Written on Abril 30th, 2011 at 3:40 am by

0 Comments

A CHEGADA

No castelo de Fleurville andava tudo numa dobadoira. Camila e Madalena de Fleurville e as suas amigas Margarida de Rosbour e Sofia Fichini iam de um lado para o outro, subiam as escadas, desciam-nas outra vez, corriam pelos corredóres, saltavam, riam, gritavam, e até se empurravam. As duas mães, a Sr. a de Fleurville e a Sr.a de Rosbourg, sentadas numa sala que dava para o caminho, iam comentando, com benévolos sorrisos, toda aquela agitação, que não tentavam acalmar. De minuto a minuto, uma das raparigas passava a cabeça pela porta e perguntava:

– Então, já se avistam?

– Ainda não, queridinha – respondia uma das mães.

– Tanto melhor, pois ainda não temos tudo em ordem.

E desaparecia, como uma seta, para dizer às outras:

– Ainda não chegaram, meninas; temos tempo.

Camila – Ainda bem! Sofia, vai buscar flores ao jardim.

Sofia – Quais?

Madalena – Dálias e resedas: são as que se dispõem mais fàcilmente nas jarras e as que têm um perfume mais suave.

Margarida – E que faço eu, Camila?

Camila – Vai com Madalena buscar musgo para

ocultar os pés das flores. Eu vou lavar as jarras na cozinha e deitar- lhes água.

Sofia foi, a correr, ao jardim, e trouxe um grande cesto cheio de belas dálias e de perfumadas resedas.

Margarida e Madalena vieram com o musgo. Camila trouxe quatro jarras bem lavadas, cheias de água.

As quatro raparigas tanto trabalharam que, um quarto de hora depois, estavam as jarras cheias de flores dispostas com bom gosto; as dálias alternavam com ramos de resedas.

Duas jarras destinaram-nas ao quarto preparado para receber seus primos Leão e João de Rugés, outras duas foram levadas para o quarto do primo mais novo, Tiago de Traypi.

Camila, olhando para todos os lados – Parece-me que está tudo pronto; creio que não nos escapou nada.

Madalena – Tiago vai ficar encantado com o seu quarto. Que bonito que está!

Sofia – Foi boa ideia a colecção de estampas: é um bom entretimento.

Margarida – Vou ver se eles vêm!

Camila – Nós também vamos.

Margarida partiu, correndo, e, antes que as suas amiguinhas a alcançassem, voltou, ofegante, a gritar: – Aí vêm! Aí vêm! Os carros já passaram as cancelas e estão a entrar no bosque!

Camila, Madalena e Sofia precipitaram-se para a porta, onde encontraram as mães; bem lhes agradava correr ao encontro dos primos, mas elas não o permitiram.

Momentos depois, as carruagens paravam em frente da porta, por entre gritos de alegria das crianças. O Sr. Rugés, sua esposa e dois filhos, Leão e João, desceram da primeira; o Sr. e a Sr. a Traypi e o seu filhinho Tiago apearam- se da segunda. Durante alguns momentos, o tumulto, o barulho e as aclamações foram de ensurdecer.

Leão era um belo tipo de rapaz loiro, um pouco trocista, com ar irascível, indolente, pouco enérgico,

mas bondoso no fundo. Tinha treze anos.

João tinha doze. Possuía olhos negros e cheios de ardor e doçura. Era corajoso e decidido, e, ao mesmo tempo, bondoso, complacente e dedicado.

Tiago era uma encantadora criança de sete anos, com os cabelos castanhos, aos caracóis, olhos atrevidos, faces rosadas e excelente coração; tinha um temperamento irrequieto, mas sem amuos nem rancores.

Camila – Como estás crescido, Leão!

Leão – E tu que bonita, Camila!

Madalena – O João é que já parece um homem!

joão – Também tu já estás uma mulher!

Margarida – Meu querido Tiago, estou tão contente por voltar a ver-te! Havemos de brincar muito!

Tiago – Oh, sim! Vamos divertir-nos a valer,

como há dois anos!

Margarida-Ainda te lembras das borboletas que apanhávamos?

Tiago – E as que nos fugiam?

Margarida – E aquele pobre sapo que pusemos em cima de um formigueiro?

Tiago – Ainda não te esqueceste daquele passarinho que fui buscar ao ninho para te dar? Lembras-te? Morreu por o ter apertado de mais nas mãos.

– Oh, como havemos de brincar! – exclamaram ao mesmo tempo, beijando-se pela vigésima vez.

Sofia mantinha-se à distância; não a haviam esquecido, é certo, no primeiro momento de alegria; ela, porém, é que se sentia estranha naquela família, e, lembrando-se de que fora recebida em Fleurville por generosidade, receava ser indiscreta. João, que foi o primeiro a aperceber- se do isolamento da pobre Sofia, aproximou-se dela e pegou-lhe nas mãos, dizendo-lhe, afectuosamente:

– Minha querida Sofia, não esqueci nunca a tua

afabilidade para comigo na última vez que estiveste em

Fleurville, era eu então um rapazito; agora, como

estou mais crescido, cabe-me a mim ser-te prestável.

Sofia – Obrigada pela tùa generosidade, meu bom

João! Obrigada por não te esqueceres da pobre órfã,

pela tua amizade por ela!

Camila – Sofia, querida Sofia, somos tuas irmãs,

bem sabes que a nossa mãe te considera sua filha;

porque é então que te afliges e nos desgostas?

Sofia – Perdão, boa Camila, não tenho razão para me afligir, é verdade! Encontrei aqui a mãe e as

irmãs que me faltavam.

– E irmãos! – exclamaram, em coro, Leão, João

e Tiago.

– Obrigada, queridos irmãos – disse Sofia, sorrindo. – Tenho uma família de que me orgulho.

– E não te sentes feliz connosco? – perguntou

Margarida, baixinho, beijando-a carinhosamente.

– Querida Margarida – respondeu Sofia, dando-lhe, também, um beijo.

– Meus filhos, meus filhos! Desçam depressa,

venham merendar – disse a Sr.a de Fleurville, que

ficara em baixo com as irmãs e os cunhados.

Não foi preciso repetir tão agradável convite.

Os pequenos desceram, a correr, e reuniram- se na

sala de jantar, em volta da mesa coberta de frutas

e doces.

Enquanto comiam, iam fazendo projectos para o

dia seguinte.

Leão imaginava uma pescaria; João pensava em

leituras em voz alta; Tiago atrapalhava tudo: queria

passar o dia inteiro com Margarida para apanhar e

coleccionar borboletas, ir aos ninhos, jogar o carolo,

ver e copiar estampas. Queria que Margarida o

acompanhasse em todos os brinquedos, de manhã, de

tarde e à noite. Ela, porém, desejava a manhã livre

para os seus trabalhos de costura.

-Tiago – Não pode ser! De manhã é quando se apanham mais borboletas.

Margarida – Bem, então deixa-me livre, para os meus trabalhos, da uma hora às três.

Tiago – Ainda menos: é, a ocasião própria para coleccionar as borboletas, estender-lhe as asas e pregá-las em cortiça.

Margarida – Quê? Pregá-las? Pobres bichinhos! Eu era lá capaz dessa crueldade!

Tiago – Elas não sentem o menor sofrimento; aperto-as antes de as atravessar com os alfinétes; morrem logo.

Margarida – Garantes-me que morrem logo e que não sofrem?

Tiago – Se deixam de fazer o mínimo movimento.

Margarida – Mas, Tiago, que necessidade tens de mim, afinal, para coleccionar as borboletas?

Tiago – Oh, minha Margaridinha, tu és tão boa e eu gosto tanto de ti! Contigo estou sempre distraído; e aborreço-me tanto sòzinho!

Leão – E porque queres tu a Margarida só para ti? Nós também a queremos para nós; quando formos à pesca, ela há-de ir connosco.

Tiago – Vocês já são cinco! Deixa-me a minha querida Margarida para me ajudar a coleccionar as borboletas.

Margarida – Ouve, Tiago. Ajudo-te durante uma hora e depois vamos com o Leão à pesca.

Tiago resmungou. Leão e João riram-se dele. Camila e Madalena beijaram-no e fizeram-lhe compreender que não devia ser egoísta e que devia, como bom companheiro, sacrificar, algumas vezes, os seus gostos aos dos outros. Ele confessou o seu erro, e prometeu fazer tudo o que a sua amiguinha Margarida

quisesse.

Terminaram a merenda; as crianças pediram licença para ir passear e partiram, correndo, a ver quem chegava mais depressa ao jardim de Camila e Madalena. Encontraram-no cheio de flores, muito bem tratado e cultivado.

João – Falta-lhes uma barraca para guardar as coisas, e outra para abrigar da chuva, do sol e do vento.

Camila – Sim, falta, mas nós nunca conseguimos construir nenhuma; não temos força para tanto.

Leão – Pois então, eu e João vamos fazer uma

durante o tempo em que estivermos aqui.

Tiago – E eu também vou construir outra para a Margarida e para mim.

Leão, rindo – Ah ah ah Que arquitecto ele nos saiu! Sabes, sequer, como hás-de começar?

Tiago – Sei, sim, sei. E hei-de fazer a barraca.

Madalena – Nós ajudamos-te e tenho a certeza de que o Leão e o João também há-de ajudar-te.

Tiago – Aceito o teu auxílio de muito boa vontade, Madalena, assim como o de Camila e Sofia; mas o de Leão não o quero: ele está sempre a fazer troça de mim.

joão, rindo – E o meu auxílio, Jaime, dar-me-á Vossa Alteza a honra de o aceitar?

Tiago, zangado – Não, cavalheiro, também dispenso a sua ajuda: quero mostrar-lhe que a minha Alteza pode passar sem ela.

Sofia – Mas como hás-de tu fazer, meu Tiago, para construir até ao cimo uma casa ampla e alta bastante para nos abrigar a todos?

Tiago – Hás-de ver! Deixa-me cá! Tenho uma ideia.

E murmurou algumas palavras ao ouvido de Margarida, que se pôs a rir e lhe respondeu, também em voz baixa:

– Excelente ideia, não lhes digas nada até acabares a obra!

As crianças continuaram a passear; os primos foram levados ao pomar, onde passaram em revista todos os frutos, mas sem lhes tocar; depois foram visitar os estábulos, o galinheiro, a leitaria. Andavam contentíssimos: riam, corriam, trepavam às árvores, saltavam fossos e colhiam flores, de que faziam ramos destinados às suas primas e amigas. Tiago dera os seus a Margarida. Os de João eram para Madalena e Sofia; Leão entregava os dele a Camila. Só regressaram à hora dojantar. O passeio abrira-lhes o apetite; comeram muito bem e no meio de franca alegria. Nenhuma daquelas crianças tinha medo dos pais, que mais se faziam amar do que temer e que, com seus filhos, riam e conversavam alegremente. Depois de jantar deram todos um passeio pelo campo, donde trouxeram uma porção de miosótis; o resto da noite passaram-no a fazer coroas de flores para as meninas; Leão, João e Tiago davam o seu concurso, cortando-Lhes os pés mais compridos, preparando o fio, escolhendo as flores mais bonitas. Chegou, finalmente, a hora de deitar dos mais novos: Sofia, Margarida e Tiago, depois a dos mais velhos e mais tarde a hora do repouso dos pais. No dia seguinte deviam começar a construção das barracas, a caça das borboletas, a pesca, os grandes passeios no campo, a leitura e o estudo tinham um programa que lhes dava, pelo menos, para vinte e quatro horas. Os pequenos estavam em férias. E que férias!

Os pais tinham prometido que, durante seis semanas

faria cada um o que lhe apetecesse desde pela manhã

atéà noite, com a condição de reservar duas horas

para estudo.

No dia seguinte ao da chegada dos primos acordaram todos muito cedo.

Margarida soergueu-se na cama e chamou Sofia,

que dormia profundamente; esta despertou, sobressaltada, e esfregou os olhos.

– Quê? Que é? São horas de partir? Espera,

já vou.

E, dito isto, caiu de novo a dormir, no travesseiro.

Preparava-se Margarida para chamar outra vez

quando a criada, que dormia perto, interveio:

– Ora faça o favor de se calar, menina Margarida; deixe-nos dormir; ainda não são cinco horas; creio que não vai levantar-se tão cedo!

Margarida – Meu Deus! Que noite tão comprida!

Estou farta de dormir!

E, pensando nos projectados casinhotos, e antegozando os prazeres do dia, adormeceu também.

Camila e Madalena, há muito acordadas, esperavam, com impaciência, que o relógio desse as sete, hora a que se levantariam sem incomodar Elisa, a

criada. Essa, como não tinha barracas a construir, dormia tranquilamente.

Leão e João tinham acordado e haviam-se levantado às seis; quando as primas começaram a vestir-se, acabavam eles, já prontos, de rezar a oração matinal.

Tiago tivera, antes de se deitar, uma conversa em voz baixa com o pai e com Margarida; todos, um tanto intrigados, viram os três em animada palestra; de vez em quando Tiago saltava, batia as mãos e beijava o pai e Margarida, mas nenhum revelou o motivo por que tinham falado com tanta animação e alegria. No dia seguinte, quando Leão e João foram ao quarto do primo para o acordarem, encontraram-no vazio.

João – Como! Já cá não está? A que horas então se levantou ele?

– Está a ver-se: num primeiro dia dc férias quem não gosta de corridas e passeios matinais? Anda no jardim, decerto: lá o encontraremos. Enquanto não vêm as primas e as amigas, vamos nós até casa do caseiro; almoçaremos leite quente e pão de centeio.

João aprovou o projecto com entusiasmo; chegaram no momento em que acabavam de mugir as vacas. A tia Diart, mulher do caseiro, recebeu-os muito bem. Depois das primeiras frases de boas-vindas, Leão pediu leite e pão de centeio.

A tia Diart apressou-se a servi-los.

– Anda, gorducha – gritou ela para uma criada, que transportava dois canados de leite-, traz leite fresco para estes meninos. Anda depressa! Que pata-choca! Os meninos desculpem, ela é pouco desembaraçada. Pousa aí os baldes, não tens habilidade para nada. Vai buscar um pão à masseira. Aí têm, ao dispor dos meninos, tudo o que desejarem.

Leão e João agradeceram e começaram a tomar, com satisfação, aquele belo leite e a comer o saboroso pão caseiro, que saíra havia pouco do forno e estava ainda quente.

– Basta, João – disse o companheiro. – Se

comermos de mais, já não faremos nada. Não te esqueças de que temos de começar as barracas. É preciso acabarmos as nossas antes de aquele maroto do Tiago começar a dele.

joão – Nisso não acredito eu. Tiago é forte, inteligente e decidido; consegue sempre o que quer…

Leão – Ora, deixa-te disso: não vais acreditar que seja capaz de fazer uma casa sòzinho, ajudado, apenas, por Sofia e Margarida

João – As vezes. Sei lá!

Leão – Não vês que é impossível? Não fará nada de jeito.

João – É o que havemos de ver.

Leão – Acreditas em tudo! Ah ah ah! Um garoto de sete anos arquitecto! Nessa não acredito eu!

joão – Bem! O mais seguro é não rires por enquanto. Demais, são horas de irmos buscar as primas; vão dar as sete.

Correram a casa, foram bater à porta do quarto das raparigas, que os esperavam muito animadas. Depois dos alegres bons-dias, desceram para correr ao jardim e começarem a barraca. Ao aproximarem-se, ficaram surpreendidos de ouvir marteladas: dir-se-ia que alguém pregava tábuas.

Camila – Quem estará no jardim a martelar?

Madalena – Naturalmente é no bosque.

Camila – Não, não; as pancadas vêm do jardim.

Leão – Ah! aqui vem Margarida, que nos explicará tudo.

No mesmo instante, Margarida gritou muito alto:

– Leão, João, bons dias; Sofia e Tiago estão junto de mim.

– Oh, não grites tanto – disse, a sorrir. – Não somos tão surdos como isso!

Margarida aproximou-se deles, a correr, e beijou-os; depois seguiram todos a caminho do jardim, passando pelo bosque.

Grande surpresa tiveram ao verem Tiago, que

era para eles um miúdo, com um grande martelo a

pregar tábuas às estacas que formavam os quatro

cantos da barraca. Sofia auxiliava-o, segurando nas

tábuas.

Tinham escolhido muito bem o lugar da casa

junto de um grupo de nogueiras que a abrigavam do

sol. Mas o que, sobretudo, surpreendeu os recém-chegados foi a presteza de Tiago e também aenergia e

habilidade com que colocara as estacas. Até já se

desenhavam a porta e uma janela.

Os quatro tinham parado; surpreendidos; e tão

grande espanto se lhes pimtava nas faces, que Tiago,

Margarida e Sofia não puderam impedir-se de sorrir

e de rir, finalmente, às gargalhadas. Tiago deitou

mesmo o martelo ao chão para rir mais à vontade.

Leão caminhou para ele.

Leão, muito zangado – Porque te estás a rir e de

quem te ris?

Tiago – Estou-me a rir de vocês todos e do vosso

ar de espanto.

João – Mas, meu Tiago, como pudeste tu fazer

isto? Como pudeste transportar as quatro estacas

e estas tábuas tão pesadas?

Tiago, com ar garoto – Foi a Margarida e a Sofia

que me ajudaram.

Leão e João abanaram a cabeça com ar incrédulo;

andaram à volta da casa, olharam para todos os lados

com aspecto desconfiado, enquanto Camila e Madalena

se espantavam da habilidade de Tiago e admiravam

a rapidez com que trabalhara.

Camila – A que horas te levantaste, Tiago?

Tiago – As cinco, e às seis já aqui estava com

as estacas, as tábuas e as ferramentas. Tomem lá,

peguem vocês agora na ferramenta; chegou a vossa vez.

Leão – Não. Tiago, continua; gostaríamos de te

ver trabalhar, recebendo, assim, uma lição da tua

grande habilidade.

Tiago lançou a Margarida e a Sofia um olhar de inteligência, e respondeu, a rir:

– Nós estamos já a trabalhar há muito e sentimo-nos cansados. Vamos, agora, à caça das borboletas.

Leão, irónico – Para descansar, não é?

Margarida – Isso mesmo, para descansar os braços e o espírito.

Dito isto, partiram, às gargalhadas e aos saltos. Leão viu-os afastarem-se e disse:

– Não têm nada o aspecto de quem está fatigado.

Nesse mesmo instante, Camila e Madalena aproximaram-se, inquietas, de Leão e de João.

Madalena – Ouvi estalar ramos na mata.

Camila – Eu também; vocês ouvem, agora? Parece ser alguém que foge para não ser visto.

Enquanto Leão recuava, afastando-se, prudentemente, da mata e do bosque, João agarrou no martelo, pondo-se diante das primas para as defender.

Escutaram alguns instantes e nada mais ouviram, Leão disse com ar aborrecido:

– Vocês ouviram mal, não foi nada. Pousa o martelo, João; deixa esses ares de ferrabrás; desta vez falta-te o adversário.

Madalena – Obrigada, João; se houvesse perigo, ter-nos-ias defendido.

Camila – E tu porque troças da coragem de João? Podia haver verdadeiro perigo, pois tenho a certeza de que ouvi caminhar com precaução na mata, como se alguém se quisesse esconder.

Leão, com ar zombeteiro – Prefiro a prudência da serpente à coragem do leão.

joão – Não há dúvida de que é menos perigoso.

Camila pressentiu uma disputa e mudou de conversa, falando da projectada barraca. Pediu que escolhessem lugar para ela; depois de muita hesitação resolveram construí-la em frente da de Tiago. Foram, em seguida, buscar toros de madeira e tábuas para a construção. Escolheram o que precisavam num telheiro

onde havia paus de todas as formas e feitios. Carregaram tábuas e estacas num carrito, que Leão e joão puxavam e Camila e Madalena empurravam. Partiram em grande correria. Passaram, com ar triunfal, por diante de Tiago, Margarida e Sofia, que caçavam borboletas no prado e que, ao vê-los, foram postar-se, em linha, na orla do bosque, empunhando as redes como quem apresenta armas e rindo com ar malicioso. João, Camila e Madalena corresponderam, rindo com alegria; Leão zangou-se e quis parar; mas João puxava sempre e Camila e Madalena empurravam o carro, de modo que teve de seguir com eles.

Pouco depois ouviu-se a sineta tocar para o almoço; as crianças deixaram o trabalho e subiram a lavar as mãos, ajeitar o cabelo e escovar-se.

À mesa, o Sr. Traypi informou-se da marcha dos trabalhos.

– Então como vão essas obras? Os mais velhos têm o seu trabalho muito adiantado? Quanto ao meu Tiago, coitado, calculo que ainda estará a meter a primeira estaca. Eh! Leão?

Leão, com ar de enfado – Não, tio; ainda não vamos muito adiantados; estamos a começar a enterrar as quatro estacas dos cantos.

O Sr. Traypi – E o Tiago, em que altura vai?

Leão, com o mesmo ar – Não sei como arranjou, mas a verdade é que o trabalho dele não está mais atrasado que o nosso.

Margarida – Confessa que vai mais adiantado que vocês, que são maiores e mais fortes, pois já está a pregar as tábuas das paredes.

O Sr. Traypi – Ah Ah! Nesse caso, ele não é tão mau artista como ontem dizias, Leão.

Leão não deu resposta e corou. Pôs-se toda a gente a rir; Tiago, que estava ao lado do pai, pegou-lhe na mão e beijou-a sem ninguém ver.

Mudaram de assunto; excelentes pastéis de creme de chocolate entusiasmaram toda a gente.

Depois de almoçar, os pequenos quiseram levar os pais ao jardim para lhes mostrarem as barracas começadas, mas eles declararam, unânimes, que só lhes interessava vê-las quando estivessem prontas. Deram, então, uma volta pelo bosque, durante a qual Leão combinou com os outros irem pescar.

– João e eu – disse ele – vamos preparar as linhas e os anzóis; entretanto, vocês, minhas queridas primas, vão pedir ao jardineiro algumas minhocas e mandem-nas meter em qualquer vasilha.

Camila e Madalena correram ao jardim, onde se juntaram com Leão e João; em poucos minutos o jardineiro encheu-lhes uma vasilha de vermes muito bons para a pesca, e lá foram para o lado onde já se encontravam Tiago, Margarida e Sofia, que tinham preparado um balde para meter os peixes e trazido migalhas de pão para os atrair.

Foi boa a pesca; vinte e um peixes passaram do lago para o balde, breve prisão de onde só saíram para morrer a ferro e fogo na cozinha.

Já ia a pesca muito adiantada e ninguém notara o desaparecimento de Tiago. Foi Madalena quem primeiro deu por isso.

– Naturalmente-disse ela-, foi para casa coleccionar borboletas.

– As borboletas que não apanhou – cochichou Margarida, a rir, ao ouvido de Sofia:

Sofia respondeu-lhe com um sinal de inteligência e um sorriso.

– Que bicho vos mordeu? – disse Leão, com ar desconfiado. – Não sei o que elas estão para ali a cochichar, mas vejo-as ambas, e Tiago também, desde esta manhã, com ar misterioso e irónico que não anuncia nada de bom.

Margarida, a rir – Para vocês ou para nós?

Leão – Para todos; porque, se vocês nos fizerem partidas, pagar-vos-emos na mesma moeda.

João – Pela minha parte, não tenho receio.

Podem fazer o que quiserem que eu não me vingo.

Margarida – Como tu és bom, João – disse Margarida, aproximando-se dele e apertando-lhe as mãos.

-Nada receies, não éramos capazes de fazer alguma

coisa que te ofendesse.

Sofia – Supomos que não nos levarão a mal

brincadeiras inocentes.

joão, a rir – Ah! Já temos alguma coisa em

curso? Suspeitava-o. Advirto-vos de que farei tudo

por a fazer abortar.

Margarida – Não o conseguirás, por mais que

queiras!

joão – É o que havemos de ver.

Leão -Já estamos aqui há perto de duas horas.

Pescámos mais de vinte peixes. Não achas que, por

hoje, chega?

Camila – Tens razão; voltemos às nossas barracas, que, a falar verdade, estão bastante atrasadas;

temos de apanhar Tiago; apesar de mais pequeno,

trabalhoú muito mais.

joão – Ora isso é que eu não posso perceber.

Tu, Sofia, que trabalhas com ele, explica-me como

conseguiram vocês ambos fazer o trabalho de dois

homens, enquanto nós não fizemos mais que enterrar

as estacas.

Sofia, atrapalhada -Mas… não sei… não sei…

Margarida, com vivacidade – Ora, explica-se muito

bem: nós somos construtores competentes, activos, não

perdemos um instante.

Madalena – Quanto a nós, que fazemos? Nada,

perdemos tempo. Tenho a certeza de que Tiago deitou de novo mãos à obra, enquanto nós estamos para

aqui a perguntar uns aos outros como é que a sua

casa se adianta e a nossa está parada.

– Vamos ver, vamos ver – gritaram todos,

excepto Margarida e Sofia.

– Primeiro temos de guardar as linhas de pescar e os anzóis – disse Sofia, detendo-os.

– E levar os peixes à cozinha – acrescentou Margarida.

Leão, com ar de zombaria e imitando a voz de Margarida – E também cozinhá-los, não é? para dar tempo a Tiago.

joão, a rir – Esperem aí, vou ver o que é feito dele.

E ia partir, a correr, quando Sofia e Margarida o agarraram. João, a rir, debatia-se; Camila e Madalena acorreram para o ajudar. Margarida atirou-se ao chão e agarrou-o por uma perna.

-Não o deixes, não o deixes; segura-lhe na outra perna – gritou ela a Sofia. Mas Camila e Madalena precipitaram-se sobre Sofia, que ria a bom rir.

João, a debater-se, caiu na relva, e o seu trambolhão aumentou a alegria geral; Margarida ficara estendida, com o nariz nos tacões dele. O ar grave de Leão, contemplando a cena, mais excitava ainda o riso. Ficara de pé, junto do balde dos peixes, e perguntava, de vez em quando, em tom irritado:

– Então quando acabam com isso?

Quanto mais Leão se formalizava, mais os outros riam.

Quando se cansaram de tanto rir, seguiram, enfim, Leão, mas ainda comentando o seu aspecto grave com gargalhadas e gracejos. Assim se aproximaram do bosquezito onde eram construídas as barracas e ouviram, nitidamente, marteladas tão fortes e repetidas, que não era possível atribuí-las a Tiago.

– Desta vez – disse João, escapando-se e entrando na mata – saberei o que isto é.

Sofia e Margarida deitaram a correr pelo caminho do bosque, gritando Tiago! Tiago! cuidado. Leão correu também e foi o primeiro a chegar; não estava ninguém, mas no chão viam-se, abandonados, dois grandes martelos, pregos, cavilhas, pranchas, etc.

– Ninguém – disse Leão. – É duro de roer, temos de os apanhar. João João!

E meteu-se pela mata dentro.

-Instantes depois ouviram-se gritos vindos do bosque.

– Cá está! Cá está! Apanhámo-lo.

– Não, fugiu-nos. – Agarra, agarra! pela direita! pela esquerda!

Sofia, Margarida, Camila e Madalena escutavam, ansiosamente, rindo. Viram sair João, com os

cabelos e o fato em desalinho. No mesmo instante, Leão saiu em igual estado, perguntando vivamente

a João:

– Viste-o? Para onde se meteu? Porque é que o deixaste fugir?

– Ouvi-o correr no bosque – respondeu João -, mas, da mesma maneira que tu, não pude agarrá-lo nem vê-lo.

Entretanto, Tiago, vermelho, esfalfado, apareceu também e perguntou-lhes, com ar irónico, que era aquilo; porque tinham eles gritado assim e a quem tinham perseguido?

Leão, irritado – Finge-te inocente, meu finório. Sabes melhor do que nós de quem se trata.

joão – Eu estive quase a apanhá-lo. E apanhava-o, se não fosse Tiago interpor-se.

Leão – E davas-lhe uma ensinadela, claro.

joão – Tê- lo-ia reconhecido e havia de o trazer comigo para nos ajudar na nossa barraca. Anda, Tiago, dize-nos quem te ajudou a construir a tua, tão bem e tão depressa. Nós guardaremos segredo.

Tiago – Guardar segredo para quê?

João – Para não te acusarem de deslealdade.

Tiago – Ah ah! Vocês então supõem que alguém me ajudou, que esse alguém se zangaria se eu lhe revelasse o nome, e tu queres, João, que eu seja cobarde e ingrato até ao ponto de o dizer?

Leão – Ora não querem ver este fala-barato de sete anos! Vais ver como te obrigamos.

João – Não, Tiago tem razão; seria coagi-lo a ser desleal, ou, pelo menos, indiscreto.

Leão – Muito custa ser escarnecido por um garotelho!

Sofia – Não te esqueças, Leão, de que o desafiaste, que fizèste troça dele e que ele tinha o direito de te provar.

Leão – Provar-me o quê?

Sofia – Provar-te. que. que.

Margarida, com vivacidade – Que é mais esperto do que tu e que tinha o direito de te pregar uma partida inocente sem tu teres o direito de te zangar.

Leão, sentido – Eu não me zango, meninas; e afianço-lhes que respeitarei a finura e a esperteza do vosso protegido.

Margarida Um protegido que será, dentro de pouco tempo, protector.

Tiago, a Margarida – E que não se esconderá por detrás de ti quando algum perigo te ameace.

Leão, encolerizado – De que queres falar e de quem, garoto?

Tiago, vivamente – De um poltrão e de um egoísta.

Camila, receando que a disputa tivesse piores consequências, agarrou na mão de Leão e disse-lhe, com afecto:

– Leão, estamos a perder tempo; e tu, que és o mais sensato e o mais imteligente de todos nós, distribui a cada um o trabalho a fazer, para se concluir a nossa barraca, ainda tão atrasada.

– Também eu me ponho às tuas ordens – exclamou Tiago, já arrependido.

Leão, que a lisonja de Camila desarmara, sentiu-se de todo tranquilizado pelas palavras de Tiago, e, esquecendo as ásperas coisas que este acabava de

dizer, correu a dar a cada um a sua tarefa, e todos se puseram a trabalhar activamente.

Durante duas horas trabalharam com um interesse digno de melhor sorte; as pranchas não se seguravam, os pregos torciam-se. Com paciência e coragem recomeçaram o que lhes saía mal, mas pouco adiantavam. Tiago parecia querer fazer com que esquecessem as suas palavras de há pouco, mostrando zelo superior à idade. Deu excelentes conselhos, que os outros, com êxito, acolheram e seguiram. Enfim, fatigados e a transpirar, deixaram a obra para continuar no dia seguinte, depois de Leão e os companheiros terem deitado um olhar de inveja à casa de Tiago, quase pronta: Este, que desde a questão parecia contrafeito, separou-se dos primos e foi ter com o pai, que o acolheu, rindo.

O Sr. Traypi – Então, Tiagozito, quase me apanharam! Se não fosses tu, João tinha-me visto. Não importa, o caso é que adiantámos hoje muito; já pedi ao Martinho que concluísse a barraca enquanto jantamos, e amanhã ficarão todos muito admirados ao verem-na pronta.

– Não, pai, não – disse Tiago, deitando-lhe os braços à volta do pescoço -Deixe ficar a minha casa como está e mande acabar a dos primos.

– Como é isso? – replicou o pai, surpreendido.

– Tu que tão vivamente te empenhavas em acabar a tua barraca antes de o Leão fazer a sua!

Tiago – Sim, meu querido pai. E porque fui mau para ele, e custa-me causar-lhe pena, tendo sido tão bom para mim. Leão podia ter-me batido depois do que lhe disse há pouco, e não o fez.

E contou ao pai a cena do jardim.

O Sr. Traipy – E como é que o acusaste de egoísta e cobarde? Não sabes que são palavras muito duras? Que fez ele para lhas dizeres?

Tiago – O pai não se lembra quando, de manhã, fomos, pela primeira vez, surpreendidos e nos escondemos? Camila e Madalena ouviram-nos mexer e julgaram que eram lobos ou ladrões. João pôs-se diante delas para as proteger, e Leão, ao contrário, por detrás; eu bem vi através da folhagem o seu ar aterrado e pensei que, se fizéssemos qualquer novo ruído, ele fugiria, em vez de ajudar João a defender-se. Era a isso que eu me referia quando disse aquelas palavras tão más.

O Sr. Traypi, abraçando-o, a sorrir – És um excelente rapazinho; meu Tiago; para outra vez não tornes a fazer o que hoje fizeste; eu vou, pela minha parte, mandar acabar a casa dos teus primos.

Tiago beijou o pai e foi, muito contente, juntar-se aos companheiros, que brincavam na relva do parque.

No dia seguinte, quando os pequenos, acompanhados de Sofia e Margarida, foram ao jardim, para continuarem as barracas, ficaram surpreendidíssimos ao vê-las ambas prontas, e mesmo com portas e janelas! Estavam pasmados! Sofia, Tiago e Margarida olharam-nos, rindo.

– Como é isto? – disse Leão, finalmente. – Porque milagre se concluiu assim, de repente, a nossa casa?

-Porque já era tempo de acabar com uma brincadeira que poderia dar maus resultados – disse o Sr. Traypi, saimdo de entre as árvores. -Tiago contou-me o que houve entre vós, e pediu-me que os ajudasse a vocês como até então o ajudara a ele. E confesso também que receei outra batida como a que me fizeram ontem. Passei todas as aflições de um verdadeiro criminoso e estive, por duas vezes, a dois passos dos meus perseguidores. Tu, João, se não fosse o Tiago, tinhas-me apanhado; e tu, Leão, passaste rente a mim sem me ver.

João – Que nos diz? Foi então o tio que tanto nos fez correr? Pode orgulhar-se de ter umas boas pernas!

O Sr. Traypi, a rir – Ah! que na minha mocidade era considerado o mais resistente corredor do colégio. E ainda conservo alguma coisa disso, segundo se vê.

As crianças agradeceram ao tio o ter-lhes mandado acabar as barracas. Leão beijou Tiago, que lhe pediu perdão em voz baixa. – Cala-te – disse aquele, corando levemente. Não se fala mais nisso.

É que Leão sentia quanto tinha havido de verdadeiro na observação de Tiago. Prometeu a si mesmo fazer todo o possível por não a tornar a merecer.

Era preciso, agora, mobilar as casas; cada um dos pequenos pediu e obteve uma porção de preciosidades, como tamboretes, cadeiras velhas, mesas fora de uso, restos de cortinados, porcelanas e cristais partidos. Levaram tudo que puderam apanhar.

– Venham cá ver – gritava Leão – o nosso bonito tapete.

– E nós, em vez de tapete, temos um oleado – respondia Sofia.

– Venham sentar-se neste banco: é tão cómodo como as poltronas da sala de visitas-dizia João.

– O que ainda não viram foi este armário cheio de chávenas, copos e pratos – replicou Margarida.

– E as nossas provisões? Compota, açúcar, biscoitos, cerejas, e chocolate-acrescentou Camila.

– Nós é que tivemos juízo – dizia Tiago -, pois, enquanto vocês se preocuparam com lambarices, fortificámos o estômago com coisas mais substanciais: pão, queijo, presunto, manteiga, ovos e vinho.

-Tanto melhor-replicou Madalena. -Quando vos convidarmos para almoçar ou merendar, vocês trazem o salgado e nós damos o doce.

Dia a dia se acrescentava alguma coisa ao bom aspecto e conforto das barracas de que o Sr. Rugés e o Sr. Traypi se tinham encarregado. No fim das férias, as casas transformadas apresentavam-se com atraente aspecto; as fendas das tábuas haviam sido cobertas de musgo, as janelas guarnecidas de cortinados; o chão coberto de areia fina. Pouco a pouco, tinham levado para lá cadernos e livros, e ali mesmo estudavam. O comportamento dos pequenos era então exemplar. Quando chegasse o momento da despedida, as barracas seriam um dos motivos de pesar. Mas as férias deviam durar perto de dois meses, e ainda os nossos pequenos heróis estão no terceiro dia de férias e têm muitos outros para brincar.

 

VISITA AO MOINHO

– Proponho um grande passeio ao moinho, pelo caminho do bosque – disse o Sr. Rugés. – Vamos ver o novo maquinismo instalado por minha irmã, e, enquanto nós estivermos a examinar as máquinas, os meninos brincam na relva, onde lhes será servida uma boa merenda campestre: pão de centeio, leite, queijo, manteiga e bolachas caseiras. Quem gostar de mim que me siga!

Todos, imediatamente, o cercaram.

– Parece que todos me estimam-continuou o Sr. Rugés, a rir. – Vamos embora!

– Olá, olá, mais devagar, meninos! Nós não podemos ir com essa pressa!

Os pequenos, que tinham partido a galope, voltaram e rodearam os pais.

Foi encantador o passeio; a frescura do bosque temperava o ardor do Sol; de vez em quando as crianças sentavam-se, palestravam, colhiam flores, apanhavam amoras.

– Cá estamos junto do célebre carvalho, onde perdi, um dia, a minha boneca-disse Margarida. Não esquecerei nunca a pena que senti quando, ao deitar-me, dei pela falta dela e me lembrei de que ficara no bosque, exposta à chuva. (1)

(1) Veja As Meninas Exemplares, da autora.

– De que boneca falas? – perguntou João. Não conheço esse caso.

– Aconteceu há muito – disse Margarida. -Foi a Joaninha que me levou a boneca.

João – Qual Joaninha? A filha da moleira?

Margarida – Essa mesma. E a mãe muito lhe bateu Íamos longe e ainda ouvíamos chorar a rapariga.

Tiago – Conta-nos isso, Margarida. Como os nossos pais se sentaram também, temos tempo de ouvir a tua história.

Margarida sentou-se na relva, à sombra do mesmo carvalho, junto do qual a boneca ficara esquecida; contou-lhes a história e como a boneca fora encontrada em casa de Joaninha, que a levara.

– Essa Joaninha é muito má, nesse caso – disse Tiago. – E modificou-se, desde então?

Sofia – Modificar-se? Essa agora! É a pior aluna da escola.

Margarida – A mamã diz que é uma ladra.

Camila – Margarida, Margarida! Não deves repetir isso. Estás a desacreditar uma pobre rapariga, talvez arrependida das suas faltas passadas.

Margarida – Não está arrependida, asseguro-te.

Camila – Mas como podes ter a certeza disso?

Margarida – Pelo seu ar atrevido. Passa sempre por nós com o nariz arrebitado; nem na igreja se porta decentemente; enfim, acho-lhe um aspecto falso e mau.

Madalena – É assim, é; e eu já falei nisso à mãe.

Leão – E que disse a tia Léonard à Joaninha?

Madalena – Suponho que nada, visto que não se modificou.

Sofia – E esqueceu-te contar qual foi a resposta da mãe: Olhe, que é que a menina tem com isso? A gente não se mete na sua vida; não se meta a menina na nossa.

João – Essa é boa! Então ela respondeu-te assim? Se eu lá estivesse, comigo se havia de haver, e a Joaninha também.

Madalena, sorrindo – Foi uma sorte não estares. A tia Léonard começava logo a discutir contigo e ter-te-ia dirigido algum pesado insulto.

joão – Insulto! Isso sim! Dava=lhe tantos socos e pontapés. Não sou para brincadeiras 1 Em poucos

minmutos, desfazia-a.

Leão, encolhendo os ombros- Mas que gabarola! Ela é que te dava uma coça!

João – Uma coça a mim! Quererás tu experimentar?

E, dito isto, levantou-se, tirou o casaco e preparou-se para a luta. Tiago ofereceu-se para combater a seu lado.

Todos os pequenos se puseram a rir. João, sentindo o ridículo do que dissera e fizera, tornou a vestir o casaco e riu de si próprio com os outros. Leão pôs-se a implicar com Tiago, que correspondeu da mesma forma; e, como Margarida se colocasse ao lado deste, Leão começou a enfurecer-se. Os outros meninos olhavam-se de soslaio e procuravam apaziguar mais esta disputa, mas não o conseguiam.

Leão levanta-se e quer bater em Tiago, que, mais ágil, lhe escapa sempre e lhe faz negaças. Limpa a fronte, transpirando por todos os poros, e não domina o furor.

– Anda ajudar-me – diz ele a João. – Estás para aí indiferente a ver- me correr, sem vires em meu auxílio.

joão – Em teu auxílio, para quê?

Leão – Para agarrar este garotelho, com a breca!

joão, friamente – E depois?

Leão – Depois… para me ajudares a dar-lhe uma lição.

joão – Que lição?

Leão – De respeito e delicadeza para comigo, que tenho quase o dobro da sua idade.

joão – De respeito! Ah! Sempre me saíste uma pessoa muito respeitável!

Margarida – Submeter-nos a ti, é o que tu querias. Não nos faltava mais nada.

João – Em qualquer caso, e ainda mesmo quando Tiago se tivesse ofendido, não me punha a teu lado contra ele, porque é mais pequeno e tem, como tu mesmo disseste, metade da tua idade.

Leão-Tornas-te aborrecido com esses nobres sentimentos e essa estúpida generosidade.

joão – Chamas a isto generosidade! Achas justo que dois rapazes de tréze e doze anos se juntem contra um pequeno de sete, que nenhum mal lhes fez?

Leão – Então isto de estar a arreliar-me há um quarto de hora não é nada?

João – Ora! Também tu lhe fizeste o mesmo. Descarta-te sòzinho. Tanto pior para ti, se ele te leva a palma.

Tiago ouvira tudo sem proferir uma palavra. No seu rosto inteligente e expressivo traduzia-se o que lhe ia no íntimo: reconhecimento e afecto para com um, pesar de ter ofendido o outro. Aproximou-se pouco a pouco, e depois correu para Leão, dizendo:

– Perdoa-me por ter-te feito zangar; reconheço

que fiz mal; e levei Margarida a proceder mal; ela arrependeu-se já também; não é assim, Margarida?

Margarida – Sim, Tiago, claro que estou arrependida; e Leão de boa vontade nos há-de perdoar, pensando que, como somos os mais novos, nos sen timos mais fracos, e que, à falta de força, temos de recorrer às palavras.

Leão nada disse, mas estendeu a mão a Margarida e depois a Tiago.

Os pais, sentados mais longe a conversar, levantaram-se para continuar o passeio. Os pequenos seguiram-nos; Tiago aproximou-se de João e disse-lhe com ternura:

– João, sou muito teu amigo.

Margarida – Eu também, e agradeço-te o teres defendido de Leão o meu querido Tiago.

E, falando-lhe baixinho ao ouvido, acrescentou:

– Não gosto do Leão.

João sorriu, beijou-a e respondeu-lhe:

– É engano teu; afianço-te que ele, no fundo, é bondoso.

Margarida – Mas procede sempre como se o não fosse.

joão – É bom, mas ao mesmo tempo é arrebatado: não devemos fazê-lo zangar.

Margarida – Como? Se se zanga por tudo e por nada.

João- Ora confessa: tu e Tiago tendes prazer em o excitar.

Tiago e Margarida olharam um para o outro, sorriram, e confessaram que Leão os irritava com o seu ar escarninho, e que sentiam prazer em contrariá-lo:

– Então, vejam se são capazes de não o irritar e nunca mais terão motivos de queixa.

Enquanto conversavam, foram-se aproximando do moinho; os pequenos viram, com surpresa, que uma grande multidão o rodeava; toda aquela gente parecia muito agitada; alguns andavam de um lado para o outro, formavam grupos aqui e além e voltavam a juntar-se uns com os outros. Era bom de ver que, no moinho, alguma coisa de anormal corria.

– Aconteceria alguma desgraça? – perguntou a Sr. de Rosbourg.

-Aproximemo-nos; dentro em pouco saberemos do que se trata – respondeu a Sr.a de Fleurville.

As crianças olhavam com curiosidade e inquietação. Quando chegaram mais perto, começaram a ouvir gritos, mas não de dor; eram vozes de cólera. imprecações, insultos. Em breve se distinguiram uniformes de polícias; uma mulher, um homem e uma rapariguita debatiam-se, seguros por dois deles. A rapariga e a mãe soltavam altos gritos e queixumes, o homem

praguejava. Os polícias faziam todos os esforços para

não os deixar fugir. Os pequenos reconheceram, finalmente, o tio Léonard, Joaninha e a mãe.

– Tenha paciência, mulher, porte-se com termos,

não nos obrigue a algemá-la – dizia um polícia. Cumprimos as ordens que nos dão.

A Tia Léonard – Não vou! Não vou! Polícias malditos, carrascos dos pobres! Não sou assim tão

estúpida! Se me levais para a prisão, fico lá a apodrecer até ao juízo final.

O Polícia – Vamos, tia Léonard, seja razoável;

está a dar um mau exemplo a sua filha.

A Tia Léonard – Quero lá saber da minha filha!

Foi essa palerma que nos fez apanhar. Levem-na a

ela, que não me importo com isso.

– Largas-me ou não, madraço? – gritava o tio

Léonard a outro polícia, que o segurava pela gola do

casaco. – Espera lá, animal, que te estendo já com

uma rasteira!

Os polícias nada respondiam a estas injúrias, e a

outras que não dizemos. E, vendo como eram inuteis

os seus esforços para levar os seus prisioneiros, fizeram sinal a um terceiro polícia. Este tirou do bolso umas

correias. Apesar dos agudos gritos de Joaninha e da

mãe, e dos insultos do pai, os polícias ataram-nos de

pés e mãos, sentando-os, assim algemados, num banco,

enquanto um deles ia buscar uma carroça para os

conduzir à prisão.

A Sr.a de Fleurville e as outras senhoras tinham

ficado, com os pequenos, um pouco afastadas da cena;

os Srs. Rugés e Traypi aproximaram-se para se informarem das causas da prisão. Seguiram-nos os filhos

do primeiro.

-Por que motivo prendem a família Léonard?

– perguntou o Sr. Rugés.

– Por motivo de roubo, senhor-respondeu, delicadamente, um dos polícias, levando a mão ao chapéu.

– Há muito tempo que existem queixas contra eles;

mas, como são muito hábeis, não apareciam provas.

Num dos últimos dias, porém, a rapariga descuidou-se,

e esse descuido descobriu tudo.

O Sr. Rugés – Pode contar-me o caso com

pormenores?

O Policia – Segundo parece, os Léonard roubaram uma peça de pano que estava a branquear ao

sol. Esconderam-na dentro da masseira, debaixo da

farinha; mas, de noite, a rapariga pôs-se a pensar no

caso e disse lá consigo: Já que o meu pai e a minha

mãe roubaram a peça de pano da tia Marún, bem

posso eu roubar-lhes a eles um pedaço para o vender

e comprar pastéis e rebuçados. Dito e feito: levanta-se a moça e vai cortar um grande pedaço de pano.

Como era véspera de mercado resolveu vendê-lo logo

no dia seguinte. Sem nada dizer aos pais, lá vai ela.

Vê a filha dos Chartier, chama-a e oferece-lhe o tecido.

– Quanto é? – pergunta a outra.

– São bem uns seis metros; dá-lhe duas camisas

à vontade.

– E quanto queres?

– Ah! levo-lhe barato; dê-me cinco francos e é

negócio arrumado.

– Seja, compro-te o pano.

Ficaram as duas muito contentes: a Léonard com

os cinco francos e a Chartier com a vantajosa compra.

Mas, quando esta chega a casa com o pano e o vai

mostrar à mãe, fica muito admirada de ver o quarto

encher-se de farinha, ficando as duas brancas como

moleiras.

– Isto que é? – disseram. E foram sacudir o

pano para a porta da casa. Entretanto passa por ali

a tia Martin.

– Onde vai tão apressada? – pergunta-lhe a tia

Chartier.

– Vou queixar-me à polícia: roubaram-me uma

peça de pano.

– Pois eu acabo de comprar seis metros de pano muito barato.

– Olha! – disse a tia Martin. – Mas é muito parecido com o meu! E que é que lhe estão a fazer?

– A sacudi-lo. Estava coberto de farinha.

– Essa agora, pano coberto de farinha! Mas quem o vendeu?

– Foi a filha dos Léonard.

– A filha dos Léonard? Como é que ela arranjou tecido tão fino? Ora mostrem-mo cá: parece-se a valer com o meu!

A tia Martin pega no pano, examina-o, olha-o numa das pontas e reconhece o sinal que lhe pusera. Ficaram as três muito impressionadas: a tia Martin, contente por estar na pista que procurava; a tia Chartier, aborrecida por ter dado cinco francos por uns metros de tecido roubado. Vieram então as três procurar- me e contar-me o que se passara.

– A tia Chartier comprou o pano todo? – pergunto à tia Martin.

– Muito longe disso! – respondeu ela. – Eram perto de cinquenta metros.

– Então precisamos de apanhar os quarenta e quatro que faltam, tia Martin. Deixe isso comigo. Vamos estar alerta no mercado; se a tia ou o tio Léonard lá forem com a peça para a vender, prendo-os; senão irei amanhã, com os meus camaradas, passar uma busca ao moinho.

– Mas se eles vendem o pano a um vizinho? perguntou a tia Martin.

– Qual história! Toda a gente sabe que roubaram o pano, vendê-lo a um vizinho seria imprudência.

Pus-me em campo com os camaradas, mas nada encontrámos, nem no mercado, nem na cidade. Em face disso, viemos esta manhã passar aqui uma busca, com a ordem de prisão no bolso. Já tínhamos virado tudo do avesso. Os Léonard cobriram-nos de insultos. Por fim, ocorre-me a ideia de abrir a masseira; estava cheia de farinha; remexo com a bainha do sabre. Os Léonard gritam que lhes dou cabo da farinha; mas eu não

desisto e eis senão quando apanho um bocado de pano; começo a puxar e o pano a sair; era toda a peça da tia Martim. Os Léonard querem fugir mas os camaradas estavam de guarda às portas e janelas. Pren demo-los. Prendo também a rapariga, que grita a sua inocência. Conto a história do pano coberto de farinha.

A rapariga põe-se a chorar; a mãe atira-se a ela e o pai também. Se nós não lhe tirássemos a rapariga das mãos, faziam-na em bocados. Tudo isso durou algum tempo e começou ajuntar-se gente; mais do que é para desejar, porque custa muito ver uma rapariga tão nova nesta situação, e encontrar pais que contribuíram com o seu mau exemplo para a desgraça de uma filha:

– Você é um homem honrado e digno – disse o Sr. Rugés, estendendo- lhe a mão. – O sentimento de humanidade que manifesta para com esta gente que o cobriu de insultos é nobre e generoso.

O polícia pegou na mão do Sr. Rugés e apertou-a comovidamente.

– A nossa função é, por vezes, penosa, e pouca gente a vê com bons olhos; muito raramente encontramos quem a compreenda como V. Ex.a.

Leão e João tinham, atentamente, escutado a narrativa. As senhoras e os pequenos haviam-se também aproximado para ouvir os Léonard. Entretanto recomeçaram os insultos e gritos, e as senhoras pensaram que, na impossibilidade de fazerem então alguma coisa a favor dos desgraçados moleiros, era mais sensato afastarem-se, evitando, assim, que as crianças se impressionassem com aquele triste espectáculo. A Joaninha foi separada dos pais, porque estes, apesar de algemados, queriam ainda maltratá-la. As Sr.as de Fleurville e de Rosbourg e os companheiros de passeio dirigiram-se para um ponto da floresta afastado do moinho, donde se não via nem ouvia o que ali se passava. As crianças caminhavam tristes e silenciosas.

O Sr. Rugés mandou fazer alto e dispor no chão as provisões que traziam. As crianças não se fizeram rogadas; comeram com muito apetite daquela merenda rústica: queijo, requeijão, manteiga, bolachas e morangos silvestres. Conversaram, enquanto comiam, sobre a Joaninha e os pais.

Leão – Como é que Joaninha chegou a ponto de roubar e vender o pano com tal audácia?

A Sr. a de Fleurville – O pai e a mãe deram-lhe exemplos de roubos e mentira. A mim também muitas vezes roubaram, fazendo-se ajudar por ela. A pequena acabou por querer tirar, desses roubos, proveito próprio.

Camila – Mas como podia ela ir à igreja e ao catecismo? Como é que não receava que Deus a castigasse pela sua maldade?

A Sr.a de Fleurville – Portava-se na igreja muito mal bocejava, espreguiçava-se, deitava-se nos bancos; Isto prova que a sua intenção, ao ir à igreja, não era rezar.

Madalena – Mas ela deve ter aprendido no catecismo que se não deve roubar.

A Sr.a de Fleurville – Aprender, aprendia ela, mas sem prestar atenção ao que aprendia.

João – Ah meu Deus! É justamente o que se passa connosco: se fizéssemos tudo o que o catecismo ensina nunca cometeríamos nenhuma má acção.

Leão – Ora, João, fala por ti e deixa os outros! Eu, pela minha parte, faço tudo quanto o catecismo manda.

Tiago – Com essa não me iludes tu!

Leão – Estás a meter-te onde não és chamado, falando do que não entendes.

Tiago – Inspiras-te, para essa resposta, no catecismo? E será ele que te aconselha a bateres-me quando estás zangado, a dizeres tolices e, ainda, a fazeres toda a espécie de maldades?

Leão – Que grande tolo! Se não fosses um miúdo, obrigava-te a mudar de tom.

Tiago – Se eu não fosse um miúdo e, principalmente, se não fosse o meu pai e o meu tio…

O Sr. Traypi, severamente – Cala-te, Tiago; estás sempre a provocar o Leão, que não brilha pela serenidade. Bem o sabes.

Tiago – Sei muito bem, meu pai! e sei também que faço mal, mas é tão tentador arreliá-lo.

O Sr. Traypi – Como? Que prazer podes encontrar em dizer coisas desagradáveis ao teu primo, mais velho do que tu?

Tiago – Mas é justamente por ser mais velho; e como o pai estava perto para me defender.

O Sr. Traypi, severamente – Procedes mal, Tiago! Não está bem; não tornes a fazer o que fizeste.

O Sr. Rùgés – Também tu, Leão, mereces reprimenda, e mais severa que Tiago, visto seres o mais crescido de ambos.

Leão – Suponho que, desta vez, não fiz nada de mal.

O Sr. Rugés – Foste orgulhoso, impertinente, aborrecido; não tornes a fazer outra! Fica sabendo que, se eu entrar nas tuas discussões, não será para me pôr a teu lado.

– Para esquecer tudo – disse a Sr. a de Fleurville levantando-se-, proponho que vamos jogar as escondidas todos nós, grandes e miúdos, novos e velhos.

– Bravo, bravo! Há-de ser divertido – exclamaram as crianças, em coro. – Vamos ver quem é que fica.

– Devem ficar dois – disse a Sr.a de Rosbourg- seria muito dificil um só agarrar alguém.

– Então fico eu e a minha irmã – disse o Sr. Traypi-, depois, o Sr. Rugés e a Sr.a de Rosbourg; irão, sucessivamente, ficando os que se deixarem agarrar. Uma. duas. três! Começou o jogo! A malha é na árvore junto da qual nos encontramos.

Todos dispersaram para se esconder nas moitas ou por detrás das árvores.

– É proibido subir às árvores! – gritou a

Sr.a Traypi.

– Hu hu! – gritavam de todos os lados.

– Pronto – disse o Sr. Traypi. – Vá por este

lado, minha irmã; e eu procurarei pelo lado oposto.

Lá foram devagarinho, cada qual pelo seu lado,

caminhando na ponta dos pés, olhando por detrás

das árvores, examinando as moitas.

– Atenção! – gritou a Sr.a de Fleurville. – Oiço

o estalar de ramos do vosso lado.

– Apanhei um – exclamou o Sr. Traypi, metendo-se pelo mato dentro.

Mas falara antes do tempo: Camila e João partiram como setas, chegando à malha antes que os

agarrassem.

Entretanto a Sr.a de Fleurville, descobrindo

Leão e Madalena, pôs-se a correr atrás deles; .

o Sr. Traypi foi ajudá-la; enquanto os perseguiam,

viram Margarida e Tiago que corriam para a malha.

Julgando estes mais fáceis de apanhar, a Sr.a de Fleurville deixou os outros e pôs-se a persegui-los; mas,

jovens como eram, e correndo muito mais, chegaram à malha no momento em que os ia mesmo a

alcançar.

Esfalfada, a Sr.a de Fleurville deitou-se a rir na

relva, e ali ficou alguns instantes para tomar fôlego.

Foi depois auxiliar o irmão, que se esforçava por apanhar Leão, Madalena e outros; quanto a Sofia, ainda

não a tinham encontrado.

À custa de habilidade e de perseverança, o

Sr. Traypi acabou por os apanhar a todos, apesar

das artimanhas de que usavam, no meio de grande

gritaria e fazendo todos os esforços para lhe escapar.

Sofia, Sofia! – gritavam-, diz hu! para

sabermos de que lado estás.

Ninguém respondia.

A inquietação começou a apoderar-se da Sr. de

Fleurville.

– É estranho que não responda, se está realmente escondida – disse ela- oxalá lhe não tenha acontecido alguma desgraça.

– Se calhar foi para longe de mais – disse o

Sr. Rugés.

– Queira Deus que não se perca, como há três

anos! – replicou a Sr.a de Rosbourg.

– Ah pobre Sofia – exclamaram Camila

e Madalena. – Vamos procurá-la.

– Vamos, vamos todos, mas que cada um dos pequenos vá acompanhado por um de nós – disse o Sr. Traypi.

Dividiram-se em grupos e puseram-se todos à

procura de Sofia, chamando em altas vozes. Ressoavam os gritos na floresta, mas nenhuma resposta se ouvia. A imquietação aumentava de momento a momento; as crianças procuravam com um interesse em que se traduzia afeição e receio.

João e a Sr. de Rosbour julgaram, finalmente,

ouvir uma voz abafada chamar por socorro. Pararam

e puseram-se à escuta…

Não se tinham enganado. Era Sofia quem

chamava.

– Soeorro! Socorro! Salvai-me, meus amigos!

Sofia, Sofia, onde estás? – gritou João, atónito.

– Perto de ti, na árvore – respondeu Sofia.

– Mas onde, onde? Meu Deus! Não vejo. E João, aflito, desolado, procurava, olhava para todos os

lados, para as árvores, para o mato, mas não via Sofia.

Toda a gente viera para junto deles. Todos se

empenhavam naquela busca ansiosa.

Sofia, querida Sofia – gritou Camila. – Onde

estás? Em que árvore? Não há maneira de te vermos.

Sofia, com voz abafada – Caí no tronco oco; morro

se não me tiram daqui.

– Que se há-de fazer? – exelamaram. – E se

se fosse buscar uma corda?..

João reflectiu um momento, despiu o casaco

e começou a subir pelo tronco acima.

– Que vais fazer? – gritou Leão. – Cais lá dentro como lhe aconteceu a ela!

-Imprudente-exclamou o Sr. Rugés. -Desce!

Mas João trepava com agilidade tal, que prontamente chegou ao cimo do tronco apodrecido. Tiago

seguira-o, e chegou junto dele antes que os pais tivessem tempo de lho impedir. Levava o casaco de João e

tirou o seu. João, ao ver Sofia no fundo do tronco,

exclamara:

– Uma corda! uma corda! Tragam depressa uma

corda!

Logo Leão, Camila e Madalena começaram a

correr em direcção ao moinho. Mas Tiago, seguindo

a sua ideia, passou os dois casacos a João, que atou,

ràpidamente, uma das mangas do seu a uma do de

Tiago, improvisando assim, uma corda de salvação

que meteu pelo buraco abaixo, dizendo:

-Agarra-te bem, Sofia! Segura-te bem com

ambas as mãos. Tenta ajudar-te com os pés, na

subida; nós puxamos.

Auxiliado por Tiago, João puxou com toda a

força. O Sr. Rugés tinha subido para junto deles e

ajudou-os também a tirar a infeliz Sofia, cuja cabeça,

pálida e alterada, apareceu no cimo do tronco. No

mesmo instante começaram os casacos a rasgar-se.

Sofia soltou agudo grito; João agarrou-lhe uma das

mãos; o Sr. Rugés a outra, e retiraram-na assim

daquela árvore, que estivera quase a servir-lhe de sepultura. Tiago desceu ràpidamente; o Sr. Rugés, mais

devagar, segurando Sofia, meio desmaiada; e depois ;

João. A Sr.a de Fleurville e todas as outras senhoras

rodearam a pobre menina. Margarida abraçou-a, a

chorar, ao que Sofia respondeu, beijando-a com ternura.

Logo que pôde falar, agradeceu a João e a Tiago,

muito afectuosamente, o terem-na salvo. Quando

Camila, Madalena e Leão chegaram arrastando uma

corda de vinte metros de comprido, Sofia estava refeita do transe por que passara; levantou-se para caminhar ao encontro dos seus amigos; sorriu ao ver aquela corda tão grande.

– Obrigada, queridos amigos – disse ela. – Julgavam-me, com certeza, no fundo de algum poço para trazerem uma corda tão comprida…

Camila – Não sabíamos ao certo onde estavas e agarrámos na maior que nos apareceu à mão.

Madalena – Sim, porque o Leão disse: De uma grande de mais não virá mal; sendo muito pequena pode ocasionar a morte de Sofia.

Margarida – Pobre Sofia! Esta floresta é-nos fatal.

A Sr.a de Fleurville – Aqui a temos já livre do terror por que passou; que ela nos explique agora como se deu o acidente.

O Sr. Rugés – É verdade, tinha-se combinado não trepar às árvores.

Sofia, embaraçada – Eu queria… esconder-me melhor que os outros. Pus-me detrás deste carvalho, e pensava que, encobrindo-me com o tronco, não dariam comigo.

A Sr.a Traypi – Ah, essa agora! Eu agarrei Madalena e Leão que estavam escondidos atrás de

uma grossa árvore.

Sofia -Justamente porque de longe os vi serem agarrados, procurei mais seguro esconderijo. Os ramos da árvore eram baixos, o que me permitiu subir de

ramo em ramo.

Margarida – Quer dizer que não respeitaste o combinado.

Tiago – E que Deus te castigou.

Sofia- É verdade, sim! Deus castigou-me. De ramo em ramo, cheguei a um ponto em que o tronco da árvore se separava em vários ramos muito grossos; havia uma reentrância coberta de folhas secas; nunca me passou pela cabeça o que ia acontecer.

Subi e no momento em que pousava os pés no que eu supunha o ponto mais sólido da árvore, senti abaterem-se a casca e as folhas secas; e, antes de poder agarrar-me aos ramos, senti-me cair até ao fundo. Gritei, mas a voz era abafada pelo terror e também pela profundeza da concavidade onde caíra.

joão – Pobre Sofia! Que angústia deves ter sentido!

Sofia – Estava meio morta de medo. Cheguei a pensar que nunca mais davam comigo, porque compreendi que a minha voz não se ouvia do fundo do tronco. Voltou-me um pouco a coragem quando senti chamar de todos os lados; redobrei os esforços para gritar; ouvia-vos passar perto da árvore, e, com desânimo, reconheci que até vós não chegavam os meus gritos. Enfim, o nosso querido e corajoso João ouviu-me, e salvou-me com o auxílio do meu Tiago.

joão – Foi ele quem teve a ideia de atar um ao outro os dois casacos.

– um leãozinho – disse Madalena, beijando-o.

Leão, com ar de zombaria – Chama-lhe antes esquilo, visto que sobe com agilidade às árvores.

Margarida, com vivacidade – Cada um tem a sua agilidade; uns sobem às árvores como esquilos, correndo o perigo de se matarem; outros correm, como coelhos, cheios de medo!

A Sr.a de Rosbourg – Margarida! Margarida!

juízo!

Margarida – Mas, minha mãe! Leão quer diminuir o mérito de Tiago; contudo, ele próprio achara perigoso ir em socorro da pobre Sofia.

Leão – Alguém tinha de ir buscar a corda.

Margarida – Olha que a tua corda serviu para uma grande coisa, não há dúvida!

A Sr.a de Fleurville – Vamos, meninos, nada de questões; tu, Leão, não te deixes cegar pela inveja, nem tu, Margarida, pela cólera, e agradeçamos a Deus ter tirado a pobre Sofia do perigo em que estava.

Regressemos a casa; é tarde, e precisamos todos

de repouso.

Levantaram-se e dirigiram-se para casa, comentando, animadamente, os acontecimentos daquela

manhã.

 

BIRIBI

A Sr.a de Fleurville tinha um cão de guarda que as meninas haviam criado. chamava-se Biribi – nome dado por Margarida e Tiago. Tinha dois anos; era corpulento e forte, da raça dos cães dos Pirinéus, que se medem com os ursos; fora sempre muito dócil para com a gente da casa e para com os pequenos, que brincavam muitas vezes com ele, o atrelavam a um carrito, e o atormentavam com as repetidas festas que lhe faziam; nunca, porém, viera de Biribi mordedura ou arranhadela.

Um dia, o Sr, Traypi disse aos pequenos que ia lavar o seu cão de caça, Milorde, em águas de aloés.

-Querem vir comigo? Ajudar-me-ão a lavarMilorde e a limpá-lo.

– Sim, vamos – responderam, em coro, as crianças.

Abandonaram Biribi, que estavam a atrelar a um carrinho de boneca, e correram, com o Sr. Traypi, à lavandaria, para verem lavar o cão. Milorde não estava lá com ar muito satisfeito. Quando o Sr. Traypi entrou, o pobre cachorro quis correr para ele, mas o cocheiro e um criado seguraram-no cada um por uma orelha, impedindo-o, assim, de se escapar.

– Vamos, Milorde – disse o Sr. Traypi. – Salta: para dentro da selha.

E ajudou o cão, segurando-o pela pele do pescoço. Milorde, dentro da selha, fez tais coisas, que

começou a borrifar toda a gente. Madalena e Margarida, que estavam mais perto, foram as mais atingidas; uma gargalhada geral acolheu esta proeza do

cachorro; o pai de Tiago também ficou muito molhado.

– Paciência – disse ele -, mudaremos de roupa;

agora aproveitemos o estar já molhados para lavarmos o Sr. Milorde o melhor possível.

Todos os pequenos, com efeito, tomaram parte

na obra, contribuindo para o suplício do cão; um

mergulhava-lhe o focinho, outro a cauda, outro ainda

atirava-lhe água às orelhas.

O pobre Milorde suportava aquilo tudo com ar

tristonho; de tempos a tempos lambia a mesma mão

que o cobria de água, como se pedisse compaixão.

– Pobre cão – disse Tiago. – Papá, deixa-o

sair, peço-lhe; faz-me pena.

O Sr. Traypi – Não, ele ainda não está tão

lavado como é preciso; deita-lhe mais água em vez

de o lamentares.

Margarida – Mas por que motivo lhe dá este

banho, se ele anda limpo?..

O Sr. Traypi – É para lhe matar as pulgas; anda

coberto delas.

Leão – Mas então a água mata as pulgas?

O Sr. Traypi – Mata-as quando tem em dissolução pó de aloés.

Leão – Não sabia.

joão – E empréga-se muito pó?

O Sr. Traypi -Não, cinquenta gramas por litro

de água.

Tiago – Pois eu, quando for crescido, hei-de

lavar os cavalos nesta água.

Toda a gente se pôs a rir.

O Sr. Traypi, a rir – Os cavalos não têm pulgas,

meu lorpinha.

Tiago, um tanto atrapalhado – Se não têm pulgas, têm moscas que os picam, e suponho que o aloés, assim como mata pulgas, também pode matar moscas.

O Sr. Traypi, sempre a rir – Isso não te posso dizer; nunca fiz a experiência. Estás a ver que não é muito fácil conseguir uma selha onde caiba um cavalo; e, mesmo quando a conseguíssemos, as moscas fugiriam e não se deixariam afogar!

Leão – De mais a mais, como é que se havia de conseguir que o cavalo entrasse na selha?

João – Eu é que não intentava consegui-lo. Entretanto, Milorde acabara o banho. Começaram a limpá-lo. Depois, deixaram-no ficar a secar-se ao sol; e em seguida, despejada a água da selha, toda a gente dispersou. Não se pensou mais em Milorde; os pequenos quiseram continuar a brincadeira com Biribi, mas este aproveitara a interrupção para desaparecer. No dia seguinte, o guarda veio dizer à Sr. de Fleurville que Biribi não fora ainda encontrado.

Tiago – Pobre Biribi! Onde estará ele?

A Sra de Fleurville – Foi, talvez, visitar alguns dos seus amigos, pelos arredores. Vai tu procurá- lo, Nicásio.

Nicásio – Sim, minha senhora! Já de manhã o procurei e perguntei por ele, mas ninguém o viu.

João – Se a tia dá licença, depois do almoço vamos procurá-lo pelas aldeias mais próximas, numa das quais é de esperar que se encontre.

Sr. de Fleurville – Claro que dou licença! Nicásio irá convosco; mas não basta que eu ache bem: deveis pedir autorização a vossos pais para que eles se não inquietem com a vossa ausência.

Sofia – É preciso levar qualquer coisa para a merenda.

Camila – Não pedimos de comer à Sra Marel ou ao senhor Abade.

Madalena – Em qualquer parte nos hão-de dar, pelo menos, pão e sidra.

Tiago – Há-de ser um excelente passeio.

Leão – Devemos partir logo depois do almoço,

para haver tempo.

joão – Não sem antes pedirmos licença aos

nossos pais.

Todos os pequenos, excepto Camila, Madalena e

Sofia, que tinham já autorização, foram ter com os

pais e pediram-lhes licença para dar aquele grande

passeio.

– Papá-disse Tiago, ao ouvido do Sr. Traypi-,

venha connosco: o passeio torna-se, dessa maneira,

mais agradável.

– Para ti, sim, mas não para os outros – respondeu o pai de Tiago, abraçando-o -, pois a minha

presença constrangê-los-ia.

Tiago – Oh! Como pode isso ser, se é tão bom?

O Sr. Traypi – Tem paciência, meu filho; preciso

de ir a três léguas daqui acompanhar o teu tio Rugés,

numa visita.

Tiago nada respondeu e foi-se embora a suspirar.

Gostava muito do pai, que era bondoso e lhe falava

claro, embora não o amimasse. Quando Tiago era

pequenito e fazia perrices, o pai punha-o num canto

e deixava-o gritar, depois de lhe dar duas ou três

surras; e, quando era imcorrecto com um colega ou

com um criado, obrigava-o a pedir desculpa. Se se

deixava seduzir pelas gulodices um dia, privava-o delas

no dia seguinte. Se desobedecia, mandava-o para

o quarto, e nem o pai nem a mãe o beijavam até que

pedisse desculpa. Deste modo, Tiago tornara-se uma

criança encantadora, sempre alegre, porque nunca lhe

ralhavam nem o castigavam; sempre afável, porque o

tinham habituado a pensar mais nos outros do que em si.

Gostava muito do pai e estimava a sua companhia,

mas o Sr. Traypi tinha ocupações que lhe não permitiam

fazer a vontade ao filho, e este; habituado a obedecer,

obedecia sempre sem aborrecimento ou tristeza. Juntou-se o pequeno aos companheiros e esperaram todos; impacientemente, o momento da partida.

Antes de iniciarem a excursão pediram ainda notícias do pobre Biribi; ninguém voltara a vê-lo. Partiram, acompanhados pelo guarda Nicásio, para Val, aldeola que ficava a um quarto de légua do castelo. Entraram em casa dos Relmot: mas só lá encontraram o irmão, meio idiota, que respondia sim e não a todas as perguntas.

Leão – Relmot, viste o nosso cão, o Biribi?

Relmot – Sim.

Leão – Quando o viste?

Relmot – Não.

Leão – Para onde o viste ir?

Relmot não respondeu e pôs-se a rir com ar estúpido.

Leão – Quando foi que o viste?

Nada. kelmot pôs-se a brincar com os dedos.

Leão – Anda, responde! Sabes onde está?

Relmot – Não.

Camila – Deixa o pobre rapaz, Leão! Vamos a casa dos Bernard.

joão – Os Bernard! Não gosto dessa gente.

Leão – Porquê?

João – Não me parece honesta.

Camila – Estás a dizer uma coisa sem fundamento.

João – Vi-os há dois anos, e também aqui há poucos dias, cortar as pontas dos pinheiros.

Madalena – Isso não me parece assim um crime.

Nicásio – Crime, não diremos, claro mas não é coisa para agradecer. Em primeiro lugar, porque o pinheiro lhes não pertence, e, demais, sabem muito bem que cortar a ponta do pinheiro é inutilizar a árvore, que depois só serve para o lume.

joão – E também Nicásio os apanhou a cortar árvores ainda tenras para fazer forcados e estacas:

Nicásio – Que vendiam no mercado da cidade. Estou informado disso.

Margarida – Seja como for, perguntemos por Biribi.

Tiagoo – claro! Não viemos nós por causa dele?

Os pequenos entraram em casa de Bernard, que estava a jantar com a mulher e os filhos.

– Bons dias, Bernard – disse Leão, delicadamentc- – Vimos perguntar-lhe se sabe alguma coisa do Biribi, que desapareceu esta manhã.

Bernard, com ar hostil – Como hei-de eu saber? Importo-me tanto com o vosso cão como com o vosso guarda!

– Olha, Bernard, não sejas malcriado com os meninos e as meninas. Falam-te com delicadeza, não falam? Responde tu do mesmo modo.

Bernard – Acaba lá com o sermão! Não gosto de conselhos; faço o que entendo e ninguém tem nada com isso.

Nicásio – Calas-te ou não? Insolente! Sem o respeito que devo aqui aos meus patrões, já te tinha feito engolir tudo o que disseste.

Bernard levanta-se e avança de punho fechado para Nicásio, que o olha, imóvel, com ar de zombaria.

Nicásio – Toca-me num só cabelo e verás!

Bernard recua, proferindo ameaças; os pequenos, receando uma cena, fogem precipitadamente, excepto João, que se coloca perto de Nicásio, brandindo um pau, e Tiago que, do outro lado, estende os punhos como para arremeter.

Leão – João! João! Anda daí. Não hás-de agora pegar à pancada com esse tipo.

joão – Não vou deixar o Nicásio sem auxílio.

Nicásio – Muito obrigado, meus meninos mas

tanto a coragem dos pequenos como a minha força contra este cavalheiro, cuja cobardia é ainda maior do que a maldade, não têm emprego. Ele já avaliou um dia o peso dos meus punhos. Bom, boas tardes

-concluiu Nicásio com ar zombeteiro, cumprimentando Bernard e a família. – Comam bem, não se

incomodem connosco.

E saiu com João e Tiago.

Nicásio – O que fizeram é, na verdade, próprio

de rapazes corajosos; porque, afinal, não podiam adivinhar que Bernard é um poltrão.

joão – Tiago é que foi corajoso; quanto a mim,

já sou bastante crescido para me defender.

Nicásio – Pois sim, mas outros nas mesmas condições fugiam, como fez o menino Leão, sem ofensa.

Mas caluda! Já chegamos ao pé deles.

Margarida – Então, resolveu-se tudo bem? O meu

Tiagozinho não ficou ferido?

Leão – Ferido? Essa é boa! Então tu julgaste

que iam pegar à pancada, a sério?

Margarida – E tu porque é que fugiste?

Leão – Eu? Eu não fugi, retirei-me para proteger as meninas.

Margarida – Bela protecção a tua! Corrias vinte

passos à nossa frente!

Leão – Era para vos indicar o caminho.

Margarida, a rir-É muito mais simples confessar que tiveste medo e fugiste.

Leão, indignado – Se fosses um rapaz e do meu

tamanho, verias o resultado das tuas piadinhas.

Margarida, a rir – Isso! Via mas era as tuas

costas e os tacões dos teus sapatos, porque és prudente; foges da guerra e amas a paz.

João e Tiago riam durante aquela discussão;

Camila e Madalena mostravam-se imquietas; Sofia

aplaudia com os olhos e com um sorriso; Nicásio

parecia encantado. Leão, vermelho de cólera, com

olhares de raiva, teria enchido Margarida de socos,

se pudesse. Camila desviou aquela perigosa conversa,

propondo que continuassem a pesquisa.

– Estamos a perder tempo – disse – e ainda

falta ir a tantos lugares e a tantas casas!

Continuaram a caminhada. Leão seguia um pouco

contrafeito, mas acabou por se pôr mais à vontade

e rir como os outros. Em parte alguma Biribi tinha

sido visto; várius campónios disseram que o cão fora,

talvez, morto por Bernard, que se queixava de ele lhe ir

aos coelhos e ameaçava estrangulá-lo da primeira vez

que o apanhasse.

Os pequenos só pelas seis horas regressaram,

fatigados mas contentes com o excelente passeio;

tinham merendado em casa do senhor Abade, que lhes

dera pão com manteiga, cerejas e licor.

– Bom; meninos que notícias trazem? – perguntaram os pais, que os esperavam na sala de estar.

– Nenhumas, minha mãe – respondeu Camila à

Sr. de Fleurville. – Disseram-nos que Bernard tinha

provàvelmente matado o cão, mas não é certo.

A Sr.a de Fleurville – Porque se lhe há-de atribuir tanta maldade?

Leão – Porque disse a várias pessoas que havia

de o fazer.

A Sra de Fleurville – Se ele quisesse matar o

cão, não o dizia.

Tiago – No entanto, tia, Nicásio admite essa

possibilidade, porque Biribi lhe andava a fazer namoro

aos coelhos e Bernard receava que ele lhos comesse.

A Sr.a de Fleurville – Se assim for, queixo-me

ao juiz de paz; esse Bernard anda sempre a fazer-me

partidas.

Mas nem por isso Biribi aparecia mais depressa;

procuraram-no ainda no dia seguinte; depois, deixaram de pensar nele.

No terceiro dia, após o desaparecimento do

cão, os pequenos, ao saírem de manhã cedo para

irem tomar o pequeno almoço a casa do feitor, avistaram, por entre as árvores, um grupo de pessoas reunidas em volta da lavandaria.

– Vamos ver o que é aquilo – disse Tiago.

– Sim, corramos – responderam os outros:

Aproximaram-se. Os do grupo afastaram-se para os deixarem passar, e as crianças viram o pobre Biribi, magro, firmando-se a custo nas patas dianteiras, a comer, àvidamente, uma terrina de sopa.

– Biribi! Biribi! – exclamaram as crianças. – Quem é que o encontrou? Onde estava ele?

-Na lavandaria-respondeu Martinho. -Pobre bicho, ficou ali fechado três dias!

Madalena – Mas como o fecharam?

Martinho – Foi quando estivemos a lavar o outro cão; Biribi entrou na lavandaria sem darmos por isso, e, ao sair, fechámos a porta, deixando-o lá ficar.

Camila – E quem teve a ideia de ir à lavandaria?

Martinho – Foram as criadas que, hoje, ao entrar, encontraram o pobre cão caído junto da porta; nãó se podia mexer. As mulheres chamaram-me; eu que, felizmente, estava perto, vim logo e percebi imediatamente que o pobre Biribi não tinha raiva, mas sim fome e sede. Mandei buscar uma terrina de sopa entretanto, dei-lhe de beber.

– Como está magro – disse Sofia.

– E como parece ter enfraquecido – replicou Tiago.

Martinho – A sopa põe-no fino, vão ver. Dorme uma boa soneca e depois nem parece o mesmo.

Assim foi; logo que Biribi comeu a sopa, levantou-se, foi para a sua barraca, caminhando com dificuldade, enroscou-se e adormeceu.

Ao acordar comeu outra terrina de sopa e logo pareceu restaurar as forças e ficar alegre. Os pequenos foram contar aos pais a aventura de Biribi e falaram dela durante parte do dia. Foi a partir de então que a Sr.ag de Fleurville ordenou que, quando fechassem a lavandaria, olhassem sempre, com cuidado, antes de o fazer. Biribi, esse, nem se atrevia agora a aproximar-se da porta. Uma noite, apesar das precauções, ficou lá fechado um gato. Quando abriram a porta na manhã seguinte, o gato saiu lá de dentro

com tal precipitação, que o Martinho, por momentos, julgou que que fosse o Demónio em pessoa; o bichano era preto, e Martinho nada mais vira que dois olhos fosforescentes. Ao voltar-se reconheceu o gato do caseiro e riu, com as crianças, do seu engano.

 

ENCONTRO INESPERADO

-Gosto muito da floresta onde se encontra o moinho – disse um dia Leão às meninas.

– Pois eu não – respondeu Sofia

joão – Mas porquê? Se é tão bonita…

Sofia – Acontecem ali sempre desgraças. Não gosto nada de lá ir.

Leão – Não vejo que desgraça lá tenha acontecido! É um bom sítio para brincar.

Sofia – Sim, tu brincas; mas olha que eu não achei nada bom ter caído dentro da árvore oca.

Leão – A culpa foi tua!

Sofia – Não digo que não; apesar disso não gostei da brincadeira.

Leão – Mas então sentias-te assim aflita naquele tronco?

Sofia, impacientt – Que pergunta! Já te disse que me sentia asfixiada! Não vês que eu estava no fundo do tronco, com o corpo entalado?

Leão – Ora! Se fosse eu, tinha-me livrado sem dificuldade.

Sofia – Ai, sim? Gostava de te ver.

Leão – Podes crer que não precisava do auxílio de ninguEm.

joão, com ironia – Isso é prosápia, meu velho.

Tiago – Pode experimentar-se, nada mais fácil. Vamos à floresta, o Leão sobe para o tronco, deixa-se

cair, e, como não precisa do nosso auxilio, trata de se pôr cá fora sòzinho. Queres?

Leão, embaraÇado – Fá-lo-ia sem dúvida alguma… se.

Tiago, rindo -Se… quê?

Leão – Se não fosse o atemorizar as meninas, que poderiam supor. recear.

Tiago – Recear quê? Desde que és tão corajoso.

Leão – E porque não vais tu, que me aconselhas a proeza?

TIago – Eu não vou, porque vejo perigo nisso, e não por medo.

Leão, irónico – Medo, tu que fazes sempre de corajoso? Tu que sempre te atiras para o meio de perigos imexistentes, procurando obter a reputação de um Gérard-Caçador-de-Leões? Tu tères medo, tu, Tiago o temerário, o guerreiro?

joão – A mim não me admira; precisamente porque ele possui a verdadeira coragem, que o leva a socorrer os outros nos perigos e não a mostrar bravata.

LEão – Hei-de provar-vos que sou mais corajoso que Tiago. Vamos à floresta, deixar-me-ei cair no tronco oco. Só quero pedir licença ao pai.

joão – Ah! Ah! Essa é boa! É uma maneira de te saíres bem deste embaraço, porque sabes que o pai não dá autorização.

Leão – Dá, se pensar, como eu, que não há perigo algum. Vão ver.

Leão, seguido dos outros, foi ao quarto do pai, que encontrou a falar com o Sr. Traypi. Estavam a rir quando perguntaram a Leão o que queria:

– Pai, venho pedir-lhe licença para ir à floresta do moinho com as minhas primas.

O Sr. Rugés – Para quê?

Leão – Para me meter no tronco oco daquela árvore onde Sofia pretende ter estado outro dia quase a morrer abafada.

O Sr. Rugés, a sorrir – Não receias entrar no tronco e não poderes voltar a sair?

Leão – Não, pai. no entanto, se o pai não dá licença.

O Sr. Rugés – Dou, dou, podes ir; só te recomendo prudência.

Leão, inquieto – Se o pai receia o mínimo acidente; desisto dos meus propósitos; não quero dar-lhe um desgosto. Direi às primas, ao João e àquele trocista do Tiago que o pai não acha a aventura sensata.

O Sr. Rugés – Não, não, faz a experiência, acho bem. Eu próprio os acompanharei para assistir

ao teu corajoso acto… acto de coragem inútil, é certo, mas que, enfim, fará calar as línguas viperinas que te acusam de falar de audácia.

LEão, abatzdo – Pai, agradeço-lhe… claro que vou. eu não tenho. medo. tenho desejo de lhes mostrar. que. não há. perigo nenhum. Mas talvez a mãe não fique… contente… quando souber.

O Sr. Rugés, impaciente-Ora adeus! meu rapaz! para quê licença da tua mãe desde que eu te autorizo? Vamos, vamos embora. E tu, Traypi, vens connosco? O irmão, sorrindo, acedeu a acompanhá-los.

– Meu tio – disse Camila ao Sr. Rugés -, não acha imprudente levar isto por diante?

O Sr. Rugés – Querida sobrinha! o teu tio e eu ouvimos toda a vossa conversa; para castigar Leão pelas suas bravatas de cobardia é que eu o incito a este acto de coragem; mas nem ele o levará por diante, nem eu o permitiria. Será bastante castigo o medo que sentirá durante a caminhada. Aí vem ele, foi buscar o chapéu: repara na sua palidez.

Os pequenos, perante a atitude do Sr. Rogés, nanifestaram grande inquietação.

Camila – Oh meu tio, faz-me tanta pena; pobre rapaz! Como treme a descer as escadas: Deixe-me tranquilizá-lo com duas palavras.

O SR Rugés -Não, Camila, quero dar-lhe esta lição, pois precisa muito dela. Só te permito que tranquilizes os outros vossos companheiros: Dize-Lhes que Leão não corre perigo algum.

Tinham começado a caminhar muito tristemente, apreensivos pelo perigo que ia correr Leão, e espantados de que o Sr. Rugés tomasse parte naquilo.

Camila andou a falar com um e com outro; à medida que lhes falava, desvanecia-se a tristeza das crianças; cochichavam e riam. olhavam Leão com ar malicioso. Este, que não suspeitava do que havia, julgando caminhar para a morte, ia-se deixando ficar para trás; seguia tristemente, de cabeça baixa e rosto pálido; respondia por monossílabos aos irónicos cumprimentos com que o saudavam pela sua coragem. Quando de longe avistou o velho carvalho que, segundo julgava, ia servir-lhe de túmulo, o terror aumentou, e, não sendo já capaz de simular uma coragem que não possuía, escapou-se, fugindo por um caminho lateral, enquanto os outros continuavam a marcha.

O Sr. Rugés vira o estratagema de Leão e fê-lo notar em voz baixa ao Sr. Traypi.

E que se há-de fazer agora? Não sei como havemos de sair desta dificuldade.

O Sr. Traipy – Finge procurá-lo; quando o encontrares, censura-lhe a sua cobardia; e, quando o convenceres a subir à árvore, eu intervenho.

Chenaram ao pé da árvore e os pequenos começaram a notar o desaparecimento de Leão, quando se ouviu um grito de terror. Os Srs. Rugés e Traypi iam correr na direcção do grito, quando viram Leão sair da mata a chamar por socorro e seguido de um homem pobremente vestido, com um pau na mão.

O homem, ao vê-los, dirigiu- se para eles e cumprimentou-os, tirando o seu velho chapéu.

– Que foi? – disse o Sr. Rugés. – Quem é o senhor? Que aconteceu a meu filho?

O Homem – Não posso explicar-Lhe por que motivo o menino ficou tão assustado. O que sei é que eu ia para a aldeia de Fleurville; como estava cansado, adormeci à sombra de uma árvore; ao acordar, vi, perto de mim, este menino aninhado por detrás de uma moita; não me via nem tão-pouco viu aproximar-se dele uma grande víbora que estava quase a tocar-Lhe num pé. Não tinha tempo de o avisar: ao

mais pequeno movimento, a víbora tê-lo-ia picado; não disse palavra: dei um salto, levantei o menino nos braços e pu-lo no atalho; ele soltou um grito como se tivesse sido agarrado pelo Diabo, e correu como se o próprio Diabo o perseguisse. O Sr. Rugés logo percebeu que o filho, -já muito abatido pela comoção, nem pudera resistir ao terror que lhe causara o brusco contacto de um desconhecido que tomara por ladrão.

Enquanto o pai e o tio o envergonhavam pela sua conduta, as crianças examinavam o desconhecido.

Desde que ele aparecera, Sofia olhava-o com surpresa mesclada de comoção; tentava recordar-se.

parecia-Lhe ter já visto algures aquele rosto queimado do Sol, aquela face simpática e bondosa; parecia-lhe não ser a primeira vez que ouvia aquela voz. O homem,

por seu turno, depois de ter olhado sucessivamente todas as crianças, detivera o olhar em Sofia; o espanto

pintou-se no seu rosto e deu lugar à comoção.

– Menina – disse ele, com voz trémula -, desculpe; a menina não se chama Sofia de Réan? – Sim – respondeu Sofia -, é esse o meu nome; sou Sofia. Creio que também o reconheço – acrescentou ela, passando a mão pela fronte… Mas há tanto. tempo. O senhor não é o Normando – perguntou ela, com vivacidade. – Sim, lembro- me… do Normando.

– O Homem – Sou eu, sou eu, menina. E como é que a menina escapou do naufrágio? Julguei que tivesse

morrido com o seu pai!

SofiA, comovida-O meu pai salvou-me, já nem sei como foi. Também desconheço o destino de meu primo Paulo, que ficara junto do capitão.

O Homem – Oh menina Réan, como me sinto contente por voltar a vê-la! Quem havia de dizer que a querida Sofiazinha, que eu julgava no fundo do mar, estava cheia de vida e saúde na minha querida Normandia!

Os pequenos ficaram admirados por verem que Sofia e o homem já se conheciam. Nenhum deles sabia a história do naufrágio. Também não compreendiam por que motivo o homem lhe chamava menina Réan. Só lhe conheciam o nome de Fichini.

Leão, muito envergonhado com o que se dera, ficou satisfeitíssimo ao ver a atenção geral concentrar- se em Sofia e no desconhecido. Sofia contínuou a interrogar aquele que ela chamava Normando.

Sofia – Então não me diz o que aconteceu a Paulo? Morreu no naufrágio?

O Hómem – Não, menina. Quando o comandante viu que os escaleres se tinham afastado, que muita gente desaparecera nas águas, e que já não havia ninguém a bordo, ralhou-me por não me ter salvo com os outros. Eu respondi-lhe que não abandonaria o meu comandante nem o meu navio. Apertou-me a mão e olhou com ar carinhoso o vosso primo, que chorava baixinho, agarrado a ele. Trataremos agora de nós, meu Normando – disse-me: Temos de sair daqui; o barco não se aguenta uma hora. Resolvemos o que havia a fazer e, dentro de dez minutos, tínhamos uma jangada. pusemos nela o que se pôde apanhar de provisões: biscoitos, água potável; o comandante levou a bússola e atou um machado à cinta. Lançámos a jangada à água. O comandante saltou com Paulo nos braços; eu cortei a corda que nos ligava ao navio prestes a soçobrar. Não me tinham esquecido os remos, e por isso logo tratei de afastar a jangada. O comandante limpou uma lágrima que lhe brilhava nos olhos desde que saíra do navio.

Olhou em volta: cá em baixo nada se via, chegava-nos apenas o rugido do mar; no alto brilhavam as estrelas; ele examinou-as e mostrou-se satisfeito. Não estamos longe de terra – disse. – Rema bem, meu normando, mas não de maneira que te fatigues. Q, Quando te cansares, tomo eu o teu lugar.

Sofia – Mas que fazia e dizia entretanto o meu querido Paulo?

O HomEM – para lhe dizer a verdade, não sei lá muito bem. Suponho que não deixou de chorar. O comandante fazia-lhe festas, procurava tranquilizá-lo, dizia-lhe que nunca o abandonaria, que dormisse: Eu remava sempre, revezando-me com o comandante, e tão bem remámos, que ao despontar do dia, o ouvi gritar Terra! Pus-me em pé de um pulo e vi que nos aproximávamos do que me pareceu ser uma ilha. Acostámos e achámo-nos, depois de desembarcar, num belo país verdejante e coberto de flores. Foi assim que

Deus nos salvou.

SOfia – Mas então Paulo não morreu? Onde está? Que é feito dele?

O HoMEM – Não lho posso dizer, minha rica menina. Os selvagens apanharam-nos. Mais tarde separaram-nos, levando o comandante e o Paulinho para. um lado e a mim para outro. Quando consegui escapar, procurei o meu bom comandante, mas sem resultado. Não sei o que aqueles diabos de peles-vermelhas fizeram dele.

Eu, depois de lhes fugir, vivi quatro anos na floresta, e fui finalmente recolhido por um navio inglês. Mas os malditos andaram comigo aos tombos seis meses antes de me desembarcarem no Havre; donde voltei à minha terra sem demora para procurar a mulher e a filha que cá deixei.

– Pobre Paulo – disse Sofia, limpando os olhos. Os Srs. Rugés e Traypi tinham prestado grande atenção à curta narrativa do Normando. Enquanto lhe pediam pormenores sobre as suas aventuras, as crianças cercaram Sofia.

Margarida – Então já estiveste num naufrágio?

Madalena – A tua mãe e o teu pai afogaram-se?

E como é que tu te salvaste?

Tiago – Quem é esse Paulo de quem falaram?

Camila – É extraordinário nunca nos teres dito nada!

Leão – Porque é que este homem te chama menina Réan?

joão – Não supunha que tivesses sido tão desgraÇada, minha pobre Sofia!

Falavam todos ao mesmo tempo; Sofia tinha

dificuldade em responder-lhes.

Sofia – Sim, sofri muito. Nunca falei nisto, porque meu pai e a minha madrasta me tinham proibido de lembrar o passado. Acabei por não pensar nele

e esqueci-o. Quando tudo aquilo aconteceu, ainda não

tinha quatro anos.

LeÃo – Hás-de contar-nos tudo, sim, Sofia? Deve

ser muito interessante.

joão – Não deves contar, não contes, minha

pobre Sofia; evocar esses tristes momentos seria doloroso para ti.

– Olha, João; já lá vai tanto tempo, que

posso falar nisso sem tristeza. Ir-vos-ei contando tudo

de que me lembrar.

joão – Porque é que o Normando te chama menina Réan?

Sofia – Esse era o meu nome de baptismo:

Margarida – E porque mudaste depois de nome?

Camila – Espera! Eu recordo-me de que, quando

éramos pequenitas e íamos a tua casa, os teus pais se

chamavam os Srs. Réan; recordo ainda vagamente

os teus tios d’Aubert e um pequenino, como nós, Oaulo

d’Auben, teu primo.

Sofia – Isso mesmo e, depois de estar sem vos ver três anos, voltei com a minha madrasta, a Sra Fichini, e encontrei Margarida, que não conhecia e que habitava convosco.

Tiago – Mas porque – usas tu agora o nome de Fichini?

Sofia – Não sei bem. suponho que o pai foi à América ver um amigo de infância, o Sr. Fichini, que lhe deixou uma fortuna com a condição de ele usar o seu nome.

Tiago – Fichini é um nome feio; acho Réan mais bonito.

Sofia – Mas que será feito do meu pobre Paulo? Pelo que diz o Normando, é possível que viva ainda.

Leão -Não é possível cinco anos depois. joão – Como? Então o Normando não voltou? Leão – O Normando não é nenhuma criança. joão – Mas Paulo estava junto do comandante. LEão – É provável que os selvagens o comessem. Sofia soltou um grito de horror.

– Cala-te, Leão – disse João, zangado. – Pareces procurar motivos para afligires ainda mais a pobre Sofia:

Leão, melindrado – Então agora também não se pode falar?

joão – Para só se dizerem coisas desagradáveis é melhor estar calado.

Sofia chorava; Tiago abraçava-a, deitando a Leão olhares furiosos. Camila, Madalena, Margarida e João consolavam e tranquilizavam Sofia o melhor que podiam, olhando para Leão com ar de censura.

Acabaram por fazê-la acreditar que o primo vivia e voltaría breve. Leão arrependera-se já do que dissera, mas não queria dá-lo a perceber.

– Meninos – disse o Sr. Rugés, aproximando-ee, muito comovido-, voltemos para casa. Não falem à Sr.a de Rosbourg no encontro que tivemos. Eu prepará-la-ei para receber a visita deste homem.

Camila – Porquê, meu tio? Este senhor conhece-a?

O Sr. Traypi – Este senhor é Lecomte, tripulante da Sybilla, que o Sr. de Rosbourg comandava.

– O meu pobre pai – exclamou Margarida.

Deixem-me falar-Lhe, deixem-me pedir-lhe notícias do

meu pai.

Normando aproximou-se, a um sinal do

Sr. Traypi.

– Aqui está – disse este – a filhinha do seu

comandante.

– A filha do meu comandante, do meu querido,

do meu venerado comandante – exclamou o Normando.

E, agarrando Margarida nos braços, deu-lhe três

ou quatro sonoros e afectuosos beijos.

– Desculpe, menina – disse ele, pondo-a no chão.

-A gente faz isto sem pensar; não mo leve a mal.

Meu pobre comandante, Quanto daria ele para estar no

meu lugar!

– Então o senhor era assim amigo de meu pai?

– perguntou Margarida, limpando as lágrimas.

como? – Se era amigo? Amigo! Ah! menina,

eu era capaz de dar o meu sangue, a minha vida por

ele. E pensar que Deus o tinha salvo e que se não

fossem aqueles malditos selvagens..

-O Sr. Rugés disse há momentos que o seu

nome era Lecomt – continuou Margarida-e o senhor

mesmo disse que andava à procura da sua mulher

e da sua filha. A sua filha não se chama Lúcia?

Lecomte – Sim, menina chama-se Lúcia e deve

ter agora os seus catorze ou quinze anos. A menina

naturalmente não a conhece nem à mãe.

Madalena – Conhecemo-las muito bem. Moram

aqui, na aldeia. Vivem na casa branca.

Ao ouvir esta informação inesperada, o Normando

ficou louco de alegria. Pôs-se a correr, chamando a

mulher e a filha; depois, lembrando-se de que não

conhecia o caminho da aldeia, voltou, ajoelhou-se no

chão, fez o sinal-da-cruz, precipitou-se para Margarida, que beijou mais uma vez, apertou, as mãos de Sofia até a magoar e suplicou, finalmente, que o levassem a casa da mulher e da filha.

– Meu bom Lecomte, calma – disse-lhe o Sr. Rugés. – Se chega junto de sua esposa e da pequena sem estarem preparadas, pode matá-las. Lembre-se de que se trata duma ausência de cinco anos, de que o consideram morto e de que é preciso habituá-las, com cuidado, à ideia da sua volta.

Lecomte – Tem razão, senhor, tem muita razão! Já não sei o que digo, nem o que faço! Que felicidade! Que felicidade a minha! Como Deus é misericordioso e como recompensou a minha confiança! Peço-Lhe, há cinco anos, todas as manhãs e todas as noites, que me permita tornar a ver minha mulher e minha filha. E eis que, num dia apenas, não só me é dado voltar a vê-las, como encontro a filha do meu querido comandante e esta feliz menina Réan. Então, vamos? Compreendem, não é verdade? Quando se esteve cinco anos a pedir a Deus que nos desse a alegria de tornar a ver os que amamos, não pode a gente estar calma ao sabê-los tão perto de nós. Seria capaz de andar seis léguas por hora para os ver mais depressa.

– Vamos – responderam os Srs. Rugés e Traypi e todos os pequenos.

Caminharam os mais novinhos tão depressa quanto podiam. Normando, ao ver Margarida ficar para trás, pegou nela ao colo e levou-a assim até à entrada da aldeia.

Camila e Madalena contaram aos primos, pelo caminho, como é que nesta enorme floresta do moinho haviam encontrado uma rapariguinha em extrema aflição, contando que tinha a mãe doente e a morrer de fome; fora a Sr.a de Rosbourg que as socorrera e Lhes dera para habitação a casa branca da aldeia, ao saber que o marido desta mulher, chamado Lecomte, era tripulante do navio do Sr. de Rosbourg. Lúcia, excelente menina, trabalhava para ajudar. a mãe, tão enfraquecida pelos desgostos, que não podia realizar qualquer trabalho seguido: fiava e ficava em casa, enquanto Lúcia trabalhava a dias.

Quando chegaram à entrada da aldeia, a cem passos da casa branca, os Srs. Rugés e Traypi obrigaram Leccomte a esperar ali, com os pequenos, ao passo que eles iam preparar a Sr.a Lecomte para receber o marido.

Lecomte esperava, ansioso, a volta daqueles senhores e mal respondia às perguntas dos pequenos, quando uma rapariguinha de catorze ou quimze anos chgeou junto deles; vinha a pequena por um caminho diferente do que eles tinham seguido.

– Lúcia! – exclamou Margarida.

– Lúcia? Que Lúcia? – perguntou em voz baixa e trémula o pobre Lecomte, que julgava reconhecer a filha e cujo rosto empalidecera de modo impressionante.

– Bons dias, minhas meninas e meus meninos – disse Lúcia, cumprimentando-os, com olhar surpreendidu. – Mas, meu Deus, que têm? Aconteceu alguma desgraça? Vejo-lhes um ar que mete medo!

Camiila foi a primeira a recobrar a serenidade:

– Não, Lúcia, não aconteceu nada, sossega!

– Mas porque estão sem dizer nada, com ar tão esquisitu? (olhando Lecomte. ) Ah! um desconhecido. Talvez ele queira um copo de sidra e um pedaço de pão. Será por isso que os meninos estão assim preocupados?

– Lúcia – exelamou Lecomte com voz estrangulada.Lllt C 1.

Lúcia estremeceu; olhou, surpreendida; corou e empalideceu.

– Não – disse ela -, É impossível… Parece que o reconheço. Mas não, não… Como havia de ser? E se fosse?

– Teu pai – exclamou ele, correndo para ela e tomandu-a nos braços.

– Meu pai! meu pai! – repetiu Lúcia, agarrando-se-lhe ao pescoço. – O meu pai, que alegria! que felicidade! Meu pai, meu querido pai!

Lúcia derramava lágrimas de felicidade; Lecomte chorava, cobrindo a filha de beijos. As crianças contemplavam a cena, enternecidas: Lecomte não se fatigava de olhar e beijar a filha, que seis anos de ausência lhe tinham tornado mais querida ainda. Crescera e estava mais bonita, mas ele achava que o rosto dela não mudara.

– Ter-te-ia reconhecido entre mil – disse. – E a mim, como pudeste tu reconhecer-me?

Lúcia – Meu bom pai, olhe que não mudou muito E depois eu pensei tanto e tantas vezes em si Sempre como se tivesse partido na véspera!

De repente, lembrando-se da mãe:

– Ah pobre mãezinha. Ora aqui está como a esqueço, na alegria de o tornar a ver! Vou a correr comunicar-lhe.

E Lúcia ia deitar a correr para a casinha branca, quando o pai, agarrando-a, pronunciou:

– Matá-la-ias ao dizer-lhe, sem mais preâmbulos, que voltei. Já lá estão dois senhores a prepará-la; vai ter com eles e ajuda-os a preparar a tua mãezinha. Vai.

Lúcia prometeu ao pai dizer as coisas com jeito; e, correndo muito depressa para casa, entrou tão ofegante, com aspecto de tão radiosa alegria, que a mãe a encarou, surpreendida.

– Mãe, querida mãe – exclamou Lúcia, abraçando-a. – Como me sinto contente, feliz!

– Contente? Feliz? Mas que aconteceu? -E olhou inquieta para Lúcia, que não reteve as lágrimas, e, depois, para os Srs. Rugés e Traypi. – Feliz e estás

a chorar? E estes senhores que me falavam há instantes de felicidade merecida. de um regresso. AhA começo

a compreender! HÁ notícias. notícias de teu pai.

Lúcia não respondia; abraçava a mãe, rindo e chorando ao mesmo tempo.

A Sr. Lecomte – Mas responde, responde, anda. Senhores, por piedade, expliquem-me. Lúcia, fala. O teu pai?

– Está junto de ti, minha mulher, minha Francisca – exclamou Lecomte, que seguira Lúcia.

Tinha-se aproximado da porta que ficara aberta, ouvira tudo, e, não se podendo conter mais, correra para a mulher, quando a supôs bem preparada para o ver. Tomou-a nos braços, soltando um grito ao vê-la pálida e inanimada.

– Matei-a, matei-a! – gritava. – Sou um estúpido! Bem podia ter esperado mais uns instantes. Mas custa muito! Saber que temos um ser querido a dois passos e, depois de seis anos de ausência, não o podermos abraçar, é superior às nossas forças! Minha Francisca, minha querida mulher, volta a ti; olha para mim; fala. Sou eu, o teu homem.

Lúcia dava vinagre a cheirar à mãe; o Sr. Rugés mandou-a estender no chão, e deitou-lhe algumas gotas de água no rosto. Lecomte, de joelhos, perto dela, segurava-lhe a cabeça nas mãos; Lúcia, ajoelhada, do outro lado, esfregava as fontes da mãe e molhava-Lhe os lábios com vinagre.

Instantes depois, Francisca abriu os olhos, fitou Lúcia, sorriu-lhe e, sentindo que a amparavam do lado oposto, voltou a cabeça, olhou para o marido e, fazendo esforços por se erguer, deitou-se-Lhe ao pescoço e começou a soluçar.

– Já chora! passou o perigo – disse o Sr. Rugés.

-Nada mais temos a fazer aqui. Não perturbemos esta felicidade: ser- lhes-ia incómoda a presença de estranhos.

E, sem se despedirem, saíram da casa branca, fechando a porta atrás de si e levando os pequenos que se tinham reunido no patamar para assistir à cena.

Pouco falaram; sentiam-se todos comovidos com

o espectáculo de felicidade que lhes fora dado contemplar. Todos aqueles acontecimentos inesperados

tinham impressionado as crianças profundamente.

O encontro com Lecomte quase fizera esquecer a prosápia e o medo de Leão. Sofia procurava evocar as

suas antigas e já desvanecidas recordações para as

contar aos amigos. O naufrágio, a morte da mãe,

do tio, da tia e do primo, a quem ela amava como se

Fosse um irmão, os perigos que correra, o segundo

casamento do pai, seguido de perto pela morte deste

último protector da sua infância abandonada, os maus

tratos da madrasta – todos esses acontecimentos se

lhe representavam tão vivamente na memória, que ela

não podia agora compreender como lhe fora possível

esquecê-los e não sentir, como agora, necessidade de

aliviar o coração, contando-os aos outros.

Perto do castelo, os Srs. Rugés e Traypi recomendaram às crianças que não falassem à Sr.a de Rosbourg no regresso de Lecomte, antes que eles mesmos o fizessem.

– É muito possível – disse o Sr. Traypi – que

o Sr. de Rosbourg e Paulo tenham conseguido escapar,

como aconteceu a Lecomte. Pelo que este me contou,

os selvagens que os aprisionaram não são ferozes.

Se se apoderam dos europeus não é para lhes fazerem

mal, mas ùnicamente para obterem, em convívio com

eles, conhecimentos que podem ser-Lhes úteis.

As crianças prometeram nada dizer que pudesse

entristecer ou perturbar a Sr.a de Rosbourg, e assim

entraram no castelo: Leão muito satisfeito por ter

escapado às censuras do pai, os outros muito preocupados com tudo o que poderia ocasionar o regresso

de Lecomte.

 

VI

O NAUfRÁGIO DE SOFIA

Quando os meninos se encontraram sós, pediram a Sofia a narrativa do naufrágio.

– Vamos para a nossa barraca – disse Tiago.

– Estaremos lá muito à vontade, sem que a Sra de Rosbourg nos possa ouvir.

Os pequenus acharam a ideia excelente e correram para o jardinzinho. Tiago, que correra mais do que os outros, esperava-os à porta da sua casinha; todos se sentaram o melhor que puderam, uns em cadeiras e tamboretes, outros na mesa e até no chão. Para Sofia tinha sido reservado o melhor lugar, numa velha poltrona. Ela começou a sua história no meio de grande silêncio.

– Eu era muito pequenita, tinha menos de quatro anos, e tudo me esquecera; mas, tentando recordar-me, lembrei-me de muitas coisas, e, entre outras, da visita de despedida que vos fiz com o meu primo Paulo, minha mãe e a tia d’Aubert.

Camila – Teu pai tinha partido antes, se bem me recordo.

SoFIA – Esperava-nos em Paris. Eu sentia-me contente por partir. A mãe anunciara-nos uma viagem por mar. Era a primeira vez que via o mar na minha vida. Também gostava muito de Paulo e não queria separar- me dele. Não me recordo do que fizemos em Paris; creio que poucos dias nos demorámos por lá. Depois fizemos uma viagem de comboio. Pernoitámos numa hospedaria, em Ruão, e chegámos, no dia seguinte, a uma grande cidade onde notei haver muitos macacos e papagaios. Pedi à mãe que me comprasse um, mas ela não me fez a vontade.

Já não me recordo do que aconteceu no barco; só me lembro do capitão, excelente homem, que era, segundo parece, o teu pai, Margarida; muito bondoso foi para mim e para Paulo; dizia que gostava imenso de nós, que devíamos ficar com ele, pois nos serviria de pai. Havia também aquele marinheiro que reconheci e que se chamava Normando. A viagem durou nuito tempo. Quando chovia, tornava-se aborrecidíssima, porque éramos obrigados a ficar nos camarotes estreitos e abafados; mas quando estava bom tempo íamos passear para a ponte.

MargarIda – Que ponte? Então nesse navio havia uma ponte?

Sofia – Claro que não se trata de uma ponte como as que se fazem para atravessar os rios. É a parte mais alta do navio que se chama a ponte, onde vai o capitão e o homem do leme.

Margarida – E não se corre perigo de cair ao mar?

SOfia – Não, há uma espécie de varandim à volta. Toda a gente andava desassossegada; nem o capitão nem o Normando prestavam atenção a mim e ao Paulo. de repente ouvi enorme estrondo, e houve, ao mesmo tempo, tão violento abalo no navio, que caímos todos de costas. Comecei a ouvir gritos; passava gente a correr, outros deitavam-se de joelhos. O meu pai e o meu tio correram para a ponte, a mãe e a minha tia seguiram-nos. Com medo de ficarmos sós, eu e o meu primo subimos também. Paulo, logo que viu o capitão, agarrou-se-Lhe ao casaco: lembro-me de que este, muito agitado, dava ordens rápidas. Ouvi então:

Escaleres ao mar! O capitão olhou-nos, agarrou-me,

beijou-me e disse: Vai, pequenita, vai com a tua mãe! Depois beijou Paulo, para se despedir assim, mas o meu primo não o largava: Quero ficar consigo- gritava. -Deixe-me ficar consigo.

Não sei como foi. Lembro-me de que o meu pai

me tomou nos braços e gritou: Alto! alto! já a encontrei! já a encontrei! E corria pelo convés fora. Quis saltar comigo para um escaler onde estavam minha mãe e meus tios, mas não chegou a tempo; o escaler afastava-se. Eu gritava: Mãezinha, mãezinha, não vás sem nós Meu pai olhava sem proferir palavra. Ficara tão pálido, que metia medo; e nunca mais a palidez desse instante o abandonou. Oiço ainda os gritos da minha mãe e da tia d’Aubert quando o barquito se afastou Sofia! Paulo! meu filho! meu marido! Mas não os ouvi por muito tempo: veio sobre eles uma vaga altíssima. Ouvi um grito horrível e nada mais se distinguiu. Minha mãe desaparecera e todos os seus companheiros com ela. Durante a noite passada avivaram-se todos os pormenores da cena, alguns dos quais esquecera.

joão – Pobre Sofia! Como pudeste salvar-te? Sofia- Já me lembro bem do que se passou nesse momento. O meu pai esteve a falar em voz baixa com o capitão, e este disse-Lhe: Juro-lho Beijaram ambos Paulo, e depois o Normando ajudou meu pai a descer comigo para dentro de uma enorme caixa que estava na água, junto ao navio. Eu chamava Paulo e chorava: vi-o lá em cima a chorar também, nos braços do capitão, que o beijava. Depois as vagas afastaram-nos. Adormeci e não me lembro do que aconteceu. Mleu pai dava-me água de um barril e biscoitos; eu sentia um sono invencível. Quando, por momentos, acordava, via meu pai junto de mim a chorar, ou triste e pálido, sem proferir palavra. Um dia, não sei como, encontrei-me noutro navio. Meu pai adoecera; eu aborrecia- me, sentindo-me triste por não ver a minha mãe nem o meu querido Paulo; em outra altura, meu pai disse-me que o meu primo, o capitão e o Normando tinham morrido afogados no navio, que esbarrara contra algum rochedo. Mas pelo que ouvimos ao Normando. espero que o Paulo e o bondoso capitão se tenham salvo como nós nos salvámos.

Sofia chorava ao terininar a história do naufrágio; os seus amigos choravam também.

LeÃo – Mas isso tudo não explica por que motivo usas o nome de Fichini em vez de Réan.

Sofia – Esqueci muitas coisas, porque o meu pai me proibiu que Lhe falasse no naufrágio e na morte da minha mãe; assim como não me permitia qualquer pergunta sobre o casamento com minha madrasta. Mas, ao tentar recordar-me, eis como reconstituí esse momento da minha vida: Quando chegámos à América, para onde nos dirigíamos, estivemos em casa de um amigo de meu pai, o Sr. Fichini, que morrera; e ouvi então falar de um testamento pelo qual aquele senhor deixava a meu pai e a minha tia toda a sua fortuna, com a condição de que usassem o seu nome e dessem a sua protecção a uma órfã que o Sr. Fichini recolhera. Meu pai continuava tão triste, que se preocupava pouco comigo. A órfã, que se chamava Fédora, tratara de meu pai e manifestava por mim grande estima. Algum tempo depois, meu pai casou com ela, e logo ela mudou completamente. Zangava-se com meu pai, que a olhava com ar triste e a deixava. Comigo, também, mudara por completo. ralhava-me e batia-me. Um dia, fugi para junto de meu pai com os braços, o pescoço e as costas vermelhos das vergastadas que me dera. Nunca esquecerei a cara de meu pai, quando lhe disse que minha madrasta me batera. Vi-o saltar da cadeira, pegar num chicote, ir ter com ela, agarrá-la por um braço, deitá-la ao chão, e dar-lhe tantas chicotadas, que ela mais uivava do que gritava. Em vão a minha madrasta tentava escapar-se; ele segurava-a de tal maneira com uma das mãos, enquanto com a outra lhe batia, que ela não o conseguiu. Quando a deixou

levantar-se, tinha um aspecto de tanta maldade, que me encheu de medo:

– Todas as pancadas que me deu, hei-de eu dá-las na sua filha.

– De cada vez que se atreva a tocar-lhe para a maltratar – respondeu meu pai -, chicoteá-la-ei como hoj e, senhora.

Saiu, levando-me consigo. No seu quarto, pegou em mim ao colo, cobriu-me de beijos, chorou muito e repetiu-me umas poucas de vezes: Perdoa, filha, minha pobre Sofia, o ter-te dado uma mulher destas por mãe! Oh! Perdoa-me! eu julgava-a bondosa e carinhosa; supunha que te tornaria feliz, que te amaria como te amava a tua pobre mãezinha. Ela dizia-me isso mesmo. E porque acreditei eu? Foi porque me sentia muito doente e não queria deixar-te neste mundo sem teres ninguém. E de novo me beijava e chorava. Eu chorava também; ele limpou-me as lágrimas, beijando-me, e prometeu levar-me para casa de uma das suas amigas, senhora muito bondosa, onde viveria feliz.

Mas – acrescentou Sofia, corando – nessa mesma noite teve um vómito de sangue, segundo depois me contaram os criados, e morreu no dia seguinte, apertando-me nos braços e pedindo-me perdão.

Desde então – continuou Sofia, depois de alguns minutos de interrupção e de lágrimas – não podeis calcular a minha desgraça. A madrasta cumpriu a promessa, batendo-me com tanta crueldade, que todos os dias me apareciam no corpo mais pisaduras.

CamIla, beijando-a – Sim, minha Sofia, por duas vezes verificámos a maldade da tua madrasta, o que foi um dos motivos da nossa amizade por ti.

João – Que mulher! Se a visse, batia-lhe! O teu pai fèz muito bem em castigá-la; não merecia outra coisa.

SofiA – Bem paguei esse castigo que meu pai lhe deu!

Margarida – E que fazias tu? Como passavas o tempo?

SoFIa – Nada me distraía. estava quase sempre a chorar. Ao princípio conversava com os criados, que se compadeciam de mim; falava-lhes da minha pobre mãe e do meu pai. Mas ela soube disso, chamou-os e avisou-os de que o primeiro que me falasse ou me desse gulodices, como às vezes faziam, seria imediatamente despedido; mostrou-me depois umas cordas ainda mais grossas do que aquelas com que até então me batera, e disse-me que sempre que fizesse referência a meu pai, a minha mãe, ou ao meu passado, me chicotearia até me pôr o corpo em chaga; e para me fazer uma demonstração – disse ela- chicoteou-me de tal modo, que eu enrouqueci à força de gritar. Anda, menina – exclamou ela, quando se fartou -, agora vai-te queixar ao teu pai !

A indignação das crianças atingiu o máximo; uns choravam, outros rodeavam Sofia, abraçavam-na, prometiam-lhe amá-la sempre, para a compensar de quanto sofrera na infância. Sofia agradecia-lhes, correspondendo aos carinhos dos seus amigos.

– Admira-me uma coisa – disse ela a Camila e Madalena – que vocês nunca me tenham falado dos meus pais ou de Paulo.

Camila – Víamos-te pouquíssimas vezes. Depois

da tua partida, quase te esquecemos. Lembro-me de que a minha mãe, uma vez, nos disse: Vão voltar a ver dentro de poucos dias a amiguinha Sofia; o seu nome é agora Fichini em vez de Réan; nunca lhe falem nem no pai nem na mãe, porque morreram, assim como o primo, a tia e o tio. Tem agora uma madrasta com quem vive; será essa senhora que vo-la trará por estes dias. Eis porque nunca te falámos do teu passado, e confesso que, depois de a nossa mãe nos ter dito aquilo, deixei mesmo de pensar nele.

Madalena – E tu, porque não nos contaste isso tudo há mais tempo, vivendo nós juntas há três anos?

SOfiA – Quase me tinha esquecido. Ao ver o Normando e ao ouvir o pouco que me disse, comecei a recurdar tudo o que vos contei. Mesmo agora, ao falar-vos do naufrágio e do segundo casamento de meu pai, me ocorreram muitos pormenores; é como se estivesse a ver o bondoso capitão a abraçar Páulo, que chorava e lhe estendia as mãos, e o rosto pálido e desolado do meu pobre pai. Julgo ouvir os gritos de minha mãe e de minha tia quando o escaler se afastou e, em seguida, desapareceu nas águas. Outras cenas. de que me lembrei, depois de ver o Normando, foram a da morte de meu pai. singular como se pode ter esquecido durante tantos anos aquilo que, em certo momento nos acontece recordar com tal fidelidade.

Fora longa a narrativa de Sofia; admiravam-se no castelo da ausência das crianças. O Sr. Rugés aproveitara o tempo preparando a Sr.a de Rosbourg para; o encontro de Lecomte, e hàbilmente a levara a encarar uma possibilidade de regresso do marido. Após duas horas de lágrimas e nervosismo, expectativa e esperança, ela pediu que o Sr. Rugés lhe trouxesse no dia seguinte o Normando, que receberia na sua saleta particular; queria falar-lhe sem testemunhas.

– Sabes? Sabes que o teu querido paizinho pode ainda voltar? Vem comigo, minha filha; vem à igreja rezar a Deus pelo teu pai e pedir- lhe que no-lo restitua.

SoFIa – Dá-me licença que a acompanhe, minha senhora? Rezarei também por aquele bom comandante. tão meu amigo, e pelo infeliz Paulo.

Por única resposta, a Sr.a de Rosbourg beijou-a com ternura. As crianças pediram todas que Lhes fosse permitido juntar as suas orações às da Sr. de Rosbourg. A Sr.a de Fleurville, que acompanhava a sua amiga, consentiu, e partiram todos para a igreja a pedir a Deus- a volta dos pobres náufragos.

Ao regressarem, traziam a íntima e segura convicção de terem sido ouvidas as suas orações, tão fervorosas haviam sido, tão confiantes na bondade divina.

Quando chegaram, encontraram o Sr. Traypi a fazer a mala.

– Parto para Paris – disse. – Resolvi ir ao Ministério da Marinha: talvez lá consiga saber alguma coisa. Falarei do regresso de Lecomte e do cativeiro do Sr. Rosbourg e do de Paulo. Quem sabe! Talvez traga boas notícias.

– Excelente amigo, como lhe ficarei grata disse a Sra de Rosbourg, de lágrimas nos olhos. – Em amigos como vós, vejo sinais da protecção de Deus. Oxalá Ele me proteja até ao fim, restituindo-me o meu querido marido!

No dia seguinte, de manhã, batiam de leve à porta da Sr.a de Rosbourg.

– Entre – disse ela, com voz comovida. Abriu-se a porta; Lecomte entrou; mal se atrevia a levantar os olhos para a Sr. de Rosbourg que, pálida e trémula, caminhou para ele. Quis falar-lhe, imterrogá-lo; tomou as rugosas e grossas mãos de Lecomte e apertou-as nas suas.

Lecomte – Minha senhora, minha querida senhora, eu devia ajoelhar-me a seus pés para Lhe agradecer tudo quanto fez por minha mulher e por minha filha!

Enquanto falava, amparou-a respeitosamente e ajudou-a a sentar-se numa poltrona.

A Sr.a Rosbourg soluçava.

– Desculpe. esta fraqueza. – disse ela com a

voz entrecortada de soluços. – Ao ver o amigo e companheiro dedicado do meu marido, perdi a coragem. Mas… hei-de ser capaz de me dominar… tenha paciência… mais alguns minutos… e poderei interrogá-lo para ver se me será possível alimentar alguma esperrança.

Lecomte – Não se incomode, minha querida senhora! Vê-la chorar far-me- á bem. E deixe-me dizer-Lhe que me agrada ver as suas lágrimas, assim passados tantos anos, pelo meu bom comandante. Vejo quanto é digna dele. Excelente, nobre homem! Também ele chorava ao falar da senhora e da menina. Fazia-o às escondidas, mas quantas vezes o surpreendi limpando os olhos! Não, não lhe era fácil esconder-se de mim. Estimava-o tanto, que nunca o perdia de vista. Quando aqueles malditos selvagens me meteram num barco, separando-me dele, apesar de preso de pés e mãos, insultei-os o mais que pude. Pobre comandante! Não ter eu podido nesse momento cortar braços, pernas e cabeças para o libertar!

Estas palavras deram tempo à Sr.a de Rosbourg para se refazer da primeira comoção. Depois de agradecer a Lecomte a amizade a seu marido, interrogou-o sobre os pormenores do naufrágio, desembarque, captura pelos selvagens e separação – pois o Sr. de Rosbourg e Paulo ficaram com uma tribo de selvagens, enquanto Lecomte era levado por outra. Depois de ter conversado duas horas com o Normando, radicou-se na sua alma a esperança da existência e do regresso do marido.

– Obrigada, bom Lecomte – disse ela à despedida. – Nunca poderei encontrar palavras que traduzam o meu reconhecimento pela dedicação que testemunhou a meu marido: Sinto-me duplamente satisfeita por ter sido prestável à sua digna mulher e a sua boa filha.

Lecomte – Desculpe, minha senhora, interrompê-la – exclamou, com vivacidade. -Prestável! Chama a isso ser prestável? A senhora foi uma providência para elas. Salvou-as da morte, livrou-as da miséria; socorreu-as, sustentou-as, mandou ensinar um ofício à minha Lúcia! foi a salvação delas e a minha. Oh, querida senhora, tenho o dever de a adorar como uma providência, de lhe agradecer de joelhos:

E, dizendo isto, ajoelhou-se aos pés da Sr.a de Rosbourg e beijou-lhe a barra do vestido. Ela, comovida, agarrou-Lhe as mãos, que apertou. Ao levantar-se, Lecomte atreveu-se a beijá-las. Espantado com a sua própria ousadia, ergueu os olhos para a Sr. de Rosbourg, que sorriu e lhe fez um amistoso sinal de despedida. Saiu, comovido e contente.

 

VII

NOVA SURPRESA

O Sr. Traypi partira havia dois dias; esperavam, com impaciência, o seu regresso, ou, pelo menos, uma carta dele. Durante esses dois dias, a Sr.a de Rosbourg e Margarida, acompanhadas das crianças, foram de manhã e de tarde passar algumas horas à casa branca. A Sr.a de Rosbourg mandara fazer um fato a Lecomte e dera a Francisca dinheiro para a roupa branca, calçado e tudo o que fosse necessário. Agradava- lhe ver as faces radiosas de Francisca, Lúcia e Lecomte, após o reencontro; esperava para si, da bondade de Deus, felicidade semelhante. Interrogava constantemente Lecomte sobre o marido, o naufrágio e as possibilidades de salvação: e de regresso. Ele, contente por falar do seu capitão, contava, sem fadiga, e nem à própria mulher permitia que o interrompesse. Lúcia, entretanto, brincava com as crianças; ensinava-lhes a fazer cestos com vimes, colares e pulseiras com cascas de avelãs ou bolotas furadas. Os pequenos ajudavam Lúcia a cavar e regar o jardim e a colher morangos, groselhas e framboesas. Margarida escapulia-se muitas vezes para dizer uma palavra amiga a Lecomte e ouvir o que ele contava de seu pai, do qual se não recordava, mas de quem gostava, por tanto ter ouvido falar dele à mãe. Lecomte beijava as mãozinhas de Margarida, os seus lindos caracóis negros ou as suas faces rosadas e gorduchas.

– O meu pobre comandante – dizia ele, suspirando -, como se devia sentir contente ao vê-la!

Na tarde do terceiro dia, depois de terem passado duas horas em casa de Lecomte e Francisca, regressava a Sr.a de Rosbourg com as crianças. Ao aproximar-se da escadaria, julgou reconhecer o Sr. Traypi. Ansiosa por saber se lhe trazia notícias do marido, apressou o passo e, ao subir ràpidamente os degraus da escada, deparou-se-lhe O Sr. de Rosbourg em pessoa. Ambos soltaram um grito de alegria; ela caiu nos braços do marido soluçando e dando graças a Deus. Não podia acreditar em tamanha felicidade. Ora beijava o marido, ora olhava para se certificar de que era bem ele; o coração trasbordava-lhe de alegria. Depois dos primeiros instantes de profunda comoção, o Sr. de Rosbourg, sem se desprender da esposa, olhou as crianças reunidas em volta e tentou reconhecer a sua Margarida; o olhar deteve-se em Sofia.

Sofia – exclamou. – Não me engano, não! Sofia de Réan. Pobre menina! Como se encontra ela aqui? Mas – acrescentou ele -, Margarida! minh1 Margarida! Não é aquela moreninha, que está a olhar para mim com uns olhos tão ternos?

Margarida, como única resposta, lançou-se nos braços do pai, que a beijou de tal maneira, que as faces da pequena ficaram afogueadas.

Depois de ter, centos de vezes, recomeçado a beijar a mulher e a filha, dirigiu-se a Sofia, e, pegando nela, beijou-a também.

– Pobre pequenita – disse. – Que horríveis recordações me faz evocar! Onde se encontra o pai? E porque está ela convosco?

– Meu bom comandante – respondeu Sofia -, explicar-lhe-ei depois tudo. O meu pobre pai morreu já há muito tempo – acrescentou, baixando a voz e limpando uma lágrima-; mas Paulo, o meu querido Paulo, onde está? Vive ainda?

O Sr. de Rosbourg-Paulo tornou-se um rapaz desenvolto e bonito; ficou lá em cima a abrir as malas. Sofia – Oh! quero vê-lo, quero vê- lo. Em que

quarto está, para o ir buscar?

O Sr. de Rosbourg – No quarto contíguo ao de minha mulher; foi o que me destinaram e para onde Paulo mandou levar a bagagem.

Sofia correu ao quarto indicado; owiram-se gritos de alegria, saltos, risos, e, dentro em pouco, viu-se aparecer Sofia arrastando Paulo, bastante confuso por se encontrar na presença de tantas caras desconhecidas.

– Anda cá, meu rapaz – gritou-Lhe o Sr. de Rosbourg -, vê bem que não são selvagens, não se corre perigo E que se corresse Tu não és homem para recuar! Por isso, anda, abraça os teus amigos. Minha mulher, primeiro, depois a minha Margaridmha, e também. Mas eu próprio não reconheço os outros. Entretanto, como nos encontramos em terra amiga, começaremos por os abraçar: dir-nos-ão como se chamam depois.

Foi uma confusão de abraços e risos. O belo e amável rosto do Sr. de Rosbourg conquistava todas as crianças; o ar decidido, a alta estatura, o aspecto vigoroso e o rosto inteligente e bondoso de Paulo atraíram a confiante simpatia de todos. O Sr. de Rosbourg retirou-se, a rir, com a esposa; Sofia, apresentou Paulo aos seus amigos.

-Apresento-te, em primeiro lugar, Margarida, filha do nosso bondoso capitão; é a mais nova de todos nós e é com ela que mais tenho brincado e questionado; havemos de te contar tudo isso. Estas são as minhas queridas amigas Camila e Madalena. São tão boas, que lhes chamam as meninas exemplares. Agora o nosso Tiago Traypi, atrevido, mas bondoso. Este é João Rugés, que tem doze anos como tu e como tu é corajoso e bom. Finalmente, Leão Rugés, o mais velho de todos nós, pois tem treze anos.

Paulo em pouco tempo se sentiu à vontade com os novos amigos. Sofia interrogava-o sem descanso sobre o que lhe acontecera; ele prometeu que mais tarde contaria tudo. Falou do Sr. de Rosbourg com ternura e gratidão, que comoveram Margarida até às lágrimas.

Margarida – Como é amigo de meu pai E como hei-de ser sua amiga!

Paulo – Para o mostrar, tem de me tratar por Paulo e deitar o senhor>, fora.

Margarida – É isso mesmo que eu quero quando nos conhecermos bem, amanhã por exemplo, havemos de nos tratar por tu.

Paulo – E porque não havemos de começar agora mesmo? Eu já te conheço muito pelas conversas do teu pai, que me falava constantemente de ti.

MargaridaSofia não. nunca me falou de ti.

Paulo -Já me tinhas esquecido, Sofia? SoFIa, tristemente – Nunca te esqueci. dormias no meu coração e não me atrevia a acordar-te. Julgava que me tinhas morrido, e, como sofri muito, tornei-me egoísta. só em mim pensava desabituei-me de pensar no passado e nos que me haviam amado.

joão – Não acredite, Paulo. Sofia é muito bondosa e calunia-se a si própria. Pobre Sofia, ela contar-lhe-á o que durante três anos sofreu.

Tiago caminhou para Paulo, e pondo-se na ponta dos pés, para o beijar, disse-lhe:

– Leio-te nos olhos que hás-de ser para mim um amigo; hás-de sê-lo também para a Margaridinha, sim? Protegê-la-emos ambos, quando precisar de auxílio.

Paulo beijou Tiago, sorrindo, e prometeu-lhe ser amigo de um e de outro.

Leão nada dizia; parecia sentido por Sofia o ter aprescntado sem qualquer referência amável. Deixou-se, contudo, abraçar por Paulo. Camila e Madalena sorriam e esperavam que o tempo lhes permitisse travar mais íntimo conhecimrnto.

Em breve ouviram tocar para o jantar; todos se prepararam e se dirigiram à sala. A Sr.a de Rosbourg- entrou com aspecto radioso, pelo braço do marido, que trazia Margarida pela mão.

A alegria, a satisfação transpareciam em todos. Sofia e Paulo tinham mil coisas a perguntar um ao outro. Sofia tanto e tanto falou, que, no fim do dia, lhe contara todos os acontecimentos importantes da sua vida, sucedidos depois de se separarem. As crianças obtiveram de Paulo a promessa de lhes contar o que lhe acontecera desde o naufrágio. O Sr. de Rosbourg fez a mesma promessa às senhoras e aos cavalheiros:

SoFIa – Mas dize-me, Paulo como vieste ter a Fleurville, e com quem?

Paulo – Com o Sr. Traypi, que o comandante encontrou no Ministério, quando ali chegava a dar conhecimento do seu regresso e a explicar a sua denorada ausência. Estávamos em Paris havia meia hora: o comandante, impaciente por ver a esposa e a filha, de cujo paradeiro não fazia a menor ideia, e eu iuito sossegado, por estar longe de esperar ver-te com vida. Supunha que tivesses morrido com teu pai, naquela caixa onde te haviam metido, com aquela tempestade horrível de vagas altíssimas.

SoFIa – Também supus o mesmo de ti. Foi pelo Normando que soube que estavas vivo e entre os selvagens.

Paulo – O Normando? Viste o Normando? Onde? Quando? Onde se encontra? Quero abraçar ese homem corajoso, bom e fiel! Sentimos grande apreensão pelo seu destino, chegando a supor que os selvagens o tivessem matado.

SoFIa – Chegou há três dias aqui, depois de ter fugido de entre os selvagens e andado quatro anos à vossa procura! Encontrámo-lo, por acaso, na floresta!

Paulo – Excelente homem! Ainda bem que vou tornar a vê-lo!

Margarida – Vamos vê-lo amanhã e avisá-lo da

chegada do pai; ficará tão satisfeito como nós próprios, porque Lhe dedica uma amizade tão grande como a da mãe e á minha.

Tiago – E hás-de contar-nos, depois, as tuas aventuras, Paulo! Viveste cinco anos com os selvagens?

Paulo – Sabê-lo-ás amanhã, e muitas coisas mais. Hoje é tarde já para te contar tudo.

– Meus meninos – disse a Sr.a de Fleurville – é tarde; o vosso novo primo Paulo deve estar cansado.

O Sr. de Rosbourg, interrompendo – – Paulo cansado! Depois do que passou comigo! Levámos dias a trabalhar, a caminhar, em longas vigílias! Tornou-se robusto como um autêntico marinheiro.

– Os nossos não tiveram, como ele, a vantagem de educação tão áspera, querido comandante. respondeu a Sr. de Fleurville com um sorriso. – Todos eles, de tal modo compartilharam da alegria de Margarida, que necessitam, como ela, de uma noite bem dormida, para se refazerem.

O Sr. de Rosbourg limitou-se a responder com um gesto de cortesia, e, atraindo a si Margarida e Sofia, beijou-as com afecto.

– Oh! paizinho – disse Margarida, apertando-lhe os braços à volta do pescoço -, como me custa deitar, separando-me de si!

– Eu vou prolongar a tua alegria, acompanhando-te ao quarto, minha filha – respondeu o Sr. de Rosbourg.

E, pegando nela ao colo, levou-a assim, com grande satisfação de Margarida, que dizia, beijando- o:

– Oh, Como é bom ter pai! A mãezinha tinha razão!

O Sr de Rosbourg – Em que tinha a tua mãe razão? Que te dizia ela?

– Dizia que o pai era o melhor, o mais bondoso dos homens! que, se não fosse eu, morreria de pena! que não poderia sentir-se feliz sem o pai, e muitas outras coisas. E chorava tanto e de tal maneira, que eu, algumas vezes, punha-me também a chorar; ela então limpava os olhos, sorria e beijava-me. Enquanto falava, Margarida despira-se.

Margarida – Agora, paizinho, vou rezar; quer rezar comigo?

O Sr. de Rosbourg- Quero, minha querida filha. Rezemos juntos, agradeçamos a Deus.

E, passando-lhe o braço à volta do pescoço, ajoelhou e rezou com ela o Padre-Nosso, a Ave-Maria e o Credo. Terminadas as orações, Margarida acrescentou:

– Meu Deus! não Vos peço a volta do meu querido pai, visto que já mo tornastes a dar; agradeço-Vos a grande alegria nos proporcionastes: Fazei meu DeuJ, que, para Vos mostrar a minha gratiddão, eu seja sempre boa, dando assim alegria ao meu querido pai e à minha mãezinha, que tanto chorou.

Ao acabar, agarrou-se ao pescoço do pai que, vencido pela comoção, a apertou nos braços, e, entre soluços, a beijou.

– Meu querido paizinho, que tem? Porque chora?

– Minha filha, minha querida Margarida, de que choraria eu senão de felicidade? a alegria, o reconhecimento para com Deus, que me trouxe para junto de vós, a gozar uma ventura demasiadamente grande para este mundo. Meu Deus, como se pode ser tãofeliz depois de tantos anos de desolação!

E, deitando Margarida, pôs-se de joelhos juntodela e rezou, com a cabeça apoiada na mão da filha; quando se ergueu, com a face banhada de lágrimas, ela adormecera. Limpou a mão húmida de Margarida, beijou-lhe a linda fronte branca e pura, abençoou-a e saiu, voltando-se ainda para olhar aquela encantadora criança que dornia tão calma e graciosamente.

 

O MAR E OS SELVAGENS

No dia seguinte, reuniram-se mais cedo do que era costume. As crianças fizeram as honras ao primeiro almoço, principalmente Paulo, que se maravilhava com o leite magnífico e a excelente manteiga da Normandia; encontrava em tudo pretexto de recordações da infância e olhava com alegria e reconhecimento para o seu comandante, que lhe servia agora de pai. O Sr. de Rosbourg, não menos contente, correspondia aos seus olhares, com afectuoso sorriso. Notando certa inquietação nos olhos de Páulo, disse-lhe:

-Não receies que nos separemos. Somos companheiros velhos e ficaremos sempre amigos. És como meu filho, bem o sabes; não prometi ao teu pobre tio Réan servir-te de pai? Em vez de um filho, tenho dois; é uma bênção do Céu, quando eles são como tu ou Margarida.

Saíram da mesa: Paulo e Margarida cobriram de beijos as mãos do comandante. Ele beijou também um e outro; fez um aceno amigo a Sofia e ofereceu o braço à Sr.a de Fleurville para a conduzir à sala de estar. Passaram o dia conversando; mostraram a Paulo toda a casa, o pomar, a herdade, os estábulos, o parque, a aldeia, o jardim e as barracas. Depois foram fazer uma visita a Lecomte, que quase ficou

paralisádo de espanto ao ver o seu capitão. O Sr. de

Rosbourg manifestou-lhe a sua amizade e prometeu-lhe voltar a vê-lo e arranjar as coisas de maneira que o tivésse sempre perto de si. Após o jantar, as crianças pediram a Paulo que Lhes contasse as suas aventuras. Todos se reuniram em volta dele. Começou assim:

-Sofia contou-vos o nosso naufrágio: mas ela ignora ainda como aconteceu ficarmos ambos no navio; o Sr. de Rosbourg explicou-o mais tarde. Quando o pai, a mãe e os meus tios subiram para a ponte, deixando-nos em baixo, nos camarotes, os escaleres já tinham sido lançados ao mar; o comandante, ao ver o navio prestes a afundar-se, mandou meter no primeiro escaler a gente que pudesse caber e ordenou à tripulação que obrigasse os restantes passageiros, com vontade ou sem ela, a entrarem no segundo. Foi assim que os marinheiros agarraram em minha mãe e minha tia à força. Meu pai e meu tio quiseram- nos ir buscar, mas convenceram-se de que tínhamos já sido embarcados. Isso afigurava-se verosímil na confusão e no horror do naufrágio. Entraram no escaler onde encontraram a minha mãe e a tia, chamando-nos em altos gritos. Meu pai quis subir a bordo, mas não lho permitiram: porém, meu tio gritou: Esperem por mim; já volto, e conseguiu subir. A mim não me viu, eu escondera-me por detrás do comandante: viu Sofia e agarrou-a nos braços e correu para o escaler mas tinha já sido cortada a corda que o segurava ao navio, e os remadores, sem atenderem às súplicas e gritos da minha pobre tia, afastaram-no. O escaler, porém, com carga demasiada, foi quase logo tragado por alterosa vaga, antes que meu tio o perdesse de vista. Então quis, pelo menos, salvar-nos, a mim e a Sofia; pediu ao comandante que me deixásse partir consigo, mas este fez-lhe notar a imprudência de nos arriscarmos numa prancha ou num pedaço de mastro partido. O Normando propôs então lançar ao mar uma grande caixa, onde meu tio poderia aguentar-se com Sofia. E Paulo? – disse meu tio. – Não partirei sem ele. Compreendendo enfim, que, se me levasse consigo, já a caixa não poderia suportar o peso, consentiu em confiar-me ao comandante, que Lhe jurou fazer todos os esforços para me salvar, olhar por mim e estimar-me como filho. Meu tio partiu com Sofia; eu chorava, supondo que ao improvisado : escaler aconteceria o mesmo que aos verdadeiros:

O bom Normando e o Sr. de Rosbourg fizeram sem perda de tempo uma jangada, para a qual o primeiro trouxe um pequeno barril de água e provisões; pôs um machado no seú cinto e outro no do comandante, tomou os remos e a bússola; e eu achei-me, de repente, na jangada com os meus companheiros. O Sr. de Rosbourg olhava o seu navio com ar tão triste como o que tinha meu tio ao olhar-me quando se separou de mim; e assim que o navio acabou de se despedaçar e os destroços foram arrastados pelas vagas, vi, pela primeira vez, lágrimas nos olhos do meu querido comandante: Desviou o olhar, passou as costas da mão pelos olhos e retomou coragem. Já se não avistava a caixa em que ia meu tio; as vagas altíssimas encobriram-na. Enquanto o Normando remava, o Sr. de Rosbourg sentou-me nos joelhos e disse-me: Dorme, meu rapaz, dorme nos joelhos do teu pai; estarás assim ao abrigo das vagas; deita a cabeça no meu peito. Eu receava fatigá-lo; ele agarrou-me a cabeça e encostou-ma, à força, ao seu ombro. Não queria adormecer, mas fui vencido pelo sono e, minutos depois, dormia profundamente. Acordei ao nascer do dia este bom Sr. de Rosbourg não se mexera para não me acordar, e, para eu não ter frio, cobrira-me até com o seu casaco. Ao pegar-llhe nas mãos, senti-as geladas. Pedi-Lhe que tornasse a vestir o casaco, garantindo-Lhe que estava calor.

– De facto – disse ele – eis o Sol; começa a aquecer. A Lua era menos agradável, não, Normando? Aquela lua do diabo aquece mal a gente.

E, pondo-me de pé na jangada, pegou no casaco e, não sem alguma hesitação, cobriu com ele os ombros regelados.

O Sr. de Rosbourg, a rir- Exageras, meu rapaz; fazes-me melhor do que sou; foi uma noite fria aquela mas não tanto como dizes.

Paulo – Conto sem exageros o que se passou, meu pai! Quanto a julgá- lo melhor do que é, seria muito difícil, para não dizer impossível.

Como todos aplaudissem com as mãos e com a voz, o Sr. de Rosbourg levantou-se, rindo e cumprimentou para todos os lados; beijou a esposa, Margarida e Sofia; apertou as mãos de Paulo e disse:

-Dou a palavra ao orador; as interrupções estão, segundo parece, proibidas.

Paulo continuou, sorrindo:

-O que neste momento me faz sorrir, pareceu-me então desolador. Via-me órfão, separado para sempre dos que me tinham amado e eu amara; não

esperava voltar a ver nem Sofia, nem o meu tio, e encontrava-me em frágil jangada, confiado à bondade do meu querido comandante, que podia, a cada momento, ser arrastado comigo para o fundo do mar.

O Sr. de Rosbourg – A situação não era, com efeito, muito divertida.

Paulo – O vento impelia-nos para terra mas custou-nos a atracar, porque havia rochedos contra osquais vinham quebrar-se as ondas, e foi precisa toda a habilidade do Sr. de Rosbourg e do Normando para que a nossa mesquinha jangada não fosse feita em bocados. Encontrámos, finalmente, uma pequena enseada; o Normando redobrou de esforços com os seus remos, e achámo-nos na praia. O comandante pegou em mim nos braços e foi pôr-me longe do alcance dasvagas. O Normando transportou para terra o barril da água e as poucas provisões que pudera tirar donavio. Ajoelhou com o comandante para agradecer a Deus o ter-nos salvo. Eu rezei pelos meus pobres pais, ( por ti, Sofia, e por meu tio, e não pude reter as lágrimas ao pensar nas últimas horas que passáramos no Sybilla e naqueles que nunca mais, nunca mais veria.

O comandante apertou-me de encontro ao coração e disse Paulo, tu és para mim um filho, Eu, para ti, um pai, o único que neste mundo te resta; juro que o serei enquanto viver. Cùmpriu a palavra; foi para mim, e não me canso de dizê-lo, um verdadeiro pai. Vê-lo-eis pela continuação da minha narrativa.

O Sr. de Rosbourg – Paulo, meu amigo, contas mal; por que razão te pões a falar de mim, quando éramos três sem abrigo, quase sem ter que comer, eagora que os teus amigos esperam saber como Deus misericordioso nos libertou daquela situação difícil?

Paulo – Não, meu pai, estou a contar fielmente, pois é o meu coração que fala, e seria um ingrato se não aludisse a tudo quanto lhe devo.

-Pai-disse Margarida, abraçando-o-, interrompeu a narração de Paulo, tem de ser multado.

– justo-disse o Sr. de Rosbourg, beijando-a; que devo fazer por penitência?

– Deve deixar Paulo falar de si como ele entender, sem interrupção.

O Sr. de Rosbourg, a rir – Demónio, a penitência é pesada! Mas como és tu que ma impões, submeto-me. Fala, meu rapaz, fala; mas, olha, poupa-me. Paulo – Não, meu pai, direi a verdade, toda a verdade; e muitas outras coisas direi, quando o senhor não estiver presente.

O Sr. de Rosbourg – Bem, estou a ver que isto promete. Queres que eu te deixe à vontade, não é?

Margarida – Oh não, meu pai! não saia daqui! fica meu prisioneiro, e à guarda de nós todos.

E instalou-se nos joelhos do pai, que a olhou com ternura e a abraçou.

Paulo – Depois de comermos o pobre almoço de biscoito e água, fomos os três à procura de um abrigo para guardar as nossas provisões. Viam- se, ao longe, árvores que pareciam formar um bosque. O sol começava a aquecer, e o comandante receava que a água do barril se esvaziasse antes de descobrirmos uma

nascente; com o auxílio do Normando, pôs o barril à sombra de um rochedo um pouco escavado na base. Propôs-me ficar ali de guarda enquanto ele e o Nornando iriam até áo bosque ver se encontravam ali um rgato e frutos; mas eu pedi-lhe que me não deixasse sòzinho e ele acedeu. O caminho era difícil. O normando seguia à frente e, com o machado, cortava ramos e plantas cheias de espinhos, que impediam a marcha. Começava eu a arrepender-me de ter vindo com eles, quando o comandante, ao reparar nos meus braços já em sangue, me pôs às costas, apesar da minha resistência. O Normando quis pegar em mim, mas o comandante disse-lhe: Cabe-te tarefa mais áspera do que a mim, pois tens de ir à frente a abrir-me caminho à custa da tua pele, meu bom Normando. Nem este rapaz pesa assim tanto! E depois poderá dizer-se que um filho pesa aos ombros do pai? O Normando nada objectou e prosseguiu a marcha. Mais ainda me arrependi de não ter ficado junto do rochedo quando vi meu pobre pai a transpirar, abundantemente, e a fra quejar, contra vontade, sob o meu peso. Pedi-lhe que me deixasse caminhar pelo meu pé. não deixou tentei descer-lhe dos ombros; prendeu-me com mão de ferro e disse: Não insistas senão tenho de te levar à força. Avançámos lentamente; demorámos mais de uma hora a chegar à floresta que avistáramos. O piso ali era suave, e sem asperezas. O comandante pôs-me no chão. sentámo-nos à sombra daquelas grandes árvores, que eram coqueiros e tamareiras. O Normando trouxe-nos algumas nozes de coco e também tâmaras caídas das palmeiras. O comandante abriu uma noz com o machado; deu-me a beber água ou, melhor, o leite que continha. era fresco e delicioso. depois deu-me a polpa de noz a comer; achei-a excelente e lamentei que a minha pobre Sofia não pudesse estar ali comigo para a apreciar também. Sofia tomava sempre parte em todos os meus prazeres, em todos os meus projectos, e até em todas as minhas loucuras, e eu executava as suas ideias, nem sempre lá muito felizes. E agora imaginava-a eu naquela maldita caixa – que saltava sobre vagas enormes, e julgava-a tragada pelas ondas, assim como a meu pobre tio. (Sofia estende-lhe a mão, ele aperta-a e continua.) Disse então a meu pai: Beba, está cheio de calor e tem sede. – Não te preocupes comigo, meu filho; sou um homem, um marinheiro habituado a suportar a fome, a sede, o calor e o frio. Agrada-me ver-te comer e beber. Oh! meu pai, não posso comer nem beber se não quiser compartilhar comigo. E o bom Normando onde está? -Fòi buscar outras nozes, se acaso as puder encontrar. Recusei-me a tocar no que sobrava, e pedi tão insistentemente ao comandante que as compartilhassc comigo, que acabou por consentir. Vi, com satisfação; os seus lábios ressequidos molharem-se no leite fresco das nozes de coco. Pouco tempo depois, o Normando voltou, trazendo ainda algumas nozes e tâmaras frescas. Deliciámo-nos os três com elas. Sentia-me entorpecido pelo calor. Via os olhos do comandante fecharem-se, mau grado seu. O Normando parecia também fatigado e Pediu licença para dormir. Dorme, meu amigo – respondeu meu pai -, nós dormiremos também um bom sono: a noite foi dura e o calor é, de dia, asfixiante: Vamos, meu Normando, estende-te junto de nós e, dormindo, tentemos esquecer.

O Normando assim fez; estendeu-se ele à minha esquerda e o comandante à direita. Passados dois minutos, caía eu em sono profundo.

Devo ter dormido durante muito tempo, porque; ao acordar, senti a frescura própria do entardecer:

Abri os olhos e vi-me só. Tive medo e soltei um grito. Meu pai logo acorreu e perguntou-me o que tinha. Nada – respondi-lhe-; não o vi, ao acordar, e pensei que me tivesse abandonado.

Não esquecerei jamais o aspecto triste e doloroso de meu bom pai, ao ouvir aquelas palavras.

Paulo, meu filho – disse com voz comovida-,

como pudeste ter semelhante pensamento? Então não

vês que sou teu pai? Quando viste tu um pai abandonar o filho? Paulo, nunca percas a confiança em

mim. -Perdão, perdão, meu pai, meu único amigo – respondi, lançando-me nos seus braços. – Foi ainda

tonto de sono que falei.. Sim, sei. Sinto como sois

bom para mim, melhor, muito melhor que meu próprio pai, o qual não me tinha verdadeiro amor e nunca

se preocupava comigo. – Silêncio, Paulo – continuou o comandante. – Respeita os mortos. Se não

tiveres algum bem a dizer a seu respeito, fala apenas

deles a Deus, rezando pela sua alma!

Sentia fome, e pedi de comer. – Estávamos

à espera de que acordasses, para jantar. A mesa

está posta aqui ao lado! Vem ver a nossa sala de

jantar.

Acompanhei-o. levou-me a uma moita onde abrira,

com o auxílio do Normando, uma espécie de galeria;

ao fundo havia como que uma vasta sala, aberta também no mato. Tinham estendido no chão enormes

fòlhas de tamareira e coqueiro; numa dessas folhas,

de tamanho bastante grande para nos servir de mesa,

estavam várias nozes de coco abertas e alguns tubérculos que o Normando cozera em água do mar, para

os salgar; servira-lhe de caçarola uma enorme concha.

Com a concha e a água do mar trouxera o barril de

água potável e as provisões retiradas do navio. Meu

pai, por seu turno, trabalhara para a nossa instalação,

em vez de descansar. Sentei-me no chão, entre eles,

e comemos todos com um apetite que lisonja o cozinheiro. Quando estávamos a acabar de jantar, ouviu-se

um ruído estranho. Meu pai levantou-se de um salto;

o Normando fez-lhe sinal de que se não mexesse.

Escutaram com ansiedade, o que me causou medo.

Cheguei-me para o comandante, que se baixou, murmurando: Não te mexas, nem fales! são selvagens que desembarcaram.

Esta palavra selvagens fez-me gelar o sangue nas veias; via-me já devorado com o meu pobre pai e o bom Normando. O comandante, ao sentir- me tremer, procurou tranquilizar-me sorrindo e dizendo em voz baixa: Não tenhas medo! nem todos os selvagens são ferozes. No entanto, como os não conhecemos, deixemo-nos estar quietos. O Normando vai tentar reconhecê-los e ver a que tribo pertencem: só então saberemos se convém evitá-los ou mostrar-nosn. Vi o Normando de rastos, deslizar por entre o mato, usando as maiores precauções para não fazer ruídõ nem ser notado. Assim, deslizando, alcançou a orla do bosque; mas, antes de sair da mata, cortou ramos e silvas e espetou-os no chão, à entrada da galeria, para a ocultar. Nós deixamos a cabana e refugiámo- nos num maciço de pequenos coqueiros; à medida que caminhávamos, meu pai endireitava os ramos e ervas calcadas para não deixar rastro da nossa passagem. Pouco tempo depois da partida do Normando, ouvimos os selvagens correr de vários lados, e chamarem-se uns aos outros, segundo parecia. O barulho aproximava-se; eu, trémulo, deixara-me ficar junto de meu pai, que me apertava contra o coração e me recomen dava silêncio.

Um grito geral dos selvagens mostrou-nos que tinha sido descoberta a galeria; logo os sentimos precipitarem-se na improvisada sala. Pareceu-me notar no rosto do comandante viva inquietação; o Normando não voltava; tê-lo-iam os selvagens descoberto e feito prisioneiro? Esperamos vê-los aparecer, de minuto a minuto. Ouvimos estalar um ramo tão perto de nós, que meu pai, afastando-se devagarinho, empunhou o machado… Ficámos alguns instantes imóveis, mal ousando respirar. O barulho cessou, as vozes afastaram-se; julgávamo-nos salvos, quando me senti, de repente, preso por uma perna; não gritei, mas agarrei-me a meu pài, que me olhou com surpresa; ele não via a mão que me prendia e eu sentia-me puxado para trás. Outra mão veio agarrar-me outra perna, e, eu teria caído de nariz no chão, se não me tivesse segurádo fortemente às pernas de meu pai. Paulo, que tens? – murmurou ele, com terror. – Estão-me a puxar! Olhe Meu pai, salve-me! – respondi- lhe. Olhou, viu as duas mãos, agarrou-as e, com força irresistível, púxou violentamente o homem. Apareceu assim um selvagem ainda novo, que fez gestos súplices e se pôs de joelhos. Era de aspecto inofensivo e tímido. Meu pai fez-Lhe sinal para que olhasse, ergueu o machado, e, de um golpe, abateu uma árvore da grossura de um braço. O selvagem olhou a árvore, o machado e o meu pai, com surpresa e espanto; deu um salto, soltou um grito, beijou a mão, tocou no pé de meu pai, e, precipitando-se na direcção da nossa cabana, pelo caminho que seguíramos para nos esconder, chamou, em grandes gritos, os companheiros. Descobriram-nos, já não convém que nos ocultemos. Devemos agora mostrar-nos atrevidamente e impressioná-los com a nossa atitude. Que falta me faz o meu pobre Normando! Onde se meteria ele?

<O comandante dirigiu-se então para a sala, levando-me pela mão e segúrando o machado na outra. Entrou na sala que se estava enchendo de selvagens; à frente deles o rapaz que estivera connosco. Para trás – gritou o comandante com voz de trovão, brandindo o machado. Recuaram todos. O jovem selvagem aproximou- se tìmidamente, quase de rastos, beijou a mão, tocou no pé do comandante e mostrou-lhe por sinais que os companheiros gostariam de o ver cortar uma árvore. O comandante escolheu um coqueiro ainda novo e abateu-o de um golpe.

Os selvagens, cada um por sua vez, vieram examinar a árvore e tocar receosamente no machado; depois, todos, como o primeiro, beijaram a mão do comandante e tocaram-Lhe no pé. Eu já não sentia medo: Notava o domínio que sobre eles exercia aquela homem tão forte, corajoso e resoluto. Os selvagens olhavam-no com curiosidade e respeito; ele, segurando-me sempre pela mão, caminhou em frente e fez-lhes sinal com o machado para que nos deixassem passar.Afastaram- se. com ares de temor cómico. Sigam-me -disse-lhes o comandante, com a sua voz poderosa: E caminhou, seguido por todos os selvagens, até sair mos do bosque. Então, olhou à sua volta, e, não vendo o Normando, gritou: Meu bom Normando, fomos descobertos. Mostra-te e vem ter comigo, porque o teu braço pode ser-me útil. Resposta alguma se ouviu; mas, minutos depois, vi o Normando sair do bosque. Olhou os selvagens e disse: Meu comandante, não respondi porque estava de bruços na relva, e não queria que os peles-vermelhas supusessem que me ocultava. Voltava para o bosque, de rastos, quando ouvi ecoar o seu Qara trús!

-Julgas que sejam antropófagos?

<- Isso não são, meu comandante, não têm ar disso; nunca vi antropófagos deste género. O seu aspecto é inofensivo; parecem cordeiros.

-E agora, que havemos de fazer? Qual é a tua opinião?

Pois quê, meu comandante, o senhor, tão resoluto, que se decide num relâmpago, pede-me conselho?

– É que até agora não sentia responsabilidades de pai, percebes? – respondeu o comandante, passando-me a mão pelos cabelos. -Se estivesse sòzinho, seria já, para eles, um chefe. Mas o que não receio ousar sózinho, receio-o por Paulo.

– Oh meu pai – exclamei, beijando-lhe as mãos-, proceda como se não me tivesse consigo.

Segui-lo-ei para toda a parte. Não se preocupe comigo. -Não percebes então que te amo, Paulo, e

quero ser prudente para evitar que te aconteça mal? Reflectiu um imstante. O rosto tornou-se-lhe

severo; voltou-se para os selvagens, ordenando-lhes,

com imperioso gesto, que o seguissem, e, caminhando

à frente deles, segurando-me pela mão e acompanhado

pelo Normando, dirigiu-se para o mar, onde avistara,

de longe, as canoas dos selvagens. Enquanto caminhávamos ele e o Normando abriam passagem abatendo,

a machado os arbustos com espinhos. A cada machadada, os selvagens precipitavam-se para ver o que

tinha sido cortado; cercavam o comandante, que não

se dignava sequer olhar para eles; o normando tentava det-los, brandindo o machado, quando chegámos à beira-mar, o comandante ordenou ao nosso companheiro que se preparasse para entrar numa das maiores canoas, e fez sinal aos selvagens

para que aproximassem uma delas. Eles obedeceram.

O comandante subiu comigo e, atrás de nós, o Normando, que, a um sinal daquele, começou a remar.

Assim partimos, sem saber para onde.

A canoa era grande; podia conter dez ou doze

pessoas. Uma quantidade de selvagens precipitou-se

para tomar lugar nela; mas, quando os quatro primeiros subiram, o comandante gritou aos outros: Para

trás! e ergueu o machado. os selvagens atiraram-se

todos à água e alcançaram, a nado, as outras canoas,

onde se instalaram como puderam. Os quatro selvagens

da nossa canoa empunharam então os remos e, dentro

em pouco, atingimos o alto mar. remaram durante

largo tempo; era noite já quando chegámos a uma

terra; nem eu nem o comandante lhe soubemos nunca

o nome.

– É verdade isso – disse o Sr. de Rosbourg-;

a tempestade arrastara de modo tal a minha pobre

fragata, que, quando, desarvorada já, abriu água,

encontrava-se em mar completamente desconhecido.

Margarida – Nesse caso, nunca mais ninguém

encontrará tal ilha. -Espero encontrá-la eu, se

o Sr. de Rosbourg voltar a viajar.

Margarida – Mas o pai nunca mais viaja, pois não?

O Sr. de Rosbourg, a sorrir – Falaremos disso mais tarde; agora oiçamos o Paulo. Está-se a lembrar de tudo muito bem. Vamos a ver se continuará assim até ao final.

Paulo – Os selvagens queriam pegar em mim ao colo para me porem em terra, mas o meu pai repeliu-os com ar intimativo que os amedrontou, pois caíram uns por cima dos outros e abriram grande clareira para nos deixar passar.

– Prudência, Normando! Não metamos de noite por terra dentro; procuremos um abrigo para Paulo dormir; nós velar-lhe-emos o sono. Têm aspecto de pobres-diabos, é certo, mas não confiemos muito. O crocodilo com aquele seu ar lento e voz infantil traga qualquer pessoa sem cerimónia. É prudente desconfiar.

Prontamente, encontrámos, os três, um rochedo escavado em forma de gruta muito escura. O comandante tirou do bolso a caixa de fósforos e acendeu um; os selvagens soltaram exclamações de surpresa e de terror, recuando alguns passos. Meu pai entrou na gruta formada pelo rochedo, e, vendo-a seca e sem habitantes perigosos, como serpentes e animais ferozes, mandou-me entrar e entrou a seguir com o Normando, depois de fazer sinal aos selvagens de que pretendia ficar só. Eles obedeceram, não sem relutância, mas não se afastaram muito, conforme nos era possíveljulgar pelos ruídos que, de vez em quando, ouvíamos: ora murmúrio de vozes, ora estalar de folhas secas, ora assobios abafados, como de pessoas que se chamam ou correspondem. Meu pai levou-me para o fundo da gruta, sentando-se com o nosso companheiro, um de cada lado da entrada: Acordou-me ao nascer do dia um barulho extraordinário. Abri os olhos e vi meu pai e o Normando de pé, de machado em punho. Meu pai olhava-me inquieto no momento em que acordei. Pus-me a pé de um salto; corri para ele, passei a cabeça pela abertura e vi uma enorme multidão de selvagens, que parecia dirigir-se para nós.

No meio deles sobressaía um homem com aspecto de chefe ou rei. Todos os outros o tratavam com deferência, não se atrevendo a aproximar-se de mais e falando-lhe de cabeça baixa. Quando chegou a cem passos, disse algumas palavras a dois selvagens, que se nos dirigiam e, por sinais, nos convidaram a aproximar-nos. Vamos – disse meu pai, sorrindo. – Precisamos deles para termos comida e casa. Eu não sentia medo, porque via, perto do rei, dois rapazinhos da minha idade, pouco mais ou menos. Aproximámo-nos; os dois rapazitos caminharam para mim, tocando-me no casaco, nas calças, nos pés e nas mãos; faziam-me caretas e davam cabriolas tão engraçadas, que me pus a rir; eles beijaram as suas pró prias mãos e tocaram-se com elas nas faces; fiz o mesmo que eles mostraram então alegria extraordinária correram para o rei, falaram- Lhe com grande animação, voltaram a correr para mim, e, pegando-me cada um pela mão, levaram-me até junto dele. Ouvi meu pai chamar-me em tom preocupado: Paulo, Paulo, volta para aqui. Mas já eu não o podia fazer; os pequenos selvagens levaram-me, dizendo repetidamente: chlhan; úhlhan undé ( 1 ) O rei olhou-me, tocou-me, levantou-me nos braços, tocou-me na orelha com a sua orelha, pôs-me no chão e disse algumas palavras a um selvagem. Este desapareceu e voltou ràpidamente com duas fitas de palmeira. O rei pegou numa que atou no braço de um dos rapazinhos, atou o segundo liame da mesma maneira num braço do outro e as pontas opostas de ambos aos meus braços, e, assim, fiquei preso aos dois, no meio deles. Os dois pequenos mostravam-se encantados, davam saltos e soltavam gritos de alegria, que me contagiaram de tal modo, que comecei também a pular e a cantar muito alto:

Recordas, filho heróico de Frana?

(1) Anda, anda depressa!

que muitas vezes ouvira aos infelizes marinheiros

da Sibylla. As primeiras palavras, os pequenos

selvagens ficaram imóveis. Mas a surpresa e a admiração deles foram compartilhadas pelo rei e seus súbditos, quando meu pai e o Normando começaram a acompanhar-me em voz de estentor. Acabada a canção, os selvagens prosternaram-se; depois, levantando-se de salto, correram ao comandante e ao Normando, aos quais mostraram todos os sinais de respeito. Tentaram

imitar a nossa canção, mas de tão grotesco modo, que rimos os três perdidamente. Mostravam-se encantados

ao ver-nos; riam também e davam pulos extraordinários.

Sofia – Perdoa-me interromper-te, Paulo, mas.

Gostava de saber porque te tinham atado pelos braços

aos dois pequenos selvagens? se ficaste muito tempo, assim.

Pàulo – Contaram-me depois, quando aprendi a

língua dos naturais, que se representava por aquela

maneira a amizade que devia ligar-me aos dois rapazitos. Eu não me atrevi a desfazer o laço, receando

ofendê-los, e soube mais tarde que, se o desfizesse,

seria isso tomado como declaração de guerra. Meu pai

dissera-me: Enquanto não te fizerem mal, não os

contraries. Precisamos deles. Demais, não lhes vejosinais de ferocidade. O rei fez então a meu pai aceno para que se aproximasse. Um selvagem trouxe outro

laço. o chefe atou uma ponta no braço de meu pai

e deu-lhe a outra ponta, tocando-lhe a orelha. Meu pai

tocou no liame e atou-o ao braço do rei, cuja orelha

tocou também. O rei ficou doido de alegria, assim como

todos os seus súbditos, que começaram a soltar verdadeiros uivos, girando à nossa volta numa roda imensa.

Os pequenos selvagens dançavam, eu dançava com

eles; o rei dançou, meu pai também, e o Normando

pulava como sabia. pusemo-nos os três de novo a rir, o que contagiou os selvagens e o rei.

O Sr. de Rosbourg, a rir – Lembro-me efectivamente desa dança absurda, Apesar de toda a tristeza

que sentia, achava-me tão ridículo, ao Normando tão patusco, e ao rei, preso ao meu braço daquela maneira e pulando como um garoto, um ar tão cómico, que me senti tomado de riso louco. Ainda hoje rio, só de recordar.

Paulo, continuando – Foi o meu pai que pôs termo àquilo, parando e gritando: Basta! Basta por hoje, grandes selvagens! A voz dominou o tumulto e toda a gente parou. Eu sentia fome; meu pai, por um sinal, disse ao rei que precisávamos de comer. Mune chak, exclamou logo o rei. Pri. s kanin, responderam os selvàgens, e dispersaram-se, correndo. Dentro em pouco tempo voltaram, trazendo bananas e outros frutos para mim desconhecidos, nozes de coco e peixe seco. Comemos com grande apetite: os selvagens sentaram-se aqui e além, formando pequenos círculos. Só o rei e os pequenos tomaram parte na refeição.

O rei, ao ver-nos tirar facas do bolso; olhou atentamente, curioso do emprego que daríamos àqueles objectos estranhos. Quando nos viu cortar o peixe, as bananas e outros frutos, mostrou-se muito admirado. Meu pai quis ensinar-Lhe a cortar uma banana, mas ele recusou. retirava a mão, com receio, e olhava ora para as mãos de meu pai, ora para as minhas,

ora para as do nosso companheiro, surpreendido por as não ver cortadas como os frutos e o peixe, Rêg: te, rêgite, repetia. O que significa: Isto corta.

Acabada a refeição, levantou-se o rei e pôs-se a caminho com meu pai, sempre ligado a ele; seguia-os eu entre os dois pequenos selvagens, meus amigos; depois o Normando. Não percas de vista o Paulo – dissera-lhe meu pai. – A minha dignidade impede que me volte para trás. confio-te a ti. Segue-o de muito perto e não permitas que os naturais se aproximem dele.

– Vá descansado – respondeu o Normando. Este pequeno, para mim, é como se fosse filho do meu comandante. Enquanto o puder ter debaixo de vista, não há perigo.

Caminhámos durante muito tempo. Os meus dois

pequenos companheiros iam-me dizendo algumas palavras na sua língua que eu, com o andar do tempo,

aprendi a pronunciar tão bem como eles. Não é muito

difícil, mas faltam-lhe muitos termos. No entanto,

como é bem de ver, só algum tempo depois consegui perfeitamente entendê-los e fazer-me entender

nessa língua estranha.

Chegámos, finalmente, a uma espécie de aldeia

formada de choupanas baixas, mas bastante limpas.

Ao longo da aldeia corria um regato. Cada choupana era dividida em duas partes distintas, numa das

quais vivia o chefe de família e os filhos já crescidos,

e, na outra, as mulheres e crianças. Os rapazes, aos

oito anos, deixam o quarto das mulheres, e gozam

então os direitos dos homens; vão à caça, aprendem

o manejo do arco e o da clava; ensinam-lhes a fazer

setas e armas, a preparar peles para vestir, a construir choupanas, e outros misteres que às mulheres

são vedados. Ao chegar, vimos produzir-se grande

agitação entre os naturais. Pareciam discutir uns com

os outros, enquanto as mulheres e as crianças saíam

das choupanas, nos cercavam, me examinavam e tocavam. Os meus dois amigos; porém, quando me viram

alvo dessa curiosidade demasiada, começaram a afastar

os importunos, mimoseando-os com socos e pontapés.

E logo eu me pus a imitá-los, o que lhes causou riso,

assim como aos contemplados, que foram os primeiros

a aplaudir. Após longa deliberação, o rei deu a entender

a meu pai, por sinais, que, como cada choupana não

comportava mais ninguém, construiriam uma para nós

ao nascer do Sol do dia seguinte; entretanto, cedia-nos

ele a sua, ficando aquela noite na de um chefe amigo

de visita na aldeia. Dito isto, cortou com os dentes o

meio da fita que o ligava a meu pai, desfez o nó no

braço deste e beijou a ponta, pondo a fita ao pescoço de

meu pai; com grande satisfação do chefe, meu pai imitou-o. Os pequenos selvagens procederam da mesma forma e eu também. Agradou-me ver-me livre. Paulo -disse meu pai-, podes sem receio ficar com os teus amigos; eu vou com o Normando buscar madeira para construir a choupana. Não quero que esta gente trabalhe para mim, como se eu fosse uma mulher. Anda caf, meu Normando; mostremos-lhe o que valem os machados e os braços que os empunham.

O Sr de Rosbourg – Ora vejam o que fez a eloquência do Paulo; passou há muito a hora de deitar, e Margarida ainda tem os olhos tão abertos como as escotilhas da minha pobre fragata. No entanto, não me parece mal deixar o fim para amanhã. Concordam?

A Sr de Rosbourg – São horas, na verdade; Paulo deve estar fatigado. Amanhã ouviremos o resto da interessante narrativa. Vão-se deitar, meus filhos.

O Sr. de Rosbourg- Não sonhem com naufrágios e selvagens!

Margarida despediu-se da mãe e de todos; depois veio ter com o pai e pegou-Lhe na mão.

O Sr. de Rosbourg – E para mim não há um beijo? Margarida – Agora, não, Depois.

O Sr. de Rosbourg – Depois? Então não te vais deitar como os teus amigos?

Margarida – Vou, sim; mas o paizinho leva-me ao colo, reza comigo, e eu adormeço, como ontem, com as minhas mãos nas suas.

O Sr. de Rosbourg, enternecido, beijou-a e pegou nela Gomo na véspera, viu-a meter-se na cama, acompanhou-a nas suas orações e continuou a rezar ainda depois de a filha ter adormecido; limpou as lágrimas de grata alegria, que dos seus olhos tinham corrido, molhando uma das pequeninas mãos daquela filha tão boa, tão terna e tão encantadora.

 

VIDA ENTRE SELVAGENS E LIBERTAÇÃO

No dia seguinte, as crianças não falavam senão

do naufrágio e dos selvagens, da coragem do Sr. de

Rosbourg e da sua bondade para com Paulo.

Paulo-disse Margarida -, és e serás sempre meu irmão, não é assim? Gosto tanto de ti, depois

do que nos contaste! Tens amor ao meu pai como

se fosse teu pai a sério, e ele também gosta tanto de

ti! Nota-se bem isso quando fala contigo ou te olha.

Paulo – Hás-de ser sempre a minha irmãzinha

querida, visto termos o mesmo pai:

Margarida – Dize-me, Paulo, é verdade então

que o teu pai, que morreu, não gostava de ti?

Paulo – Não devia falar disso, Margarida, visto

que o nosso pai mo proibiu; mas considero-te minha

irmã e minha amiga, e quero que saibas todos os meus

segredos. Não, meu pai não me tinha afeição, nem

minha mãe tão-pouco. quando não vivia ainda com

Sofia, aborrecia-me muito. estava sempre junto dos

criados que me tratavam mal, sabendo-me sem protecção. Quando me queixava, minha mãe chamava-me

importuno, acusava-me de nunca estar satisfeito. Meu

pai dava-me uma sapatada e punha-me fora da sala,

dizendo que eu não era nenhum príncipe, para toda

a gente se pôr de joelhos diante de mim.

Margarida – Pobre Paulo! Viveste então feliz

com meu pai? Ele é tão bom!

Paulo – Vivi contente como mal imaginas! Meu

pai, ou antes nosso pai, é o melhor dos homens. Os

próprios selvagens tinham mais estima e respeito por

ele que pelo seu próprio rei. Vê tu como o estimarei

eu; que nunca me separava dele e a quem ele amava

como te ama a ti.

Margarida – E como se explica que o Normando

não ficasse convosco?

Paulo – Sabê-lo-ás esta noite.

Margarida – Oh, meu querido Paulo, dize-mo

já, di-lo à tua irmãzinha!

Paulo, beijando-a e rindo – És uma irmãzinha

que eu muito estimo, mas que é uma rabina curiosa e

que deve habituar-se a ser paciente.

Quis Margarida insistir, mas Paulo fugiu-lhe. Ela

correu atrás dele e chamou em seu socorro Tiago,

que encontrou numa alameda do jardim. Puseram-se

ambos a correr atrás de Paulo, que se lhes furtou

com agilidade surpreendente; Sofia, João, Camila,

Madalena e Leão tinham-se juntado àqueles e todos

queriam ver quem o alcançava. Algumas vezes se

encontrou Paulo em perigo tal de ser apanhado, que

todos gritaram: já o agarrámos! não se pode escapar! mas, no momento em que lhe iam a deitar a mão, dava um pulo e desaparecia com a rapidez do veado, perante

o espanto das crianças. Voltaram finalmente ofegantes

para o seu jardinzinho e ficaram admirados por já lá

encontrarem Paulo.

-Corres como um verdadeiro selvagem – disserám-lhe Sofia e Margarida. – É espantoso que conseguisses escapar-nos.

Paulo – Foi entre os selvagens, com efeito, que

aprendi a correr, a evitar os perigos, a reconhecer a

aproximação do inimigo. Mas vocês não ouvem a sineta

que toca para o jantar? O meu estômago já estava à

espera do convite.

Margarida – E acabas de contar a história esta

noite, acabas?

Paulo – Sim, irmãzinha, prometo-te.

Correram todos para o castelo, onde os aguardavam já para se sentarem à mesa.

Depois do jantar, após um pequeno passeio, que

as crianças consideraram muito demorado e que os pais

abreviaram, compadecidos das queixas delas e dos

variados males que pretextavam, voltaram ao castelo,

ocupando cada um o lugar da noite anterior. Margarida

não se esqueceu do lugar dela: sentou-se nos joelhos

do pai, passando-lhe os bracitos em volta do pescoço.

– Ficámos ontem – disse Paulo – naquele momento em que meu pai chamara o Normando para

cortar algumas árvores e construir a choupana. Os

selvagens tinham começado já a trabalhar, lacerando

lenta e penosamente as árvores com pedras cortantes

e conchas afiadas. Meu pai e o Normando chegaram

junto deles, afastaram-nos, empunharam os machados

e abateram uma árvore com duas ou três machadadas.

Os selvagens ficaram algum tempo imobilizados pela

surpresa; mas, à segunda árvore abatida; correram

gritando, para a aldeia, voltando depois e, com eles

o rei e o chefe amigo que viera visitá-lo. Meu pai e o

Normando continuaram o seu trabalho. A cada árvore

que caía, os chefes aproximavam-se, examinavam e

tocavam a parte cortada, e depois afastavam-se,

olhando com admiração o trabalho dos seus novos

amigos. Quando todas as árvores necessárias estavam

por terra, descascadas e preparadas para o efeito, meu

pai e o Normando convidaram os indígenas, por sinais,

a transportarem as árvores, que começaram a ser arrastadas para a aldeia no meio de grandes gritos que

atraíam as mulheres e as crianças. Explicaram-lhes

a causa do tumulto, o que as excitou e fez aumentar

a gritaria.

Quando todos os troncos foram levados para o

lugar destinado à construção, meu pai e o Normando

servindo-se dos machados à maneira de malhos, enterraram

no chão estacas aguçadas; formando assim os lados da cabana. Feito isto, começaram a cobri-la com as copas dos coqueiros abatidos, dispondo as folhas de maneira a caírem para os lados, e ligando-as às estacas. Taparam depois com musgo, folhas e terra húmida os imtervalos e buracos existentes entre os troncos. Ajudei-os nessa tarefa; os meus pequenos amigos selvagens quiseram também ajudar-nos e ficaram encantados com o resultado. Só faltava fazer a porta. Meu pai foi cortar alguns ramos compridos e delgados e pôs-se a entrelaçá-los; depois de os entrelaçar em quantidade suficiente, ele e o Normando tiraram as facas do bolso e puseram-se a aparar e a acertar as hastes, conseguindo assim uma porta do tamanho correspondente à abertura que tinham deixado. Firmaram-na nas estacas, como se prende a tampa de um cesto. Os selvagens que, até então, tinham assistido tranquilamente, não puderam conter neste momento a alegria e a admiração; andavam em volta da casa, entravam nela, fechavam e abriam a porta como se fossém crianças de dois anos. O rei aproximou-se de meu pai, esfregou a sua orelha na dele, e deu-lhe a perceber que queria para si aquela casa. Meu pai compreendeu, levou-o pela mão até dentro da choupana, saiu e fechou a porta atrás de si. O rei mostrou a maior satisfação e começou, com os súbditos, a girar em redor da sua nova morada. Fez saber por sinais a meu pai que naquela noite a casa serviria aos seus amigos e que tomaria conta dela só no dia imediato. Meu pai explicou-lhe que faria outro quarto para as mulheres e as crianças, o que aumentou de júbilo o rei. O chefe, seu amigo, olhava a choupana com ar de tristeza e inveja, mas, de repente, o rosto tomou-lhe aspecto prazenteiro e disse algumas palavras ao rei, que lhe respondeu: Tanss, uansi ravine. Então o chefe aproximou-se do Normando, esfregou a sua orelha na dele, e olhou-o com ar inquieto: Meu comandante – disse o Normando-, não gosto nada desta espécie de cumprimento. Não simpatizo também com o homem! que vá para o diabo mais a sua orelha!

– Não o irrites, meu Normando. Corresponde ao cumprimento: Se eles se zangam, têm a vantagem de ser mil contra um; mesmo que cada um de nós matasse um cento deles, ainda ficavam mil e oitocentos, e, mortos nós, seria Paulo também vítima da tua repugnância.

-Tem razão, meu comandante, tem razão. Pôs-se a esfregar a orelha na do selvagem e ia dizendo: Vá lá, diabo vermelho, aí tens a minha orelha de cristão que vale mais que a tua orelha!

<O chefe mostrou-se tão satisfeito como ficara o rei, e deu uma ordem; logo um selvagem trouxe o laço de amizade; o chefe atou o seu braço ao do Normando, como fizera o rei cõm meu pai. O nosso companheiro mostrava, porém, descontentamento e repugnância. Meu comandante-disse ele-, se não fosse para lhe obedecer, nunca me deixaria ligar a este herege. Não me sai da cabeça que isto dá mau resultado. Possa eu ficar junto do senhor e de Paulo, para os servir dedicadamente aos dois! Nada mais peço a Deus. Meu pai apertou a mão ao bom Normando e eu beijei-o; os meus pequenos amigos, que me imitavam em tudo, quiseram também beijá- lo. Ele ia a escorraçá-los num gesto de cólera, quando eu intervim: Meu bom Normando, meu amigo, não os trates mal; lembra-te de que são muito meus amigos.

Pobre Normando! Como vejo ainda o rosto mudar-lhe de expressão ao ouvir as minhas palavras, e o olhar de carinho que me deitou ao beijar aqueles pequenos selvagens com a ponta dos lábios!

Entretanto, tinham trazido a refeição da noite. Toda a gente se sentou formando pequenos círculos, como de manhã; eram as mulheres que nos serviam. Os meus pequenos amigos puseram-me no meio deles, em frente de meu pai, que ficara entre o rei e o Normando, ligado ao chefe. Depois da ceia, que comi com

grande apetite, o chefe soltou Normando, que teve de pôr a fita à volta do pescoço, e todos se retiraram para dormir. Mas viam-se ainda depois aparecer cabeças às portas das cabanas. Paulo -disse meu pai-, agradeçamos a Deus, antes de nos deitarmos, o que fez por nós; depois de nos ter salvo do naufrágio encaminhou-nos para uma tribo de boa gente, onde viveremos sossegados até se nos deparar possibilidade de sermos embarcados por europeus, o que, espero, há-de acontecer breve. Rezemos também pelos que morreram.

<E, pondo-nos de joelhos à porta da nossa cabana, dissemos o Padre-Nosso, a Ane-Maria, o Credo e o De Profundis, depois do que meu pai rezou sòzinho em voz baixa. Levantou-se, quando acabou, pôs-me a mão na cabeça, e disse:

– Meu filho, abençoo-te. Que Deus te conceda a graça de nunca renegares por palavras ou actos, e de seres sempre bom cristão. Beijou-me e eu chorei muito tempo abraçado a ele. Antes de entrarmos vimos todos os selvagens à porta das cabanas olharem-nos com curiosidade, em silêncio. Entrámos, e o Normando fechou a porta. Devíamos ter aqui fecho,

meu comandante. Com estes hereges do diabo nunca a gente sabe se está seguro ou não. Meu pai sorriu,

prometeu-Lhe que no dia seguinte faria um fecho para a porta. eu estendi-me entre os dois e não tardei a adormecer. Os meus dois companheiros, que não dormiam havia dois dias, por assim dizer, adormeceram também. De noite ouvi ressonar o Normando e ouvi também meu pai falar em sonhos. Margarida! Margarida! minha mulher! minha filha!

No dia seguinte, meu pai e o Normando cumpriram o prometido ao rei, fazendo na casa um segundo compartimento; depois construíram outra cabana para

nós. O rei, com impaciência de se instalar no novo palá cio, mandou levar para lá, sem demora, as esteiras e cabaças que constituíram a sua mobília; tinha também

algumas nozes de coco com entalhados, conchas trabalhadas, setas, arcos e clavas. Meu pai fez uma espécie de pregos de madeira que enterrou nos interstícios dos troncos e dos quais suspendeu as armas e os outros tesouros do rei, que ficou tão encantado, que chamou todos os seus súbditos para admirarem aquilo: A consideração daquela gente por meu pai, tão grande já, aumentou ainda depois desse exame. Os naturais não podiam perceber como é que os pregos se seguravam; meu pai, vendo a perplexidade deles, afiou um pedaço de madeira à vista de todos e enterrou-o numa fenda, com grande surpresa e contentamento daquela gente. Eu auxiliei a construção da nossa nova cabana que ficou melhor que a primeira. O rei, ao vê-la pronta, manifestou claramente a sua preferência, mas meu pai quis ficar com ela para si durante os cinco anos que ali permanecemos. No dia seguinte, fizeram-se bancos e uma mesa; depois foi o chão atapetado com grandes folhas de palmeira, de efeito agradável. Logo no primeiro dia fez meu pai também uma cruz, que pôs junto da soleira da porta e diante da qual, de manhã e à noite, nos ajoelhávamos para rezar. Aos domingos e dias santos, cantávamos hinos religiosos que ele me foi ensinando. Os selvagens, que a princípio nos olhavam de longe, quiseram, conforme os dias iam passando, imitar-nos; ensinei aos meus dois amiguinhos os versos que cantava; a princípio pronunciavam muito mal, o que nos causava riso, mas com o andar do tempo acabaram por cantar tão bem como nós. Como já disse antes, ensinámos-lhes pouco a pouco a falar francês, e eles ensinaram-nos a sua língua; acabámos por nos compreender perfeitamente.

Margarida-Oh! Dize-nos alguma coisa na língua dos selvagens, Paulo!

Paulo – Pelká mi hane, ku, ru, glu.

Camila – Que bonito! Tão suave! Que quer dizer?

Paulo – Quer dizer isto Nunca te abandonarei, amiguinha do meu coração.

O Sr. de Rosbourg – Bra se ni kujiche, ná ne haprá:

Pauio – Não, meu pai! nunca! juro-lho!

Margarida – Que te disse o pai?

Paulo – Disse-me assim: Quando fores grande, esqueces-nos. Ora eujuro nunca vos deixar nem esquecer. Separar-me de vós, seria sofrer ou morrer.

Margarida, apertando-lhe as mãos – Querido Paulo, como gosto de ti!

Paulo – E eu! Se soubesses o amor que tenho por ti, por meu pai e por. (voltando-se para a Sr.a de Rosbourg) minha mãe! Permite-me que a trate assim?

A Sr.a de Rosbourg, apertando-o nos braços-Sim, meu filho, meu querido Paulo, serás para mim um filho e eu serei tua mãe.

Paulo, após um momento de silêncio, prosseguiu:

– Antes que chegássemos a fazer-nos compreender pelos naturais, aconteceu-nos uma grande desgraça, que profundamente nos impressionou. Levaram-nos o nosso bom Normando.

Tiago – Como? Quem? Porque o deixastes levar? Paulo – Não pudemos, infelizmente, impedi-lo. Já lhes contei que o chefe amigo de visita ao rei estabelecera laço de amizade com o Normando. Disse-Lhes que este mostrara repugnância em consenti-lo, que se deixara ligar ao braço do chefe por obediência ao comandante. Ignorávamos ainda então que, quando alguém se deixa ligar a outra pessoa, se compromete a ser seu amigo, a protegê-lo e a defendê-lo em todos os perigos. É que, cortado o laço de amizade e posto ao pescoço, surgia o compromisso de nunca mais se separarem os dois amigos, acompanhando-se um ao outro para toda a parte. Alguns dias depois da chegada, o chefe preparou-se para regressar à sua ilha; uns quatrocentos ou quinhentos dos seus súbditos vieram buscá-lo. Fez-se uma refeição de despedida, à qual o rei compareceu ligado ao braço de meu pai, o Normando ao do chefe, e eu ao dos dois pequenos selvagens. Não nos passava pela cabeça que esta cerimónia, simples brincadeira para meu pai, nos separaria do companheiro. Após a refeição, os chefes cortaram os laços e ataram-nos à roda do pescoço, fazendo o mesmo eu e os meus amiguinhos. Todos se levantaram. O Normando quis voltar para junto de meu pai; mas o chefe enfiou o braço no dele e arrastou-o lenta e agradàvelmente para o mar. O mesmo fez o rei ao meu pai, e assim acompanhámos o chefe dos selvagens até à praia. Depois do último adeus ao chefe, o Normando quis retirar o braço; o chefe impediu-lho; o Normando deu-Lhe um empurrão, mas ele não o largou. No mesmo instante, duzentos ou trezentos selvagens precipitaram-se sobre ele, deitaram-no a terra, prenderam-no de pés e mãos e levaram-no para a canoa do chefe. Meu pai quis correr em seu socorro, mas, em menos de um segundo, deitaram-no também ao chão; ataram-no e levaram-no: Meu pobre Normando! Meu pobre Normando! – gritava meu pai. O Normando não respondia, os selvagens tinham-no amordaçado. Paulo, meu filho-gritou finalmente meu pai-, não me deixes. Fica perto de mim para que eu te veja. Corri para ele: quiseram repelir-me, mas os pequenos selvagens falaram com ar zangado, puseram-se perto de

mim eu fiquei junto de meu pai. Comecei a chorar; os pequenos limparam-me as lágrimas e esfregaram as suas orelhas nas minhas; numa palavra, aborreciam-me e eu calei-me para não ser objecto das consolações. 1 Meu pai foi, então, levado para casa. O rei veio pôr- se de joelhos ao lado dele, fazendo gestos de súplica e mostrando-Lhe a sua amizade de tão comovente maneira, que meu pai, enternecido, olhou finalmente para o rei e sorriu-lhe com ar bondoso e afável. O rei compreendeu, pulou de alegria e soltou uma das mãos de meu pai, olhando-o fixamente. Tranquilizado pela imobilidade dele, soltou-lhe a outra mão e depois as pernas. Vendo que não fugia, mostrou-se tão ruidosamente satisfeito, que meu pai, aborrecido, pegou-Lhe no braço e empurrou-o para fóra da porta, com um sorriso e uma inclinação de cabeça amigáveis: Fechou a porta e ficámos os dois sós. Pobre Normando! exclamou meu pai. – Porque o obriguei eu a aceitar aquele maldito laço cujas consequências ignorava? Agora compreendo que, segundo a crença do chefe, o nosso companheiro nunca mais deve abandoná-lo. Pobre Paulo! É menos um amigo e um protector que tens!

– Meu pai – respondi- lhe-, de nada e de ninguém preciso, enquanto o tiver a si junto de mim. Mas tenho pena do nosso Normando: é tão bom e estima-o tanto

– Nós havemos de o encontrar-disse meu pai.

– Deus não nos há-de deixar para sempre dependentes destes selvagens! É muito boa gente, mas aqui não é a França nem eles são franceses. E a minha mulher! a minha filha! Que dor não as ver!

A partir daquele dia, passámos parte do tempo na praia, na esperança de avistarmos um navio que viesse àquelas paragens; enquanto olhávamos o mar, não perdíamos tempo; meu pai cortava árvores, preparava-as e ligava-as às outras, esperando chegar a fazer um barco bastante grande para nele irmos com provisões suficientes à procura da linha de navegação.

Não podia ajudá-lo grande coisa: mas, enquanto trabalhava, eu ia aprendendo a ler as letras que me traçava na areia. Teve a paciência de me ensinar a ler e escrever por este processo. Ao fim de algum tempo, já traçava letras e palavras. Mais tarde, o meu bom pai, servindo-se de grandes folhas de palmeira, escreveu-me histórias e desenhou mapas. Assim fui aprendendo o catecismo, a história, a geografia e a gramática. Conversávamos por vezes horas seguidas. Nunca me fatigava de o ouvir falar. É tão bom, tão paciente, tão alegre e instruído! De tal modo me ensinou a amar Deus, a ter confiança na Sua bondade, a oferecer-Lhe todos os pesares, a considerá-los expiação dos meus erros, que me sentia sempre contente e sereno, mesmo no sofrimento, tão certo estava de que Deus tudo dispunha para o meu maior bem, e que, pelo sofrimento; obtinha o perdão dos meus pecados. Que belas orações

rezávamos de manhã e à noite aos pés da cruz! Com que fervor cantávamos hinos religiosos! Oh meu pai, meu pai! Quanto vos agradeço o ser feliz, apesar dos nossos sofrimentos e pesares! As vossas palavras e exemplos devo o saber hoje amar a Deus e viver como cristão.

Houve ainda uma pequena interrupção, depois da qual Paulo continuou a narrativa: Assim ficámos cinco anos intermináveis à espera de um navio que não aparecia, e sem notícias do pobre Normando. No ano que se seguiu ao da sua partida, voltou o chefe a visitar o rei; meu pai falava já correctamente a língua e pediu-lhe notícias do nosso amigo. O chefe; com ar triste, respondeu que o perdera; nunca se decidira, contou ele, a fazer-lhe uma casa como a que edificáramos ao

rei, e mantínha-se triste, alheado, silencioso, não querendo auxiliá-lo em nada, recusando servi-lo com o machado. um belo dia, tinha, finalmente, desaparecido e nunca mais o encontrara; era provável que tivesse fugido numa canoa e que tivesse morrido afogado, ou houvesse sucumbido de fome ou de frio. Sentimo-nos muito tristes ao ouvir o que nos contava o chefe. O rei então referiu- lhe tudo quanto o meu pai lhe ensinara e entoou os cânticos religiosos que aprendera. O chefe ouviu-o e pediu de repente ao rei que lhe desse meu pai. Como o rei, encolerizado, repudiasse a proposta, zangou-se, e começaram ambos a injuriar-se; o chefe exclamou, enfim: Pois bem! Já que te rccusas a ceder-me o teu amigo, ele não será para um nem para outro. E levantou a sua maça para matar meu pai; eu, atento aos seus movimentos, atirei-me ao braço dele e dei-lhe uma dentada com quanta força tinha. O chefe agarrou em mim e atirou-me ao chão com tal violência, que perdi os sentidos; mas a minha intervenção bastara para dar tempo a que meu pai lhe abrisse a cabeça com uma machadada. Não assisti ao que depois se passou. Contou-me meu pai que houve um terrível combate entre os selvagens das duas tribos e que os da tribo do chefe foram todos dizimados; meu pai, soube-o depois, foi prodigioso de coragem e energia. Eu fora, entretanto, transportado para a nossa cabana. Acabado o combate, meu pai veio tratar-me. Sangrou-me com a ponta da faca; voltei a mim, com grande surpresa do rei. Fiquei doente múito tempo, e meu pai nunca me abandonou. Quando acordava e chamava, sorria logo, falando-me com a sua voz mais suave; tratando-me com delicada ternura. Depois de Deus é a ele que, com toda a certeza, devo a vida. Restabeleci-me; mas crescera tanto, que me foi impossível vestir o casaco e as calças que até então usara. Meu pai fez-me uma blusa comprida, espécie de túnica de tecido de algodão de fabrico indígena, muito confortável e menos quente que o meu fato anterior; ele mesmo adoptou vestuário semelhante, reservando o uniforme para os domingos e dias de festa. Andávamos descalços como os selvagens, segurando a túnica com cintos de esparto, a que prendíamos as facas, e meu pai o seu machado. Na areia, à beira-mar, enterrávamos uma espécie de mastro, no cimo do qual meu pai atou uma bandeira feita de folhas de palmeira, de diversas cores. A bandeira, por cima da qual se agitava um lenço branco, indicaria aos navios que passassem haver ali náufragos à espera de que os viessem socorrer. Um dia-grande dia foi! -ouvimos estranho rumor para o lado do mar. Meu pai pôs-se à escuta, mas logo um tiro de canhão ressoou distintamente. É impossível referir-vos a profunda alegria que sentimos. Corremos à praia, onde meu pai agitou o chapéu; a cem metros de nós, deparava-se-nos um belo navio. Quando nos viram de bordo, deitaram um escaler ao mar, para o qual desceram uns vinte homens; era um navio francês, o Invencivel, do comando do capitão Duflot. Os selvagens, atraídos pelo barulho, tinham acorrido à praia, em grande multidão. Logo que o escaler se aproximou; meu pai gritou- lhes que podiam desembarcar sem

receio. Depois de mais algumas remadas, os homens, que tripulavam o escaler saltaram em terra; meu pai lançou-se nos braços do primeiro, e vi correrem-lhelágrimas dos olhos. Disse quem era e resumiu em poucas palavras a história do naufrágio. Trataram-no com a maior deferência e declararam-se às suas ordens.

Ele perguntou se o navio tinha demora. O guarda-marmha, que comandava a embarcação, respondeu que precisavam de água e víveres. Meu pai prometeu-lhes bom acolhimento, água, frutos e peixe com abundância. Os homens ficaram em terra, e o escaler voltou ao navio a receber ordens do capitão. Momentos depois vimos o capitão en pessoa descer para o escaler e vir a terra. Logo que desembarcou, cumprimentou muito amigàvelmente meu pai, que o tomou pelo braço; conversando, dirigimo-nos todos para a aldeia; encontrámos no caminho o rei que acorria a ver o maravilhoso navio de que os seus súbditos já lhe tinham ido falar. Esfregou a sua orelha na do capitão, ao qual meu pai explicou ser aquilo sinal de boa amizade. O capitão, rindo, correspondeu. O rei examinava-lhe atentamente a farda e as armas, fazendo o mesmo à guarda que o acompanhava. Os selvagens, maravilhados, cercavam os marinheiros, corriam e gesticulavam. Chegámos à aldeia. Meu pai mostrou a sua casa, que o capitão muito convictamente admirou; era, na verdade, maravilhoso ter sido possível fazer tudo aquilo com um simples machado e uma faca – mais tarde vos falarei dos móveis e utensílios caseiros que meu pai conseguira e de tudo quanto ensinara áos selvagens.

Meu pai perguntou ao capitão se tencionava embarcar antes do pôr do Sol. Não, não era possível em menos de vinte e quatro horas encher de água os depósitos e transportar os víveres para bordo. Acedeu o meu protector, com algum Pesar; desejava tanto voltar a ver a pátria, a mulher e a filha! A mim, era-me indiferente. estimava-o acima de tudo. estando junto dele, em qualquer parte me sentia bem, era só ele, segundo supunha então, a única pessoa que tinha no Mundo.

Sofia – E os pequenos selvagens que tanto gostavam de ti?

Paulo – Também eu Lhes tinha amizade, mas passara cinco anos na ideia e na esperança de os deixar, e depois eles eram pròpriamente mais escravos do que amigos; obedeciam-me servilmente e nada exigiam em troca; aceitavam todas as minhas ideias e nunca me falavam das suas. numa palavra, aborreciam-me. apesar de tudo, custou-me à separar deles; causou-me pena o grande desgosto que mostraram com a minha partida. Verás isso daqui a pouco.

meu pai foi dizer ao rei que o chefe branco, seu irmão; pedia água, peixe e frutos. Mostrou-se o rei muito contente por obsequiar meu pai, dando ao seeu compatriota o que ele pedia. Uns selvagens começaram logo a colher frutos da região (havia-os excelentes e desconhecidos na Europa), outros a pescar peixes para meter na salmoira. Serviu-se uma refeição, na qual toda a gente tomou parte; quando acabámos de comer, meu pai anunciou ao rei a nossa partida no dia seguinte. Ao ouvir isto, o rei mostrou-se consternado. Começou a soluçar, prostrou-se diante do meu pai e suplicou-Lhe que não partisse. Os pequenos selvagens começaram a soltar gritos aflitivos. Quando os outros souberam o motivo daqueles gritos, rebentou de todos os lados enorme clamor; viam-se muitos naturais rojar-se no chão e arrastar-se até aos pés de meu pai, que beijavam e cobriam de lágrimas. Ele ficou tão comovido com estas manifestações de afecto, que lhes prometeu voltar um dia, trazendo-Lhes machados, facas e outros instrumentos úteis; entretanto, daria ao rei o seu próprio machado e a faca, e pediria ao seu irmão branco algumas outras

armas e objectos de uso que seriam distribuídos no momento da partida. Conseguiu, enfim, acalmar um pouco aquele tão grande pesar. O capitão propôs a meu pai que fôssemos ficar a bordo, prevenindo assim qualquer intenção dos selvagens nos mostrarem a

sua afeição, raptando-nos de noite e levando-nos para o interior das terras: Meu pai respondeu que ia precisamente pedir-lho. Quando os selvagens nos viram dirigir para a praia, soltaram verdadeiros úivos de dor; o rei rojou-se aos pés de meu pai e suplicou-lhe, nos termos mais comovedores, que não o abandonasse. pai! que hei-de eu fazer sem ti? – dizia.

– Quem me ensinará a rezar ao teu Deus, a ser justo, a encontrar o caminho do teu céu? Então nunca mais

te hei-de ver? pai! fica com os teus irmãos, os teus filhos, os teus escravos! Sim, nós todos somos teus escravos, toma as nossas mulheres, os nossos filhos para te servirem; leva-nos para onde quiseres, mas não nos abandones, não nos deixes morrer de tristeza longe de ti

Depois deste discurso, os pequenos selvagens falaram-me nos mesmos termos, oferecendo-se-me como escravos, e prometendo-me ficar eu a governar em vez deles, depois da morte do rei.

Meu pai e eu sentimo-nos comovidos, mas mostrámo-nos inabaláveis. Prometendo-lhes voltar no dia seguinte, subimos para o escaler. O belo rosto de meú pai tornou-se radioso quando se viu no mar, na embarcação francesa e cercado de franceses. Não proferia palavra; eu olhava-o e, só porque o conhecia bem, vi que rezava. Também agradeci a Deus, não a minha felicidade, que ainda então não podia compreender, mas a dele. A alegria de o ver contente encheu-me de tal maneira o coração, que fui ingrato para com os selva gens.

– Meu bom Paulo – interrompeu o Sr. de Rosbourg, apertando-lhe fortemente as mãos-, não seria

capaz de exprinir quanto me comove a tua estima, mas

tenho de chamar-te à ordem, lembrando que prometeste nada omitir; ora eu esperei muito pacientemente, mas em vão, a narrativa de dois acontecimentos que não esqueceste, por certo, visto ter estado então em perigo a minha vida. Quero ouvir-te agora contar esses dois episódios.

– Oh meu pai – volveu-lhe Paulo, corando-, é coisa tão pouca, que não merece ser referida.

O Sr. Rosbourg – Ah, Chamas pouca coisa aos dois maiores perigos que corri!

Margarida – Quê? Que perigos? Conta, Paulo.

Paulo – Diz-se em poucas palavras. uma vez, meu pai foi mordido por uma serpente, e os selvagens curaram-no; de outra vez, esteve doente muito tempo, e os selvagens também o curaram.

O Sr. Rosbourg – Essa agora, meu rapaz! Estás a rir-te à nossa custa, contando em tão poucas palavras tais coisas. Visto que tão mal contas, tomo eu a palavra. Ora oiçam. (Paulo sorri e cruza os braços com ar resignado). Certo dia, caminhávamos na floresta. estava muito calor. para poupar as botas, já muito usadas, andava descalço. Paulo trazia uma espécie de sandálias de folhas de palmeira.

Paulo – Que meu próprio pai me fizera. O Sr. de Rosbourg – Sim que eu Lhe fizera. Vejam a grande coisa!

Para encurtar razões, estava descalço. Pisei uma serpente que me mordeu: Disse-o a Paulo, e corremos para o mar a fim de lavar a ferida. A meio do caminho senti uma vertigem, as forças abandonaram-me. Caí, e, ao ver a perna negra e inchada, julguei que ia morrer. Paulo ouvira dizer aos selvagens que sugar a mordedura da serpente era remédio certo, mas que expunha quem o fizesse a perigo de morte. O meu dedicado Paulo (tinha então dez anos) deita-se no chão junto de mim e suga a mordedura. A medida que o fazia, sentia-me eu voltar à vida; a cabeça tornava-se firme; as dores na perna desapareciam. Voltei a mim; levantei-me; o meu primeiro pensamento foi para Paulo, que não via ali. Calculem o meu espanto quando vi o meu Paulo, o meu filho, sugando com energia aquela terrível mordedura e dando assim a vida para me salvar! Soltei um grito, agarrei-o; ele debateu-se, suplicando que o deixasse continuar. Meu pai, meu pai – gritava ele-, pouco falta; deixe-me acabar, deixe-me salvá-lo. Deixe, meu pai. De tal maneira se debateu, que me escapou; eu tive outro desmaio, e ele aproveitou-o para sugar o resto do veneno. Quando recuperei os sentidos, pude ir até ao mar, apoiado ao ombro do meu pequeno salvador. Enquanto banhava a perna, quase de todo desinchada, Paulo correu a avisar os selvagens que foram, por seu turno, avisar o rei; vieram buscar-me, puseram na mordedura não sei que ervas medicinais; dentro de três dias encontrava-me curado. Estive, porém, numa inquietação terrível durante algum tempo, porque a boca e a língua do meu querido Paulo tinham inchado extraordinàriamente. Deram-lhe ervas a mastigar, mandaram-no comer certo marisco, e, ao fim de algumas horas, desapareceu a intumescência e a febre.

Eis um dos acontecimentos esquecidos pelo Sr. Paulo como não sendo digno de referência. Oiçam agora o outro:

Uma noite senti-me mal; a saudade de minha filha, que talvez não tornasse a ver, as apreensões

sobre o futuro de Paulo, enchiam-me de tristeza, tanto mais amarga quanto a escondia comigo, não a querendo dar a perceber a esta pobre criança tão delicada com as minhas tristezas, tão contente com a minha menor alegria. De dia, dissimulava melhor o sofrimento; de noite, porém, durante o sono desta criança; que se me tornara tão querida, entregava-me a ele;

e, confesso neste ponto a minha falta de resignação cristã, passava as noites a chorar e a rezar. Durante quatro anos daquela vida miserável, a saúde resistira; mas, ao fim desse tempo, a força abandonou-me.

Começaram as febres e caí, finalmente, com o que chamamos em França febre tifóide. Durante os setenta e dois dias da doença, Paulo não me abandonou um instante; conservava-se noite e dia à cabeceira da enxerga, atento ao meu acordar, adivinhando-me os desejos. Sòzinho atendeu-me em tudo, tratou-me com o que posso chamar o génio do amor. Ouviu-me falar do valor terapêutico de certo vesicatório, uma planta que os selvagens conheciam. E esta criança de dez anos, vendo-me naquele estado, aplicou- me essa planta nas solas dos pés, nas pernas, nos rins, até eu sentir a cabeça toda aliviada. Durante dois meses, continuou a aplicá-la com a habilidade de um médico, detendo-se quando eu me sentia melhor, tornando a aplicá-la quando piorava; tratava-me as feridas com gordura de peixe; arranjava-me a enxerga, preparando ao lado outra cama de folhas frescas. Mudava-me pouco a pouco de uma para a outra, fazendo deslizar, primeiro, a cabeça e os ombros; depois, os pés. Eu enfraquecera de tal modo, que não podia ajudá-lo em nada. Os selvagens eram tão desajeitados e tão bruscos, que o seu auxílio fazia-me gemer contra vontade; Paulo não permitiu que me tornassem a tocar: Dava-me a beber leite de coco ou água fresca com algumas gotas de limão. Durante toda a minha doença, esteve a cabana limpa e arrumada, como se eu não me encontrasse naquele estado. Todo esse esforço debilitou muito o meu pobre filho, cuja magreza me surpreendeu quando voltei a mim. Como sofri então! Como me censurei por me ter deixado chegár a tal extremo de desânimo tão contrário à resignação própria de um cristão! Como me senti comovido e grato com a dedicação daquela criança, e me deixei prender a ela e à vida por sua causa! Passava horas, dias, semanas, a tratar-me e a rezar, enquanto eu morria de saudade por estar longe de vós, minha mulher e minha filha. Pedi perdão a Deus, pedi-Lhe coragem e mais resignação cristã, e curei- me. Vejam, meus amigos, se tenho ou não tenho razão para amar tanto Paulo como Margarida. Salvou-me duas vezes do desespero, da extrema aflição. E és tu, meu filho, que me agradeces, és tu que pretendes estar em dívida de gratidão! Ah! Paulo, recordas bem o que te fiz, mas esqueces o que te devo.

Dito isto, o Sr. de Rosbourg levantou-se e reuniu, num único e demorado abraço, Paulo e Margarida:

Toda a gente chorava. A Sr.a de Rosbourg, por sua vez, abraçou Paulo e, beijando-o muito, disse-lhe: E ainda perguntavas se podias chamar-me tua mãe! Sim, sou tua mãe. agora e para sempre és meu filho, como eras já de meu marido.

Acalmada a comoção geral, depois de todos abraçarem Paulo, os pais repararam que era tardíssimo, – que a hora de deitar já passara havia muito. Todos se retiraram, e nunca as orações e acções de graças foram mais fervorosas do que nessa noite.

 

Fim NA NARRATIVA DE PAULO

No dia seguinte, as crianças rodearam Paulo,

manifestando-lhe a sua amizade. A fé tão fervorosa,

a gratidão dedicada e viva para o pai adoptivo, a

coragem e modéstia que mostrara, inspiravam às crianças ternura quase respeitosa. Margarida sentia-se

contente por ter um irmão assim; Sofia tinha orgulho

de Paulo ser seu primo e seu amigo de infância.

– Não te esqueças – disse-lhe Tiago, quando

ficaram sós – de que prometeste ser sempre, sempre,

meu amigo.

Paulo – Nunca o esquecerei, podes estar certo,

e por dois motivos: primeiro, por ti próprio e, depois,

porque estimas Margarida, que te ama como irmão.

TiaGo – É verdade! sendo Margarida tua irmã,

sou eu teu irmão!

Paulo – Pois claro, agora somos três em vez

de um!

Tiago – Como tudo isto é estranho! A semana

passada nem sequer te conhecia, e agora és meu irmão.

E o que é ainda mais engraçado é que já gosto mais de

ti que dos meus amigos. Não digas nada, mas eu e

Margarida não gostamos do Leão.

Paulo – E o João? Parece bondoso.

Tiago – o João é excelente rapaz, mas, não

sei porquê, gosto mais de ti do que dele.

Paulo – É porque me conheces há menos tempo e não viste ainda os meus defeitos.

Tiago – O Sr. de Rosbourg diz que não tens defeitos.

Paulo – A sua própria bondade impede-o de ver os defeitos dos outros, e sobretudo dos que ama.

Tiago – Pelo contrário! Vê-os muito bem; notou logo que eu era arreliador, João colérico, e Leão

cobarde e egoísta.

Paulo – Ora espera, meu irmão, vou dizer-te basta! como diz meu pai quando ouve tolices. Deixa lá o pobre do Leão, não andes sempre a dizer mal dele:

Tiago – Mas, Paulo, visto que és meu irmão e meu amigo, posso muito bem dizer-te o que penso. Afirmo-te que, se o não disser a alguém, morro.

Paulo; beijando-o – Então diz. dizê-lo a mim será como se a ninguém o dissesses; eu, pelo meu lado, avisar-te-ei quando disseres ou fizeres alguma coisa que não seja justa.

Tiago – Obrigado, meu irmão. Vejo agora que és meu verdadeiro amigo. Dir-te-ei, portanto, que não só não gosto do Leão, mas que o detesto, que me rio dele tanto quanto posso, que me sinto encantado por Margarida o detestar e que ficaremos ambos contentíssimos quando ele se for embora.

Paulo – Olha, Tiago, achas isso justo? Supões que Deus o vê com bons olhos?

Tiago, depois de reflectir um momento – Suponho que não.

Paulo – Então, se sabes que não. é justo, nada mais tenho a dizer-te. Lembra-te só de que Deus te fará como tu fazes aos outros, com a diferença de que tu nada podes; Deus é todo-poderoso e pode castigar-te; tu não podes fazer mais que desejar mal ao teu primo.

Tiago – É verdade, é verdade! Vou dizê-lo a Margarida. Oh! que admirável irmão nós temos!

E Tiago partiu à procura de Margarida para lhe dizer que devia esforçar-se por estimar Leão.

Paulo, sorrindo, viu-o, partir e disse consigo: É bom pequeno, este Tiago! E que boa e encantadora irmã Deus me deu em Margarida! Sentia-me já muito contente na companhia de meu pai! mas agora sinto-me tão feliz, que a alegria não cabe em mim! Como são todos bondosos e dignos de estima! Camila, Madalena, e a minha pobre Sofia! e João também. Quanto a Leão, Tiago não é de todo injusto, mas não nos esqueçamos do que me repetia meu pai constantemente: Si sempre caridoso, Paulo!

Paulo foi ter com os seus amigos, que o esperavam para fazerem uma visita a Lecomte. O Sr. de Rosbourg partira já para casa dele com a esposa e filha; a Sra de Fleurville, irmãs e irmãos, tinham ido visitar uma pobre família cuja casa fora poucos dias antes devastada por um incêndio; tinham resolvido mandar-lha reconstruir.

– Meu pai partiu sem mim – disse Paulo. Entre os selvagens nunca ele dispensava a minha companhia.

joão – Mas nós não estamos em terra de selvagens; é muito natural que, algumas vézes, saia sem ti.

Leão – Demais, entre os selvagens, só tinha a tua companhia; cá tem a mulher e a filha; e um filho verdadeiro ama-se sempre mais que um adoptivo.

– É verdade – disse Paulo, tristemente.

– Não é verdade nada-exclamou Tiago. – Teu pai disse ontem que te amava tanto como a Margarida, e que seria assim sempre, pois te ficara, por duas vezes, a dever a vida. O que Leão diz é uma mentira e uma maldade.

– Tu é que és um mentiroso – replicou Leão, exaltado. – Pede-me desculpa imediatamente, senão bato-te a valer.

Tiago – Não, nunca te pediria perdão, mesmo que me mat.

Antes de haver tempo de o impedir, Leão deu ao

pobre Tiago um soco que o derrubou. Então, Paulo,

agarrando aquele pelo braço, disse-lhe intimativamente:

– Cobarde! Tu é que vais pedir perdão a Tiago,

e de joelhos!

Leão, fora de si, quis soltar o braço das mãos de

Paulo, mas conseguiu apenas dar-lhe alguns socos com

a mão que ficara livre. Paulo então agarrou-Lhe os dois

braços, obrigou-o a ajoelhar-se diante de Tiago e,

forçando-o a prosternar-se, disse-lhe umas poucas de

vezes: Pede perdão. A cada recusa, obrigava-o a

beijar rudemente o chão. A terceira vez, Leão gritou:

– Perdão, perdão!

Paulo largou-o então e deitou-lhe um olhar de

desprezo.

– Levanta-te e lembra-te de que, se fizeres mal

a Tiago, a Margarida ou a Sofia, aplicar-te-ei outra vez

o mesmo correctivo: nariz no chão, cabeça em terra.

E depois, voltando-se para os seus amigos:

– Fiz mal? – perguntou.

– Não – responderam em coro.

– Fui demasiado brutal?

– Não – responderam ainda.

-Obrigado, meus amigos. Agora vamos ter

com meu pai; contar-lhe-ei o que aconteceu. Dá-me

a tua mão, meu Tiago, querido e corajoso defensor.

-Sou teu irmão-respondeu Tiago.

Paulo apertou-Lhe a mão com afecto, e pôs-se a

caminho acompanhado dos seus amigos e sem sequer

deitar um olhar a Leão, que ficara sòzinho, com o

fato e os cabelos em desordem, cheio de vergonha,

mas não arrependido.

– É muito mais forte do que eu – disse ele. Não posso atacá-lo abertamente; resta-me fazer como

há pouco: dizer-lhe coisas desagradáveis. Se não fosse

aquele parvo do Tiago, teria acreditado no que eu

disse; teria conseguido humilhá-lo. Aborresestes rapazes que se julgam mais fortes e melhores que todos os outros. As minhas primas acham-no encantador; eu não sei o que há de belo nele, com aqueles olhos negros, duros e maus, o nariz de imperador romano, a boca imbecil, com que sorri para mostrar os dentes, os cabelos nem pretos nem castanhos, e os caracóis como a cabeleira de uma rapariga, a estatura alta, os braços robustos e ombros largos, como os de um carroceiro. Tudo isso ficava bem num vendedor de bois ou de porcos; mas, em cavalheiro que se julga mais que úm príncipe, é vulgar, feio e desagradável. Meu Deus! Como é, na verdade, feio! Espero que não faça a tolice de contar o que se passou ao Sr. de Rosbourg, como disse para me meter medo. Enfim, é mais um de que não gosto.

E Leão, consolado pelas próprias palavras, voltou a casa para limpar o fato e arranjar os cabelos.

Os outros foram encontrar Lecomte encantado, porque o Sr. de Rosbourg acabava de prometer-lhe tomá-lo ao seu serviço, enquanto a mulher serviria a Sr.a de Rosbourg, como criada particular, ficando Lúcia, mais tarde, a desempenhar as mesmas funções junto de Margarida.

Demoraram-se algum tempo em casa de Lecomte, que lhes contou a maneira como tinha fugido de entre os selvagens.

– Bem os logrei, e nada ganharam ao separar-me do meu comandante e do Sr. Paulo. Meteu-se-Lhes na cabeça que ia construir-lhes as palhotas. Não me faltava mais nada, corja miserável, malditos hereges, do que trabalhar ao seu serviço. Só conheço dois senhores: Deus e o meu comandante.

Os imbecis punham-se a ouvir-me e está-se a ver, nem palavra percebiam; são tão brutos, que não entendem as coisas mais simples. Olhavam-me e punham-se a apontar para o machado.

– Então Que querem vocês ao meu machado?

– foi o que eu lhes disse: Julgam lá que vai trabalhar para vocês? Não vos cortará nem sequer um rebento!

E, como eles se preparavam para mo tirar, pus-me em guarda.

– Ora experimentem – e fazia girar o machado em volta de mim. – Verão como, ao primeiro que se aproxime, o abro em dois desde o cimo da cabeça aos calcanhares.

Eles viram que eu não estava para graças e amedrontaram-se, deixando-me em paz durante alguns dias. Depois, comecei a notar que a coisa caminhava mal. aqueles vermelhos do diabo olhavam-me com uns olhos. De modo que, uma noite, enquanto dormiam, meti-me numa das suas canoas, daquelas canoas que, apesar de feitas só com as mãos, não são nàda nal construídas. E parti. Remei, remei durante tanto tempo, que me sentia já extenuado. Avisto terra no horizonte. Estava com muita fome e sede. Remo naquela direcção e, chegando à terra, encontro água, mariscos e frutos. Amarro a canoa, bebo, como e durmo um bom sono. Carreguei a canoa de frutos, recolhi uma boa quantidade de água numa porção de cocos vazios, e lá parti outra vez. Andei no mar três dias e três noites. Deixava-me ir para onde Deus me levava. As provisões estavam esgotadas. o estômago começava a queixar-se, e a garganta a secar-me, quando vi mais uma vez terra. Abordo, amarro, a canoa e encontro caça e frutos. Vem uma tempestade que me quebra a amarra e me leva a canoa. Assim me vi forçado a ficar naquela

terra que não conhecia. Ali vivi, perto de cinco anos, sem perder a confiança na Providência Divina. Nada para me reanimar o coração como a esperança de voltar a ver o comandante, a minha mulher e a minha Lúcia.

Um dia pulei de contentamento: via no mar uma vela que se aproximava e levantei na ponta de um pau um bocado de camisa. Viram-no e vieram a terra. Logo percebi que não eram franceses. Em vez de me ajudarem e de me vestirem, pois pode dizer-se que estava nu, com licença de V. Ex. es, aqueles patifes afastaram-se de mim, dizendo: Oh, shocking, shocking.

– Grandes brutos -respondi-lhes eu. -Dêem-me roupa, e já as faces não lhes coram de me ver neste preparo.

Atiraram-me uma camisa e umas calças que tinham trazido à cautela. Deus me perdoe! Eram ingleses e, portanto, não eram amigos. Contudo embarcaram-me, mas andaram comigo daqui para ali durante seis meses. Muito me aborreci a servir-lhes de moço, e em que condições! Nem obrigado me disseram. E, quando me desembarcaram no Havre, deixaram-me

apenas a má fatiota que eu trazia vestida quando V. Ex. me encontraram na floresta, e nem um xelim no bolso. Mas também eu não queria aquele dinheiro

inglês. O inglês não liga com o francês. Se eu algum dia encontrar os cavalheiros que tão mal me trataram, hei-de chegar-lhes a roupa ao pêlo. Olé! Uma sova daquelas! Que acha, meu comandante?

– Antes de lhes dar uma sova, meu Normando, deixemos Deus castigá-los nas Índias. Fica descansado que a nossa vez há-de chegar.

Despediram-se dos Lecomte. No regresso, o Sr. de Rosbourg chamou Paulo.

-Anda cá, meu rapaz, tens qualquer coisa a dizer-me; percebi isso logo que chegaste. Conheço-te tão bem pela fisionomia! Então, hesitas? Anda, Paulo! Então! eu já não sou teu amigo, já não sou teu pai?

– Oh, é sempre o mesmo para mim, meu pai! Mas neste caso não se trata só de mim. Para dizer tudo, tenho de acusar alguém.

O Sr. de Rosbourg – Diz tudo, diz. Sei que nunca serás capaz de acusar sem razão. Queres que falemos os dois à parte? Estarás mais à vontade a sós comigo, como estivemos durante cinco anos.

Paulo – Oh, não, meu pai. Minha mãe e minha irmã não são de mais; quanto aos meus amigos, sabem o que se passou.

E Paulo referiu, sem nada omitir, tudo quanto ocorrera entre ele, Tiago e Leão.

– Contei-lhe isso, para que meu pai conheça, como outrora, todas as minhas acções e todos os meus pensamentos, e também para me dizer se procedi mal neste caso, como devia fazer para reparar o erro.

-Fizeste bem, meu amigo. Nem devias proceder de outra maneira; bateram no teu amigo por nos ter defendido da língua de Leão; devias tomar enèrgicamente partido por ele. Só um erro cumeteste e sou eu quem o sente.

Paulo olhou o Sr. de Rosbourg com surpresa e receio. O Sr. de Rosbourg sorriu, tomou-Lhe a cabeça entre as mãos, e beijou-o na testa. – Sim. como pudeste

tu acreditar um só momento que eu te pusesse de lado por ter outros a quem amar? Acreditá- lo é ser injusto

para comigo. Estimo-te com todas as forças do meucoração e, juro- te, tanto como a Margarida. Só existe uma diferença: é que Margarida conheço-a há pouco, enquanto estou ligado a ti não só pelo coração, mas pelo hábito, pelas recordações comuns e pela gratidão. Não sentirás inveja, minha Margaridinha? – acrescentou, beijando-a. – Deves estimar muito este irmão que te dei! Nunca terás outro como ele!

E, depois de os beijar a ambos, deu de novo o braço à esposa e continuou a andar, seguido pelas crianças. Paulo sentiu-se contente com a aprovação e a ternura do pai. voltaram-Lhe a alegria e o entusiasmo, e o passeio terminou no meio dos risos, corridas, e jogos improvisados por Paulo, Tiago e João. À noite, Sofia lembrou que Paulo não contara ainda até ao fim a história da sua libertação. E, como toda a gente insistisse, Paulo retomou a narrativa interrompida na véspera.

-Pouco me falta contar. Senti-me satisfeito a bordo de um barco francês. Reconheci muitas coisas

semelhantes a outras que vira na Sibylla. De todo esquecera o gosto da cozinha francesa. Achei muito

estranho sentar-me à mesa, com garfos e colheres, beber por um copo. O jantar foi magnífico; provei

de uma bebida amarga, que a princípio achei má

depois boa. Era cerveja. Bebi vinho, que desde logo

me pareceu excelente bebida, mas não em demasia,

porque meu pai explicou-me que ficaria embriagado

se abusasse. O motivo principal da minha satisfação

era, contudo, ver a alegria de meu pai. Os olhos brilhavam-lhe como nunca. Tenho a certeza de que abraçaria de bom grado toda a tripulação do navio.

– Acertaste – disse o Sr. de Rosbourg, a sorrir.

– Serás tu por acaso adivinho?

Paulo, continuando – Não sou adivinho, meu pai.

Mas amo-o e pressinto tudo o que pensa, tudo o que

sente.

– Mas então, pateta – continuou o Sr. de Rosbourg, rindo-, bem deves ler no meu coração, e não acreditar que a minha estima por ti possa ter diminuído.

Paulo – Pois leio, meu pai, e por isso me sinto

contente.

O Sr. de Rosbourg, sempre a rir – Ainda bem!

Paulo – Em que ponto estava?

Tiago – Na tua primeira refeição, no Invencível.

Paulo – isso. E como te lembras bem do nome,

Tiago! Também não esquecerias o capitão e os tripulantes do navio, se os tivesses conhecido. Todos tão

bondosos e valentes! Depois da ceia retirei-me com

meu pai para o camarote que nos tinham destinado.

Oh, que longa e fervorosa oração fizemos! Como meu

pai chorava, agradecendo a Deus! Eu bem via que eram

lágrimas de alegria. E, no entanto, via-o chorar de tal

maneira que me afligi.

Margarida – Ah, foi como me aconteceu a mim,

na primeira noite, quando o pai, pela primeira vez,

rezou comigo. Chorava tanto que, como tu então,

tive medo. Mas ele explicou-me que chorava de contentamento, e eu adormeci, sentindo correrem-me na

mão as suas lágrimas.

Margarida beijou o pai, que lhe correspondeu,

apertando-a contra o coração.

Paulo-No dia seguinte, depois de uma noite bem dormida naquela rede, que me parecia deliciosa cama, trouxeram um fato para meu pai e outro para mim. O de meu pai era magnífico, todo coberto de dourados; o meu era uma farda de marujo. Gostei muito dela. Depois de um bom almoço, voltámos a terra, para nos despedirmos dos naturais que nos esperavam na praia: O capitão mandou- nos acompanhar por uma grande escolta, receando que os selvagens quisessem usar da força para nos obrigarem a ficar. O rei e os meus pequenos amigos vieràm receber-nos; apresentavam ar triste e abatido. Passámos algumas horas juntos, e o rei pediu a meu pai um último favor: Tu ensinaste-nos a tua religião, aprendemos contigo a rezar ao teu Deus, disseste-nos que os não baptizados não seriam recebidos contigo no Céu. Nós amamos o teu Deus, acreditamos nEle, e queremos ir, como tu, para o Céu. Baptiza-nos, pois, para que fiquemos cristãos como tu. – Esta boa gente comove-me – disse meu pai ao capitão. e dirigindo-se ao rei: Farei o que desejas: Sei que amas o meu Deus, que O conheces e Lhe rezas. Baptizar-te-ei a ti e a teus filhos. Os teus súbditos, se quiserem, serão baptizados em seguida. O rei agradeceu, comovida e tristemente, a meu pai. Toda a gente se diri giu para a aldeia e se encamínhou para o regato que ali corria. Meu pai baptizou o rei e os filhos: depois todos os selvagens pediram que os baptizasse também com as mulheres e os filhos. Quando a cerimónia terminou era já noite. Meu pai ficara extremamente fatigado. Sois agora cristãos – disse- lhes – Lembrai-vos dos meus conselhos; vivei em paz uns com os outros, amai a Deus, amai os vossos irmãos, perdoai aos vossos inimigos. Adeus, meus amigos, adeus. Nunca vos esquecerei. Encontrar- nos-emos junto de Deus. Quis então partir; mas houve uma tal explosão de dor, um tal desejo de lhe beijar os pés, de lhe esfregar a orelha, que teríamos ficado abafados se os nossos compatriotas não se tivessem reunido em volta de nós para afastar os selvagens, e se não tivessem feito uma defesa com os seus corpos, até ao mar. Ao reembarcar, meu pai deu o machado e a faca ao rei. Eu dei uma faca a cada um dos meus amiguinhos. O capitão mandara trazer de bordo, no escaler, cento e cinquenta machados e duzentas facas, para o meu pai dis tribuir pelos selvagens. Deu-lhes também pregos e serras,

tesouras, alfinetes e agulhas para as mulheres. A alegria causada por estes presentes facilitou-nos a partida. Era noite fechada quando chegámos ao Invencível. Duas horas depois levantámos ferro e começámos a

navegar. No dia seguinte, já não víamos terra; estávamos no mar alto. A viagem foi o melhor possível. Passados três meses, chegámos ao Havre, onde meu pai recomeçou a mostrar a maior alegria por se sentir perto da minha mãe e da minha irmã. Partimos imediatamente para Paris. Corremos ao Ministério da Marinha, onde encontrámos o Sr. Traypi. Meu pai partiu sem demora para Fleurville, tendo-nos o Sr. Traypi feito entrar pela casa do caseiro, para evitar um encontro brusco com minha mãe. Quando a Sr.a de Rosbourg regressou, ainda não estávamos aqui há dez minutos. Ouvi o seu grito de júbilo e o de meu pai. Também eu me sentia muito contente nesse instante e estava a rir-me sòzinho, quando Sofia entrou, a correr, pelo quarto dentro e me saltou ao pescoço. O resto já o sabem.

 

ALMAS DO OUTRO MUNDO

Queriam todos agradecer a Paulo e beijá-lo quando ele acabou a narrativa. A Sr. de Rosbourg estreitou-o longamente; o Sr. de Rosbourg olhava-o com ternura e orgulho. Margarida e Tiago fizeram- lhe mil perguntas sobre os pequenos selvagens. A hora de deitar veio, como sempre, pôr termo àquela interessante conversa. Leão não tomava parte nela; sombrio e silencioso, contemplava Paulo com inveja e Margarida e Tiago com ar desdenhoso, repelindo, aborrecido, Sofia e João quando estes se aproximavam para lhe falar. Camila e Madalena eram as únicas por quem parecia conservar estima; só a elas beijou quando, nessa noite, se despediram.

Sentia-se Leão embaraçado diante de Paulo e evitava-o o mais possível; mas não era fácil consegui-lo, porque todas as crianças estimavam muito o seu novo amigo, e estavam quase sempre junto dele. Paulo que, em cinco anos de exílio, se tornara mais hábil, inteligente e vigoroso do que é vulgar na sua idade, ensinava-lhes várias maneiras de embelezarem e tornarem mais confortáveis as barracas. Propôs-Lhes construir uma cabana como a que seu pai e Lecomte tinham construído no país dos selvagens. As crianças aceitaram com prazer e, sob a sua orientação, começaram o trabalho. O Sr. de

Rosbourg vinha ajudá-los de vez em quando; eram então dias de festa no jardim. Paulo e Margarida sentiam-se sempre contentes quando se encontravam em presença do pai. O Sr. de Rosbourg era também muito querido das outras crianças, de cujas brincadeiras compartilhava com bondade, paciência e alegria, que faziam dele inigualável companheiro de jogos. Leão, que de começo se alheara um pouco, acabou por sentir, como os outros, a influência daquela bondade, aproximando-se mais não só de Rosbourg, como tambEm de Paulo. Este último procurava todas as oportunidades de lhe agradar e de o animar com elogios. Certa noite, como Paulo elogiasse muito um móvel que Leão acabava de fazer, este, comovido com a sua generosidade, foi ter com ele e estendeu-Lhe a mão, sem falar. Paulo apertou-lha fortemente e disse com aquele sorriso afectuoso que atraía simpatias: Obrigado, Leão, obri gado. Estas palavras, com tanta simplicidade proferidas. acabaram de dissolver a animosidade de Leão, que se lançou nos braços de Paulo, dizendo: Paulo, sê meu amigo como és de meus irmãos, primos e amigos.

Estou arrependido da maneira como procedi contigo e com Tiago. Sim, tenho vergonha de mim próprio; senti inveja de ti, odiei-te. senti ódio ao teu pai. Tu, que nada Lhe ocultas, que tudo lhe dizes, explica-lhe como

me sinto arrependido e envergonhado; dize-Lhe que passarei a estimar-te tanto como até agora te odiava; que procurarei agora imitar-te canto quanto outrora Tentava diminuir-te; dize-lhe que o respeitarei a ele, que o estimarei muito e que espero me retribua essa estima. Não é verdade que Lho dirás, Paulo, e que me perdoarás e terás por mim alguma amizade?

Paulo -Não, alguma não, muita. Bem sabia que a tua má vontade não era duradoira. Compreendo tão bem o que deves ter sentido ao ver um estranho participar subitamente da amizade e cuidados da tua família e amigos! Havia o interesse que eu suscitava por ser primo de Sofia e por ter estado entre os selvagens, a atenção com que foi ouvida a minha história… Tudo isso te aborreceu. Julgaste que tomava entre os teus um lugar que me não pertencia.

Leão – Explicas tudo com a tua costumada bondade; Paulo, agradeço-te.

TIago – Mas porque não fez tudo isso o mesmo efeito em nós, Paulo? Nem eu, nem João, nem as minhas primas, nem Sofia, nem Margarida, pensámos no que disseste.

Paulo, ehnbaraÇado – porque, sim, porque nem toda a gente pensa da mesma maneira, meu irmãozinho. Depois, vós sois todos mais novos que Leão, e por isso.

TIago – Por isso quê? Não compreendo. Paulo – Por isso. sim. sois bons de mais para mim: é assim mesmo.

Sofia, rindo – Ah! ah! ah! Ora ai está uma explicação que nada explica, meu pobre Paulo. Os selvagens. não te ensinaram a fazer-te compreender.

Leão – Não. Mas o seu bom coração leva-o a sentir quanto vale responder ao mal com o bem, e o seu bom exemplo permite-me compreender a mim a generosidade da sua explicação.

Ia Paulo a responder, quando se ouviram gritos do lado do castelo. Correram todos para lá e encontraram os pais reunidos em volta de uma criada que desmaiara. Perto dela, outra criada torcia-se num ataque de nervos, gritando repetidamente:

– Estou a vê-lo, estou a vê-lo. Socorro! Vai-me arrebatar! Vem todo de branco! Tem os olhos como brasas! Socorro!

– Que há, meu pai? – perguntou Paulo, com vivo interesse. – Porque está esta mulher a gritar como se estivesse rodeada de inimigos?

O Sr. de Rosbourg – Foi algum pateta que quis meter medo a estas mulheres, e lhes apareceu vestido de fantasma. Vou dar uma batida com estes senhores. Vem connosco, Paulo; tens pernas ágeis e ajudar-nos-ás a dar caça ao fantasma.

– Não tens medo? – perguntou Margarida; baixinho.

Paulo, a rir – Medo de um fantasma? Margarida – Não, mas de um homem, de um ladrão, talvez.

Paulo – Não tenho medo de um homem, irmãzinha, nem de dois, nem mesmo de três. Meu pai ensinou-me o boxe e a luta. Sei defender-me e atacar sem receio.

E Paulo correu á frente de todos; desapareceram dentro de pouco na obscuridade. Os criados levaram as companheiras, uma desmaiada e a outra em convulsões. A Sr.a de Fleurville e irmãs seguiram-nas para tratar delas.

A Sr.a de Rosbourg, cuja ternura para com o marido a tornava um tanto apreensiva, ficara no cimo da escadaria com as crianças. Só se ouviam passos

na areia da alameda, quando, de repente, ressoou um berro seguido de gritos e corridas precipitadas. Depois, tudo caiu em silêncio.

Margarida – Minha mãe! O pai e o Paulo não correm perigo, pois não?

A Sr. de Rosbourg, com vivacidade – Não, certamente que não.

Margarida – Porque é então que está a tremer como se estivesse com medo?

– Não estou a tremer – disse a Sr.a de Rosbourg, retirando a sua mão da de Margarida.

Esta nada disse, mas ficou certa de que o sentira. Instantes depois, ouviram ruído de passos e risos abafados, e viram aparecer Paulo arrastando preso um vulto que o Sr. de Rosbourg empurrava com alguns pontapés.

– Cá está o fantasma – disse ele. – Escondera-sc na sebe, mas nós vimo-lo. Gritámos antes do tempo. Paulo saltou por cima da sebe e apanhou-o. O maroto pedia misericórdia e preparava-se para despir a farpela, quando lhe deitámos a mão. Obrigámo-lo

a conservar o manto, para vo-lo trazer com a indumentária. Não queria andar, mas Paulo arrastou-o, e eu dei uma ajuda. Agora, alto, Tira a vestimenta, patife, para sabermos quem és. – como o homem hesitasse, o Sr de Rosbourg, apesar da relutância dele, afastou-lhe os braços e arrancou o pano branco que o cobria. Reconheceram, surpreendidos, o antigo moço do moleiro Léonard.

– Porque meteste medo às mulheres? – perguntou o Sr. de Rosbourg. – Responde, ou mando-te meter na prisão da cidade.

– Piedade, meu senhor! Não me faça mal – exclamou o rapaz, a tremer. – Não torno a fazer outra, prometo.

-Isso não explica o motivo por que meteste medo às duas mulheres- continuou o Sr. de Rosbourg.

– Fala maroto, e claramente, para que te compreendam. O Rapaz – Eu ia pedir emprestadas umas couves à horta de Relmot e encontrei aquelas senhoras no caminho.

O Sr. de Rosbourg – Quer isso dizer que querias roubar as couves do Relmot, e que meteste medo às mulheres para te livrares da sua presença, atemorizares os vizinhos e impedi-los de vir à janela?

O Rapaz – Piedade, meu senhor, tenha piedade. O Sr. de Rosbourg – Para ladrões não há piedade! O Rapaz – Eram só umas couvitas que eu queria levar, meu senhor.

O Sr. de Rosbourg – Começa-se roubando couves, depois passa-se à fruta, e a seguir ao dinheiro; primeiro faz-se de fantasma, mais tarde esgana-se o próximo. Não me fales em piedade, patife! Paulo, chama o nosso Normando; ele se encarregará de o pôr nas mãos da polícia.

O ladrão quis fugir, mas o Sr. de Rosbourg agarrou-o e apertou-Lhe o braço com tal força, que o rapaz gritou de dor. Dentro de pouco tempo voltou Paulo com Lecomte, que, sabendo já do que se tratava, trouxera uma corda para atar as mãos do ladrão e o levar, manietado, à cidade. Tudo isso se fez num

instante.

– Anda, caminha, Cartouche (I ) – disse-lhe

Lecomte -, não os obrigues a puxarem por ti, senão

vou eu dar-te uma ajuda!

O rapaz não se resolvia a seguir; então Lecomte

deu-Lhe tamanho soco nas costas, que o ladrão soltou

um grito e pôs-se a caminho.

-Já sabia que te fazia andar, Mandrim. (2}

Quando quiseres outra dose, não tens mais que dizer;

já sabes! Também podemos empregar o pontapé, se

não te agradar o soco. Podes escolher.

E desapareceram na sombra das árvores.

Entraram os senhores no salão. O Sr. de Rosbourg aproximou-se da esposa e disse-Lhe, inquieto:

-Vejo-te tão pálida, querida amiga! Estás

doente?

– Não, meu amigo, estou muito bem, nada tenho.

Margarida, vendo que o pai não desviava os

olhos da Sr. a de Rosbourg e que continuava a mostrar-se inquieto com o seu aspecto, aproximou-se e

disse-lhe ao ouvido:

-Não se assuste, meu pai. A mãe está assim

pálida, porque ficou apreensiva quando o viu partir à

procura do fantasma. As mãos tremiam-Lhe. Ela disse-me que não, mas eu senti-o muito bem. Agora já

não é nada.

– Obrigado, minha filha – respondeu baixinho o

pai, beijando-lhe a pequenina face rosada. – Graças

a ti, já estou tranquilo.

As senhoras, que tinham ido lá dentro, voltaram

à sala. Ninguém era capaz de dissuadir as criadas da

convicção de que lhes havia aparecido um fantasma

I. Ladrão famoso em França no tempo de Luís XVÍ:

(2) Gatuno célebre.

tinham ouvido uma voz cavernosa e visto uns olhos como carvões ardentes. Chegaram mesmo a sentir-se agarradas por mãos frias como gelo: era um fantasma. E ninguém pôde convencê-las do contrário. Bem lhes disseram que se tratava de um rapaz que andava a roubar couves, que confessara ter-se vestido de fantasma para roubar à vontade na horta dos Relmot, e que o Sr. de Rosbourg o apanhara e mandara para a prisão. Nada disso conseguiu convencê-las de

que os olhos flamejantes, a voz diabólica e os dedos de gelo fossem mero efeito do terror.

– Nunca supus Júlia tão tola-disse Camila. Como pode ela acreditar em fantasmas?

O Sr. de Rugés – Há muitos outros que acreditam, e há uma história que o prova: a do marechal de Ségur.

– Que história é essa, meu pai? – perguntou João. – Não a conheço.

– Oh conte! Faça o favor de contar – disseram as crianças, em coro.

– De boa vontade – acedeu o Sr. Rugés -, se os vossos pais concordarem.

– Porque não? – responderam todos.

Reuniram-se em torno do Sr. Rugés que começou desta maneira:

-Devo em primeiro lugar adverti-los de que se trata de uma história verdadeira, que realmente aconteceu ao marechal de Ségur e me foi contada por seu filho.

O marechal, curado, havia pouco tempo, de um terrível ferimento recebido na batalha de Laufeld, onde uma granada lhe arrancara um braço, saía de França em direcção à Alemanha, onde ia retomar o comando da sua divisão. Viajava lentamente, como acontecia no tempo de Luís XV; os caminhos eram muito solitários; e, quando à noite chegava a hora do repouso,

encontravam-se estalagens cujo aspecto, recursos e conforto eram muito inferiores aos de hoje. Uma tempestade

horrível encharcara os homens e os cavalos do séquito

que acompanhara o marquês, uma noite, a certa aldeola

onde existia apenas uma hospedaria de aparência miserável.

-Temos onde ficar, mulherzinha, eu, a minha

gente e os meus cavalos? -perguntou ele, entrando.

– Ah, cavalheiro, vem em má altura. A tempestade assustou os viajantes. Tenho a casa cheia e

os quartos estão tomados. Para os cavalos e criados

ainda se consegue, dormindo todos no palheiro.

– Mas eu não hei-de ficar toda a noite ao tempo,

mulher! Veja como chove! Sempre há-de ter um cantinho onde eu possa ficar.

A dona da hospedaria mostrou-se perplexa, hesitou, amarrou a ponta do avental, e, finalmente, levantando os olhos, disse:

– V. Ex. podia ficar num óptimo quarto,

nuns belos aposentos, podia… mas…

– Mas quê? – tornou-Lhe o marechal: Dê-me

esse quarto sem demora, e de cear.

– É que… é que… não sei como hei-de explicar a V. Ex.a…

– Explique depressa, mulher!

– Olhe, senhor, é que… o quarto fica na torre

do velho castelo. E nós não nos atrevemos a dispor

desse quarto, desde que lá aconteceram coisas más.

– Que história! Se calhar, você quer-me convencer de que aparecem lá fantasmas?

– Isso mesmo, senhor, e afligir-me-ia muito se

acontecesse alguma coisa a tão simpático cavalheiro.

– Ora! Ora! Se toda a questão é essa, venha o

quarto! não receio as almas do outro mundo! para

homens de carne e osso tenho a espada e duas pistolas, e ai dos que se apresentarem sem aviso!

-Não me atrev o… senhor.

– Acabe lá com isso, mulher, já lhe disse que tomo a responsabilidade. Vamos lá e depressa.

A estalajadeira acendeu uma vela que entregoú ao marechal.

– Pegue, faça o favor, cavalheiro; temos poucos castiçais, de modo que a cada hóspede não podemos ceder mais do que úm. Queira seguir- me; acompanhá-lo-ei atê ao fim do corredor. Depois da porta do fundo, desce alguns degraus, segue pelo subterrâneo, sobe uma pequena escada, empurra a porta a seguir, sobe mais uns degraus, continua a direito, torna a descer e.

– Alto lá, mulherzinha, como quer você que me lembre de tudo isso? Ande, ande lá, para mostrar-me o caminho.

– Oh meu senhor, não tenho coragem. – Bom, então venha a meu lado.

– Nessa não caio eu! Depois tinha de voltar sózinha.

– Pedro! José! venham cá – gritou o marechal. – Venham escoltar esta senhora que tem medo das almas do outro mundo.

– É de mau presságio brincar com estas coisas, senhor – disse, muito séria, a mulher da estalagem.

Os criados do marechal acorreram. Puseram-se um à direita, outro à esquerda da mulher; ela, tranquilizada pelo aspecto imtrépido dos dois homens, resolveu-se a passar à frente do marquês de Ségur, seguindo por uns poucos de corredores e escadas. Fê-lo finalmente entrar num quarto amplo e confortável, havia múito desabitado, segundo se podia julgar pelo cheiro a bafio. A mulher entrou com receio, mal se atrevendo a olhar em volta de si. O castiçal tremia-lhe nas mãos. Teria fugido, se ousasse percorrer sòzinha o caminho da torre à estalagem. O marquês ergueu o castiçal, examinou o quarto, percorreu-o em vários sentidos e mostrou-se satisfeito.

– Tragam-me roupa de cama, ceia e velas para substituir esta que está quase a apagar-se; e tambémas pistolas e as batas, José.

Os criados retiraram-se para cumprir as ordens do amo. A estalajadeira acompanhou-os de muito

boa vontade, não voltando com eles quando trouxeram as armas do marechal e tudo o que ele pedira.

– E a nossa hospedeira, José? Não vem? Queria fazer-lhe umas perguntas. Esta tapeçaria parece-me curiosa.

– Não quis vir de maneira nenhuma, senhor Marquês. Disse que teve muito medo, que ouviu murmú rios e ruídos de espíritos, na escada e no quarto, e, que preferia morrer, a voltar.

– Pobre mulher – disse o marechal, a rir. Serve-me a ceia, José. E tu, Pedro, faz a cama e acende as velas. Abram as janelas; o quarto tem um horrível cheiro a bafio.

Custou um pouco a abrir as janelas, fechadas havia anos já. A noite estava húmida e fria. Como no

fogão se encontrava lenha, o marechal mandou-o acender, comeu com apetite um prato de carne de porco e uma salada; mandou fechar as janelas, examinou as pistolas, e, ao saírem os criados, deu-lhes ordem de o chamarem no dia seguinte ao nascer do Sol, pois tinha grande jornada a fazer.

Quando ficou sozinho, fechou a porta, dando duas voltas à chave, e passou revista ao quarto para ver se não havia qualquer porta disfarçada na parede, umalçapão ou qualquer entrada secreta, que pudesse dar passagem a alguém. Todas as cautelas são poucas – disse consigo – não receio as almas do outro mundo com que me ameaçou aquela pobre mulher; mas esta velha torre, resto do velho castelo, bem pode ocultar

nos subterrâneos qualquer bando de malfeitores, e não quero deixar-me esganar na cama como rato na

ratoeira. Certo de que não havia no quarto entrada alguma senão a da porta que acabava de aferrolhar,

porta sólida bastante para aguentar verdadeiro cerco, o marechal sentou- se junto do fogão, numa cómoda poltrona, e pôs-se a ler. Em breve, porém, sentiu

chegar o sono. Despiu-se, deitou-se, apagou as velas, e adormeceu quase logo. Acordou com a primeira pancada da meia-noite no relógio da velha torre; contou as badaladas.

Meia-noite, disse. Ainda tenho algumas horas para descansar. Mal acabava de dizer estas palavras, quando lhe fez abrir os olhos estranho ruído. Logo lhe foi possível discernir perfeitamente o som dos ferrolhos e passadas cavas e regulares. Sentou-se na cama, agarrou nas pistolas, pôs a espada ao alcance da mão, e esperou. Aproximava-se o ruído cada vez mais distinto. O fogão, meio apagado, lançava ainda claridade bastante no quarto, para tornar possível ver alguém que entrasse. Os olhos do marechal não se desviavam da porta. De súbito, apareceu do lado oposto vivíssima luz. A parede entreabriu-se, e um homem, de estatura invulgar, coberto de antiga armadura, segurando na mão uma lanterna, apareceu, a acabar de subir uma escada aberta a meio da muralha. Entrou no quarto, fixou os olhos no marechal, deteve-se a três passos da cama e disse:

– Quem és tu, que ousaste afrontar-me?

– Sou de um sangue que não conhece medo. Se és homem, não tenho de ti o mínimo receio, pois estou armado, e conto com o auxílio de Deus que combaterá por mim. Se és um espírito, deves saber quem sou e que nenhuma intenção má me moveu ao vir pernoitar aqui.

– Agrada-me a tua coragem, Marechal de Ségur. De nada te serviriam neste caso as armas, mas a tua fé serve-te de escudo.

-Mais de uma vez esta espada se tingiu no sangue inimigo, mais de um adversário foi atravessado pelas minhas balas.

– Experimenta – tornou o cavaleiro. – Eis-me ao alcance dos teus golpes e da tua pistola. Dispara e verás.

-Não disparo sobre um homem sòzinho e desarmado – respondeu o marechal.

Sem mais palavra, o cavaleiro tirou um punhal do seio e, aproximando-se do marechal, apoiou- lhe a ponta no peito.

Perante perigo tão eminente, era impossível ao marechal mostrar-se generoso; tinha a pistola preparada e disparou a bala que, atravessando o peito do cavaleiro, foi achatar-se na parede fronteira. O fantasma, porém, não caía, continuava a sorrir, e o marechal sentia a ponta do punhal penetrar-lhe, lentamente, no peito. Não havia tempo a perder. Disparou a outra pistola. A bala atravessou da mesma forma o peito do estranho visitante e foi estampar-se, como a primeira, na parede. O estranho ser nem de leve estremeceu. Apenas o sorriso se lhe transformou em riso cavernoso, e o punhal entrou mais profundamente no peito do marechal. Este pegou então na espada e deu-lhe sucessívos golpes no peito, no coração e na cabeça. A espada entrou até aos copos e sem resistência, mas o cavaleiro, sempre de pé, continuava a rir.

– Dou-me por convencido – disse, finalmente, o marechal-, reconheço-te como um espírito, como um verdadeiro espírito, contra o qual são impotentes a minha mão e a minha espada. Que queres de mim? Fala!

– Obedecer-me-ás?

– Obedecer-te-ei, se nada me pedires contrário à lei de Deus.

– Atrever-te-ias a afrontar a minha cólera, desobedecendo-me? Não me temes?

-Só temo a Deus, meu senhor e teu senhor.

– Posso matar-te.

– Pois mata. Se Deus te dá poder sobre o meu corpo, não to dá sobre a minha alma, que deponho nas Suas mãos.

E o marechal fechou os olhos, fez o sinal da cruz

e beijou a estrela do Espírito Santo que usava como

grã-cruz da respectiva ordem honorífica.

Deixando de sentir a lâmina do punhal no peito,

abriu os olhos e viu, surpreendido, a aparição com os

braços cruzados, e olhando-o com um sorriso de simpatia.

– És um verdadeiro herói – disse -, um verdadeiro soldado de Deus, meu senhor e teu senhor, como

tão bem disseste há pouco. Quero recompensar a tua

coragem, tornando-te dono de um tesouro que me

pertenceu e de quem ninguém conhece a existência.

Segue-me, se te atreves.

A resposta do marechal foi saltar abaixo da cama

e vestir-se. O cavaleiro viu-o vestir-se, olhando-o sempre com o seu bom sorriso.

Pega na tua espada – acrescentou-, essa

nobre espada tingida no sangue dos inimigos da França.

Agora, caminha atrás de mim sem te voltares, sem

dar resposta às vozes que se te dirigem. Se te ameaçar

qualquer perigo, faz, sem proferir palavra, o sinal

da cruz. Vem! Segue-me!

E, dito isto, dirigiu-se para a abertura da parede,

começando a descer uma escada em espiral, cujas

voltas pareciam não ter fim. O marechal seguiu-o

firmemente, sem olhar para trás, sem responder às

palavras que ouvia murmurarem-Lhe:

Cautela – dizia-lhe uma voz suave. – É o

Diabo que estás seguindo e que te leva ao Inferno.

Olha – sussurrava-lhe outra-, olha o abismo que se te cava atrás de ti; pelo caminho que segues, não poderás voltar.

– Não acredites no sedutor – cochichava, trémula, outra voz-; quer comprar a tua alma com o tesouro que te oferece.

O marechal, imperturbável, continuava a descer:

De vez em quando, entre ele e o cavaleiro, surgia da

sombra a ponta de um punhal, chamas, ou garras.

prestes a despedaçá-lo. Recorrendo então ao sinal da

cruz, desvaneciam-se as visões. O fantasma ia descendo sempre. Depois de descerem durante uma hora, encontraram- se, finalmente, numa cripta cujo chão era formado de lajes pretas, cada uma com um anel de ferro e todas iguais umas às outras. O cavaleiro atravessou a cripta, passando sobre várias lajes, e deteve- se numa delas.

– Eis a pedra – disse – que cobre o meu tesouro; encontrarás aqui ouro bastante para seres rico como Greso, e pedras preciosas que o mundo civilizado não conhece. Dou-te o meu tesouro, mas a laje que o cobre só poderás erguê-la da meia-noite às duas horas. Reza por alma do teu antepassado Luís Francisco de Ségur. Cuidado! Não toques nas outras lajes, que cobrem tesouros de outras famílias. Mal erguesses qualquer delas, serias aniquilado pelo espírito a quem pertence o tesouro. Para reconheceres a minha e poderes levar contigo o que ela oculta, deves.

O cavaleiro não pôde prosseguir. O relógio deu duas horas. Ouviu-se estrondo análogo ao trovão, os espíritos desapareceram, e, com eles, a estranha

aparição. No meio da vasta cripta, o marechal estava só; felizmente, a lanterna do cavaleiro ficara no chão:

– Como poderei depois reconhecer a pedra? murmurou o marechal. – Abri-la, não posso. já deram duas horas. Se tivesse trazido a caixa do rapé ou qualquer objecto que lhe pudesse deixar em cima… Estava assim reflectindo, quando sentiu dores de

barriga, resultantes da impressão causada pela visita do cavaleiro. O marechal pôs- se a rir.

– o meu anjo bom que me sugere maneira de deixar um sinal nesta laje preciosa. Quando amanhã voltar aqui, poderei reconhecê-la fàcilmente.

Dito e feito – prosseguiu, a rir, o Sr. Rugés.

– O marechal só recomeçou a subir a escada quando

se certificou de que reconheceria a pedra que lhe interessava, entre mil. Subiu, subiu muito tempo; chegou, enfim, ao cimo da escada interminável; no

último degrau a lanterna escapou-se-lhe das mãos e rolou com ruído até ao fundo. O marechal não pensou em descer de novo para apanhá-la. Entrou no quarto, cerrou cuidadosamente a parede, não sem antes examinar com atenção o mecanismo e certificar-se do seu funcionamento. Depois de ter feito a experiência umas poucas de vezes, e de ter traçado com a espada um sinal para reconhecer o lugar, ia a deitar-se, quando ouviu bater à porta. Era o criado que o vinha chamar. -Já lá vou! – respondeu.

Acordou com o som da sua própria voz. Grande surpresa teve ao ver- se na cama. Examinou as pistolas; estavam carregadas e colocadas perto dele como quando adormecera na véspera, e assim também a espada. Mas não se sentia bem entre a roupa. Levantou-se. Fantasma, tesouro, fora tudo sonho, excepto o sinal que julgara ter deixado ficar sobre a pedra da cripta e que depusera no lençol. Não podendo acreditar ainda no testemunho dos sentidos, examinou a parede onde

se tinham estampado as balas: nem balas, nem sinais delas. Procurou, no lugar da misteriosa passagem, os riscos da espada; nada achou.

– Foi tudo sonho, não há dúvida Que pena! O tesouro tinha sido bem-vindo para me reconstituir a fortuna tão abalada pelas minhas dispendiosas campanhas. E que hei-de fazer dos lençóis? – disse ele, a rir. – Morreria de vergonha diante da estalajadeira, se ela. Ah! Uma ideia! O fogo tudo resolve. Digo à mulher que os espíritos levaram os lençóis, pago-lhe dez para a calar.

O marechal reanimou o fogo que ainda chamejava, atirou para o fogão os lençóis, e só abriu a porta quando os viu em cinzas. Está a honra sallva – disse.

– E agora são as almas do outro mundo que pagam as favas!

-Como passou a noite, senhor Marquês? -perguntou a estalajadeira, que acompanhava us criados do marechal.

-Assim, assim! Os espíritos é que me atormentaram um pouco, puxando-me pelas pernas, dando-me empurrões, até que se apoderaram dos lençóis.

Levaram-nos, só lhes deixaram o sítio.

E esta! – exclamou, aflita, a dona da estalagem. – Bem dizia eu que sucedia alguma coisa! Os

melhores que tinha! e novinhos em folha!

– Bem! Bem! mulher – tornou-lhe, a rir, o

marechal. – Pode em todo o caso dizer que me pôs

na cama os seus melhores lençóis; para a recompensar, em vez de dois passa a ter dez, já que foi

a minha teimosia causa de os ter perdido. Quanto

valiam?

– Quatro escudos, (i ) senhor Marquês, tão

certo como haver espíritos nesta maldita torre.

-Bom, cá tem vinte. Isto dá-lhe para cinco

pares de lençóis, ou seja, dez lençóis. E agora venha

o almoço e não se fala mais nisso!

A dona da estalagem confundiu-se em mesuras

e foi a correr buscar o almoço do marechal. Ao vê-la

voltar sòzinha, perguntou:

-Então agora já não tem medo dos espíritos?

Anda assim de cá para lá sem ser preciso acompanhá-la?

– Oh senhor, de dia não há perigo, é só quando se aproxima a meia-noite.

O marechal pagou generosamente a sua despesa e a da comitiva, e deixou a dona da estalagem mais convencida do que nunca da presença dos espíritos na torre do velho castelo. Desde então, quando se tratasse de persuadir os incrédulos do perigo de dormir na torre, era sempre invocado o nome do marquês de Ségur. E aqui tem a maneira como se arranjam todas as histórias de fantasmas!

(I) Valia o escudo trés francos.

As crianças agradeceram muito ao Sr. Rugés a história, que vivamente as interessara.

– Pela minha parte – disse Tiago-, tenho pena de que o marechal não tivesse, na verdade, visto o fantasma.

– Porquê? – perguntou-lhe o pai.

-Porque respondeu muito bem ao cavaleiro. Gostei das suas respostas, que revelavam grande coragem.

Margarida – Pois eu, no seu caso, teria muito medo ao ver as balas atravessarem a estranha aparição e ela sempre de pé.

Leão – Terias tido medo, porquè és uma rapariga, mas tenho a certeza de que Paulo, nessas condições, não se assustava.

Paulo – Pelo contrário! suponho que teria tido medo a valer. Ninguém se pode defender de um espírito, que nem balas nem espada conseguem fazer fugir.

O Sr. de Rosbourg – Há sempre a eterna defesa da oração.

joão – Éverdade mas é a única, essa.

O Sr. de Rosbourg – A única poderosa, meu amigo. Tal arma, em certas ocasiões, é mais forte que o ferro.

Sofia – Que engraçado, o despertar do marechal!

Camila – Tirou-se de apuros com graça, afinal de contas.

Madalena – Acho, simplesmente, que fez mal deixando a dona da estalagem na suposição de que os lençóis tinham sido levados pelos espíritos.

O Sr. Traypi – Que queres? S6 por tal preço ficava a honra salva, como ele mesmo disse.

A Sr.a de Fleurville – Arriscando-me a ser sempre desmancha-prazeres, lembro que passou há muito a a hora de deitar.

– Hoje, como sempre, tem razão, minha senhora

– disse o Sr. de Rosbourg, pondo no chão a filha que

Lhe subira para os joelhos. – Vai, querida filha, vai

dar as boas-noites à mãezinha e aos teus amigos.

Margarida obedeceu sem replicar.

-Agora estou às ordens do meu comandante disse o Sr. de Rosbourg, levando Margarida. – É a

minha recompensa de todas as noites; obedecer às

ordens de Margaridinha, deitá-la e ser o último a dar-lhe um beijo.

-O paizinho agora já não chora. Vejo-o tão

contente, tão contente Como Paulo – disse a

pequena, beijando-o.

Continuou a sua tagarelice, que encantava o

Sr. de Rosbourg, até ao momento de começarem a

rezar. Deitou-se Margarida e, na cama, disse:

-Peço-lhe, meu pai, que não saia de ao pé de

mim até adormecer. Quando adormeço com a minha

mão na sua, sonho consigo; e, então, mesmo de noite,

não me separo de si.

O Sr. de Rosbourg comovia-se com aqueles ter nos sentimentos de Margarida. Ele próprio se sentia

muito contente ao demorar-se na companhia da filha,

para que pudesse recusar-lhe aquela alegria, de que

ele próprio se sentira, durante tanto tempo e tão dolorosamente, privado. Perante aquele extremo carinho,

perante a afeição e dedicada ternura de Paulo, já não

tinha coragem de continuar a carreira de marinheiro,

e de dia para dia se acentuava nele a ideia de deixar

o serviço activo e viver para o que amava: A edu cação dos filhos e os melhoramentos a realizar na

aldeia ser-Lhe-iam ocupação suficiente.

 

Estavam as férias muito adiantadas; passara maisde um mês depois da chegada dos primos. As crianças; porém, brincavam descuidadas, não pensando com tanta antecedência na separação. Leão tornava-se melhor de dia para dia; não só se esforçava por dominar o seu carácter imvejoso, arrebatado e zombeteiro, como ainda tentava dominar aquele estranho medo que o vencia. Paulo conquistara a confiança dele pela bondade, lealdade e indulgência do seu carácter. Leão resolveu confessar-lhe a sua cobardia.

-A culpa não é minha – disse ele, tristemente.

– O meu movimento mais espontâneo é sentir medo e evitar o perigo; não posso impedi-lo. Confesso-te, Paulo, que, muitas vezes, senti vergonha e cheguei a chorar a sós. Disse a mim mesmo cem vezes que, na primeira ocasião, me portaria com coragem; para isso, fazia-me herói em palavras. Por mais que faça, sinto, que sou e hei-de ser sempre medroso.

Apresentava um ar tão triste e envergonhado, ao fazer essa confidência, que Paulo se comoveu.

– Meu pobre amigo – disse ele, e acentuou a palavra amigo -, acho, pelo contrário, que é preciso ter grande coragem para fazer uma confissão dessas, mesmo a um amigo. No fnndo, tu és tão corajoso como eu sou (Leão ergueu a cabeça com surpresa). A diferença está em que tu não tiveste ocasião de

mostrá-lo aos outros e a ti próprio. Estás rodeado de

primos e de amigos mais novos do que tu; nunca te

encontraste em momento de perigo, maior ou menor.

Convenceste-te de que não tinhas nem força nem meios

de te defenderes deles. Daí o contraíres naturalmente o

hábito de evitar o perigo e de julgares impossível

proceder de outra maneira.

Leão – Contudo, Paulo, vejo como és ousado em

circunstâncias em que eu teria fugido…

Paulo – O meu caso é muito diferente. passei

cinco anos cercado de perigos junto do homem mais

corajoso, mais decidido que conheço, e habituei-me a

nada recear. Eu, que tu citas como exemplo, sou

corajoso por hábito; adquiri-o por me sentir sempre

seguro da protecção de meu pai. Agiremos sempre

juntos. Na primeira ocasião, hás-de ver que farás

tanto como eu.

-Não creio-replicou Leão- em todo o caso

tentarei. Agradeço-te o teres-me valorizado perante

mim mesmo; andava cheio de vergonha.

-De futuro, sentir-te-ás contente, verás – disse

Paulo, apertando-Lhe afectuosamente a mão.

Leão entrou em casa para trabalhar, todo contente. Paulo subiu ao escritório do Sr. de Rosbourg,

que lhe disse, a sorrir:

-Trazes o rosto radioso, meu bom amigo. Que

boa notícia me vens dar?

Paulo – Não é uma notícia, mas uma boa acção

que lhe venho contar, meu pai.

E contou-lhe, o que acabara de passar-se entre

ele e Leão.

O Sr. de Rosbourg – Foste bom e hábil ao mesmo

tempo, meu filho. Não sei se Leão ficou, na verdade,

convencido de que a coragem está nele adormecida,

e de que se avizinha o despertar do leão… Mas tu

-conseguiste fazer-lhe esperar a tua estima e a minha.

Sei que ele se empenha por obtê-las, o que já não

é pouco. Mas como conseguirás que deixe de ser um

autêntico poltrão, Pois, aqui para nós, Leão não é outra coisa: sabe- lo tão bem como eu.

Paulo – Assim tem sido, meu pai, mas deixará de o ser. O seu amor- próprio está agora em causa. Depois hei-de levá-lo a compreender que é mais seguro encarar o perigo de frente do que fugir dele.

O Sr. de Rosbourg, a rir- Como conseguirás tu levá-lo a aceitar isso?

Paulo – Provando-lhe que a coragem impressiona não só os homens, como também os animais, fazendo-os fugir.

O Sr. de Rosbourg – Contar-me-ás o resultado da tua primeira experiência, meu amigo… E, já que vieste aqui, falemos um pouco do teu futuro. Já pensaste nisso?

Paulo – Não, meu pai, deixo-o ao seu cuidado: Sei que tudo fará pela minha felicidade.

O Sr. de Rosbourg puxou Paulo para si e beijou-o na fronte.

O Sr. de Rosbourg – Pensei eu nisso, e dispus tudo de maneira que não separasses a tua vida da minha.

Páulo, saltando de alegria-Obrigado! Vou dar a novidade a Margarida.

O Sr. de Rosbourg, a rir – Mas espera, rapaz Que vais dizer-lhe, se ainda nada sabes de positivo?

Paulo – Sei tudo o que interessa, desde que sei que hei-de ficar sempre perto de si, de minha mãe e de Margarida.

O Sr. de Rosbourg – É boa! Como tu resolveste isso depressa E a minha carreira de marinheiro? Não conta para nada?

Paulo, espantado – A sua carreira? Então. ainda pensa em navegar?

O Sr. de Rosbourg – E se pensasse, acompanhavas-me? Ou preferias ficar aqui a completar a tua educação junto de tua mãe e de tua irmã?

-Junto de si, meu pai, eis o que pretendo; junto

de si sempre e para onde quer que vá-exclamou

Paulo, lançando-se nos braços do Sr. de Rosbourg.

– Tinha a certeza disso – tornou-lhe o Sr. de Rosbourg, apertando-o contra o coração e beijando-o.

-Serias tão infeliz separado de mim como o seria eu

longe de ti, meu filho e meu companheiro de exílio e

privações. Mas sossega, tudo se passará melhor

do que esperas. Resolvi pedir a minha demissão ao

ministro; vamos ficar a viver juntos. Serei teu mestre, teu companheiro, teu amigo; empregaremos as

nossas horas vagas em melhorar a condição dos nossos

bons campónios e a cultura das terras; levarei uma

vida de proprietário normando. Dedicar-nos-emos à

criação de cavalos, cultivaremos as nossas terras e

praticaremos o bem, instruindo-nos a nós próprios e

contribuindo para o progresso geral.

Paulo sentia-se tão contente com este projecto,

que não soube, no primeiro momento, exprimir a sua

alegria senão apertando e beijando as mãos do pai,

a quem finalmente pediu que o deixasse ir dar a notícia à Sra de Rosbourg e a Margarida.

O Sr. de Rosbourg – Minha mulher sabe de tudo

e está sempre a par dos meus pensamentos. Mas nós

reservámos-te a alegria de dar a notícia à Margaridinha. Vai, meu amigo, e volta depressa aqui. Temos

ainda muito que combinar.

Paulo partiu como uma seta. Correu às barracas, onde encontrou Margarida a ler com Sofia e

Tiago.

PauloMargarida, Margarida, já não partimos!

ficarei sempre junto de ti. Meu pai não volta para

o mar. Teremos uma quinta; seremos tão felizes, tão

felizes, que a nossa felicidade há-de inundar todos

quantos viverem à nossa volta.

– Essa agora! Que vaidoso – disse Sofia, soltando-se dos braços de Paulo, que, depois de beijar

Margarida, quase a sufocou com tantos beijos e abraços. – Que nos estás tu para aí a falar de trabalho

de quinta e não sei que mais?

– Compreendo eu – disse suavemente Margarida, retribuindo a Paulo os seus beijos. – O paizinho – deixa a vida de marinheiro, fica junto de nós, e será

o nosso mestre. É assim, não é, Paulo

Paulo – É assim, é. O teu coração adivinhou, querida irmãzinha.

-E eu? Que lugar me atribuem nesse projecto? – perguntou Sofia. – Fica-lhe muito bem, meu

caro senhor, esquecer-me em tais circunstâncias!

Paulo – Não me fica mal esquecer-te por um instante, quando tu me esqueceste a mim durante cinco anos.

Sofia – Oh! mas eu era uma rapariguinha.

Paulo – E eu sou um rapaz crescido. Por isso me sinto feliz em viver perto de meu pai e ser edu cado por ele.

Margarida – Mas porque havia de vos deixar, Sofia? Viveremos todos juntos então, como agora.

Sofia-Julgo isso impossível. Teu pai deve querer viver em casa sua.

Margarida – Se for assim, levamos-te connosco.

Sofia – Não é possível. Em vossa casa, seria de mais. Aqui, não. O Sr. de Fleurville é para mim o que teu pai é para Paulo. Camila e Madalena são para mim o que tu és para Paulo. Ficarei aqui.

Tiago – E eu não conto?

Paulo – Tu és um antigo amigo de Margarida. Conheço-te bastante para saber que serás sempre também meu amigo. Mas tu, Tiago, vives com os teus pais, que muito te estimam; não tens motivos de inquietação pela tua felicidade, e tenho a certeza de que sentes a minha.

Tiago – Oh! sim! estou tão contente como se se tratasse de mim próprio. Sei que te hei-de encontrar tantas vezes como se ficasse aqui: não tenho na verdade, motivo para me não sentir contente.

Margarida beijou Tiago e correu muito depressa ao quarto do pai, ao qual manifestou a sua alegria de maneira muito carinhosa. Entretanto, Paulo correra a beijar a Sr.a de Rosbourg e a agradecer-lhe, encontrando-a tão satisfeita como ele próprio se sentia. Disse-lhe que acabavam de comprar um palacete e umas terras magníficas a uma légua de Fleurville, que pertenciam a uma família que nunca ninguém visitara, tão ridículos, pretensiosos e vulgares eram os seus membros. Depois das férias iriam viver naquele palacete. Sofia ficava com a Sr.a de Fleurville. De Inverno, porém, viveriam todos juntos em Paris, num palacete que o Sr. de Rosbourg ia comprar. Paulo ficou radiante ao ver que Sofia e Margarida, desta maneira, se separariam o menos possível das suas amiguinhas.

Pouco tempo depois chegou uma elegante carruagem. As crianças vieram às janelas e viram, sur preendidas, sair dela, primeiro um sujeito gorducho, de uns cinquenta anos, depois uma senhora luxuosamente vestida, e, finalmente, uma menina dos seus doze anos, enfeitada como se fosse para um baile. Trazia um vestido de gaze com folhos e fitas, flores nos cabelos, e pescoço e braços nus, com colares e pulseiras.

As crianças entreolharam- se, admiradas.

– Que é isto? – perguntou Paulo.

– Nunca vi esta gente – disse Camila.

– São talvez os nossos ridículos vizinhos do palacete vendido – lembrou Margarida.

-Como se chamam estas extravagantes criaturas? – perguntou João.

– Devem ser os Tourne- Boule – disse Sofia.

– Os que venderam o palacete ao pai? – perguntou Margarida.

CaMIla – O teu pai comprou-Lhes um palacete?

MaRgarida – Sim, fiquei-o sabendo por ele agora mesmo.

Madalena – Mas, que virão cá fazer?

joão – Naturalmente vieram ao mesmo tempo travar conhecimento e despedir-se.

Leão – Nunca quiseram recebê-los aqui. São cheios de pretensão e vaidade.

joÃo – Por isso vêm sem ninguém os convidar. Como se vão embora e nãn voltam cá, têm a certeza de não serem mal recebidos. Diz-se que o velhote foi ajudante de cozinheiro.

Paulo – Mas que vestido tão ridículo traz a pequena!

Camila – Vamos lá abaixo recebê-la. Tem de ser. MAdalena – É muito aborrecido!

Paulo – Iremos todos convosco. tornar-se-á, dessa maneira, menos custoso.

Camila – Obrigado, Paulo. aceito com satisfação. joão – Aparecendo todos em grupo, a pobre rapariga não sabe para quem se há- de voltar. Entremos e desfilemos dois a dois como se se tratasse de uma princesa.

E as crianças, depois de combinarem fazer cumprimentos cerimoniosos, entraram na sala, caminhando dois a dois. Era uma sàtirazinha aos vestidos da mãe e da filha.

Camila e Leão, dando a mão um ao outro, entraram: passaram pela frente dos visitantes, cumprimentaram-nos e foram colocar-se ao fundo. A seguir a eles, Madalena e Paulo fizeram a mesma cena; depois Sofia e João, aos quais se seguiram Margarida e Tiago. O Sr. de Rosbourg olhava com ar surpreendido o desfile e os cumprimentos das crianças. Sorriu ao ver o primeiro par, riu à vista do segundo, mordeu os lábios ao deparar-se-lhe o terceiro, e fugiu, quando atentou no quarto, para rir mais à vontade. A menina Iolanda Tourne- Boule mostrou-se desvanecida com tão solene acolhimento; julgou ter inspirado respeito e admiração e correspondeu aos cumprimentos com teatrais inclinações de cabeça, acompanhadas de um gesto protector.

Atravessou a seguir a sala e foi postar-se diante das crianças, que se tinham reunido ao fundo.

– Tenho muito prazer em conhecê-los, antes de sair desta região; espero que tenham a gentileza de me visitar no palácio Tourne-Boule, que pertence a meu pai, e que é um dos mais belos de Paris. Mandar-Lhes-ei convites para as festas e para os bailes que minha mãe espera realizar. E quero até, para lhes dar a certeza de que os receberei, convidar o senhor (dirigindo-se a Paulo) para a primeira valsa, e o senhor

dirigindo-se a João) para a primeira polca, e o senhor (dirigindo-se a Leão) para a primeira contradança.

Paulo – Sinto muito, minha senhora, não poder aceitar essa honra, por não saber valsar; só conheço a dança dos selvagens, que não será, por certo, muito do seu gosto.

joão – Também eu, minha senhora, tal como o meu amigo Paulo, tenho muita pena de me escusar da polca e do baile; em exercícios dessa espécie, só sei o de bater com os pés no chão, e não me atrevo a propor-lhe tal divertimento, agradável mas pouco gracioso.

Leão – Da melhor vontade aceitaria, pela parte que me diz respeito, a sua contradança, minha senhora; mas, no momento reservado a essa contradança, devo já estar no colégio, onde terei, a substituir a música da sua orquestra, o ressonar dos meus condiscípulos.

Se assim é, senhores-disse a menina Iolanda, com ar altivo-, retiro os convites feitos.

Paulo – É muito gentil, minha senhora. joão – Fico-lhe muito e muito grato.

Leão – A sua bondade confunde-me.

– Bem, bem, senhores – disse Iolanda, com um gracioso sorriso. – Pensarei em recebê-los de outra maneira. As meninas de Fleurville falaram-me de encantadoras casinhas que mandaram construir. Dão-me licença de as ver?

MarGarida – Refere-se às barracas que nós próprias construímos com a ajuda dos nossos primos e

amigos? Paulo fez-nos uma cabana linda como as dos

selvagens.

– Quem é esta pequenita? – perguntou, com ar

desdenhoso, a menina Iolanda.

Paulo, com indignação – Esta pequenita E a menina

Margarida de Rosbourg, minha irmã e minha amiga.

A Menina Iolanda – Ah.. que é isso de Rosbourg?

Paulo, com suavidade – Quando se fala de Rosbourg, deve-se fazê-lo com respeito. O Sr. de Rosbourg

é um valente capitão de navios, e ninguém deve atrever-se a referir-se-Lhe menos respeitosamente diante

de nim. Percebeu, menina…

A Menina iolanda, com altivez – Tourne-Iioule,

senhor. (1)

Paulo – Não nos aborreça com a sua prosápia.

Paulo – disse o Sr. de Rosbourg, que se aproximara-, esqueces que esta menina nos veio visitar.

Paulo – Qual, meu pai! Ela é que se esquece

disso. Não tem o direito de se mostrar impertinente

e de tomar ares de princesa, nem posso consentir que

fale de meu pai como falou.

O Sr. de Rosbourg-Que importa, meu filho?

Saberá ela o que díz? Olha, é melhor irem todos até

ao jardim. Lá fora terão maior oportunidade de

travar conhecimento.

Camila e Madalena logo propuseram à menina

Iolanda uma visita ao seu jardinzito. Ela aceitou.

(1) Há no original um jogo de palavras intraduzível em português, procurando fazer ressaltar o cómico efeito da aproximação do pomposo nome da família Tourne-Boule e do termo de cozinha tourne-beoche>r.

A Menina Iolanda – O caminho é bom até lá? Os meus sapatos de cetim cor-de-rosa não são próprios para maus caminhos.

Camila – O piso é bom, menina. Mas se receia estragar os sapatos.

A Menina Iolanda – Não falo nisso com a ideia de poupar os sapatos. Tenho em casa cinquenta pares. O que não quero é magoar os pés nas asperezas do terreno.

Madalena – Nesse caso, não deve recear nada, menina. O piso é suave.

Puseram-se a caminho. A menina Iolanda andava majestosamente, soltando por vezes um grito quando punha o pé nalguma pedra ou quando avistava uma rã, ou outro bicho tão inofensivo como aquele. Vendo que os seus gritos não atraíam a atenção de nenhum dos companheiros, deixou de pensar em fingir de assustadiça e chegaram ao jardim.

– Não são casinhas bonitas – disse ela, olhando desdenhosamente para uma das barracas.

Camila – Sim, não são mais que barracas por nós próprios construídas, como lhe disse Margarida.

A Menina Iolanda – Então deram-se ao trabalho de fazer obra tão má?

Madalena – Construímo-las como um passatempo, e gostamos muito mais delas do que se tivessem sido construídas por outros.

A Menina Iolanda – Posso entrar?

Camila – Porque não? Esta é a minha, de Madalena e de Leão.

Madalena – Esta aqui é de Sofia e João aquela, finalmente, de Paulo, Margarida e Tiago.

A Menina Iolanda – Que móveis horríveis! Meu Deus! Como podem tolerar isto? Se me tivessem dado estes cacos velhos, chegava-lhes o fogo.

MargarIda – Nós, que não somos da família Tourne-Boule, damo-nos bem aqui nesta cabana de selvagem,

Menina Iolanda – Ah… uma cabana de selvagem? Como conseguiram o modelo desta bela obra arquiteetónica?

MargaRIda – Foi Paulo quem a construiu. viveu cinco anos entre os selvagens.

A Menina Iolanda, desdenhosa – Bem se vê. Margarida – Diz isso por ele se ter escusado a assistir aos bailes?

Menina Iolanda – Digo-o, porque ele mostra desconhecer a etiqueta.

MArgarida – Isso depende da etiqueta de que se trate. Se se trata da sua, é possível. Nenhum de nós a usa, ou usou. Mas, se se trata da etiqueta própria de gente educada e fina, conhece-a tão bem como as minhas amigas e os pais de uns e de outros. A Menina Iolanda – Menina Margarida (suponho chamar-se assim), fique sabendo que os Tourne–Boule são nobres e poderosos fidalgos, e que as suas armas.

Margarida – São um espeto de cozinha, já sabemos.

A Menina Iolanda – A menina não passa de uma. insolente.

– Nem mais uma palavra – gritou Paulo, intimativamente. – Ou se cala ou levo-a já a seus pais, a bem ou a mal… Anda daí, irmãzinha- acrescentou.

com voz calma- deixemos essa menina que quer fazer de pessoa importante. Vem comigo, com Sofia e. com quem mais? – perguntou, lançando um olhar em redor. João e Tiago responderam, em uníssono E connosco. Leão fez sinal de que ficava junto das primas Camila e Madalena, forçadas, como filhas dos donos da casa, a fazerem companhia à visitante. Esta falou-lhes constantemente das riquezas do pai, da sua influência e relações na nobreza. Em Paris eram visitados por duques, príncipes, marqueses, e também recebiam por condescendência, alguns condes das famílias mais

ilustres, -O meu pai dá-me tudo quanto quero – explicou ela. -Já tenho diademas e colares de diamantes, pérolas e rubis. O vestido, que trago nada é comparado

aos que tenho em Paris. Possuo mais de cinquenta vestidos de baile, e outros tantos vestidos para recepções de visitas. A minha mãe só põe duas vezes o mesmo vestido, gastando com o vestuário cinquenta mil francos por ano.

– Cinquenta mil francos – exclamou Camila.

– Mas então quanto dá aos pobres?

– Aos pobres! ah! ah! ah! Olhem que ideia!

– respondeu a menina Iolanda, rindo às gargalhadas.

-Como se houvesse alguma razão para dàr qualquer coisa aos pobres! Os pobres não precisam de nada, nem vestidos, nem diamantes. Se são pobres, não precisam de nada. Bastam-Lhes farrapos e uma côdea de pão seco.

Camila – Isso mesmo é preciso dar-lho. Enquanto a menina tem no seu guarda-roupa cinquenta vestidos inúteis, existem perto de sua casa pobres familias que nada têm que vestir; enquanto a si lhe servem dez pratos ao jantar, esses mesmos pobres nem sequer têm a côdea de pão de que falou ainda agora!

A MEnina Iolanda – Ora, os pobres são gente má e preguiçosa; não sentem necessidade alguma.

Madalena – Camila, não quero ouvir mais isto. É superior às minhas forças. Vou ter com os nossos amigos.

Leão – Vai, Madalena! eu fico com a pobre Camila.

A Menina Iolanda – Pobre? Acha-a assim tão digna de lástima por ficar junto de mim? Nesse caso, porque ficou também?

LEão – Não fiquei junto da menina. Fiquei junto da pobre Camila.

A MEninA IolandA – Ainda insiste?

Leão – Sim, insisto uma vez e muitas, enquanto a menina aqui estiver, embora, na verdade, fosse mais

justo chamar-lhe pobre a si, apesar de todas as suas riquezas.

A MENINA Iolanda – Havia de ter, realmente, muita graça. Pobre eu, com trezentos mil francos de renda! Ah! ah! ah!

Camila – Não se ria, pobre menina. Não, não se ria É, efectivamente, digna de lástima. Leão tem razão. a menina é pobre de bondade, pobre de caridade, pobre de humildade, pobre de razão e pobre de juízo. Bem vê que não possui a verdadeira riqueza. Se perdesse a sua fortuna, nada mais Lhe restava.

A Menina iolanda – Brrrr, que sermão! boa! Mas isto é uma família de pregadores de moral! Bem nos tinham dito que a sua mãe era uma tola, assim como.

Camila – Agora sou eu quem lhe diz! É atrevi mento de mais! Não tolero que insultem a minha mãe. Vem, Leão, vamos ter com os nossos amigos; esta menina que vá para onde quiser com os seus sapatos de cetim e o seu vestido de gaze.

E, pegando na mão de Leão, fugiu a correr, deixando a menina Iolanda tanto mais zangada, quanto lhe parecia impossível poder exercer qualquer vingança. Dirigiu-se para casa e entrou no momento em que o pai acabava de combinar com o Sr. de Rosbourg a venda do palácio de Paris, mobilado, pelo terço do que lhe custara. O pai de Margarida oferecia pagar a pronto Ao vendedor, crivado de dívidas, convinha assim.

Uma hora depois já estava combinada outra venda. O Sr. de Rosbourg comprava, em nome de Paulo d’Aubert, de quem se fizera nomear tutor, umas florestas próximas do palacete e da quinta, que rendiam mais de cem mil francos.

– Fica combinado, então, que irei amanhã assinar as escrituras, que me fará o favor de mandar lavrar. Levar-Lhe-ei, ao mesmo tempo, um cheque para o meu banqueiro.

O Sr. Tourne-Boule – Sim, está combinado. o palácio, as terras e a floresta.

– Como, pai, o seu palácio? – perguntou a menina Iolanda. – E onde vamos nós viver?

O Sr. Turne-Boule – Passaremos o Inverno na Itália, Iolanda.

A Menina Iolanda – Já sabia disto, mãe? -Já sabia, sim, minha filha – respondeu, enfàticamente, a Sr. a Tourne-Boule.

A Menina Iolanda – E as suas jóias, minha mãe? A Sr. a Tourne- Boule-Já não são minhas, filha.

Acabo de as vender à Sr. a de Fleurville e à Sr.a de Rosbourg para a menina Sofia Réan e para a menina Margarida Rosbourg.

A Menina Iolanda – Mas a mãe tinha tantas! A Sr.a Tourne- Boule – Vendi-as todas, minha filha.

A Menina Iolanda – Oh! que pena! Colares, pulseiras, broches! Fico sem nada! Que grande desgraça!

A Sr.a Tourne-Boule – Sossega, compram-se depois outras jóias. Presentemente, preciso de dinheiro para pagar aos credores, que me assediam. Autorizo-te também a venderes todas as tuas roupas. Farás o que quiseres ao dinheiro que te derem por elas. Mas, perdão – disse, voltando-se para as senhoras, que riam disfarçadamente. – Aborreço-as talvez com estas minúcias íntimas?

– De maneira nenhuma, minha senhora – respondeu a Sr. a de Fleurville, a rir. – Pelo contrário.

Até nos distrai.

A Sr.a Tourne-Boul – Compreende V. Ex. que, sendo a nossa visita uma visita de negócios, é preciso aproveitar a maré e fazer o mais possível. Eis

porque Lhe ofereço ainda, em boas condições, rendas, bordados, fazendas, vestidos, mantilhas e roupa branca. Tenho um grande guarda-roupa, ofereço-lhes tudo por…

vinte e cinco mil francos a pronto pagamento.

A Sr.a de Fleurville, as irmãs e a Sr.a de Rosbourg, depois de se terem consultado, aceitaram a transacção, com a condição de verem o que compravam.

A Sr.a Tourne-Boule – Remeter-lhes-ei tudo dentro de dois dias, minhas senhoras-o tempo preciso

para mandar vir essas coisas de Paris. V. Ex. verão

por esta forma que as não engano. Quase tudo se

encontra em estado de novo.

A Menina Iolanda – E então eu, mãe? A mãe

vende tudo que é seu e nada do que é meu?

A Sr.a de Fleurville – Não é aqui que a menina

podia vender. Os nossos filhos não usam nem usarão

vestidos como os seus. Seria, portanto, inútil comprá- los.

A Menina iolanda, a chorar – Pois é, Eu não

vendo coisa nenhuma, fico sem lucros nenhuns.

A Sr. Tourne-Boule – Não chores, pequerrucha!

dar-te-ei um pouco do meu dinheiro. E tu venderás

por tua vez o que é teu às tuas amigas duquesas,

princesas e marquesas.

A Menina Iolanda – Ora! Grandes duquesas e

princesas essas que andam a morrer de fome, e vêm

à nossa casa pedir dinheiro emprestado e viver à

nossa custa!

A Sr.! Tourne-Boule – Não te aflijas, filhinha!

mandaremos vender as coisas a casa da Sr guipelet.

A Menina Iolanda – Ai meu Deus! Sou muito

infeliz!

A Sr.a Tourne-Boule – Vamos, menina, estás a

importunar estas senhoras! Olha lá, Jorginho (voltando-se para o marido, que estava a concluir os seus

negócios com o Sr. de Rosbourg), consola a pequena,

que está a chorar, por eu vender as jóias e os vestidos.

O Sr. Tourne-Boule – Que tens, filhinha, que

tens? Queres umas libritas? Amanhã encher-te-ei as

mãos delas.

A MeNina Iolanda – Vendem tudo e eu nada…

O Sr. Tourne-Boule – Bom! bom! Não se chora assim, pequerrucha. Também hás-de vender. Não sejas feia! Na primeira ocasião, venderemos tudo o que é teu, prometo-te. E tu mesma hás-de vender. Satisfaz-te isto?

A menina iolanda limpou os olhos inchados pelas lágrimas e aceitou.

Como estavam as várias vendas combinadas, o senhor, a senhora e a menina Tourne- Boule despediram-se e subiram para a carruagem. O Sr. Rosbourg elogiou os cavalos e a vitória, e logo o Sr. Tourne-Boule, com o pé no estribo – Também – disse ele -vendo tudo por quatro mil francos, cavalo e carruagem: comprei-os há um mês por doze mil.

– Está comprado – disse o Sr. de Rosbourg.

– Até amanhã.

– Que original este – disse ele aos amigos, quando os visitantes se tinham já afastado. – É uma loucura vender assim com prejuízo. As terras do palacete dão mais de cinquenta mil francos de rendimento, e a floresta de Paulo dá mais de cem mil. Quanto ao Palácio em Paris, com o mobiliário que possui, vale milhão e meio. Espero que passemos lá juntos opróximo Inverno, querida e excelente amiga – disse à Sr.a de Fleurville, beijando-Lhe a mão. – Seria motivo

para me censurar o meu regresso, se a separasse, e a suas filhas, de minha mulher e de Margarida.

A Sr.a de Fleurville – Prometi e não volto atrás meu amigo. É uma alegria para mim fazer essa vida em comum consigo e com os seus. Mas onde estão os pequenos? Como é que eles deixaram a menina Iolanda sòzinha?

O Sr. de Rosbourg – Calculo que os aborreceu e os afugentou com o seu ar desdenhoso e com a sua

má-língua. Lá vêm eles. Vamos já saber o que houve.

As crianças aproximaram-se. A Sr.a de Fleurvílle perguntou às filhas como tinham elas cometido a indeli cadeza de deixar sòzinha a menina.

CaMila – Eu fui a última a ficar junto dela; mas.

não se podia, efectivamente, suportar. Fui-me também embora com Leão, quando me disse que a minha mãe era uma tola.

Sr.a de Fleurville – Pobre menina! É lamentável que seja tão mal- educada. Mas porque se tinham afastado os outros?

As crianças contaram então as impertinências da menina Iolanda e as respostas que lhes tinham sido dadas.

– Só vejo uma coisa a censurar – disse o Sr de Rosbourg: – É a alusão ao espeto feita por Paulo e Margarida. TEm, na verdade, um gosto um tanto selvagem.

Paulo – Tem razão, meu pai. Farei o possível por ser mais cortês noutra ocasião. E os pais? Serão por acaso, tão ridículos como a filha?

O Sr. de Rosbourg – Para te dizer o que sinto. acho-os extremamente vulgares. Nem eles vieram senão por motivos de negócios. O tio Tourne-Bouk vendeu-me, além das terras e do palacete de Dinarc, o seu palácio de Paris e a floresta vizinha da quinta, que comprei para ti. Aplaudes a compra?

Paulo – Aplaudo tudo o que faz, meu pai, e tudo o que me não afasta de si.

O Sr. de Rosbourg, a rir, – Bem, Nesse caso continuarei a empregar os teus capitais.

Paulo – Que capitais, meu pai? Que capitais tenho eu?

O Sr. de Rosbourg – Tens, além da fortuna de teus pais, dois milhões que o Sr. Fichini deixou a teu pai, seu amigo de infância.

Paulo – Era então muito rico esse Sr. Fichini? O Sr. de Rosbourg – Muito rico, sem dúvida! Deixou mais quatro milhões ao seu antigo e querido amigo Sr. de Réan, pai de Sofia.

Leão – Deus meu! Como Sofia é rica! Também eu gostava de ser rico.

joão – Nem por isso serias mais feliz. Não temos nós tudo quanto desejamos?

Leão – De qualquer maneira, é muito agradável

ser rico. Toda a gente cumprimenta e respeita os ricos. Paulo — Isso é que não. Respeitas acaso os Tourne-Boule? Serão eles mais felizes do que nós?

Madalena – Creio não haver ninguém mais feliz do que nós somos, depois da vinda do pai e de Paulo.

Margarida – E nós, que não somos ricos, não nos sentimos tão contentes?

Camila – A nossa alegria é tão grande, que ninguém no-la pode tirar; está no fundo dos nossos corações, e a Deus a devemos.

Paulo – É verdade. Quando se tem que comer, que vestir e com que viver desafogadamente, quando se tem ainda para dar aos pobres, para que presta o resto? Não se podia jantar senão uma vez, nem andar em dois cavalos ao mesmo tempo ou em mais de uma carruagem, nem queimar mais lenha do que aquela de que o fogão precisa. E sendo assim, que fazer do restante senão dá-lo aos que nada possuem?

O Sr. de Rosbourg – Tens muita razão, meu rapaz. Havemos de percorrer esta terra dez léguas em redor para que toda a gente se sinta feliz à nossa volta. Mostrar-lhe- emos o que podia fazer um bom, um verdadeiro cristão, das riquezas que Deus lhe deu.

As senhoras e algumas das crianças entraram

em casa. Tiago e Margarida foram para a sua cabana ler e conversar. Paulo e Leão iam para segui-los, quando o Sr. de Rosbourg, pondo-se à escuta, disse:

– Mas. que barulho é aquele? Oiço gemidos, e, ao mesmo tempo, gargalhadas.

Paulo – Também eu oiço. Anda daí, Leão, vamos ver de que se trata.

Leão, timidamente – Eu não oiço nada. Suponho que te enganas.

Paulo – Não, não, qual engano! Vamos depressa. Vem. – E, inclinando-se ao ouvido de Leão, disse-lhe

baixo: – Decide-te, anda. Na minha companhia não corres perigo.

Paulo agarrou Leão pela mão, e, arrastando-o, disse-lhe a meia voz:

– Coragem! Vamos, coragem. Mostra-lhes que não tens medo! Não te afastes de mim. avança ousadamente.

Correram para o caminho de onde procedia o

rumor, enquanto o Sr. Rugés, surpreendido, repetia:

– E foi! Mas foi mesmo, desta vez Não corre menos que Paulo… Não parece ter medo! Você vem, Rosbourg? Vens, Traypi?

O Sr. Rosbourg – Sigamo-los um pouco de longe, para lhes deixar todo o mérito de socorrer os que pedem auxílio. Se precisarem de ajuda, Paulo já sabe que estou perto, prestes a acorrer à primeira voz. Que é isto? Que voz tão indignada a de Paulo! Estão a ouvi-lo? Bela voz de comando! É pena não estar na marinha ou no exército. Ah! diabo! A coisa complica-se! Estou a ouvir gritos e pancadas. Aproximêmo-nos: é o momento.

Apressando o passo, o Sr. de Rosbourg, seguido pelos seus dois amigos, caminhou, ou melhor, correu

para o lugar do combate, pois era claro que o havia. Ao chegarem, viram estendido no chão, completamente nu, Relmot, o pobre idiota. Diante del, Paulo e Leão, animados pelo combate que haviam travado e que estava longe do fim. Atacados por uma dúzia de rapazolas, ambos distribuíam e recebiam socos

e pontapés. Paulo já tinha deitado dois por terra. Estava a lutar com mais três, enquanto Leão, menos hábil mas não menos animado, segurava outros dois pelos cabelos, e, fazendo-os bater com a cabeça um no outro, servia-se ao mesmo tempo deles como anteparo à saraivada de socos que davam os cinco ou seis restantes. O Sr. de Rosbourg atirou-se para o campo de batalha, agarrou dois dos maiores pelos rins, ergueu-os no ar e atirou-os por cima da sebe; fez o mesmo a maiz

dois. Os restantes, ao verem isto, tentaram fugir, mas

o Sr. de Rosbourg, alcançando-os, aplicou a cada um

deles tal correctivo, que lhes fez soltar uivos de dor.

-Vão-se agora embora, seus garotos, e atrevam-se a repetir a proeza!

E pô-los a andar com dois belos pontapés. Entretanto, Paulo e Leão, com o auxílio do Sr. Rugés e do

Sr. Traypi, levantavam o pobre idiota, que se pusera

de joelhos, a tremer e a chorar. Tinha o corpo extraordinàriamente inchado e cheio de manchas vermelhas;

as costas e os rins estavam esfolados em vários sítios.

– Desgraçado – exclamou o Sr. de Rosbourg.

-Que lhe fariam para o porem neste estado?

-Quando chegámos aqui, meu pai, encontrámos aqueles patifes, uns armados de grandes varas,

outros de molhos de urtigas, batendo e esfregando o

pobre louco, enquanto dois o seguravam. Atraíram-no

a este lugar isolado e despiram-no para se entregarem

àquele cruel divertimento. Foi Leão quem primeiro

acorreu e, indignado com tal espectáculo, mandou-lhes

acabar com ele. Eu secundei-o. Ora! -responderam. – Vocês são dois, e nós somos doze e mais fortes.

Deixem-nos ou far-vos-emos o mesmo que a este. E ia

um deles continuar, quando eu Lhe gritei: Alto lá,

malandrim! Põe-te já a andar ou tens de te haver

comigo. Como única resposta, deu outra varada no

pobre idiota, morto de pavor. Salto sobre o maroto

gritando: Anda, Leão! Mexe-me esses pés e essas

mãos! Não foi preciso repetir-lhe a frase! atirou-se

logo para cima do grupo como um leão verdadeiro.

Eu deitei dois a terra e logo a seguir ia fazer o mesmo

a outro, quando chegou o vosso auxílio. Sem ele,

teríamos tido que fazer; mas só nos restavam dez.

E teríamos acabado por os deitar abaixo, não, Leão?

Tu chegaste a alguns de rijo. Tens bons punhos e

bons pés. Eles é que o podem dizer.

Leão, orgulhoso e quase admirado da sua coragem, nada respondeu, erguendo a cabeça. O Sr. Rugés

aproximou-se e apertou-lhe efusivamente as mãos.

O Sr. de Rosbourg fez o mesmo. Perante este sinal de

estima de seu pai e de um homem que considerava

superior, Leão corou vivamente, e vieram-lhe aos olhos

lágrimas de contentamento.

– A questão é começar, meu homem – disse-lhe

o Sr. de Rosbourg. – És agora o companheiro de

Paulo, o bravo dos bravos.

Leão – Oh Senhor. Seria demasiada honra e

felicidade! Bastante recompensado me sinto com a

sua estima e com a satisfação de meu pai.

Paulo – Bem te dizia, meu amigo, que tinhas

tanta coragem como eu. Hás-de acreditar para outra

vez em mim, quando te disser bem de ti próprio,

não é verdade?

O Sr. Rugés – Não nos esqueçamos daquele pobre

rapaz que está ali em estado lastimável.

O Sr. de Rosbourg – Onde morará ele?

Leão – Mora a duzentos passos, na aldeola vizinha.

O Sr. de Rosbourg – Onde te puseram eles a roupa,

meu rapaz?

O Idiota – Atiraram… atiraram-na… para cima

da sebe.

Num abrir e fechar de olhos, Paulo saltou para

o outro lado e apanhou a roupa do idiota.

– Toma, apara – disse ele a Leão, atirando-lha.

O Sr. de Rosbourg – Antes de o vestir, vamos

lavá-lo na lagoa que está aqui perto. A água fria acalmar-lhe-á a irritação causada pelas urtigas e pelas

varadas. Anda, meu rapaz; apoia-te no meu braço.

Não tenhas receio, que não te faço mal.

– Não, não tenho. O senhor… é muito… bom…

bem vejo… – respondeu o idiota, ainda a tremer. que me… me custa… andar…

Os Srs. de Rosbourg e Rugés ergueram-no nos

braços e levaram-no até à lagoa. A frescura da água

acalmou-lhe as dores.

– Não me deixem – dizia ele. – Os malditos voltavam e tornavam a bater-me. Oh! Oh! Eles batiam-me com tanta força! Tenho muitas dores!

O Sr. de Rosbourg – Coragem, meu amigo! Isso passa! Vamos agora vestir-te e levar-te a casa.

O Idiota – É verdade que me não deixam? Que me não deixam sòzinho?

O Sr. de Rosbourg – Não, infeliz criatura, está descansado. Veste a camisa. Assim. Assim. Agora, as calças. Bom Agora, a blusa! Pronto. Calça os socos e vamos lá. Sentes-te melhor, agora?

O Idiota – Agora sinto. Faz bem a água. O Sr. Traypi – Sabes os nomes daqueles marotos que te bateram? És capaz de os dizer?

O Idiota – Sou, sou. É o mais velho dos Michot, o Samuel, que é aquele ruivo, depois o Daniel, que é zarolho, e o Friret e o Ganichon, os irmãos Rochardet, o Lecamus, aquele manco que é o Frognolet, o irmão dele e ainda os dois filhos do tio Bertot. São todos.

O Sr. TrayPI – Bem, não esqueças quem eles são, Vou avisar os pais e faço dar uma trepa em cada um, diante de mim, para ficar certo de que apanharam.

O idiota pôs-se a rir e a esfregar as mãos de contente.

– Ah! ah! ah! Eles tambEm vão apanhar, os patifes, os bandidos! O senhor mande-lhes chegar a valer. Ah! ah! ah! Sinto tal satisfação! Mande-lhes bater com urtigas. Assim dói-lhes mais.

– Pobre rapaz – disse o Sr. de Rosbourg a Paulo.

– Só pensa na vingança. Não podemos fazer-lhe compreender que Deus manda retribuir o mal com o bem. Mas cá estamos chegados. Rugés e Traypi, encarreguem-se de levar o pobre idiota aos pais. Eu regresso com os nossos corajosos rapazes a contar aos amigos o que eles fizeram. Tenho muita satisfação em falar de Leão como merece.

E, apertando mais uma vez as mãos de Leão, pôs-se a caminho. Ao chegar, encontrou a sala vazia.

Subiu ao quarto da esposa, deixando Paulo e Leão

que iam procurar os amigos.

Quando ficaram sós, Leão saltou ao pescoço de Paulo.

-Paulo, meu amigo, meu grande amigo, salvaste-me! Já não sou um poltrão! simto bem que o não

sou. A princípio contigo, e sòzinho depois, nunca mais terei medo; sinto-o, sim, sinto-o no meu coração, na minha alma e em todo o meu corpo. Sinto-me mais forte, sinto-me mais seguro de mim, sinto-me homem. Agradeço-te, meu amigo. Devo-te esta transformação.

Paulo – Não a deves a mim, meu bom Leão, mas a ti mesmo. Foi Deus que recompensou a coragem com que me confessaste não a ter. Nada mais fiz que ajudar a conheceres-te melhor.

Leão, com ternura – Bom, generoso e modesto, eis o que tu és, meu amigo, meu grande amigo.

Paulo – Vamos ter com os outros, Leão; sinto-me impaciente por lhes contar o que fizeste.

E correram ambos às barracas, onde efectivamente encontraram todos os amigos, que os esperavam; com impaciência.

– Venham cá, venham – gritaram-lhes eles. Estávamos à vossa espera para comermos uma travessa de morangos e de creme que a tia Romain agora mesmo nos mandou.

– Teremos licor nos armários – perguntou Paulo

-para beber à saúde de Leão? Acaba de bater-se heròicamente comigo contra doze rapagões, pondo-os em fuga.

– Não acredito – disse João, surpreendido. – Vejo que é verdade pelos olhos de Leão – disse Tiago. -Tem um aspecto que nunca Lhe notei, uma expressão que lembra a de Paulo.

Leão – Honras-me muito, encontrando tal semelhança, Tiago

Sofia Mas que tens tu? que estás verdadeiramente mudado?

João – É certo! apresenta um ar ao mesmo tempo

enérgico e modesto.

Margarida – Que lhe fica muito bem!

LeÃo – Nisso reside provàvelmente a minha semelhança com Paulo.

Paulo – Têm razão, meus amigos, Leão já não E

o mesmo. Acaba de bater-se corajosamente com um

grupo de doze rapazes, para defender Relmot, o

pobre idiota.

Leão – Não te esqueças de que estavas junto de

mim; sem ti nada teria feito.

Paulo – Evidentemente. Um só contra doze seria

impossível.

joão – Mas que terias feito tu próprio, se estivesses sòzinho?

Paul – Teria chamado meu pai, que se encontrava próximo.

João – E se não acudisse?

Paulo, energicamente – Tu supõe-lo capaz de não

me acudir?. Dizes isso, porque o não conheces.

Estivesse onde estivesse, não faltava ao chamamento

do filho. Mas deixem-me contar-lhes o que fez Leão:

E Paulo narrou o que se passara, louvando a

coragem do companheiro, apagando-se a si próprio

e pintando com vivas cores e indignadamente o sofrimento do pobre idiota.

– Pouca sorte não estar eu convosco – disse

João, trémulo de cólera. – Com que satisfação tomaria parte na luta contra aqueles patifes! Espero que

meu tio não se esqueça de fazer as prometidas visitas

aos pais, pedindo o devido castigo.

– Oh! isso esquece ele! – exclamou Tiago. Pobre Relmot! Havemos de o ir ver; achas bem, Paulo?

Paulo – Vamos todos amanhã. Agora vou trabalhar com meu pai.

– Acompanho-te – disse Margarida.

– E eu também – acrescentou Tiago.

E, de mãos dadas, dirigiram-se para casa.

– Foste tu quem encorajou Leão – disse Margarida, quando iam já um pouco longe dos amigos.

-Olha que não, minha Margaridinha. Ele é

que se decidiu.

– Excelente Paulo – tornou Margarida, apertando-lhe a mão que segurava nas suas.

-Paulo! Quanto mais te conheço, tanto mais

aumenta a minha amizade por ti – disse Tiago,

comovidamente.

Paulo – Acontece o mesmo comigo, meu Tiago!

estimo-te como a um irmão.

Tiago – Como me sentiria feliz, se pudéssemos

ficar para sempre a viver juntos!

Paulo – Mas a nossa separação não é definitiva.

Encontrar-nos-emos com frequência.

Tiago – Não gosto de chorar, Paulo, e quase

nunca choro. Mas, quando me separar de ti e de

Margarida, sentirei um pesar tão grande, que não

poderei conter as lágrimas. Esta é que é a verdade.

MargArida – Não será longa a separação, Tiago.

Tiago – Repara como está próxima: dentro de

oito dias acabarão as férias.

Margarida -Mas tu, que não és aluno interno,

não precisas de te ir embora no fim das férias.

Tiago – E os negócios do pai? Já me disse que

não poderia ficar aqui. Eu esforço-me por me animar

a mim próprio, e por não pensar nisso, mas… não

consigo.

E Paulo sentiu-lhe cair na mão uma lágrima.

Parou e abraçou, comovido, o seu amiguinho, e Margarida, abraçando-o também, procurou consolá-lo.

-Não chores, Tiago! Oh! não chores, peço-te.

Se te vejo triste, já toda a alegria me abandona. Fico

triste como tu, e sentir-nos-emos todos infelizes. Não

chores, Tiago, peço-te.

O bom Tiago limpou os olhos, prestes a derramar novas lágrimas. Quis falar, mas embargou-se-lhe

a voz; tentou um sorriso, beijou os seus dois amigos e prometeu-Lhes ser corajoso e não pensar na separação, mas sim no regresso. Foi então cada um para seu lado: Paulo, trabalhar; Margarida, contar ao pai o pesar de Tiago, e este, chorar à vontade encostado ao ombro do pai.

– Meu pequenito – disse o Sr. Traypi-, não posso infelizmente evitar-te esse pesar. Não me é possivel ficar indefinidamente em casa da minha irmã, e tu, pelo teu lado, não queres separar-te de mim. Esforça-te, filho, por sofrer com coragem os desgostos que Deus te dá. Sabes que a vida não dura sempre. os sofrimentos, como os prazeres, terminam. Procura viver de modo que encontres um dia no céu, e para sempre, os amigos de quem tanto te custa a separar durante meses. Chora, meu filho. Entretanto a coragem voltará.

Tiago chorou durante algum tempo, tão grande era o seu pesar pela separação. Margarida, por sua vez, chorou também um pouco nos braços do pai, cujos carinhos e beijos finalmente a reconfortaram. Paulo, habituado a dominar-se, sentiu-se contudo triste e pesaroso, enquanto viu no rosto da irmãzinha sinais de tristeza. A face iluminou-se-lhe ao primeiro sorriso de Margarida, e retomou o trabalho quando a viu sorrir, inteiramente calma.

Estavam as férias quase a terminar. Aumentavam, de dia para dia a mútua estima das crianças e o seu

bom entendimento. Leão melhorava constantemente,

ao contacto de Paulo e das suas excelentes primas,

Camila e Madalena. A coragem crescia nele e, com

esta, desenvolviam-se as suas outras qualidades. Como

Paulo, corria agora ao encontro do perigo, sem, todavia, o afrontar inutilmente. O idiota fora vingado:

Os pais dos garotos que Lhe tinham batido trouxeram-nos a casa do Relmot e ali, na presença da vítima

da sua perversa garotice, aplicaram a cada um deles

tão duro castigo, que o idiota fugiu, com a cabeça

entre as mãos, para lhes não ouvir os gritos. Tiago

sentia-se triste, mas resignado, e mais dedicado que

nunca a Paulo e Margarida. Sofia sentia muito a partida próxima dos amigos, mas sobretudo a de João,

sempre tão fraterno e tão amável para ela.

Nunca mais ouviste então falar da tua madrasta? – perguntara-lhe um dia João. – Onde estará?

Que será feito dela?

– Ignoro-o – respondeu Sofia. – Não me dá

noticias suas. Confesso-te que raramente penso nela!

Tanto me fez sofrer, que me esforço por esquecê-la.

e aos três duros anos da minha infância.

João – Que idade tinhas quando te abandonou

E que idade tens agora?

Sofia – Tinha então pouco mais de sete anos. Agora, tenho nove, menos um que Madalena e menos dois que Camila.

João – E Margarida, que idade tem?

SofiaMargarida tem sete anos, mas é mais inteligente do que eu e está muito mais adiantada. Não me admira que Paulo goste tanto dela. É tão boa e tão gentil!

joão – Oh sim. Paulo gosta muito dela. Quando se diz qualquer coisa contra a sua irmãzinha, brilham-lhe os olhos. Até se pode dizer que lançam chispas!

Sofia – E como ele estima o Sr. de Rosbourg! jOão – Quanto a esse, então, se alguém se atrevesse a tocar-Lhe só com uma palavra, não só mostraria a sua indignação no olhar, como também cairia em cima do atrevido, a murro e a pontapé…

Sofia! Sofia! – gritou Camila, que vinha a correr. – A mãe está a chamar por ti. Recebeu notí cias da tua madrasta, que se encontra muito doente.

Sofia soltou um grito de terror ao saber assim

súbitamente da madrasta. Ergueu-se da cadeira, mas tornou a sentar-se, suFocada pelos soluços.

– Minha pobre Sofia – disseram-Lhe Camila e João -, acalma-te. Porque estás a chorar assim?

– Deus meu! Tenho então de vos deixar a todos, para ir viver junto daquela mulher má? Ah! se pudesse morrer aqui, convosco, em vez de voltar parajunto dela!

– Para que lhe falaste tu disso, Camila? – disse João em tom de censura. – Pobre Sofia! Repara em que estado a puseste!

Camila – A mãe tinha-me mandado preveni-la. Não calculas como me custa vê-la chorar assim, mas a culpa não é minha. Não poderia deixar de fazer o que a mãe me dissera. Vem, minha pobre Sofia, a mãe não permitirá que voltes a viver com aquela senhora tão má, podes ter a certeza.

-Julgas isso? – respondeu Sofia, um pouco tranquilizada. – Receio que faça tudo para me obrigar a ir

para junto dela. Vem connosco, João. Quero ter perto de mim, neste momento; os meus queridos amigos.

João e Camila, quase tão tristes como Sofia, deram-lhe a mão e entraram no quarto da Sr.a de Fleurville que encontraram com o Sr. e a Sr.a de Rosbourg. Não escaparam as lágrimas de Sofia ao Sr. de Rosbourg, que se levantou vivamente, se dirigiu a ela, a beijou com carinho e lhe perguntou se o motivo por que chorava era o regresso da madrasta.

SoFIa, soluçando – Sim, querido Sr. de Rosbourg. Salve-me! Faça com que eu não deixe a Sr.a de Fleurville e as minhas amigas.

O SR. de Rosbourg – Tranquiliza-te, minha menina. Ficarás sempre aqui. A Sr.a de -Fleurville quer-te na sua companhia. E eu, que sou o teu tutor – acrescentou, sorrindo e beijando-a -, ordeno-te que fiques aqui.

 

A Sr.a de FleurVille – Nunca deverias imaginar; minha Sofia, que eu tivesse a mínima intenção de te

deixar sair de junto de nós. Como a tua madrasta se casou, perdeu a autoridade sobre ti, e somos nós agora, como teus tutores, que temos o direito de te

conservar na nossa companhia.

Sofia – Ah! que felicidade! Vê? Já não choro! Mas que diz então a carta da minha madrasta?

– Não é ela que escreve! é a criada de quarto. Aqui está a carta:

Excelentíssima Senhora: Quero dizer-lhe, e a toda a família, que a minha senhora se encontra muito doente. O marido afinal não era um conde, mas um fugido das galés, que lhe gastou toda a fortuna e que Deus Nosso Senhor deixou morrer num desastre, quando fugia à polícia que o iria prender. A minha senhora pediu-me que lhe escrevesse e pedisse à menina Sofia que a viesse ver antes de morrer. Ela está muito preocupada com a outra menina. Quanto a mim, estou muito arrependida de estar ao seu serviço, e peço à senhora que me arranje um lugar de criada.

Sofia e João não puderam impedir-se de rir ao

ler aquela carta toda cheia de erros.

-De que menina fala essa mulher, minha

senhora? – perguntou Sofia.

A Sr. de Fleurville – Não sei. Talvez alguma

filha da tua madrasta depois do seu segundo casamento.

– Pobre criança – exclamou Sofia. – Espero que

seja mais feliz com a mãe do que eu fui.

-Ouve, Sofia, vou dizer-te o que resolvemos.

O Sr. de Rosbourg vai visitar a tua madrasta para

sabermos, com certeza, como se encontra e o que

pretende. Espera calmamente a volta dele e não te

preocupes. Não receies que ela te leve para a sua companhia. Nem o pode fazer, nem nós lho consentimos.

Sofia, muito tranquilizada, beijou a Sr.a de Fleurville e os Srs. de Rosbourg; agradeceu-lhes e saiu a

correr, acompanhada por João, que bem mostrava participar da sua alegria. Uma hora depois, o Sr. de Rosbourg estava de volta e ia ter com a Sr. a de Fleurville.

– Então, meu amigo, que soube?

– A pobre mulher está a morrer. Não Lhe restam

dois dias de vida. Tem uma filhinha de um ano, que

não goza de muito mais saúde. Encontra-se arruinada

por aquele galeriano que casou com ela por dinheiro.

Quer ver Sofia para lhe pedir perdão de tudo o que lhe

fez sofrer.

A Sr.a de Fleurville – Acha que se deve levar-lhe Sofia?

O Sr. de Rosbourg – Sofia deve ir vê-la; mas irá comigo. Impor-me-ei se for necessário. Ela tem-me respeito e não se atreverá a tratá-la mal na minha presença.

O Sr. de Rosbourg foi pessoalmente avisar Sofia da visita que ela iria fazer, e deixou-a inteiramente tranquila, falando-Lhe da influência que tinha sobre a madrasta. Enquanto Sofia punha o chapéu e prevenia as suas amigas Camila e Madalena, o Sr. de Rosbourg mandara atrelar outros cavalos à vitória e puseram-se a caminho.

Quando Sofia penetrou naquela casa onde tanto sofrera, teve um movimento de receio e encostou-se ao seu bom tutor. Este, percebendo o que Lhe ia no ânimo, pegou-lhe na mão, que conservou na sua, querendo provar-lhe assim que era o seu protector e que, com o auxílio dele, nada tinha a temer. A medida que ia entrando, reconhecia ela os compartimentos

da casa e os móveis. Tudo ficara no mesmo estado em que estava quando Sofia partira para ir viver junto da Sr.a de Fleurville, que para ela fora uma segunda mãe.

Abriu-se a porta do quarto da Sr.a Fichini: Sofia fez, para entrar ali, um esforço sobre si mesma e achou-se em frente da madrasta. Não a via gorda; corada e segura de si, como a deixara dois anos antes.

Estava pálida, magra, abatida, humilhada. Quis erguer-se quando Sofia entrou, mas não pôde; tornou a cair na poltrona e escondeu o rosto entre as mãos. Sofia viu

deslizarem-lhe lágrimas por entre os dedos. Comovida com este sinal de arrependimento, aproximou-se, agarrou-lhe uma das mãos e disse-lhe timidamente:

– Minha mãe.

-Chamas-me mãe, pobre Sofia – exclamou a Sr.a Fichini, entre soluços. – Que mãe, Meu Deus! Desde que fiz a minha infelicidade com aquele casamento maldito, e sobretudo desde que tenho uma filha, compreendi o que houve de horrível no meu comportamento para contigo. Deus castigou-me. Fez bem. Sinto-me muito, muito culpada. mas também verdadeiramente arrependida-acrescentou ela, redobrando os soluços e abraçando a enteada. – Sofia, minha pobre Sofia, que eu tanto detestei e martirizei, perdoa-me. Oh! Dize que me perdoas, e morrerei tranquila.

– De todo o coração, -do fundo do meu coração, minha pobre mãe-respondeu- Sofia, a soluçar: Não se aflija dessa maneira; tornou-me feliz, confiando-me aos cuidados da Sr.a de Fleurville, que é para mim uma verdadeira mãe. Tenho sido feliz, muito feliz, e a si o devo.

A Sr.a Fichini – A mim? Oh! Não, nada me deves, senão a infelicidade, as tuas penosas recordações, o teu desprezo. Meu Deus! Meu Deus! Perdoai-me. Vou morrer. Queria um padre. Por favor, um padre para me confessar, para que Deus me perdoe. Sofia, minha pobre Sofia, faze-me esta boa acção pelo mal que te fiz e pede a este senhor que me vá buscar um padre.

O Sr. de Rosbourg – Dentro de poucos instantes estará um aqui; eu vou chamá-lo.

Sofia ficou junto da madrasta, que continuou a soluçar, a implorar perdão, a pedir um padre. Sofia chorava, dizia-lhe tudo o que podia para a acalmar e a consolar. Meia hora depois, chegou um sacerdote: A Sr.a Fichini desejou ficar só com ele; estiveram ambos sós, durante mais de uma hora. O padre prometeu voltar no dia seguinte, e, ao retirar-se, disse ao Sr. de Rosbourg:

– Ela deseja que a deixem sòzinha até amanhã, senhor. Ver esta menina, desperta nela remorsos tais, que não pode suportá-los. Pede, no entanto, que lha tornem a trazer amanhã.

Voltou o Sr. de Rosbourg a entrar no quarto da Sr.a Fichini e falou-lhe em termos tão comovedores da bondade de Deus, da sua indulgência para com o verdadeiro arrependimento, da misericórdia pelos homens, que conseguiu acalmá-la.

– Volte amanhã – pediu ela, com voz débil.

– Ajudar-me-á a morrer. Fala tão bem de Deus e

da Sua bondade, que, ouvindo-o, sinto-me mais animada:

Prometa que me traz a Sofia. Pobre Sofia! -acrescentou, caimdo, fatigada, no travesseiro. – E o seu desgraçado pai, fui eu que o matei! Fi-lo morrer de pesar!

Pobre homem… E pobre Sofia!

Fechou os olhos e nada mais disse. O Sr. de Rosbourg retirou-se depois de ter chamado Edwige, a

criada. Levando Sofia pela mão, saíram ambos em

silêncio daquela casa, onde lentamente morria uma

mulher, que, dois anos antes, era o terror da enteada.

No carro perguntou o Sr. de Rosbourg a Sofia:

– Perdoas-Lhe tu muito sinceramente, minha filha?

Sofia – Do fundo do coração lhe perdoo. Em

que estado se encontra! Tive pena dela, pobre mulher!

O Sr. de Rosbourg – Sim, a morte deve inspirar-lhe pavor. Mas todos havemos de morrer um dia. Rezemos a Deus, para que nos faça viver cristãmente, para que tenhamos uma morte suave, na esperança e na serenidade. Deus se compadecerá dela, pois parece muito sinceramente arrependida.

Quando regressaram a Fleurville, encontraram

toda a gente reunida na escadaria, a esperá-los.

– Choraste, pobre Sofia – disse João, apertando-lhe uma das mãos, enquanto Paulo lhe pegava na outra.

Sofia contou-lhes o triste estado da madrasta e os pormenores da entrevista. Sentiram-se todos comovidos com o arrependimento da Sr.a Fichini, e lamentaram que a sua amiguinha fosse obrigada a repetir a visita no dia seguinte.

O Sr. de Rosbourg contou por seu turno à esposa

e amigos como cumprira aquele penoso dever. Falou

com elogio da sensibilidade de Sofia, e lamentou ter

de a levar no dia seguinte a experimentar de novo tão dolorosas emoções.

– O que parece estranho é não ter a Sr. e Fichini falado mais da criança a que se referia a senhora… não me lembra o nome! limitou-se a uma vaga alus ão. Veremos amanhã.

 

ÚLTIMO CAPÍTULO

No dia seguinte, o senhor de Rosbourg conduziu mais uma vez Sofia à presença da madrasta. Fora péssima a repercussão da entrevista da véspera no estado da doente. O padre já lá estava, administrando a Extrema-Unção. O Sr. de Rosbourg e Sofia ajoelharam perto da cama da moribunda. Quando o padre se

retirou, a senhora Fichini chamou Sofia, e, pegando-lhe na mão, falou-lhe com voz entrecortada:

Sofia, tenho uma menina. uma filha. Estou arruinada. Nada tenho a deixar-lhe. Tu és rica. toma-me conta dessa pequenina. Não sejas para ela. o que eu fui para ti. Perdoa-me. Nada me deves… nada te exijo. nada prometas… mas sê caridosa para a minha filha… Adeus… minha pobre Sofia. Adeus. minha pobre filha!

– Sossegue, minha mãe – disse Sofia-, a sua filha será para mim uma irmã, prometo-lhe tratá-la e amá-la como tal. A Sr. de Fleurville, tão bondosa, o Sr. de Rosbourg, meu bom tutor, hão-de autorizar-me a olhar por ela. Não é verdade, Sr. de Rosbourg?

O Sr. de Rosbourg – Sim, minha filha, segue o instinto do teu bom coração; aplaudo inteiramente o

teu intento.

A Sr.a FICHIni – Obrigada, Sofia, obrigada. Graças a ti. ao teu bom tutor. e a este bondoso sacerdote. morro máis tranquila. Rezem todos por mim… Que Deus me perdoe… Adeus, Sofia… teu pai… perdoa… Sofro muito… Falta-me o ar… Ah!

Cortou-lhe a palavra uma convulsão. O Sr. de

Rosbourg levantou nos braços Sofia que olhava aterrada, levou-a para o quarto vizinho, pô-la entre as

mãos de Edwige e voltou para se ajoelhar de novo

aos pés da cama da Sr.a FichIni, que em breve soltou o último suspiro. Rezou por alma daquela desgraçada mulher, cujo fim tão perturbado fora pelos remorsos. A um velho porteiro que vivia numa dependência do castelo, deixou o encargo de, com o padre, combinar tudo o que dizia respeito ao funeral. Depois foi buscar Sofia para regressarem ao castelo de

Fleurville.

-Mas que há-de ser da pequenina? -perguntou ela.

– Tens razão – disse o Sr. de Rosbourg. – Menina Edwige, confio aos seus cuidados a pequenina

até decidirmos sobre o que há a fazer.

Sofia – Gostaria de a ver antes de sair daqui.

O Sr. de Rosbourg, a EdwigE – Onde está a menina?

EdwigE – Neste quarto, senhor. Façam o favor de entrar.

Entraram e viram uma criada que tinha nos joelhos uma criança, magra, pálida e franzina.

– Está doente-notou o Sr. de Rosbourg.

– Sempre teve este aspecto, senhor – disse a

menina Edwige-; julga o médico que não vai longe.

Sofia quis beijá-la, mas ela, chorando, desviou

a cabeça. O senhor de Rosbourg aproximou-se também e a criança começou a gritar.

– Vamo-nos – disse o Sr. de Rosbourg-, talvez

noutra ocasião não nos tenha tanto medo.

E partiram. Quando chegou a Fleurville, Sofia

contou aos seus amiguinhos a morte da madrasta,

enquanto o Sr. de Rosbourg combinava com a Sr.a de

Fleurville o destino a dar à pequenita.

Sofia – explicava ele – não pode tratar como

irmã a filha dum correccional e daquela mulher que

Foi tão dura para com ela. Edwige parece-me bondosa, se bem que ignorante e acanhada; dar-lhe-emos

uma mesada, e ela ficará com a pequenita e a criada

a viver numa parte do castelo. Quando a criança crescer, veremos o resto. Suponho, porém, que não sobrevive à morte da mãe por muito tempo.

Confirmaram-se as previsões do Sr. de Rosbourg:

a filha da Sr.a Fichini morreu de anemia um mês

depois, e Edwige entrou como dama de companhia

para casa duma velha senhora natural da Valáquia,

a cujos netos dava lições de francês, e onde esteve

até à morte da senhora, que lhe deixou no testamento

o necessário para viver com decência.

As férias estavam no fim. Chegou o dia da partida. As crianças sentiam-se muito tristes. Tiago e

Margarida choravam amargamente; o pesar de Sofia,

Leão e João, embora se manifestasse menos vivamente,

não era menor. Paulo, sombrio, via com mágoa a tristeza de Margarida e Tiago. Mas a separação tinha

de dar-se. O último momento foi cruel. O Sr. Traypi

arrancou Tiago dos braços de Paulo e Margarida,

saltou com ele para a carruagem e mandou seguir

imediatamente. Margarida lançou-se nos braços de

Paulo e chorou muito tempo com a cabeça apoiada

no seu ombro. Este conseguiu por fim consolá-la, com

muita satisfação da Sr.a de Rosbourg, a quem afligia

ver chorar a filha.

O Sr. de Rosbourg – Foi-se embora o teu amiguinho mais novo, querida filha. Mas ficou-te o teu

amigo mais velho. Sabes como Paulo te estima. Eu e

ele faremos sempre porque não te aborreças e porque

te sintas contente.

Margarida – Oh meu pai, nunca me poderei

aborrecer perto de si e de Paulo, e sentir-me-ei sempre

contente junto de ambos. Choro por me separar

de Tiago, porque gosto dele. Depois… ele tambEm

gosta muito de mim, e bem vejo que longe de mim ele não poderá sentir-se feliz.

O Sr de Rosbourg – Sempre assim acontece neste mundo, meus filhos. Dá-nos Deus múltiplos trabalhos e pesares, para, por esse modo, nos persuadir a não amarmos demasiado esta vida e habituarmo-nos à ideia de a abandonar. Quando fores mais crescidinha, Margarida, hás-de compreender melhor o que Paulo, na sua idade, compreende já: para bem morrer, é preciso viver bem e cristãmente, suportar os sofrimentos que Deus nos dá, praticar a caridade para com todos os homens, amar a Deus como nosso pai, amar os homens como irmãos.

 

CONCLUSÃO

Acabadas as férias, deixaremos crescer, viver e

morrer em paz os nossos amigos.

Direi apenas àqueles que tenham chegado a interessar-se pelas personagens desta narrativa, que a

Sr.a de Rosbourg foi instalar-se no seu novo castelo

continuando, no entanto, a encontrar-se todos os dias

com a Sr.a de Fleurville. Como ela, também Margarida e Paulo se juntavam todos os dias às suas três

amigas a meio do caminho das duas residências. No

Inverno reuniram-se todos em Paris no palácio do

Sr. de Rosbourg. Camila fez a primeira comunhão no

ano seguinte àquele em que ocorreram os acontecimentos

narrados neste livro, e Madalena um ano depois.

Foram sempre tão bondosas e encantadoras como nas

Meninas Exemplares as vimos, casaram-se e viveram felizes.

Sofia convivia cada vez mais com as suas amigas.

Só se separou delas aos vinte anos, para casar com

João Rugés.

Margarida nunca se quis separar do pai e da

mãe, o que foi facilitado pelo seu casamento com Paulo,

consagrando ambos a sua vida a fazer a felicidade

dos pais. Leão, tão bondoso, indulgente e corajoso

como outrora fora bulhento, zombeteiro e tímido, veio

a ser um valente militar. Serviu durante vinte anos no

serviço activo, reformando-se aos quarenta anos no

posto de general, com muitas condecorações e coberto

de glória, para viver junto do seu amigo Paulo, pelo

qual mantinha inalterável amizáde.

Tiago conservou sempre a mesma dedicação a Paulo e Margarida. Vinha de ano a ano passar as férias com eles. Quando chegou à maioridade entrou para o Conselho de Estado, desposou uma irmã de Margarida, que nascera pouco tempo depois das nossas Férias, e chamada Paulina em homenagem a Paulo e afilhada deste. Parecia-se muito com a irmã, pela bondade, espírito carinhoso, inteligência e beleza. Tiago foi sempre um homem encantador, espirituoso, vivo, bom, virtuoso. Passaram a viver juntos, gozando com pleta felicidade.

Os Tourne-Boule saíram da região e de França para irem viver na América com os restos da sua fortuna, dissipada em luxos e vaidades. Iolanda, pèssimamente educada, sem inteligência, sem bondade e sem religião, fez-se actriz e morreu no hospital. O Sr. Tourne-Boule, de volta a França, como andava a morrer de fome, teve a felicidade de ser recolhido nas irmãzinhas dos pobres, onde prestava serviços na sua antiga qualidade de ajudante de cozinheiro.

 

Fim

Receba grátis a Newsletter do Histórias Infantis!

Muitas e muitos histórias infantis para contar.

, , , ,

Seja o primeiro a Comentar

Deixe um Comentário