.

O Pai Natal sentou-se num sofá, perto

do fogão e fez uma pergunta muito importante :

-Todos os Meninos se portaram bem?

-Portaram, portaram, Pai Natal-disse a Mãe;-todos se portaram muito bem.

O Pai Natal então voltou-se para uma Menina e perguntou-lhe:

– És capaz de recitar uma coisa bonita?

Então a menina recitou uma poesia muito linda, e o Pequenu achou tão bonito que até as lágrimas lhe chegaram aos olhos.

Logo que a menina se calou, Pequenu aplaudiu com quanta força tinha. Felizmente as suas mãos eram tão pequeninas que ninguém o ouviu, e, ainda bem, senão encontravam o buraco dos ratinhos.

O Pai Natal começou a contar aos Meninos a sua viagem na neve, dentro dum trenó puxado por renas.

Maravilhado com a história, Pequenu saiu do buraco, e deslizando por baixo das cadeiras chegou ao pé do Pai Natal; trepou por uma prega do casaco e acabou por chegar à barba do velhinho. Mas ainda não estava satisfeito e então instalou-se mesmo na barba branca!

Muito bem agarrado à linda barba, estava mesmo num bom sítio para ver os meninos a cantarem.

Nenhum deles tinha medo do Pai Natal e cada um cantava a sua canção, para depois ter um presente.

Mas, nesta altura, sabes o que aconteceu ?

No momento preciso em que o Pequenu ia voltar para o seu buraquinho de ratos, o Pai Natal levantou-se. Pequenu agarrou-se com força e sentiu-se levado pelos ares.

As suas mãozinhas pegaram-se com toda a força à barba branca, e o coraçãozinho batia com muita força.

Felizmente a grande barba escondia-o, e os meninos, a Mãe e o Pai não o viam.

O Pai Natal disse adeus a todos, e quando saiu da Casa Grande, ainda levava o Pequenu escondido dentro da barba.

Muitíssimo assustado, Pequenu gritou com a sua vozinha aguda:

Pai Natal, Pai Natal, por favor não podes parar um momento?

– O quê? Parece-me ouvir uma voz!

– exclamou o Pai Natal -, e precisamente uma vozita que eu conheço muito bem.

-Pois é, Pai Natal, sou eu, o Pequenu; trepei para as tuas barbas às escondidas, e agora queria muito que me levasses para trás.

O Pai Natal olhou para as barbas e arrancou de lá o Pequenu, segurando-o na palma da mão.

Querido Pai Natal, por favor sê amável e leva-me para o meu buraquinho de ratos.

O Pai Natal começou a rir e disse:

– Está bem, acho que é melhor levar-te já.

E o Pai Natal trepou para o telhado da casa grande e desceu pela chaminé; então pós o Pequenu no chão com muito jeitinho, mesmo ao pé do buraco dos ratos.

E sabes o que ele fez ainda?

Deu ao Pequenu duas fatias de bolo, uma para ele, outra para os ratinhos, e o Pequenu não acabava mais de agradecer ao Pai Natal, porque estava muito contente.

E, como deves calcular, fizeram uma grande festa no buraquinho dos ratos, e o Pequenu e os ratinhos regalaram-se com o bolo.

Sempre aos saltitos, Cinzentinho entrou no buraco dos ratos e foi esbarrar com o Pequenu.

Pequenu caiu de pernas para o ar e bateu

com a cabeça na parede.

– Mas então que é isso ? – protestou o

Pequenu -, isso são maneiras? Fizeste-me cair! O Cinzentinho, porém, nem pensou em

pedir desculpa. Nervosíssimo gritou :

– Olha, põe a mão no meu nariz! Vês, está gelado. Sabes que está a nevar? E os Meninos

estão a fazer um enorme homem de neve.

– Oh! Como eu gostava de ver isso!

E o Pequenu olhou para todos os lados e saiu do buraquinho.

Como não havia ninguém na sala, correu com toda a pressa, até uma cadeira, e trepou por ela acima, agarrando-se a uma perna; e da cadeira saltou para a beira da janela.

– Brr, que frio – resmungou Pequenu.

Realmente a janela estava um bocadinho aberta.

-Mas isso não quer dizer nada, talvez possa escorregar lá para fora e instalar-me na parte de fora da janela.

Havia porém, uma grande camada de neve em cima da janela.

Pequenu enterrou-se até ao fundo, mas via muito bem o Rapazinho e a Menina.

Faziam enormes bolas de neve, e punham-nas umas em cima das outras para fazerem um grande boneco.

Entretanto Pequenu começou a ter os pés frios e pós-se a passear, dum lado para outro, para aquecer.

Mas, de repente, escorregou e ficou pendurado no ar, com as mãos agarradas à beira da janela.

-Cinzentinho, Cinzentinho, vem acudir-me depressa! Depressa, senão caio – gritava aflitíssimo o pobre Pequenu.

Mas o Cinzentinho não ouvia, porque estava muito confortavelmente instalado e bem quente no seu buraquinho de ratos.

E o que havia de acontecer? Pumba,

catapumba! Pequenu rebolou por a1i abaixo e desapareceu na neve.

– Ai ai – gritava meio sufocado – não vejo nada.

No momento em que se ia levantar, sentiu que apanhavam toda a neve à sua volta; apertaram-na bem, e lá vai o nosso Pequenu pelos ares!

– Ai meu Deus, meu Deus que me irá acontecer!

E o pobre Pequenu berrava, e ninguém lhe acudia.

A bola de neve em que ele viajava pelos ares, esbarrou em qualquer coisa. Sabes o que era ?

O Rapazinho fez uma enorme bola e colou-a mesmo no meio da cara do homenzinho, para lhe fazer o nariz! E o pobre Pequenu estava no meio dessa bola.

Os Meninos, já se sabe, não deram conta de nada; começaram a dançar à volta do homenzinho e cantavam:

Homem de neve, homem de neve, não me podes apanhar!”

Como é natural, o homenzinho não os podia apanhar, porque era de neve!

O pobre Pequenu ouvia os Meninos cantarem, mas como não podia sair da bola de neve, começou a chorar.

Mas, neste momento, a Mãe começou a bater as palmas, claque claque claque para chamar os Meninos:

-Meus filhos, venham, são horas do lanche!

No buraquinho dos ratos, o desaparecimento do Pequenu, causava muita tristeza.

– Vamos – disse o Cinzentinho ao Finório, ao Comilão, ao Fuçopreto e ao Olhodeconta-, é preciso irmos procurar o Pequenu.

Foram todos lá para fora e começaram a chamar por toda a parte:

Pequenu! Pequenu! Onde estás? ”

Mas, metido dentro da bola, Pequenu não podia responder; e os ratinhos começaram então a correr por aqui e por ali, à procura dele.

Mas foi o Finório que teve a melhor ideia; trepou até ao alto do homem de neve, e, santo Deus! que viu ele? um minúsculo bocadinho azul a sair do nariz do homem de neve!

Era o carapucinho do Pequenu.

– Venham, venham depressa – chamou ele pelos irmãos-, cá está o carapucinho do Pequenu.

Toda a família Ratona trepou para a cabeça do homenzinho, e todos começaram a arranhar aqui e ali, para tirar o Pequenu da sua prisão de neve e dali a um bocadinho viram aparecer uma carinha bem conhecida.

– Ai -que contente estou por me terem encontrado-suspirou o Pequenu-, acabem depressa de me libertar!

-Atenção, olha o Bigodes!

De repente, aos saltinhos todos os ratos desapareceram.

– Ai ai ai! – chorava o Pequenu -, como é que me vou desembaraçar sozinho!

Mas os ratos já tinham ido embora.

Flap, flap, flap, flap O Bigodes aproximava-se devagarinho sobre a neve, e o Pequenu viu-o logo.

-Bigodes! Bigodes-chamou o Pequenu.

– Quem me chama ? – miou o Bigodes.

-Eu, o Pequenu. Estou enfiado no nariz do homem de neve e não consigo sair.

-Olha, olha, és tu, Pequenu? E que estás a fazer aí?

– Fiquei preso no Homem de Neve! Podes ajudar-me a sair?

– Com certeza Pequenu, tenho muito gosto.

E o Bigodes deu uma grande

patada no nariz do homem de neve.

– Bum, bum, bum! o nariz do homenzinho caiu ao chão, com o Pequenu lá dentro.

Mas o Pequenu não se magoou nada, e pôs-se depressa em pé, no meio dos restos do nariz que se espalhou pelo chão.

Dum salto, o Bigodes aproximou-se dele; e, com muito jeitinho, pegou nele e levou-o

para casa, mesmo em frente ao seu buraquinho de ratos.

– Muito obrigado, Bigodes – disse Pequenu.

-És muito simpático e estou muito contente por ter voltado para casa.

Cra! cra! cra!

– Que será isto ? – perguntou Pequenu, que acordou do soninho com este barulho.

E o curioso do Pequenu aproximou-se da porta para ver o que se passava na sala.

Viu o Pai, a Mãe, a Menina e o Menino, todos de pé, em frente à janela. Mas o Pequenu continuava a não compreender o que era aquele barulho.

Cra! cra! cra! cra!

Esta agora! Donde viria este barulho? O Bigodes entrou na sala muito devagarinho.

Bigodes – chamou o Pequenu baixinho -, Bigodes, quem faz este barulho?

E o Bigodes aproximou-se do buraquinho dos ratos para responder:

– É o Cracra, o corvo preto. Chegou

agora mesmo.

Meninos, chamou o Pai, são horas da escola: e eu tenho que ir para o escritório.

Quando todos saíram, Pequenu viu o Cracra debruçado no rebordo da janela, que estava aberta; e com os olhitos pretos e curiosos olhava para dentro da sala.

E, de repente, com uma grande rapidez, entrou na sala e pegou numa das agulhas do tricot da Mãe, que caiu ao chão.

– Cracra – gritou o Pequenu furioso -, larga já isso.

E correu a toda a pressa para apanharo trabalho da Mãe.

– Quem me falou ? -perguntou o Cracra.

– Eu – respondeu o Pequenu.

– Que é que tu queres, homenzinho ?

Aos saltinhos o pássaro avançava para o Pequenu.

– Cracra, tu és feio, muito feio – disse o

Pequenu. – Olha, embaraçaste o tricot da Mãe!

Mas o Cracra não se importava nada; e a toda a pressa pegou na segunda agulha.

Então Pequenu agarrou-a pela outra

ponta, e começaram os dois a puxar, cada um para seu lado.

Nesta altura o Cracra zangou-se, largou a agulha, e hop, hop, hop, em trés saltinhos aproximou-se do Pequenu. E pic, pic, pic, deu-lhe três bicadas no rabiote!

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– Ai ai ai – gemeu o Pequenu fugindo

a toda a pressa.

Mas o Cracra corria atrás dele e ainda

queria picar mais; e o Pequenu escondeu-se debaixo do armário.

Mas entretanto chegou o Bigodes.

– Cracra, que é isso? Não arrelies o

Pequenu!

Mas que julgas que fez o Cracra? Pois

é verdade, começou a dar bicadas no rabo

do Bigodes.

Miau, protestava o gato que ainda quis

dar uma patada no corvo; mas o Cracra

voou e pousou na mesa, a fazer troça do

Bigodes.

Pequenu saiu do seu esconderijo, mas quando ia a passar pertinho da mesa, o feio do Cracra com uma patada voltou a caneca do leite, que se espalhou pela toalha.

Flic, floc, flic, floc e o leite todo começou a cair em cima do carapucinho do Pequenu.

Ai ai gemia o Pequenu, encharcado

em leite.

Quando o Cracra viu isto começou a rir :

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– Ah ah ah – Como tu és tolo, Pequenu! havias mesmo de estar debaixo da mesa quando a caneca caiu!

Mas agora o Bigodes estava realmente muito zangado.

Deu um salto sobre a mesa e começou a correr atrás do Cracra, desse passarote tão feio!

Pronto, lá caiu o pimenteiro! Bum o pão caiu abaixo da mesa. E agora foi um copo que se partiu. O Cracra saltava de um lado para o outro e o Bigodes esforçava-se para lhe dar uma patada.

Chchch Nlas que é isto agora ? Pois bem, o maroto do Cracra tombou o açucareiro, e o açúcar caía em chuva sobre o Pequenu.

O pobre Pequenu cobriu a cabeça com as mãos, mas o açúcar corria tão depressa que de repente ficou enterrado num monte pegajoso.

Coitado! Nem sequer se podia mexer.

– Ó Cinzentinho, acode-me – gritava a voz sufocada do Pequenu.

-Como queres que Cinzentinho ouça?

Neste mesmo momento a porta abriu-se

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e entrou alguém. Era a Mãe; que admirada ela ficou no meio daquela barafunda!

Fuit! O Cracra já tinha desaparecido, e o Bigodes fugiu a toda a pressa.

-Que trapalhada, mas que grande trapalhada – disse a Mãe zangadíssima. E o Pequenu sentiu que o varriam com o açúcar e lá foi ele pelos ares.

É que a Mãe, para arrumar tudo, pegou numa pá e numa vassourinha, e deitou tudo

no caixote do lixo: o açúcar e o Pequenu.

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Flap! O Pequenu caiu na lata e a tampa fechou-se.

Pequenu caiu de cabeça para baixo e só parou no fundo da lata. Meu Deus, que escura e que suja, aquela lata.

Mas quem arranhava, quem raspava assim ?

– Sou eu, o Comilão – disse uma vozinha.

– Ai – disse o Pequenu aliviado -, que sorte tu estares aqui. Como poderei eu sair?

-Espera que eu já venho, trepas para as minhas costas e eu levo-te para casa.

Pequenu não se fez rogado.

E assim, uma vez mais, lá estava bem abrigado na sua casinha de ratos.

X

PEQUENU E OS SONHOS DE MAÇÃ

Pequenu estava muito bem sentado à porta do seu buraquinho e olhava para a sala; neste momento a porta abriu-se e a Mãe entrou.

– Hum, hum -disse o Pequenu levantando o narizinho -que bem que cheira!

E cheirou por sete vezes.

Já sabes que o Pequenu é muito curioso, por isso queria muito saber o que era aquele rico cheirinho que vinha da cozinha; assim esperou que a mãe voltasse para a cozinha e escapou-se atrás dela.

Na cozinha viu uma grande caçarola de

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duas asas cheia de um líquido que cheirava

a óleo; e em cima da mesa, dentro duma tigela, estava muita farinha.

A Mãe começou a mexer a farinha com

uma grande colher de pau; depois, deitou-lhe

um bocadinho de leite, e de cada vez que a

Mãe levantava a colher, o Pequenu via que

ela estava a fazer uma massa.

Quando o óleo começou a ferver, a Mãe

pegou num prato cheio de maçãs cortadas

às rodelinhas, deitou-as na massa e pegou

numa concha.

Pluf! a canela mergulhou na tigela,

a Mãe trouxe algumas rodelas de maçã e muita

massa, e a Mãe deitou tudo no óleo a ferver.

zzz zzz A massa começou a chiar dentro do óleo. A mãe fez outro sonho, e depois outro, e outro.

Depois, pegou numa escumadeira e tirou o primeiro sonho. Hum! que apetitoso! Estava douradinho e mesmo bem frito e que bem cheirava!

A Mãe fez muitos sonhos de maçã e arrumou-os todos num grande prato. Pequenu olhava encantado, pois estavam muito bonitos.

Aqueles sonhos todos no prato até lhe faziam crescer água na boca.

Quando já não havia mais massa, a mãe começou a arrumar tudo.

– Pronto – disse ela – acho que o Pai e os Meninos vão gostar muito destes sonhos; agora depressa, vou já pór a mesa.

Logo que ficou sozinho na cozinha, Pequenu começou a trepar pela mesa com muito cuidado, e, num instante, chegou junto do prato dos sonhos. Para o nosso homenzinho o monte de sonhos parecia uma enorme montanha.

Mas que bom cheirinho, que rico cheirinho tão apetitoso. Mais perto, mais pertinho

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ainda e o Pequenu aproximava-se com o narizito a tremer.

E o que havia de acontecer?! Pequenu estava na beira do prato, muito consolado a lamber um sonho.

Oh que bom que era! Uma dentada, só

uma dentadinha! Mas, parece que o sonho

lá de cima, o último que a mãe fez, ainda

estava melhor que os outros. Vamos lá prová-lo. E o Pequenu começou a subir a montanha.

Tudo correu muito bem, mas, de repente,

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lá se enfia o Pequenu até ao pescoço entre dois sonhos!

Ai meu Deus, tenho que me despachar a sair daqui, pensou ele. Mas já se sabe, a porta abriu-se, neste mesmo momento, e toda a família entrou na cozinha : a Mãe, o Pai e os Meninos. Que medo teve o pobre Pequenu! Que é que ele havia de fazer? Fugir? não, senão viam-no. Esconder-se? mas onde?

Todos se aproximavam da mesa, e o Pequenu escondeu-se entre dois sonhos.

– Ai minha Mãe, que lindos estão – disseram os Meninos.

E o Rapazinho avançou a mão para se

servir.

– Não, não – disse a Mãe – agora não! São só para a sobremesa! Já embora para a mesa.

Que sorte, suspirou o Pequenu aliviado. Logo que eles se vão embora saio daqui e vou a toda a pressa para a minha casinha de ratos!

Mas, neste momento, a Mãe pegou no prato e levou-o para a sala de jantar, e pousou-o em cima de uma mesinha, em frente da janela aberta; e todos se sentaram à mesa.

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Cra, cra, cra cra. Lá vinha o corvo.

Deitou uma olhadela para dentro, viu o

prato dos sonhos em frente à janela, e pic, roubou um.

Mas o que era isto? Alguém apertava o

bico do Cracra!

Assustado o corvo largou-o e o sonho

caiu ao chão.

Bigodes, que entretanto chegou à procura dalguma coisita de comer, viu-o logo.

Felizmente nem o Pai, nem a Mãe nem

os Meninos repararam em tanto movimento.

-Atenção Cracra-miou o Bigodes zangadíssimo -, se te aproximas deste sonho, arranho-te nos olhos.

– E tu toma também atenção Bigodes : se tentas apanhar o sonho, dou-te uma forte bicada!

E por isso, nem o Bigodes nem o Cra-

cra se aproximavam do sonho.

Mas, de repente, que viram eles?

O Bigodes e o Cracra nem acreditavam

no que viam…

Um pezinho saiu do sonho… e depois outro pezinho…

– Miau – miou o Bigodes espantado.

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– Cra, cra – disse o corvo cheio de medo -, porque agora o sonho andava sobre as duas perninhas.

– Miau, miau.

E o Bigodes deu um salto para trás.

-Nunca na minha vida vi um sonho a andar!

Pif, paf, pif, paf! o sonho caminhava muito depressa em cima do tapete. O Bigodes arregalou os olhos, o sonho passou-lhe mesmo em frente do nariz, e lá se foi, sempre a andar até ao armário, meteu-se debaixo, e desapareceu no buraco dos ratos!

Os ratos quando o viram, nem acreditavam. um sonho a andar. Mas felizmente ouviram a voz do Pequenu, abafada mas reconhecível, lá do meio do sonho.

-Por amor de Deus, meus amiguinhos, comam depressa este sonho, porque eu, o Pequenu, estou cá dentro.

Os ratos comeram o mais depressa possível e o Pequenu saiu todo contente de dentro da massa douradinha.

-Ai! meu Deus!-suspirou o Pequenu-, que medo tive que alguém me comesse por

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engano; nunca mais me sirvo de nada sem ordem.

Mas tu, estás mesmo a ver que toda a família Ratona ficou encantada e que aproveitaram o sonho, até à última migalha; comeram tanto que a sua barriguinha até ficou redonda.

Mas felizment nem o Pai, nem a Mãe, nem os Meninos repararam que um sonho ” com perninhas tinha fugido.

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XI

PEQUENU E A ZUMBIDORA

– Tem graça – disse o Pequenu aos seus amiguinhos ratos -, há já dois dias que não vejo a Menina; que lhe terá acontecido?

– Eu sei – disse o Cinzentinho – ontem fui lá acima; a Menina está doente e precisa de ficar bem quentinha na cama.

E o Pequenu disse então:

– Pois bem, logo à noite, vou levar-lhe uma flor. Cinzentinho, queres trazer-me uma flor do jardim?

– Boa ideia – disse o Cinzentinho – fica combinado.

Á noite, muito tarde, quando todos estavam

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já a dormir, o Pequenu saiu do seu buraquinho, levando a flor que o Cinzentinho lhe tinha apanhado.

A flor era quase tão grande como o

Pequenu e ele tinha que a levar ao ombro.

Felizmente a porta da sala estava aberta e o Pequenu pode sair para a entrada.

Uf! como ele estava cansado de subir as

escadas.

E onde seria o quarto da Menina?

é Imóvel no patamar, Pequenu olhava a

toda a volta.

De repente, ouviu chorar baixinho e dirigiu-se para a porta de onde vinha o barulho.

Devagar, muito devagarinho, enfiou-se

pela porta, que estava entreaberta. Sim, a

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Menina estava lá, doente na cama e chorava.

– Porque é que ela chorará? – perguntava o Pequenu – com certeza é por estar doente.

Zzzzzzzzz, zzzzzzzzz, zzzzzzzzz! alguma coisa voava pelo quarto.

-Vai-te embora vespa feia-exclamou a

Menina.

E o Pequenu viu uma vespa no quarto.

-Zumbidora – disse o Pequenu -, é muito feio afligires a Menina que está doente. Vai-te embora.

-Horrível Pequenu-replicou a vespa-, vai-te embora tu!

E com ar ameaçador, a vespa voou em direcção ao Pequenu.

– Pára – gritou o Pequenu -, ou bato-te com esta flor.

Zzzzzzz, zzzzzzz, zzzzzzz, fez a vespa e pôs-se a voar à volta da cabeça do Pequenu.

Pegando com as duas mãos no caule da flor, Pequenu bateu na vespa.

Bum, a flor bateu com força no nariz da Zumbidora, e a vespa feia caiu ao chão.

Zumbidora estava furiosa.

-Horrível Pequenu-gritou a Zumbidora

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zangadíssima-, vou-te picar com toda a

força.

Mas o Pequenu tinha tanto medo que já

tinha fugido a toda a pressa.

Zzzzzzzzz, zzzzzzzz, zzzzzzzz, a Zumbidora perseguia o Pequenu.

Assustadíssimo, o Pequenu atravessou o

patamar a correr e a vespa, sempre atrás

dele.

Mas, mesmo no momento em que a

Zumbidora ia picar o Pequenu, o nosso

homenzinho meteu-se atrás do cesto dos

papéis, e o ferrão da vespa só deu no cesto.

Ah Ah Ah e o Pequenu começou a rir.

-Não me acertaste, bicho feio!

Mas a Zumbidora, cada vez mais furiosa, gritou-lhe:

– Não perdes com a demora, horrível

Pequenu, já te apanho!

E continuou a correr atrás dele. Pequenu

corria com força, sempre seguido pela vespa, que zumbia muito forte.

Bing, bang, bang! Pequenu descia as

escadas duas a duas.

Zzzzzzzzz, zzzzzzzzz, zzzzzzzzz, a vespa

voava atrás dele.

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Mas o Pequenu já estava na sala; o Pequenu ia esconder-se no seu buraquinho de ratos, o Pequenu estava salvo. Mas não, mesmo no último momento, a vespa apanhou-o.

– Ah! Ah! Ah! – riu-se a Zumbidora-, agora vais ver como te pico com força.

Mas não teve tempo de cumprir o prometido, pois, nesse mesmo instante, uma grande pata prendeu-a no chão.

Era o Bigodes.

E, pumba! a Zumbidora rolou para o buraquinho dos ratos.

Pois, muito bem, agora, horrível vespa, vamos-te matar, disseram os ratos.

Mas a Zumbidora começou a chorar e a pedir :

-Querido Pequenu, queridos ratinhos, por amor de Deus, não me matem.

Os ratos olhavam para a Zumbidora, com uns olhos zangadíssimos. Mas o Pequenu teve pena.

– Ouve, Zumbidora – disse ele – se tu prometes nunca mais arreliar os Meninos e nunca mais ser má, podes ir-te embora e ninguém te fará mal.

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A Zumbidora prometeu tudo o que eles

quiseram e voou embora a toda a pressa.

Mas o Pequenu estava muito aborrecido.

– Que tens Pequenu – perguntou o Cinzentinho?

– Agora já não tenho a flor para a Menina.

E o Cinzentinho não perdeu tempo; ele

e os irmãos correram ao jardim e trouxeram ao Pequenu um lindo ramo de flores.

Mas o ramo era grande demais para o

Pequenu.

-Bigodes-chamou o Pequenu-, podes

levar estas flores à Menina de meu mando?

-Miau, miau-disse o Bigodes-, com

certeza. E ainda te levo às costas, se quiseres.

Pat, pat, pat, o Bigodes subiu as escadas,

com o ramo de flores na boca e o Pequenu

às costas.

– Florinhas – disse o Pequenu muito baixinho -, amanhã de manhã tornem-se muito lindas para a Menina, que está doente, ficar muito contente.

– Com certeza, Pequenu – responderam

as flores.

Que grande surpresa teve a Menina na

manhã seguinte! Chamou logo a Mãe.

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Oh, minha Mãe, anda ver que lindas

flores.

Então as flores ainda abriram mais, e ficaram lindíssimas.

No seu buraquinho de ratos, Pequenu ouviu a Menina rir e ficou muito contente.

Zzzzzzzz, zzzzzzzz, zzzzzzzz!

-O quê, Zumbidora, és tu outra vez?gritou o Pequenu.

-Sou, Pequenu, venho dizer-te que nunca mais arrelio a Menina.

E o Pequenu sorriu e ficou muito contente.

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XII

PEQUENU E O RAPAZINHO GULOSO

Pequenu lá estava no seu lugar, no buraco dos ratos, mesmo por trás do armário. A Mãe e o Menino estavam sozinhos na sala. A Mãe trabalhava no seu bordado e o ;

Rapazinho brincava em cima da mesa com

os bichos de madeira.

-Minha Mãe-perguntou o rapazinho-, posso comer mais um chocolate; são tão bons !

-Não-disse a Mãe. -Já comeste muito.

Só te dou outro à noite, senão ficas doente.

Mas, neste momento a Mãe deixou cair a agulha. Baixou-se para a procurar e o

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Pequenu escondeu-se muito depressa no seu buraquinho, para não o verem.

– Meu Deus – suspirou ela – não con sigo encontrar a minha agulha. Tenho que ir buscar outra.

Pequenu deitou uma olhadela para fora do buraco e viu a Mãe sair da sala.

Ao levantar-se, deixou cair o trabalho ao

chão.

-Vou procurar a agulha, e pó-la no bordado – disse o Pequenu -, e assim a Mãe, quando chegar, encontra-a logo.

E apressou-se a procurar a agulha.

Eh! lá! que grande agulha! Quase tão grande como o Pequenu.

Mas, disse o Pequenu, parece-me que ouço falar alguém.

Era mesmo, o rapazinho que dizia baixinho :

-Agora que a Mãe não está aqui vou comer um chocolate.

E o Pequenu ficou múito aborrecido. Se o rapazinho desobedecesse e comesse o chocolate, ficava doente com certeza. A caixa estava em cima da mesa, e horrorizado o Pequenu viu o rapazinho escutar à porta, para ter a certeza que a Mãe ainda não vinha.

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– Ai ai ai – disse o Pequenu – o rapazinho não devia ser tão guloso; meu Deus, meu Deus, que hei-de fazer?

Mas, de repente, teve uma ideia. Arrastando a agulha atrás de si, correu depressa, depressa, até à mesa onde estavam os chocolates. Felizmente a caixa estava aberta.

Upa! Pequenu saltou para a caixa e escondeu-se entre os chocolates.

Então o rapazinho aproximou-se, devagarinho, na pontinha dos pés. Escondido entre os chocolates, Pequenu nem se mexia; de repente, viu a mão do Rapazinho avançar;

Pequenu olhou e viu a mão pegar num chocolate, e pic! deu-lhe uma grande picada.

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– Ai ai ai – gritou o Rapazinho piquei-me nalguma coisa.

Pequenu riu baixinho e pensou: feio Rapazinho, se tornas, pico-te outra vez.

Mas a mão já regressava.

Um, dois, três, disse o Pequenu, e picou-

-lhe a mão.

– Ai! ai! ai! – gritou o Rapazinho. E ficou tão espantado que desistiu e voltou a sentar-se à mesa.

– Muito bem -disse o Pequenu -, nunca mais te apetece ser guloso!

Muito devagarinho o Pequenu arrastou-se para fora da caixa de chocolates, aproximou-se do trabalho e espetou lá a agulha.

Mas, neste preciso momento, a porta abriu-se e a Mãe entrou.

-Meu Deus, como hei-de voltar para o meu buraquinho de ratos, sem me verem – gemeu o Pequenu. A única coisa que posso fazer é esconder-me atrás deste banquinho.

Felizmente a Mãe começou a aproximar-se do Rapazinho para ver o jogo, e o Pequenu teve tempo de voltar para a sua casinha.

– Não comeste nenhum chocolate?-perguntou a Mãe.

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– Não, minha Mãe, podes ter a certeza.

E o Pequenu ficou contentíssimo por o

Menino poder dizer a verdade.

Então sabes o que a Mãe fez? Nlão sabes?

Então escuta :

-Meu Rapazinho lindo-disse ela-, já que foste tão obediente, podes comer mais um.

Pequenu pôs a cabeça fora do buraquinho e viu a Mãe apanhar o trabalho.

– Olhem para isto -exclamou a Mãe – não percebo nada; a minha agulha está espetada no trabalho. Que bom!

E, contentíssimo por ver que tudo corria bem, Pequenu começou a dançar de alegria, no seu buraquinho.

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XIII

PEQUENU E O CUCO

Pequenu saiu do buraquinho de ratos e entrou na sala grande, à procura de migalhinhas de bolo caídas no chão.

Cra, cra, cra, cra! : ouviu de repente; e compreendeu logo que o Cracra, o corvo preto tinha entrado pela janela.

-Olha! Cá está este horrível Pequenu – gritou o Cracra.

Mas o Pequenu zangou-se:

– Cracra, tu é que és feio, e aborreces-me muito.

-Cra, cra, cra, cra, arreliou o corvo, horrível Pequenu.

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O corvo voou direitinho em direcção ao

Pequenu, com ar ameaçador e o nosso homenzinho fugiu para o buraquinho; meu Deus, que depressa ele corria!. . Estava mesmo a chegar quando o bico do Cracra o

agarrou pelo fundo das calças; e o feio Cracra levou o Pequenu pelos ares!

Pequenu gritava muito, porque tinha um

medo horrível, mas não havia ninguém na

sala para o ajudar.

O Cracra voava por aqui e por ali e o

pobre Pequenu balançava-se no ar.

Que é que ele iria fazer, este feio Cracra?

Aproximou-se do cuco, pendurado na

parede, muito lá no alto, e pós o Pequenu

mesmo em cima do relógio.

Pronto! E agora, horrível Pequenu, ficas

aí algum tempo.

E sempre para arreliar o Pequenu, o

Cracra levantou voo.

– Cracra, Cracra – suplicava o Pequenu -, não me abandones aqui, porque sozinho não

consigo descer; se cair, parto os braços e as

pernas.

Mas o Cracra cada vez ria mais.

– Ah ah ah, adeus Pequenu!

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E lá vai ele pela janela fora.

Pobre Pequenu! Ficou sozinho, empoleirado no relógio, dependurado na parede.

Tic, tac, tic, tac, tic, tac; e o Pequenu agarrava-se com toda a força.

Tic, tac, tic, tac, tic, tac; ouviu-se um barulho surdo no interior do relógio, e bing, uma portinha abriu-se, e hop! um pequenino cuco de madeira apareceu na entrada da portinha.

Mas, com o movimento, o relógio estremeceu e o Pequenu caiu em cima do cuco, mesmo no momento em que ele saía; felizmente

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teve ainda tempo de se agarrar com

os dois bracinhos à volta do pescoço do cuco.

O passarinho cantou: cucu, cucu, e tornou a

entrar no relógio. A portinha fechou-se e o

Pequenu desapareceu.

Sabes para onde tinha ido o Pequenu?

Pois bem, para dentro do relógio, com o

cuco. Que escuro estava! O pobre Pequenu

não via quase nada; de princípio nem se

podia mexer; um bocadinho depois já distinguia umas rodinhas que rodavam devagarinho.

Clic, clic, clic, faziam as rodinhas.

Então o Pequenu começou a chorar, com

lagrimazinhas pequeninas, com lágrimas minúsculas.

-Ai, ai, ai, chorava o pobre Pequenu, ninguém sabe onde estou, e nunca mais, nunca mais poderei sair deste relógio.

Que triste estava o pobre Pequenu!

Mas, de repente, que viu ele? Umas enormes pernas compridas e muito magrinhas, um corpinho redondo, uma cabecita e ainda mais pernas.

Tu não sabes o que era, mas o Pequenu

sabia muito bem.

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Era Prateada, a aranha.

– Oh Prateada-gritou o Pequenu-que contente estou por estares aqui!

– O quê ? Bom dia, Pequenu. mas que estás tu a fazer neste relógio?

-Foi o Cracra que me meteu neste relógio – disse o Pequenu – mas, Prateada, tu podes ajudar-me; se fizeres um fio muito grande, daqui até ao chão, eu desço por ele.

-Pois sim, que boa ideia; vem atrás de

mim.

Pequenu segui-a com muito cuidado, e a Prateada começou a fazer um fio muito comprido e bem grosso, que pouco a pouco, foi chegando ao chão.

Então a Prateada chamou o Pequenu:

– Anda Pequenu : agora é só escorregares e já estás no chão.

O Pequenu agarrou-se ao fio, e devagarinho, com muito cuidado, deixou-se escorregar e chegou ao chão.

– Muito obrigado, Prateada – gritou o Pequenu – e fugiu a toda a pressa para o seu buraquinho de ratos.

Mas o que é que ele estava a ouvir?

Cra, cra, cra, cra!

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-Ai! ai! ai!-exclamou o Pequenu-, lá

vem outra vez o Cracra!

E, pernitas para que vos quero, desapareceu por trás do armário.

– Cra, cra, cra, cra – dizia o corvo espera um bocadinho, Pequenu. Ainda te apanho.

Felizmente, neste momento, a porta

abriu-se e entrou o Bigodes.

Bigodes – gemeu o Pequenu-, livra-me

do mauzão do Cracra!

Bigodes atirou-se ao Cracra, que cheio

de medo voou pela janela.

E o Pequenu voltou para o seu buraquinho, todo contente por estar outra vez em segurança com os seus queridos ratinhos.

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XI V

PEQUENU E A BONECA CASTlGADA

Uma noite o Pequenu espreitava pelo buraquinho, a ver o que se passava na sala grande; e viu a Menina, num cantinho a brincar com as bonecas; pôs a boneca em pé, e disse muito zangada:

– Feia menina! Lá puseste outra nódoa no vestido; de castigo vais para o canto e ficas aqui sozinha toda a noite, enquanto as outras bonecas vão para a cama.

Pôs a boneca num canto, com o nariz contra a parede; e, depois, voltou-se para nem sequer olhar para ela.

– Oh meu Deus-disse o Pequenu-, que

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zangada está a Menina; a pobre boneca irá realmente passar toda a noite sozinha no canto?

Mas, neste momento, entrou a Mãe:

– Anda queridinha, são horas de ir para a cama: arruma as bonecas.

A Menina apanhou as bonecas todas, menos a que estava de castigo, e saiu.

Pequenu olhava para a boneca com ar muito triste, cheio de pena por ela estar

sozinha no canto.

Quando já era noite escura, e que todos

estavam a dormir, Pequenu aproximou-se da boneca; com um ar muito cansado, tinha

a cabecinha abaixada.

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Cric, crac, com um barulhito a porta abriu-se devagar e o Bigodes entrou.

Bigodes – chamou o Pequenu -, queres fazer uma coisa muito linda?

Naturalmente que o Bigodes disse logo que sim.

– Bem, então ouve : – vês esta enorme boneca aqui de pé? Está no canto porque sujou o vestido. Es capaz de a agarrar com os dentes e de a levares lá acima, ao quarto da Menina? Eu não posso com ela, pois ela é muito mais pesada que eu; mas, na verdade, tenho pena dela. Como queres que ela durma em pé?

E o Bigodes fez o que o Pequenu lhe pediu: agarrou a boneca com os dentes e levou-a para o quarto da Menina, e o Pequenu atrás deles.

Pronto! Bigodes saltou para uma cadeira, perto da cama onde a Menina dormia.

Com muito jeitinho pousou a boneca na cadeira e o Pequenu seguiu-o.

Então o Pequenu escondeu-se debaixo da saia da boneca, e arranjou uma voz muito fininha para chamar:

Menina, faz favor, acorda!

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-Quem me chama? – perguntou a Menina, acordando.

-Sou eu, a Lisa. Deixaste-me no canto, de castigo.

A Menina esfregou os olhos, para ver se

estava ou não a sonhar.

– Menina – continuou o Pequenu sempre escondido debaixo da saia da boneca-, tenho muita pena de ter sujado o meu vestido, mas bem sabes, caí mesmo no sítio onde

tinhas deixado a tua chávena de chocolate…

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Se soubesses como é triste ficar toda a noite de pé, no canto. Por favor, só por esta vez, queres perdoar-me?

Espantada, a Menina sentou-se na cama e olhava para a boneca, que, de repente, começara a falar.

-Só por esta noite, deixas-me dormir na cadeira? – perguntou a Lisa – assim estava mais pertinho de ti. Lá em baixo tinha tanto frio, e estava já tão cansada!

E então a Menina teve pena da Lisa; meteu-a dentro da sua caminha tão quente, beijou-a e disse:

– Pobre Lisa, pronto, estás perdoada! E esta noite deixo-te dormir na minha cama. Fecha os olhos e dorme; amanhã vamos ver se a nódoa de chocolate sai com água e sabão. Boa noite, Lisa.

E a Menina abraçou a Lisa.

Que contente ficou o Pequenu por a pobre Lisa ser perdoada! Logo que a Menina adormeceu, escapou-se entre os lençóis, avançou muito depressa sobre a colcha, e deu um beijo na carinha da Menina!

Depois saltou para o chão e apressou-se a voltar para o buraquinho dos ratos.

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Na manhã seguinte, Pequenu viu a Menina ensaboar o vestido da boneca; e a nódoa acabou por desaparecer.

Mas a Menina já não percebia nada e perguntava à Lisa:

-Como é que tu ontem subiste lá para cima ? E porque é que já não falas ? Eu não sabia que tu falavas!

Mas a Menina bem podia fazer perguntas à Lisa, que ela não respondia nada.

– Só gostava de saber – acabo u por dizer a Menina- só gostava de saber se não seria alguma fada que levou a Lisa para o meu quarto, e que a fez falar.

Então o Pequenu começou a rir porque ele sim, ele sabia muito bem que não tinha sido nenhuma fada.

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XV

PEQUENÚ E O FRASCO DE COMPOTA

Ainda era muito cedo. Tão cedo, que o Pai, a Mãe e os dois meninos estavam a dormir; mas o sol já brilhava, e a luz entrava pela sala dentro até ao buraquinho onde o Pequenu dormia com os cinco ratinhos. Um raiozinho de sol fez cócegas no nariz do Pequenu, que acordou logo e então apeteceu-lhe dar uma voltinha pela sala. Devagarinho, Pequenu saiu do buraco e foi passear para a sala.

Zzzzzzzzz! E as moscas zumbiam à volta da mesa.

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– Bom dia, moscas, porque estais a cantar tão contentes?

-Porque a Mãe esqueceu-se de fechar o frasco da compota-zumbiu uma enorme mosca-, e assim podemos comer à vontade.

– Pois eu acho isso muito feio – disse o

Pequenu.

– Zzzzzzzzzz, pois tu não nos hás-de impedir de comer o que quisermos-zumbiu a mosca grande.

– Isso é o que vamos ver – respondeu o Pequenu -, que já trepava por um pé da mesa.

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Realmente no meio da mesa lá estava o frasco da compota com a rolha meia aberta.

Zzzzzzzzzz, cantavam as moscas.

– Esperem um bocadinho – resmungou o Pequenu-, já vão ver o que eu faço, empurro a tampa, e pronto!

E com toda a força empurrou a tampa com as mãozinhas.

Zzzzzzz, protestou uma enorme mosca.

Mas o Pequenu, por muito que puxasse, não conseguia mexer a tampa; e a mosca grande começou a rir:

– Nunca mais conseguirás, Pequenu!

E lá foi outra vez encher-se de compota, até que, bumba, caiu de cabeça para baixo dentro do frasco.

Assustada, batia as asas, e zumbia cada

vez mais forte.

– Zzzzzzzz, Pequenu, ajuda-me – gritava

a mosca grande -, depressa, depressa.

– A culpa é tua – respondeu-lhe Pequenu

zangadíssimo.

Mas apesar disso, trepou para a tampa, a fim de a ajudar.

-Estende uma pata-disse o Pequenu.

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-Não posso-gemeu a mosca-, tenho

todas as patas coladas com compota.

As outras moscas voavam em volta do

frasco e da sua amiguinha, e zumbiam aflitas.

– Depressa, Pequenu, depressa, senão

a pobre Mosquinha afoga-se na compota.

E o Pequenu lá estendeu a mão, debruçou-se na beirinha do frasco e conseguiu agarrar uma das patas da Mosquinha; mas, a compota resistia, e o Pequenu puxava, puxava, e não conseguia nada.

E tanto puxou, tanto puxou, que Santo

Deus! pobre Pequenu, lá caiu ele também no

frasco da compota!

-Socorro, socorro-gritava Pequenu-, que, devagar, muito devagar, se enterrava na compota.

E, sem mesmo dar conta, perdeu o carapucinho azul; estava aflito, muito aflito o nosso Pequenu; a compota já lhe chegava quase até aos joelhos.

– Cinzentinho, Cinzentinho – gemia ele

desesperadamente-, vem depressa, ajuda-me, senão morro afogado na compota.

Mas o Cinzentinho não ouvia, pois todos

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os ratos estavam ainda a dormir no buraquinho.

E o Pequenu já tinha compota até à cinta.

– Ai meu Deus, que vai ser de mim? – chorava o pobre Pequenu -e bem se esforçava, mas a compota já lhe chegava às mãozinhas.

Zzzzzzzzz : zumbiam as moscas em frente ao buraquinho dos ratos, e gritavam:

Zzzzzzz, o Pequenu caiu na compota, – zzzzzz

Mas os ratos não ouviam e o Pequenu enterrava-se cada vez mais!

Então, uma das moscas, entrou direitinha no buraco, e pousando na orelha do Cinzentinho, começou a zumbir muito alto:

– Zzzzz, zzzzz, zzzz! o Pequenu caiu no frasco da compota.

Então, o Cinzentinho acordou aflito:

– depressa, depressa – gritou para os outros ratos-, depressa, o Pequenu caiu na compota.

E, pata aqui, pata ali, corre que corre, os cinco ratinhos saíram a correr do seu buraco.

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Plap, plap, plap, plap, plap e lá saltaram eles para cima da mesa.

Agora o Pequenu já só tinha a cabeça de fora.

Cinzentinho trepou para a beira do frasco e gritou: agarra-te ao meu rabinho Pequenu :

E, naturalmente, o Pequenu não esperou que o ratinho lhe gritasse outra vez, e então o Cinzentinho começou a puxar com toda a força; mas a compota prendia o Pequenu, que desesperado gritava:

– É impossível, é impossível!

Então o Cinzentinho teve uma ideia:

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-Vem cá, Comilão, vou agarrar o teu

rabinho com os dentes, tu seguras com os teus dentitos o rabo do Finório, o Finório agarra-se ao rabito do Fuçopreto, e o Fuçopreto segura-se ao Olhodeconta; e

quando eu gritar: um, dois, três, puxamos todos ao mesmo tempo!

E dito e feito um, dois, três, gritou o

Cinzentinho.

Meu Deus, que difícil era, que esforço

faziam para puxar com toda a força! Que

bom! Lá começa o Pequenu a sair da compota; mais um esforçozinho e cá está o Pequenu fora do frasco.

Mas em que estado estava o pobre

Pequenu! Todo pegajoso, todo pegajoso!

Mas, não se esqueceu da Mosquinha, e

gritou :

– Cinzentinho, despacha-te, tira a Mosquinha que ainda está no frasco!

Era muito mais fácil que tirar o Pequenu.

Cinzentinho estendeu o rabinho à Mosquinha, que, por sua vez, lá saiu do frasco.

-Anda Pequenu, vamos depressa para nossa casinha -disse o Cinzentinho.

E o Pequenu põe-se às costas do ratinho.

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E pata aqui, pata ali, corre que corre, entraram todos no buraquinho.

-Estou todo pegajoso-choramingava o Pequenu. – Mas os ratinhos não se atrapalharam: começaram os cinco a lambê-lo até que ele ficou muito limpinho.

Bzzzz, bzzzz As moscas zumbiam à porta do buraquinho, com a Mosquinha que já tinham lambido até ficar bem seca.

E sabes o que elas traziam? O lindo carapucinho azul do Pequenu! E ele ficou tão satisfeito por tornar a ter o seu bonezinho, que bateu palmas de contente.

-Muito obrigado, muito obrigado – gritou às moscas-, enquanto elas voavam para longe.

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XVI

PEQUENU E O CARRINHO VERMELHO

Pequenu andava a passear na sala grande.

Já era tarde, tão tarde que toda a gente da casa estava a dormir: o Pai, a Mãe, e os dois Meninos. Mas não estava muito escuro, porque a Lua iluminava a sala, e assim o Pequenu via como se fosse dia.

Deu uma voltinha à mesa, olhou para a cadeira da Mãe, e, de repente, que viu ele no chão, perto da caixa dos brinquedos? O lindo carro vermelho do Menino.

– Que bom – disse o Pequenu – vou brincar com o carrinho!

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Mas, neste mesmo momento, Olhodeconta e Fuçopreto entraram na sala, e o Pequenu escondeu-se dentro do carro, para lhes pregar uma partida.

E mal eles se chegaram ao carro, que fez o maroto do Pequenu? Põe-se a tocar a buzina! Pó, pó, pó, pó!

Meu Deus! Que medo tiveram os pobres ratinhos! Assustadíssimos, correram a toda

a pressa para o buraquinho. Ah ah ah, ria-se o Pequenu.

-Que tontos vocês são, Olhodeconta e Fuçopreto, não tenham medo, sou eu, o Pequenu!

Então os ratinhos voltaram para a sala, e aborrecidos protestaram:

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-Não há direito, Pequenu, pregar-nos um susto tão grande!

Então o Pequenu pós um dedinho num botão, deu uma volta ao volante, e sabes que aconteceu ? O carro principiou a andar.

– Bravo, bravo, – gritavam os ratinhos – e o Pequenu, muito satisfeito, fazia grandes sinais com o carapucinho.

Mas o carrinho começou a andar depressa, e apesar de todos os esforços, o Pequenu não conseguia pará-lo.

– Ai ai ai, gritava com uma voz muito fininha; e fazia todos os possíveis para mexer o volante e metê-lo entre os móveis.

Os ratinhos olhavam para ele, presos ao chão com o susto; e o Pequenu andava com uma velocidade louca pela sala fora. Santo Deus! lá vai ele quase contra um banco!

O Comilão pôs as patinhas em frente aos olhos para não ver o desastre, mas o Pequenu conseguiu passar junto ao banco, sem nenhum acidente.

– Atenção, cuidado Pequenu – gritavam os ratos-, porque mesmo naquele momento a Prateada ia atravessar.

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A aranha voltou a cabeça e viu aproximar-se um carrinho encarnado.

– Prateada, depressa, foge – gritavam

os ratos assustados.

E a Prateada só teve mesmo tempo para

se esconder debaixo dum pé da mesa, porque

neste momento, brrrrr, o Pequenu passou

com um barulho horríel!

Pequenu virou o volante; o carro deu

uma volta e caminhou direito ao armário.

E o Pequenu agarrava-se ao volante e a

sua barba branca voava, com o vento que o

carro fazia!

Encostados uns aos outros, os ratinhos

olhavam cheios de medo.

– Ai meu Deus -gritou Olhodeconta

agora com toda a certeza o Pequenu vai

esbarrar-se contra o armário.

Brrr, e o carro passou como um

furacão.

Brrrrrr :, desapareceu debaixo do

armário.

Brrrr :, tornou a sair do outro lado, com

o Pequenu sempre agarrado ao volante, e

agora o carrinho ia mesmo direito ao grupo

de ratinhos, todos agarrados uns aos outros.

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– Cuidado! Cuidado! – gritou o Pequenu. E os ratos correram em todas as direcções.

Mas, mesmo neste momento, entrou o Bigodes; e, pata aqui, pata ali, os ratos fugiram para o buraquinho, porque tinham um medo terrível do gato.

Pó, pó, pó buzinava o Pequenu para prevenir o Bigodes.

-O quê? Que será isto?-perguntava ele. grr :, o carro passou-lhe mesmo debaixo do nariz com uma enorme velocidade.

Bigodes deu um salto e disse:

– Olha! Um rato vermelho! É engraçado, mas em todo o caso vou apanhá-lo.

E com grandes saltos, o Bigodes começou a perseguir o carro encarnado, pensando que era um rato. Pequenu continuava agarrado ao volante, e brrrr, o carro corria cada vez mais depressa.

E o Bigodes resolveu parar um bocadinho para observar aquele animal tão esquisito.

Mas, que será isto? é mesmo a voz do Pequenu que sai lá de dentro!

O carro voltava direito ao gato e o Pequenu gritava:

114

– Atenção Bigodes, cautela, Bigodes!

Espantado o Bigodes nem se mexia; e então aconteceu o que tinha que ser: o carro bateu contra ele, com toda a velocidade. E agora, que julgas que se passou? Pois bem, o Pequenu saltou do carro, deu uma grande curva no ar, e ploc, caiu de cabeça para baixo dentro da taça do leite do Bigodes.

-Miau, miau, miau-dizia o Bigodes – fugindo a toda a pressa para o corredor.

E dentro da sala já não havia barulho. Um de cada vez os ratinhos foram saindo do buraco.

-Onde estará o Pequenu, onde estará o Pequenu?-gritavam todos muito aflitos.

115

– Glu, glu, glu, glu – Que será este barulho? `

O Cinzentinho olhou à volta, e o que viu? Muitas bolhinhas na taça do leite do gato; a seguir, os ratinhos viram aparecer um bonezinho azul, no meio das bolhas, e a carinha do Pequenu. E o Pequenu saiu, enfim, da tacinha do leite: estava todo branco, dos pés à cabeça; e ficava tão engraçado que os ratos começaram a rir. Mas o Pequenu é que não achou graça nenhuma e pediu:

-Em vez de se rirem, ajudem-me a secar

E então, todos correram para o buraquinho, e os ratitos ajudaram o Pequenu a secar-se.

116

XVII

PEQUENU E O BALÃO VERMELHO

Pequenu estava sentado no buraco dos

ratos, muito ocupado a escovar o carapucinho com a sua escovinha, quando, de repente, o Comilão entrou.

-Pequenu, vem cá depressa!

Curioso como era, o Pequenu foi logo, muito depressa. E então que viu? Tinham dado à Menina um maravilhoso balão vermelho, tão grande que ela tinha que o agarrar com muita força para ele não voar; e

depois, com um fio, acabou por o segurar

nas costas duma cadeira.

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Agora deixa o balão, disse a Mãe, são horas da escola.

Logo que a Mãe e a Menina saíram da sala, o Pequenu não pôde conter a sua curiosidade, e, saindo do buraquinho, avançou com muito cuidado até à cadeira onde estava o lindo balão.

Corre que corre, o Cinzentinho foi atrás

dele.

– Meu Deus, que beleza de balão -exclamou o Pequenu trepando para a cadeira e depois para o encosto.

Pegou no fio e puxou. Mas o balão nem

se mexeu.

Então a porta abriu-se e entrou o Bigodes.

Pata aqui, pata acolá, o Cinzentinho

correu para o buraco.

Mas o que havia de acontecer? Quando

o Bigodes abriu a porta, fez-se uma corrente de ar, porque a janela estava aberta, e o balão começou a balouçar perigosamente, o fio quebrou e! Puf! O balão voou.

Ora o Pequenu não tinha largado o fio, e tremia com medo. Mas ainda teve muito

mais medo quando deu conta que o balão subia, e que o levava consigo.

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Socorro! Socorro! – gritava com toda

a força, Bigodes – segura-me! Depressa, depressa, o balão vai pelos ares!

O Bigodes deu um grande salto, estendeu a pata para apanhar o Pequenu, mas o balão já ia muito alto, e o Bigodes não podia dar um pulo tão grande.

119

O balão voava pela sala; passou por cima do armário, das cadeiras, da mesa, e lá vai ele pela janela fora!

– Socorro, socorro!

Pequenu continuava a gritar, mas nem o gato nem os ratos podiam vir em sua ajuda.

E agora o balão voava já por cima do jardim, do monte de areia e cada vez subia mais alto.

Da janela, o Bigodes olhava aflito para o Pequenu que se afastava cada vez mais.

Oh Pequenu, Pequenu – chorava o

Bigodes-com certeza nunca mais te vemos e vais-te perder nas nuvens!

Zzzzzz, zzzzzz Olha cá está a Mosquinha, a querida Mosquinha Azul!

-Olá, Bigodes, que estás tu a ver no

céu?

-Foi o Pequenu que se agarrou ao

balão, o balão voou e o pobre Pequenu

anda pelos ares!

A Mosquinha olhou para o céu, e compreendeu logo; e então começou a voar.

O vento empurrava o Pequenu com tanta

força que quase lhe tinha arrancado o bonezinho

120

azul; mas o Pequenu não podia largar as mãos do fio para o enfiar na cabeça.

Muito longe, por baixo dele, viu as casas

a igreja, e no horizonte, a grande florésta.

Zzzzzzzz, zzzzzzzz, O Pequenu escutou, e levantou a cabeça, cheio de esperança.

– Mosquinha – gritou ele -, vê se podes

segurar o balão.

A Mosquinha tentou, mas não tinha

força e o balão continuava a subir.

E a Mosquinha, estava tão cansada por

causa do esforço para agarrar o balão, que

se sentou em cima, e o balão voava, voava

cada vez mais longe; e o pobre Pequenú

principiava a ter dores nas mãozinhas.

– Ai meu Deus meu Deus! se eu nunca

tivesse trepado para aquela cadeira! Se eu

nunca tivesse pegado no fio do balão – lamentava-se o Pequenu.

-Nunca mais verei os ratinhos, nem o Pai, nem a Mãe, nem os Meninos…

Zzzzzzzz, zzzzzzz, zzzzzzz

-Que será isto?

Zzzzzzzz, zzzzzz, zzzzzzz !

121

De repente o Pequenu compreendeu: era

o Zumbidor, o moscardo!

-Zumbidor, Zumbidor, vem depressa

ajudar-me – chamou o Pequenu.

– Zzzzzzz, zzzzzzzz

O Zumbidor aproximou-se, e veio pousar no balão ao lado da Mosquinha.

-Despacha-te, faz qualquer coisa, querido Zumbidor-pediu o Pequenu-, doem-me tanto as mãos que estou quase a largar o fio.

E o Pequenu começou a chorar.

Mas o Zumbidor não perdeu a cabeça;

com o seu ferrão fez um buraquinho no balão.

Ffffff. . o gás começou a sair devagarinho pelo buraquinho, e aos pouquinhos o balão começou a esvaziar. Então, como é natural, principiou a descer.

-Faz mais um buraquinho, Zumbidor, ; pediu a Mosquinha.

Tic, outro buraquinho.

Pffffffffff. e o gás, agora sai pelos

dois buracos.

E o balão descia cada vez mais depressa.

Mesmo por baixo dele, Pequenu viu uma

122

casinha verde, em cima dum grande pau; e pousou direitinho em cima dela.

Crru, crru, crru, crru mas que barulho é este, nesta casinha tão engraçada? E sabes o que era a casinha?

Era um pombal! E lá dentro viviam vinte pombinhos.

Crru, crru, crru, crru, – Quem pousou na nossa casinha?- perguntou o Senhor Pombo.

-Sou eu, o Pequenu!

– E donde vens ?

– Da Casa Grande, da cidade – respondeu o Pequenu. -Vocês serão capazes de me levarem lá, queridos Pombinhos?

123

-Pois com certeza, Pequenu, trepa para as minhas costas – disse o Senhor Pombo.

E o Pequenu não esperou que o Pombo se oferecesse outra vez, e agarrou-se às penas do pombinho.

I Flap, flap, flap. As asas do Pombo batiam ao vento, e lá ia o Pequenu outra vez pelos ares.

Bzzzzzzzzz, Zzzzzzzzzzz, zzzzzzzzz, zzzzzzzzz! A Mosquinha e o Zumbidor seguiam-nos de perto. Mas depois passaram à frente, para irem anunciar à Casa Grande, a boa notícia da volta do Pequenu.

– Muito obrigado, Senhor Pombo – disse o Pequenu -, logo que se viu sobre a janela, donde, tão pouco tempo antes, tinha voado. E, com toda a pressa, voltou para a casinha dos ratos, e aninhou-se no buraquinho.

Os ratinhos, ficaram tão contentes por tornarem a ver o seu amiguinho, que até dançaram uma rodinha à volta dele; e depois o Pequenu contou-lhes o sarilho em que se metera.

124

XVIII

PEQUENU E O ANIVERSÁRIO DA MENINA

Pequenu estava sentado à porta do seu buraquinho, e estava todo contente, porque era o aniversário da Menina; via tudo o que se passava na sala, e era um lindo espectáculo.

A Menina trazia um vestido muito bonito, e a sua cadeira estava enfeitada com muitas flores vermelhas e brancas. Em cima da mesa, no lugar dela, havia uma pilha de presentes: uma linda boneca, uma loja de mercearia, um cartucho de bombons, um estojo de costura, e um lindo colar de prata!

125

Então a Menina pegou no colar com muito cuidadinho.

Cra, cra, cra, cra! O corvo estava pousado na beira da janela aberta e observava o

que se estava a passar no interior. Mas, o Pequenu, viu logo que ele estava com ar arreliador, e ficou muito aborrecido.

Iiop, hop! Em dois saltos o Cracra estava em cima da mesa.

– Minha Mãe – gritou a Menina -, olha que bonito é o corvo, veio-nos visitar outra vez!

E todas as pessoas se puseram a admirar o Cracra.

O Menino então perguntou:

– Mãe, posso dar-lhe migalhinhas de

bolo?

– Que bonito é o Menino – pensou o Pequenu.

Mas, que é isto? Que queria então este feio Cracra? Dum salto chegou ao pé da Menina, saltou para o colar, e flap, flap, o feio pássaro voou pela janela, levando o colar no bico!

O Pequenu estava tristíssimo, a Mãe e os Meninos espantados.

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Ainda correram à janela, mas o Cracra já ia longe.

A Menina chorava tanto, que metia pena; chorava muito, muito e tinha a carinha cheia de lágrimas.

O Pequenu também quase chorava, com pena da Menina; quanto à Mãe, estava toda zangada com o Cracra.

Bzzzzz, bzzzzz Pequenu ouviu um zumbidinho perto do buraco dos ratos.

– Ainda bem – gritou o Pequenu -, é a Mosquinha, a grande mosca preta. Mosquinha, Mosquinha, corre, vai depressa ver

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onde o horrível Cracra escondeu o colar de prata da pobre Menina.

Bzzzzz, bzzzzz – respondeu a Mosquinha-, já vou Pequenu, vou de repente.

E a Mosquinha lá foi a bater as asas. Procurou no jardim todo, e depois, como não encontrou nada, voou até às portas da cidade, à grande floresta onde morava o Cracra.

A Mosquinha sabia onde era o ninho, numa grande árvore.

Bzzzzz, bzzzzz A Mosquinha olhou com muito cuidado por cima dum ramo, e viu logo o lindo colar, no ninho do Cracra.

Imediatamente voou até à casa grande e disse ao Pequenu :

-O colar está no ninho do Cracra!

Então o Pequenu chamou um dos ratos:

-Cinzentinho, faz favor, leva-me para o telhado da casa.

Corre que corre, Cinzentinho pôs o Pequenu às costas e levou-o ao telhado da casa, e o Pequenu pôs-se a olhar para o céu.

– Pronto – gritou – lá está o Senhor Pombo!

Tirou o barretinho e pôs-se a fazer grandes gestos e a gritar:

-Senhor Pombo, Senhor Pombo! Fazes

o favor, levas-me ao ninho do Cracra?

-Com certeza, Pequenu, com todo o

prazer! É só sentares-te nas minhas costas.

Pequenu instalou-se, confortavelmente, nas penas do Senhor Pombo, que, com toda a rapidez o levou à grande floresta, onde o Cracra tinha o ninho.

Lá, na árvore maior, no ramo mais

grosso, Pequenu desceu das costas do amigo

Pombo, e, devagarinhho, dirigiu-se para o

ninho do Cracra.

Felizmente o Cracra não estava em casa!

Pequenu entrou rapidamente no ninho;

lá estava o lindo colar! O maroto do Cracra

tinha-o escondido no ninho! O Pequenu

pegou nele, e foi-se embora, em equilíbrio

sobre o ramo. Mas, meu Deus! lá está o

Cracra a chegar!

– Cra, cra, cra, cra, feio Pequenu -gritou o corvo, dá-me o colar, e depressa!

-Não e não-protestou o Pequenu. Tu

é que és feio, Cracra, e o colar não é teu, é

da Menina.

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Furioso, o corvo deu uma bicada no Pequenu, e o pobrezinho desequilibrou-se, escorregou no ramo e caiu.

-Socorro, socorro, Senhor Pombo – gritava o Pequenu.

Mas continuava a cair, de ramo em ramo, cada vez mais depressa.

Bzzzzzz – chorava a Mosquinha assustadíssima-pobre Pequenu, vai quebrar as pernas e os braços! Ai, ai, ai!

Mas, de repente, o Pequenu parou, e ouviu uma vozinha dizer-lhe:

-Que sorte tiveste, Pequenu, que bom eu poder apanhar-te!

E sabes quem era? Caudafarta, o esquilo.

Conseguiu apanhar o Pequenu, e amarrou-o com a ponta do colar a um ramo.

– Que medo eu tive – suspirou o Pequenu – Muito obrigado, Caudafarta, sem o teu auxílio com toda a certeza teria partido os braços e as pernas!

Cru, cru, cru, cru, lá vinha o Senhor Pombo.

-Faz favor, leva-me a casa-pediu-lhe

o Pequenu.

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-Com certeza Pequenu, não me custa nada.

– Adeus, Caudafarta, até à vista – gritou o Pequenu-, vou já para casa, levar o colar à Menina.

E, quando chegou a casa, encontrou a

Menina toda triste por ter perdido o seu lindo colar.

Mas, quando se foi deitar, que é que ela viu, em cima duma cadeira, ao pé da cama?

O colar!

-Minha Mãe, minha Mãe, anda ver, vem ver depressa!

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E toda a gente apareceu a correr muito.

– Quem seria que me trouxe o colar ? perguntava a Menina muito admirada.

– Eu não sei – respondeu a Mãe – também estou admirada, com certeza foram as fadas.

E o Pequenu, que estava a ouvir a conversa, fartou-se de rir, porque sabia muito bem que não tinham sido as fadas.

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XIX

PEQUENÚ E OS PINTORES

Uma bela manhã, Pequenu acordou e disse :

– Olha, já é dia! Já deve ser muito tarde mas, que grande barulheira é esta, na sala de jantar?

Ouvia-se arranhar, raspar, bater, empurrar!

Curioso como era, o Pequenu não pôde resistir; era mesmo preciso ir ver o que se passava.

E deu uma olhadela pela portinha; eh lá! tanta gente na sala! Uns poucos de homens levavam cadeiras, mesas, tapetes, todos os

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móveis e até as cortinas; e o Pequenu não percebia nada.

-Só gostava de saber se a Mãe saberá disto tudo – afligiu-se o Pequenu.

A sala estava quase vazia, e o Pequenu

estava cada vez mais aflito.

-E se o Pai, a Mãe e os Meninos mudarem de casa? E se eles vão embora para sempre?

Meu Deus, que grande tristeza! Crac, crac, crac Que grande barulho será este? E o Pequenu começou a tremer.

Crac, crac, crac!

Com muito cuidadinho o Pequenu deu

uma olhadela para a sala, e, que horrível surpresa, viu um homem a arrancar o papel da parede.

– Meu Deus – disse o Pequenu – como a

Mãe se vai zangar! Ela está sempre a dizer

aos Meninos: não rabisquem nem sujem o papel, não quero nódoas; e agora vem este homem horrível arrancar o papel das paredes. Se ao menos o gato o arranhasse era uma grande coisa.

Mas o gato nem lá estava.

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Mas, de repente, a porta abriu-se e a Mãe entrou.

Pequenu ficou aflito e pensou: que zangada ela vai ficar!

Realmente não se percebe nada, não só se não zangou, mas ainda se dirigiu ao homem com um ar muito amável:

– O trabalho está a correr bem? Quer beber alguma coisa?

E o Pequenu estava tão admirado que nem podia acreditar no que ouvia.

Corre que corre, o Cinzentinho entrou no buraco; e, todos a correr, lá vinham o Comilão, o Olhodeconta, o Fuçopreto e, por fim, o Finório.

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Com um ar muito contente puseram-se

a dançar à volta do Pequenu, e, de repente, o

Cinzentinho e o Fuçopreto pegaram-lhe nas

mãozinhas, e a gritar e a cantar começaram

a dançar uma rodinha.

Bravo, bravo -cantavam eles-os pintores chegaram e vão pôr papéis novos na parede. E vão colá-lo com uma deliciosa cola feita com farinha, e nós vamos comer tanto, tanto, que havemos de ficar grandes e gordos.

Viva!

Mas o Pequenu ainda não percebia bem.

– Como ? – perguntava. – Que é que eles vão fazer?

E então o Cinzentinho explicou-lhe

melhor:

– A Mãe mandou mudar os papéis das

paredes; e os pintores vão colá-lo com uma

cola de farinha que tem um gosto maravilhoso.

E então todos os ratinhos se aproximaram da porta, à espera que os pintores trouxessem a cola.

Bim, bam, bum, Passos muito pesados

soaram no corredor, a porta abriu-se e um

pintor entrou, carregado com dois baldes.

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– Olha a cola, olha a cola – murmuravam os ratinhos. E lá estão eles outra vez a dançar de roda!

O Pequenu achava tanto entusiasmo um exagero, e, um bocado aborrecido, foi-se instalar num cantinho; mas a curiosidade começou a aparecer e lá vai o nosso Pequenu espreitar pela porta, para ver bem o que se passava na sala.

O pintor passou um pincel enorme em cima duma grande fatia de papel; quando ela estava toda cheia de cola, levantou-a e com muito jeitinho colou-a na parede.

La, la, la-cantarolou o Pequenu-que lindo é o papel novo!

Dong, dong; dong : fez o grande relógio da entrada. E os homens pararam de trabalhar para irem almoçar.

Corre que corre, cheios de pressa, os ratos avançaram para os baldes de cola, para também almoçarem.

O Finório deu um salto para a beira do balde, e pumba! escorregou e mergulhou na cola.

O pobre ratinho gritava, gritava, mas desta vez não era de alegria.

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-Pequenu, por favor, vem depressa acudir-me! Caí no balde da cola e não sou capaz de sair!

E lá vai o Pequenu, com todos os ratinhos atrás, acudir ao Finório, que chorava de aflição; Pequenu trepou muito depressa para a beira do balde; os ratinhos choravam e olhavam cheios de medo para o enorme balde onde o irmão se afogava.

O Finório debatia-se na cola grossa, mas sempre que estava a chegar à borda do balde, escorregava e caía.

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E os ratinhos choravam em coro:

-Meu Deus, meu Deus, que havemos de fazer?

O Finório vai afogar-se! Pequenu

ajuda-nos, que havemos de fazer?

O Pequenu estava muito assustado e

olhava para todos os lados com aflição; mas, de repente, veio-lhe uma ideia!

Um dos grandes pincéis dos pintores estava encostado ao balde, pelo lado de fora, o Pequenu empurrou-o com toda a força, tão bem que conseguiu arrastá-lo, e, de repente, pluf, o pincel caiu no balde. E agora o Finório podia trepar pelo cabo do pincel e sair do balde.

Que alegria teve o Finório quando se viu cá fora!

Os outros ratinhos apressaram-se a lavá-lo, lambendo-o com toda a perfeição.

– E agora -disse o Pequenu -, agora vou para o meu buraquinho, pois já deve ser tardíssimo!

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XX

PEQUENÚ E O NOVELO DE LÃ

Pequenu estava muito sossegadinho à porta do buraco a ver o que se passava na sala.

Mas, o que estaria ele a ver com tanta atenção? Estava a ouvir uma música maravilhosa, tão linda como nunca tinha ouvido.

A Mãe, o Pai, e os Meninos estavam sentados à volta da mesa, em cima da qual havia uma caixa quadrada. Em cima da caixa andava à roda um objecto redondo, preto e brilhante, donde saía a música.

Por fim, o Pai disse:

– Pronto, Meninos, chega por hoje, amanhã continuaremos.

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– Oh Que pena – suspirou o Pequenu ao ver o Pai arrumar a caixa sobre a mesa, perto da janela.

Então os Meninos foram brincar, o Pai foi para o escritório e a Mãe foi trabalhar para a cozinha; mas quando ela saiu, uma corrente de ar fez cair ao chão o novelo de lã com que ela estava a trabalhar. O Pequenu viu e disse:

– É melhor apanhá-lo senão ainda o pisam, e sujam-no:

– Olha que rica ideia – disse o Pequenu

-vou apanhar a lã, e pousá-la na mesinha.

E quis apanhá-la; mas que pesado era o novelo! era tão pesado que o Pequenu não podia levantá-lo do chão. E então teve outra ideia: atou o fio de lã à volta do novelo, deu um nó, e trepou para a mesinha onde estava a caixa de música; e com o fio muito apertado nos dedinhos, tentou puxar o novelo todo para cima. Mas nem assim conseguiu.

Então o Pequenu subiu para a caixa e pôs-se de pé, em cima da caixa redonda e brilhante. Agora então ia puxar com muita força, tanta força que com certeza conseguiria.

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Mas o que era aquilo? Quem estava a olhar pela janela? Cuidado Pequenu, cuidado!

Mas o Pequenu nem reparava em nada. Era o Cracra! O Cracra que estava em cima da janela; e o Pequenu estava tão ocupado a puxar pelo novelo que nem o via.

O Cracra olhava para ele e ria-se; de repente, sem fazer barulho, dum salto, o passarote aproximou-se da caixa, olhou para o Pequenu com olhos marotos, e com

o bico carregou num botãozinho preto que havia na caixa de música.

Então. Ai ai ai ai – gritava o Pequenu com a sua vozinha fina.

A coisa redonda começou a girar, com o Pequenu em cima; e o pobre Pequenu bem queria equilibrar-se, mas largou o fio de lã, e o disco girava cada vez mais depressa!

Andava tudo à volta e o Pequenu já tinha vertigens, precisou de pôr as mãozinhas nos olhos para não olhar. E o Cracra, aquele horrível Cracra, ria à gargalhada!

Cra, cra, cra – ria ele. Que engraçado, não é, Pequenu? Mas que engraçado!

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Mas o Pequenu não achava graça nenhuma.

Meu Deus, que será isto? Alguma coisa se enrolava nas pernas do Pequenu.

Era o fio de lã! Mas que desgraça! O Pequenu continuava a andar de roda e a lã enrolava-se à sua volta; primeiro à volta das pernas, depois do corpo, e por fim o novelo todo se enrolou à volta dele e já nem se via o Pequenu, que estava no meio do novelo

– Ai meu Deus – suspirava o Pequenu -, não vejo nada, e ninguém me pode ajudar, nem os ratos, nem o Bigodes, nem ninguém!

De repente, o novelo de lã, com o Pequenu

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lá dentro, rolou, caiu da caixa para cima da mesa, e da mesa para o chão.

Cra, cra, cra, cra, e o corvo sufocava

de riso.

– Onde estará o Pequenu ? – perguntavam os ratinhos. E procuravam-no por toda a parte.

Mas o Bigodes entrou e os ratos fugiram a toda a pressa.

Flip, flap, flip, flap o Cracra voou pela janela e foi poisar na árvore grande, no meio da relva.

– Cracra, perguntou-lhe o Bigodes -, que tolice fizeste? Tenho a certeza que não tens a consciência tranquila.

Cra, cra, cra, cra, -arreliava o corvo – olha Bigodes, e se tu deitasses uma olhadela para o novelo de lã?

– O novelo de lã, o novelo de lã, – resmungou o Bigodes-que terá de especial o novelo de lã?

E deu uma patada no novelo e ele começou a rolar; e então achou graça à brincadeira e ia continuar, quando viu uma coisa que ele conhecia muito bem: um bocadinho do bonezinho azul!

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-Miau, miau, parece o barretinho do Pequenu!

Cra, cra, cra, cra-arreliava o corvo – é mesmo o boné do Pequenu.

E então o Bigodes ouviu uma vozinha que gemia :

-Ajudem-me! Socorro! Estou dentro do novelo!

Depressa, com muita pressa, o Bigodes principiou a desenrolar o novelo e apareceu a cabecinha de Pequenu.

-Ai!-gemia o Pequenu-que contente estou por me teres ajudado. Aquele feio Cracra…

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Mas, neste instante, a porta abriu-se e a Mãe entrou.

Devagarinho, pé ante pé, o Pequenu fugiu para o seu buraco.

Mas que zangada a Mãe ficou quando viu o novelo todo ensarilhado!

– Feio gato – disse ela ao Bigodes – olha o que fizeste. Pois bem, de castigo hoje não te dou leite!

O Pequenu ouviu e ficou todo triste; que zangado estava com o Cracra! Mas, felizmente, a Mãe teve pena do pobre Bigodes, e apesar de tudo deu-lhe

mais tarde uma tigelinha de leite.

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XXI

PEQUENÚ E O BALOIÇO

Na secretária do Pai havia uma linda régua de madeira, muito direitinha cheia de números.

Pequenu, trepado na secretária, observava tudo quanto lá havia: o tinteiro, a caneta e todo o resto.

E pronto! Lá chegou o Bigodes; dum salto estava em cima da mesa.

-Bom dia, Bigodes-disse o Pequenu.

– Bom dia, Pequenu. Andas a passear ?

-Ando, e estou todo satisfeito; ando a ver muita coisa bonita.

Pequenu -disse o Bigodes – eu sei um

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jogo muito interessante. Queres fazer um baloiço com a régua? É assim:

E o Bigodes pegou nela e pousou-a em cima do tinteiro.

– E agora – disse o Bigodes – sentas-te numa ponta e eu faço força na outra com a pata; assim é que se faz um baloiço!

E o Pequenu ficou encantado; sentou-se tal e qual como o Bigodes lhe ensinara e o Bigodes apoiou com a pata na régua.

Upa Lá vai o Pequenu muito alto! E quando o Bigodes, muito devagarinho, tirou a pata, o Pequenu desceu.

Acima e abaixo, acima e abaixo, o Pequenu subia e descia; mas que engraçado era!

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Como ele ria ao agarrar-se ao seu baloicinho!

Mas, de repente, que fez o Bigodes? Carregou na régua com muita força, e pumba!

lá vai o Pequenu pelos ares!

E foi tão alto, que chegou ao candeeiro!

Gritava com o susto e conseguiu agarrar-se

ao abajur, e ainda bem, senão tinha caído.

– Ai meu Deus, que fui eu fazer? – miava o Bigodes todo aflito.

Como te vou tirar daí?

O Pequenu agarrava-se com as duas mãos na beirinha do abajur, mas estava muito longe do chão.

– Ai! ai!-gemia o Pequenu-já me

doem as mãos de tanto segurar.

– Deixa-te cair – disse o Bigodes – que eu apanho-te!

-Não, não, isso não-protestava o Pequenu-tenho muito medo.

– Vou chamar o Cracra – disse o Bigodes-e ele ajuda-te a descer.

O Bigodes foi-se embora e o pobre

Pequenu lá ficou como pôde, agarrado ao

candeeiro; e nem sequer olhava para baixo, com medo de ter vertigens.

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– Ai que aflição – chorava ele – se o Bigodes não vem depressa, caio ao chão.

Mas o Bigodes bem procurou; nem encontrou o Cracra, nem o Senhor Pombo. Mas ainda havia outro bichinho que podia ajudar o Pequenu; era a Prateada, que ia mesmo a sair do relógio de cuco.

Quando viu o Pequenu ficou espantada!

-Aguenta um bocadinho, Pequenu – gritou a Prateada-, vou ajudar-te.

Cinzentinho e os outros ratos tinham ouvido contar onde estava o Pequenu e vieram a correr para o escritório do Pai.

Cric, cric, cric-chiavam os ratinhos

-que havemos de fazer para tirar dali o Pequenu ?

E estavam todos numa aflição.

– Depressa, depressa – dizia o Pequenu -senão não posso aguentar.

Mas a Prateada avançava com umas passadas enormes.

– Depressa – disse ela aos cinco ratinhos – assentem-se numa roda, debaixo do candeeiro.

Então a Prateada começou a fazer uma teia muito forte, entre as patinhas dos ratos.

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E a Prateada era tão despachada que,

num instante, a teia ficou pronta.

– Trabalha depressa, Prateada – dizia, o

Pequenu – já não posso mais.

– Tem paciência, Pequenu – dizia a aranha a dar-lhe coragem; e cada vez trabalhava mais depressa. Os cinco ratinhos estavam tão quietinhos, que nem mexiam com

as orelhas.

Mas, neste momento, o Pequenu, que já não podia mais, largou as mãozinhas e caiu.

Caiu de cabeça para baixo, e deu voltas e reviravoltas, e caía cada vez mais depressa.

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Por fim caiu em cheio a teia de aranhna

que os ratinhos seguraram com muita força.

E estava tão bem feita e tão forte que o

Pequenu não se magoou nada.

Cucu, cucu, cucu – crucitou o cuco do

relógio.

– Meu Deus, que já é tão tarde – gritou

a Prateada admirada-a Mãe deve estar a

chegar, e, se me vê, põe-me fora de casa.

-Adeus Pequenu, adeus ratinhos, vou

para a minha casa; e a Prateada fugiu com

quantas pernas tinha.

Pequenu, a toda a pressa correu para

o seu buraco com os ratinhos atrás dele.

Mas quem vem ali, pata aqui, pata acolá?

O Bigodes, muito aflito com a sorte do

seu amiguinho Pequenu.

– Não o vejo em lado nenhum – dizia

ele muito aflito. Onde estás, Pequenu?

– Aqui no meu buraquinho – disse o

Pequenu. Graças a Deus!

E sem sair do buraquinho, o Pequenu

contou ao seu amiguinho gato que a Prateada tinha feito uma rede muito bem feita, que os ratinhos a tinham segurado e que o tinham apanhado mesmo a tempo.

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XXII

PEQUENU SALVO PELO DOURADINHO

Muito bem sentado à entrada do buraquinho, atrás do armário, o Pequenu olhava para a sala vazia.

Tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque, fazia o relógio muito certinho; mas, de repente, tiquetaque, tiquetaque, mais devagarinho, cada vez mais devagar, até que parou. Que grande silêncio na sala onde já não se ouvia o tiquetaque do costume!

-Meu Deus-pensou o Pequenu-se o relógio pára, a Mãe, o Pai e os Meninos não sabem as horas, e tudo na Casa Grande vai correr mal.

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Por isso o Pequenu chamou os ratinhos e disse-lhes o seguinte:

– Ratinhos, meus queridos amigos: temos que dar corda ao relógio, senão nada mais corre bem na Casa Grande; o almoço atrasa-se, o Pai chega atrasado ao escritório e os Meninos vão deitar-se muito tarde. Então, o Pequenu e os ratos correram para o móvel onde estava o relógio e treparam em fila.

Mas, nesse mesmo móvel, havia um grande aquário redondo onde morava o Douradinho.

Os ratinhos e o Pequenu agarraram-se

com toda a força à cadeia que caía do relógio, puxaram, puxaram para lhe dar corda mas ele nem se mexia.

-E se eu puxasse pelo

pêndulo com muita força?-lembrou o Pequenu.

Trepou para o aquário onde o Douradinho nadava, mas ainda assim não chegava ao pêndulo.

Então o Cinzentinho teve uma ideia:

Pequenu, nós os ratinhos, vamos fazer uma

escadinha uns em cima dos outros, tu sobes lá para cima, e assim talvez lá chegues.

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O Pequenu achou bem, e os ratos fizeram a escadinha; então o Pequenu trepou para os ombros do último, e ficou mesmo à altura do pêndulo; puxou por ele, o pêndulo abanou um bocadinho, mas quando veio para o outro lado, abanou com o Pequenu, que quase perdeu o equilíbrio.

Felizmente segurou-se com toda a força e tornou a agarrar-se ao pêndulo; mas mesmo neste momento o Bigodes entrou, e os ratitos, corre que corre, fugiram todos.

Agora o pêndulo balançava normalmente

e o Pequenu balançava-se também.

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– Socorro, socorro – gritava o Pequenu assustadíssimo.

Tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque, fazia o relógio.

Bing, bang, bing, ban, lá ia o Pequenu

a balançar-se pelos ares, Que terrível sensação!

E o pobre Pequenu já estava enjoado.

– Socorro – gritava o Pequenu. – Cinzentinho, Olhodeconta, Fuçopreto, Comilão, Finório!

Mas os ratos não tinham coragem de sair do buraquinho, enquanto lá estivesse o Bigodes.

Bigodes – gritava o Pequenu – anda ajudar-me.

– Quem me chama – admirou-se o gato.

– Eu, o Pequenu – E agarrava-se ao pêndulo.

– Tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque, fazia o relógio.

– Bing bang, bing bang, bing bang o Pequenu balouçava-se no fundo do pêndulo.

– Mas onde estás Pequenu ? – perguntou o Bigodes.

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– Pendurado no fundo do pêndulo; e já quase não aguento, doem-me muito as mãos.

O Bigodes saltou para o móvel, mas, no

mesmo momento, o Pequenu largou as mãozinhas, e pluf, caiu em cheio dentro do aquário.

Os ratos, que tinham visto tudo, estavam

assustadíssimos!

Cricri, cricri, cricri, chiavam todos ao

mesmo tempo.

Miau, miau, miau, , gemia o Bigodes

que não podia ajudar o Pequenu.

Gluglu, gluglu, o Pequenu fazia bolhas na água e caiu mesmo no fundo do aquário.

-Ai! meu Deus!-lamentavam-se os

ratinhos-o Pequenu vai afogar-se!

E o Bigodes tentou enfiar a pata na água para apanhar o Pequenu, mas a patinha era muito pequena.

Gluglu, gluglu, gluglu. cada vez

vinham mais bolhas acima.

E os ratos estavam tão aflitos que escondiam a carinha com as patas para não verem o Pequenu afogar-se.

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-Pequenu, meu querido Pequenu!chorava o Bigodes.

Mas o que estava a fazer o Douradinho? Pós-se a nadar em direcção ao Pequenu e enfiou-se entre as perninhas dele, tão bem, tão bem, que o nosso homenzinho ficou a cavalo no Douradinho. E então, o peixinho nadou para cima.

Bravo, bravo-miou o Bigodes, estendendo logo a pata ao Pequenu; então o Pequenu agarrou-se ao gato, e upa, saltou para o móvel.

158

E o pobre Pequenuzinho tossia e engasgava-se porque tinha engolido muita água; e, como é natural, estava encharcado.

Mas o Bigodes pegou nele, e levou-o para a casinha dos ratos.

Os ratinhos ficaram encantados por tornarem a encontrar o seu amiguinho.

E sabes o que fez o Pequenu logo que ficou seco e sossegado? Deitou um punhado de migalhas de bolo no aquário, para agradecer ao Douradinho ter-lhe salvo a vida.

159

XXIII

PEQUENU E O CHARUTO

No seu buraquinho de ratos, detrás do armário, Pequenu estava a pensar em ir deitar-se.

Todo o dia tinha estado a ajudar os ratinhos a arrumar e limpar a casa e estava muito cansado; deu uma última vista de olhos à sala. O Pai estava a ler um livro e a fumar um charuto.

Ui! que mal cheirava o fumo do charuto.

A porta abriu-se e entrou a Mãe:

– Não sabes que já é muito tarde?

– Realmente é tardíssimo – respondeu o

160

Pai olhando para o relógio. Já são horas de dormir.

Pousou o charuto no cinzeiro e esqueceu-se de o apagar; e depois saiu com a Mãe.

– Bem, e eu também vou deitar-me – disse o Pequenu.

Estava a abrir a sua caminha quando o Comilão entrou muito apressado no buraco dos ratos.

-Pequenu, Pequenu! chamou ele. Aconteceu uma coisa horrível! O Pai esqueceu-se de apagar o charuto, e ele caiu do cinzeiro em cima da toalha da Mãe.

161

Pequenu apressou-se a sair da cama e correu até à mesa, seguido pelos ratinhos, e todos subiram para a mesa.

Ai que espectáculo horroroso! Uma nuvenzinha de fumo subia no sítio onde o charuto tinha caído. O Pequenu olhou a toda a volta antes de tomar uma resolução. Olha! uma canequinha de leite que também ficou esquecida em cima da mesa! O Pequenu olhou lá para dentro; por sorte ainda tinha leite no fundo. Os ratos ajudaram o Pequenu a empurrar a canequinha até ao sítio do incêndio.

– Um, dois, três – gritou o Pequenu, empurraram com quanta força tinham, e a canequinha voltou-se na toalha, mesmo no sítio queimado pelo charuto.

Ssssssss, ssssssss, cantou o leite ao cair na cinza quente. O charuto apagou-se mas já tinha feito um buraco na toalha, tão grande, tão grande que o Pequenu até lá cabia; mas, em todo o caso, como estava tudo cheio de leite, não quis experimentar!

Os ratos estavam encantados por o charuto se ter apagado, porque podia ter provocado um incêndio em casa.

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Mas o Pequenu estava desolado. Que descuidado era o Pai! E que triste a Mãe ia ficar no dia seguinte!

-Pois bem, só há uma coisa a fazer – disse o Pequenu : – pontear a toalha!

– Está bem, Pequenu -, responderam os ratos, mas como havemos de fazer?

Pequenu pensou um bocadinho, esfregou o narizinho com o dedo e de repente gritou:

– Tenho uma ideia! Primeiro, ratinhos, lambam o leite! E depois vão ao cesto de costura da Mãe, e trazem o algodão de passajar!

– Mas Pequenu – protestou o Finório – quem vai pontear a toalha? Eu não sei!

– Eu também não, eu também nãogritaram os ratinhos todos ao mesmo tempo.

Esperem um bocadinho, eu já sei quem vai fazer isto muito bem feito!

Pequenu desceu da mesa, atravessou a sala e veio pôr-se de baixo do relógio.

Depois com as mãozinhas fez uma corneta à volta da boca e gritou muito alto:

– Prateada, Prateada, queres vir ajudar-nos ?

Prateada, a aranha, saiu logo do relógio.

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Fez um grande fio e desceu para o chão muito depressa.

– Que queres Pequenu ? – perguntou ela.

-Anda comigo, queria que nos ajudasses a coser a toalha.

Subiram os dois para a mesa e Prateada olhou para os estragos.

– Isto vai dar muito trabalho – disse a aranha. Para acabar a tempo, tenho que começar já.

Então a Prateada instalou-se no meio do buraco e disse:

-Agora tu, Pequenu, e vocês ratos, vão-me dar os bocadinhos de algodão, uns a seguir aos outros.

Meu dito, meu feito. Os ratos puseram-se à volta do buraco. Cada um por sua vez

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estendia um fiozinho à Prateada, que os passava nos sítios que queria; e trabalhava tão depressa, que os ratos mal tinham tempo de lhe estender o algodão, quando ela pedia. Passado pouco tempo o buraquinho

estava cosido, e tão bem, que mal se dava conta.

Então o Pequenu disse:

Oh Prateada! Como te agradeço! Que bem tu trabalhaste; e se tu…

Mas, neste momento, a porta abriu-se. Miau, miau, miau, era o Bigodes. Então, corre que corre, todos os ratos fugiram.

Ai ai Socorro, – gritava o Pequenu.

– Socorro -Parem, parem, ajudem-me!

Mas, que se passava?

Um dos ratinhos, fugira sem dar conta que ainda tinha na boca um bocadinho de fio e que a outra ponta estava enrolada à volta do pé do Pequenu.

E o pobre Pequenu, caído de pernas para o ar, deslizava a toda a pressa atrás do rato e batia contra tudo, contra um pé da cadeira, contra o armário, contra a parede.

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Ai pobre Pequenu! Chegou a toda a pressa ao buraquinho dos ratos, mas já nem sabia onde estava.

Mas, que fazia o Bigodes durante este tempo?

Pois bem, agarrado à barriga ria-se o mais que podia, porque achava muita graça ao Pequenu, a correr pelo chão fora e a bater em tudo!

Mas o Pequenu, que ouvia rir, achou que o Bigodes era muito mau, e até ficou vermelho e zangado.

Na manhã seguinte, a Mãe entrou na sala para a arrumar, e imagina que nem deu conta que tinha havido um buraco na toalha!

Mas viu a canequinha voltada e o leite

entornado na mesa.

-Isto, está-se mesmo a ver, foi obra do Bigodes – disse ela muito zangada.

E o pobre Bigodes apanhou uma forte sapatada no focinhito!

E então, foi a vez do Pequenu se rir! Sem sair do buraco, gritou ao Bigodes:

-Vês, ontem riste muito de mim mas hoje quem ri sou eu!

166

XXIV

PEQUENU NO BANHO

Pequenu estava sozinho em casa, no buraco dos ratos atrás do armário, porque os ratinhos tinham saído todos.

-Já sei o que vou fazer-disse o Pequenu : – vou dar um passeiozito. E pode ser que encontre o meu amigo Bigodes.

E o Pequenu começou a passear na sala. Mas, mesmo neste momento, a porta abriu-se e a Mãe entrou. Felizmente o armário dos brinquedos estava aberto e o Pequenu saltou depressa lá para dentro. E pôs-se a olhar, pela porta entreaberta o que a Mãe ia fazer.

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– Logo que a Mãe se vá embora-pensou o Pequenu – vou a correr para o meu buraquinho.

Mas que é isto? A Mãe vinha direitinha para o armário dos brinquedos. Assustado, o Pequenu procurou um sítio para se esconder.

Que sorte, mesmo ao lado dele estava a lanchinha vermelha, e a porta da cabina estava aberta.

-Que bom -disse o Pequenu – vou esconder-me lá dentro, e a Mãe não me pode encontrar.

Trepou para bordo e fechou a portinha :e,

da cabina através da janela minuscula, o Pequenu podia ver tudo o que se passava cá fora.

Mas, que desgraça! A Mãe pegou na lancha e levou-a. E bem entendido lá vai o, Pequenu!

Começou por cair de cabeça para baixo na cabinazinha da lancha; e começou também a afligir-se porque o barquito abanava em todos os sentidos.

Para onde o levariam agora? Deu uma olhadela pela minúscula vigia. A Mãe saiu

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da sala, atravessou o corredor e entrou noutro quarto.

E o Pequenu só teve tempo de ver que ela punha o barco numa enorme banheira branca cheia de água.

E depois ouviu a Mãe chamar:

-Anda depressa, meu querido, o teu banho já está pronto. Despe-te!

Pluf!, lá entra uma perna na banheira, depois a outra, e a água agita-se mal o Menino entra no banho.

Mas, que será isto? Enormes ondas se fazem na banheira e a lancha começa a dançar com tanta força que o Pequenu tem que se agarrar com medo de cair. As ondas

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empurram o barquinho que flutua agora na banheira.

E o Pequenu começa a ficar enjoado. ging O Rapazinho, de repente, empurrou o barquinho que se virou; Pequenu cai de cabeça para baixo e glu, glu, glu, a água

entra na cabina.

– Ai ai – gemeu o Pequenu – agora vou-me afogar.

Realmente o Rapazinho tinha pousado a

lancha no fundo da banheira, e ela, de repente, ficou cheia de água; o Pequenu estava todo encharcado. Mas, felizmente, o Menino trouxe a lancha para cima.

– Está cheia de água – disse ele à Mãe : -e virou-a para baixo para a despejar.

Bumba! lá cai o Pequenu na cabina e fica de pernas para o ar e cabeça para baixo!

Felizmente o Menino tornou a pousar o barquinho na água, mas continuou a empurrá-lo para cá e para lá e o Pequenu continuava a cair e a magoar-se. Então a Mãe tirou o Menino do banho, embrulhou-o no lençol e saíram os dois.

E agora o quarto de banho estava vazio;

170

mas o Pequenu ? que lhe teria acontecido ? Continuava a navegar e o barco estava outra vez cheio de água.

Muito assustado, o Pequenu saiu da cabina e subiu para a ponte; não estava lá ninguém para o ajudar e a água continuava a encher o barquinho.

O Pequenu começou a chorar; e então o barco afundou-se! E quando ele desapareceu na água o Pequenu começou a abanar os braços e as pernas mas não podia sair do barco porque as paredes eram muito lisas e escorregadias. Depressa se cansou, e coitado, nadava tão mal!

Mas que era aquilo que avançava para ele? Que sorte! Um grande pedaço de sabão!

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Pequenu subiu para ele e sentou-se; e ainda bem, porque estava já tão cansado que não podia nadar mais!

Miau, miau, miau!

– É o Bigodes – disse o Pequenu.

-Bigodes, Bigodes, vem cá depressa acudir-me!

– Onde estás Pequenu ? – miou o gato.

– Aqui, na banheira!

Bumba! O Bigodes subiu para a beira da banheira e estendeu a pata ao Pequenu para o ajudar a sair, mas o Pequenu não conseguia agarrá-la.

-Não consigo agarrar-te-gemeu o Pequenu. – Que hei-de fazer ?

-Miau, miau, não te aflijas Pequenu, tenho uma ideia.

E o Bigodes voltou-se e estendeu ao Pequenu, o seu rabinho!

O Pequenu fez um grande esforço, e chegou mesmo à justa; agarrou-se ao rabo do Bigodes, e pronto já está salvo! E o Bigodes levou-o às costas até ao buraquinho dos ratos.

– Muito obrigado, Bigodes – disse o Pequenu – e agora vou secar-me.

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XXV

PEQUENÚ ESTÁ CONSTIPADO

Atchim Atchim Atchim!

Mas que é isto? O Pequenu e os ratinhos até estavam assustados!

Atchim Atchim Atchim Lá estava ele outra vez! Porque era o Pequenu que espirrava, pois tinha apanhado uma enorme constipação. Espirrava sem parar e tinha os olhinhos a chorar; com uma constipação tão grande, só havia uma coisa a fazer: ficar muito quentinho no buraco dos ratos.

Miau, miau, miau!

Era o Bigodes, muito admirado por não

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ver o Pequenu que todas as manhãs lhe vinha dar os bons-dias.

Pequenu – chamou o Bigodes colando o focinho à entrada do buraco dos ratos. Pequenu onde estás?

-Atchim! Atchim! Atchim! Bom, atchim, dia, atchim Estou constipado, atchim!

– Ah Então põe depressa um lenço de lã à volta do pescoço – aconselhou o Bigodes.

– Não tenho – gemeu o Pequenu.

– Então espera, vou ver se te arranjo um. Bzzzzzz, bzzzzzz, bzzzzzz Era a Mosquinha que à entrada do buraquinho vinha ver o que era feito do Pequenu.

Pequenu – chamou a Mosquinha -, onde estás?

Atchim, atchim, atchim – respondeu o Pequenu. Sabes, Mosquinha, estou com uma

constipação horrível e dói-me muito a garganta.

– Ah Então precisas de comer um bocadinho de mel – aconselhou a Mosquinha – é muito bom para a garganta.

– Mas eu não tenho mel – suspirou o Pequenu.

– Espera, vou ver se te arranjo algum –

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prometeu a Mosquinha antes de ir embora. Mas quem vem mesmo a entrar pela janela? O Cracra!

Cra, cra, cra, cra, fez o corvo. Parece-me que ouvi espirrar!

– É o Pequenu – explicou o Bigodes -, está com uma constipação horrível. E se tu hoje o arrelias, Cracra, dou-te uma grande patada!

Cra, cra, cra, respondeu o corvo avançando pela sala. Não venho arreliar o Pequenu, prometeu o Cracra pondo-se mesmo junto ao buraquinho dos ratos. Cra, cra, cra, Pequenu – chamou o corvo -, é verdade que estás constipado?

– Atchim, atchim É verdade – respondeu o Pequenu -, estou com uma constipação horrível.

-Mas então Pequenu, precisas dum bom cobertor de penas!

-Não tenho-gemeu o Pequenu.

-Então vou ver se te arranjo um! E o Cracra voou muito depressa pela janela.

Pequenu, Pequenu – disseram os ratos-, com uma constipação tão horrível

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não deves dormir no chão, vamos-te fazer uma caminha.

– Atchim, atchim Gostava muito!

Serra que serra, serra que serra, que estariam os ratos a fazer? Roíam bocadinhos de madeira, e num instante fizeram uma caminha para o seu amigo Pequenu.

-Miau, miau-miava o Bigodes debaixo do relógio. -Miau, Prateada, vem cá depressa, preciso de ti.

A aranha saiu e mostrou a ponta do nariz.

-Prateada, podes fazer muito depressa

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um lenço bem quente para o Pequenu que está constipadíssimo ?

– Com certeza, vou já começar – prometeu a Prateada.

Meu dito, meu feito. As patas da Prateada mexiam, mexiam e já se via o princípio dum lindo lenço bem quentinhn.

Bzzzzz, bzzzzz, bzzzzz Mas que teria a Mosquinha que estava tão apressada?

Voava num campo, pertinho da cidade, e acabou por pousar numa linda flor vermelha.

Zum, zum, zum!

– Olha – gritou a Mosquinha – cá está a Gotademel. Gotademel não terás um bocadinho de mel para o Pequenu que está constipadíssimo ?

-Com certeza que tenho mel para esse amoroso Pequenu!

E depressa, depressa, a abelha lá foi tirar um pouco de mel.

– Mas onde o vamos pôr? – afligiu-se Gotademel.

– Espera um segundo, vou procurar uma chávena, disse a Mosquinha voando até à árvore onde Caudafarta, o esquilo, estava a roer uma avelã.

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Bzzzzz, bzzzzz, bzzzzz, a Mosquinha aproximava-se do Caudafarta.

-Caudafarta-disse ela-o Pequenu está constipadíssimo; a Gotademel já lhe arranjou mel, mas não temos onde o pór.

– Espera um bocadinho, Mosquinha e o Caudafarta apressou-se a trincar uma avelã, esvaziou-a e entregou metade da casca vazia à Mosquinha que a levou a toda a pressa à Gotademel; e a abelha encheu-a dum mel delicioso.

Mas lá pertinho era a casa do Senhor Pombo, que ouviu um grande bater de asas.

Olha, pensou ele, parece o Cracra.

Cracra pousou mesmo em cima da casa do Senhor Pombo.

– Senhor Pombo – disse ele – o Pequenu está constipadíssimo e não tem nenhum cobertor quente. Serás capaz de me arranjar umas penas macias e quentes?

– Com certeza.

Entrou num instante em casa e toda a família começou a procurar penas macias e leves para o Pequenu.

O Cracra pegou nelas e veio a toda a pressa para a Casa Grande.

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Flip, flap, flip, flap. Com um grande bater de asas o Cracra entrou na sala.

C ra, cra, cra, cra – disse o corvo pousando em frente ao buraquinho dos ratos-olhem que lindas penas tão macias eu trouxe para o cobertor do Pequenu!

Neste instante os ratinhos estavam mesmo a acabar a caminha que estavam a fazer.

Miau, miau, miau Era o Bigodes. Ás costas vinha a Prateada que trazia, nas patinhas, um lindo lenço bem quentinho e um cobertor prateado, quente e levezinho.

Agora sim! o Pequenu estava muito

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contente e bem quentinho metido numa linda cama.

Atchim Atchim Ainda estava a espirrar.

Bzzzzz, bzzzzz! É a Mosquinha que está a chegar com a avelãzinha cheia de mel.

E depressa, bem depressa, os ratos deram o mel ao Pequenu.

– Ai que bom – disse o Pequenu agora vou melhorar num instante.

Mas que estava ele a ouvir?

Bzzzzz, bzzzzz, bzzzzz, bzzzzz. Uma música maravilhosa ouvia-se agora no buraco dos ratos. Que linda e que suave! sete enormes moscas, cantavam o melhor que sabiam para embalar o Pequenu, que não tardou a adormecer.

Hap, hap, hap Cracra deu três saltos e voou pela janela.

Pata aqui, pata acolá, o Bigodes afastou-se com uns passinhos muito leves.

Ao pé do Pequenu só ficaram os ratinhos, para o tratarem se ele precisasse.

No dia seguinte, quando o Pequenu acordou, a constipação tinha passado.

Que contentes estavam os seus amiguinhos!

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Na Holanda, como aliás em quase todos os países do norte da Europa, existe a lenda dos ovos de Páscoa: os coelhos vêm, de muito longe, enviados por um Coelho da Páscoa, deixar, nos quintais ou cantos escondidos das casas, vistosos ovos colori dos e enfeitados que as crianças bem comportadas procuram, e que podem ser ovos

autênticos ou saborosos ovos de chocolate. Esta lenda, pouco difundida no nosso País, explica os três contos que se seguem.

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XXVI

PEQUENU PROCURA O COELHO DA PÁSCOA

O Pequenu estava muito ocupado no buraquinho dos ratos, atrás do armário da sala de jantar.

-O que há, Pequenu?-perguntaram ao mesmo tempo os cinco ratinhos.

-Vou viajar! Procurar o Coelho da Páscoa!

– O Coelho da Páscoa? – perguntou o Cinzentinho muito admirado.

– Exactamente; quero pedir-lhe para vir aqui, à Casa Grande dar um ovo a toda a gente.

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E o Pequenu meteu umas migalhinhas de pão num saquinho, enfiou na cabeça o lindo carapucinho azul e olhou com atenção para a sala; felizmente estava vazia. Atravessou-a a correr e saiu de casa. Que bem estava lá fora! Com muito cuidado o Pequenu atravessou o jardim; passou por um buraquinho da sebe e saltou para a rua. Que grande rua e que medonha! Que horror! que enormes sapatos se aproximam!

Meu Deus! Que aflição tão grande estar na rua!

E o Pequenu, deu um salto, cheio de medo, para fugir dos enormes sapatos que quase o esmagavam.

Ai – suspirou ele – vou voltar para a Casa Grande, para o meu buraquinho de ratos, porque a rua é muito perigosa para um homenzinho tão pequeno como eu.

Mas ainda não tinha acabado a frase e já lhe estava a acontecer qualquer coisa. Imagine que lhe despejaram um balde de água pela cabeça abaixo! Rebolou pelo chão e ficou enterrado num monte de lama. Mas que sujo estava! Ai meu Deus mas que havia ainda de lhe acontecer? Um

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homem, com uma grande pá apanhava todo o lixo da rua, e metia-o num camião.

– Ai ai – berrava o Pequenu – e procurava fugir.

Mas o homem não o viu e a enorme pá apanhou o Pequenu ao mesmo tempo que a lama, e lá vai tudo para junto do outro lixo.

-Socorro! Socorro!-gritava Pequenu.

– Socorro Cinzentinho, Comilão, Fuçopreto, Finório, Olhodeconta! Socorro, Bigodes!

Depressa, ajudem-me!

Mas ninguém ouvia o Pequenu que o camião dos lixeiros levava para longe, com todo o lixo. Sentado nuns papéis velhos e numas cascas, o Pequenu chorava muito.

Bzzzzz, bzzzzz, bzzzzz

-Viva – gritou o Pequenu – olha a minha amiguinha Mosquinha!

Mas que sorte! Era mesmo a Mosquinha!

-Mosquinha, que hei-de fazer? Olha como cada vez estamos mais longe da Casa Grande!

Bzzzzzz, Bzzzzzz! Não sei como te hei-de ajudar, Pequenu! Não posso levar-te às costas!

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-Mas, ao menos, não poderás fazer-me companhia ?

– Isso posso, com todo o gosto.

-Para onde vamos?-perguntou o Pequenu.

– Para o depósito de lixo, longe da cidade.

E realmente o carro dos lixeiros saiu da cidade.

Logo que chegaram ao monte de lixo os homens despejaram o camião. E o Pequenu, lá foi no meio do lixo.

– Olha – disse um dos homens – parece que está ali uma boneca!

O Pequenu ficou horrorizado! Se os

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homens o apanhassem e o levassem embora.

Assustadíssimo, com os olhos cheios de lágrimas, o Pequenu viu uma grande mão estender-se para ele.

Bzzzzzz, bzzzzzz, bzzzzzz Era a Mosquinha que poisou na mão do homem e que a picou com toda a força.

– Ai! ai! ai! -gritou o homem -horrível mosca! Picou -me!

Tentou apanhar a Mosquinha, e entretanto, o Pequenu escondeu-se debaixo dum papel velho.

Olha! já não vejo a boneca, espantou-se

o homem.

-Deixa essas porcarias e vem embora

-gritou-lhe o companheiro.

Felizmente lá foram os dois embora, no camião para a cidade.

E o Pequenu, saiu de gatas do seu abrigo.

-Mosquinha, além há um grande prado, bem gostava de ir para lá.

Mas era impossível porque à volta do prado havia um grande fosso cheio de água.

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Cuac, cuac, cuac Era a Verdita, a rã que se aproximava aos saltinhos.

– Bom dia, Verdita – disse o Pequenu – és capaz de me levar para o outro lado?

-Com certeza Pequenu, salta para as minhas costas.

Pequenu trepou para as costas da rãzinh e ela saltou para o fosso.

Brrrr-fez o Pequenu-a água está gelada!

Mas a Verdita depressa chegou ao outro lado, e o Pequenu, que estava encharcado, deitou-se ao sol, para se secar.

A Msquinha veio poisar junto dele, em cima duma ervinha e perguntou-lhe:

– E como vai ser agora, para voltares para caa? Não podes ir a pé, é muito longe.

– Bem sei, Mosquinha. Não te importas de ir à Casa Grande dizer aos ratos que eu estou aqui? Com certeza estão aflitos. E, se encontrasses o Senhor Pombo, seria óptimo, porque ele levava-me às costas.

-Bem, então vou a correr.

-Espera Mosquinha! Se encontrares o Coelho da Páscoa, diz-lhe que estou aqui.

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-Está bem, Pequenu, vou fazer todos os teus recados.

E a Mosquinha voou para a Casa Grande. Mas o que era isto? Porque é que o Sol se escondia? Enormes nuvens se aproximavam, e flic, floc, flic, floc, começou a

chover.

Pequenu olhou aflito à sua volta.

Onde se poderia abrigar?

Cuac, cuac, cuac, cuac!

– – Verdita, Verdita – chamou o Pequenu

-onde me posso abrigar da chuva?

– Anda depressa – disse a Verdita. – Ali adiante há um grande cogumelo que pode

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servir de guarda-chuva. Estás a vê-lo, Pequenu?

-Vejo, vejo. Mas diz-me, Verdita, onde poderei dormir esta noite?

-Olha, vês aquela enorme flor amarela? Trepa para ela e podes lá passar a noite.

Dito e feito; Pequenu abrigou-se debaixo do cogumelo e depois subiu para a flor.

Quando a noite chegou, a flor fechou as pétalas e o Pequenu ficou instalado numa pequenina casa muito quentinha, onde dormiu muito bem.

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XXV I I

PEQUENÚ E O COELHO DA PÁSCOA

O Sol brilhava em cima da flor onde o Pequenu dormia, e a flor, muito contente abriu as pétalas; então o Pequenu acordou.

Bzzzzz, bzzzzz, bzzzzz Bom dia Pequenu!

Era a Mosquinha, pousada numa erva.

-Bom dia Mosquinha! Dormi muito

bem!

Bzzzzz, bzzzzz, bzzzzz! Sabes, Pequenu, estive com o Coelho da Páscoa, e ele já ali vem.

-Bem, então vou ver por que lado vem.

-e o Pequenu subiu para uma erva e viu ao longe as grandes orelhas do Coelho da

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Páscoa. Então tirou o barretinho e começou a abaná-lo para cumprimentar o Coelho da Páscoa.

E aos saltos, muito depressa, lá vem o Coelho. E que ar importante ele tem com um enorme cesto às costas e uns grandes óculos no nariz!

– Bom dia, Pequenu – disse o Coelho da Páscoa -, queres vir comigo ver os ovos de Páscoa e todos os Coelhos da Páscoa?

-Quero, sim, querido Coelho!

-Então senta-te no cesto, às minhas costas, e vamos lá – disse o Coelho.

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Evão os dois; aos saltos, a toda a velocidade, o Coelho da Páscoa com o Pequenu às costas.

Que depressa iam! Primeiro atravessaram um grande prado, depois outro prado, depois um bosque muito sossegado e fresco e, por fim, chegaram a uma enorme clareira.

E queres saber o que o Pequenu viu? Um espectáculo tão maravilhoso que nem sabia para onde havia de olhar, tantas coisas lindas havia para ver!

Havia enormes pilhas de ovos de Páscoa, todos embrulhados em lindos papéis de cor: vermelhos, azuis, verdes, prateados e dourados. Havia dezenas e dezenas de ovos maravilhosos. E por toda a parte havia coelhinhos ocupados a pintar os ovos.

Um, colava uma linda estrela em cada ovo, outro pintava flores em todos os ovos e todos estavam muito atarefados.

Então o Pequenu perguntou ao Coelho de Páscoa :

– Estes ovos são para os meninos bonitos?

– São – respondeu o Coelho da Páscoa.

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Tenho um livro enorme onde escrevo o nome de todos os que merecem um ovo. Queres ver o meu livro, Pequenu?

– Com certeza – disse o Pequenu.

O Coelho da Páscoa dirigiu-se para uma enorme árvore, e, com o pé, bateu no tronco.

Toc, toc, toc; então uma porta abriu-se na casca e o Pequenu viu uma escada muito comprida e muito estreitinha.

Subiu atrás do Coelho da Páscoa e… que viu ele? Uma enorme quantidade de coelhim nhos, todos a fazerem ovos de chocolate; outros afadigavam-se com carrinhos pequenos

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que carregavam com ovos para os levarem aos coelhos da floresta, e então é que estes os pintavam para os alintarem.

– Querido Coelho da Páscoa – pediu o Pequenu – serás capaz de levar uns ovos de Páscoa muito bonitos aos Meninos da Casa Grande, e também ao Pai e à Mãe?

-Primeiro tenho que ver no meu livro, a ver se se portaram bem-respondeu o Coelho da Páscoa.

E então o Coelho da Páscoa ficou muito sério, pôs os óculos e abriu um grande livro: e lá estava escrito com todas as letras: A Mãe, o Pai, o Rapazinho e a Menina portaram-se muito bem, e merecem um grande ovo de Páscoa cada um.

-Ainda bem, que sorte! – gritou o Pequenu encantado.

O Coelho da Páscoa saiu do buraco seguido pelo Pequenu, e voltaram para a floresta onde o Coelho bateu palmas com muita força com as patas da frente.

E então o Pequenu viu todos os coelhos avançarem para eles.

– Coelhos – gritou o Coelho da Páscoa

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com uma voz muito grossa – peguem cada um em seu cesto, e encham-nos de ovos.

Depressa, muito depressa os coelhos correram a encher os cestos e voltaram logo com o cesto preso às costas por uns suspensórios.

– Todos em fila – mandou o Coelho da Páscoa.

Então, todos os coelhinhos se puseram em fila, com os cestos cheios de ovos coloridos.

-Qual é o coelho que vai para a Casa Grande na cidade-perguntou o Coelho da Páscoa.

– Eu -disse o Orelhudo.

-Tens os ovos todos?

-Não, Senhor Coelho da Páscoa, faltam-me os do Pai e da Mãe.

Ai que assustado ficou o Pequenu!

-Pois bem-continuou o Coelho da Páscoa com ar zangado – tens que lhos levar amanhã.

-Ah – suspirou o Pequenu – ainda bem que o Pai e a Mãe também vão ter uns ovos.

E então, o Coelho da Páscoa bateu palmas

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outra vez, e hop, hop, hop, os coelhos lá foram aos saltos distribuir ovos aos Meninos ajuizados e aos Pais bonitos.

– Muito obrigado Coelho da Páscoa – disse o Pequenu – muito obrigado por teres arranjado ovos tão bonitos, vermelhos e dourados para todos os Meninos.

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XXVIII

PEQUENÚ DENTRO DO OVO DA PASCOA

Depois da visita aos coelhos, Pequenu estava cansadíssimo; era muito tarde, e já era quase noite.

– Sabes, Pequenu – disse o Coelho da Páscoa – se quiseres podes passar a noite na nossa fábrica de ovos de Páscoa.

E o Coelho da Páscoa aproximou-se da árvore grande e bateu com a pata: Toc, toc, toc!

A portinha da casa abriu-se e o Pequenu viu a enorme escada estreitinha.

Em baixo, no buraco, muitos coelhos

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estavam ainda a fabricar ovos, e o Pequenu parou a vê-los.

Um dos coelhinhos colava metades de ovos.

– Queres provar, Pequenu ?-perguntou um dos coelhinhos.

– Quero, sim, com todo o gosto!

O coelho partiu com muito cuidado um bocadinho de ovo de chocolate e estendeu-o ao Pequenu, que se apressou a comê-lo.

– Oh que bom que é – exclamou o Pequenu.

Mais longe acumulavam-se montes de ovos inteiros, e de metades de ovos.

– Oh suspirou o Pequenu – que sono tenho! Onde poderei dormir ?

Então viu uma metade de ovo, mesmo ao lado dele.

– Oh que rica ideia-disse o Pequenu – vou-me deitar nesta metade de ovo, parece mesmo uma cama.

Pequenu deitou-se, dobrou o bonezinho, pô-lo debaixo da cabeça e adormeceu.

Lá fora, já era noite.

O Orelhudo chegou naquele momento e viu o Bolabranca no escuro.

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-Bolabranca-gritou o Orelhudo-, que bom ter-te encontrado! Ainda precisamos de arranjar o ovo do Pai, da Casa Grande.

E os dois desceram a correr a escadinha estreita da árvore, e gritaram aos outros coelhos que lhes arranjassem depressa um grande ovo de Páscoa.

Todos os coelhinhos começaram a procurar um ovo grande mas só havia pequenos, porque os outros já tinham sido distribuídos.

– Pois bem – disse o coelho cozinheiro

-tenho que fazer um. Mas olhem, está aqui

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uma metade dum ovo grande! Procurem bem, que encontram a outra.

E o Orelhudo e o Bolabranca tanto pro curaram que a encontraram (e já com certeza adivinhas qual era )! – Que será isto? – pensou o Pequenu – parece que me estão a embalar! E que escuro está!

E todas as vezes que se tentava levantar caía de pernas para o ar.

– Uf – suspiraram os coelhos -, que pesado é este ovo! deve estar cheio de chocolates!

Mas tu sabes bem o que tornava o ovo tão pesado: não eram os chocolates, mas o Pequenu, que eles por descuido tinham fechado no ovo.

Logo que chegaram à Casa Grande, os coelhos colocaram o ovo na mesa para o Pai o encontrar logo na manhã seguinte. Mas, pobre Pequenu, que lhe estava a

acontecer ?

Tinha muito medo e, às apalpadelas, procurava um buraco por onde se escapasse mas as paredes do ovo eram lisas e ele não encontrava nada.

200

Na manhã seguinte, o Pai, a Mãe e os Meninos desceram para almoçar e o que viram ?

Um ovo de Páscoa para cada um! Que bom!

O Pai pegou no dele e sacudiu-o. Pumba, catapumba, pumba, catapumba! Lá andava o pobre Pequenu sacudido por todos os lados.

-Pai, vais abri-lo ?

-Não, é tão bonito que prefiro guardá-lo.

E então o Pai levou os Meninos para o jardim e a Mãe foi para a cozinha.

Os ovos de Páscoa ficaram em cima da mesa.

Cra, cra, cra, cra O Cracra que, neste momento, entrava pela janela veio pousar na mesa, e começou a dar bicadas num ovo. Sabes em qual? No do Pai!

Pic, pic, pic, pic! E tanto picou que acabou por fazer um buraquinho.

Oh! gritaram os ratos ao ver o que ele fazia, olha o Cracra que estraga os ovos de Páscoa!

Mas, neste momento, entrou o Bigodes.

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– Miau, miau – miou o gato – que estás a fazer? Vai-te embora, feio Cracra!

– Feio és tu – respondeu o corvo – mas fugiu pela janela.

E então o Bigodes saltou para cima da mesa para ver de perto os ovos de Páscoa.

-Horrível Cracra, quando me lembro que fez um buraco no lindo ovo do Pai!

Mas o Bigodes arregalou os olhos! O que seria aquilo? O que se passava dentro do ovo de chocolate? E o Bigodes não percebia nada.

No buraquinho agitava-se um carapucinho azul; então o Pequenu mostrou a ponta do nariz, e ficou espantado!

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-Como, Bigodes, és tu ? — gritou o Pequenu encantado. -Mas onde estou?

– Estás outra vez na Casa Grande – gritou o Bigodes. – Viva! Viva!

E ajudou o Pequenu a sair do ovo.

– Ah! Que contente estou por estar outra vez na Casa Grande–disse o Pequenu.

Deu um beijinho na ponta do nariz do Bigodes e correu para o buraquinho dos ratos atrás do armário.

Que contentes ficaram os ratinhos por o Pequenu ter voltado!

Pequenu – olha, vê o que o Coelho da Páscoa nos mandou: um lindo ovo de chocolate!

E naquela noite, houve uma grande festa no buraco dos ratos!

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Fim

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