Written on Fevereiro 5th, 2012 at 9:28 am by

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Tudo estava em festa no belo palácio dos duques de Morancé, onde se esperava, com alegria, o nascimento do primeiro filho.

Num amplo quarto, cujas cortinas corridas deixavam apenas entrar uma claridade suave, a jovem duquesa sorria enternecidamente à filha recém- nascida.

A criança dormia no seu berço de seda e rendas, enquanto a mãe sonhava com a felicidade que lhe traria aquele pequeno ser.

A cerca de meia légua dali, via-se um dos mais humildes casebres da aldeia, onde vivia a pobre Mariana Aubin.

O ar entrava por um vidro quebrado e chegava até à miserável enxerga, onde choramingava uma pobre criancinha que acabara de nascer. O pai olhava-a de sobrolho carregado: era uma oitava boca a sustentar, mais uma criança a vestir e a criar… Perguntava, a si mesmo, como é que o trabalho dum só homem iria fazer face a tão pesados encargos.

Também os irmãos não acolhiam com prazer a recém-nascida. Só a mãe abria, inteiramente, o coração a esta infeliz criaturinha.

No mesmo dia foram levadas à igreja a filha da duquesa de Morancé e a de Mariana Aubin.

O altar estava deslumbrante de luzes e flores; uma dama elegantemente vestida levava nos braços a pequenina duquesa, bem aconchegada em cachemiras brancas. A filha da camponesa, envolta em lãs grosseiras, era, por sua vez, levada à pia baptismal por uma rude aldeã.

E no entanto as almas das duas crianças tinham a mesma origem divina; um anjo igualmente belo, puro e casto velava por cada uma delas e protegia-as com as suas asas imaculadas.

As duas crianças cresceram: Beatriz de Morancé cercada de luxo e de amor; Luísa Aubin no meio duma pobreza, que a morte do pai viera ainda agravar. Mariana Aubin, sempre doente e esgotada pelo trabalho, tivera de entregar ao filho mais velho

– o único que, como jardineiro, ganhava já um bom salário – a direcção da casa. Infelizmente, Simão Aubin, de carácter brusco e irritável, não tinha as qualidades necessárias para exercer a autoridade, que por morte do pai lhe caíra nas mãos. Abusava dela; os irmãos temiam-no mas não lhe obedeciam, e a própria mãe, conhecendo- o, não ousava consultá-lo, como seria seu desejo, em todas as circunstâncias da vida. Luísa sofria mais que qualquer outro, com os arrebatamentos do irmão

mais velho. Como nunca encontrara afeição nem benevolência da parte dos irmãos, concentrara toda a ternura na mãe, com a qual se parecia, não só no rosto como na alma.

Os filhos mais velhos de Mariana, salvo Simão, estavam empregados em herdades dos arredores e os mais novos começavam a aprender um ofício que lhes permitisse, mais tarde, ganhar a vida.

Quando Luísa fez nove anos, foi para casa duma vizinha guardar gansos. Não recebia ordenado mas sustentavam-na, o que aliviava os encargos da mãe.

Apesar de toda a sua coragem, a pobre Mariana sentia bem que as forças lhe diminuíam e que se aproximava, rapidamente, o momento em que seria obrigada a deixar os filhos.

Dissimulou os sofrimentos enquanto lhe foi possível, principalmente por causa de Luísa, cujo coração afectuoso sentiria vivamente a dor desta inevitável separação. No entanto, chegou o momento em que a doença triunfou da vontade, e Mariana caiu à cama para não mais se levantar.

Certa manhã, quando Luísa se preparava, como de costume, para levar os gansos ao pasto, a mãe chamou-a.

– Não saias, hoje, minha filha, pois se o fizeres, receio não tornar a ver-te.

Luísa olhou a mãe com inquietação e viu-lhe o rosto tão transtornado que, aflita, caiu a soluçar, aos pés da cama. A mãe estendeu-lhe a mão.

– Não chores, minha filha, Deus quer que eu parta. Faça-se a Sua vontade! Velarei por ti, quando estiver no Céu.

Depois, soerguendo-se, enquanto sorria tristemente tirou, de debaixo da almofada, uma bolsinha de malha e entregou-lha.

– Estão aí algumas moedas. Poupei-as, migalha a migalha, desde o dia em que nasceste. Era para te comprar um vestido no dia da tua primeira comunhão. Esconde bem esse pequeno tesouro, último presente da tua mãe.

Então abraçaram-se as duas e a pequenita desatou a soluçar.

Pouco depois o cura de Morancé, chamado a toda a pressa por uma vizinha, dava os últimos sa cramentos à boa mulher. Simão, que fora prevenir os irmãos do que se passava, entrou com eles no quarto. Mariana, muito serena, dirigiu palavras afectuosas a todos os filhos. Quando se calou, toda a gente caiu de joelhos e nada mais se ouviu senão a voz do sacerdote, recitando as últimas orações.

Luísa, sem compreender bem todo o significado desta cena fúnebre, permanecia a chorar ao pé do leito da mãe. Quando levantou a cabeça, o único ser que amava na Terra tinha subido aos Céus.

A bolsa

No dia seguinte, quando Simão voltava do enterro da mãe, encontrou Luísa a chorar, sentada na soleira da porta, com a cabeça escondida no avental.

Empurrou-a rudemente e obrigou-a a levantar-se.

– Toca a andar! Basta de lágrimas! Quando se chora não se faz nada. Julgas que é assim que honras a nossa mãe, que Deus haja? Vá! toca a ir guardar os gansos!

– Pois sim, Simão, eu vou.

– É verdade! Havia uma bolsa debaixo da almofada da mãe e não a encontro – disse Simão, com ar desconfiado. – Ela deu-ta?

– Sim, meu irmão – respondeu a pobre criança -, a mãe disse que era para a minha primeira comunhão.

E, ao dizer isto, entregou-lhe a bolsa que trazia na algibeira.

– Ouve – disse Simão num tom de voz mais brando -, precisamos desse dinheiro para viver.

Quando chegar a ocasião arranjaremos maneira de te comprar um vestido branco.

Luísa sabia por instinto que ele mentia, mas era demasiadamente dócil para resistir e estava triste de mais para responder. Não podia, porém, ficar junto do irmão e correu para a herdade em que era guardadora de gansos. As portas da casa estavam fechadas e o silêncio que reinava indicou-lhe que toda a gente dormia. Depois de ter em vão batido à porta, Luísa, a tremer de frio, ficou sem saber onde abrigar-se.

Amargurada, afastou-se, mas, ao passar diante do estábulo, ocorreu- lhe a ideia de ali entrar. Em purrou a porta.

<<Creio que não faço mal nenhum se me deitar, esta noite, na palha das vacas. A Sr. a Gervásia não ficará zangada. Farei o possível por não incomodar os animais. >>

Luísa entrou. Uma esplêndida vaca, deitada numa cama de palha, mal a viu, abriu os meigos olhos e encostou-se à parede.

Luísa teve a impressão de que o bom animal lhe oferecia um lugar a seu lado. Aproximou-se da vaca, acariciou-a um momento, depois rezou, agradeceu a Deus o abrigo que lhe deparara e, deitando-se junto dela, adormeceu tão feliz como os filhos dos ricos, em seus leitos caros.

Gracinha

Ao mesmo tempo que Luísa despertava junto da vaca da tia Gervásia, numa herdade da Touraine, em Paris, Beatriz abria os olhos, no seu quarto forrado de estofo cor-de-rosa e o olhar caiu sobre um bercito colocado ao lado da cama.

– O que é isto, Aninhas, um berço? – exclamou a pequenita saltando da cama para admirar a boneca que lá devia estar, com certeza.

– É uma boneca de louça, como não há outra, em Paris. Diz bom-dia, papá, mamã e muitas outras coisas. Senta-se, cumprimenta, abre e fecha os olhos, enfim, uma boneca maravilhosa que a princesa, vossa madrinha, nos envia hoje, 22 de Outubro, dia do vosso aniversário.

– É verdade, Aninhas, faço hoje dez anos. Talvez já não devesse gostar de bonecas, mas não há nada de que eu goste tanto. Como a madrinha é boa por se ter lembrado. Ah! que linda!

Beatriz afastara as cortinas do leito e, muda de admiração, contemplava uma boneca que, de olhos fechados, parecia realmente dormir.

Era tal qual uma criança com seus caracóis louros e sedosos e a carita rosada.

Ao lado do berço, Beatriz viu uma comodazinha de pau-rosa.

– Os vestidos da boneca estão ali dentro, não estão?

– Sim, menina.

Ainda que rica e amimada, a pequenita nunca contemplara tais maravilhas: camisas bordadas, guarnecidas de rendas, vestidos de veludo com peles de marta, casacos forrados de cetim branco, penteadores de musselina com valencianas, luvas de pele, botas de pelica, jóias verdadeiras com turquesas e coral, tudo marcado com o nome da encantadora boneca.

– Chama-se Gracinha – disse a criada – e tem um nome bem escolhido. Quer que ela diga mamã?

– Quero, quero, Aninhas! Bom dia, Gracinha!

– Bom dia, mamã – articulou a boneca.

Beatriz agarrou-a e abraçou-a com entusiasmo.

– Que linda! Como eu gosto dela! Arranja-me depressa, Aninhas. Quero vestir a Gracinha para levá-la a almoçar comigo. Vou convidar todas as minhas amigas para a merenda e mostrar-lhes-ei a minha boneca.

Nesse mesmo dia todas as amigas de Beatriz se reuniram no salão da duquesa de Morancé e, à merenda, presidiu a maravilhosa Gracinha.

Foi um nunca acabar de exclamações! Jamais se vira uma boneca assim! Todas as amiguinhas de Beatriz sonharam com ela nessa noite e durante mais dum mês não se falou doutra coisa.

Todas as vezes que a duquesa saía com a filha, esta levava Gracinha, trajando novos fatos.

Quando iam às Tulherias, todas as crianças cercavam Gracinha, exprimindo tal admiração, que o coração de Beatriz inchava de vaidade satisfeita.

Um dia em que tinham convidado Gracinha e Beatriz para uma festa infantil, a pequena duquesa, depois de ter sido saudada pelas suas amiguinhas, reparou numa garotinha, vestida de luto, pálida e triste, que estava sentada a um canto do salão.

Dirigindo-se a ela, Beatriz pegou-lhe afectuosamente na mão e perguntou-lhe:

– Que tens?

A pobre criança desatou a soluçar.

– Helena está triste – disse uma das convidadas – porque lhe morreu uma irmãzinha, há poucos dias.

– A tua irmãzita morreu, Helena? – exclamou Beatriz. – Ah! sim! deves ter muita pena.

– A mãe quis que ela viesse distrair-se, mas ela não quer brincar.

– Vá, Helena, deves vir brincar. Olha para a minha boneca!

Helena pegou maquinalmente em Gracinha e, enxugando os olhos, pôs-se a examiná-la.

Era mais nova do que Beatriz e menos rica; por isso, esta boneca extraordinária mais excitou a sua admiração.

Meia hora mais tarde já não havia lágrimas nos seus olhos. Gracinha era tão bonita. Parecia dormir e sorrir realmente. Falava tão bem, que teria, não consolado, mas distraído do desgosto outras crianças mais velhas do que Helena.

Durante toda a tarde, Beatriz esteve ao pé da sua amiguinha. Tentava fazê-la sorrir, mostrando-lhe todas as gracinhas da sua boneca.

Ao separar-se, Helena embalava nos braços a boneca adormecida.

– Toma lá a Gracinha. Ah! como és feliz em teres uma filha tão linda!

Beatriz dispunha-se a sair quando um soluço a fez voltar-se. Era a sua amiguinha que a seguia com os olhos e recomeçara a chorar. A filha da duquesa correu para ela.

– Minha querida – disse ela, abraçando-a. Tenho de me ir embora, mas deixo-te a Gracinha para te distrair um pouco.

– A Gracinha? – repetiu Helena com os olhos iluminados por súbita alegria. – Dás-me a Gracinha?

– Sim, dou-ta. Não chores mais. Só te peço que ma leves, de vez em quando, a fazer-me uma visita. Adeus Helena, adeus Gracinha!

E Beatriz saiu a correr, deixando nos braços de Helena, muda de admiração, essa boneca tão amada.

– Deste a Gracinha? – perguntou a duquesa à filha, quando ela voltou.

– Oh! mãezinha! dei-a à Helena que perdeu a irmãzinha. Precisa mais da Gracinha do que eu, que não tenho nenhum desgosto.

A duquesa beijou a filha enternecidamente. No dia seguinte, um criado levava a cómoda de pau-rosa com o enxoval de Gracinha, a casa de Helena.

vestido da primeira comunhão

– Quem é que bate assim à porta, Brígida?perguntou o bom do cura de Morancé à velha criada, enquanto esta punha a mesa.

– Não ouvi nada, senhor Abade.

<<A pobre Brígida está a ficar surda>> – pensou o bom do cura, levantando-se e indo ele mesmo abrir a porta.

– O quê? És tu, minha filha?

– Sim, sou eu, senhor prior. Não o incomodo?

– Entra, entra, minha querida Luísa; uma ovelha do meu rebanho nunca me incomoda.

O abade introduziu a pequena Luísa Aubin na sua saleta.

– Então, que me queres hoje?

– Ah! senhor Abade, nem sei como hei-de dizer-lhe.

– O quê, minha boa Luísa? A tia Gervásia já não precisa de ti?

– Oh! não, senhor Abade; a tia Gervásia tem sido sempre muito boa para mim, desde o dia em que me encontrou adormecida ao pé da Neve, a sua linda vaca branca. Dá- me de comer mas, coitada, não pode dar-me de vestir. Comecei a fazer um trabalho para ganhar algum dinheiro, mas não estará acabado no dia do Corpo de Deus. Ah meu Deus, o que hei-de fazer?

– Fizeste muito bem em vir ter comigo. Não estejas aflita. Diz-me lá, qual foi o trabalho que começaste?

– No primeiro dia do ano, a minha patroa deu-me algumas moedas e, com esse dinheiro, comprei umas meaditas de lã para fazer uma manta. Infelizmente a lã não chegou e não sei agora como hei-de acabar.

– Sossega, sossega! Deixa estar que sempre se há-de arranjar uma alma caridosa, que te livre de embaraços.

– Ah! senhor Abade! Se a minha pobre mãe fosse viva, não seria eu que, como uma pobre mendiga, o viria incomodar. Desgraçadamente, minha mãe morreu, e eu não posso receber Nosso Senhor, com este vestido que trago todos os dias. Mas também não gostaria de dever à caridade de ninguém o meu vestido da comunhão.

– Está bem! Descansa que terás o que desejas e, unicamente, graças ao teu trabalho. Irás de branco, prometo-te. Eu próprio me encarregarei de vender a manta. Alguém que eu conheço e que, nesse dia irá de branco como tu, a comprará de boamente.

Enquanto a pobre guardadora de gansos vivia inquieta, sem saber como arranjar o seu vestido de comunhão, no castelo de Morancé preparavam, com requintes, as vestes de Beatriz.

Quando o bom abade foi visitar a senhora duquesa, pôde admirar no salão um riquíssimo vestido bordado e um lindo véu de rendas. Ao lado deste podia ver-se um estojo que continha um admirável colar de pérolas.

– Ah! senhor Abade – exclamou a pequenina duquesa, cheia de alegria. – Veja como me cumularam de mimos. Olhe para este magnífico colar de pérolas que me mandou a minha madrinha. E o meu terço? Foi bento pelo próprio Santo Padre e deu-mo a avozinha!

– Sim, é soberbo e todo de ouro. Mas diz-me, minha filha; tens tenção de ir com todo este luxo fazer a primeira comunhão?

– Sim, acho que nada é suficientemente belo para esse dia.

– É verdade. Se toda a gente pudesse ir com vestes de princesa à mesa do Senhor, como isso seria admirável! Mas repara, Beatriz, tu és rica, mas quantas crianças o não são?! Queres ir humilhar com o teu luxo as tuas irmãs que, como tu, têm um lugar à sagrada mesa? Queres expô-las a invejarem os teus sumptuosos vestidos?

– Oh! não! certamente que não penso nisso. E, se este riquíssimo colar puder pagar vestidos às pequenitas pobres, levai-o e vendei-o, peço-vos.

– Conheço o teu grande coração, Beatriz. Sei bem que ninguém se lhe dirige em vão. No entanto, não é o teu colar que eu quero. As tuas irmãs não têm necessidade dum tal sacrifício. Não te peço que as faças subir até à tua pessoa; o que eu queria era que tu descesses até elas, e te confundisses com essa multidão de obscuras rapariguitas, vestida tal como elas, num simples vestido de cambraia branca. As suas almas não seriam perturbadas pela inveja e tu, minha filha, serias mais querida aos olhos de Deus, que tanto ama os humildes de coração.

– Tem razão, senhor Abade. Assim farei e será uma grande alegria para mim.

– Queres agora participar numa grande obra?

– Ah! certamente e com todo o meu coração.

– Escuta! Uma das mais pobres pequenitas que vai fazer a comunhão, anda a trabalhar numa manta de lã. Quer vendê-la para poder comprar o vestido para esse dia, mas, infelizmente, a manta não está acabada. Queres tu, mesmo assim, comprá- la?

– Oh! senhor Abade, então não hei-de querer? Diga-lhe que me venha trazer a manta.

– Não! Ela nunca ousaria vir. É muito envergonhada, muito tímida. Dá- me tu o dinheiro para lho entregar.

– Ah não, senhor Abade. Não me prive do prazer de a conhecer. Permita-me que eu vá a sua casa e aí lhe entregue, eu própria, o dinheiro.

– Talvez isso a humilhasse.

– Não tenha receio, senhor Abade… Sei o que hei-de fazer.

No dia seguinte, Luísa vestida com os mais limpos vestiditos, bateu à porta do presbitério. Brígida mandou-a entrar para a saleta, onde estava uma linda criança da sua idade, que se levantou mal a viu entrar.

Luísa, apesar de toda a sua timidez, sentiu-se absolutamente tranquila ao ver no rosto da bela castelã um sorriso ao mesmo tempo acolhedor e amigo.

– Há que tempos que eu desejava ter uma manta de lã branca – exclamou Beatriz, desdobrando a manta que Luísa trouxera.

– Infelizmente, ainda não a acabei – murmurou Luísa, com timidez.

– Mas há-de acabá-la, depois da sua primeira comunhão. No entanto, eu compro-lha já.

E, ao dizer isto, Beatriz tirou da sua bolsa duas moedas de ouro que colocou, com toda a delicadeza, nas mãos de Luísa.

– Oh menina, mas isto é de mais. Ah como é boa!

A filha da duquesa abraçou, quase à força, a pequena Luísa, muito perturbada com tamanha honra.

– Tornar-nos-emos a ver num lindo dia – exclamou Luísa à despedida.

Com efeito tornaram a ver-se, ambas igualmente felizes, no dia em que, profundamente comovidas, se ajoelharam à mesa da sagrada comunhão.

E foi essa a única vez na vida em que não foi possível conseguir distinguir a nobre filha do duque de Morancé, da humilde filha do lavrador Aubin!

A mesma alegria lhes enchia os corações, a mesma piedade se lia em seus olhos. Por um instante, foram irmãs perante os homens, como o eram diante de Deus.

Estas crianças, nascidas no mesmo dia, mas em tão diversas condições, tinham entre si uma afinidade misteriosa: as duas, embora muito diferentes, agradavam igualmente ao Senhor, uma pela sua humildade, submissão, amor ao trabalho e desejo de ser prestável segundo as suas fracas possibilidades; a outra pela sua generosidade, delicadeza, doçura para com os inferiores, bondade, caridade e elevação de alma.

Depois do dia da sua primeira comunhão, as duas encontraram-se na igreja: Beatriz ajoelhada no seu genuflexório de veludo, Luísa de joelhos na pedra fria. O mesmo raio de Sol caía por vezes sobre ambas, em cujas frontes brilhava a mesma piedade, a mesma candura e bondade e, a mesma paz de espírito.

Logo que Luísa acabou a manta de lã branca, Beatriz pediu-lhe que fizesse outra para oferecer a uma das suas amigas, o que era apenas um pretexto para lhe dar algum dinheiro a ganhar.

Luísa deitou-se ao trabalho com alegria. A tia Gervásia, como ela lhe guardava as vacas, passou a dar-lhe uma certa quantia por mês. Luísa ficou radiante com a perspectiva de ganhar assim a sua vida.

De tempos a tempos, nos seus passeios, Beatriz passava pelos campos, onde pastavam as vacas da tia Gervásia; encontrava Luísa a fazer malha ou a ler qualquer obra piedosa enquanto vigiava os animais e sentava-se junto dela. Informava-se da saúde, dos seus trabalhos, enquanto afagava Neve, a vaca preferida de Luísa.

A rica herdeira não desdenhava conversar durante muito tempo com a humilde camponesa, e estas conversas faziam bem às duas raparigas. Beatriz ficava a conhecer as várias particularidades dos trabalhos rústicos que ignorava, e Luísa escutava embevecida as narrativas de certos episódios da Bíblia e sentia-se como que elevada a seus próprios olhos, quando a pequena lhe falava dos tempos antigos, em que os filhos dos reis se ocupavam dos seus rebanhos e dos seus campos. O coração batia-lhe cheio de entusiasmo ao ouvir contar como uma pobre rapariga, uma simples pastora como ela, a pura e heróica Joana d’Arc, livrou a França ameaçada pelos ingleses e fez coroar, em Reims, o rei Carlos VII.

Oh! quanto reconforto é capaz de levar uma palavra amiga ao coração duma pobre e humilde cria tura!

A esmola mais generosa não tem tanto poder consolador, como uma palavra afectuosa. A verdadeira caridade sabe bem – isto e – nunca dá uma esmola sem que dê a outra.

Pedro Rigault

O Verão passou depressa para Luísa. Em Novembro a família Morancé deixou o castelo, o que a entristeceu bastante, apesar de Beatriz lhe prometer não a esquecer. Sentada à beira da estrada, a pobre camponesa viu através de lágrimas, que lhe embaciavam os olhos, afastar-se a carruagem que levava a sua grande amiga. Beatriz, ao avistá-la, acenou- lhe amigavelmente e, numa feliz inspiração, atirou-lhe, atada no seu lenço de rendas, uma esplêndida laranja. Luísa, sensibilizada com o gesto da duquesa, beijou o lenço, enxugou com ele as lágrimas que lhe corriam pelas faces, dobrou-o cuidadosamente e guardou-o como única lembrança da sua jovem benfeitora. Os factos que depois se deram, mais preciosa lhe tornou a delicada lembrança.

Pelo Natal, a tia Gervásia deixou a quinta de Morancé e foi morar com o filho que vivia a cerca de três léguas dali. Luísa, a quem ela convidara para a acompanhar, fê-lo de muito agrado, já pela gratidão que lhe devia, já porque o novo caseiro a achara demasiadamente nova e fraca para lhe guardar as vacas.

No entanto, o seu coração sangrava de pena porque, agora na Primavera, não poderia saudar a menina de Morancé, quando ela chegasse de novo ao castelo.

As estações sucederam-se, uma após outra, e Luísa nunca pôde afastar- se da quinta, onde os muitos trabalhos e preocupações a prendiam. E, assim, só tinha notícias da castelã pelas pessoas vindas de Morancé. E todas elas lhe diziam que Beatriz crescia em bondade e beleza.

Certo dia de Julho, pelo meio-dia, quando Luísa, sentada por entre o arvoredo, se dispunha a merendar o seu frugal pão e queijo, ouviu o som duma voz clara, que a obrigou a voltar-se.

Viu então um rapaz de dezasseis anos, aproximadamente, calçado de pesados socos de madeira. Vinha coberto de poeira e parecia afadigado pela grande caminhada feita. O desconhecido olhou-a e olhou sobretudo, com ar bastante significativo, para a merenda que ela se dispunha a comer.

Luísa compreendeu-o e, com a espontaneidade que caracteriza as pessoas de bom coração, perguntou- lhe:

– Tem fome? De muita boa vontade repartirei consigo o meu pão e o meu queijo.

– Ah, minha menina! Tão certo como me chamar Pedro Rigault, em como a minha fome iguala a minha sede. E se eu não receasse privá-la de parte das suas provisões, de bom grado me sentaria a seu lado, se mo permitisse.

– E porque não? Sente-se. Tem ar de quem está muito cansado.

Pedro Rigault não se fez rogar. Atirou com o saco para cima da erva e sentou-se ao lado de Luísa, que prontamente começou a repartir a merenda, guardando para si a menor porção.

Enquanto comia, o bom rapaz foi expondo o que lhe sucedera.

– Não quero que a menina fique a supor que sou um vadio. Não! Sou sapateiro de meu ofício. Desde muito novinho que faço calçado, principalmente socos que, sem vaidade, ficam muito bem feitos. Estava a trabalhar em Tours, mas o meu patrão dava-me mais pontapés e bofetões do que moedas, e confesso que isto não me agradava. Um dia, encontrei-me com Lessec que tem uma loja de calçado em Morancé. Precisa dum artista e eu combinei com ele ir trabalhar lá para a loja. Despedi-me do meu antigo patrão, peguei na minha trouxa e no meu dinheiro, que pouco era, e aí venho eu a caminho de Morancé. Infelizmente faltava-me a prática das viagens. No primeiro dia instalei-me numa hospedaria, comi, dormi e ao pagar a conta é que eu vi quanto esta era grande para a minha pequena bolsa. Paguei, mas fiquei depenado. Parti resolvido a dormir pelos palheiros e a comer um ou outro pedaço de pão seco, enquanto tivesse di nheiro para isso. Mas o demo do dinheiro sumiu-se e desde as cinco horas da manhã que eu ando a criar apetite sem ter, ao menos, uma triste moeda para comprar pão.

Luísa, que não tinha ainda tocado na parte da merenda que lhe coubera, deu-a a Pedro Rigault, com estas simples palavras:

– Leve-a que bastante mais falta lhe há-de fazer a si.

– Ah! mas essa é a sua parte.

– Pois sim, mas não tenho vontade de comer.

Rigault meteu o pão e o queijo no bolso e dispôs-se a seguir viagem.

– Muito obrigado, minha menina. Descanse que não fez esta esmola a um ingrato. Hei-de voltar a vê-la. Com se chama?

– Luísa Aubin.

– Adeus, menina Luísa e até breve. Costuma estar por aqui, não é verdade?

– Sim, mas não é preciso voltar a ver-me. De resto, tem que trabalhar muito, em casa do seu novo patrão; não vale a pena perder tempo por minha causa.

O rapaz atirou o saco para as costas, saudou Luísa com um adeus, e partiu.

A pequena já nem se lembrava de Rigault quando num domingo, ao voltar da missa da manhã, o avistou, ao pé da rapariga que a substituía, a guardar as vacas, na sua ausência.

– Bom dia, menina Luísa – e Pedro, ao mesmo tempo que lhe dirigia esta saudação, estendia-lhe a mão grossa e morena. – Com certeza que já não esperava ver- me.

– Sim, na verdade, não esperava vê-lo – respondeu Luísa um pouco acanhada. – Está contente com o novo patrão? – inquiriu, por simples cortesia.

– Não estou descontente. O patrão é um homem honesto. E a menina continua contente? Sabe que cresceu muito desde que a conheci?

– Talvez! Já tenho catorze anos.

– Agora vou-lhe mostrar que não a esqueci. Não sou rico, mas queria dar-lhe qualquer coisa, e então fiz-lhe um par de socos: Olhe.

– Muito obrigada. E que bonitos que são! Demasiadamente bons e bonitos para mim.

– Não diga isso. A menina tem um pé pequeno e verá como eles lhe ficam bem. Vê estes desenhos? Fui eu que os fiz. São engraçados, não são?

– Muito bonitos mesmo, mas eu não merecia que tivesse tanto trabalho comigo. O que fiz não tem valor nenhum.

– Pensei tanta vez em si e na sua bondade! Tive imenso prazer em fazer-lhe os socos!

– Vou experimentar se me servem.

Luísa calçou-os e, contente, começou a andar dum lado para o outro, batendo com os pés na terra dura.

– Estão-lhe perfeitamente.

– É verdade. Mas como conseguiu obter a medida do meu pé?

– Muito simplesmente. Sem que a menina desse por isso, tomei a medida na peugada que o seu pé tinha feito na terra e, como vê, não fui peco.

Luísa e Pedro ali se deixaram ficar, durante algumas horas a falar das suas vidas e dos últimos acontecimentos. Rigault contou que não tinha pai, que a mãe vivia numa aldeola afastada, que apenas tinha, para se sustentar, o produto da venda dumas flores que cultivava e o auxílio dos filhos mais velhos. Ele, Pedro, o mais novo, estava morto por ganhar o bastante para, também por sua vez, contribuir para o sustento da mãe.

Luísa, enquanto ouvia o seu amigo falar, descobria-lhe grandes qualidades, a par, é certo, dum feitio rude e por vezes brusco.

Estes dois seres tão experimentados da vida ligaram-se numa amizade sincera, em que Luísa na turalmente pôs a melhor parte, e Pedro o maior contentamento.

Aos domingos era certo e sabido vermos Rigault ao lado de Luísa, em conversa amena. Agora era ela que lhe cosia a roupa, fazia as meias, lhe cuidava dos mil e um nadas precisos na vida dum rapaz, sem família que cuidasse dele.

Nas festas da aldeia Pedro e Luísa dançavam sempre juntos e, como Rigault era um bom artista e ganhava menos mal, já podia presentear, de vez em quando, a sua boa amiga, ora com um xaile, ora com um avental, que com grande prazer lhe comprava na feira.

Um dia, Pedro veio despedir-se de Luísa, dizendo-lhe:

– Adeus, minha querida Luísa. Vou ver minha mãe, que está muito mal. Reze por ela, sim?

Ao fim de três semanas, Pedro apareceu muito triste e acabrunhado. Luísa adivinhou o que sucedera.

– Pobre Pedro!

– Sim, morreu, a minha querida mãe. Não supunha que havia de vê-la partir tão cedo! Nunca me poderei conformar com a sua morte.

Luísa compreendeu muito bem a dor do pobre rapaz e compartilhou o seu luto: nunca mais a viram nos bailes nem noutros divertimentos da al deia.

Pedro estava-lhe muito reconhecido por estes pequenos sacrifícios.

– Luísa – disse-lhe um dia Pedro -, tenho coisas muito importantes a tratar consigo, por isso quero falar-lhe diante da tia Gervásia. Já não sou empregado de Mathurin Lessec. Ele cedeu-me a loja e vou, a partir de agora, trabalhar por minha conta.

– Ah! como eu estou contente pela novidade que me dá.

– E pensei em casar – continuou Pedro.

– Vai casar?

– Sim. Não acha que faço bem?

– Certamente, se escolher uma mulher honesta, boa.

– Mas Luísa conhece-a perfeitamente – replicou Pedro estendendo a mão à amiga, que o olhava

entre tímida e satisfeita.

– Aceita, minha filha, aceita a mão deste ho nesto rapaz – interveio a tia Gervásia.

O coração de Luísa estremeceu de alegria e, num impulso de satisfação, colocou sobre a rude mão de Pedro a sua pequena mão.

A tia Gervásia abraçou Luísa tão comovida, como se fosse sua própria filha.

marquês de Méligny

Vejamos agora o que se vai passando, entretanto, no palácio da princesa.

A madrinha de Beatriz dava um baile magnífico e contava com a afilhada para nele brilhar como rainha. As horas, no entanto, passavam-se e não havia maneira de a menina de Morancé aparecer. Cerca da uma hora apareceu, finalmente, Beatriz, mas tão desfigurada, que a princesa foi ao seu encontro, cheia de cuidado e de inquietação.

– O que lhe aconteceu, minha querida?

– A mim nada, minha boa madrinha, mas venho horrorizada com um espectáculo que presenciei.

– Mas o que foi então?

– À saída de casa – expôs a Sr. a de Morancé

– quando a carruagem ia a voltar uma esquina, ouvimos gritos aflitivos e avistámos um desgraçado levado em braços, todo ensanguentado. Soubemos, então, que um trem o tinha atropelado. Para onde o havemos de levar?, era a pergunta embaraçada que chegava até nós. Beatriz, cheia de pena, olhou

para mim como a suplicar-me uma resolução. Confesso que me sentia também extremamente comovida. Fizemos transportar o ferido para a nossa casa e prestaram-se-lhe os primeiros socorros. Beatriz foi admirável de dedicação e caridade.

– Minha querida madrinha, creia que se não fosse por lhe causar desgosto eu não teria vindo a esta festa. Diga-me: como poderei dançar e divertir-me depois disto? O ferido, que é chefe duma familia pobre, vai ser muito bem tratado, é certo, mas o que será dos seus, sem o ganho do infeliz operário?

– Fizeste muito bem em vir, até mesmo para aliviarmos o infortúnio dessa desgraçada família. Vou associar todos os meus convidados a esta obra de misericórdia, começada por ti. Vem comigo. Vou contar esta história aos meus convivas e tu irás em seguida recolher as moedas que a sua caridade os levará a dar.

Fizeram calar, por um momento, a orquestra. A princesa falou, e mal Beatriz apareceu com uma bandeja a recolher as dádivas, choveram moedas de todos os lados.

A menina de Morancé apurou bastante dinheiro em todos os salões e finalmente chegou ao último, onde se tinham reunido os jogadores.

Mal Beatriz fez a sua entrada, todos os homens se levantaram, tocados pelo encanto da sua graça. Nem um só deixou de contribuir generosamente para uma tão simpática obra de caridade.

Chegada que foi em frente dum elegante rapaz, que a seguia com os olhos desde a sua entrada, Beatriz estendeu-lhe a salva de prata onde ele deitou todas as moedas de ouro, que empilhara na mesa de jogo. Fê- lo, porém, com tal precipitação, que algumas moedas rolaram pelo chão em todos os sentidos.

Beatriz baixou-se para as apanhar, mas o elegante moço não lho consentiu, dizendo-lhe:

– Não, minha senhora, não se incomode – e, tirando da algibeira umas poucas de notas, deixou-as cair na bandeja ao mesmo tempo que Beatriz o olhava cheia de admiração.

– Já que a Providência permitiu que eu pudesse ser caridoso por seu intermédio, deixe, minha senhora, que o faça com generosidade.

– Oh! muito obrigada, senhor, muito obrigada, em nome dos meus pobres.

Depois, perguntou à madrinha:

– Como se chama este rapaz tão generoso?

– O marquês de Méligny, minha filha.

– É um nobre coração – volveu Beatriz, comovida.

Alguns momentos depois, o marquês de Méligny convidou Beatriz para dançar. E, à despedida, veio pedir à duquesa de Morancé licença para ir saber notícias do ferido.

Seis meses depois destes acontecimentos, Beatriz de Morancé e o marquês de Méligny uniam para sempre os seus destinos.

Uma aliança mais perfeita nunca se vira até então. O marquês pelas suas qualidades morais, nobreza e fortuna, era bem o digno noivo desta graciosa rapariga que, sendo muito bela, ainda brilhava mais pelas suas raras qualidades de carácter.

A capela estava ricamente adornada: tapetes caros, lustres, flores, veludos; tudo isto lhe realçava a beleza própria. À porta, a multidão apinhava-se para ver o desfilar do cortejo.

O velho prior que tinha baptizado Beatriz, abençoou este casamento, onde tudo – fortuna, nobreza e bondade – se reunia para a felicidade dos noivos.

No mesmo dia, diante da imagem da Virgem, um sacerdote unia Luísa e Pedro pelos laços do ma trimónio.

Luísa seria bela, muito bela mesmo, não fora a pele crestada pelo tempo e um certo cansaço nas feições.

À saída da capela, Luísa pousava a sua na mão calosa de Pedro, e assim saíram felizes, sem pompas, sem carruagens, sem cortejo. Felizes, porque se queriam com ternura. Luísa apoiava-se com confiança no braço daquele bom e honesto rapaz que a escolhera para sua mulher, e Pedro, cheio de orgulho, amparava a fresca rapariga que, por sua bondade, lhe conquistara para sempre o coração.

Aniversário de Beatriz

Festejava-se, no castelo de Morancé, o aniversário de Beatriz. Reuniram-se ali os amigos da família.

Seis anos tinham decorrido desde o casamento da senhora de Méligny e, no entanto, havia no seu rosto a mesma pureza de traços, a mesma expressão simples que encantava todos os que a olhavam.

A vasta sala, a larga mesa carregada de cristais e pratas, os grandes vasos de porcelana com flores raras, tudo isto, enfim, formava o fundo onde se destacava a graça fresca das encantadoras primas da marquesa; a aristocrática cabeça da duquesa de Morancé, a não menos fidalga cabeleira branca do avô, junto do qual se viam brincar os dois filhos da marquesa, Cora e Renato, cujos perfis tentariam por certo os mais afamados pintores.

Todos os que cercavam a senhora de Méligny, tão amável, tão linda, tão espirituosa; todos os que admiravam a sua beleza e o seu luxo, e viam brilhar no seu riquíssimo vestido as esplêndidas esmeraldas que o adornavam, todos os que diziam como é bela!>> ignoravam talvez que os pobres quando a viam murmuravam comovidos <<como é boa! >>.

Na verdade, esta senhora tão bonita e tão inteligente guardava no coração um imenso tesouro de bondade. A sua caridade envolvia todos os que a cercavam numa atmosfera de santidade; nada a afastava dos seus pobres; nada lhe repugnava; os deserdados, os enfermos, os pecadores mesmo; todos eles conheciam de quanto era capaz a ternura da sua grande alma. Sempre em toda a parte onde houvesse um necessitado, Beatriz de Méligny aliviava os males duns, escutava as queixas doutros, encorajava os arrependidos, semeando o bem com as mãos e a alma pródigas de bondade. A par disto uma modéstia ilimitada. Nunca falava do bem que fazia e nunca permitiu a maledicência em seus salões.

Quantas vezes, o marido, louvando-a pela sua atitude, a ouvia responder:

– Meu Deus! Não sou santa e receio enganar- me em meus juízos. Não será melhor desculpar do que acusar? Quem sabe do que seríamos capazes se tivéssemos nascido no mesmo meio que certos pecadores?

E ouvindo-a falar com tanta generosidade, os mais intolerantes davam- lhe razão.

No dia de seus anos, dia em que a filha se apresentava, pela primeira vez, na sociedade, a duquesa de Méligny desceu as escadarias encaminhando Cora para o salão, onde dentro em pouco começaria o baile. A sua entrada foi saudada com entusiasmo, mas, quando após a primeira quadrilha, a senhora de Méligny se retirava para dar umas ordens, foi abordada por uma rapariguita do campo, que se dirigiu na maior das aflições:

Senhora marquesa! A minha avó está a morrer e mandou-me cá pedir- lhe para a ir ver, nem que fosse por um instante apenas. Eu compreendo que não era dia para vir cá, mas o que havia de fazer?

Como se chama a tua avó?

– Joana, minha senhora, a paralítica que mora no casebre, junto à igreja.

– Coitada! Bem sei! Entra que eu volto já.

Efectivamente, cinco minutos depois, aparecia a marquesa. Não mudara sequer de vestido. Apenas atirara sobre os ombros uma capa de seda preta. Mandou entregar, à pequenita, um cesto com alimentos, roupas, vinho, etc.

– Minha senhora, não quer que eu vá consigo?

– perguntou a criada.

– Não, Júlia. Vou bem assim. O tempo está bom e de resto o caminho é curto. Não digas nada a ninguém. Dentro de minutos estarei de volta.

Bem depressa chegaram ao casebre onde Joana agonizava.

A pobre paralítica, estendida no seu leito, tinha já impressos, no rosto pálido, os sinais evidentes da morte próxima.

Dentro do quarto uma vela alumiava mal o triste cenário e o coração cerrava-se de pena ao entrar- se no pequeno aposento, onde o silêncio era apenas quebrado pelos soluços duma rapariguita, ajoelhada aos pés da miserável cama e pelos ais angustiosos da moribunda.

Mal avistou a marquesa, a pobre Joana pareceu criar alento. Com esforço tentou soerguer-se e, estendendo-lhe a mão húmida e gelada, disse-lhe numa voz débil:

– Que bem me faz a sua presença! Não esperava tornar a vê-la e desejava-o quase tanto como a visita do nosso bom Abade.

– Vá, não fale; não se fatigue. Deixe que a ajude a colocar-se melhor. – E, auxiliada pela neta da paralítica, a Sr. a de Méligny ajeitou-lhe os lençóis e a almofada.

– Muito obrigada, muito obrigada, minha senhora. Agora, tenho um pedido a fazer-lhe. Morro; sinto que a morte não tarda. Vou deixar os meus netos com esta velha cabana e algum dinheirito que para aí tenho, e que bem pouco é. Não me queria ir embora deste mundo sem que a senhora marquesa me prometesse tomar, sob a sua direcção, os meus netinhos. Gostaria tanto que a Tónia fosse aprender costura e que o Júlio frequentasse a escola, até ao dia em que pudesse trabalhar!

– Prometo que tudo se fará como deseja, minha pobre Joana – disse a marquesa, puxando para si os dois pequenitos.

– Nosso Senhor a abençoe, minha senhora. Joana beijou a mão da marquesa com piedoso respeito.

– Vá-se embora, minha querida senhora. Não se prenda comigo. No castelo hão-de já estar inquietos com a sua ausência.

– Não quero deixar-te esta noite.

– Ah! minha senhora! Estou à espera do senhor Abade e, com ele, virá toda a paz de que necessito.

– Então, adeus. Estou satisfeita por a ver tão sossegada. Antónia, aí te deixo roupas e tudo o que possa ser preciso à tua avozinha. Trata- a bem, ouviste?

E, beijando os dois pequenos, a marquesa saiu do pobre aposento, onde trouxera um pouco de paz e de consolação.

No castelo já todos se inquietavam com a sua ausência, mas, assim que a viram aparecer, mais alegre e mais fresca, ficaram absolutamente tranquilos.

O marquês, habituado à sua maneira de ver, adivinhando o motivo do seu desaparecimento, beijou-lhe a mão, dirigindo-lhe uma pequena censura, envolta no mais afectuoso dos sorrisos.

O asilo

O Sol dourava apenas a seda das cortinas do quarto, quando a marquesa abriu os olhos. Olhou para o relógio e viu que marcava seis horas e vinte minutos.

– Ah! já estou vinte minutos atrasada – exclamou ela. – O que dirão de mim os meus pequenitos?

A criada de quarto abriu com precaução a porta, mas Beatriz já estava a pé.

– Pensava que a senhora marquesa ainda estava deitada. A senhora deitou-se tão tarde!.

– Fui muito preguiçosa hoje. Olha que já são seis e meia. Não imagines que vou abandonar os meus pequenitos lá porque ontem foi o meu dia de anos e dancei até tarde. Depressa, Júlia, dá-me o meu vestido preto, arranja-me o cabelo como quiseres, contando que eu esteja penteada dentro de poucos minutos.

Acabaram justamente de dar sete horas quando a marquesa deixou os seus aposentos. Esta senhora, tão admirada e festejada ontem, ali ia, sozinha, modestamente vestida, a caminho da aldeia que confinava com o seu castelo. Quando a maior parte das pessoas ainda dormia, andava ela a exercer a caridade, importando-se pouco com a fadiga, própria duma noite mal passada.

Como se habituara, desde novinha, a levantar-se muito cedo, fazia-o sempre, mesmo quando se tinha deitado tarde na véspera.

Na extremidade da vila, podia ver-se uma casa branca, construída há pouco, tendo a cercá-la um belo jardim. Ora, era aí justamente para onde se dirigia todos os dias, às sete horas da manhã, a senhora marquesa de Méligny.

A casa fora mandada construir pela própria marquesa e fora ela mesma quem desenhara os canteiros do jardim e todo o plano da casa. Nesta fizera um asilo para nele se abrigarem todos os órfãos não só da vila mas também dos arredores. Para isso vendera, um dia, parte das jóias. O marquês bem lhe fizera algumas objecções, mas tudo fora em vão.

A boa senhora consagrava parte da sua vida a esta grande obra de caridade, que lhe enchia o co ração de alegria. No fim dum ano já havia no asilo mais de vinte órfãos, dez rapazes e onze raparigas que, graças à marquesa de Méligny, recebiam alimentos, instrução e carinho.

Esta manhã reinava uma grande agitação na aula; olhavam com impaciência o relógio, e as cabecitas inquietas estavam semiescondidas por grandes ramos de flores. De vez em quando ouvia-se uma vozita dizer: <<A senhora já vem>>. E até mesmo um pequenito começou a choramingar. Nisto a porta abriu-se e a marquesa apareceu.

A Sr. a de Méligriy relanceou um olhar cheio de ternura por toda esta assembleia. O barulho desapareceu como por encanto; cada pequenito empu nhava em silêncio o seu ramo de flores.

A professora fez-lhe um gesto amistoso e, imediatamente, se destacou, de entre a pequenada, uma garotita que se aproximou da marquesa, a cumprimentou e recitou uns versos compostos em sua honra.

Mal acabou, lançou-se nos braços da sua benfeitora, chorando de emoção. E logo todos os outros pequenitos e pequenitas se aproximaram, rodeando- a de flores.

Estas cabecitas louras ou morenas, estas flores com todo o seu variado colorido, esta nobre e simpática senhora, estendendo os seus braços às pobres criancinhas – tudo isto formava um conjunto de beleza sem igual.

– Agora – disse a marquesa de Méligny, após ter afagado o seu pequenino mundo – é preciso agradecermos a Nosso Senhor os benefícios que nos concedeu; depois, vamos pedir-lhe para que os faça a todos, muito bons e obedientes.

Beatriz levantou os olhos ao Céu e assim começou a bela oração que Cristo nos legou:

<< Pai nosso. >>

Quando acabou de rezar, começou, como o fazia todas as manhãs, a perguntar-lhes o que haviam feito e como se tinham comportado.

Depois, dirigindo-se à professora, a marquesa pediu-lhe, com aquela graça natural que todos lhe conheciam :

– Já que os nossos pequenitos se portaram tão bem, é justo que se lhes dê um feriado, não acha?

– Vejam, meus filhos, como a senhora marquesa é boa – volveu a professora, dirigindo-se àquele inquieto rebanho de crianças de várias idades. – Vá, agradeçam esta graça, que a senhora marquesa lhes faz.

Não era preciso aconselhar-lhes que o fizessem. Mil gritos de alegria se elevaram de todas aquelas bocas. Assim que se lhes abriu a porta para o jardim, o bando de crianças lá foi em franca correria e por toda a parte reinava a satisfação e a alegria que se mostravam em risos, em jogos e em saltos e cabriolices.

A marquesa voltou para o castelo, levando nas suas mãos fidalgas as flores que trouxera do asilo.

Entrou no quarto, colocou um dos ramos numa jarra chinesa, em seguida mudou de vestido e desceu ao jardim.

Ninguém diria ao vê-la tão calma e bem disposta que tinha dormido apenas quatro horas.

Depois sentou-se a acabar as peças dum enxoval para uma criança pobre.

Nisto, o marido aproximou-se dela.

– Diz-me, querida. Não tenho razão quando digo que tu preferes os teus pobres aos nossos amigos? Ainda ontem deste provas disso.

– Bem vês que era caso de urgência e ainda assim não me demorei muito.

– Por mim acho que foi tempo de mais.

– Ah! não me atormentes. Bem sabes que é o único ponto em que não cedo.

– Está bem; calo-me, mas consente que te abrace, desejando-te muitas felicidades e que te dê o presente que te devia dar ontem. Chegou hoje mesmo de Paris.

E o marquês apresentou a sua esposa um magnífico escrínio onde repousavam, sobre veludo azul, duas miniaturas de crianças, cercadas por esplêndidos brilhantes.

– Os meus queridos filhos! – exclamou Beatriz. – Apenas as suas adoradas cabeças me fazem perdoar-te o teres gasto tanto dinheiro em jóias.

– Foste tu quem me ensinou a comprar eu próprio as tuas jóias. Todo o dinheiro que vai para as tuas mãos corre delas para outras, para as mãos dos pobres.

– Obrigada, meu amigo, por toda a ternura que envolve este presente, estas duas miniaturas tão amadas.

– Estão bem longe dos modelos – disse o marquês abraçando Cora e Renato, que entravam neste momento.

A adopção

Ao passo que a felicidade e a união reinavam no castelo de Morancé, o trabalho e a pobreza entravam como senhoras na casita da pobre Luísa Rigault.

Desde a sua primeira comunhão até ao seu casamento, Luísa viveu com a tia Gervásia a algumas léguas de Morancé. Quantas e quantas vezes a pastora interrogou as pessoas da sua aldeia natal que vinham tratar dos negócios à aldeia onde agora morava e, quantas vezes, também ela pediu a Nosso Senhor que lhe desse a ventura de a aproximar do castelo onde morava a sua antiga benfeitora. Um dia, Beatriz obtivera da sua preceptora licença para ir visitar a tia Gervásia. Luísa pensou que a visita era para ela e ficou-lhe bastante reconhecida.

– Sente-se feliz, minha boa Luísa? – perguntou-lhe a jovem castelã.

– Oh sim, Muito feliz.

Bom poderia ela ter acrescentado, pois isso correspondia bem à verdade: <<e hoje mais do que

nunca>>.

Beatriz deu-lhe alguns presentes e em cada Verão, quando voltava de Paris, lhe mandava pequenas lembranças.

Luísa, mais tarde, também foi a Morancé e visitou a sua benfeitora. Foi mesmo esta quem deu o vestido de noiva. Chegado o Inverno, a marquesa ia para Paris, mas, mal começava o Verão, lá voltava ela a Morancé, onde ficava alguns meses. Todos na terra se alegravam com o seu regresso principalmente Luísa que esperava ansiosa a visita

da marquesa. Chegava mesmo a ir até meio da estrada a ver se avistava de longe a sua carruagem. Cada dia que passava lhe trazia uma desilusão e cada um que surgia lhe criava uma esperança. E a casa andava muito varrida e desencascada como se fosse um dia de festa.

Pedro vinha de fora, carregado de flores, e as crianças, nos seus vestidos domingueiros, espreitavam entre tímidas e curiosas a tão almejada visita. Enfim, Beatriz chegou. Ao ver essa casa tão modesta mas tão cheia de alegria, não duvidou, nem um só momento, da felicidade que ali habi tava.

Vamos encontrar Luísa sentada na soleira da porta, a acabar um vestido de chita para a filha mais velha levar no domingo à missa. Para todos os que passavam, Luísa tinha um cumprimento amigo.

Um choramingar rabugento leva-a a correr para junto do berço do filho mais novo; depois dá uma volta pela cozinha, sopra o lume, mexe a panela; seu marido pode chegar dum momento para o outro e é preciso atender a tudo. Luísa mudou muito nestes últimos seis anos: a pele perdeu a frescura da juventude; as fadigas envelheceram-na prematuramente, mas já não tem o ar triste e inquieto da sua meninice. Gosta-se de olhar para esta cara onde se lê a paz e a doçura. É certo que passou noites perdidas, fatigou-se bastante, mas todos estes trabalhos fê-los de bom grado porque os consagrou aos entes bem amados.

De dia trabalhava com afinco nos tamancos para ajudar o marido, além de fazer todos os arranjos caseiros; à noite, curvada à luz da vela, cosia e remendava as roupas já velhas, ou ainda fazia renda para vender e assim ganhar mais umas módicas quantias.

No momento em que de novo a encontrámos, vamos achá-la rodeada de quatro pequenitos. 0 mais velho começava nesse ano a ir à escola e os outros, por serem mais pèquerruchos, exigiam, a cada momento, os seus cuidados. Luísa, activa e piedosa, agradecia a Deus, apenas, trabalhos e alegrias. Mágoas, sentia-as e grandes quando algum velhinho, curvado pelos muitos anos, vinha bater-lhe à porta a pedir- lhe esmola. Corada de vergonha, por não lhe poder dar quanto desejava, Luísa metia-lhe um pedaço de pão nas mãos trémulas, dizendo: <<Desculpe não ter mais nada que lhe dar, mas também sou pobre, como vê>>.

54 JULES DE PEYRRONY

Olhando estas misérias, Luísa quantas vezes se temia do futuro.

Conceder-lhe-ia, ao menos, o Senhor um bocado de pão para dar aos pobres? Se o marido adoecesse, uma vez que fosse, essa doença poderia atirá-los para a mais negra miséria.

<<Talvez chegue um dia em que as boas cores desapareçam das faces dos meus filhos e em que as suas bocas me peçam pão, sem que eu lho possa dar>> pensava Luísa.

Depois, confiada na bondade divina, Luísa fazia saltar sobre os joelhos o pequenino Tiago e assim as nuvens negras passavam.

Ora uma noite, o marido entrou em casa morto de cansaço e de acabrunhamento.

– Que tens, meu bom Pedro?

– Que hei-de ter? A renda tem de ser paga dentro de três dias e não tenho nem uma reles moeda. Passei por casa de todos os que me devem dinheiro: de João Lubin que me deve oito pares de calçado; do tio Mateus que nunca está contente com a obra, mas que nunca a paga; até do médico que exige bom trabalho, mas que não dá dinheiro a tempo, e todos, todos enfim me respondiam o mesmo: <<Passe por cá outro dia>>.

– Calma, meu amigo. Iremos prevenir o dono da casa e ele por certo não nos quererá prejudicar.

– Isso é verdade, minha querida Luísa. As tuas palavras animam-me. Como és corajosa! Trabalhas mais do que eu ainda, e nunca perdes a paciência.

Eu perco-a porque te vejo a trabalhar mais do que podes e, no entanto, apesar do teu esforço e do meu, continuas a ser a mais pobre da aldeia.

– Mas eu não me sinto triste, por isso. Dê-nos Deus saúde a todos e isso me basta.

Depois desta conversa, serviu-se a sopa e todos se sentaram à volta da mesa. As crianças acorreram contentes e a mais novita, cambaleando ainda, nas pernitas fracas, sentou-se junto da mãe. E o jantar decorreu, quanto possível, alegre.

Mal acabou de jantar, Luísa foi buscar uma caixa que devia conter algum dinheiro. Chocalhou-a e viu que estava muito leve. Efectivamente, poucas moedas lá havia. Faltavam ainda bastantes para perfazer a renda.

Como resolver a situação?

Na manhã seguinte, mal o dia despontava, ela pegou no cofre, no terço de prata, na mantilha valenciána do seu casamento, na cruz de ouro e nuns brincos que tinha.

<<Talvez que com tudo isto possa obter o dinheiro que falta. >> E partiu para a cidade.

Deram-lhe não só o que ela queria como até mais umas moedazitas, que guardou para qualquer despesa eventual.

Custou-lhe, é certo, separar-se daqueles objectos que tanto estimava mas, deixá-lo, com aquele dinheiro resolvia a crise actual.

Quando ia a entrar na aldeia ouviu um choro abafado sair de entre o trigo alto. Dirigiu-se para o sítio de onde partia o choro e viu uma criancinha com oito meses aproximadamente, envolta em velhos trapos. Estava ali abandonada pela mãe, condenada a morrer de fome. Ao ver o pequenino ente, o seu coração enterneceu-se. Logo se lhe apresentou na mente o pequenito Tiago, atirado sobre a erva, desfazendo-se em lágrimas, cheio de fome. Pegou na criança que lhe estendia os braços e, aconchegando-a a si, exclamou, com ternura:

– Meu pobre anjinho! Deixa que não perdes nada. Enquanto restar a Luísa Rigault forças para ganhar o pão de cada dia, tu terás a tua parte.

E dizendo isto, lá foi seguindo o seu caminho com a criancinha nos braços.

Ao aproximar-se de casa começou a temer o que o marido lhe pudesse dizer. Justamente agora que estavam nas mais precárias circunstâncias é que ela trazia mais uma boca para casa? Deixá-lo! Deus tinha-lhe posto esta criança no caminho, competia-lhe cuidar dela, como se fosse sua.

Antes de entrar, escondeu a criancinha sob o xale. Chegou-se então ao pé do marido e, apresentando- lhe as moedas disse-lhe:

– Aqui tens, Pedro. Vês que Deus não nos abandona?

– Onde foste buscar este dinheiro?

– Como? Esse é o meu segredo.

– Demoraste-te muito. Acaso o foste pedir?

– Não! Desfiz-me dumas coisas que não me serviam para nada.

– Vendeste o teu oiro?

– Sim! E então? Tinha objectos que não me serviam para nada; troquei- os por estas moedas que vêm trazer a tranquilidade à nossa casa.

– Minha querida Luísa! Como tudo isto me entristece!

– Agora ouve-me e promete-me não te zangares comigo. Tu sabes que, quando as aves constroem os ninhos no beiral dos nossos telhados, isso é sinal de felicidade. Pois bem! Nosso Senhor mandou-nos um passarinho sem ninho, apanhei-o e trouxe-o para nossa casa. Aqui o tens.

E dizendo isto, Luísa depositou a criancinha sobre os joelhos do marido.

– Ah! É então uma criança? Não nos bastavam as que temos? Vai levar o pequenito onde o encontraste, que, ficar com ele, seria rematada loucura.

Luísa não respondeu. Pegou na criança e deixou-lhe cair na boca algumas gotas do seu próprio leite.

– Agora já é meu filho. Olha bem para ele. Terás ainda coragem para me aconselhar a abandoná-lo? Vá, peço-te. Faz esta boa acção e Deus te recompensará. Foi o Céu que nos deu esta criança.

– Gente pobre como nós, bem pode dispensar tais esmolas.

Luísa encolheu os ombros, foi deitar a criança ao lado do seu pequèno Tiago e voltou para junto do marido, que se conservava amuado.

Quando chegou a hora de repousarem os corpos cansados do trabalho, Pedro estendeu a mão à mulher, dizendo-lhe:

– Vamos, mulher, nada de zangas entre nós. Que a nossa noite não se passe com um mal-entendido entre ambos. Traz-me lá então esse garotito.

Luísa, comovida, pegou na criança adormecida e levou-a ao marido. O pequenito abriu os olhos à luz que Ihos encadeava e sorriu. Este sorriso decidiu o seu destino. O honesto Pedro abraçou com ternura o pequerrucho.

– É, na verdade, bonito.

– Ficamos com ele, não é?

– Certamente que sim. Então depois de o abraçar, como abraço o nosso Tiago, havia de o mandar embora? Que seja mais um filho nosso e que Deus nos abençoe.

– Tu tens um grande coração. Nunca duvidei da tua bondade. E verás que Deus nos há-de recompensar pelo que agora fazemos.

Alguns dias após a chegada do pequenito, a quem Luísa baptizou com o nome de Luís, foi festejado o aniversário da Sr. a Rigault.

Pedro trouxe-lhe uma capa de lã em tudo semelhante à do pequenito Tiago. Luísa compreendeu a delicadeza do marido, que soube dar-lhe assim a melhor prenda de anos, trazendo para a criança adoptada um agasalho igual ao do seu próprio filhinho.

– Era o dia dos teus anos e visto que o adoptámos é justo que o tratemos como nosso verdadeiro filho, não achas?

As crianças foram crescendo, alimentadas com o mesmo leite, amparadas pelas mesmas mãos, amadas com a mesma dedicação e carinho. Apenas Luísa teve mais trabalhos e canseiras.

E assim, sob o olhar de Deus, estas duas mulheres, Luísa e Beatriz, iam espalhando o bem pela Terra, cada uma segundo o seu meio e possibilidades.

Beatriz e Luísa

O tempo passou. As crianças do castelo e as da casita humilde foram-se criando e crescendo. Para pagar as despesas que aumentavam com a vinda de mais uma boca, Luísa poupava em tudo: não fazia senão de três em três anos algum vestido para si; cosia e recosia os vestidos já velhos; tirava à sua própria boca; trabalhava até altas horas da noite e o dinheiro que ganhava, pode-se bem dizer que era o fruto das suas pequenas forças e do seu grande coração.

Beatriz prodigalizava ouro e saúde.

Muitas vezes, ao domingo, após a visita aos seus pobres, dava-se ao prazer de ir em passeio, através das ruas cheias de sombra do bosque da Touraine, cheias do perfume das ervas e das flores. Estes passeios davam-lhe saúde; sentia-se bem disposta no meio da calma da Natureza; parecia estar assim mais perto de Deus, em maior comunhão com Ele.

Certo dia, encontrou à beira da estrada uma criança de cinco anos aproximadamente. Estava vestida com pobreza, mas muito limpa. Chorav ao pé dum cesto vazio.

– Que tens, meu amiguinho? Porque choras?

– perguntou-lhe, cheia de interesse, a senhora d Méligny.

– Ai, minha senhora – respondeu a criançaperdi-me no bosque, e não sei como hei-de voltar para casa.

– Perdeste-te? Vamos, enxuga as lágrimas que eu vou levar-te a tua mãe.

– Ela está em Morancé e disse-me depois da missa: <<Tiago, leva este calçado a casa do tio Francisco Pitou>>. E eu disse-lhe: <<Pois sim>>, e abalei. Conheço bem a casa do tio Francisco e para lá nã me enganei, mas à volta é que não acertei com o caminho e perdi-me.

A marquesa enxugou carinhosamente as lágri mas do garotito e perguntou-lhe:

– Queres vir comigo? Vou levar-te a casa da tua mãe.

– A senhora? Não, a senhora não pode. É muito longe daqui.

– Pensas que eu não sei andar? Diz-me lá o nome da tua mãe.

– É Luísa e meu pai é o Rigault, o sapateiro da aldeia.

– Rigault? O marido da minha boa Luísa? Vem! Vamos os dois dar um grande passeio.

Beatriz, com efeito, pegou na mãozita de Tiago e lá foram ambos a caminho da casa de Rigault, Ao passar pelo castelo, o tempo mudou, como por encanto. Grossas nuvens negras corriam pelo céu; Não tardou a ouvir-se um trovão e a criança, cheia de medo, aconchegou-se à sua protectora e

Começou a chorar.

– Ai como a mãe vai estar aflita por minha

causa! – exclamou a criança entre soluços. Agora anda ela à minha procura, por toda a parte.

– Deixa que dentro de cinco minutos estaremos em tua casa.

E, dizendo isto, a marquesa pegou no pequenito ao colo, tapou-o com a capa e, assim mesmo carregada, começou a correr na direcção da aldeia.

A criança, já refeita do susto, encostava a cabeça morena nos ombros da sua protectora.

Quando ela chegou à casita de Luísa, corada pelo esforço que fizera, já o seu vestuário perdera toda a graça. A marquesa bateu à porta e Luísa, ao ver Tiago rindo de satisfação, nos braços da senhora, ficou tão estupefacta, que nem sabia o que dizer.

– Aqui está o seu pequenito. O pobrezinho perdeu-se e eu vim trazê- lo, para seu sossego e dele.

– Oh! que assustada eu estava, e como a senhora marquesa foi boa!

– Mas, também, está toda molhada. Aonde foi?

– Andei à procura do meu filho e o pai ainda continua em busca dele. Mas, ó senhora marquesa, venha secar os seus vestidos à lareira.

Beatriz ajudou a vestir o pequerrucho, e, enquanto as roupas secavam, as duas mulheres trocavam palavras cheias de ternura e de amizade.

– Já tenho visto a menina Cora. Parece-se tanto com a senhora marquesa!

Quando Beatriz entrou no castelo ia cheia de febre. O médico, chamado a toda a pressa, declarou que o seu estado era grave. Esteve seis semanas, entre a vida e a morte. Durante todo este tempo, uma mulher, cheia de ansiedade, ia todos os dias, acompanhada pelos filhos, saber notícias da doente. Não só os pobres, mas todos os habitantes da aldeia, faziam votos e preces para que a marquesa se salvasse, e o velho Abade rezou várias missas por piedosa intenção. Enfim, a marquesa venceu o combate com a ajuda da sua mocidade e sem dúvida porque Deus não quis privar os pobres da sua tão caritativa benfeitora.

Em Morancé festejou-se, com grande alegria, o restabelecimento da senhora de Méligny quando ela apareceu, ainda bastante pálida, entre o marido e os filhos, lia-se, em todos os rostos, maior contentamento. Uma emoção celestial esp lhava-se em toda a sua pessoa. E, quando desceu da carruagem, foi aclamada, com entusiasmo, p los pequeninos do asilo que ali estavam nos seus fatos domingueiros, a oferecer-lhe flores.

Beatriz, ao sair da igreja, levou consigo os seus protegidos e no parque do castelo, à sombra de grandes árvores, foi servida uma esplêndida merenda. À mesa dos mais velhinhos presidiu a próPria marquesa.

À noite, Cora abriu o baile com Germano Rigault, o mais velho dos filhos de Luísa. O baile foi

animado, embora durasse só até à meia-noite.

– Durante muito tempo se falou nesta festa e, quando a marquesa foi passar os seis meses mais frios a Paris, os pobres diziam, ao olhar as janelas fechadas do castelo:

– Ah! se saísse fumo daquelas chaminés, não

haveria quem sentisse frio nestas cinco léguas mais próximas.

A partida

Mesmo de longe, a marquesa continuava a ocupar-se das suas obras de caridade, principalmente do asilo, mas só ela sabia fazer o bem com aquela elegância que torna ainda mais bela a caridade. Por isso, os seus protegidos lhe sentiam a falta. Sim, eles eram bem tratados, mas não se sentiam felizes senão com a presença da sua querida benfeitora.

É que nem só o ouro alivia os males; a piedade, essa espalha-se como um bálsamo suave por sobre todas as dores. Infelizmente, à medida que Cora e Renato cresciam, mais se espaçavam as suas vindas ao castelo.

A marquesa quis educar, ela própria, a filha e manter, junto de si, até o mais tarde possível seu filho Renato.

Durante o Inverno, os dois irmãos recebiam lições de professores ilustres, a que a mãe assistia. No Verão, no castelo, era ela quem lhes ministrava o ensino, e tinha cuidados extremos em gravar na alma de Cora os preceitos da mais sã moral. Quando tardava a vir a Morancé, logo os Rigault se inquietavam com a sua ausência. Todas as noites os filhos de Luísa rezavam pelo bem- estar da senhora marquesa e um deles dizia, com certa graça:

– Rezemos agora para que a senhora regresse e veremos se ela não vem amanhã!

Luísa sorria, abraçava-os a todos com ternura e juntava as suas orações às dos filhos.

Um ano houve, porém, em que Luísa não pôde festejar o regresso da marquesa, que ela desejava, tão ardentemente.

Pedro Rigault tinha um tio em Lussan, vila afastada dali uns dez quilómetros. Chamava-se Tom Rigault e era dono da casa onde morava. De idade avançada e viúvo, vivia agora sozinho, pois as sobrinhas que até então tinham vivido com ele haviam casado há pouco.

Embaraçado com o governo da casa, Tomás escreveu a Pedro, propondo- lhe ir com a família v ver com ele; dar-lhe-ia a sua clientela, mais rica e numerosa que a do sobrinho, a troco de pequena remuneração. E por último declarava que Pedro seria seu herdeiro.

Rigault, é claro, não resistiu a tão boa oferta e, dentro de pouco tempo, mudou-se para Lussan.

O tio Tomás, vaidoso e egoísta, tinha um grande orgulho no dinheiro que possuía e fazia sentir, com dureza, o seu peso, a todos os que o cercavam. Luísa bem cedo reconheceu os vícios desta natureza tão diferente da sua, e pressentiu que teria muito que sofrer com este velho egoísta. Em lugar dum protector, para si e para os seus, tinha encontrado um patrão.

< Com efeito passado pouco tempo, Tomás censurava asperamente a sobrinha, atirando-lhe à cara a sua pobreza e lamentando que Pedro tivesse feito a loucura de casar com uma pobretona.

Muito meiga e resignada, Luísa não respondia a nenhum destes ataques. Apenas deixava correr, em silêncio, algumas lágrimas, que Luís enxugava com os seus beijos.

Luísa apertava ao coração o pequenito que parecia compreendê-la e amá-la acima de tudo e de todos. Ele era, a pobre criatura, uma fonte de alegria incessante. Logo que ela o ouvia misturar o seu riso ao dos filhos, parecia-lhe ouvir uma voz secreta dizer-lhe :

<<Fizeste bem em adoptar esta criança. O seu riso f uma bênção do Céu. >>

Luís adorava a mãe adoptiva; queria-lhe com uma ternura cheia de dedicação e sensibilidade.

Mas delicado e mais novo que os outros filhos de Luísa, a boa mulher tinha de o cercar de cuidados e precauções e isto fazia com que vivessem mais em contacto um com o outro. Tiago, gozando duma boa saúde, corria por toda a região, fazia recados e não temia nem perigos nem canseiras. As suas partidas faziam rir o velho tio, que gostava mais dele que dos outros sobrinhos.

Em compensação detestava Luís, que passava a maior parte do tempo ao pé da mãe, a ajudá-la a dobrar as meadas ou a ler-lhe qualquer história piedosa, para a distrair.

Tomás ignorava que Luís fora adoptado pelo sobrinho. Se o soubesse, com certeza que o poria fora da porta.

O pequeno desagradava-lhe em absoluto, não só pelo seu feitio meigo e concentrado como até pela sua espiritualidade e inteligência. Grosseiro e vingativo, Tomás influenciava o sobrinho a castigar o pequeno e, quantas vezes, este se foi deitar sem ceia, o que fazia sangrar de dor o coração de Luísa.

Germano, o filho mais velho de Rigault, ajudava-o no seu ofício; as duas pequenas iam para a modista; Tiago levava a obra aos fregueses; só o pequeno Luís ficava em casa, quando não ia à escola, onde obtinha sempre os primeiros prémios.

Apesar disto, o velho Tomás chamava-lhe oi <<boa-vida>> para o deprimir.

Luís

Há pessoas que, não sendo totalmente más, são de tal modo mesquinhas, que procuram todos os meios para desagradar àqueles com quem não simpatizam. Tomás Rigault era uma destas criaturas. como tal, um dia resolveu subtrair Luís à protecção da sua mãe.

Uma noite, depois da ceia, os cinco pequenitos foram-se deitar. Luísa, depois de arrumar a cozinha, ficou-se a fazer umas meias de lã, enquanto Tomás fumava o seu cachimbo e Pedro se entretinha a gravar desenhos numa faca de madeira.

– Ora vamos lá a ver, Pedro. O que contas fazer do teu filho mais novo?

– O mais novo? Temos ainda muito tempo para pensar nisso.

– Não tanto como dizes. O garoto já vai fazer ttez anos.

– Dez anos? – interrogou Luísa, alarmada. Se ele ainda não há seis semanas que fez nove.

– Pois seja. Nove ou dez é a mesma coisa. Já não está em idade para ficar de braços cruzados. Na sua idade, já há muito que eu ganhava o pão que comia. E, no entanto, éramos apenas três ir mãos, e minha mãe não era nenhuma pobretona. Tinha trazido, quando se casara, umas territas menos más. – E, dizendo isto, o manhoso do velho olhava intencionalmente para Luísa, que continuou a trabalhar sem dizer palavra. – Já vês – continuou ele, dirigindo-se a Pedro – que não devemos fazer caso das pieguices das mulheres. Quando se tem dois braços, trabalha-se. Não é ali como o senhor Luís, que se faz de manto de seda para não trabalhar. Já lhe deste de comer durante muito tempo, agora ele que trabalhe.

– Mas o que pode o pobre rapaz fazer? Ele é tão fraco! Deixem-no tornar-se mais forte – volveu Luísa, inquieta.

– Ah Ah, quando for forte. Este é dos tais que, se o deixarem, há-de comer o pão que os pais ganham até aos vinte e cinco anos ou mais.

– Com efeito, não se perde nada em experimentar. Tu, eras uma rapariga fraca e guardavas vacas, aos doze anos.

– Ele não tem doze anos e além disso eu já não tinha mãe nessa altura.

– E ele tem mãe porventura? – retorquiu Pedro com certo azedume na voz. – Não sei para que tomas tanto a peito as coisas de Luís, se ele não é teu filho.

– O quê? Ele não é vosso filho? – exclamou o velho, estupefacto. – Olha que foste bem parvo em tomar conta do garoto. Bem; o mal está feito, agora há que remediá- lo. Toca a mandá-lo embora. Ele que vá trabalhar.

Luísa corou de aflição.

– Não, meu tio. Não o mandem embora. Ele é nosso filho pelo coração.

– Escuta, mulher – disse então Pedro Rigault.

– Repara que já temos feito muito por ele, é justo que trabalhe para nos aliviar.

– Por amor de Deus, cala-te, Pedro. Ah! se a pobre criança te ouve!

– E se ouvisse – gritou, propositadamente, o implicante velho. – Luís não é teu filho. É preciso que mais dia menos dia ele o venha a saber.

– Pedro prometeu que nunca se lhe diria nada. Tem que manter a sua palavra. De resto, se lhe diseEssemos que não era nosso filho, isso seria tirar todo o valor à obra que fizemos.

– E se o souber, que tem isso de mau? – volveu o marido. – Certamente que não pensas em rrpartir o pouco que temos com ele. Isso seria pre judicar os nossos filhos.

– Ah, meu pobre homem! Que mudado que estás desde que para aqui vieste!

– Queres dizer com isso que fui eu que o mudei? Pois bem, realmente assim é. Curei-o de muita ideia parva; senão, ficaria pobre como Job.

– Talvez fosse melhor para nós. O dinheiro não vale tudo na vida. Mas está bem. Pedro, diz-me o que pretendes fazer de Luís.

– Eu já pensei no destino a dar-lhe. Conheço uma caseira que tem precisão dum rapaz que lhe guarde o gado. Luís está nas condições.

– É longe?

– É em Vierval. Não fica muito longe daqui.

– Sim, quando o quiser ver, terei que andar uns vinte quilómetros.

Luísa compreendeu que nada havia a fazer. Com o coração amargurado, dispôs-se a ir-se deitar.

Ao passar pelo quarto dos filhos, debruçou-se sobre a cama de Luís. O pequeno estava acordado e tinha a face pálida e molhada de lágrimas. Ao sen tir junto dele o rosto da pobre mulher, abraçou-a e disse-lhe, entre soluços, mal contidos:

– Sei tudo. Sei que não sou teu filho.

– Cala-te, pelo amor de Deus! – disse a se nhora Rigault, tapando-lhe a boca com a mão. Tu és e serás sempre meu filho. Agora mais do que nunca.

– Ouvi tudo. Ouvi-te defender-me como uma verdadeira mãe; mas o pai – ah! quanto me cus tou ouvi-lo. Descanse que não lhe farei peso! Nunca mais comerei o seu pão. Vou-me embora e levo-te no coração. Ah! quanto me vai custar não te chamar mãe!

– Hás-de sempre dar-me esse doce nome. Não te tenho tratado como a um filho muito amado E teu pai, crê, gosta de ti, mas, mal aconselhado pelo tio Tomás, mostrou-se duro para contigo.

Amanhã se tratará de tudo. E até lá dorme e sê amável. Vais para casa dos Lourdet. Porta-te bem. Eu e teu pai iremos ver-te dentro em breve. Vá, responde-me. Faz a vontade à tua pobre mãe, sim?

– Sim, minha querida mãe – soluçou a criança, apoiando a fronte ao ombro de Luísa. és tão boa, tão meiga, que ninguém resiste a um pedido teu. Mas compreendes o meu desgosto. Tinha tanto orgulho em ser teu filho e agora sei que

não sou.

– Deus quis que soubesses a verdade. Sossega e crê que encontrarás sempre em mim o carinho da mãe.

Beijaram-se, misturaram as suas lágrimas, depois do que Luísa se foi deitar.

Enquanto Tiago e Germano dormiam, o pequeno pensava em tudo o que se tinha passado. Finalmente adormeceu, balbuciando com ternura a palavra mãe.

Mal rompeu a manhã, levantou-se, lavou-se e esperou que Luísa lhe aparecesse. A pobre mulher pouco dormira; viam-se-lhe vestígios de lágrimas e insónia nos olhos papudos e pisados. Quando Luís a viu, acabava ela de lhe preparar a roupa que ele havia de levar.

– Madrugaste muito, Luís. Agora escuta-me. Quando te despedires do tio, fá-lo com respeito. Sabes? Ele é velho e isso torna-o rabugento.

Luísa, acompanhada do pequeno, entrou na oficina do sapateiro.

– Aqui está o nosso homem pronto a deixar-nos, se assim o quiseres.

E enquanto dizia estas palavras, Luísa limpava com a ponta do avental uma lágrima que teimav em correr.

– Queres ir trabalhar para casa de Francisc Lourdet? – perguntou o sapateiro.

– Sim; mas desejava vir ver a mãe, o pai, todos enfim.

– Isso depende do modo como te portares. Se te portares bem, podes vir sempre que queiras; mas se te portares mal, não.

– Prometo-te, minha querida mãe – respon deu o pequeno, voltando-se para Luísa -, prometo-te que me vou portar muito bem.

– Sim, mas toma conta. Se não obedeceres batem-te.

– Não tenhas medo, Luís. Ninguém te há-de bater. Porque é que estás a meter medo à pobre criança? – inquiriu Luísa ao marido. – Não lhe basta o desgosto de nos deixar, ainda será preciso meter-lhe medo?

– Também juro que só me batiam uma vez.

– O que é que fazias? – perguntou Pedro cheio de curiosidade.

– Voltaria para nossa casa.

– Sim, dizes bem. Esta casa será sempre tua. Aqui estarei para te receber de braços abertos. Vamos, Pedro, deixa de abanar a cabeça. Não vês que enches de receio esta pobre criança? Ele veio despedir-se de ti; dizer-te adeus antes de partir e tu, em vez de o acolheres com bom modo, acabas por atormentá-lo. Vá, abraça-o, anda. Não faças sofrer os corações das crianças. Quando forem crescidas, lembrar- se-ão de tudo o que as magoou injustamente. E tu, Luís, promete a teu pai seres sempre bom.

O pequeno apresentou a cara ao pai que o beijou, não sem certa comoção.

– Não te quero mal, meu rapaz, nem quero fazer sofrer tua mãe. Mas bem vês. O velho Rigault tem mais experiência e é preciso fazer-lhe a vontade. Amanhã acompanho-te a casa de Francisco Lourdet.

– Está bem, Pedro! Amanhã irão cedinho para não apanharem muito sol.

A carta

E tudo se passou, como fora combinado. Às quatro da manhã todos estavam a pé. Luís, triste mas resignado, pretendia ocultar o desgosto da mãe; as irmãs choravam pelos cantos. Tiago mostrava-se acabrunhado; apenas Germano, mais falto de sensibilidade, se sentia à vontade e, por isso, tentava consolar os irmãos. Uma vez todos juntos na vasta cozinha, Luísa cortou um pedaço de pão que deu a Luís juntamente com uma boa chávena de leite.

– Come, meu filho. É a última refeição que te dou, antes da partida.

Luís começou a comer, misturando no leite as lágrimas que não conseguia deter.

Quando o pequeno, já preparado para sair, se despedia do pai e do tio Tomás, este não pôde deixar de o atormentar, com esta frase grosseira:

– Adeus, pequeno <<boa-vida>>. Espero que, para onde vais, percas esta alcunha.

Após as despedidas, todos se puseram em marcha. Luísa e os filhos iriam acompanhar o pequeno até à primeira volta da estrada. Germano levava o saco com a roupa do irmão; Catarina, a irmã mais nova, um cesto com cerejas para a merenda desse dia; Tiago dava-lhe o braço e do seu peito saíam, de momento a momento, fundos suspiros.

Todos guardavam o maior silêncio. Ao separarem-se, Luís atirou-se ao pescoço da mãe e ambos confundiram lágrimas e soluços.

– Adeus, meu querido filho; o último que chegou ao meu lar e o primeiro que parte. Adeus! Pensa em mim e tem coragem. Ó meu Deus! Vela por esta criança!

Os pequenos diziam com voz trémula:

– Adeus, Luís!

Luísa, finalmente, entregou ao filho uma carta para o recomendar a Francisco Lourdet.

Depois de beijar as irmãs e de, com grande esforço, se ter separado da mãe, Luís continuou melancolicamente o caminho.

Enchendo-se de coragem começou a andar muito depressa, seguido do irmão Germano, o único que o acompanhou. Cinco minutos andados voltou-se para trás e lá viu, junto à cruz, que marcava a volta da estrada, o vulto adorado da mãe.

– Mãe, mãe querida!

E, exausto, por tantas emoções sofridas, Luís caiu na estrada. Germano ergueu-o com o seu braço forte, e amparou-o durante uma boa parte do caminho. Após várias paragens, chegaram por fim a Vierval cerca do meio- dia. Na casa indicada, entregaram a carta à única pessoa que ali estava, uma senhora, vestida de musselina branca.

– A caseira não está cá, mas eu vou ler a carta e já lhes dou uma resposta.

A senhora começou a ler:

<<Minha querida Francisca Lourdet

<<Segundo a vontade de meu marido, envio-lhe o meu filho mais novo para o ter em sua casa. Como a senhora é uma boa mãe, peço-lhe que olhe por ele, como se fosse seu próprio filho. Demais ele é bastante fraco e por isso lhe peço toda a sua ternura. Não supõe quanto lhe custa deixar-nos. Ele é bastante dócil, inteligente e obediente. Creio que se hão-de dar bem e que nunca terá necessidade de o castigar.

<<Aqui está, minha querida senhora, tudo o que lhe tinha a dizer.

<<Queira desculpar-me e creia-me com muita amizade e reconhecimento.

Luísa Rigault. >>

– Luísa Rigault – exclamou a jovem senhora, depois de ler a carta.

– Sim, É o nome da minha querida mãe.

– É a ti que te mandam para cá?

– Sim, minha senhora, é a mim. O tio Tomás diz que é preciso trabalhar.

– Descansa que eu olharei por ti. Cresceste muito, sabes? És Tiago, não é verdade?

– Não, minha senhora. Chamo- me Luís. Tiago ficou em casa; mas a mim, não me querem lá. É que eu não sou filho de Luísa. Acharam-me nos campos, no meio do trigo e agora aqui estou entre pessoas desconhecidas, sem ter ninguém que goste de mim.

– Tens a tua mãe que gostará sempre de ti. Vê como ela te quer. Sabes ler? Então lê a carta que ela mandou.

Depois de a ler, Luís exclamou, cheio de contentamento :

– Como ela é boa!

– Agora, fica descansado que eu hei-de cuidar bem de ti, aqui. Eu sou uma amiga de tua mãe e hei-de ser também tua. Verás.

– Mas a senhora não é a caseira, pois não?

– Não! Aluguei esta quinta, que é minha, a Francisco Lourdet, que vai ser a partir de agora o teu patrão. Deixa que hei-de recomendar-te a ele e espero que te hão-de deixar ir, todos os domin gos, ver a tua mãe. Emprestar-te-ei um cavalo, para ires; queres?

O rapaz agarrou e beijou, agradecido, a mão es tendida da marquesa de Méligny, ao mesmo tempo que lhe dizia:

– Ah! muito obrigada, minha boa senhora! Minha mãe, quando souber o que se passou, há-de pedir a Deus por vós, e eu hei-de obedecer-vos como obedecia a minha mãe.

Quando Lourdet e a mulher vieram, a marquesa apresentou-lhes Luís, que ficou a guardar as ovelhas da quinta.

Acharam-no muito débil para poder guardar vacas.

No domingo

Os carneiros e as ovelhas são animais que precisam ir ao pasto todos os dias. Luís, que durante a semana se mostrava resignado, sentiu o coração apertar-se-lhe de dor, quando viu alguns empregados da quinta, todos endomingados para ir passar o dia com a família.

Assim sozinho na vasta planície onde apascentava o rebanho, ele seguia, de olhos cheios de lágrimas, os grupos que desfilavam ante si. Não tinha ali ninguém que verdadeiramente o amasse nem quem ele pudesse abraçar com ternura. Apenas o cão de guarda, parecendo adivinhar-lhe as mágoas, vinha lamber-lhe as mãos.

Nisto, um turbilhão de poeira envolveu-o por completo, e Luís pôde ver na estrada uma carruagem puxada por dois esplêndidos cavalos. O carro avançava rapidamente. Por fim, parou e dele saiu uma graciosa criança de catorze anos, que avançou para Luís e lhe disse:

– Sabes? Vamos a Lussan. Queres alguma coisa para a tua mãe?

– Para minha mãe – replicou, estupefacta, a criança, olhando cheia de espanto aquela linda menina, toda envolta numa nuvem de rendas de seda. – A senhora vai vê-la?

A encantadora criança sorriu ao ouvir tratá-la por senhora.

– Podes escrever-lhe. Eu levo-lhe a carta, se quiseres.

Entretanto, chegava a marquesa que se dirigiu nestes termos a Luís:

– Estás muito admirado, não é assim? Vou a Lussan levar notícias tuas à tua mãe.

– Ah! diga-lhe, minha senhora, que eu gosto muito dela e que também gosto muito da senhora.

– Anda, escreve-lhe uma palavra. E Cora entregou-lhe papel e lápis. Luís escreveu, beijou a carta e entregou-a à marquesa, dizendo ao mesmo tempo:

– Diga-lhe que me responda, sim?

– Descansa que eu própria te trarei a resposta.

Alguns instantes depois a carruagem afastava-se, levando dentro dela a marquesa e a filha. Luís ficou a contar os minutos até que soaram seis horas na torre da igreja, sem que a marquesa tivesse voltado.

<<Com certeza que me esqueceu. >>

– Aqui está a resposta à tua carta, meu querido irmão.

E Luís pôde ver, cheio de espanto, o pequeno Tiago acenando com um papel branco.

A marquesa trouxera-o na carruagem mas, como o garoto quisesse fazer uma surpresa ao irmão, a senhora de Méligny deixou-o apear-se à entrada do bosque.

Trazia, com a carta, um bom pedaço de bolo, cerejas e um bocado de peru assado que a marquesa lhe dera. Os dois irmãos jantaram sobre a erva do prado, conversando animadamente em assuntos de família. Tiago dormiu com o irmão e de manhãzinha partiu para casa.

Várias vezes o pequeno voltou não só com notícias de casa como com pequenos mimos que faziam sentir, a Luís, a presença da mãe.

A marquesa levava a sua bondade a trazer na carruagem, num ou noutro domingo, os três irmãos de Luís, o que dava lugar a uma verdadeira festa.

Os camponeses que viam a senhora de Méligny acompanhada de sua filha e destes pequenos rústicos sorriam satisfeitos, sabendo de antemão que a marquesa fazia uma obra de caridade.

Os filhos de Beatriz

Cora e Renato, educados pela marquesa, mostravam-se dignos duma tal mãe. Cora juntava à beleZa a mesma bondade que tornava tão querida a senhora de Méligny. Ia sempre com a mãe a todas as obras de caridade e, quando ela adoecia, Cora substituía-a perfeitamente. Habituada, desde muito criancinha, a estar em contacto com a pobreza, sentia um prazer infinito em espalhar o bem e o amor.

Não se vá agora supor que esta pequena criatura era isenta de defeitos. Tinha alguns que, embora não fossem graves, inquietavam a senhora de Méligny. Cora possuía uma sensibilidade exagerada, filha talvez do seu grande amor-próprio, paredes meias do orgulho.

Beatriz tentava corrigi-la, sem querer porém fazer pressão de modo a tirar-lhe a espontaneidade de acção, certa vivacidade e sobretudo o seu lindo optimismo que a fazia sorrir à vida. <<Como o riso vai bem à mocidade >>, pensava muita vez a senhora de Méligny.

Cora não possuía o dom de se dar inteiramente à caridade, como sua mãe, mas era boa, generosa e podia-se prever que, no dia em que a sua alma fosse experimentada pela dor, ela acharia forças suficientes para suportar com nobreza a sua cruz.

Renato era ainda uma criança de dez anos. Lindo como os anjos, melancólico e pensativo como eles. Se Cora se parecia com o pai, Renato tinha os traços delicados da mãe. E para ela ia tod a adoração da sua alminha sensível. Compreende-se quanta mágoa causaria à marquesa a entrada desta sensível criaturinha num colégio de Rolin.

Suponha-se também quanto custaria a Renato esta separação. O pobre pequeno não podia con formar-se com a ideia de estar dois meses sem ver a mãe. O que ele chorou durante os primeiros tempos.

Depois viu-se obrigado a esconder as lágrimas, tanto o faziam arreliar os camaradas com a sua troça inconsciente mas cruel.

Vieram as férias e o marquês partiu a ir buscar o filho. Beatriz não pôde acompanhá-lo porque Cora adoecera com uma febre ligeira, mas enquanto velava a filha, o seu coração esperava ansioso a chegada de Renato.

O incêndio

Mal o marquês partiu e a filha se restabeleceu, eis a senhora de Méligny a fazer loucuras de caridade; isto é, a extenuar-se de fadiga ao serviço dos pobres.

Certa noite em que morta de cansaço se dispunha a dormir, foi sobressaltada por gritos, correrias e pelo som lúgubre dos sinos da igreja a tocarem apressadamente.

Levantou-se, enfiou a bata e chamou a criada.

– Que aconteceu, Júlia?

– Ah, senhora marquesa! É Fogo E o pior é que a pobre gente não tem nenhum homem em casa. Estão todos a trabalhar no campo.

– Fogo? Então é preciso acudir-lhes, meu Deus! Chame os criados.

– Sim, minha senhora! João já correu para lá e levou com ele várias pessoas com baldes cheios de água.

Beatriz pôde ver do terraço para onde desceu a toda a pressa, as labaredas do incêndio a subirem para o céu.

– Mas, onde é o incêndio? – inquiriu a marquesa, pesquisando o horizonte, com os olhos inquietos, enquanto aos seus ouvidos chegavam ruídos confusos de gritos aflitivos. – Que pena eu ser apenas uma pobre mulher – lamentava a senhora de Méligny. – Mas que importa? Irei prestar-lhes o auxílio que puder. Tu, Júlia, ficas aqui com minha filha. Tranquiliza-a e não saias nunca de ao pé dela. Eu volto já.

E a marquesa partiu, sem querer escutar as ob servações da criada. Ei-la que chega ao lugar onde o incêndio prossegue a sua obra destruidora.

Esta casa branca e airosa, onde a senhora de Méligny reunia as criancinhas abandonadas, não era agora mais do que um montão de escombros lambidos pelas chamas. A um canto do jardim, as pobres criancinhas apertavam-se umas de encontro às outras, de olhos esgazeados a olhar os móveis que eram atirados pelas janelas, os vidros quebrados, as paredes que se desmoronavam.

Beatriz olhava apavorada o quadro sinistro, mas não deixava de encorajar todos os que procuravam apagar as chamas destruidoras. Aflita, perguntou às crianças se faltava alguma delas, e uma vozinha chorosa grita com desespero um nome:

– Remy! Remy!

– Remy? Mas onde está ele? – pergunta, alarmada, a senhora de Méligny.

– Ali – e a criança aponta a última janela do asilo. – Ah! minha senhora! Ele é tão pequenino!

– Mas quem é Remy? Digam-me depressa onde é que ele está.

Aquela multidão estava demasiadamente aflita para ouvir qualquer pergunta que se lhe fizesse.

– Digam-me se todas as crianças se salvaram

– perguntava, aflita, a senhora de Méligny.

– Parece que sim.

– Mas não – volveu a marquesa -, parece que há uma criança lá dentro.

E, consultando apenas a voz do coração, desprezando o perigo que a ameaçava, Beatriz precipita-se para a escada que conduz ao andar superior, na ânsia de salvar a pequenita criatura que deve estar ali, presa das chamas.

– Não vá, minha senhora; não vá! – era o grito que se ouvia de toda a parte.

– Não! não! É preciso que eu vá salvar essa criancinha. Não sou eu a sua mãe?

E, rapidamente, a marquesa, subiu os degraus da escadaria e assim, entre chamas, chegou ao primeiro andar. Todos os olhos estavam fixos no vulto que desaparecia num turbilhão de fumo.

Passaram-se segundos de horrível expectativa. Nisto a multidão vê com alegria a senhora de Méligny, transportando nos braços uma criança des maiada; mas no momento em que a marquesa coloca o pé no primeiro degrau da escada, ela vacila e quebra-se. Ao mesmo tempo, chamas altas envolvem todo o edifício. A marquesa pára, sem saber o que há- de fazer. Olha aflita para a criança.

– Atire-a! Atire-a! – é o grito que se ouve de todas aquelas bocas.

Foram buscar colchões, para receber a criança; a marquesa atira-a para o meio da multidão que a recebe cheia de comoção. Depois deste último esforço, a senhora de Méligny cai extenuada com os sentidos perdidos.

Foi sem dúvida um espectáculo cheio de beleza, o que sucedeu a esta cena de horror.

À luz débil do incêndio amortecido e ao clarão brando da aurora, seis homens carregavam nos seus braços vigorosos uma maca improvisada na qual repousava a senhora marquesa.

No rosto pálido havia uma calma celestial que impressionava.

Os Aldeãos formavam juntamente com os criados da marquesa um impressionante cortejo cheio de ternura e de respeito. Ao chegarem ao castelo, en tregaram a senhora de Méligny aos cuidados do pessoal feminino, que a levou em braços, e a colocou no vasto leito, onde a marquesa, mal entreabriu os olhos, disse estas palavras bem significa tivas :

– Olhem pelos meus filhos, pelos pequeninos do asilo.

Mas àquela hora já todos eles tinham encon trado abrigo nas melhores casas da região.

Remy, salvo pela marquesa, tinha ido para casa do regedor, onde o tratavam com o maior carinho.

A dádiva dos pobres

No dia seguinte, um velho camponês, seguido de grande número de habitantes de Morancê, foi ao castelo procurar a senhora de Méligny. A marquesa, embora fatigada, já estava a pé. Recebeu-os a todos, no salão, com aquele sorriso que a tornava tão querida.

Senhora marquesa – começou o velho, enquanto virava e revirava, nas mãos calosas, o grande chapéu de feltro – ontem sucedeu uma grande desgraça, e poderia ser ainda muito maior, não fora a graça do bom Deus velar por vós. Depois disto, pensámos remediar o mal, associando-nos à obra a que a senhora marquesa tem dedicado grande parte da sua vida. Para isso, cada um de nós contribuiu com o que pôde, a fim de se construir uma nova casa onde se abriguem os seus protegidos, minha senhora.

E, ao acabar de dizer estas palavras, o velho entregou à marquesa uma bolsa bem recheada.

A senhora de Méligny levantou-se. Estava comovida até às lágrimas. Esta dádiva dos pobres para os mais pobres tocou-lhe novamente o coração.

– Obrigada, meus amigos – e a marquesa estendeu ao rude aldeão a mão fina que ele beijou com emoção e respeito. – Sim, aceito o vosso dinheiro e fico-vos muito reconhecida. Deus vos

há-de recompensar pela linda acção que acabais de fazer.

E a senhora de Méligny pousou a bolsa em cima

duma mesa e continuou:

– Tratemos agora do mais preciso. Antes de construir o novo lar dos pequenitos, é necessário acharmos uma casa onde eles se possam recolher.

– Cada um de nós pode ficar a tomar conta dum. Deixe-nos esse prazer.

A marquesa mais uma vez agradeceu a todos a sua boa cooperação e preparou-se para procurar uma casa própria para abrigo dos seus filhos.

Finalmente encontrou o que desejava: uma casa limpa, cómoda que pertencia a um camponês abastado. O bom homem não quis, de maneira nenhuma, receber o preço do aluguer.

– Não, minha senhora! Deus me livre de aceitar o quer que fosse. Quero ter também a minha parte nesta boa acção.

O exemplo de caridade infatigável, praticada pela senhora de Méligny, acordava em quase todos os corações o desejo de bem fazer.

E desde o dia em que o seu heroísmo tinha salvo a vida duma criança pobre, todos a olhavam como um anjo de bondade. E era ver a chuva de dádivas que caía no castelo a favor da grande obra a realizar: sacas de farinha, tulhas de azeite, vinho, roupas; tudo se amontoava e de tal modo, que a própria marquesa murmurava entre satisfeita e entristecida:

– Meu Deus! Mas então não me deixam nada para eu fazer? Como poderei agora exercer a caridade?

Os que a ouviam lamentar-se sorriam, pois já todos sabiam que a senhora marquesa se desfizera de algumas jóias para a fundação do novo asilo.

A dádiva dos ricos

Quinze dias após a tragédia do incêndio, chegou o marquês com Renato, que vinha passar as férias, e depor, no regaço da mãe, os louros colhidos na escola, pelos seus méritos de bom aluno.

A marquesa mandou a carruagem à estação e dirigiu-se, acompanhada de Cora completamente restabelecida, ao encontro do marido e do filho.

Quando o marquês avistou a mulher, mandou parar a carruagem e desceu seguido de Renato. Ao aproximar-se de Beatriz teve um movimento de es panto: na fronte via-se desenhada uma horrível cicatriz, ainda mal fechada.

– Mas que tens, minha querida? O que foi que te aconteceu?

– Meu querido pai. É uma história heróica; é uma cicatriz gloriosa, essa que ornamenta a fronte da mãezinha.

– Ai as loucuras da minha mulher! – volveu o marquês, tomando o braço da marquesa e afagando-lhe a mão com carinhosa ternura. – Será preciso vigiá-la como se faz a uma criança?

Uma vez chegados ao castelo, Cora contou, não sem uma certa eloquência que lhe vinha da alma, a heróica história de que sua mãe fora a heroína.

O marquês, comovido, beijou a mão da senhora de Méligny, ao mesmo tempo que lhe dizia:

– Minha querida mulher! Como hei-de agradecer a Deus o dom que me concedeu, dando-me uma santa esposa?

Renato, orgulhoso de sua mãe, apertava-a nos seus braços amigos.

À tarde, a família de Méligny visitou o asilo pro visório. O marquês, ao ver que as actuais instalações não davam a comodidade desejada aos peque ninos órfãos, disse dirigindo-se à mulher:

– Temos que mandar construir uma casa nas condições precisas.

– Ah! mas isso vai custar muito dinheiro.

– Que tem isso? Tencionava comprar uma parelha de cavalos ao conde de Guilbré. Ofereço-lhe o dinheiro que ia despender nesse capricho.

– Obrigada, meu amigo. No entanto, isso nã basta. É pouco para o que necessitamos.

– Mas como conseguiu, a minha querida, mandar construir a casa que ardeu?

– É que possuía outros recursos nessa época – respondeu simplesmente a marquesa.

Beatriz tinha em mente um projecto. Esboçou a seu marido, que o aprovou completamente. Para o executar foi-lhe preciso fazer duas viagens a Paris. Dentro em pouco, chegava ao castelo uma

quantidade enorme de caixas, contendo vários objectos artísticos e muito preciosos.

Tratava-se duma verdadeira lotaria. Dentro dum mês todos os bilhetes estavam vendidos e muitas moedas se vieram juntar às tantas cedidas pelo senhor marquês.

Como não fosse costume da senhora de Méligny associar os outros à sua caridade, todos acorreram, lisonjeados até em serem admitidos a concorrer, com o seu préstimo, a uma obra tão genrosa.

Uma noite, a imensa galeria Luís XV encheu-se de convidados e de luz. As preciosidades a rifar espalhavam-se sobre uma vasta mesa, onde, a um lado, um leve cestinho continha os números a sair.

Quando a elegante assistência se aquietou, entraram os pequeninos do asilo e, com eles, o herói do dia, o pequeno Remy, que de colo para colo, a todos contava no seu papaguear infantil o que se passara no sinistro dia do incêndio.

– Oh! que medo que eu tive! Só via chamas, fumo e depois mais nada; parece que morri; mas daí a pouco a senhora marquesa veio-me buscar e eu já não estava morto.

– Então foi a senhora de Méligny que te salvou? – perguntou a embaixatriz de Áustria.

– Sim, sim e até tem uma ferida na cabeça.

– Cora! É verdade que tua mãe se feriu e foi ela quem salvou, arriscando a vida, o pequenino Remy?

– Sim, minha senhora. Minha mãe não queria

de maneira alguma que se falasse do assunto. Proibira-o e todos se conformaram com a sua vontade.

Mas Deus quis que o facto fosse revelado pela boca desta criancinha.

– A senhora marquesa acha a caridade mais

perfeita quando praticada em silêncio – volveu o

médico assistente da família Méligny.

Por toda a galeria se espalhou, com rapidez, a

notícia.

– Ah! esta querida marquesa quer fazer monopólio da generosidade. Pois não se dirá que nós

damos apenas o nosso concurso, mediante um certo

interesse.

E pegando num livrinho de apontamentos, inscreveu nele o seu nome e adiante dele um valioso donativo. Depois, voltando-se para um fidalgo seu conhecido, perguntou-lhe:

– E o duque, já decidiu com quanto se vai inscrever?

Esta generosa inspiração teve um êxito extraordinário.

Dentro em pouco, a soma elevava-se a muitos

milhares e o asilo não só contava doravante com

o óbulo dos pobres, como podia contar também,

de futuro, com a generosidade dos ricos.

Beatriz depressa viu a obra começada. Ela própria vigiava os operários que edificavam o novo asilo. Todos se esforçavam para que tudo ficasse pronto antes da retirada da marquesa para Paris, mas foi completamente impossível dar-lhe tamanha satisfação. Foi com bastante pena que a senhora de Méligny deixou Morancé, sem ver os pequeninos instalados no seu novo lar.

O Natal de Luísa

Ao verem afastar-se a carruagem que conduzia para Paris a família de Méligny, todos os corações se apertaram.

O que chorou mais e mais sentiu a falta da marquesa foi o pequeno Luís Rigault.

Ficou-se muito tempo a olhar os cavalos que fugiam com a sua benfeitora.

Parecia-lhe que com ela se afastavam também os seus entes mais queridos: as irmãs e a mãe adorada.

<<Talvez nunca mais se lembrem de mim e quem sabe se voltará a Morancé. >>

Estas ideias enchiam de tristeza a alma de Luís. Nem já se importava do livro de botânica que, com tanto gosto, recebera das mãos da senhora de Mé Ggny. A única coisa que realmente o distraía eram os seus animais – o cão de guarda e as ovelhas. E se algum deles adoecia, com que cuidado e carinho o tratava! Gostava imenso dos cães e das ovelhas e tinha artes de se fazer amar por estes simpáticos animais.

Só a sua afeição por eles lhe atenuava a dor.

À noite, depois de contar as cabeças do gado que guardava, deitado ao lado de Roitelet, o seu cordeiro favorito, sabia-lhe bem falar com o cão, Mauricaud. E como ele parecia entendê-lo tão bem!

Passaram-se dois meses. Aproximava-se o Na tal, a festa mais bela de todo o ano cristão. Luís no entanto, via com tristeza aproximar-se esse dia e Pela primeira vez não abraçaria a sua boa mãe e não jantaria à mesa, com os seus. A meia-noite Luís, ao ouvir o som triste dos sinos a chamar os fiéis para a missa, caiu de joelhos no chão frio a pedir a Nosso Senhor que lhe desse resignação. Rezou, rezou e pediu com fervor que Deus poupasse à mãe desgostos e canseiras.

– Senhor, que seja eu só a sofrer por não estar junto dela.

Quando acabou as suas orações, apertou a si o bom Mauricaud, como quem aperta um amigo. O pobre pequeno precisava sentir junto de si u ser vivo que o amasse e a quem amasse também.

No dia de Natal deixaram-no ir à missa. O patrão, ainda que rude e brusco, não era mau homem. De resto, Lourdet gostava deste homenzinho, pronto sempre a trabalhar e a obedecer.

– Tu choraste, rapaz? Ah! parece-me que isso são saudades dos teus pais, não?

– Na verdade assim é, mas quando se não pode fazer o que se deseja, que remédio há senão contentarmo-nos.

– Bem! Vai à missa e quando voltares vem ter comigo.

A criança correu imediatamente para a igreja. De volta, o coração batia-lhe apressado. O que lhe quereria o patrão? E foi com uma certa emoção que entrou na vasta cozinha da herdade. Francisca Lourdet tinha nas mãos uma carta, que acabara de ler.

– Ora aqui está uma carta que me fala de ti. Ouve lá: não te sentes contente por a senhora marquesa se lembrar de ti?

– De mim?

– Ouve! Presta atenção ao que te vou ler:

<<Peço-te também que mandes Luís passar o Natal com ospais. Entrega-lhe, da minhaparte, este dinheiro Que te envio para ele comprar um herbário. Diz-lhe que não o esqueço, por ele ser obediente e trabalhador.

– Como vês, a senhora marquesa quer que vás passar o dia a Lussan. Vai e volta amanhã. Podes ir no meu cavalo e aqui está o dinheiro que a senhora marquesa te mandou.

– Oh, meu Deus, como me sinto feliz! – murmurou agradecido o pastorzito. – Muito obrigado.

Saiu, satisfeitíssimo, da cozinha. Ia a correr quando encontrou Mauricaud, que lhe saltou às pernas.

– Se tu soubesses como eu estou contente! Vou ver minha mãe e sou rico, muito rico. Nunca me vi com tanto dinheiro.

Enquanto falava, ia arreando o cavalo que montou dum salto. Mauricaud dava ao rabo, saltava, ladrava de satisfação e quando viu o cavalo partir, desatou a correr atrás do seu amigo.

Luís refreou o andamento do cavalo. O cão, com a língua pendente, mal o podia acompanhar. Acabavam de dar duas horas na igreja de Lussan, quando Luís atravessou a vila. Bem procurou, entre as pessoas que passavam, os rostos queridos da mãe e dos irmãos, mas não os viu. Chegou finalmente a casa. Desceu do cavalo, atou-o a uma argola de ferro, que pendia do muro, e bateu à porta. Ninguém lhe respondeu. Lá dentro reinava um profundo silêncio. Luís levantou a aldrava e entrou na cozinha, onde não se via viva alma. Supondo que todos tinham ido à missa, dispunha-se a sair quando ouviu rumor num dos quartos. Entrou. Perto da porta, entreaberta, Luís viu a mãe e Catarina. Luísa estava mais pálida do que habitualmente; lágrimas deslizavam-lhe pelas faces emagrecidas. Catarina tentava consolá-la, sem o conseguir. Ao barulho dos passos do rapaz, ambas voltaram a cabeça rapidamente. Ao vê-lo, os olhos de Luísa adquiriram um brilho maior; os braços apertaram o filho adoptivo, com ternura.

– Ah! como estás crescido e forte! Estes oito meses mudaram-te bastante.

– Mas, diz-me mãe, o que é que se passa cá em casa de extraordinário?

– Chegaste numa má ocasião – disse a pobre mulher, inclinando tristemente a cabeça. – Teu pai está muito mal. Agora está ele a descansar. Estou aqui pronta a acorrer à primeira chamada.

– Meu Deus! Mas o que é que ele tem?

– Parece que se trata duma febre tifóide. Há já dez dias que está doente.

– Dez dias?! Mas porque não me avisaram?

– Para que te havia de incomodar? De mais a mais não tinha ninguém para te mandar prevenir. Tiago passa a vida a ir buscar remédios; Germano anda a receber as contas que nos devem. Bem vês, todo o dinheiro é pouco nestes momentos.

Luís meteu a mão no bolso, para tirar as moedas que a marquesa lhe dera. Seria uma ajuda para aquela casa. Não pensara em aplicá-lo assim, não. Todo o caminho levara a pensar no que havia de comprar para a mãe.

De súbito, ouviu-se um gemido partir do quarto vizinho e imediatamente Luísa se lançou para lá.

Fora Rigault que o soltara. Luísa ajudou-o a erguer-se e deu-lhe uma poção a beber.

– Como vais, meu bom Pedro? – perguntou ela, docemente.

– Nada bem, minha querida mulher. Isto está no fim.

– Está caladinho! Não duvides da bondade de Deus. És novo, cheio de forças, Nosso Senhor há-de curar-te. O que é preciso é ter paciência. Sabes? Luís veio ver- nos. Deram-lhe licença lá na quinta. Queres vê-lo? Não imaginas como está crescido!

– Sim, que venha! Já sei que estão muito contentes com ele.

– Muito contentes. Entra Luís, teu pai quer

ver-te.

– Bom dia, meu pai.

Luís aproximou-se com timidez da cama do pai.

– Bom dia, filho. Ainda bem que vieste, eu. . E a voz de Rigault sumiu-se e a cabeça do pobre homem caiu pesadamente sobre a almofada.

Luísa suspirou profundamente. Olhou aflita para o marido, correndo para junto do leito. -Água, água. – gemia Rigault.

Catarina, enfiando a cabeça pela porta entreaberta, anunciou a chegada do senhor prior.

– Queres que o senhor Abade entre?

– Deixa-me em paz! Não quero ver ninguén!

O prior, porém, entrou. Luísa disse-lhe por entre lágrimas:

– Parece-me que está muito mal.

– Sossega, minha pobre filha. Creio que a n nha visita lhe há-de fazer muito bem.

O bondoso sacerdote sentou-se junto do leito do

sapateiro.

– Vamos lá a ver, meu caro Rigault, responde às minhas perguntas. Julgo que a visita dum sacerdote lhe dará prazer. Enganei-me?

– Meu bom Pedro, fala. Está aqui o nosso prior. Vem trazer-te o conforto moral. Por amor de teus filhos, por meu amor, fala!

– Estou muito mal – disse Rigault, suspirando e voltando-se para o lado onde estava o sacerdote. – Parece-me que já posso tratar das malas para a minha última morada.

– Ninguém sabe o dia da partida, meu amigo. Devemos estar prontos para abalar, mas sem nos lamentarmos. Demais, Pedro, está cercado de afectos e cuidados, e quantos os não têm. Deus deu-lhe uma santa mulher.

– Ah! eu sei muito bem quem é a minha boa Luísa. Não pensa noutra coisa senão no marido e nos filhos. Como lhe sou grato E como me vai custar deixá-la. Se eu me for, o meu tio Tomás há-de olhar por ela e pelos pequenos. Mas quem sabe lá? O velho tem umas ideias! Ah meu Deus! E saber que estes braços ainda há pouco trabalhavam tanto e agora para aqui estão inúteis.

– Os teus braços cumpriram o seu dever. Criaste cinco filhos. Olha que já é uma grande obra, principalmente quando um deles não te pertcia. Uma obra destas pede por ti a Deus.

E o bom cura, continuou durante mais algum tempo, a levantar a moral do doente, falando com aquela ternura peculiar nos sacerdotes. Com o olhar penetrante dos que estão habituados a olhar a morte, o sacerdote reconheceu que o pobre homem poucos dias teria de vida.

Durante este tempo, as crianças despreocupadas, como se é nesta idade, brincavam, satisfeitas por verem Luís entre elas. Mauricaud tomava parte nos folguedos e partilhava do pão e do queijo que os seus amigos comiam.

Luís falava do rebanho, da senhora de Méligny, i

da botânica que ele cultivava com amor e mostrava

com um sorriso de satisfação o dinheiro que a marquesa lhe mandara entregar.

Falaram muito da boa castelã, a bela e nobre

senhora que viera, muitas vezes no Verão, visitá-los, sem se importar de entrar na sua humilde casa.

Joana, a mais novita, só tomava parte na conversação quando se tratava da senhora de Méligny:

– Se a senhora marquesa estivesse cá, com certeza que curaria o pai. Ela é tão boa…

Ao cair da noite, chegou o tio Tomás.

– Então, temos por cá o <<boa-vida?>> Boa

noite, meu rapaz – disse o velho, bastante lisonjeado com a visita.

Luís correspondeu à grosseira saudação, e continuou a pôr a mesa para a ceia, enquanto os irmãos se ocupavam em tirar a sopa.

Luísa apareceu e, tirando do bolso do avental umas moedas, disse ao pequeno Tiago:

– Com a doença do pai, nem pude fazer-lha

um bolo. Toma, vai comprar um.

– Passamos bem sem ele, mãe.

– Vai, vai que eu quero festejar a visita de Luís.

Há tanto tempo que o não víamos!

– Não é preciso o seu dinheiro, mãe – volveu, também, o pequeno Luís. – Tenho aqui algumas moedas, que me deu a senhora marquesa. Anda, Tiago; vamos comprar ambos o bolo.

– Guarda o teu dinheiro, que te não quero privar dele.

– Oh mãe! Não sabe que o meu maior prazer seria poder gastar muito dinheiro consigo?

Luísa beijou, enternecidamente, a cabeça do filho e deixou-o partir.

Passado pouco tempo ei-lo de volta com um magnífico bolo-rei. Dentro havia um pequenino objecto de metal, que Luísa guardou, como lembrança daquela noite.

No outro dia de manhã Luís partiu, pedindo à mãe que o prevenisse de tudo quanto ocorresse. Enquanto se dirigia para a quinta os pensamentos sucediam-se; tinha vindo cheio de contentamento visitar a mãe, e fora encontrá-la com o coração amargurado, pela expectativa da morte do pai.

Ele não se enganara. Percebia bem que o fim de Pedro Rigault se aproximava.

Quando chegou à quinta ia de tal maneira desfigurado, que Lourdet não pôde deixar de lhe dizer:

– O que te aconteceu, meu rapaz?

Luís contou-lhe por entre lágrimas o estado do pai.

No fim da semana, certa manhã, entrou Tiago no estábulo onde Luís dormitava. Logo que abriu os olhos compreendeu, pelo ar aflito do irmão, o que se passara. As duas crianças choraram durante muito tempo, abraçadas uma à outra. Tiago passou o dia e a noite com o irmão, contando e recontando as cenas da morte do pai.

– Ele chamou-te, e disse que te abençoava.

De manhã, Tiago e Luís partiram para assistir ao enterro de Pedro Rigault.

Dois dias depois estavam de volta, com os traços de grande desgosto, impressos no rosto. No entanto, retomaram as suas obrigações e tudo voltou ao mesmo ram- ram habitual.

Só Mauricaud andava de cabeça baixa, intri gado com a atitude do seu amigo que já não brincava, nem conversava com ele, como outrora.

Os projectos de Luís

Depois da morte de Rigault, o tio tinha combinaado com a viúva que esta lhe tomasse conta da casa e tratasse da roupa, podendo habitar nela com os filhos.

Luísa acedeu de bom grado. Apesar de conhecer a rudez do velho, esperava atenuar-lhe a aspereza, à força de paciência e resignação, e assim obter um dote para os pobres órfãos.

Tio Tomás não tardou a abusar da sua submissão. Tratava-a pior do que a uma criada; ralhava-lhe por tudo e por nada, dando grandes socos sobre os móveis, quando lhe não executavam as ordens com a rapidez desejada.

Quantas vezes Luísa se escondia para chorar. Os filhos viam-lhe os olhos vermelhos, mas nunca lhe ouviram uma queixa. Um dia, o velho Tomás, num ataque de cólera, atirou-lhe um saleiro que lhe abriu uma brecha na cabeça. A viúva engoliu as lágrimas com a afronta. Como ela se sentia humilhada! Mas que havia de fazer? Onde ir buscar o pão para os filhos?

Luís ia muitas vezes vê- la. A criança sabia bem quanto a mãe sofria, mas nunca lhe ouvira uma queixa.

Um domingo em que chegou cedo, ouviu a voz colérica do tio Tomás, à qual respondia a voz fraca e queixosa da mãe. Escutou e ouviu o seguinte:

Ah, não! Você pensa que a minha casa é algum albergue? Não tem mais dinheiro? Que tenho eu com isso? Não estou disposto a sacrificar-me por vocês todos.

– O senhor ofende a minha pobre mãe. Abusa

da sua situação e isso não se faz – exclamou Luís, empurrando violentamente a porta.

– Cala-te, Luís – implorou Luísa.

– Ah! grande maroto! Com que então anda agora a escutar às portas? Espera que eu já te dou a curiosidade.

E com a mão ossuda e pesada, aplicou uma violenta bofetada no rapaz.

A boa viúva correu para o filho a defendê-lo de

novo ataque. O olhar, de ordinário tão meigo, brilhava de indignação.

– Miserável! Bater assim numa criança. Até

aqui suportei tudo, mas nunca suportarei que toquem nos meus filhos. Não, não ficarei nem mais

um minuto nesta casa.

– Vá-se embora, vá! E se morrer de fome, que

morra, que estoire para aí com os garotos.

E, desesperado, Tomás saiu, batendo com a porta.

Luísa, ajudada pelo filho, arrumou tudo quanto

era dela. Alugaram uma carrocinha, onde transportou os poucos móveis e roupas que tinha.

Finalmente partiram. Levava na algibeira algumas moedas, mas poucas, que apenas lhe chegariam para viver uns dois ou três dias.

Em Lussan, para onde se dirigiu, alugou um

quarto no casebre duma velhota que vivia sozinha;

Quando os pequenos Rigault, de volta do trabalho, foram para casa do velho Tio, ele fechou-lhes a porta na cara, dizendo-lhes que fossem procurar a mãe. Eles assim fizeram.

Apesar de ser bem miserável o tecto onde se abrigaram, os pobres pequenos riram e folgaram no novo lar, contentes por não ouvirem as rabugices do velho Tomás.

– Não te importes, mãe – dizia-lhe Germano.

– Deixa estar que trabalharemos para ti. Eu e Joana já podemos ganhar para nós e ajudar-te um pouco.

Tiago e Luís ganharão também; eles

não querem outra coisa. E tu, querida mãe, ficarás a cuidar da casa.

Luísa sorriu-lhes por entre lágrimas e abraçou os filhos, um a um, cheia de comoção. No entanto, ela bem sabia que ainda deviam

passar muitos anos, até que os filhos ganhassem o suficiente. Não queria, de modo nenhum, tirar-lhes a ilusão. Dentro de oito dias o que teriam para comer?

Luís era o único que vivia inquieto. Depois desta

cena sentou-se ao pé da mãe a conversar.

– Mãezinha! Já sei que não tens dinheiro.

– Deixa lá. Vou vender os meus móveis.

– E depois que farás, quando esse dinheiro se acabar? Ouve, mãe! Se tu quiseres Tiago irá comigo para a quinta. Sei que o meu patrão precisa dum pastor. Meu irmão é forte e verás que dentro de pouco tempo ganhará bem. O patrão há-de querer ensinar-lhe a arte de lavrar a terra, e Tiago virá

a ser um bom lavrador.

– E que pensas tu destes projectos de Luís, meu

filho?

Tiago respondeu prontamente à pergunta da

mãe:

– Mas por certo que sim, que quero ir com o Luís.

– Então vão os dois que eu ficarei com Catarina.

E nessa mesma noite os dois pequenos partiram.

Efectivamente Lourdet tinha-lhe pedido para

ver se Tiago queria trabalhar na quinta.

Acolheu-o de muito bom grado e permitiu que

o novo pastor ficasse junto do irmão, o que deu

a ambos um grande prazer.

No pequeno cérebro de Luís havia germinado uma ideia de difícil execução. No entanto tinha todo o empenho em a ver realizada.

De manhã foi ter com o patrão e disse-lhe:

– Sr. Lourdet, tenho uma coisa a pedir-lhe.

– Fala, meu rapaz!

– É que… sim, eu trouxe comigo meu irmão.

Eu queria pedir-lhe que o deixasse guardar o meu

rebanho e o dele. Gostava. sim. precisava que

me deixasse estar ausente uns dias por causa. por

causa dum negócio meu.

– Com que então tu também tens negócios? perguntou-lhe Lourdet, a rir.

– Sabe? É que minha mãe precisa de mim. Não

vê que depois da morte de meu pai ela não ficou

em boas circunstâncias e quer que…

– E quanto tempo estarás ausente?

– Apenas oito dias.

– Apenas, dizes tu. Tens muito que fazer!

– A mãe quer que eu vá a Paris ver umas pessoas conhecidas.

– Mas olha que ultimamente tens faltado muitos dias ao trabalho. O gado anda mais magro; não

tem quem olhe por ele!

– Ó meu bom patrão! Deixe-me ir e verá que

nunca mais lhe peço para sair.

– Pois sim, mas olha que deves estar de volta

na próxima quinta-feira.

– Muito obrigado patrão, muito obrigado.

Luís entrou no estábulo e enquanto fazia as suas

provisões para a viagem, ia contando ao irmão os

seus projectos, pedindo-lhe que guardasse o maior

segredo.

– Adeus, meu bom Tiago. Olha pelo rebanho; toma conta de Mauricaud e pede por mim a Nosso Senhor. Dentro em breve estarei de volta.

Luís partiu para Paris com o coração cheio de esperança. Iria ter com a senhora de Méligny. Contar-lhe-ia tudo o que ultimamente sucedera, e tinha a certeza que ela havia de ajudar a mãe.

A viagem de Luís

Luís tinha ainda algumas moedas que lhe ficaram do Natal. Como nunca havia saído da sua terra, não fazia ideia das dificuldades que ia encontrar.

Além disso não sabia onde morava a marquesa

mas, coitadito, na sua ingenuidade pensava:

Irei ter à casa mais bonita de Paris. É lá que ela mora, com certeza.

Estava um dia frio; muito frio mesmo. Corria , o mês de Fevereiro. Luís aconchegou-se no abafo de pele de ovelha, para se preservar do vento agreste que lhe cortava a pele do rosto. O pouco dinheiro que tinha, não lhe permitia

usar outro modo de locomoção a não ser o das pernas. A estrada que liga Tours a Paris estendia-se

interminavelmente longa, diante dos olhos do pequeno Luís. Caminhou um dia inteiro e não parou

senão uma única vez para comer uma parte do pão

da merenda e umas nozes.

Depois de beber a água do cantil, retomou a

marcha, parando apenas à noite numa terreola desconhecida, onde pediu albergue num palheiro.

No dia seguinte, informou-se junto do dono da

que lados ficava Paris.

– Pois realmente vais a Paris?

– Sim, senhor.

– Estás ainda muito longe. Daqui até lá vão

umas quarenta léguas bem contadas.

– E eu que me julgava já tão perto! Quanto

tempo levarei a lá chegar?

– Que diabo! Andando bem, cinco ou seis dias.

– Seis dias! Mas valha-me Deus! Daqui a seis

dias é sábado.

– Mas com que então está assim com tanta

pressa?

– Sim, estou; se soubesse!. .

– Então despacha-te! Toca andar!

A criança que pensava que lhe iam oferecer uma

boleia, deu um suspiro e pegando no cajado partiu apressado.

Não tinha dado dez passos, quando um cão se

lhe atirou ao peito e começou a lamber-lhe a cara.

Era Mauricaud, Mauricaud que, ao ver o amigo

partir, se lhe lançou no encalço, a cauda pendente,

a cabeça levantada, procurando no ar o cheiro que

o guiaria até ao pé de Luís.

– Meu pobre Mauricaud! És tu? – exclamou

admirado e contente o rapazito. – Não sabes o que

fizeste, meu bom amigo. Enfim, anda comigo e fica

sabendo que estou satisfeito em te ver.

Embora andando depressa e, vencendo com certo

esforço a fadiga, Luís havia já seis longos dias qui

caminhava sobre a terra gelada, deitando-se ora nos palheiros descobertos ora no pórtico duma igreja, sempre aconchegando a si o bom Mauricaud que

o aquecia com o seu bafo quente.

A esperança nunca o abandonara e era ela que, como um bálsamo, lhe fazia adormecer todas as mágoas, esquecer o frio, a fome, a lonjura do caminho e até a própria saudade dos seus.

Quando avistou o Arco do Triunfo, Luís perguntou, cheio de admiração:

– O que é aquilo?

– É a porta de Paris. i Nesse momento sentiu-se mais seguro e alegre.

– Enfim! Eis-me chegado ao meu destino, Deus seja louvado!

Ansiedade

Uma vez chegado a Paris, desceu os Campos

Elísios e pôs-se a olhar atentamente para as esplêndidas moradias, a ver, se dentre elas, podia reconhecer a da senhora de Méligny. Todas as casas lhe pareciam iguais.

Por fim, na Rua de Rivoli, viu ao lado de magníficos palácios um que lhe pareceu mais belo que os outros. Nos vastos jardins que o rodeavam, apinhava-se uma multidão de pessoas elegantes.

É aqui certamente que vive a minha benfeitora.

Luís entrou no jardim seguido de Mauricaud enlameado até ao focinho. Por um momento, o pequeno teve um sentimento de vergonha por se ter de apresentar diante da marquesa tão mal vestido e ainda para mais acompanhado de um cão tão porco. Quem sabe se a mãe àquela hora tremia de frio, cheia de fome e de mágoa por não ter nada que dar à pequenina Catarina. De mais Lourdet havia de estar furioso com ele. Já era sábado e ele tinha-lhe apenas dado licença até quinta- feira. Luís

encheu-se de coragem, foi direito à porta e dirigiu-se com muito bom modo ao soldado que estava

de guarda ao palácio:

– A senhora marquesa está?

– Qual marquesa? – perguntou, com espanto, o militar.

– Ora quem há-de ser! A senhora marquesa

que mora aqui no palácio.

– Pateta! – exclamou o soldado, enquanto ria

a bandeiras despregadas. – Mas isto são as Tulherias.

– Não sabia; mas talvez seja! Então onde encontrarei a senhora marquesa de Méligny? Diga-me, se faz favor.

– Não a conheço, meu rapaz. Sabes onde

mora?

– Não; mas sempre pensei que a encontrava

logo. Em Morancé todos conhecem o seu castelo.

Também é verdade que há só um e aqui há tantos!

– Pareces-me um grande palerma – replicou, a rir, o militar. – Como queres encontrar uma senhora, seja ela qual for, em Paris, sem saberes a sua direcção?

– É que esta senhora não é como as outras.

Toda a gente a conhece, não só na minha terra, como a dez léguas dali.

– Mas bem vês que em Paris não é a mesma

coisa. E é muito rica?

– Ah! sim, muito rica, muito nova e muito

linda.

– Vou dar-te um conselho: procura-a à porta dos teatros, dos hotéis afamados, das embaixadas e até mesmo aqui quando houver bailes. Pode ser que Deus ta faça encontrar, dentro dum ano talvez.

– Um ano! Mas o que é isso de embaixadas e teatros? Um teatro deve ser assim uma coisa parecida como o que vi em Vierval, mas a outra coisa.

– As embaixadas, são as casas dos embaixadores; quer dizer, os enviados dos reis de todos os países; os representantes dos reis.

– Mas o que hei-de fazer, meu Deus? – murmurou, baixinho, o pobre rapaz. – Se a procurar durante um mês que seja eu e minha mãe morreremos de fome. Como esta terra é grande! E como esta gente deve ser muito rica para não conhecer a minha benfeitora. Em Morancé todos a conhecem.

– Escuta! Fazes-me pena e quero ajudar-te. Vou perguntar a toda a gente se conhece essa senhora e, quem sabe?, é possível que o meu coronel a conheça. A senhora quê?

– A senhora marquesa de Méligny.

– Méligny. Bem, Volta cá amanhã que eu talvez já saiba alguma coisa.

– Muito obrigado!

Luís afastou-se, seguido de Mauricaud. Comprou meio pão, comeu uma parte e deu outra ao cão e, enquanto comia, lágrimas amargas corriam- lhe pelas faces. Se dentro de três dias não encontrasse a marquesa, morreria de fome. Quando via

uma bonita carruagem de vidros corridos por causa do frio, ia logo espreitar para dentro a ver se teria

a sorte de encontrar a marquesa. Fez isto umas pou cas de vezes, com risco de ser esmagado pelos trens que passavam.

À noite, viu todas as lojas iluminadas e contemplou com admiração a linha luminosa que ia desde a praça da Concórdia até à da Bastilha.

Este ingénuo rapaz que tinha tomado as Tulh rias pelo palácio da senhora de Méligny, estava disposto a ir bater à porta da Ópera, quando viu escrito Academia Imperial da Música. Então

parou.

– Com certeza que a minha senhora não vive aqui. É o mesmo. Vou esperá- la. Talvez esta casa seja um teatro.

Resolvido a esperar, Luís sentou-se nos degraus da grande escadaria, a olhar as carruagens e as senhoras que delas desciam, nos seus magníficos vestidos de noite.

Os olhos fascinados iam dum a outro destes, repletos de encanto. Mauricaud deitado a seus pés nãose mexia. Quando toda aquela gente entrou, I ficou ali durante duas horas vendo apenas as carruagens vazias e os cocheiros que esperavam a saída dos patrões. Ia levantar-se para estender os mebros dormentes, quando começou a ver pessoas que começavam a sair da Ópera. Era um fluxo de brilhantes e encantadoras senhoras e de elegantes cavalheiros e durante uns momentos houve um

barulho de vozes, risos, barulhos de carruagens, gritos

de cocheiros. Depois tudo voltou ao mesmo silêncio; a rua ficou deserta e a criança adormeceu num

sono cheio de inquietações e cuidados. Acabava de nascer o dia quando o pequeno despertou; abriu os olhos, esfregou-os com as mãos enregeladas pelo frio, levantou-se, bateu com os pés no chão para a circulação se fazer mais rapidamente e como tinha fome foi, seguido de Mauricaud que tremia de frio, comprar um pouco de pão para entreter o rato que lhe roía as entranhas.

Mais refeito, começou a caminhar para as Tulherias, mas perdeu-se no labirinto das ruas.

Na altura da Rua do Templo, perguntou a um

indivíduo que passava onde ficava as Tulherias.

Indicaram-lhe o trajecto mas quando ali chegou verificou com mágoa que o militar que o atendera na véspera já lá não estava.

O pequeno começava a perder a esperança. Tinha gasto o último dinheiro que possuía com a

compra do pão. E agora o que havia de fazer? Parecia-lhe que afinal o soldado tinha razão quando

lhe dissera que nem daqui a um ano encontraria a senhora de Méligny.

Nessa noite já não pôde dormir e, se não fora

o calor de Mauricaud, bem aconchegado no seu

colo, certamente teria morrido de frio.

Ao fim do terceiro dia voltou de novo às Tulherias. Era a sua última esperança, encontrar o soldado com quem falara no primeiro dia.

Pelas duas horas, começou a cair uma chuva ge lada e miudinha que trespassava de frio até aos ossos. Luís a tremer, sob as fracas vestes ensopadas, ia procurar abrigo no vão duma escada quando viu o tão desejado militar. Dirigiu-se imediatamente ao bom homem que, ao vê-lo, exclamou :

– Com que então estás cá de novo? Óptimo! Pois fica sabendo, meu rapaz, que já encontrei a tua marquesa. Perguntei por ela ao meu coronel mas esse não a conhecia, o que confesso, muito me admirou. Ele é um homem que conhece muita gente da alta. Mas, enfim, o caso é que me informei e já sei onde mora.

– Ah! o senhor sabe onde mora a senhora de Méligny?

– Sim, e nota que o soube duma maneira muito patusca. Diz-se: procura que acharás e assim foi. Perguntei ao meu coronel, ao meu capitão, a todos os meus superiores e ninguém a conhecia. Pois vê lá tu, meu amigo; foi preciso encontrar um simples soldado como eu, que tem um primo que é…

– Mas por amor de Deus! A morada?

– Ah, a morada? A morada é assim um nome de santo. Espera! Rua Grenelle S. Germain; Rua Grenelle Santo Honorato ou então, espera; Rua S. Guilherme. Que diabo! Mas eu sabia.

– E agora? – perguntou Luís, cheio de impa ciente inquietação.

– Olha, volta cá amanhã a esta mesma hora, que vou perguntar ao meu camarada.

– Precisava tanto de saber hoje – respondeu Luís, sem poder conter os soluços.

– Pois sim, mas que queres? Vem cá amanhã.

A criança partiu a procurar um banco onde se pudesse sentar. Estava transido de frio e de fome e a chuva continuava, impiedosa, a fustigar-lhe a carne. Mauricaud andava inquieto dum lado para o outro.

– Que queres, meu velho? Não tenho nada para te dar.

Luís foi sentar-se no lugar onde costumava dormir; tentou fazê-lo mas o sono não veio.

Como a noite lhe pareceu comprida! O dia seguinte surgiu carregado de nuvens; a neve começou a cair. Luís, com o cão apertado ao peito, tremia de frio. Às três horas levantou-se, sacudiu os flocos de neve e caminhou em direcção às Tulherias.

Mal o soldado avistou Luís, gritou-lhe logo:

– Que grande estúpido que eu sou! Não me lembrar duma morada tão simples: Rua de S. Domingos n. o 29.

No palácio da marquesa

Luís, apesar de toda a sua fraqueza, começou a correr na direcção que o soldado lhe indicou.

Atravessou uma ponte e errou muito tempo pelas ruas vizinhas, para se dirigir a casa da sua benfeitora. Finalmente encontrou-a mas, quando ia atingir o seu fim, cego pela neve e pela fraqueza, caiu junto do portão do palácio, sem forças sequer para levantar os batentes de bronze. Mauricaud, não menos fraco que o seu amigo, ficou-se estendido a seus pés, gemendo baixinho.

Luís sentiu uma deliciosa sensação de sono, apoderar-se dele. A neve continuava a cair, cobria-o com o seu lençol branco.

– Minha mãe! – balbuciou o pobre pequeno, num suspiro. E desmaiou.

Mais uns minutos e o infeliz teria encontrado a morte, onde fora em busca dum pouco de felicidade para os seus.

Nisto, a porta da cocheira do palácio abriu-se para deixar sair uma elegante carruagem de passeio. Lá dentro, os olhos duma criança viram o que ninguém tinha visto até então, e a sua boca abriu-se para exclamar quase num grito:

– Mãe! Não vês além, ao pé da nossa porta? Parece um vulto humano ali caído; repara!

– É verdade, minha filha – respondeu a marquesa, ao mesmo tempo que descia da carruagem para ver do que se tratava. – Meu Deus! É uma criança e um cão E como estão gelados!

Mauricaud começou a lamber as mãos da marquesa.

– Céus! Dir-se-ia que o animal me conhece. Cora! dá-me o teu frasco de sais.

Entretanto Luís abria os olhos. À luz baça das lanternas pareceu-lhe aquilo tudo um quadro celestial.

– Oh minha senhora! Que felicidade! Encontrei-a finalmente!

– A mim? Ah meu pobre Luís – exclamou a marquesa, ao reconhecer o pequeno pastor de Morancé.

A senhora de Méligny tirou o casaco de peles e cobriu com ele o corpo de Luís, que tremia como varas verdes.

– Entra; depois me contarás tudo. – E a marquesa, encaminhava o pequeno, encostando-o a si.

Mal fecharam a porta, ouviram um uivo sentido de dor. Era Mauricaud que chamava o seu amigo.

– É o meu pobre cão. Ah! senhora marquesa, por piedade, não o deixe lá fora!

– Sossega, que alguém cuidará do bom animal. Baptista! Toma conta desse cão e trata-o bem, como se fosse meu.

O criado olhava, estupefacto, a senhora marquesa, de vestido decotado, sem nenhum abafo e conduzindo, ela própria, aquele pequeno mendigo. E, ainda por cima, mandava-lhe cuidar daquele miserável cão. Enfim, ordens são ordens!

O criado achou que a melhor maneira de tratar um cão bem recomendado seria levá-lo para a co zinha, e dar-lhe de comer. E assim o fez.

No fim de alguns minutos, Luís, bem aconchegado num roupão de lã, sentia um calor suave que o reanimava, apesar da grande fraqueza em que se encontrava.

– Porque vieste a Paris? E o teu cão porque

veio contigo? – perguntou, cheia de natural curiosidade, a menina de Méligny.

– Eu não trouxe Mauricaud. Ele é que veio ter

comigo. – Foi para a procurar, minha senhora.

Há cinco dias que a procuro por toda a parte. Já

nem tinha esperanças de a encontrar!

– Mas que tens? – perguntou, cheia de ansiedade, a senhora de Méligny, tomando nas suas

mãos fidalgas as geladas mãos do pastor. – Estás

pálido e frio, muito frio. Que tens?

– Dói-me muito aqui. – E a criança apontava

o estômago que se contraía pela fraqueza.

– Tens fome? Não comeste ainda hoje?

– Nem ontem desde as oito horas da manhã.

A marquesa levantou-se, como que movida por uma mola e foi ela própria buscar-lhe uma chávena de caldo e um cálice de vinho de Málaga.

– Por agora basta. Não convém tomares grandes refeições duma vez. Vou mandar dar-te, durante a noite, mais um caldinho. Amanhã já poderás comer melhor. O que precisas é de dormir bem e descansar.

Luís, semiembriagado de felicidade, não sabia senão dizer a cada instante:

– Como a senhora é boa! E como eu fiz bem em vir ter consigo!

A marquesa e Cora indicaram-lhe um quarto bem quentinho, que lhe pareceu a antecâmara do Céu, tal era a profusão de azul que ali havia.

A sua alegria aumentou quando viu, deitado no tapete, o seu velho Mauricaud, bem limpo e bem comido a dormir regaladamente.

Luís dormiu dum só sono toda aquela noite. De manhã encontrou numa cadeira a roupa que lhe era precisa. Uma roupa nova, quente e macia. Deram nove horas. Nunca Luís se levantara tão tarde. Aquela noite bem dormida fora suficiente para lhe restaurar as forças, e Beatriz, ao entrar no quarto, ficou plenamente satisfeita com a aparência do pequeno.

– Vamos tomar o pequeno-almoço. Deves ter muito apetite esta manhã.

À mesa, colocaram-no perto do fogão e todos disputavam as honras de o servir, de o divertir, de

lhe fazer esquecer, enfim, as más horas que tinha

passado.

Mauricaud não foi abandonado. Nunca na sua

vida de cão de pastor sonhara que houvesse tão

bons petiscos. Ah! que belo pedaço de carne assada!…

No fim da refeição, Luís contou as causas que

o levaram a procurar o apoio da senhora marquesa.

A criança narrou, com tanta emoção, tudo

quanto se passara, que Cora e a marquesa tiveram, bastas vezes, de enxugar os olhos.

– Minha pobre mãe não tem nada. Quem sabe

mesmo como terão passado? Eu não podia vê-los

morrer de fome. Tinha comigo apenas um resto do

dinheiro que a senhora me mandara. Levei cinco

dias a procurá-la, mas Deus foi bom para mim, pois

encontrei a minha benfeitora.

– Pobre Luísa! Como terá ela passado estes

dias? Mas eu estou aqui para velar por ela. Fizeste

muito bem em vires ter comigo. Tua mãe há-de

agradecer-te tudo o que passaste por amor dela.

– Nunca lhe pagarei tudo o que lhe devo. Não

conheço ninguém tão bom como ela, a não ser a

senhora marquesa e a menina Cora.

Regresso

Entretanto Luísa vendera todos os móveis, ficando apenas com um leito para ela e para Catarina.

Com o pouco que recebeu, comprou uma cama para os filhos e o dinheiro que lhe sobrou, gastou-o dentro em breve em pão e nalgum fraco conduto. Luísa via-se seriamente atrapalhada. No armário restava-lhe apenas um pedaço de pão e esse guardava-o Luísa para Catarina, quando ela voltasse da modista.

Uma vendedeira de Amboise tinha-lhe confiado uma porção de fio para dobar, mas a pobre senhora Rigault não tivera ainda tempo para fazer aquele trabalho, que só lhe seria pago no momento da entrega. Luísa estava muito mudada. Os desgostos tinham-na desfigurado completamente. Os cabelos embranqueceram-lhe depressa e o rosto engelhara-se-lhe e perdera toda a cor. Lia-se-lhe no semblante a tristeza, o sofrimento e a ansiedade; só os olhos se mantinham com a mesma expressão doce e resignada. Apesar de todos os golpes do destino, esta

alma privilegiada não perdera a esperança. Esperava sempre alguma coisa do Céu. Deus não a havia de abandonar.

Catarina, quando veio à noite, foi direita à mãe a abraçá-la com toda a ternura. Mas ao sentir as mãos da mãe frias, duma frialdade que incomodava, não pôde deixar de dizer:

– Meu Deus! Como tu estás fria! Vai sentar- te. Deixa que eu acendo o lume para aquecer a sopa.

– Não vale a pena, minha querida – volveu Luísa. – Sinto-me bem. O pior é que não há sopa para ti e também não temos lenha.

– Não há lenha?

– Não tenho vagar nem dinheiro para a comprar.

-Mas…

– Aqui está este pedaço de pão – disse Luísa, colocando sobre a mesa um naco de broa. – Tens que te contentar com isto hoje. Nada mais há para te dar, minha querida.

Catarina pegou no pedaço de pão e devorou-o sem dizer sequer uma palavra. Só no fim reparou que a mãe não tinha comido.

– E tu, mãe, não comes nada?

– Não tenho vontade. Já comi, obrigada.

– Mãezinha! Diz-me a verdade. Já não há dinheiro em casa, pois não?

Luísa olhou para a filha com os olhos marejados de lágrimas.

– Nosso Senhor quer-nos experimentar. Reza-lhe para que Ele nos proteja. Talvez que Ele te oiça.

– Minha pobre mãe! – murmurou Catarina, envolvendo-a num grande abraço. – Não chores. Vou rogar a Nosso Senhor que nos ajude e Ele há-de ouvir-me com certeza.

E, dizendo isto, Catarina ajoelhou-se junto do leito e fez as suas orações. Depois deitou-se e dentro em pouco estava a dormir. Luísa chorava baixinho, enquanto velava o sono da filha.

No dia seguinte, Catarina levantou-se e foi para a modista em jejum. Voltou à noite, trazendo um pouco de pão e carne.

– Minha querida, minha querida filha! – disse Luísa, enquanto aconchegava ao peito a pequenita.

A senhora Rigault comeu a sua primeira esmola, regada de lágrimas. Mas nisto a porta abriu-se e Luís atirou-se para os braços da mãe, apertando-a muito a si.

– Mãe! Trago-te aqui a felicidade.

Um criado sustinha, à porta, uma lanterna. À luz fraca do lampião, Luísa pôde ver, não sem assombro, o seu pequeno Luís e a senhora marquesa que lhe sorria.

– A senhora de Méligny, aqui!

– Sim, sim, é a nossa boa e querida benfeitora! Eu é que fui buscá-la a Paris – exclamou Luís, exultando de alegria.

– Foste a Paris?

– Minha boa amiga! – disse a marquesa, acercando-se dela. – Como te deves sentir orgulhosa por teres um filho como Luís. Foi a Paris, sem dinheiro e nem supões o que ele sofreu até encontrar-me. Aqui tens, Luísa. Vai comer primeiro e depois conversamos.

A marquesa estendeu-lhe um cesto com provisões e obrigou-a a comer com os filhos. Foi um delírio de alegria a ceia daquela noite.

Depois de acabarem de comer, Luísa puxou para si o filho adoptivo e assim esteve, abraçada a ele, presa duma emoção que mal a deixava pronunciar qualquer palavra.

– Meu filho! Meu querido filho! Não sabia que tinhas por mim tão grande dedicação.

– E não havia de ter, mãe? Não foi por minha causa que tu sofreste e que vieste do cantinho onde vivias? Quis pagar-te um pouco do muito que te devia, pois sei bem que nunca poderei pagar-te tudo o que fizeste por mim.

– Agora, minha pobre Luísa, escuta o que te vou propor – interrompeu a marquesa. – Na minha quinta há uma granja que meu marido mandou construir para ali criar gado, criação de toda a espécie de raças seleccionadas e que se apuraram cada vez mais. Gostaria que te encarregasses da direcção desta parte da quinta. Vendias o leite, os ovos e em compensação fornecerias o castelo do que ele precisasse: leite, criação, queijos, manteiga, etc. Convém-te a minha proposta?

– Oh! minha querida senhora! – e isto foi tudo o que a pobre Luísa pôde dizer, entre soluços de emoção.

A felicidade, o espanto, o reconhecimento, cortaram-lhe a palavra.

Luís pegou nas mãos da marquesa, que beijou num transporte de gratidão. Por sua vez Luísa, vencendo a comoção, veio pegar nas mãos da sua fidalga amiga.

Beatriz levantou-se e abraçou comovida a boa mulher, que correspondeu ao abraço com um misto de respeito, timidez e ternura.

No Céu, os anjos deviam sorrir satisfeitos, ao contemplarem este quadro de tão tocante simplicidade.

A granja

Luísa Rigault tomou conta duma deliciosa casa, rusticamente mobilada, dentro da granja que ela dirigia.

Tiago encarregava-se do estábulo; Luís cultivava a horta e o jardim; Catarina trabalhava numa costureira de roupa branca, que morava na vizinhança da quinta; Germano continuava a exercer o ofício do pai e até já tinha feito para Cora um gentil par de pantufas que Luísa forrara de cetim azul. Os dias passavam deliciosamente num bom ambiente de família.

Após dias longos de sofrimento e amargura, Deus proporcionava-lhe enfim uma existência doce

e serena.

Quando, nas noites de Verão, se sentava na soleira da porta, invadia- lhe a alma um grande bem estar, ao ver as vacas recolherem ao estábulo, os pombos entrarem nos pombais, e galinhas, patos e perus recolherem-se às capoeiras, enquanto o riso dos filhos vinha pôr uma nota mais alegre no cenário que tanto a encantava.

Do seu coração, subia para Deus que tantas graças lhe dera, uma oração de agradecimento. Depois, ficava-se a rezar por aquela a quem devia tanta felicidade.

Durante as férias, muitas vezes se via entrar pelo pequeno jardim uma linda criança, a quem toda a gente da região chamava senhor conde, mas a quem os da granja tratavam apenas por menino Renato. Este belo rapaz gostava imenso de ajudar Luís nos arranjos da horta.

No dia de S. Luís, o pequeno conde nunca dei xava de trazer à senhora Rigault um ramo de rosas que ela aceitava com maior prazer do que qualquer objecto precioso.

Também ia logo depô-las aos pés da Virgem em homenagem sentida de boa católica.

Cora, mais velha que Renato, não frequentava a quinta com tanta assiduidade. Tinha muito que fazer; olhava pelos convites dos bailes, organizava as festas do castelo, acompanhava a mãe a fazer visitas de caridade e por isso, só uma vez por semana, se dava ao prazer de ir ver a família Rigault. À partida, Luísa colhia um grande ramo de jasmins e rosas, o que agradava sobremaneira à menina de Méligny.

Houve uma ocasião em que Cora passou quinze dias sem aparecer na granja.

Tiago ia todas as manhãs levar o leite e os ovos ao castelo e quando perguntava notícias da menina, diziam-lhe que ia bem de saúde.

Luísa suspirava quando o filho lhe levava aquela seca resposta.

– Esqueceu-nos. Não há dúvida que já nos esqueceu. Já não é uma criança e por isso não se sente bem entre nós.

Os dois casamentos

Certo domingo, quando Luísa escutava a leitura que lhe fazia Catarina, ouviu o som de muitas vozes e um frufru de saias de seda que se aproximava. Luísa corou de alegria ao avistar a marquesa acompanhada de Cora e dum elegante cavalheiro. Levantou-se e foi ao encontro dos visitantes.

Cora avançou para a senhora Rigault e estendeu-lhe a mão. Luísa ficou admirada ao ver a menina de Méligny, resplandecente duma nova beleza. Os olhos tinham maior brilho, as faces mais cor e os lábios sorriam de felicidade. Parecia que a ventura transbordava desta encantadora criaturinha.

A marquesa contemplava sorridente o gracioso rosto de sua filha.

– Vimos pedir-lhe do leite da quinta, minha boa Luísa – disse Beatriz, entrando e sentando-se numa cadeira. E continuou: – Depois irás mostrar-nos os estábulos e as capoeiras.

– Oh, sim e com muito prazer! Há que tempos que não temos a dita de os ver. Fiquei tão contente por saber que não fomos esquecidos!

– Não, Luísa, não os esquecemos – respondeu a marquesa -, andámos muito ocupadas com assuntos graves. Mas daqui para o futuro seremos mais constantes, não é assim, Cora?

Uma súbita vermelhidão cobriu as faces da menina de Méligny.

– Com certeza, minha mãe, desde o momento que Jorge goste tanto da granja como eu.

– Porque não havia de gostar? Bastaria ser uma coisa preferida por Cora para ter também a minha preferência. Vim hoje para visitar a granja e tomar conhecimento com a família Rigault, que conto já entre as pessoas amigas.

– Seus amigos? Nós? Ó meu Deus! Luísa, muito comovida, não acertava com o que havia de dizer. Por fim, exclamou:

– Mas, então, vai casar-se, menina Cora.

– Sim, minha boa Luísa. Caso-me mas nunca me esquecerei de si, nem de seus filhos. Levo todos aqueles a quem bem quero, dentro do coração.

Cora abraçou intencionalmente a mãe que a apertou ao peito com ternura e estendeu também a mão ao futuro genro que nela depôs um beijo respeitoso.

À hora da merenda beberam leite servido em ca necas rústicas mas de irrepreensível asseio; comeram morangos e deliciaram-se com bolos feitos à moda aldeã.

No fim de visitarem todas as dependências da granja e tecerem, com justiça, elogios à boa ordem e limpeza em que tudo se mantinha, despediram-se da família Rigault com aquela elegante simplicidade própria de corações fidalgos. Cora abraçou

Luísa e Jorge estendeu-lhe a mão.

– Até à vista e creia que não deixarei de vir por cá muitas vezes – disse por último o noivo de Cora.

A pobre Luísa estava encantada com a maneira tocante com que a trataram. Seguiu o grupo que se afastava não só com o olhar mas também com o coração agradecido. Depois, fitando a filha mais velha, foi pensando: Quem sabe se dentro de pouco tempo não estarei em idênticas circunstâncias e não terei, à minha volta, uns pequeninos atrás dos pintainhos… e dos bácoros.

No fim de Agosto realizou-se o casamento de Cora com Jorge de Astaing, rapaz fidalgo e amigo da família de Morancé.

Durante a cerimónia a duquesa de Morancé, avó de Cora, abençoava a neta, inclinando a cabeça branca sobre os louros cabelos da menina de Méligny; a marquesa limpava com a mão trémula os olhos embaciados pelas lágrimas e a um canto a boa camponesa, Luísa, cercada de seus filhos pedia a Nosso Senhor que cobrisse com as suas bençãos aquele casamento.

Não tardou dois meses, que a jovem marquesa de Astaing não viesse trazer um ramo de rosas brancas para o noivado de Joana Rigault. E não se passaram muitos anos que o sonho de Luísa não se realizasse. Pela quinta corriam atrás dos pintos duas encantadoras crianças; um rapazito de dois anos, filho dos marqueses de Astaing e um outro um pouco mais velho, neto da boa Luísa. O filho dos camponeses e o pequenino fidalgo brincavam muitas vezes juntos, alarmando a criação e revolucionando a quinta com as suas adoráveis traquinices.

Os dois soldados

Ao passo que havia, quer no palácio quer na granja, mais um hóspede também faltavam dois entes muito queridos.

Renato, corajoso como todos os seus, querendo perpetuar o glorioso nome de que era um dos representantes, alistou-se no heróico exército francês.

Assim que saiu de S. Ciro, depressa obteve o posto de tenente. Fez toda a guerra da Crimeia e em breve veio trazer à mãe a notícia de que tinha ganhado a cruz de honra e o posto de capitão.

Tiago, por seu lado, não se quedou nos trabalhos do campo; a sua robusta natureza pedia-lhe movimento e emoção; tinha apenas um sonho: defender a Pátria sempre que ela necessitasse do seu braço ou mesmo da sua vida. Alistou-se como soldado no mesmo regimento do seu querido amigo fidalgo.

Pode-se imaginar, se foi ou não uma grande alegria para ambas as famílias ouvirem bater, no mesmo dia e à mesma hora, às suas portas os garbosos e simpáticos rapazes – Renato e Tiago.

A marquesa achou o filho mais magro, mais queimado mas também com traços mais viris.

Os seus olhos ardiam de prazer ao abraçar os pais, a irmã e o sobrinho.

Ao ouvi-lo contar os episódios da heróica campanha da Crimeia, uma das glórias da história da França, ao vê-lo fremente ainda das horas vividas em combate, a marquesa não podia deixar de sentir-se orgulhosa do filho.

De tempos a tempos, Renato interrompia a sua narrativa para abraçar a mãe, mal acreditando ainda, após tantos perigos passados, em tamanha felicidade.

– Ó meu querido filho! Como eu tremo pelos perigos passados e como tremo por todos aqueles que ainda terás de correr! Como eu gostaria que nunca mais te ausentasses daqui.

– Não receies nada por mim. E que satisfação não será a tua quando me vires coronel?!

– E até lá? E depois, contentar-te-ás com esse posto? Decerto que hás-de querer atingir o posto de general.

– E mesmo o de marechal de França. Com a ajuda de Deus, gostaria de vir a ser como o meu bisavô, Renato Hugo de Méligny, o herói do exército francês, em tantos feitos gloriosos. Com certeza que meu pai não se oporá a que eu siga a carreira militar.

– Não, meu filho. É uma nobre ambição a tua e não sou eu que me oporei a isso. Nem tua mãe,

tão-pouco. O que ela naturalmente tem, é o receio de perder-te, sabendo-te preso de tantos perigos como os há sempre nas batalhas.

Apesar de todos os receios de Beatriz, receios que o filho em breve dissipou com a sua ruidosa alegria, o tempo passou-se no meio da maior felicidade. Pena foi que corresse tão rapidamente.

A marquesa, à parte a dor de ver partir o filho, vivia em maré de venturas. Tinha um marido que a adorava, filhos que a cercavam de cuidados, um neto que era o enlevo da sua vida e fortuna. Tudo isto eram motivos mais que suficientes para bendizer a Providência.

Também Luísa Rigault vivia feliz, rodeada pelos filhos e pelo neto que tanto lhe queriam. À excepção de Tiago, todos viviam com ela. Calcule-se, pois, a alegria imensa desta mãe quando pôde abraçar o filho ausente. Luís era agora jardineiro do castelo e sentia um orgulho enorme não só pelo irmão, mas pelo filho da marquesa, que nunca deixou de o estimar, passeando com ele, muitas vezes, nas ruas da vila.

Para se festejar condignamente a volta do filho amado, Luísa convidou um grupo de amigos a ir jantar com eles. À volta da grande mesa de cozinha da granja, onde alvejava uma toalha de linho, sobre a qual luziam talheres e loiça brilhando de limpeza, via-se aquela boa família e os seus amigos manifestarem sã alegria, por meio duma conversação animada e risos frescos e saudáveis.

De manhãzinha, Tiago foi com a mãe apresentar os seus cumprimentos à senhora de Méligny, por quem foi recebido com a maior cordialidade e simpatia.

– Veja, minha mãe – disse Renato dirigindo-se a ela, ao mesmo tempo que estendia a mão a Tiago. – Aqui está um corajoso rapaz! É mesmo mais resistente do que eu. Tem, a par duma grande coragem, uma resistência física maior do que a minha.

– O meu capitão foi um valente e eu que o diga. Corajoso e bom como poucos. Também todos o estimam no quartel.

Beatriz sorria de satisfação, a ouvir falar assim da coragem e da bondade do filho. O coração exultava-lhe de alegria.

Durante os seis meses de férias dos dois militares, as duas famílias encontraram-se muitas vezes na granja e aí merendavam o bom leite e os frescos queijos que Luísa preparava.

Naquele ano, a marquesa passou o Natal em Morancé. Só nos primeiros dias de Janeiro se ausentou para retomar a vida de sociedade, em Paris.

Luísa vivia agora como senhora absoluta dos domínios da marquesa, mas isto enchia-lhe o coração de amargurada saudade e só a ternura do neto, com quem habitualmente passeava, conseguia aligeirar-lhe a alma das suas mágoas.

Luísa gostava de ensinar o neto a repartir o pão não só com os pobres como também Com os animais, principalmente com os passaritos que, no Inverno, por ali andavam cheios de fome.

O mau tempo de chuvas e de frios foi passando. À volta de Luísa tudo prosperava. No domingo, à tarde, a nesa enchia-se de gente. Pelo seu trabalho e economias, Luísa, que tinha o sublime vício da caridade, podia dar a este ou àquele o que lhe sobrava. Também gastava prodigamente com o neto, trazendo-o sempre bem agasalhado nas suas vestes de bom menino.

Luís é que nunca aceitou nada da mãe. Bem pelo contrário; ele é que despendia parte do que ganhava, com presentes para ela.

Quando Luísa o repreendia por tais gastos, o rapaz respondia prontamente:

– Então, mãe?! Não te sacrificaste tanto por mim? Não é justo que eu queira trabalhar para ti? Deixa-me ter este prazer; não me queiras privar dele, pois sofreria muito com isso.

Luísa sorria contente e abraçava o filho com certa comoção.

Apesar da marquesa não deixar na região campo para se exercer a caridade, Luísa, seguindo os impulsos do seu generoso coração, sempre achava maneira de ser útil aos outros: dava conselhos a este; levava um caldo a certa velhinha doente; palavras amigas a uma alma inquieta e por toda a parte a graça dum sorriso e uma saudação amiga. – Sigo as pisadas da minha benfeitora, que sempre espalhou o bem com mãos pródigas; e nós

somos um exemplo bem vivo da sua imensa bondade.

Estas palavras, dizia-as Luísa aos seus, sempre que eles, receosos que ela dispendesse energias superiores às suas forças, lhe pretendiam refrear a caridade.

O tempo feliz passa sempre depressa e assim, os seis meses de férias voaram como um sonho.

No princípio de Abril, Tiago e Renato retomaram a vida militar.

– Mãe, não fiques em cuidado comigo. De resto, estamos em tempo de paz; nada tens que temer. E se houver guerra, eu saberei cumprir o meu dever; e juro-te que hei-de trazer-te a cruz de honra, para que possas orgulhar-te de teu filho.

– Se houver guerra, que Deus tal não permita, traz-me antes a tua presença. É essa que eu desejo e nada mais.

Primeira provação

Nesse ano a marquesa voltou muito triste para

o castelo. Pela primeira vez vinha sozinha. A filha

não a acompanhava.

O velho duque de Astaing morrera. Fora pois,

necessário, que o filho partisse para as Antilhas, a fim de tomar conta da enorme fortuna que o pai

lhe deixara. Cora acompanhara o marido e Deus

sabe quanto, com isto, sofrera o coração das duas

mulheres. Quantas lágrimas deslizaram pelas faces

de ambas e que soluços, estrangulados pela dor, se

não ouviram!

A senhora de Méligny ainda quis acompanhar

os filhos até ao Havre, mas sentiu-se tão fraca, que

não se atreveu a fazê-lo.

Quando viu afastar-se o barco, a marquesa

sentou-se numa pedra, enquanto as lágrimas corriam abundantemente pelas faces. O marquês, passado algum tempo, amparou a esposa com o carinho e a ternura que sempre lhe dedicara.

– Minha querida mulher! Não chores como se

Cora tivesse morrido. Ela é feliz e vai com o marido que tanto a estima. E vê, querida, que ainda nos fica Renato.

– Renato! Sem dúvida; mas também ele me causa tantos receios. Não se declarou a guerra e não é ele um oficial brioso? O que sucederá? Nem quero pensar nisso, sequer.

– Beatriz! Não tens direito de duvidar da bon dade de Deus.

– Sim, porque Nosso Senhor concedeu-me até hoje todas as venturas e ainda agora mesmo me deixa a amparar-me a força do teu braço amigo. Mas que queres? Tenho tanto medo!

– É a tua primeira provação, minha amiga. É preciso resignação e muita coragem.

Alguns dias após a partida de Cora, o jovem conde de Morancé veio despedir-se dos pais. O seu desgosto era bem recompensado pela alegria que lhe inundava a alma. Ia defender a pátria!

– Adeus, minha santa mãe, voltarei, afianço-te.

– Cala-te, por Deus! Não me lembres, com essas palavras, a possibilidade de te perder.

– Minha querida mãe! Mas onde está esse coração heróico que todos conhecemos? Culpas-me

por cumprir o meu dever? Não foste tu própria que me deste esse exemplo, mesmo quando foi necessário expores a vida?

A marquesa sorriu-se tristemente.

– Tens razão, meu filho. Parte a cumprir o teu

dever, mas deixa-me chorar. Não é natural que as

lágrimas que tenho na alma subam aos olhos? Se

eu te perdesse? Como havia de poder suportar tão

grande desgosto?

– Tem confiança em Deus e verás que Ele te

poupará uma tal dor.

– Meu filho Tu vais partir e Deus sabe quando

voltarás. Nesta hora, tão dolorosa para nós ambos, quero que te sintas orgulhoso de ti. Foste realmente

o filho que eu desejei, digno e bom como nenhum

outro.

O conde beijou com ardente ternura a boa senhora e disse-lhe com a voz trémula de emoção:

– Não sou digno dos teus elogios, mas agradeço-te quanto me disseste. As tuas palavras serão um esteio nas horas dolorosas e uma bela recompensa pelo pouco que tenho feito.

O marquês quebrou, propositadamente, esta

cena demasiadamente emotiva, dizendo:

– É tempo de nos pormos a caminho. Abraça

tua mãe e vamos. Acompanho-te até Tours.

– Eu irei até ao portão do jardim – replicou

Beatriz.

Durante os minutos que durou este triste cortejo, Beatriz sorria quase calma. Queria assim fazer esquecer os temores que há pouco a tinham assaltado.

Mas logo que o jovem marquês a abraçou pela

última vez e subiu para a carruagem, mal esta se

pôs em movimento, a marquesa deu livre curso às

suas lágrimas.

Ali ficou, durante muito tempo, agarrada às grades do portão, acompanhando, com o olhar desvairado, o caminho por onde seguira a carruagem. Foi acordada deste estado de espírito por um soluço que lhe fez voltar rapidamente a cabeça.

Era Luísa que também viera de acompanhar o filho, que partira para a guerra.

– Bem vejo que não sou eu a única a sofrer nesta hora de provação.

– Ah minha senhora! Minha senhora! Os nossos filhos partiram para a guerra.

As duas mulheres, lavadas em lágrimas, caíram nos braços uma da outra, confundindo as suas dores numa só. Não havia ali uma camponesa e uma fidalga, mas sim duas mães irmanadas pelo mesmo sofrimento.

– Vamos, minha senhora, é preciso termos co ragem – disse, por fim, Luísa, amparando a marquesa e conduzindo-a até ao palácio. – Ai, meu Deus! Sentimo-nos tão fortes com a presença de nossos filhos! E como nos sentimos fracas com a sua ausência!

– Vem comigo rezar por eles, minha boa Luísa. Deus há-de protegê-los, assim o espero.

Más notícias

No dia seguinte à batalha de Solferino, chegaram duas cartas a Morancé: uma para Luísa e outra para a senhora de Méligny.

A de Tiago rezava assim:

Minha boa mãe

Se ainda estou vivo é ao meu capitão que

devo a vida. O que te passo a contar é muito

lindo, mas também é muito triste.

Não vou contar-te a batalha. Osjornais terão dito, e muito melhor do que eu o faria, tudo

quanto se passou. De resto, quem vive na guerra

não dá conta dos pequenos pormenores, tão

preso está à própria acção da luta. Mas vamos

ao que importa. Num dos ataques a um reduto

austríaco em que eu tomava parte, atirei-me

com tantafúria a um inimigo que me atacava, que quebrei a espingarda, nessa luta de corpo a corpo.

Estaria nas mãos do austríaco se nãofosse

o socorro que me veio das mãos do meu capitão, mas, oh momento horrivel (nem me quero lembrar!). Uma bala, vinda não sei de onde, feriu, em pleno peito, o meu superior, o meu benfeitor, o meu amigo, o meu salvador. Teria caido por terra se eu não o tivesse amparado.

– Meu capitão Épreciso sairmos deste inferno. Vou levá-lo às costas até à ambulância. A principio não queria aceitar o meu oferecimento, mas depois não teve outro remédio. Sabes lá o que eu sofri ao ver o meu querido capitão quase morto, coberto de sangue, afronte banhada em suor. O que eu sofri! Extrairam finalmente aquela maldita bala, mas ainda corre ” grande perigo. Porque é que Deus, salvando-me, não o salvou a ele ? Se alguém, na verdade, merecia ver de novo seu filho são e salvo, seria, sem dúvida, a senhora marquesa. Se ele voltar a Morancé (meu Deus, será possível que ele não volte?), a senhora de Méligny vai achá-lo muito mudado. Há dois dias que eu não o deixo, um momento que seja, o meu nobre capitão. O que eu tenho chorado. Trouxeram-lhe a

medalha de honra e ele teve ânimo de sorrir i quando lha puseram. Meu bom amigo Não a

trará por muito tempo, a não ser que Deus queirafazer um milagre. Tuprópria, mãe, não sabes como é bom e generoso o nosso capitão.

Todos lhe queremos muito bem e nos olhos de todos nós há lágrimas mal contidas. Mãe! mãe! nem quero pensar no que poderá suceder.

Adeus, minha querida mãe.

Pede a Nosso Senhor que salve o meu benfeitor.

<Abraça, por mim, o Luís, o Germano e as minhas irmãs.

Beija-te o filho muito amigo e respeitoso Tiago Rigault.

A carta de Renato era mais curta. Eis o seu conteúdo:

Minha muito querida mãe

Dentro de pouco tempo, conto estar junto

de vós todos. Vão talvez achar-me um pouco

mudado. Fui ferido em Solferino; felizmente

nada de grave. No entanto, como sinto que sou

aqui um inútil, pedi para regressar a Morancé.

Creio que só aí reconquistarei a saúde. As tuas

mãos queridas, minha santa mãe, têm o segredo

de curar. Serão elas que me curarão, não é

assim ?

Um abraço a envolvê-los todos. Não se in quietem. Este ferimento é ainda umafelicidade, pois é ele que mefaz ir mais depressa para junto de vós.

Beijo-te, mãe E até breve.

– Ferido! O meu querido filho está ferido!

– repetia a marquesa ao entregar a carta ao marido.

– Então, Beatriz! Não te deves alarmar. Este

ferimento não é grave. É ele mesmo que o diz.

– Ah, meu amigo! Compreendes que Renato, mesmo que estivesse gravemente ferido, não mo mandaria dizer. De resto, vê-se bem pela letra que sofre muito. A sua mão deveria estar muito trémula quando escreveu estas curtas frases.

– Minha querida Beatriz! É preciso não desesperar e ter confiança, muita confiança em Deus que

tudo pode. Peço-te que te enchas de coragem e o

recebas com um rosto quanto possível calmo. Mostra-te o que tens sido sempre: o anjo bom do nosso

lar. Já não te peço que te mostres forte, por mim.

Sou homem, sei sofrer calado, mas não me tires a

coragem com o teu sofrimento. Amparemo-nos um

ao outro e mostremos a este corajoso rapaz, que

soube arriscar a sua vida, que também somos capazes de sofrer em silêncio.

Beatriz estendeu a mão ao marido, ao mesmo

tempo que lhe dizia:

– Está bem, meu bom amigo! Farei tudo por

ti, por Cora e pelo nosso querido Renato.

– Obrigada, Beatriz! Não sabes o bem que me

fazes. Vamos ver Luísa. Ela deve já ter recebido

notícias do filho.

E os dois dirigiram-se para a granja.

Ao entrar na vasta cozinha onde se encontrava

geralmente, a camponesa, viram-na debulhada em

lágrimas com um papel na mão que ela tentou esconder, quando os avistou.

Em presença da sua dor, Beatriz empalideceu.

– Mas o que há, Luísa? Tiveste notícias de Itália?

– Sim senhora marquesa. Tive boas notícias. Tiago está bom e teve subida de posto e o senhor Renato parece que deve chegar brevemente.

– Sim, mas ferido.

– E foi para salvar o meu filho.

– Para salvar o teu filho?

Luísa contou então o que Tiago lhe mandara dizer, tendo o cuidado de ocultar a gravidade do ferimento.

A marquesa ouvia-a quase sem respirar.

– O meu filho! Um tal ferimento deve trazer-te felicidade. Mas porque choras, Luísa? Teu filho mandou-te dizer que Renato está gravemente ferido? Diz a verdade.

– Não, minha senhora, não – exclamou, aflitivamente, a pobre Luísa. – É que o meu tio. sim… o tio Tomás está muito mal.

Luísa não sabia mentir e mesmo esta piedosa mentira a fez corar subitamente. A marquesa, porém, não reparou.

– Minha boa amiga. Trata-se do teu velho parente? E que idade tem ele?

– Setenta e sete anos muito fatigados.

– Com tal idade já é fácil ver-se morrer alguém. O que faz pena, muita pena é ver morrer os novos.

– O senhor Renato não diz o dia em que chega?

– Não; não me diz quando, mas sei que chega brevemente. Ah! como me vão parecer longos estes dias de espera! Adeus, minha boa Luísa. Hei- de voltar com ele e trazer- te notícias de Tiago. Por um acaso estranho e, como se o Céu não quisesse que Luísa tivesse mentido, o correio trouxe uma carta na qual o notário lhe dizia que o seu velho parente tinha morrido. Pedia-lhe também que fosse a Lussan tomar conta da herança.

– Ó meu Deus? Quem me havia de dizer uma coisa destas?. Poderei assim dar um dote à minha Catarina. Já que não te queres casar, encontrarás nesse dinheiro o amparo que te daria um marido. De resto, se modificares tua ideia e te casares, será o teu dote de casamento.

– Não, mãe. Nunca me casarei. Ficarei a viver sempre consigo.

– Sabe-se lá o futuro! No entanto, gostaria de te ver amparada. Quando eu morrer há-de custar-me muito deixar-te só. Bem. É preciso ir a Lussan. Tu ficarás a tomar conta da granja durante a minha ausência. Eu irei com Luís que sabe, melhor do que eu, as voltas a dar. Vai preveni-lo, Catarina.

Daí a momentos Luís estava na cozinha da granja.

A mãe mostrou-lhe a carta do notário e pediu- lhe que a acompanhasse.

– Estou sempre pronto a fazer o que quiseres.

– Vamos amanhã?

– Como queiras.

No dia seguinte, ambos subiram para a carrocita em que costumavam levar as suas provisões para vender no mercado; mas antes de se afastarem Luísa disse à filha:

– Catarina! Vai ter com o senhor Abade e

pede-lhe que mande rezar umas missas por alma do

pobre Tomás Rigault. Deus tenha compaixão da

sua alma e lhe perdoe, como eu lhe perdoo de todo

o coração, o mal que nos fez; felizmente, em parte

reparado, pelo que nos deixou agora.

Luísa vendeu a propriedade de Lussan, com os

terrenos adjacentes, e confiou ao notário a gerência da sua pequena fortuna.

Que sonhos se criaram na imaginação da humilde viúva Com aquele dinheiro poderia ajudar

o genro a desenvolver o seu comércio de sementes:

ver a sua Catarina bem casada; comprar umas terras ali perto para Luís cultivar flores (a sua grande

paixão), alindar e aumentar a lojita de Germano…

Que coisas, ela sonhava, a boa Luísa!

Passados três dias, a marquesa recebeu nos braços o seu querido Renato e cobriu-lhe de beijos a

fronte pálida.

Oh! mas que amargura sentiu, ao ver no rosto

tão amado os vincos dum grande sofrimento. Com

que tristeza ela contemplou o jovem conde. Quem

diria que aquele rapaz, outrora tão belo, tão cheio

de vida e ardor, era o mesmo que ali estava, magro, fraco, envelhecido…

Durante muito tempo apertou nas suas as mãos febris do filho.

– Meu querido, meu bom Renato! Como estás fatigado! Vem deitar-te.

– Não, mãe; deixa-me ter o prazer de estar junto de vós, nesta primeira noite. Deixa-me criar a ilusão de que tudo se passa como outrora.

O jovem conde soube tão bem disfarçar o seu mal físico, que a marquesa sentiu renascer a esperança.

– Tu sofres! – exclamou, pegando-lhe de novo na mão. – Vai deitar-te, meu amor.

– Oh, não, minha mãe! Sinto-me tão bem! Foi este sangue da boca, que me vieste limpar, que te assustou? Isto não tem importância. Se até me alivia, crê. Vamos visitar a pobre Luísa e levar-lhe uma carta do filho. Como deve ficar contente quando eu lha entregar!

– Não; hoje não. Vejo bem que tu não podes e que precisas descansar.

– Peço-te, mãe, faz-me esta vontade.

– Seja! Vamos, já que tanto o desejas. Renato sentia-se com poucas forças, mas esperava, com este passeio, dissipar os receios da mãe. A sua coragem moral suplantaria a sua fraqueza física. E levantando-se, o conde ofereceu, não sem uma certa galantaria fidalga, o braço à senhora de Méligny.

– Dê-me o braço, minha mãe. Que alegria podê-la sentir apoiada a mim!

Fazendo das fraquezas forças, atravessou com passo, relativamente firme, as áleas da quinta até chegar à granja.

As sombras dum começo de noite ocultavam um pouco a palidez e os traços cavados pela doença. No entanto, Luísa, ao vê-lo, mal pôde conter as lágrimas.

O conde abraçou com efusão a boa Luísa, falou-lhe de Tiago e só noite cerrada é que voltou para o palácio.

A marquesa quis cuidar ela própria do filho. Depois de enfiar uma bata, sentou-se à cabeceira, tentando fazê-lo adormecer.

– Não, minha mãe; não consinto que fiques aqui toda a noite. Isso de maneira nenhuma. Vamos! Faz-me a vontade! Vai deitar-te.

– Deixa-me ver-te adormecer.

Renato, como visse que toda a insistência seria inútil, calou-se.

O silêncio reinou, naquele quarto, durante muito tempo. O conde fazia todos os esforços possíveis para dormir, mas o sono fugia-lhe, porque o sofrimento era grande.

Passada uma hora, Renato voltou-se para a mãe e disse-lhe com uma calma impressionante:

– Sinto-me tão bem! Não posso dormir enquanto estiveres aqui. Vai descansar, para eu sossegar também.

Beatriz ainda tentou resistir, mas o filho tanto lhe pediu, que não teve remédio senão ceder.

Desespero

Mal chegou aos seus aposentos, a marquesa, fatigada por tantas emoções, atirou-se, mesmo vestida, para cima da cama. Dentro em pouco adormecia num sono agitado e inquieto. No entanto, quando acordou parecia-lhe que dormira muito.

Sobressaltada, correu imediatamente para o quarto do filho. Ali não se ouvia o mais pequeno barulho. Renato parecia dormir, tão imóvel estava; mas havia naquela imobilidade qualquer coisa de terrível.

A marquesa aproximou-se, a tremer, do leito de Renato; beijou-o; pegou-lhe na mão e, ao senti-la gelada, soltou um grito, meio abafado pela dor.

– O meu filho morreu!

E caiu de joelhos, aos pés da cama de Renato. O marquês chegou daí a instantes e fez tudo o que pôde para chamar à vida o infeliz rapaz. Em breve chegou o médico que declarou não haver nada a fazer. O conde sucumbira, devido a hemorragias internas, que tantas vezes sobrevêm após ferimentos graves.

O marquês, mal ouviu as palavras do médico correu para junto de sua mulher, apertou-a nos seus braços e ambos choraram a morte do filho tão amado.

Essa crise de lágrimas salvou, possivelmente, a vida da marquesa.

– Meu filho! Meu querido filho! Tão novo, Tão generoso e tão bom!

Estas e outras frases semelhantes saíram, por entre soluços, da boca da senhora de Méligny que, debruçada sobre o leito de morte, parecia não poder deixar de contemplar e de beijar aquele que ainda há pouco lhe falava e lhe sorria e que, agora, ali estava imobilizado pela morte.

O marquês, a um canto, soluçava, podendo ouvir-se de vez em quando estas simples palavras, ditas com um misto de ternura e desespero:

– Meu filho! Meu pobre filho!

Beatriz continuava a olhar e a beijar o rosto frio do conde de Méligny para quem a vida acabara tão cedo!

– Meu Deus, será possível que mo tivésseis le vado? Então eu nunca mais, nunca mais o verei?

E as lágrimas, lágrimas quentes como fogo, queimavam-lhe as faces devastadas pela dor.

Toda a noite ali ficou a pobre Mater Dolorosa, quase sem se aperceber do que se passava à sua volta.

Só tinha olhos para aquele filho que assim partira para uma interminável viagem. Mal deu mesmo conta da entrada do velho Abade, mal ouviu as orações de finados.

– Meu filho! Meu Renato!

No dia seguinte, aproximadamente à mesma

hora em que o conde falecera, o marquês e o cura

conseguiram afastá-la dali.

A criada de quarto ajudou a senhora de Méligny

a deitar-se num divã e o marquês sentou-se a velar

por ela, com a solicitude e o carinho, com que se

vela uma criança.

O senhor Abade pretendia incutir, com as suas

palavras, cheias do espírito de Deus, coragem

àquela pobre alma amarfanhada pela dor.

– É preciso ter resignação. Olhe que a senhora

marquesa tem sérios deveres a cumprir para com

o seu marido, para com a sua filha e para com os

pobres.

– Meu Renato! Meu querido filho! Ah! deixem-me abraçá-lo e vê-lo mais uma vez.

Galvanizada pela ideia de poder ver ainda o

rosto amado, a marquesa levantou-se e caminhou

num passo automático até ao quarto do filho.

O jovem conde repousava já no caixão. A marquesa levantou a mortalha e beijou-o perdidamente.

– Meu filho! Meu querido Renato!

Quebrada por tantas e tão fortes emoções, a

marquesa perdeu os sentidos.

Quando voltou a si, o portão de jazigo de família fechara-se já a guardar o corpo do jovem

conde.

O marquês não estava menos acabrunhado pela perda do filho do que a marquesa. Como homem, não manifestava tanto a sua dor, mas ela vivia profundamente recalcada no seu coração.

Vira desaparecer o último representante da sua raça, numa idade em que tudo havia ainda a esperar, e tinha que velar pela saúde da mulher. Que força moral lhe era precisa, santo Deus!

Nunca mais se pronunciou o nome de Renato. Para quê, se esse nome estava gravado a fogo nos seus corações torturados pela dor?

Um dia, a Beatriz deparou-se-lhe uma folha de papel, caída dum álbum, escrita pelas mãos ainda inábeis de Renato.

Mãe

<Como é doce o teu nome e como eu te quero por tudo quanto tens feito por mim e pelos outros!

Quando era pequenino, salvaste-me a vida, velando por mim, dia e noite. Eu estava muito mal com uma febre que me devorava. Ficaste tãofraca, que adoeceste e estiveste quase a morrer por minha causa. Deixa estar, mãe, que, quando eu for homem, hei-de tornar-te tão feliz, que tu hás-de querer viver sempre.

– Ó meu amor! Como tu eras meu amigo! Porque não cumpriste o teu voto de criança? Meu Deus! Porque não o quiseste?

O marquês, que estava ali perto, pegou no papel que a marquesa lhe entregou, leu-o e, sem querer, as lágrimas saltaram-lhe, a quatro e quatro, dos olhos.

– Minha querida mulher! Minha grande amiga! Enchamo-nos de coragem e carreguemos ambos com a cruz, demasiadamente pesada para um só.

A senhora de Méligny encostou-se ao ombro do

marido a soluçar e a repetir o nome tão amado:

– Meu Renato! Meu pobre filho!

Ao fim de alguns dias, a marquesa acompanhada do marido, foi visitar o filho.

Por onde passava, recolhia olhares de compaixão. Todos a amavam, todos a lamentavam. Pela

primeira vez a que fora admirada, abençoada, a

que espalhara a mãos cheias o bem, a consoladora

dos aflitos, se via, por sua vez, olhada com piedade.

Uma vez no jazigo, a marquesa ficou-se durante

muito tempo de joelhos, diante do sarcófago que

continha os despojos de seu infeliz filho. O marquês, no fim de algum tempo, ajudou-a a erguer-se

e, em silêncio, atravessaram a vila e dirigiram-se

para o castelo.

Nesse mesmo dia, escreveu à filha, a pedir-lhe

que voltasse o mais rapidamente possível. Precisava

dela para a prender ainda à vida.

No mês de Dezembro, voltou para Paris. Claro

que os seus salões não se abriram senão para os íntimos.

Uma noite, já então mais resignada, pela graça da fé, a senhora de Méligny reparou nos estragos que o desgosto fizera no rosto do marido. Por aí viu quanto ele tinha sofrido, sempre calado por amor dela.

Desde esse momento sentiu um desejo imenso de corresponder a tão grande dedicação, com outra de igual valor.

A partir de então tentou sorrir, conversar sobre vários assuntos, que sabia distrairem e interessarem o marido; tornou-se menos melancólica e mais terna.

O senhor de Méligny compreendeu o sacrifício dessa digna atitude e exultou de contentamento, por Deus lhe haver dado por esposa aquela santa mulher.

Cora escreveu a anunciar a sua chegada no mês de Abril, mas esse mês passou-se e Cora não conseguiu chegar.

A marquesa retomou os seus passeios – a maior parte deles ao jazigo do filho. Ia quase sempre acompanhada pelo marquês, que via, com satisfação, as cores voltarem ao rosto ainda emagrecido da marquesa de Méligny.

No entanto, um mal secreto roía as entranhas desta pobre senhora, que bem sabia não tardar muito a ir ter com o bem amado filho. Por isso, desejava que a filha viesse o mais brevemente possível. Temia tanto não a tornar a ver. Não a voltar a abraçar.

À medida que os dias iam passando, mais se acentuava a sua fraqueza e maior era o desejo de tornar a ver a filha:

– Cora! Cora! Vem depressa

Um dia veio em que a pobre senhora não se pôde levantar.

– Meu amigo, meu bom Leopoldo. Deus tem-nos dado ultimamente uma bem grande cruz! Éramos dois a suportá-la. É possível que fiques agora sozinho com o peso duma maior. Mas, quando eu já não for deste mundo, que te sirva de consolação o saberes que me fizeste feliz durante trinta anos.

– Beatriz, minha querida mulher! Deus não há-de querer arrancar-te à minha ternura e à de nossa filha.

– Que pena tenho de não ver Cora! E que mágoa a de deixar-te! Mas assim é preciso. Faz hoje um ano que Renato morreu e ele chama-me lá do Céu, para onde foi. Desejo bem ir ter com ele e no entanto, Deus sabe, quanto me custa deixar-vos e, sobretudo, não poder abraçar a minha filha. Porque não veio ela?

Lágrimas quentes correram dos olhos febris da senhora de Méligny.

– Hás-de viver ainda muito tempo depois de ver a nossa filha.

Beatriz sacudiu a cabeça.

– Não, não tornarei a vê-la; a não ser que ela chegue ainda hoje. Leopoldo, manda chamar o senhor Abade. Quero preparar-me condignamente para a minha última viagem.

Alguns instantes depois, o bom sacerdote ouvia a confissão da piedosa senhora e ministrava-lhe a Santa Unção.

O rosto de Beatriz brilhava de esperança; nos seus olhos já não se viam nem a angústia, nem os cuidados da terra. Era uma alma a voar para Deus.

Últimos momentos

O quarto da marquesa estava tristemente iluminado por fraca luz espalhada pela lâmpada de alabastro.

A marquesa, confortada com os Santos Sacramentos, a alma apaziguada pela fé, fazia as suas últimas disposições.

Confiava à guarda do marido os pequeninos do

asilo, todos os seus pobres, todos que enfim sofressem e que precisassem de conforto moral ou físico.

Os criados, ajoelhados na sombra do quarto, choravam por aquela que fora para eles não uma patroa, mas sim uma amiga, uma santa protectora.

Começava a romper o dia quando alguém se

ajoelhou junto ao leito da marquesa, cujo olhar se

toldava já com as sombras da morte.

– Cora! Deus teve piedade de mim! Gostava

tanto de me despedir de ti!

A senhora de Astaing levantou-se, cerrou contra o peito a moribunda, que rendeu a alma a Deus enquanto dos seus lábios se escapava o último sopro de vida.

No mesmo dia, quase à mesma hora, Luísa, de olhos voltados para a janela aberta, via pela última vez o Sol a inundar de oiro os campos que tanto amara.

Luísa, após receber os sacramentos, preparava-se também para deixar este mundo onde, a par de muitas horas dolorosas, vivera alguns momentos bem felizes.

Esta humilde mas generosa criatura deixava jus tamente a vida quando ela lhe começava a sorrir. Que importava? Fruto do seu amor e dedicação ali ficavam os seus a usufruir todo o bem que Deus lhe concedera ultimamente.

– Deus seja louvado! Meus filhos, meus netos e os filhos dos meus netos ficam com algo de seu, terão com que viver, sem conhecerem os horrores da fome.

À volta do leito a família rezava, mal se con formando com o desaparecimento da que fora para eles uma verdadeira santa.

Também ela, com a marquesa, fazia as suas últimas disposições, que todos escutavam com o maior respeito.

Por fim, Luísa beijou, um a um, os filhos, levou aos lábios trémulos o crucifixo de madeira e lançou um olhar cheio de magoada tristeza sobre Luís que, por sua estranha sensibilidade, se mostrava o mais acabrunhado.

Sentia que ao perder a mãe perdia o elo que mais o prendia àquela família de adopção.

Luísa chamou-o para junto de si, recomendou- lhe Catarina, a filha mais nova, ao mesmo tempo que dizia :

– Fica-te Catarina. É um coração generoso e há- de amar-te como tu mereces ser amado, meu filho.

– Mãe! Descansa que ela será minha mulher. Assim o queira e hei-de fazê-la feliz, podes crer.

Ainda lhe recomendou, numa voz fraca, os outros irmãos e, com as mãos trementes, abençoou-os a todos.

– Recebei a minha bênção, meus filhos. Que Deus seja convosco e vos proteja a todos, em Sua divina graça.

Beijou mais uma vez o crucifixo, levantou os olhos ao Céu, deu um fraco suspiro e ficou-se, como uma santa.

A sua alma voara para os pés de Deus, a rogar- Lhe por todos os que amara na terra.

FIM

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