Written on Fevereiro 7th, 2012 at 9:32 am by

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HELENA – A trouxa está quase pronta, Joãozinho; só faltam os livros.

JOÃO – E não hão-de pesar muito, mamã; aqui estão eles.

A mãe pegou nos livros que João lhe estendia e leu: Manual do cristão; Conselhos práticos para as crianças.

HELENA – Não são muitos, realmente; mas são bons.

JOÃO – Mamã, quando estiver em Paris, hei-de fazer o possível para ver o padre que escreveu estes livros.

HELENA – Fazes tu muito bem. Basta ler os livros para se saber que ele é bom; e também é evidente que gosta de crianças.

JOÃO – Assim que chegar a Paris e a casa do Simão, já não tenho medo.

HELENA – Também não há razão para ter medo na estrada, filho. Quem é que havia de te fazer mal? E porquê?

JOÃO – É que há pessoas que não são boas, mamã; e algumas são, até, más.

HELENA – Não digo que não, mas não és tu o primeiro que vai procurar trabalho a Paris; e não lhe acontece mal; não é verdade? Lá estão Deus e Nossa Senhora para te protegerem.

JOÃO – Eu também não disse que tinha medo; só disse que há pessoas que não são boas; não é uma grande verdade?

HELENA – Sim, sim, toda a gente o sabe. Mas não te vais pôr a chorar por isso. Eu não quero que chores.

JOÃO – Esteja descansada mãe; serei valente como o Simão, que se foi embora sem sequer voltar a cabeça para trás. Tenho quase catorze anos. Bem sei que é preciso coragem. Farei como o Simão.

HELENA – Está bem, meu filho; és bom e valente. E o primo Joanico? Virá esta tarde ou amanhã de manhã?

JOÃO – Não sei, mamã; há três dias que o não vejo.

HELENA – Então vai a casa da tia saber se ele está pronto para partir amanhã de madrugada.

João deitou a correr. Helena ficou à porta a olhá- lo; quando deixou de o ver, voltou para dentro, juntou as mãos num gesto de desespero, caiu de joelhos e exclamou por entre lágrimas: Meu filho, meu querido Joãozinho! Também ele tem que partir e deixar-me; Também ele vai correr mil perigos nesta viagem! Meu filho, meu querido filho!. . . E eu tenho de esconder o meu desgosto, as minhas lágrimas, para o encorajar! Devo parecer insensível à sua ausência, quando o meu coração estremece de inquietação e de dor! Pobre filho! A miséria obriga-me a mandá-lo para junto do irmão. Deus da bondade, protegei-o! Maria, Mãe de Misericórdia, não o abandoneis, velai por ele!

A pobre mulher continuou a chorar durante algum tempo; depois levantou-se, lavou os olhos, vermelhos de lágrimas, e esforçou-se por parecer calma e tranquila quando João voltasse.

João andou rapidamente até à curva do caminho, enquanto a mãe o podia avistar. Quando lhe pareceu que ela já o não via, parou, olhou tristemente a estrada que acabava de percorrer, tudo o que o rodeava, e pensou que, na manhã seguinte, passaria ali pela última vez; e pôs- se, também, a chorar.

Mas depressa reagiu; limpou os olhos, procurou distrair-se, pensando no irmão de quem era muito amigo, e quando chegou a casa da sua tia Mariana já estava bem- disposto. Quando ia a entrar deteve-se, assustado e surpreendido. Ouvia gritos, gemidos, soluços. Transpôs a porta; sua tia estava sozinha e parecia descontente, mas decerto não fora ela quem soltara os gritos e os gemidos que acabava de ouvir.

– És tu, Joãozinho? Que queres?

JOÃO – A mamã mandou-me saber se o Joanico estava pronto para amanhã, minha tia; e se ele ia ficar esta noite lá a casa ou se ia amanhã de madrugada, para partirmos juntos.

TIA – Eu não posso com este rapaz; há uma hora que está a berrar; não quer obedecer-me; já lhe disse mais de dez vezes que fosse ter contigo. Andam as pedras? Assim anda ele. Ouve-lo gemer e chorar?

JOÃO – Então onde é que ele está, minha tia?

TIA – Está lá fora, atrás da casa. Vai procurá-lo, Joãozinho, e vê se consegues trazê-lo.

João saiu, deu a volta à casa; não viu ninguém nem ouviu mais nada. Chamou:

Joanico!

Mas Joanico não respondeu. Entrou novamente em casa.

TIA – Então, convenceste-o a ir contigo?

JOÃO – Não o vi, minha tia; olhei para todos os lados, mas não o encontrei.

TIA – Ora essa! Onde foi ele meter-se?

A tia saiu, deu a volta à casa, chamou e, como João, não encontrou ninguém.

– Acaso terá fugido para te não acompanhar amanhã?

João estremeceu à ideia de fazer sozinho uma viagem tão comprida e de andar sozinho em Paris, nessa cidade tão grande (tinha escrito o irmão) que não era possível percorrê- la num só dia. Mas depressa se dominou e resolveu encontrar o primo, ainda que tivesse de o procurar toda a noite.

Ele e a tia continuaram a procurar, sem resultado.

– Grande mau – murmurava ela. – Detestável criança! Se tu vais sem ele, Joãozinho, e ele me aparece depois da tua partida, eu não o recebo, pode ele ter a certeza.

Enquanto a tia falava, João, que procurava por toda a parte, lembrou-se de espreitar num velho canil e viu o Joanico agachado lá ao fundo.

– Aqui está ele, aqui está ele! – gritou João. Vamos, Joanico, anda cá.

Joanico não se mexeu.

– Espera, eu o obrigo a sair do seu esconderijo

– disse a tia, encantada com a descoberta de João. Baixou-se, agarrou as pernas de Joanico e puxou até conseguir tirá-lo. Logo que se viu cá fora, Joanico recomeçou os gritos e os gemidos.

JOÃO – Joanico, sê razoável! Eu também vou; e vês- me, porventura, a gritar e a chorar como tu? Se é preciso partir, de que serve chorar? Que fazes aqui? Nada. E em Paris vamos tornar a ver o Simão, que nos dará de comer; ele nos arranjará trabalho para não sermos uns vadios sem préstimo para nada. E

aqui, que é que nós fazemos? Comemos o pão da mamã e da tia. Tu bem vês! Não sejas mau; diz adeus à tia e vem comigo. O vizinho Gregório deu à mamã um rico bolo e uma garrafa de vinho para nos fazer um bom jantar; e o Daniel deu-nos um coelho que matou.

O rosto do Joanico animou-se; as lágrimas desapareceram, aproximou- se do primo e disse:

– Quero ir contigo.

A tia aproveitou esta boa ocasião para lhe dar a trouxita enfiada num pau. E os dois pequenos saíram.

JOANICO – Estou muito contente por não ouvir mais a tia Mariana resmungar e gritar. Ela é muito má.

JOÃO – Ouve, Joanico, tu não tens razão para dizer que a tia Mariana é má! Ela fala-te alto de mais,

é certo; mas também tu a contrarias muito e não lhe obedeces.

JOANICO – Bem sei, ela queria que lhe fosse fazer as compras à noitinha; mas eu tinha medo.

JOÃO – Medo de ir a cem passos buscar pão, ou de ir ao fim do quintal buscar lenha!

JOANICO – Não gosto de sair sozinho à noite. É superior às minhas forças: tenho medo.

JOÃO – E porque choravas tu, se gostas de ir? E porque te escondeste tão bem, que só por acaso te encontrei?

JOANICO – Porque tenho medo daquilo que desconheço. Tenho medo dessa grande cidade.

JOÃO – Não te entendo! Se tens medo, não há nada que te alegre? Se tu próprio dizias que estavas mal em casa da tia, e que estavas contente por ir?. . .

JOANICO – É isso mesmo: antes quero estar mal na terra, e saber como e porque estou mal, do que ir por essas estradas fora e não saber para onde vou nem que desgraças me esperam.

JOÃO – Que parvo! Porque pensas tu em desgraças?

JOANICO – Porque, faça-se o que se fizer, esteja-se onde se estiver, viva-se como quer que seja, sofre-se sempre. Eu bem o sei.

JOÃO (rindo) – Então sabes mais do que eu; a minha vida é boa; estou mais vezes feliz do que infeliz, contente que descontente, e sinto-me com coragem para ir até Paris.

JOANICO – Bem sei! Tens mãe! Eu não tenho senão tia.

JOÃO – Mais uma razão para eu chorar por deixar a mamã, e tu rires, visto que a tua tia não morre de amores por ti! Mas tu resmungas e choras! Entre as duas coisas prefiro rir a chorar.

Joanico respondeu com um suspiro e uma lágrima; João não disse mais nada. Caminharam em silêncio e chegaram à porta de Helena; um cheirinho

a coelho e a bolo reanimou Joanico.

HELENA – Finalmente, Joãozinho! Estava inquieta por não voltares. Trazes o Joanico? Muito bem! Mas. . . que cara de enterro, pobre Joanico! Que é que tens? Diz. . . Vamos, fala; não tenhas medo.

Joanico baixou a cabeça e pôs-se a chorar.

JOÃO – Tem pena de partir. No entanto, ele dizia a todo o instante que não tinha pena de deixar a tia. . . Nesse caso, porque é que chora?

HELENA – Realmente, porque choras? E diante de um coelho e de um bolo! Sê razoável, Joanico! Vamos, acabou-se, venham ajudar-me a preparar o jantar. E que rico jantar.

JOANICO (suspirando) – É o último que cá como, minha tia!

HELENA – O último! Deixa-te disso! Vocês hão-de voltar carregados de bolos e de coelhos; e tu hás-de comê-los cá em casa com o Joãozinho. Ele é corajoso! Olha para a cara dele, tão alegre. . . O quê? Tens os olhos vermelhos, Joãozinho! Que é isso? Um argueiro num olho?

João olhou para a mãe; os seus olhos estavam cheios de lágrimas; quis sorri, falar, mas o sorriso era um esgar e a voz não lhe podia sair da garganta.

A mãe inclinou-se para ele, abraçou-o, e saiu para ir buscar lenha, disse ela. Quando voltou, a boca sorria, mas os olhos tinham chorado: poisaram apenas um instante, com ansiedade, no rosto do filho esperando que ele não se apercebesse do seu enorme desgosto.

Joãozinho observava-a, também, com tristeza; cruzaram os seus olhares; ambos compreenderam a dor que sentiam, o esforço que faziam para a dissimular, e a necessidade de se incutirem, mutuamente, coragem.

– Deus é bom, mamã. Ele nos protegerá!disse João, comovido. – E que felicidade ter-me ensinado a escrever! Escrever-lhe-ei sempre que tenha dinheiro para uma carta.

HELENA – E o senhor abade prometeu-me um postal todos os meses. Mas agora temos aqui o nosso coelho que está a pedir: comei-me!

E sentaram-se à mesa.

– Belo coelho! – disse João, engolindo o último bocado.

– Que pena não haver mais! – suspirou Joanico.

– E com que prazer vocês comerão amanhã o que ficou! – disse Helena, sorrindo.

JOÃO – O que ficou? Ainda há alguma coisa?

HELENA – Olá, e um bom bocado; as duas pernas, uma para cada um.

JOÃO – Mas. . . como foi isso? A mamã não comeu?

HELENA – Ai não, não comi! Não sou tão tola que não saboreie semelhante petisco.

Dizia a verdade: tinha saboreado, realmente, visto ter-se servido da cabeça e das patas. João quis ainda que ela explicasse que porção de coelho comera, mas ela interrompeu-o.

– Basta de comer e conversar, meus filhos. Agora arrumemos tudo e preparemos a cama. Joanico dormirá contigo, Joãozinho. Mas antes de deitar, filhos, vamos à igreja pedir a Deus e a Nossa Senhora que abençoem a vossa viagem.

JOÃO – E depois vamos dizer adeus ao senhor abade.

HELENA – Sim, filho; é uma boa ideia que muito me agrada.

Era quase noite, mas não tinham muito que andar. A igreja e o presbitério ficavam a cem passos. Os três caminhavam em silêncio; a mãe, de coração confrangido com a partida do filho; João, pesaroso por a mãe ficar só, e Joanico, pensando, com pavor, nos perigos da viagem e nos túmultos de Paris.

Chegaram à igreja; a porta estava aberta; Helena entrou com as crianças e os três ajoelharam diante do altar da Virgem. Helena e João rezaram e choraram, mas em silêncio; Joanico suspirava e pedia pão, boa viagem e feliz entrada em casa de Simão.

Estava a mãe a rezar quando sentiu apertarem-lhe docemente o braço e uma voz infantil dizer-lhe baixinho:

– Basta, mamã, basta; tenho fome.

Helena voltou-se vivamente e viu uma rapariguinha; a obscuridade não deixava distinguir-lhe as feições. Inclinou-se para ela.

– Eu não sou a tua mamã, minha filha – disse-lhe.

A pequena recuou com medo, e pôs-se a gritar:

– Mamã, mamã, acudam-me!

João e Joanico levantaram-se, surpreendidos, quase assustados. Helena agarrou a pequenita pela mão e saíram da igreja.

HELENA – Onde está a tua mamã, minha filha? Eu levo- te a ela.

PEQUENITA – Não sei; estava ali.

HELENA – Sabes aonde ela foi?

PEQUENITA – Não sei; ela disse: Espera-me “. E eu esperei.

HELENA – Talvez esteja em casa do senhor abade. Vamos lá procurá-la.

Daí a dois minutos estavam em casa do sacerdote, que interrogou Helena acerca da rapariguinha.

HELENA – Não sei quem é, senhor abade. Acabo de a encontrar na igreja, onde estávamos a rezar; andava à procura da mãe, e eu pensei que ela estivesse em sua casa.

ABADE – Não vi ninguém. É singular! Como te chamas, minha filha? – perguntou ele, acariciando a face da pequena.

PEQUENITA – Tenho fome. Quero comer.

O abade foi buscar pão, e um copo de leite. A pequena comeu e bebeu avidamente.

Entretanto, Helena explicou ao padre que vinha pedir-lhe a bênção para a viagem que os pequenos iam empreender.

ABADE – Quando partem?

HELENA – Amanhã de madrugada, senhor abade.

ABADE – Amanhã, já Eu vos abençoo de todo o coração, meus filhos. Não se esqueçam de pedir a Deus e a Nossa Senhora que vos auxilie nas vossas dificuldades, nas vossas privações, nos vossos perigos e nas vossas mágoas. Eles são os vossos melhores e mais poderosos protectores. . . E quanto a esta menina, Sr. a Helena, leve-a para casa até que a mãe a venha buscar. Eu mando-a lá, se ela vier cá a casa. Fique descansada.

– E vós, meus filhos – continuou ele, abrindo uma gaveta -, aceitai uma recordação minha que vos protegerá durante a viagem, e toda a vida.

Tirou da gaveta dois cordões com medalhas da Virgem Santa, e pô- los ao pescoço de João e de Joanico, que os receberam de joelhos, e beijaram a mão do bom abade.

A pequena chorava! Helena suspirou.

Que hei-de eu fazer a esta criança? – pensava ela. – Não tenho meios para a manter. Não vou separar-me do meu pobre Joãozinho para tomar o encargo de uma estranha. Mas eu sou bem tola em me estar a inquietar; Deus, que ma põe nas mãos, me dará com que a sustentar, se a mãe não vier procurá-la.

Ainda com este pensamento, Helena não se inquietou mais; deitou-a aos pés da sua cama e cobriu-a com roupinha velha.

– É a nossa última noite feliz, mamã – disse João, abraçando-a antes de se deitar.

– Não, meu filho, a última não; deixemos passar o tempo, que passa muito depressa, e nós nos juntaremos de novo. Dorme Joãozinho; é preciso levantar cedo amanhã.

A pequenita já estava a dormir: Joanico estava quase; João adormeceu pouco depois; só a mãe velava, chorando e rezando.

O encontro

No dia seguinte, de madrugada, Helena levantou- se, fez dois embrulhos com o farnel, meteu-os na trouxa da roupa e tratou do pequeno-almoço; ao pão seco, que era o habitual, juntou uma chávena de leite quente. Por isso, quando os pequenos se levantaram, esta esplêndida refeição dissipou a tristeza de João e as inquietações de Joanico.

A pequena dormia ainda.

Chegou o momento da separação. A tristeza apertava o coração de todos. Helena abraçou dez vezes, cem vezes o seu querido Joãozinho; abraçou Joanico, abençoou os dois e mostrou a João algumas moedas que tinha na algibeira.

– Os nossos amigos de Kérantré mandaram-te este peculiozinho, em paga dos pequenos serviços que lhes prestaste, Joãozinho. O senhor abade também aí pôs a sua moeda.

João quis agradecer, mas as palavras não lhe saíam da garganta; abraçou a mãe ainda com mais força, soluçou um instante, soltou-se-lhe dos braços; limpou os olhos e, como o irmão, pôs-se a caminho de sorriso nos lábios e sem voltar a cabeça para lançar um último olhar à mãe e à casa.

Agora compreendo – pensava ele – porque é que o Simão andava tão depressa e não se voltou para nos ver e sorrir. Ele chorava e queria ocultar as lágrimas à mamã.

Enquanto João se afastava rapidamente de tudo o que lhe era querido e se encorajava, Joanico seguia-o a custo, choramingava, chamava o compa nheiro, que o não ouvia, tremia por ficar para trás e desolava-se por deixar uma tia que não estimava e uma região de que não tinha pena, a fim de ir para uma cidade que detestava pela sua vastidão e para junto de um primo que mal conhecia.

Tenho a certeza de que o Simão não se quer ralar comigo – pensava ele. – Só há-de querer saber do João; eu ficarei para o canto, sem ninguém que trate de mim. Como sou desgraçado! O João é muito mais feliz; está sempre alegre, sempre contente; toda a gente gosta dele; todos lhe dizem amabilidades. E a mim ninguém me olha, sequer; e quando, por acaso, me falam, é para chamarem chorão, desenxabido, aborrecido e outras coisas assim. E querem que eu seja alegre? Tenho motivos para isso, realmente? Tenho as algibeiras cheias! Dois francos que o senhor abade me deu! E João tem tanto dinheiro que nem lhe sabe a conta! Todos lhe deram, disse a tia. . . Eu sou muito desgraçado! Nada de bom me acontece!

Reflectindo e afligindo-se assim, Joanico atrasou

o passo, sem dar por isso. Quando voltou a si, levantou os olhos, olhou para diante, para trás, à direita, à

esquerda, e não viu o primo João. O medo foi tamanho que as pernas lhe tremeram; obrigado a parar, nem sequer teve forças para o chamar.

Passado um bocado, deitou a correr para alcançar

João. Numa das voltas do caminho viu confusamente

uma capelinha à beira da estrada e ia passar adiante,

sempre correndo, soprando e suando, quando ouviu

chamarem-no.

Reconheceu a voz de João e parou, alegre mas

surpreendido, porque o não via.

Joanico – repetia a voz de João -, vem;

estou aqui.

JOANICO – Onde estás tu? Não te vejo.

JOÃO – Na capela de Nossa Senhora.

– Ora essa! – disse Joanico, entrando. – Que

fazes aí?

– Rezo – respondeu João. – Rezo e sinto-me

consolado. Parece que Nossa Senhora também confortou a mamã. . . Vejo sinais de lágrimas nos teus

olhos, pobre Joanico; vem rezar e ficarás consolado

como eu.

JOANICO – Por quem queres tu que eu reze? Não tenho mãe. . .

JOÃO – Reza pela tua tia, que te recolheu durante três anos.

JOANICO – Oh! A minha tia! Não vale a pena.

JOÃO – Não é bem assim, Joanico. Mas reza então por ti, se não queres rezar pelos outros.

JOANICO – Por mim? É inútil. Eu sou infeliz e faça o que fizer, hei- de sê-lo sempre. Além de que tudo me é indiferente.

JOÃO – Tu és infeliz porque queres. A não ser eu ter mãe e tu não, estamos nas mesmas condições. Eu considero-me feliz e tu lastimas-te por tudo.

JOANICO – Nós não estamos nas mesmas condições: tu tens não sei quanto dinheiro e eu só tenho dois francos.

JOÃO – Se a tua infelicidade consiste só nisso, depressa a faço desaparecer, pois vou dividir o dinheiro contigo.

JOANICO (um pouco envergonhado) – Não, eu não disse isso; não to peço nem o queria.

JOÃO – Quem pede e quer sou eu. Nós vamos juntos; chegaremos juntos e juntos ficaremos; é justo que gozemos juntos a bondade dos nossos amigos.

E sem esperar mais, João tirou da algibeira a velha bolsa de couro cheia de moedas que a mãe lhe tinha dado; sentou-se à porta da capela, obrigou Joanico a sentar-se ao pé dele, esvaziou a bolsa e começou a divisão:

– Um franco para ti, um franco para mim. E continuou assim, até que deixou nas mãos de Joanico metade do seu tesouro.

Joanico agradeceu ao primo, um pouco confuso; agarrou no dinheiro e meteu-o na algibeira.

– Tenho mais dois francos do que tu – disse ele.

JOÃO – Como, se eu dividi ao meio?

JOANICO – Porque eu tinha dois francos que

me deu o senhor abade.

JOÃO – Ah! É verdade! Estás mais rico do que

eu. Bem vês que não és tão infeliz como dizias.

JOANICO – Não sei. Eu tenho enguiço. . . Pode

vir um ladrão e levar tudo o que tenho.

– Nem tu supunhas ser tão bom profeta – disse

uma voz forte por detrás das crianças.

Voltaram-se e viram um homem novo, alto, forte, de barba preta, que os observava com atenção.

João deu um salto e ficou em frente do desconhecido.

JOÃO – Não quero crer que seja capaz de nos

despojar; somos dois pobres rapazes, que nos vimos

obrigados a deixar a terra para irmos procurar o pão

de cada dia a Paris, porque as nossas familias não têm

que nos dar. Aqui está tudo o que eu tenho.

O desconhecido agarrou no dinheiro.

DESCONHECIDO – E com que viverás tu, quando chegares a Paris?

JOÃO – Deus me dará com quê, como sempre

tem feito.

– E tu – disse o desconhecido, voltando-se para

Joanico -, que tens tu para me dar?

JOANICO (caindo de joelhos e chorando) – Eu

tenho apenas o indispensável para não morrer de

fome, meu senhor. Misericórdia para o meu pobre

dinheiro! Misericórdia pelo amor de Deus!

DESCONHECIDO – Nada de misericórdia para

o ingrato, o poltrão, o ambicioso, o invejoso. Ouvi

tudo. Dá cá depressa.

O desconhecido meteu a mão na algibeira de Joanico e tirou os dez francos e vinte e cinco cêntimos que lá estavam.

Joanico atirou-se ao chão, a chorar.

– Meu senhor – disse João, impressionado ele próprio com as lágrimas do primo – tenha dó dele;

dê-lhe o dinheiro.

DESCONHECIDO – Porque lho hei-de dar a ele

e não a ti?

JOÃO – Porque eu tenho coragem e ele não.

DESCONHECIDO – És um rapaz valente. Vamos conversar. Para onde vais?

JOÃO – Para Paris, meu senhor.

DESCONHECIDO – E como hás-de tu lá chegar sem dinheiro?

JOÃO – Oh! isso não me inquieta. Assim como o encontrei, posso também ter a sorte de encontrar alguém que nos auxilie.

O desconhecido sorriu e não pôde deixar de dar uma palmada amigável na face de João.

DESCONHECIDO – Parece que o teu companheiro está sempre aterrorizado.

João – Tem tido uma vida difícil e por isso tem medo quando surgem algumas contrariedades.

DESCONHECIDO – Como se chamam?

JOÃO – O meu nome é João e o do meu primo é Joanico.

DESCONHECIDO – Eu acompanho-os durante algum tempo para vos evitar contrariedades. Toma, João, toma oito francos e vinte e cinco cêntimos; e mais vinte francos que te dou para a viagem. E tu, chorão, poltrão, toma os teus dez francos e vinte e cinco cêntimos, com a condição de não receberes nada do João. Se eu sei que lhe aceitas mais alguma coisa, tens de te haver comigo. Sigam-me; vou dar-lhes de comer em Aubray, que é perto.

JOÃO (com os olhos brilhantes de alegria e gratidão) – O senhor é muito bondoso; estou-lhe muito reconhecido; não sei como lhe agradecer, meu senhor.

DESCONHECIDO – Comendo com apetite a refeição que te vou dar.

O ladrão desmascara-se

As crianças seguiram o desconhecido; João agradecendo a Deus e a Nossa Senhora o encontro com um ladrão tão bom, tão rico e tão generoso, e Joanico lastimando o seu enguiço e invejando a boa sorte de João.

Durante o percurso de légua que separava a capela da cidade, o ladrão procurou fazer falar as crianças, sobretudo João, que lhe agradava singularmente. Joanico, descontente por não ter tido, como o primo, uma gratificação do ladrão, mal respondia e queixava-se da fadiga, do calor e do comprimento da viagem.

DESCONHECIDO – Eu não te obrigo a seguir-me, choramingas; fica para trás, se queres.

JOANICO – Pois fico! Para os lobos me comerem!

DESCONHECIDO – Os lobos! No mês de Junho, à hora do Sol!

JOANICO – Não há Sol que os detenha. Os

lobos não têm medo do Sol. Ainda não há muito

tempo que vi dois em Kermandio.

DESCONHECIDO – Tomaste cães por lobos, com certeza.

Após alguns instantes de silêncio, o desconhecido

pôs-se a perguntar a João pela mãe. O interesse que

ele parecia ligar à conversa deu ânimo a João, que

disse:

– Quer o senhor prestar-me um grande favor?

DESCONHECIDO – Da melhor vontade, se puder, amigo. Mas porque me fazes esse pedido, se mal me conheces?

JOÃO – Porque o senhor tem cara de boa

pessoa; e porque vejo que se interessa por mim, e é

muito capaz de obsequiar de novo um pobre rapaz

como já obsequiou.

DESCONHECIDO (sorrindo) – Muito bem, meu

amigo. Que favor é que tu queres que te faça?

JOÃO – Olhe, meu senhor: é receber os vinte

francos que me deu e levá-los à minha mãe; diga-lhe

que é o seu Joãozinho que lhos manda, e que foi o

senhor quem lhos deu.

E João procurava a bolsa para tirar a moeda de ouro.

DESCONHECIDO – Espera, rapaz, deixa estar os vinte francos, não há pressa. E diz-me: se eu sou um ladrão, não tens medo que te roube o teu dinheiro?

JOÃO – Oh! Não! Primeiro, o senhor não é um ladrão, visto que dá em vez de tirar; e depois, o senhor podia ser um ladrão para toda a gente, que nunca o seria para mim.

DESCONHECIDO – Porquê?

JOÃO – Porque o senhor me fez bem; a gente dedica-se às pessoas a quem faz bem, e depois não gosta de lhes fazer mal.

DESCONHECIDO – Escuta, Joãozinho; cumprirei da melhor vontade o teu pedido; mas eu não sei onde hei-de encontrar tua mãe.

JOÃO – Em Kérantré, meu senhor; pergunte pela viúva Helena, mãe de um rapazito chamado João; toda a gente lhe diz quem é.

DESCONHECIDO – Mas eu não sei onde é Kérantré, meu amigo.

JOÃO – Como? Não conhece Kérantré? Pergunte em Kérispère.

DESCONHECIDO – Também não sei onde é Kérispère.

JOÃO – Não conhece Kérispère, ao pé de Auray e de Sant’Ana?

DESCONHECIDO – Não conheço nada disso.

JOÃO – Nem o santuário da Senhora Sant’Ana?

DESCONHECIDO – Nem o santuário.

JOÃO – Nem a fonte milagrosa da Senhora Sant’Ana?

DESCONHECIDO – Nem a fonte da Senhora

Sant’Ana.

JOÃO – Mas o senhor não é daqui?

DESCONHECIDO – Não. Cheguei ontem à tarde. Estou em Auray, no hotel, e andava a passear, a ver a região, que acho bonita, quando te vi entrar para a capela; fui atrás de ti e pus-me a um canto.

Í Rezaste com tanto fervor e choraste tão amargamente, que logo me interessei por ti; tu falavas alto, quando rezavas, e o que disseste aumentou o meu I interesse. Depois, chegou o teu primo. Ouvi a vossa conversa. Fiz de ladrão para vos dar uma liçhão de prudência: nunca se deve contar dinheiro nas estradas, nem nas estalagens, nem diante de desconhecidos. Vim cá a estes sítios para visitar a igreja de Sant’Ana, que vai ser feita de novo. Quero ver o velho santuário antes de o deitarem abaixo e tudo o mais de interesse na região.

JOÃO – Então eu tinha razão! O senhor não é um gatuno! Logo vi pela aparência. Mas, meu senhor, visto que fica por estes sítios, pode, da mesma maneira, dar à minha mãe os vinte francos que aqui estão.

João estendeu-lhe os vinte francos. O desconhecido pareceu hesitar; depois agarrou neles, meteu-os

na algibeira e apertou a mão de João, dizendo:

– Serão entregues. Está prometido.

– Obrigado, meu senhor – respondeu João, todo contente.

Chegaram à cidade eram dez horas. O desconhecido levou-os ao hotel onde estava hospedado e mandou-lhes dar um almoço simples, mas abundante. Quando a refeição terminou, o desconhecido levantou-se.

– João – disse ele -, quando estiveres em Paris, hás-de ir visitar-me. vou dar-te a minha direcção. estarei lá dentro de oito dias. Para onde vais tu morar?

JOÃO – Não sei nada, meu senhor; será o que Deus quiser.

DESCONHECIDO – Onde mora o teu irmão Simão?

JOÃO – Na Rua de St.º Honório, n.º 263.

DESCONHECIDO – Está bem, não me esquecerei. . . Mostra-me a tua bolsa para eu ver se o dinheiro está certo.

João apresentou-lha, sem desconfiança.

– João – disse o desconhecido -, queres dar-me um presente?

JOÃO – Com todo o prazer, meu senhor, se tivesse alguma coisa para lhe dar.

DESCONHECIDO – Pois bem, dá-me a tua bolsa; dar-te- ei uma das minhas.

JOÃO – Da melhor vontade, se faz gosto nisso; infelizmente ela não é muito nova; foi o senhor abade que a deu à mamã para a minha viagem, para eu ter onde guardar o dinheiro.

O desconhecido guardou a bolsa depois de a ter esvaziado.

– Espera-me – disse ele -, volto já.

Não tardou a voltar com uma bolsa de cabedal

cinzento, com fecho de aço; guardou o dinheiro de

João num dos compartimentos, meteu no outro o

papel com o seu nome e morada, e entregou-o a

João, dizendo-lhe muito baixo, com medo que Joanico ouvisse:

– Os vinte francos vão noutro compartimento

separado; não digas nada ao Joanico, próíbo-te.

JOÃO – Obedecer-lhe-ei para lhe provar o meu

reconhecimento; mas preferia que os guardasse para

a minha pobre mamã.

– A tua mãe tê-los-á na mesma; tranquiliza-te. . .

Chut! não digas nada. . . Adeus, Joãozinho, boa viagem.

O desconhecido apertou a mão a João e fez um

gesto de despedida a Joanico; entregou-lhes ainda

um pequeno embrulho e separou-se das duas crianças, uma das quais não lhe agradava nada, enquanto

a outra lhe inspirava vivo interesse.

A carroça e Kersac

João e Joanico caminharam algum tempo, sem

dizer palavra.

– Ouve lá, João – disse por fim Joanico -, quantos dias julgas tu que serão precisos para chegarmos a Paris?

JOÃO – Não sei; ainda me não lembrei de os

contar.

JOANICO – Quantas léguas andaremos nós por

dia?

JOÃO – Para aí cinco ou seis.

JOANICO – Mas isso não nos diz quantas léguas

são daqui a Paris.

JOÃO – Podíamos ter perguntado ao senhor

ladrão; ele ter-nos-ia dito.

JOANICO – Ele não sabe mais do que nós. Esta

gente rica viaja de carro e não sabe calcular distâncias.

Em frente de uma casa por onde tinham de passar, estava uma carroça com o cavalo atrelado. Um

homem saiu da casa e preparava-se para subir para a

carroça. João correu para ele, tirou delicadamente o

chapéu e perguntou:

– O senhor pode dizer-nos quantas léguas são

daqui a Paris?

HOMEM – Daqui a Paris! Mas tu não vais até

Paris, pois não, rapaz?

JOÃO – Perdão, meu senhor; eu e o Joanico

vamos para lá para nos juntarmos a Simão e ganharmos a nossa vida porque na aldeia não há onde trabalhar; e nós queríamos saber se era muito longe, e quantos dias nos faltam para lá chegar.

HOMEM – Ó meu Deus! Mas vocês terão de ir a pé?

JOÃO – Perdão, meu senhor; assim é preciso;

nós não temos meios para ir numa bela carroça como

o senhor.

HOMEM – Mas, desgraçadinhos: vocês sabem que daqui a Paris são cento e vinte léguas?

JOÃO – É muito! Mas lá chegaremos, da mesma maneira. Muito obrigado, meu senhor. Desculpe tê-lo incomodado.

HOMEM – Nada de incómodos, meu amigo. . . Mas, agora me lembro, eu vou para Vannes; subam para a carroça; o vosso caminho é este, e sempre adiantam quatro léguas, porque vocês não estão a mais de uma légua de Auray.

JOÃO – Mil vezes obrigado, meu senhor; não é para recusar.

HOMEM – Então subam depressa e partamos.

Não posso demorar-me.

João subiu rapidamente e obrigou a subir Joanico, que não tinha dito uma palavra. João sentou-se ao pé do dono do carro; Joanico colocou-se no canto

mais afastado. O bom homem que acabava de recolher os pequenos viajantes fustigou os cavalos e partiram a trote. João estava encantado, nunca tinha andado tão depressa; Joanico parecia assustado; agarrava-se com todas as forças às grades da carroça. O condutor voltou-se e olhou para Joanico.

HOMEM – O teu companheiro parece mudo!

João riu com vontade.

JOÃO – Mudo! Isso sim! Tem a língua bem

desembaraçada. Não diz nada, porque tem medo.

HOMEM – Medo de quem?

JOÃO – Não sei, meu senhor. Ele está sempre

com medo. Joanico, responde a este senhor, que tem

a gentileza de se interessar por ti.

JOANICO – Que queres tu que eu diga? Não posso conversar quando estou com medo.

JOÃO – Vê? Eu bem dizia.

HOMEM – E de que tens tu medo, palerma?

JOANICO – Tenho medo do seu cavalo, que corre a toda a brida, e tenho medo de si também. Sei lá quem o senhor é!

HOMEM – O quê? Garoto! Velhaco! Então eu tenho a bondade de te recolher na estrada, e tu atreves-te a insinuar que eu sou um maroto, um ladrão, um assassino, talvez? Se não fosse o teu companheiro, fazia- te já descer e deixava-te ir a pé

que era bem o que merecias.

JOÃO – Perdoe-lhe, meu senhor! Ele não sabe o que diz quando tem medo. É assim mesmo. . . Assusta-se com tudo e tudo lhe desagrada.

HOMEM – Não é como tu, não. Pareces-me um rapaz corajoso.

JOÃO – Ora! Sou como Deus me fez e a minha mãe me educou. O mérito não é meu. O pobre Joanico, meu senhor, anda um pouco deprimido, um pouco tímido, porque lhe morreu a mãe, que era minha tia; isso é que o tem azedado.

HOMEM – Tanto pior para ele. Eu nem o quero ver; aquela cara não me agrada mesmo nada. E quanto ao que este garoto dizia, que não sabia quem eu era, vou dizer- to a ti. Sou proprietário ao pé de Sant’Ana. Vou a Vannes comprar porcos, e chamo-me Kersac.

JOÃO – Obrigado, Sr. Kersac; tivemos sorte em o encontrar. É uma caminhada que nos poupa.

KERSAC – Posso fazer-te mais alguma coisa. Demoro-me duas horas em Vannes; aí pelas duas horas, sigo para Malansac, que fica seis léguas adiante. Posso levá- los até lá; será mais um avanço.

JOÃO (todo contente) – Mil vezes obrigado, meu senhor. Se tivermos muitos encontros como o de hoje, não tardaremos a chegar a Paris. . . Agradece também, Joanico.

KERSAC – Deixa-o em paz. Não preciso de agradecimentos dele; É por ti que faço isto, não é por ele.

João bem fez sinal a Joanico, mas não obteve

uma palavra. Kersac percebeu, sem o mostrar, o

manejo de João e a sua inquietação; sorriu e, para se

divertir a excitar as súplicas mudas de João, voltavai -se de quando em quando e lançava a Joanico olhares descontentes. João julgou ver cólera nos olhos ameaçadores de Kersac e esforçou-se por lhe desviar a atenção, fazendo amáveis observações acerca da beleza do cavalo, que era bom mas nada belo; depois sobre a comodidade do carro, que os sacudia fortemente; e sobre o encanto da paisagem, que era uma

planície árida.

Chegaram assim a Vannes. Kersac desatrelou o

cavalo; João ofereceu-se para o levar para a cavalariça, dar-lhe aveia e limpá-lo.

KERSAC – Tu sabes limpar um cavalo?

JOÃO – Penso que sim. Já linpei mais do que

um na estação de Kérantré.

KERSAC – Muito bem, meu rapaz; prestas-me

um grande favor, porque tenho pressa de tratar do

negócio dos porcos. Espera-me aqui; voltarei dentro

de duas horas. Depois da aveia, dá de beber ao cavalo.

JOÃO – Sim, senhor, eu sei; e depois de beber, dou-lhe feno.

KERSAC – Isso mesmo; até já.

João apressou-se a levar o cavalo para a cavalariça.

– Vamos, Joanico – disse ele -, vem-me ajudar; tu limpas de um lado e eu limpo do outro.

JOANICO – Limpar o cavalo de um homem tão

mau? Mais depressa lhe batia. Tu, que és o favorito, podes ajudá-lo; mas eu não tenho nada que lhe agradecer.

JOÃO – Vamos, Joanico; não o faças por ele, fá-lo por mim, para me ajudares.

JOANICO – Não quero. Tu és muito amigo dele.

JOÃO – E como não hei-de ser amigo dele se nos poupa doze léguas de caminho?

JOANICO – Que é que lhe custa deixar-nos

subir para o carro?

JOÃO – Não digo que não; mas, assim mesmo, foi bom, e muitos não pensariam em tal.

Joanico estendeu-se em cima de um monte de

palha que estava a um canto da cavalariça, e deixou o

primo tratar, sozinho, do cavalo.

Quando acabou, João sentou-se ao pé de Joanico.

Desfez o embrulho que a mãe lhe tinha dado;

tirou uma perna de coelho e um pedaço de pão.

– O bolo fica para a noite – disse ele.

Dividiu o coelho com Joanico; deu-lhe uma fatia de pão, agarrou-se à outra, e começaram a modesta refeição. Quando acabaram de comer, ficaram com sede, e João encarregou-se de ir pedir água. Entrou na sala da estalagem e viu uma mulher a pôr a mesa; cumprimentou-a e perguntou se lhe podia dar água, a ele e ao seu companheiro.

MULHER – Água, para quê, meu amigo?

JOÃO – Para beber, minha senhora. Comemos e queríamos um copo de água, se faz favor.

MULHER – Não queres antes vinho? Vou dar-te uma garrafa dele; quando se tem andado muito, é melhor do que a água.

JOÃO – Muito obrigado, minha senhora; nós não andámos muito; o Sr. Kersac trouxe-nos no carro. Agradeço-lhe muito a sua bondade, minha senhora; mas. . . mas. . . para dizer a verdade, nós não temos dinheiro.

MULHER – Nem eu esperava que tu pagasses, meu amigo; dou-to da mesma maneira, porque me pareces um rapaz bom e honesto.

A mulher agarrou uma garrafa que estava em cima da mesa e deu-a a João, com um copo.

João agradeceu muito e correu a mostrá-la a Joanico. Os dois rapazes regalaram-se com a bebida e estenderam-se na palha, à espera de Kersac. Este voltou à hora marcada, atrelou o cavalo muito à pressa, e partiram a trote.

O desastre

KERSAC – Deste-me sorte, rapaz! Fiz um negócio magnífico com os meus leitões.

JOÃO – É Deus que o recompensa, meu senhor, da caridade que teve connosco.

KERSAC – E é por isso que digo que me trouxeste sorte.

JOÃO – Só eu não, senhor; metade foi o Joanico.

KERSAC – Oh! Oh! Julgas isso? Não tem cara de quem dâ sorte. Olha para ele: dorme que nem um rato e mesmo a dormir se aborrece e se zanga.

João voltou-se. Com efeito, Joanico tinha uma expressão tão irntada e maçada, que ele não pôde deixar de rir; a sua alegria comunicou-se a Kersac, que estava de bom humor, devido ao negócio dos leitõezinhos, e os dois riram tão alto que Joanico acordou e pôs-se a olhar à sua volta.

– Que aconteceu? Porque é que estão a rir?

Por única resposta continuaram às gargalhadas, o que Joanico achou de mau gosto; voltou a deitar-se e a fechar os olhos; mas, de vez em quando, abria-os para lançar um olhar irritado, que não fazia mais do que excitar o riso de João e Kersac.

O cavalo trotava sempre; Kersac reparou que ele

tinha bom pêlo, que estava bem limpo e bem tratado.

– Sabes, rapaz, que me agradas muito? – disse

ele a João. – Gostava que ficasses comigo.

JOÃO – Oh! É impossível, meu senhor.

KERSAC – Porquê?

JOÃO – E o Joanico?

KERSAC – Ah É verdade O demónio do Joanico! Muito gostaria de ver-te livre dele.

JOÃO – Ele não me incomoda, meu senhor;

pelo contrário, eu sei que lhe sou preciso.

KERSAC – Já ele não pode dizer outro tanto. . .

Escuta, João – continuou Kersac depois de alguns

instantes de reflexão. – Queres tu fazer uma coisa?

Não vás para Paris, fica comigo; eu serei um bom

patrão para ti; olharei pela tua mãe. E recambiarei o

teu Joanico para casa dele.

JOÃO – O senhor é muito bom; estou-lhe muito

reconhecido, mas não posso aceitar.

KERSAC – Porquê?

JOÃO – Porque a minha mãe me mandou para

Paris: meu irmão Simão espera-nos lá aos dois. Tenho de obedecer à mamã; não sei que razões ela tem

para nos mandar ao Simão; ela não gostaria, talvez, ‘ que eu fosse para a sua casa sem a consultar. E, depois, o pobre Joanico, que seria dele sem mim?

KERSAC – Ficava na terra!

JOÃO – Mas, meu senhor, nem a minha tia nem

a minha mãe têm com que o sustentar. Ele precisa de

trabalhar como toda a gente e na nossa terra não

encontramos trabalho.

KERSAC – Então não falemos mais nisso. Talvez eu volte a encontrar-te mais tarde e sem o Joanico. Ele continua a dormir, o preguiçoso.

Joanico não dormia tal e tinha ouvido tudo; a

generosidade de João comoveu-o; prometeu a si próprio fazer-lhe a vontade, no futuro, e não ser mais

aborrecido como até ali.

A viagem decorria alegremente para João, que

conversava com Kersac a respeito da região que

percorriam. Ele respondia amigavelmente e insistia

constantemente, no desejo de o ter ao seu serviço.

João agradecia e repetia o estribilho:

– E o Joanico?

Kersac já não podia com tanto Joanico, e este

pagava-lhe na mesma moeda.

Chegaram a Malansac. João ofereceu-se a Kersac

para tratar do cavalo outra vez. Kersac aceitou. Eram

quase oito horas, mas ainda estava claro. Logo que

Kersac, ajudado por João, acabou de tratar do cavalo, propôs um passeio pelos arredores da cidade.

– Tenho as pernas entorpecidas por ter vindo

sentado todo o caminho; se queres vamos ver os

arrabaldes; dizem que são bonitos.

João aceitou com alegria; teve boa vontade de

dizer:

– E Joanico?

Mas não ousou; ele via a antipatia de Kersac por

seu primo.

Partiram. Joanico ficou na estalagem e, procurando tornar-se útil como João, ofereceu-se para dar de

beber ao cavalo quando ele acabasse de comer a

aveia. Kersac ficou surpreendido com o oferecimento, mas aceitou porque João lhe dirigiu um olhar e

um gesto suplicantes.

– Realmente – disse ele – poderemos passear

mais tempo, se não tivermos a preocupação do cavalo.

E saíram. Estava um tempo magnífico; era a hora

do pôr-do-sol; o calor tinha passado; os campos eram

bonitos; andaram muito tempo, conversando sobre

diversas coisas.

Depois, voltaram para a cidade. Nisto, ouviram o

galope precipitado de um cavalo. Quando se aproximou, Kersac reconheceu que era o dele. Atirou-se para o meio da estrada para lhe cortar a passagem e agarrar o freio, mas o cavalo ia à desfilada. Não obstante a sua força, Kersac não o pôde deter, e viu-se no chão, arrastado e em risco de ser pisado.

Perante a iminência do perigo, João lançou-se para a

frente do cavalo e, como na aldeia vira uma vez fazer

pendurou-se-lhe nas ventas, o que fez com que ele

parasse imediatamente.

Kersac quis levantar-se, mas tornou a cair; tinha

um pé torcido.

João começou por prender a uma árvore o animal

esbaforido e tremente, e correu para Kersac que

estava pálido e prestes a desmaiar. Próximo da estraida havia uma fonte; João correu para ela, ensopou o

lenço na água fresca e límpida, e humedeceu a testa

de Kersac; voltou à fonte mais duas vezes; apenas à

terceira vez, Kersac abriu os olhos e tornou a si.

Apertou a mão a João e tentou levantar-se; só o

conseguiu com grande dificuldade e depois de várias tentativas; sustinha-se de pé, apoiado à bengala, mas não podia andar.

– Não experimente, não experimente, meu senhor – disse João. – Vou acalmar o cavalo; depois trago-o ao pé de si, e se puder subir para ele, estamos salvos.

Kersac encontrava-se à beira do valado que limitava a estrada. João soltou o cavalo, acariciou-o, falou-lhe com meiguice, ofereceu-lhe um punhado de erva e, enquanto o animal comia, obrigou-o a descer o valado, deteve-o em frente de Kersac e manteve-o seguro enquanto Kersac procurava montá-lo. Não o conseguiu porque não podia fazer força com o pé torcido.

JOÃO – Deite-se atravessado em cima do cavalo, meu senhor, e depois passe para cá a perna magoada.

Kersac seguiu o conselho de João e ficou muito bem sentado no dorso do animal. João obrigou-o a subir o valado com precaução, e conduziu-o pelo freio. Chegaram a Malansac à noite; a primeira coisa que Kersac viu foi o Joanico meio escondido atrás da porta da cavalariça.

– Anda cá, maroto! – gritou-lhe Kersac. Joanico bem quis fugir; mas, por onde havia de passar? E depois? Acabaria por se encontrar em presença de Kersac. Tomou o partido de obedecer; avançou até à cabeça do cavalo.

KERSAC – Porque deixaste fugir o cavalo? Como foi isso?

JOANICO (tremendo) – Eu não tive culpa, meu senhor!

KERSAC – Não tiveste culpa? Mentiroso! Responde: como se soltou o cavalo?

JOANICO – Levei-o a beber, meu senhor; ele não queria sair do bebedouro; puxei-o, depois dei-lhe com o chicote; depois começou aos saltos e aos coices; depois dei-lhe com o chicote com mais força, para o ensinar; depois ele empinou-se; depois tive medo de que ele quebrasse a corda que eu segurava, e depois dei-lhe uma chicotada na barriga; depois ele partiu a corda como eu já receava, e depois deitou a correr por aí fora como um raio, sem que eu conseguisse detê-lo.

KERSAC – Ah! Velhaco! Torna a bater no cavalo, e eu dou-te uma lição de que te hás-de lembrar toda a vida. Se não tivesse o pé tociádo, por tua culpa, dava-te uma sova que te fazia dançar até amanhã. Vai-te embora e não apareças mais na minha frente, pássaro agoirento.

Joanico não esperou que lho repetisse; ele também tinha pressa em fugir aos olhares coléricos de Kersac, e refugiou-se no canto mais escuro da cavalariça.

João havia chamado gente para ajudarem Kersac a descer do cavalo. Como era alto e forte, tiveram dificuldade em o levar para um quarto do rés-do-chão que, felizmente, estava vago.

Depois de o doente se encontrar convenientemente instalado, João sentou-se numa cadeira ao pé dele.

KERSAC – Então, que fazes tu aí? Não te vais

deitar como o Joanico?

JOÃO – Vou-me deitar ao pé do senhor; dormirei muito bem numa cadeira.

KERSAC – Estás doido? Passar a noite numa

cadeira? Por causa da torcedela de um pé? Vai-te

deitar.

JOÃO – Mas o senhor não se pode levantar nem

fazer-se ouvir. . . Se de noite lhe falta alguma coisa?

KERSAC – Que queres tu que me falte? Vou

dormir até de manhã. Vai-te embora, boas noites.

João não disse nada, soprou a vela e fingiu que

saía. Mas tornou a entrar, sem fazer barulho, estendeu-se em cima de três cadeiras e não tardou a

adormecer.

João, endireita”

A meio da noite João foi acordado pela extraordinária agitação de Kersac, que gemia, se voltava, soprava como um búfalo, e que acabou por dizer a meia- voz:

– Não devia ter mandado embora o João. Talvez ele me aliviasse.

– Estou aqui, meu senhor – disse João, aproximando-se da cama de Kersac.

KERSAC – Comò? Tu aqui? Desde quando?

JOÃO – Não cheguei a sair. Apenas fingi. Mas o senhor sofre. Que posso fazer para o aliviar?

KERSAC- Dói-me horrivelmente o pé, João. Que se há-de fazer agora, a meio da noite? Toda a gente está deitada; é preciso esperar que seja dia.

JOÃO – Enquanto esperamos pelo dia, que ainda vem longe, talvez possa aliviá-lo. Quando havia alguma entorse lá na aldeia, era a mamã que chamavam e ficavam curados em pouco tempo. Vai ver; vou esfregar-lhe o pé torcido como a mamã fazia e me ensinou; daqui a meia hora já não dói nada.

Apesar da resistência de Kersac, que não tinha fé no remédio, João apossou-se do pé do doente e, embora estivessem às escuras, deu a massagem com êxito, porque, ao fim de três quartos de hora, o pé, desinchado, já não doía, e Kersac dormia profundamente. Logo que João viu o efeito obtido, cobriu com precaução o pé, deitou-se de novo, e dormiu tão bem que só acordou com o barulho que faziam na casa.

Era dia havia muito tempo; o relógio da sala bateu dez horas. João saltou para o chão e viu Kersac a olhar para ele.

KERSAC – Estava com pressa de te ver acordado, meu amigo, para te agradecer o bem que me fizeste. Dormi de um sono só, depois que me tiraste as dores.

JOÃO – Sente-se, realmente, bem?

KERSAC – Palavra que sinto. Tenho ainda uma dorzita, mas não é nada comparado com o que sentia ontem. Sabes que és um médico famoso?

JOÃO – É preciso dar-lhe outra fricção, senão o inchaço volta.

KERSAC – Tudo o que tu quiseres; confio na tua massagem!

João agarrou o pé do doente, e começou a esfregá-lo. Depois de um quarto de hora, Kersac tentou levantar-se, dizendo que se sentia completamente curado; mas João quis continuar e não parou senão quando o pé, inteiramente desinchado, já não doía absolutamente nada.

Kersac levantou-se, pousou o pé no chão com receio, hesitante; mas não sentindo nada senão fraqueza, quis calçar-se. João disse-lhe que era preciso ligar o pé, quando não, o artelho podia entortar e o inchaço aparecer. Foi pedir uma ligadura à dona da estalagem e ligou, habilmente, o pé de Kersac.

JOÃO – Agora, o meu senhor pode andar.

KERSAC – Parece-te? A mim parece-me de mais.

JOÃO – O senhor experimente; vai ver.

Kersac experimentou, primeiro muito devagarinho, depois mais afoitamente; por fim, apoiou-se no pé como antes do desastre.

– É maravilhoso! É admirável! É que não sinto absolutamente nada; somente o incómodo.

Começou a andar; desceu ao pátio, entrou na cavalariça e, com grande surpresa, encontrou Joanico que tratava do cavalo, e tinha tido a boa ideia de lhe dar aveia para o entreter durante o trato.

KERSAC – Como?! Muito bem, Joanico! Não esperava ver-te tão diligente. Continua, meu rapaz, João curou-me tão bem com a sua massagem, que, daqui a uma hora, regresso à minha herdade de Sant’Ana.

Depois, voltando-se para João, continuou:

– Lastimo muito não te levar comigo; mas não te esquecerei. E tu, pelo teu lado, não te esqueças de Kersac.

Depois de tomarem o pequeno- almoço, Kersac levantou-se para dar de beber ao cavalo, mas João não o deixou, com medo de que fatigasse o pé ainda sensível. À espera da hora de atrelar, João pôs-se a falar com Kersac.

– Sr. Kersac – disse-lhe ele -, se tiver oportunidade, mande notícias nossas à minha mãe, sim? Dar-me-á muito prazer.

KERSAC – Não, meu amigo, não lhas mando; irei dar- lhas pessoalmente.

– Pessoalmente? Ah! como lhe agradeço! Pobre mãe! Vai ficar tão contente! O senhor pergunta pela Sr. a Helena Dutec, e logo lhe ensinam; é na estrada: uma casinha isolada, revestida de hera. E depois, faça o favor de dizer à minha mãe que me escreva e me dê notícias suas; estimarei muito recebê-las.

Eram horas de engatar. João ajudou Kersac pela última vez! No momento de se separarem, Kersac disse aos dois primos:

– Lembrou-me agora uma coisa: subam para o carro. Vou levá-los à estação do caminho de ferro; abreviarão a viagem.

JOÃO – Como?

KERSAC – Subam. Eu te explicarei pelo caminho.

Quando o cavalo já ia a trote, Kersac começou a explicar:

– Ouve o que eu quero fazer. Lembras-te de que fiz um bom negócio de leitões em Vannes. Vou tirar do meu ganho a pequena quantia necessária para pagar o teu bilhete e o de Joanico, para Paris; fico mais tranquilo. Eu não gostava de te saber pelas estradas, com tão pouco dinheiro, com uma viagem tão grande diante de ti, e exposto a encontrar qualquer maroto. Uma pobre criança não pode defender-se.

João agradeceu a Kersac, sem compreender muito bem o favor que ele lhe prestava, mas adivinhando que era muito importante. Kersac explicou- lhe as paragens do comboio, as imprudências que era preciso evitar; certificou-se de que ainda havia que comer nos embrulhos trazidos de Kérantré e de Auray, e de que as suas bolsas estavam suficientemente fornecidas de dinheiro. Chegaram à estação; Kersac deu o cavalo a guardar a um rapaz da estalagem; comprou bilhetes para João e Joanico, e disse- lhes que os não perdessem, porque, nesse caso, teriam de pagá- los segunda vez. Ele conhecia os empregados; recomendou João e Joanico ao revisor do comboio que os levava; abraçou João, apertou a mão a Joanico e pediu ao revisor que lhes desse lugares bons e os vigiasse durante o caminho e à chegada.

João, surpreendido com o que via e ouvia, pensou menos na separação de Kersac. Ouviu-se o apito e o comboio pôs-se em andamento.

Visita a Kérantré

Enquanto João e Joanico avançavam com uma velocidade que jamais tinham calculado, Kersac dirigia-se para casa tão depressa quanto o cavalo podia: chegou a Vannes e demorou-se duas horas para regularizar a compra dos leitõezinhos.

Retomou, em seguida, o caminho de Kérantré e não tardou a chegar e a encontrar a casa de Helena, que reconheceu à primeira vista, depois da descrição que João lhe tinha feito.

Vendo à beira do caminho, junto de um bosque, uma casita revestida de hera, parou o cavalo e dirigiu-se a uma linda rapariguinha de cinco a seis anos, que brincava em frente da casa:

– Não é aqui que mora a viúva Helena Dutec?

A pequenita levantou-se, olhou, sorriu e respondeu:

– Não sei, meu senhor.

– Como, não sabes? Não moras aqui?

PEQUENA – Sim, senhor. Estou muito contente, não penso mais na mamã.

KERSAC – Sabes onde é a casa do Joãozinho?

PEQUENA – Sim, meu senhor; é aqui. Eu durmo na cama dele; foi a mamã do João que disse.

KERSAC – Mas não é a Sr. a Helena Dutec que mora aqui?

PEQUENA – Não sei, meu senhor.

KERSAC – Ela é que é tua mamã, penso eu, visto que dormes na cama do teu irmão.

PEQUENA – Eu não tenho mamã e o João não é meu irmão.

KERSAC – Diacho da rapariga! Não compreendo nada do que ela diz. Deve ser esta a casa do João. Será mais rápido descer e ir ver.

Kersac desceu, prendeu o cavalo a uma das árvores que estavam perto da casa, entrou, como não viu ninguém, atravessou toda a casa acabando por sair por uma porta traseira, que dava para um quintalzito. Avistou uma mulher a sachar um canteiro de couves.

KERSAC – Minha boa senhora: sabe onde mora a Sr.a Helena Dutec?

A mulher ergueu-se rapidamente.

HELENA – Sou eu, senhor. Vem buscar a pequenita?

KERSAC – De maneira nenhuma; é a senhora que procuro; prometi-o ontem ao meu bom Joãozinho, e venho dar-lhe notícias dele.

HELENA – Entre, entre, meu senhor. Muito estimo vê- lo e ouvi-lo falar do meu filho.

E grossas lágrimas lhe caíam dos olhos, enquanto fazia entrar Kersac e procurava um banco para ele se sentar.

HELENA – O senhor desculpe recebê-lo tão mal.

KERSAC – Estou aqui muito bem, minha senhora. Deixei João e Joanico ontem de manhã, em Malansac, a quinze léguas daqui; ficaram muito bem.

– Quinze léguas! – gritou Helena. – Como puderam eles andar tanto? Vi ontem um senhor que os deixou em Auray às dez horas da manhã. . .

KERSAC – Para dizer a verdade, ajudei-os um pouco. Tenho uma propriedade perto de Sant’Ana eu ia para Vannes e mandei-os subir para a carroça. De Vannes fui a Malansac; isto poupou-lhes mais seis léguas. Aí dormimos; meti-os no caminho de ferro; devem ter chegado a Paris esta manhã, às quatro horas.

HELENA – Já! A Paris! Como é possível?

KERSAC – Eu explico-lhe, Sr.a Helena. A esta hora estão eles com Simão.

Kersac contou-lhe tudo o que se passara entre ele, João e Joanico, sem nada omitir.

Quando acabou e explicou que tinha pago os bilhetes do caminho de ferro, Helena não se conteve. Comovida e reconhecida, agarrou nas mãos de Kersac e apertou-as nas suas contra o coração.

HELENA – Que Deus o abençoe, meu querido senhor! Que ele lhe pague tudo o que fez pelo meu Joãozinho e pelo Joanico!

KERSAC – Oh! Quanto a esse, minha querida senhora, não tem nada que me agradecer, porque não foi por ele nem por caridade que o tratei como ao nosso Joãozinho, mas para ser agradável a este. Tem um bom filho, Sr.a Helena, e sinto muita vontade de lho pedir.

HELENA – Para quê, meu senhor?

KERSAC – Para o ter em casa, na herdade.

HELENA – Ele é ainda muito novo, meu senhor.

O irmão mandou-o ir para um serviço mais fácil.

Quando for mais velho, então terei muito gosto que

vá para casa do senhor.

KERSAC – E quem é esta pequena? João não

me falou nela.

HELENA – Ele não a conhece, por assim dizer, meu senhor.

Helena deu um bocado de pão à criança e contou

a Kersac o seu encontro com a pequenita, na véspera

da partida de João.

KERSAC – Não se inquiete com a pequenita, minha boa senhora; eu darei providências.

HELENA – O senhor! Mas não me conhece!

Pode julgar. . .

KERSAC – Conheço, conheço. Já a conhecia

antes de a ver, e agora conheço-a como se fossemos

velhos amigos. Voltarei a vê-la. Percorro muitas vezes a região, em negócios da minha propriedade;

passarei por sua casa todas as vezes que tenha tempo.

Até à vista!

Kersac cumprimentou Helena amigavelmente, acariciou a pobre pequenita abandonada, pela qual já se interessava, e foi soltar o cavalo. Subiu para a carroça, e afastou-se rapidamente.

O encontro dos irmãos

E João e Joanico? Onde estavam? Que faziam? Tinham chegado a Paris perto das quatro horas da madrugada, refeitos e encantados. Ao descerem da carruagem não sabiam para onde haviam de ir; ainda era noite. O revisor do comboio, que era bom homem, encontrou-os na sala de espera, para onde tinham seguido os passageiros, e perguntou-lhes para que sítio se dirigiam.

JOÃO – Para casa de meu irmão Simão; mas é muito cedo, e, depois, ele espera-nos só daqui a um mês; e nós não conhecemos o caminho.

REVISOR – Sabes onde ele mora?

JOÃO – Sim, senhor; na Rua de St. Honório, nº 263.

REVISOR – Pois bem, fiquem aqui até às cinco horas; a essa hora vão para casa de Simão. Mas sozinhos nunca atinariam com o caminho. . . Aqui têm três francos que me deu o Sr. Kersac para vocês não os gastarem, porque comeriam os farnéis e beberiam água; destes três francos tiram um franco e cinquenta cêntimos para pagar o carro onde os vou meter. . . Mas agora deixo-os, que tenho que fazer; esperem-me aí.

João e Joanico sentaram-se num banco; João

divertia-se muito a ver os que iam e vinham; observava tudo e por tudo se interessava. Joanico bocejava e

suspirava.

JOANICO – Que será de nós, João, no meio de

todo este barulho? Certamente não encontramos Simão; e, nesse caso, para onde havemos de ir? Que

faremos nós?

JOÃO – Porque não havemos de encontrar Simão, se ele mora na Rua de Stº Honório, nº 263?

JOANICO – Mas se o não encontramos?

JOÃO – Procuramo-lo.

JOANICO – Procuramo-lo onde? A quem perguntamos?

JOÃO – Logo se encontra alguém que nos ajude a procurá-lo. Além de que estás sendo ingrato para

Deus, Joanico. Vê como ele nos tem protegido.

Aquele bom senhor ladrão que nos deu dinheiro. . .

JOANICO – A ti, a mim não.

JOÃO – Não é a mesma coisa? Bem sabes que o

que é meu é teu. Depois, o bom senhor que tivemos a

sorte de encontrar, o Sr. Kersac, que foi para nós um verdadeiro Deus. Trouxe-nos doze léguas na carroça.

JOANICO – Porque queria conversa. . .

JOÃO – De maneira nenhuma; foi por bondade.

Depois fez-nos cear com ele e pagou a nossa dormida.

JOANICO – Devia ser cara a dormida! Um bocado de palha na cavalariça.

JOÃO – E temos melhor em casa?. . . Depois, pagou-nos a viagem. Graças a ele, chegámos a Paris

em vinte e quatro horas, em vez de trinta dias. É incrível.

JOANICO – Sim, a isso não há nada que dizer. É realmente uma boa coisa. . . Mas, que havemos de fazer se não encontrarmos o Simão?

JOÃO – Ah! Lá vens tu com a mesma história! Já te disse: nós procuraremos e acabaremos por encontrá- lo.

Joanico não parecia muito tranquilo e recomeçou a gemer quando o revisor entrou.

– Estão aí? Está bem! Venham comigo. Depressa, que não posso demorar-me.

Saiu precipitadamente, seguido pelas crianças, que o não largavam de vista, tanto medo tinham de o perder. Chegaram à praça da estação que deita para o Passeio Montparnasse. O revisor mandou-os subir para uma carruagem e disse ao cocheiro que os levasse à Rua de Stº Honório, nº 263. Para maior precaução, acrescentou:

– Dê-me o seu número; se acontecer alguma coisa às crianças, você será o responsável: tenha cui dado!

COCHEIRO – Esteja descansado, senhor; espero que não haverá novidade. . . Dizia o senhor. . .

REVISOR – Rua de Stº Honório, nº 263.

O cocheiro retomou o seu lugar.

– Adeus, senhor, e muito obrigado – gritou João ao revisor.

A carruagem pôs-se a caminho. As crianças olhavam, admiradas; tudo parecia magnífico, apesar da hora matinal, do silêncio das ruas e da falta de movimento. Quando o carro parou diante do número 263 da Rua de Stº Honório, julgavam que tinham passado apenas alguns minutos.

– Vamos, desçam, já chegámos – disse o cocheiro, abrindo a portinhola.

João desceu, pagou como tinha recomendado o revisor, e os dois rapazes encontraram-se em frente de uma porta fechada, sem saberem o que haviam de fazer para entrar.

– Bate à porta – disse o Joanico.

João bateu, Joanico bateu, mas a porta não se abriu.

– Chama – disse Joanico.

– Simão! – gritou João. – Somos nós, abre a porta!

Gritaram, chamaram, mas a porta não se abriu.

– Que vai ser de nós, meu Deus? – bradava Joanico, prestes a chorar.

JOÃO – Não te aflijas! É porque ele está ainda a dormir. Esperemos. Acabará por acordar e abrir a porta.

Depois de esperarem cinco minutos que lhes pareceram cinco horas, recomeçaram a bater e a chamar Simão.

Por fim, uma janela abriu-se: um homem gordo, de cabelos grisalhos, deitou a cabeça de fora.

– Que demónio de barulheira é esta? Que lembrança: virem acordar as pessoas tão cedo! Quem procuram? Que é que querem?

JOÃO – Peço-lhe mil desculpas, meu senhor; nós não queríamos incomodá-lo. Nós chamávamos meu irmão Simão, que mora aqui.

PORTEIRO – E como querem que ele os ouça, se mora no quinto andar?

JOÃO – Eu não sabia, meu senhor; peço-lhe desculpa. Se o senhor quiser, nós esperamos.

PORTEIRO – Agora que estou acordado e levantado, não preciso que esperem. Entrem e subam.

Chegados ao cimo da escada, viram três portas diante deles: à direita e à esquerda e em frente.

– Bate – disse Joanico.

JOÃO – Bater, onde? Como há-de ser? Tenho medo de enfadar alguém se bato a uma porta que não seja a do Simão.

JOANICO – Meu Deus! Que será de nós?

JOÃO – Não te aflijas; vou chamar o Simão!. Simão!. chamou ele a meia-voz.

Abriu-se uma porta e apareceu um rapaz.

– Simão! – gritou João.

E lançou-se-lhe ao pescoço,

SIMÃO – És tu, João! E tu Joanico! Louvado seja Deus! Precisava tanto de ver alguém lá da terra! Entrem, vamos conversar enquanto me visto. Não os esperava tão cedo. A mamã tinha mandado dizer que vocês só cá estariam daqui a um mês.

JOÃO – Certamente; não devíamos chegar antes; mas nós viajámos como príncipes! De carruagem! Eu te contarei.

Entraram num quarto pequeno, asseado, claro e bastante alegre. Enquanto Simão lavava a cara e se vestia, João e Joanico, que inspeccionavam tudo deram notícias da terra e contaram todas as suas aventuras.

Depois de muito conversarem e rirem e de se abraçarem mais de dez vezes, João perguntou:

– E que vais tu fazer de nós, Simão? Penso que não nos vais ter aqui para amostra.

SIMÃO – Não, não, estejam tranquilos. Vocês já têm emprego. Tu, João, entras para criado do café onde eu estou; e tu, Joanico, vais para casa de um merceeiro.

JOANICO – Ora, e porque não vou para criado de café como o João?

SIMÃO – Porque não havia senão um lugar vago. Nem todos podem fazer o mesmo.

JOANICO – E estamos na mesma casa?

SIMÃO – Não. Tu, Joanico, ficas muito perto daqui, na Rua Rivoli; e perto do João, que ficará comigo.

JOÃO – Que serviço faremos nós?

SIMÃO – O serviço de um café é um bom lugar, mas fatigante.

JOÃO – Fatigante, porquê?

SIMÃO – Porque é preciso ser activo, vigilante, atento, para nada quebrar, nem entornar. Farás bom serviço.

JOANICO – Eu também o faria.

SIMÃO – Tu? Tu não és suficientemente desembaraçado; mandar-te-iam logo embora.

Joanico não disse nada: amuou.

SIMÃO – Ah! Ah! Ah! Que cara fu fazes! Produziria bom efeito num café! Todos os fregueses fugiriam para nunca mais voltarem!

Joanico ficou ainda mais aborrecido. Simão encolheu os ombros e riu.

– Sempre o mesmo! – disse ele. – Ah! são quase sete horas. É preciso ir para o café, João; e tu, Joanico, vais-te apresentar ao teu patrão; sê muito delicado e alegra-te, porque um merceeiro deve ser brincalhão.

Simão tirou um pão do armário, cortou três grossas fatias, deu uma a João, outra a Joanico, e meteu a

terceira ao bolso; desceram os cinco andares e entraram num café muito asseado, muito bonito; João e

Joanico ficaram pasmados em frente dos espelhos, E das cadeiras de veludo, das mesas esculpidas, etc.

Enquanto eles admiravam, Simão foi falar ao dono

do café, e voltou pouco depois com um bocado de

queijo e leite.

– Tomemos o pequeno-almoço – disse ele antes que chegue gente. E depressa, porque há que

fazer! É preciso limpar e arrumar tudo.

O Sr. Abel e Joanico

Comeram e beberam; a refeição deu bom humor a Joanico que, em companhia de João e de Simão, se dirigiu, alegremente, para casa do merceeiro onde ia trabalhar. O caminho não era longo: cinco minutos depois entravam no armazém.

SIMÃO – Pontois, aqui está o meu primo Joanico, o rapaz que você esperava; chegou esta manhã.

PONTOIS – Bem, bem. Aproxima-te, rapaz, aproxima-te. Pega neste frasco de conserva e vai pô-lo lá adiante, ao pé do mostrador.

JOANICO – Onde, meu senhor?

PONTOIS – Lá adiante, ao pé do mostrador.

JOANICO – Onde está o mostrador?

PONTOIS – Na tua frente, palerma. Diante da senhora que está lá a escrever.

Toda a gente ria; Joanico, pouco contente, dirigiu- se para o mostrador, tropeçou numa caixa de ameixas e caiu com o frasco de conserva.

– Desastrado! – gritou Pontois.

– Desastrado! – gritou a caixa.

– Desastrado! – gritaram os caixeiros.

– Infeliz! – gritou Simão.

– Pobre Joanico! – gritou João, correndo para ele.

Joanico levantou-se, irritado e confuso. Teve sorte o frasco apenas se partira na parte de cima.

PONTOIS – Vá lá, meu maroto, pela primeira vez passa; mas à segunda vez pagas. Prometi ao Simão dar- te dez francos por mês, cama, mesa, roupa lavada e de vestir. Toma nota que os dez francos não chegam para pagar o que partiste. Que diz você, Simão? Mau princípio. Isto promete.

SIMÃO – Não, não, Pontois; o que fez isto foi o embaraço, a timidez. Não convinha dar-lhe um frasco para principiar. Até à vista, vou-me embora com o meu novo ajudante.

PONTOIS – É jeitoso. Diga lá, Simão: quer trocar? Leve o outro e dê-me esse.

SIMÃO – Não, não, Pontois, cada qual fica com o seu. Este é meu irmão; Joanico é meu primo. Até à vista. Eu amanhã venho saber como vai isto. Coragem, Joanico, não te atrapalhes com tão pouco. Até amanhã.

Joanico não respondeu; estava descontente com a diferença que Simão estabelecia entre o irmão e o primo.

Nos primeiros dias, Joanico não fez outra coisa senão recados, e andar na companhia dos empregados, que percorriam todos os bairros de Paris, de maneira que ele começou a conhecer as ruas e os usos comerciais.

Por seu lado, João fazia a aprendizagem de criado de café; a sua inteligência, alegria, boa vontade e delicadeza, depressa conquistaram as boas graças dos fregueses; gostavam de o fazer tagarelar e que ele os servisse; recebia com frequência boas gorjetas que entregava fielmente a Simão. Este confiava no sucesso do irmão; e à noite, no seu pequeno quarto, os dois agradeciam a Deus tê-los juntado. João era feliz. Os seus únicos momentos de tristeza eram aqueles em que a recordação da mãe o perturbava; algumas vezes uma lágrima humedecia-lhe os olhos, mas depressa readquiria coragem, vendo o irmão tão feliz com a sua presença.

Uma vez, pelo meio-dia, um senhor entrou no café.

Era um homem novo, de boa figura, porte elegante, que examinava a casa, os criados e a freguesia; os seus olhos demoraram-se em Simão com um ligeiro movimento de surpresa. Sentou-se a uma mesinha e chamou:

-Rapaz!

Acorreu um dos criados.

– Não, meu amigo, não é a ti que eu quero; quero o Simão.

O rapaz afastou-se, um pouco surpreendido, e advertiu Simão de que um senhor o chamava.

SIMÃO – V. Ex. g chamou? Que deseja?

DESCONHECIDO – Sim, foi a ti que chamei, Simão; traz-me duas costeletas e um ovo.

Simão afastou-se e voltou um instante depois com as costeletas pedidas.

SIMÃO – V. Ex á conhece-me?

DESCONHECIDO – Muito bem, meu amigo. És o Simão Dutec, filho da viúva Helena Dutec.

SIMÃO (surpreendido) – Perdão, senhor; não me recordo do seu nome.

DESCONHECIDO – Não admira, Simão. Nunca o ouviste.

SIMÃO – Mas então. . . Como tenho a honra de ser conhecido de V. Ex. a?

DESCONHECIDO – Ah! É o meu segredo. Venho dos teus sítios; estive em Kérantré! Vi a boa Helena, e quero ver o meu Joãozinho.

SIMÃO – Mas, senhor. . . Queira explicar. . .

João entrava neste momento; trazia uma sopa e um ovo para um freguês.

DESCONHECIDO – Ele aí está, ele aí está! Ena! Como está catita! Bonito rapaz, palavra! Vai-te embora, amigo Simão, vai-te embora! Manda-mo a ele; diz-lhe que me traga uma garrafa de cerveja.

Simão, muito intrigado, ordenou a João que levasse cerveja à mesa nº 6.

João levou a cerveja, pô-la sobre a mesa, olhou o senhor e soltou um grito.

– Olha o senhor ladrão! Que felicidade!

A este grito os criados voltaram-se, a caixa gritou, os fregueses levantaram-se e o mais resoluto correu para a porta a fim de embargar a passagem. Simão continuava estupefacto, e João agarrou a mão do ladrão, que se levantou, rindo às gargalhadas.

– Muito bem, Joãozinho, já esperava isso! Sim, meus senhores, eu sou, como diz o João, um ladrão. . . mas um ladrão a brincar – acrescentou, vendo os criados e os fregueses avançarem para ele em atitude ameaçadora. – Fingi de ladrão para aconselhar prudência a esta criança que contava o dinheiro que tinha, em plena estrada, junto de um bosque. A propósito: onde está o chorão de quem eu não gosto nada, o teu primo Joanico?

JOÃO – Em casa de um merceeiro aqui ao lado, meu senhor, na Rua Rivoli.

DESCONHECIDO – E então, Simão, já me conheces?

SIMÃO – Julgo que sim, meu senhor, se bem que não saiba o seu nome. João contou-me tudo, e eu estou muito contente por ver V. Ex. a.

Os fregueses tinham voltado a comer e os criados a servir; todos riam mais ou menos do seu engano. A empregada contava o dinheiro para se certificar de que, no tumulto, a caixa não tinha sofrido desfalque.

– Como fizeste para chegar tão depressa?perguntou o senhor ladrão. – Vocês deviam gastar um mês de viagem.

JOÃO – Sim, meu senhor, mas encontrámos uma pessoa excelente, o Sr. Kersac, proprietário em Sant’Ana. Trouxe-nos de carroça até Vannes, depois até Malansac; em seguida pagou-nos o comboio até Paris, de maneira que chegámos antes do senhor.

DESCONHECIDO (sorrindo) – E esse bom Sr. Kersac gostou de Joanico?

JOÃO – Nem por isso. O pobre Joanico continuava a lamentar o seu enguiço.

DESCONHECIDO – Enguiço! Ele devia dizer: o seu feitio! É espantoso como esse chorão me desagrada. Porque não disseste o meu nome a Simão?

JOÃO – Porque o não sabia.

DESCONHECIDO – Como! Escrevi- o num papel que te meti na bolsa!

JOÃO – E eu que o não vi! É verdade que não tive ocasião de abrir a bolsa depois que o deixei. Mas, como estou contente por tornar a vê-lo, meu senhor! E onde mora?

DESCONHECIDO – No Hotel Meurice, a dois passos daqui.

JOÃO – Tanto melhor! Ver-nos- emos muitas vezes.

DESCONHECIDO – Todos os dias virei aqui comer.

O desconhecido tinha acabado a refeição. Pagou, deu a João vinte soldos e a Simão o seu nome e endereço: Abel, Hotel Meurice. E saiu.

João e Simão viam poucas vezes Joanico, porque tinham muito que fazer. Muitas vezes, à meia-noite, Simão ainda não estava deitado.

Ao domingo, Simão e João levantavam-se de

madrugada e iam à missa das seis. Propuseram a

Joanico ir buscá-lo; ele acompanhou-os à missa nos

primeiros domingos; depois achou que era cedo de

mais, preferia dormir e ir à missa das dez, do meio-dia ou mesmo a nenhuma; de maneira que cada vez

via menos os primos.

No café não há domingo para os criados; é, pelo

contrário, esse o dia de mais trabalho, aquele em que

há mais gente a servir. Simão tinha posto, como

condição, irem à oração da tarde, um domingo um, e

no domingoseguinte o outro.

Esta condição, pedida, quase imposta, ao princípio surpreendeu o dono do café e desagradou-lhe;

mas depois, vendo o serviço pontual, consciencioso, dos dois irmãos, o patrão começou a estimá-los muito, depositou confiança neles e compreendeu que, para ter criados honestos e seguros, é preciso que eles sejam cristãos.

Por outro lado, Simão e João agradavam muito

aos fregueses; cumpriam as ordens sem barulho, nem

atrapalhações; cada qual era servido como gostava e

desejava; algumas vezes os fregueses faziam falar

João, porque a vivacidade e o bom humor do rapaz

os dispunham bem.

A lição de dança

Tempos depois, o João disse, certa manhã, ao Sr. Abel, enquanto o servia:

– O senhor gostava de ir a um baile?

SR. ABEL – A um baile? Não é para recusar. Que espécie de baile?

JOÃO – Um rico baile, meu senhor. Dança-se, e Simão já me ensinou como se dançava; à noite no nosso quarto, ensaiamo-nos. É muito divertido, meu senhor; vá! Sabe dançar?

SR. ABEL (com fingida tristeza) – Pobre de mim! Não sei. Se me quisesses ensinar. . .

JOÃO – Da melhor vontade. Mas onde?

SR. ABEL – Aqui, entre as mesas. Não há ninguém.

JOÃO – Podem ver-nos lá de fora.

SR. ABEL – E se virem? Não é proibido dançar! Que mal faz?

JOÃO – Nenhum, senhor. . . certamente. . . Mas será um pouco esquisito verem-nos dançar os dois. . . Não acha?

SR. ABEL – Ora! Eu tomo a responsabilidade. Se não gostarem, eu lhes responderei; e se se rirem de nós, nós rimo-nos deles. Vamos, começa lá.

O Sr. Abel levantou-se e foi-se pór no meio do café, à espera. João colocou-se em frente dele e começou a saltar, ou melhor, a espinotear, atirando com os pés para diante, para trás, para a direita e para a esquerda.

– Comece, meu senhor. . . Salte mais!. . . Mais alto ainda! Mais alto ainda!. . . Atire o pé direito. . . e o pé esquerdo. . . para a frente. . . para trás. . . Muito bem.

O Sr. Abel, que tinha começado a sorrir e com afectada falta de jeito, acabou por se animar e rir de tal maneira, que os transeuntes se aglomeraram às portas e às janelas.

João depressa compreendeu que o Sr. Abel podia ser seu mestre de dança, dava saltos, piruetas, e fazia vários passos que João procurava, inutilmente, imitar.

João animava-se e não se cansava; o Sr. Abel

torcia-se com riso e redobrava de vigor, de flexibilidade e ligeireza. O público aplaudia e ria; os de trás, que não viam, procuravam ver, empurrando os da

frente.

A multidão tornou-se tão compacta, que os polícias apareceram para saber o que havia.

-Veja, senhor guarda, veja. Repare como o homem é ligeiro; lá saltou ele por cima do pequeno. . . E

o pequeno a ver se é capaz; o simplório! Lá caiu ele!

Ah! Ah! Ah!

E a multidão ria; os polícias riam também.

POLÍCIA – Os senhores estão a impedir a passagem; sigam, meus senhores e minhas senhoras, sigam.

OUTRO POLÍCIA (procurando, sem resultado, dispersar a multidão) – Temos de fazer parar estes dançarinos; enquanto estiverem ali a fazer cabriolas, a multidão não desaparece. Vês? Chegam uns e vão outros. Entra no café, Cipião, e diz- lhes que acabem com as piruetas.

Cipião abriu a porta, entrou, levou a mão ao boné e dirigiu-se, sorrindo, ao Sr. Abel.

– Meu senhor, tenho muita pena de o incomodar, mas peço-lhe que pare, por causa da multidão; está a impedir o trânsito, e nós somos obrigados a restabelecê-lo, o que será difícil, enquanto estiverem aqui a dar espectáculo.

SR. ABEL – Da melhor vontade, senhor polícia; também já chega; tenho calor e sede.

E sentando-se à mesa:

– Rapaz, dois cafés e conhaque. . . Sente-se, eu pago.

POLÍCIA – O meu camarada está lá fora à minha espera.

SR. ABEL – Nesse caso, dispersem a multidão e volte como o seu camarada para beberem uma chá vena de café e um copito.

POLÍCIA – Não sei se podemos, senhor. . .

ABEL – Porque não hão-de poder? Uma chávena e um copo bebem-se depressa. Eu espero-os e faço-vos companhia.

O polícia saiu, muito contente, e voltou mais contente ainda, com o camarada.

Durante este tempo, João, segundo as ordens do Sr. Abel, tinha trazido mais duas chávenas de Kirsch.

Os polícias beberam, agradeceram e foram-se embora.

SR. ABEL – E como se chama o ricaÇo que nos oferece um baile no domingo?

JOÃO – Sr. Amédée. Um comerciante rico! É do alto comércio. Tem senhora e duas lindas meninas; principalmente a mais velha é muito boa e muito amável.

SR. ABEL – Como é que os conheces?

JOÃO – O Simão vai lá algumas vezes, ao domingo, depois de ir à igreja, ou quando o café está fechado. Ele já me tem lá levado; eu gosto muito; é muito bonito.

SR. ABEL – Que idade tem a filha mais velha? E a mais nova?

JOÃO – A mais velha tem para aí dezanove anos; e a outra dezasseis ou dezassete.

SR. ABEL – A mais velha estava a calhar para o Simão.

JOÃO – O Simão só tem vinte e três anos; ele não se casa senão daqui a quatro ou cinco anos. É preciso dinheiro para pôr casa; sem isso não lhe dariam a menina Aimée.

SR. ABEL – De quanto precisa ele?

JOÃO – Para aí de dois ou três mil francos. Mas tem de sustentar a mamã; agora, que somos os dois a ganhar, vai mais depressa.

SR. ABEL – Tu não guardas para ti o que ganhas?

JOÃO – Por ora, não; dou tudo ao Simão. E ele manda à mamã.

Havia muita gente no café. Simão chamou João para o ajudar; a conversa com o Sr. Abel foi interrompida. Este ficou ainda algum tempo no café; olhava sem ver, e não ouvia o que se dizia à sua volta. Por fim saiu, pensativo, e dirigiu-se para as Tulherias, onde acabou de fantasiar o futuro de Simão.

Os fatos novos

No dia seguinte, quando o Sr. Abel foi almoçar ao café, João correu, todo contente.

JOÃO – O senhor sabe o que nos aconteceu?

SR. ABEL – Não; como queres tu que eu saiba?

JOÃO – Ontem à tarde um senhor perguntou pelo Simão e por mim; estava à nossa espera em casa do porteiro. O tal senhor disse que nos ia tirar as medidas para nos fazer uns fatos novos. Simão recusou. . .

SR. ABEL (contrariado) – Porquê? Devia aceitar.

JOÃO – Ele não queria gastar tanto dinheiro!

SR. ABEL (da mesma forma) – Mas, se lhos davam.

JOÃO – Oh! Como foi que adivinhou? O tal senhor disse que tinha ordem para nos vestir, que já estava tudo pago. . . e não sei que mais. . . O Simão hesitou; e o tal senhor disse que tinha ordem de fazer os fatos, senão que perdia o freguês. O Simão perguntou quem era ele, e porque fazia isso. O senhor disse que é um grande artista, um pintor, que é muito bom e muito original; que nos viu um dia mal vestidos e que nos quer bem-postos. Ele também disse que, se nós não o deixássemos fazer os fatos, lhe faríamos perder o seu melhor cliente. Por fim, o Simão consentiu; o tal senhor tirou-nos as medidas, traz-nos os fatos dentro de dias, e nós estaremos que nem uns príncipes no baile do Sr. Amédée. Só falta o calçado, a gravata e a roupa branca; mas, quanto à roupa, o Simão disse que abotoávamos os fatos para esconder a camisa e a gravata. Assim já fica bem.

SR. ABEL – O alfaiate é imbecil! Como foi que ele não pensou na roupa e nas botas?

JOÃO – Não injurie o pobre homem, senhor; ele não teve culpa; fez o que lhe mandaram.

SR. ABEL – Tens razão; o outro é que é um estúpido, um imbecil.

JOÃO – Oh! Um senhor tão bom, que se interessa por nós sem nos conhecer e nos faz tamanha esmola, com tanta bondade e tanta graça!

SR. ABEL – Digo-te que é um animal. Quando se faz uma boa acção é preciso não a deixar em meio. Que bonita figura vocês hão-de fazer, de fatos elegantes, sapatos de aguadeiro e uma gravata de algodão aos quadrados!. . . E o chapéu? Pensaram nele?

JOÃO – Não, senhor; mas não se anda de chapéu numa casa fina, onde se dança. Eu e o Simão vamos sem chapéu. É tão perto! De mais a mais é de noite.

O Sr. Abel almoçou num instante, naquele dia. Disse ao João que o servisse sem demora, porque estava com pressa. João despachou-se; o Sr. Abel também, de maneira que, um quarto de hora depois, saiu.

Simão e João viam Joanico cada vez menos; mas sabiam que ele ia ao baile do Sr. Amédée.

JOÃO – Pobre Joanico! Ele tão mal vestido e nós tão bem!

SIMÃO – Diverte-se na mesma. Mas nós podíamos emprestar-lhe o teu fato velho; ainda está muito bom.

JOÃO – E deve-lhe estar bem, porque somos da mesma estatura. Se lhe fosse dizer?

SIMÃO – Vai, sim, mas não te demores; pode vir gente.

JOÃO – É só o tempo de lhe dizer o que resolvemos e ele responder sim ou não.

João saiu, a correr. Ao chegar à porta da mercearia, ouviu vozes alteradas e não tardou a perceber que era o Sr. Pontois que ralhava duramente com Joanico.

SR. PONTOIS – Digo-te que tenho a certeza; a minha mulher viu-te tirar um punhado de tâmaras e de figos; ela viu-tos comer.

JOANICO – Não, senhor. Eu tirei-os para os pôr na montra.

– Mentiroso! Ladrão! – gritava o Sr. Pontois. E, atirando-se a Joanico, puxou-lhe os cabelos, deu-lhe bofetadas e pontapés e empurrou-o para o fundo da loja.

SR. PONTOIS – É a décima, a centésima vez que me roubas, velhaco. Se te apanho outra vez, ponho-te na rua como ladrão.

O Sr. Pontois foi-se embora, sem ver João, e deixou Joanico a chorar.

João aproximou-se do primo.

Joanico – disse-lhe afectuosamente -, tem coragem, não chores. Venho propor-te uma coisa que te vai alegrar. Empresto-te o meu fato para levares ao baile do Sr. Amédée.

Joanico limpou as lágrimas e alegrou-se um pouco.

JOANÌCO – Aceito; não tinha nada que vestir. Agradeço-te muito e ao Simão. Mas que vestes tu?

JOÃO – Visto outro.

JOANICO – Tu és muito feliz em viver com o Simão. Lá, estás tranquilo, sempre alegre e satisfeito. Comigo não se dá o mesmo. Choro mais vezes do que rio. Pouco ordenado, muitas injúrias e trabalho até às pontas dos cabelos.

JOÃO – Não julgues que não temos que fazer no café. Ando de manhã até à noite. Tu, ao menos, tens os domingos.

JOANICO – Bonitos domingos! Por aquilo que eu passeio! Não tenho aonde ir. Aborreço-me e choro. Belos domingos!

JOÃO – E porque não vais nunca ver-nos? O Simão e eu saímos cada um em seu domingo; podemos vir buscar-te.

JOANICO – Obrigado! Para ir ao sermão! Que grande prazer! Bonita distracção!

JOÃO – Faz bem ir algumas vezes rezar à igreja, que é a casa de Deus.

JOANICO – Gosto mais de passear.

JOÃO – Pobre Joanico! Tu lá na terra não falavas assim.

JOANICO – Eu, na terra, era um estúpido. Cá em Paris os companheiros abriram-me os olhos.

JOÃO – Fecharam-tos, queres tu dizer. Que ganhas com isso? Não és feliz. Não te divertes e não tens a consolação de rezar.

JOANICO – Como queres tu que eu seja feliz, que me distraia, com patrões maus como os meus?

JOÃO – Maus! Que estás para aí a dizer? O Simão disse-me que eram muito bons e que tratavam bem os empregados.

JOANICO – Os outros, é possível. A mim, não.

JOÃO – Joanico, Joanico, não sejas ingrato!

JOANICO – Ora! João, tu aborreces-me com os teus sermões; é por isso que não vos vou ver, nem ao Simão nem a ti. . . Manda-me ou traz-me o fato que me prometeste e deixa-te de moral. Assim como assim, não estou aqui bem. Parece-me que não ficarei por cá muito tempo.

JOÃO – Para onde queres tu ir? Fazer o quê? Joanico, peço-te, não resolvas nada sem consultar o Simão; ele é tão bom, tão prudente!

JOANICO – Manda-me o fato; não te peço mais nada.

João suspirou e foi-se embora, lentamente, repetindo:

Pobre Joanico!

Simão, a quem ele contou a sua conversa com Joanico e a cena de que tinha sido testemunha, foi, ele próprio, levar o fato prometido e conversar com o Sr. Pontois.

Voltou inquieto e, logo que se encontrou a sós com o irmão, disse-lhe:

-Não estou satisfeito com o Joanico, e o Sr. Pontois, então, está muito descontente. O Joanico não quer continuar lá, e o Sr. Pontois também não o quer. É uma desgraça para o Joanico; vai ter dificuldade em se colocar. O patrão acusa-o de roubar uma quantidade de coisas para comer; mas, o que é pior, é que o Sr. Pontois está quase certo de que ele não põe na caixa todo o dinheiro das vendas que faz. Isto desgosta-me, porque é roubar. E, com semelhante suspeita, como posso eu colocá- lo noutra parte?

JOÃO – Pobre Joanico! E se tu falasses ao Sr. Abel? Ele é tão bom! Tenho a certeza de que te daria um bom conselho.

SIMÃO – Sim. . . tens razão. Poderá ser útil ao Joanico. O Sr. Abel conhece tanta gente! E penso, como tu, que me aconselhará bem.

Dias depois o alfaiate veio trazer-lhes não só os seus fatos mas também camisas finas, gravatas de seda, peúgas e luvas; acompanhava-o um sapateiro que trazia uma quantidade de sapatos de baile para experimentar, e um chapeleiro que trazia chapéus.

João estava louco de alegria; Simão continha-se, mas estava tão alegre como ele. Tudo servia na perfeição; encontraram sapatos que calçavam admiravelmente sem apertar os pés, chapéus que não podiam ficar melhor e luvas que entravam sem esforço, porque João e Simão não queriam ter as mãos apertadas.

O alfaiate levara o cuidado ao extremo de pôr lenços nos bolsos dos casacos. Simão e João não sabiam como exprimir o seu reconhecimento; incumbiram o alfaiate de apresentar os agradecimentos mais afectuosos, mais respeitosos, ao benfeitor desconhecido.

Quando o Sr. Abel chegou, João que o esperava com grande impaciência, serviu-lhe o almoço.

JOÃO – Oh! Se soubesse como o Sr. Pintor é bom, ficava arrependido do que disse no outro dia. O bom, o excelente Sr. Pintor pensou em tudo, até lenços brancos e finos para nos assoarmos! Chapéus peúgas, roupa, luvas, nada nos falta, nada! Não comove tanta bondade? Sim, senhor, é verdade o que lhe digo. Quando levámos as coisas para o nosso quarto, Simão e eu ajoelhámos para pedir a Deus que abençoasse o Sr. Pintor. Não há senão uma coisa que nos desgosta: é não podermos testemunhar- lhe o nosso reconhecimento, o nosso vivo afecto; é um peso para o nosso coração.

O Sr. Abel não comia; escutava com visível enternecimento as entusiásticas palavras de João, filhas do seu reconhecimento. Não despregava os olhos dele um instante. Admirava o seu lindo rosto tornado ainda mais belo pelo entusiasmo que lhe iluminava o olhar. Estava surpreendido com a linguagem quase eloquente deste pobre camponesito que, poucos meses antes, apenas falava a linguagem própria do campo.

João já não falava e o Sr. Abel olhava-o ainda. Pelo seu lado, João não pensava nem no café nem no serviço; inteiramente dominado pela gratidão ficara imóvel, com os olhos húmidos, e toda a sua atitude exprimia um profundo sentimento de gratidão e afecto.

– És bom rapaz: tens bom coração e sabes reconhecer o que te fazem, João – disse, por fim, o Sr. Abel, apertando-lhe a mão com força. – E agora traz-me o café bem quente.

João foi buscá-lo.

– O senhor – disse ele quando voltou – não poderia saber, por esse alfaiate, o nome do nosso generoso benfeitor? Gostava tanto de poder agradecer-lhe!

ABEL – Talvez possa saber, meu amigo; vou informar- me. E até à noite, em casa do Sr. Amédée! chegarei um pouco tarde, pelas dez horas, porque antes tenho que fazer. . .

O dia passou lentamente; a impaciência de Simão e João aumentava à medida que se aproximava a hora do baile. O patrão deu-lhes licença cedo; jantaram à pressa e treparam ao seu quinto andar, ligeiros como esquilos. Lavaram-se, pentearam-se com esmero. Depois começou a grande toilette; a roupa branca e os fatos foram outra vez examinados, admirados; João abraçava todas as peças que vestia. Combinaram não se verem um ao outro enquanto não estivessem prontos.

– Acabaste? perguntou João.

SIMÃO – Ainda não; espera um instante que eu vista o casaco.

A um sinal combinado, os dois irmãos voltaram-se e soltaram uma exclamação de alegria.

JOÃO – Estás tão bonito, Simão! Pareces um senhor a valer!

SIMÃO – E tu? Um príncipe não faria melhor figura!

JOÃO – Tens os cabelos tão lisos e tão bem arranjados!

SIMÃO – E que rica apresentação tu tens! JOÃO – E como os teus pés parecem pequenos! E como estás elegante! O bom, o excelente Sr. Pintor! Parece-me que, se o visse, não poderia deixar de o abraçar.

SIMÃO – E eu? Apertava-lhe as mãos até lhe partir os ossos!

JOÃO (rindo) – Isso não! Não quero que lhe partas os ossos! Bonita maneira de lhe provar o nosso reconhecimento!

SIMÃO (rindo) – É uma maneira de dizer, tu bem sabes; é apenas para exprimir quanto estou feliz e reconhecido.

JOÃO – A menina Aimée vai achar-te de trás da orelha!

SIMÃO – Sim, ela nunca me viu tão bem vestido. Para dizer a verdade, custava-me ir a este baile com o fato velho.

JOÃO – E graças ao nosso querido benfeitor, vamos soberbos!

SIMÃO – Olá! Faremos a figura de dois burgueses ricos, com as nossas luvas e os nossos chapéus.

JOÃO – E os nossos sapatos! E as nossas gravatas!

SIMÃO – E as nossas camisas finas! E os nossos lenços!

JOÃO – Ouve lá, Simão, é preciso assoarmo-nos muitas vezes?

SIMÃO – Olha que já pensei nisso; mas em lugar de nos assoarmos, o que sujaria os lenços, basta tirá-los muitas vezes do bolso e linpar a testa.

JOÃO – Como se faz? Ensina-me.

SIMÃO – Sim, eu faço primeiro, e tu vês.

JOÃO – Escolhe a ocasião em que a menina Aimée esteja a olhar para ti.

SIMÃO – Pois então, de cada vez que ela olhar para mim, há-de ver o meu lenço.

O rapto das sabinas

Era tempo de ir. Acabavam de dar oito horas. Simão e João tiveram o cuidado de passar pelo café para se mostrarem com os seus fatos novos. Os colegas fizeram- lhes uma grande festa e os dois irmãos saíram alegremente.

Chegaram e logo obtiveram o êxito desejado. Já estava muita gente. Simão e João cumprimentaram o

Sr. e a Sr. a Amédée, e depois dirigiram-se para o grupo das meninas, que olhavam, sorriam, se requebravam, testemunhando, assim, a sua admiração pelos belos dançarinos e a esperança de um desejado convite.

Simão cumprimentou e tornou a cumprimentar a menina Aimée que, por sua vez, fez vénias sobre vénias, saiu do grupo e avançou para Simão e João.

MENINA AIMÉE – Chega muito a propósito, Sr. Simão; vai começar o baile; os cavalheiros vão buscar par.

SIMÃO – Então a menina quer dançar comigo a primeira contradança?

MENINA AIMÉE – Da melhor vontade. E o Sr. João vá dançar com minha irmã Ivone.

JOÃO – Com muito prazer, menina.

João correu para Ivone, que aceitou com alegria um par tão bem vestido; todas as meninas invejaram a felicidade das duas irmãs.

– Aimée e Ivone têm sempre sorte – disse uma rapariga gorda, feia e ruiva, que dançava pouco em geral, e que tinha um vestido de crepe cor-de-rosa velho por cima de uma saia de percal branco, mais curta que o vestido.

– É por serem filhas da casa – disse a menina Clorinda (que trazia um vestido de musselina branca, de corpo em bico e um ramo espetado no fún do bico, o que a incomodava para se sentar). – É por delicadeza que eles as convidam.

– É porque elas são boas e amáveis – disse uma lourinha de dez anos.

As salas enchiam-se. A música tocava; começou o baile. nos intervalos corriam os refrescos. João e os dançarinos mais novos viram, com viva satisfação, a abundância de bolos, refrescos e gelados. O conjunto compunha-se de um violino, um clarinete e um piano. O Sr. Abel chegou às dez horas, como tinha dito. Simão apresentou-o aos donos da casa. Apresentado por tão elegante dançarino, o Sr. Abel obteve o maior triunfo. O seu fato era tão bonito como o de Simão, e feito pelo mesmo modelo; pareciam da mesma casa. Simão recomendou o Sr. Abel, de forma especial, à menina Aimée e à menina Ivone. Abel dançou com uma e com outra, depois outra vez com a menina Aimée, à qual fez um eloquente elogio do seu amigo Simão; a menina Aimée achou que o Sr. Abel era um homem encantador, merecedor de toda a estima e confiança.

– E tão bem vestido! Tal como o Simão! O que mostra – disse às suas amigas – que são pessoas finas e de bom gosto.

O Sr. Abel conversou muito com o Sr. e a Sr.a Amédée, que o escutavam com visível interesse. O baile esmorecia; comia-se mais do que se dançava. O Sr. Abel fez esta observação aos dançarinos e propôs-lhe animar o serão.

Mas como? Ninguém encontrava o meio.

-Eu tenho um, meus senhores – disse o Sr. Abel. É preciso que combinemos todos para ser divertido a valer.

– Então que é? – perguntaram os dançarinos.

SR. ABEL – Primeiro, é preciso reunir todos os rapazes; mais ninguém deve entrar no segredo.

– E nós? E nós? – gritaram as meninas.

SR. ABEL – As meninas menos que ninguém.

O Sr. Abel passou com os rapazes para a sala do lado.

SR. ABEL – Os senhores prometem calar-se até

acabar a brincadeira?

– Prometemos! Juramos! – responderam os rapazes, estendendo as mãos.

SR. ABEL – Muito bem. Vamos fazer o rapto

das sabinas, que se usa imenso e é muito fino. Os

senhores escolhem os seus pares; a contradança começa; façam de conta que não há mais nada; mas, quase no fim, eu digo: alto! Cada um de nós agarra imediatamente uma menina e obriga-a a valsar, quer ela queira quer não. O último que chegar ao seu lugar paga um ponche aos outros dançarinos.

DANÇARINO-E se a menina não souber valsar?

SR. ABEL – Tanto pior para o homem; é preciso

que ele a obrigue a valsar, melhor ou pior, até darem

uma volta ao salão. Entremos e sejamos discretos.

Lembrem-se de que, embora ela grite, ou ofereça

resistência, é preciso dar uma volta ao salão, a valsar

Para ter direito ao ponche, e de que o último a chegar

é quem o paga.

Entraram no salão; todos esperavam ter direito

ao ponche, e nenhum admitia a possibilidade de o

pagar. Escolheram par. Havia mais rapazes do que

meninas, de maneira que as feias foram tão convidadas como as bonitas, Joanico encontrou todas as

meninas já comprometidas; havia apenas a ruiva

gorda; convidou-a.

Que me importa? – pensou ele. – Mal dêem o

sinal, agarro-me a uma menina magra e leve e deixarei

a gorda a quem tiver força para a levar.

Cada qual ocupou o seu lugar. Furrunfunfum, furrunfunfum, começou a música, e a contradança também. As meninas, que esperavam qualquer coisa extraordinária, admiravam-se de não verem nada e ficaram contrariadas. Quando a contradança estava a acabar, o Sr. Abel disse: alto! Os rapazes precipitaram-se para as meninas que preferiam, e que outros não tinham ainda roubado; as meninas assustaram-se e resistiram; os rapazes insistiram; as meninas procuravam fugir; as mães quiseram intervir; a disputa tornou-se geral, e a confusão atingiu o cúmulo. Por fim, a maior parte das meninas começou a compreender; a ordem estabeleceu-se.

Já os pares tinham dado a volta a dançar, e ainda um continuava a mover-se: era Joanico e a ruiva

gorda. Abandonada por Joanico, ninguém a tinha querido; e Joanico, apresentando-se tarde a todas as outras meninas e estremecendo à ideia de ter de pagar o ponche, considerou-se muito feliz ao tornar a encontrar a ruiva gorda, que logo agarrou para valsar; mas ela, furiosa com o abandono de Joanico, procurava libertar-se dele; o medo do ponche triplicou as forças de Joanico; conseguiu arrebatá-la e fazê-la girar, apesar da sua resistência e dos murros que ela lhe assentava com o vigor de um colosso de cem

quilos; o desventurado Joanico, mais pequeno do que ela, recebia-os na cabeça, e não deixava de voltear, agarrado aos folhos do seu vestido. Ela, de seu lado, gritava e vociferava mil injúrias.

Ai! O pobre Joanico suportou com varonil coragem este granizo de pancada, empregou todos os

esforços para dar a volta ao salão, mas a dançarina obrigou-o a largá-la e deixou-o sozinho, imóvel, ao pé de um grupo de homens, no meio dos quais a menina procurou socorro e protecção.

Durante esta cena, João no meio das risadas, disse ao Sr. Abel:

– Pobre Joanico! Terá de pagar o ponche! Que pena o Sr. Pintor não estar aqui!

O Sr. Abel apareceu ao pé de Joanico no momento em que ele se viu obrigado a largar o par. Meteu-lhe uma moeda de vinte francos na mão e disse-lhe baixinho:

– Para pagar o ponche. – E desapareceu.

Ao chegar ao fundo da escada, parou um instante a reflectir no serão; recapitulava os acontecimentos em que tinha tomado parte, quando ouviu a voz de João e Joanico.

JOANICO – Sou obrigado a pagar o ponche! É o meu enguiço que me persegue! O Sr. Abel inventa coisas absurdas! Toda a gente se saiu bem: todos riem, todos estão contentes; só eu tive a desgraça de me calhar uma menina gorda, com cem quilos de peso, que me encheu de pancadaria e me fez pagar este maldito ponche?

JOÃO – Pobre Joanico! Eu pago metade.

JOANICO – E eu que aceito! Quanto poderá custar?

JOÃO – Para tanta gente, dez francos, pouco mais ou menos.

JOANICO – E onde hei-de ir buscá-lo?

JOÃO – Queres que vá numa corrida ao café?

JOANICO – Quero, sim, e diz que me façam o menor preço; eu sou pobre.

JOÃO – Está descansado; farei o que puder.

João saiu a correr e não tardou a voltar com uma taça de ponche fumegante. Nenhum deles percebeu que o Sr. Abel estava a seu lado, oculto na sombra.

JOANICO – Então, quanto custa o ponche?

JOÃO – Deram-mo por oito francos, em vez de dez, por ser para nós.

JOANICO – Nesse caso, devo- te quatro francos, visto pagares tu metade.

JOÃO – Sim, eu pagarei os quatro francos que faltam.

Joanico remexeu no bolso, tirou o dinheiro, contou e entregou quatro francos a João, esquecendo-se de lhe agradecer a sua generosidade; o Sr. Abel indignado, e querendo castigar Joanico pelo seu embuste e pela sua avidez, estendeu a mão, meteu-a no bolso do casaco de Joanico, sem que ele sentisse, e tirou a moeda de ouro que lhe tinha visto lá meter.

Marotices de Joanico

Quando Joanico entrou em casa, apressou-se a tirar e a contar o dinheiro que trazia na algibeira. Ele bem contou e bem procurou a moeda de ouro que o desconhecido lhe dera; ficou desesperado; contava com os vinte francos para comprar o fato que Simão lhe emprestara. Chorou, bateu com os punhos na cabeça, mas todo esse desespero não lhe restituiu os vinte francos.

Depois de ter reflectido sobre o que devia fazer resolveu ir no dia seguinte contar o caso a João, para, contando com o seu bom coração, procurar enternecê-lo e fazer com que lhe desse os quatro francos do ponche, que pagara. Esta esperança acalmou-o e dormiu sossegadamente.

No dia seguinte, ainda cedo, Joanico aproveitou-se de um recado que o patrão lhe mandou fazer para entrar no Café Métis e falar a João. Simão estava presente, o que contrariou Joanico; receava ele que Simão não se deixasse impressionar como João, pelas suas choraminguices e súplicas.

Depois de ter esperado, inutilmente, que Simão se afastasse, decidiu-se a falar:

– Sou muito infeliz – começou ele. – Tive ontem uma grande perda.

JOÃO – Uma perda? Tu? Que foi?

JOANICO – Eu queria comprar ao Simão o fato que ele me emprestou ontem à noite, e metera na algibeira uma moeda de vinte francos para o pagar; quando voltei para casa já a não tinha.

Simão fez um movimento como quem se ia a levantar da cadeira, mas tornou a sentar-se e não disse nada. O Sr. Abel acabava de entrar e fazia-lhe sinal para que se sentasse e deixasse falar João e Joanico; ambos estavam de costas voltadas e não o podiam ver.

JOÃO – Vinte francos! Tu perdeste vinte francos? Pobre Joanico! Tenho muita pena!

Não era isto o que Joanico pretendia; ele esperava melhor do bom coração do primo. E continuou.

JOANICO – E ainda se não fosse o maldito ponche, podia dar-lhe este mês metade do custo do fato, e acabar de o pagar para o mês que vem. . . Sou muito infeliz, João.

JOÃO – Meu pobre Joanico, estou triste por tua

causa; mas não te aflijas tanto. Tu bem sabes que o

Simão é muito bom. Estou certo de que te emprestará o fato todas as vezes que precises dele.

JOANICO – Mas o ponche que eu tive de pagar?

Tu sabes que foram oito francos.

JOÃO – Oito francos, como? Eu paguei metade;

são só quatro francos.

JOANICO – É verdade! Não me lembrava. . .

Quatro francos, que é pouco para ti, mas para mim é

muito. Ganho tão pouco!

JOÃO – Escuta, Joanico; se tens, realmente, precisão de dinheiro, Simão há-de permitir que te dê

mais esses quatro francos.

– João, proíbo-te – disse o Sr. Abel, em tom decidido.

A sua aparição fez saltar Joanico, que tinha medo

do Sr. Abel e não gostava de o encontrar.

– Eu não quero que tu dês, nem um soldo, a este

maroto – continuou o Sr. Abel, com uma severidade

que João nunca lhe tinha visto. – Ele engana-te; ele

mente, não perdeu nada; e se não tem mais dinheiro, tanto melhor; gasta-o muito mal.

Joanico tivera tempo de recobrar coragem e levantou a cabeça para o Sr. Abel.

JOANICO – Por que está o senhor a injuriar-me? Eu não lhe fiz nada e o senhor acusa-me sem saber se o que digo é verdade ou não.

SR. ABEL – Eu digo que mentes, porque o sei. E não te deixo enganar o João, porque sei que já o enganaste.

JOANICO – Não, senhor; eu não o enganei.

SR. ABEL – Cala-te, mentiroso! Ontem à noite extorquiste-lhe quatro francos para pagar metade do ponche e tu tinhas acabado de receber vinte francos para esse efeito.

JOANICO – Eu, vinte francos! O senhor quer enganar o Simão e o João para eles não me ajudarem. Quem é que me havia de dar vinte francos? Eu não conhecia ninguém no baile.

SR. ABEL – Mas alguém te conhecia; esse alguém teve dó de ti e não quis que pagasses a comédia que eu inventara; por isso te meteu vinte francos na mão para pagares o ponche.

JOANICO – Não, senhor, ninguém teve pena de mim e ninguém me deu nada. Além disso, o senhor não estava lá nesse momento e, por conseguinte, nada viu.

SR. ABEL – Visto que me obrigas a falar, digo-te que estava muito perto de ti, que fui eu que te meti a moeda de ouro na mão e te disse baixinho: Para pagar o ponche. E se não encontraste os vinte francos foi porque eu mesmo os tirei do teu bolso quando tiveste a indignidade de fazer pagar quatro

francos a este pobre João, depois de o convenceres de que não tinhas dinheiro. Eu estava ao fundo da escada e ouvi tudo.

O Sr. Abel calou-se. Joanico estava consternado; tremia como varas verdes. João olhou-o com surpresa e desgosto. Indignado com tão baixo embuste, custava- lhe a acreditar.

Simão esforçava-se por dominar a sua cólera; gostava muito do irmão e não podia admitir que abusassem da sua bondade. Ninguém falava.

SR. ABEL – Vai-te daqui para fora, impostor! Vai-te e não apareças mais na minha frente!

O Sr. Pintor é desmascarado

Simão estava aterrado com o atrevimento, o descaramento e a trapaça do primo; João estava muito

incomodado e, pela primeira vez, chorou. O Sr. Abel

olhava os dois irmãos, sobretudo João, com uma

pena e um interesse visíveis. Quando acabou de almoçar, chamou Simão.

SR. ABEL – Anda cá, Simão, quero dizer-te

uma coisa.

Simão aproximou-se.

– Tenho uma boa nova para te dar. Tu agradas

muito ao Sr. e à Sr.a Amédée; e à menina Aimée

ainda mais.

SIMÃO – Oh! É possível? Um pobre rapaz como eu?

SR. ABEL – É verdade. Ontem, toda a noite me ocupei de ti, e o que te digo é certo. Os pais acham que vocês são muito novos para casar já, mas disseram-me que teriam muito prazer em te ver mais vezes em sua casa.

SIMÃO – Eu não posso acreditar em semelhante felicidade! Eu que não tenho nada. . .

SR. ABEL (rindo) – Quanto a fortuna, meu rapaz, não se sabe o que está para vir; podem aumentar-te o ordenado; podes chegar a ser primeiro empregado, ou mesmo sócio.

SIMÃO – Para isso era preciso que eu estivesse na casa há muitos anos.

SR. ABEL-Não se sabe. . . não se sabe que ideias passam pela cabeça dum dono de café. . . O Sr. Métis já não é muito novo, estima-te muito; tem muita confiança em ti; e toda a gente gosta de ter um sócio inteligente e honesto.

SIMÃO – Mas isso não basta, senhor; é preciso ter dinheiro, uma caução.

SR. ABEL – Isso é o menos; cá estou eu para te auxiliar, para te servir de fiador; e não tenho medo de perder o dinheiro.

SIMÃO – Oh senhor, será possível?

Simão ficou de mãos juntas diante do Sr. Abel, não sabendo como lhe agradecer, nem ousando manifestar-lhe toda a sua gratidão e felicidade.

João tinha ouvido tudo, e compreendido: olhava para o Sr. Abel com uma expressão particular. De

repente, caminhou para ele, abraçou-lhe os joelhos e

exclamou.

– O senhor é que é o Sr. Pintor; o senhor é o

nosso benfeitor, o coração de ouro que nos quer bem. Adivinho-o. Tenho a certeza: é o senhor; sim; é

o senhor! Deixe-me beijar-lhe as mãos e dizer-lhe

quanto gosto de si, quanto o respeito, com que ternura penso em si, como sou feliz em encontrá-lo. Querido Sr. Abel! Simão será feliz graças ao senhor! Que

Deus o abençoe! Que Deus o proteja! Que Deus o

recompense…

E desatou a soluçar.

O Sr. Abel, muito comovido, levantou-o, apertou-o nos braços, beijou-lhe a testa, as faces banhadas de lágrimas, e estendeu a mão a Simão, que a apertou nas suas e que, cedendo a uma atracção irresistível, a beijou, curando-se profundamente.

SR. ABEL – Estou descoberto! Não há meio de

resistir à perspicácia deste Joãozinho! Vocês têm-me

dado momentos de muita felicidade, patenteando- me os tesouros de duas belas almas sinceramente cristãs e honestas! Não tenho pais; não tenho mulher nem filhos; portanto posso, sem prejudicar ninguém, ter o prazer de vos fazer bem. Mas. . . aí vem gente.

Levanta-te, Joãozinho, Simão, tu hás-de ter-me ao

corrente dos teus negócios – ajuntou o Sr. Abel, sorrindo e apertando-lhe a mão. E se te falarem na

tua fortuna, fica sabendo que já tens três mil francos em obrigações do Caminho de Ferro de Leste e que

em breve terás muito mais.

SIMÃO – Oh! Senhor!

SR. ABEL – Chut. Está aí gente. até amanhã meus filhos. Adeus, Joãozinho, tu é que tens um coração de ouro. . . Silêncio! Até amanhã.

O Sr. Abel saiu, sentindo-se quase tão feliz como os seus dois protegidos.

À noite, Simão e João subiram ao quarto para escreverem à mãe; mas primeiro abraçaram-se e

felicitaram-se. Rezaram juntos a Deus; agradeceram-Lhe e pediram-Lhe que abençoasse o seu benfeitor e o fizesse feliz. Depois puseram-se a escrever, cada um por seu lado.

Segunda visita a Kérantré

Helena Dutec já estava separada do filho havia mais de dois anos; recebia regularmente notícias, tanto de João como de Simão; regozijava- se de os saber felizes e recebia, muitas vezes, quantias que iam além das suas esperanças; eles mandavam-lhe aos vinte e aos quarenta francos. A abastança e o bem-estar reinavam na sua casinha. Raramente passava quinzena sem que o bom Kersac lhe fizesse uma visita; de cada vez levava com que se entreter, como ele dizia.

– Porque, minha boa senhora, aqui onde me vê sou muitíssimo egoísta; assim, no outro dia, trouxe um par de cadeiras; hoje lembrei-me de que precisava de uma poltrona, e trouxe-a na carroça. . . A senhora não me quer mal por eu me tratar com tantos mimos, não é verdade? Com os anos vou-me tornando muito melindroso; a senhora é boa e não pensa mal de mim, não é verdade?

HELENA – Mal? Pensar do senhor? Como se eu não compreendesse porque é que traz tudo isso! Esta mesa é para si, não é?

KERSAC – Certamente. Detesto comer na mão.

HELENA – E o armário? É para si também?

KERSAC – O armário é para guardar as coisas que lhe trago e venho comer em sua casa.

HELENA – E a cama da pequenita?

KERSAC – A cama é para saber que a minha protegida dorme bem. Não gosto de ver uma cama velha e desconjuntada.

HELENA – E as toalhas? E a louça? E a lenha? E as outras coisas todas?

KERSAC – As toalhas é para ter com que me enxugar. A louça é para comer nela. A lenha é para ter uma boa fogueira quando chego cheio de frio. Enfim, eu sou assim mesmo; aprecio o conforto. A senhora não faça má ideia de mim, lá porque sou um pouco. . . um pouco. . . vá, é preciso acabar a frase: um pouco. . . egoísta.

Helena sorriu.

– Que Deus nos faça assim egoístas, a todos nós, Sr. Kersac.

KERSAC – E notícias dos pequenos?

HELENA – Escreveram-me ambos, Sr. Kersac. O Sr. Abel tem sido muito bom para eles. Ali está uma pessoa que tem um verdadeiro coração de ouro, como diz o meu João.

E Helena contou a Kersac tudo o que o Sr. Abel tinha feito e prometido, como arranjara a Simão um excelente casamento.

KERSAC – Mas, nesse caso, daqui a um ou dois anos, a senhora tem de ir ao casamento.

HELENA – Eu, senhor! A um casamento a Paris? Que ia eu lá fazer, meu Deus! E que figura a minha!

KERSAC – Deve ir. A mãe deve estar presente.

HELENA – A mãe sim, mas a madrasta não.

KERSAC – Como, a madrasta?

HELENA – Sim, meu senhor. Eu não tenho outro filho além do meu Joãozinho. Quando casei com o meu marido, já o Simão tinha perto de nove anos.

KERSAC – Aí está uma bela descoberta. Então que idade tem?

HELENA – Tenho trinta e três anos, meu senhor. Casei-me aos dezassete.

KERSAC – Eu bem dizia comigo: Esta mulher está muitíssimo bem conservada! Quem diria que ela tem um filho de vinte e quatro anos!, Ah! Mas isso que me diz dá-me muito prazer, e já lhe digo porquê: Como sabe, eu sou solteiro e preciso de uma mulher para a herdade, uma mulher que dirija a casa, que trate da cozinha, enfim, que faça os serviços de uma caseira. Até agora não tenho tido sorte. Não consegui ainda encontrar uma mulher honesta, activa, inteligente, que zele pelos meus interesses e que saiba administrar uma herdade. Pensei em si, mas dizia comigo: Ela tem um filho de vinte e quatro anos;

portanto, tem, pelo menos, quarenta e um ou quarenta e dois anos. É tarde para começar. E, afinal, tem apenas trinta e três! Mas, é esplêndido! Vê, é

Deus que atende a sua súplica, visto que Lhe pediu

que me fizesse feliz! E eu sou feliz! Não terei mais

nada que recear, nem que vigiar, nem que ralhar.

Tudo caminhará bem; quando eu adoecer, trata de

mim, quando me ausentar, toma a direcção de tudo.

– Mas – disse Helena, rindo – o senhor resolveu tudo isso sem saber se eu posso, se conheço o

serviço de uma herdade, se sei ordenhar uma vaca e

criar galinhas. Uma caseira deve saber tudo isso a

fundo.

Kersac deteve-se, consternado.

– É verdade! E não sabe? Diga depressa acrescentou, com vivacidade, vendo que ela hesitava.

HELENA – Sei, sim, senhor. Sou filha de um

proprietário; trabalhei numa herdade desde que me

conheço; só a deixei depois da morte do meu pai e do

meu marido.

KERSAC – Então por que demónio me assusta?

, Eu não lhe pergunto se quer, visto que pode. Desde

que se trata de me ser útil não hesitará, tenho a

certeza. Quando hei-de mandar-lhe uma carroça para fazer a mudança?

HELENA-Quando quiser. Nada me prende

aqui. Não se enganou, supondo que eu consentiria.

Terei muito prazer em lhe ser prestável e darei graças

a Deus por me proporcionar maneira de lhe mostrar

o meu reconhecimento.

KERSAC – Então, para a semana. Hoje é quinta; muda na próxima segunda-feira.

HELENA – Estarei pronta.

KERSAC – Bem; está tudo resolvido; estou satisfeito. Não lhe falo em ordenado; há-de passar-lhe bastante dinheiro pelas mãos, mais do que o preciso para os gastos; ficará com o que entender e quiser. Não preciso de lhe fixar a quantia, pois não receio que fique com muito.

HELENA – E a Mariazita?

KERSAC – Irá consigo.

HELENA – Isso será talvez incómodo para o senhor.

KERSAC – Incómodo? Nenhum. Quando ela fizer vinte e um anos, adopto-a e caso-a com o João. Já tracei o meu plano. Como sabe, sou egoísta. Disponho as minhas coisas como entendo. . .

HELENA – e sem esquecer os outros. Meu Deus! Como é bom ser egoísta como o senhor é!

KERSAC – Mas é que é verdade. Vê? Leva-se uma vida agradável, arranjam-se amigos. . .

HELENA – Muito dedicados e muito reconhecidos, meu senhor.

KERSAC (sorrindo) – Sempre! Os amigos são sempre dedicados e reconhecidos; não sendo assim, não são amigos. . . e o jantar, que nós esquecemos? A Maria está aqui a chegar, e se não tenho alguma coisa para meter no estômago, como-a a ela sem mais tempero do que sal!

Helena espertou a fogueira, tirou do armário o preciso para fazer uma omeleta e temperar uma salada. Precisamente no momento em que Helena punha a omeleta no prato, a Mariazita entrou, corada e alegre.

Correu para Kersac, que a beijou nas duas faces. Ela retribuiu os beijos, dizendo:

– Tantos dias sem o ver! Porque esteve tanto tempo sem cá vir?

KERSAC – Porque estamos no tempo das colheitas, Mariazita, e nesta ocasião os homens e os cavalos têm muito que fazer.

Quando Maria soube que iria morar para a herdade de Kersac, não coube em si de contente.

– Vamos agora já, leve-nos agora já – repetia ela, insistentemente.

HELENA – É impossível, Maria. Preciso de tempo para pagar o que devo, para me despedir do senhor abade e da minha irmã Mariana, e para arranjar as malas; sim, porque eu agora tenho malas – disse ela sorrindo e voltando-se para Kersac – e não quero deixar o que o senhor me deu.

KERSAC – Leve tudo o que quiser, Helena; eu mando- lhe a carroça maior que tenho.

HELENA – Obrigada, meu senhor; eu cedo a casa a minha irmã; assim escusa ela de pagar mais renda.

Kersac tinha acabado de jantar; levantou-se para atrelar o cavalo; Helena acompanhou-o e ele foi-se embora, repetindo:

– Até segunda-feira!

O Sr. Abel procura empregar o João

Certo dia, o Sr. Abel disse ao João, quando este lhe servia o almoço.

– Preciso de falar contigo, João. Daqui a pouco o Simão casa-se. Julgo que o pai da menina Aimée quer que o casamento se realize na próxima Primavera. Logo que Simão case e passe a ajudar o sogro na loja, eu não quero que continues aqui. Os teus companheiros não são lá muito bons; haviam de procurar levar-te para mau caminho, e tu não terias forças para resistir, decerto; perderias os teus hábitos cristãos, os teus bons sentimentos, o que me causaria grande desgosto.

JOÃO – Que posso eu fazer para lhe poupar essa inquietação? Espero, com o auxilio de Deus nunca lhe dar tal desgosto. Mas faça de mim o que quiser: obedecer-lhe-ei em tudo.

SR. ABEL – Obrigado, meu filho. Olha, o meu plano é este: tiro-te daqui e coloco-te em casa de uns amigos meus, muito bons; os senhores são muito piedosos, e os filhos são encantadores e muito bem-educados; é uma familia excelente, caridosa e rica. A tua principal ocupação será tratar e distrair um menino de dez anos, que é uma verdadeira jóia. Está de cama há mais de um ano, sofre muito e nunca se lastima, nunca se impacienta. É um autêntico santinho.

JOÃO – Obrigado, senhor, obrigado.

SR. ABEL – Vou tratar do assunto; amanhã dou-te uma resposta definitiva.

João correu a contar a Simão o que o Sr. Abel lhe dissera; Simão ficou também muito contente.

– Visto eu deixar o café – disse ele -, gosto que saias também e que o Sr. Abel se encarregue de te arranjar colocação.

Palavras não eram ditas, entrou no café o Joanico.

– Venho pedir-te um favor, Simão – disse ele com ar decidido.

SIMÃO – Que é que queres?

JOANICO – Peço-te que me arranjes uma colocação. Vou deixar a mercearia. Antes quero ir para uma casa.

SIMÃO – Eu conheço pouca gente e passo os dias a servir os fregueses; por isso não tenho tempo para te procurar colocação.

JOANICO – Pede ao Sr. Métis que me deixe vir para cá.

SIMÃO – O Sr. Métis é que procura os empregados; não gosta que se metam na sua vida.

JOANICO – Tu és muito amável; agradeço-te a bondade.

Simão não respondeu.

JOANICO – Eu sei o que é; tu o que não queres é recomendar-me.

SIMÃO – É possível; eu não recomendo as pessoas que não conheço; e tu estás nesse caso; não nos venhas ver mais.

JOANICO – Foi aquele velhaco do Pontois que te disse mal de mim?

SIMÃO – É possível; e pela forma como falas do teu patrão, vejo que não mentiu.

JOANICO – Que foi que ele te disse?

SIMÃO – Nem eu tenho necessidade de to dizer, nem tu de o saberes.

JOANICO – Quero saber, hás-de dizer.

SIMÃO – Nem o direi, nem o saberás.

JOANICO – Toma cuidado! Olha que posso fazer-te mal!

SIMÃO – Faz o que entenderes e vai-te embora.

JOANICO – Se algum dia te encontrar no meu caminho e te puder ser bom, a ti e ao João, não deixarei de o ser.

SIMÃO (vivamente) – Livra-te de tocar no João, que eu entrego-te à polícia.

JOANICO – Não tenho medo da polícia. Pela última vez te pergunto se me queres arranjar um emprego.

SIMÃO (com força) – Não e não! Já te disse que não, e repito que não! Vai-te embora!

Joanico afastou-se lentamente, fazendo ameaças com o punho.

JOÃO – Perdoa-lhe, Simão; ele não estava em si; estou convencido de que já está arrependido de ter falado daquela maneira.

SIMÃO – Não, meu amigo, aquele não se arrepende; assim como não se arrependerá do seu mau comportamento senão quando for muito tarde. Pontois falou-me dele ultimamente e, segundo o que me disse, Joanico está perdido.

JOÃO – Meu Deus! Meu Deus! Pobre Joanico! Talvez que, metendo-o numa casa boa, piedosa e honesta, ele se tornasse bom.

SIMÃO – Não me parece. Em todo o caso, eu não o posso recomendar como rapaz honesto e bem comportado.

João não disse nada, mas pôs-se a pensar. . .

O Sr. Abel coloca Joanico

No dia seguinte, João esperou com impaciência o Sr. Abel; logo que o avistou, correu para ele.

JOÃO – Tenho uma coisa muito importante a dizer-lhe, mas é segredo!

SR. ABEL – Ah! Tu tens segredos? Serei mudo como um penedo; podes dizer o que quiseres.

João foi buscar um bife e batatas bem quentinhas, bem lourinhas, um pãozinho fofo e uma garrafa de vinho de primeira qualidade.

JOÃO – Vá! Coma, senhor! Enquanto almoça, vou contar-lhe uma coisa e pedir-lhe um grande favor.

SR. ABEL – Fala; sou todo ouvidos.

João contou-lhe o que se passara na véspera e acabou por lhe pedir, com insistência, que colocasse Joanico.

SR. ABEL – Mas, meu amigo, eu acho que o Joanico se portou muito mal com o Simão, e que não merece a minha protecção nem a tua.

JOÃO – Sr. Abel, pense que o Sr. Pontois vai mandá- lo embora e que o desgraçado Joanico morrerá de fome e de frio, porque o Inverno está à porta.

SR. ABEL – É verdade, mas como queres que recomende um rapaz que eu não queria para mim?

JOÃO – O senhor tem sido tão bom, tão bom, que, se não receasse aborrecê-lo, diria que não há santo melhor do que o senhor. E seria mau para Joanico? É impossível! Tenha dó dele, perdoe-lhe, salve-o!

SR. ABEL – Escuta, meu rapaz; por ti, pela amizade que te dedico, farei o que pedes, mas. . .

JOÃO (juntando as mãos) – Sério? Oh! senhor! Eu não digo nada, mas veja o que lhe diz o meu coração!

SR. ABEL (sorrindo) – Vejo e agradeço. Mas, entendamo-nos. Para o colocar, é preciso que eu saiba tudo. Fala-me francamente, como a um amigo que não queres enganar; responde apenas às perguntas que te vou fazer. Julga-lo honesto?

JOÃO (hesitando e baixando os olhos) – Não, senhor.

SR. ABEL (sorrindo) – Um. Julga-lo activo, trabalhador?

JOÃO (da mesma maneira) – Não, senhor.

SR. ABEL – Dois. Julga-lo religioso?

JOÃO – Não, senhor.

SR. ABEL – Três. Julga-lo prestável?

JOÃO – Não, senhor.

SR. ABEL – Quatro. Julga-lo sincero, leal?

JOÃO – Não, senhor.

SR. ABEL – Julga-lo bom companheiro, com bom feitio?

JOÃO – Não, senhor.

SR. ABEL – Julga-lo asseado, bem comportado, inteligente?

JOÃO – Não, senhor.

O Sr. Abel pôs-se a rir com tanta vontade, que João não pôde deixar de rir também. Quando lhe passou o acesso de riso, o Sr. Abel continuou:

– Meu pobre rapaz: que queres tu que eu faça de semelhante garoto? Não te assustes; colocá-lo-ei. Mas, que hei-de eu fazer? A quem e como hei-de pedir que tome ao seu serviço um rapaz que, além de ladrão, é mentiroso, ateu, resmungão, desenxabido, malcriado, porco, desordenado, estúpido e não sei que mais ainda? Apre! Que tarefa tu me dás! Que favor absurdo me pedes! É estúpido de todo! Não sei o que hei-de fazer!

E o Sr. Abel continuou a rir. João começou a inquietar-se: reconhecia que o seu pedido era absurdo; receou ter abusado da bondade do Sr. Abel.

– Perdoe-me, Sr. Abel – disse em tom suplicante -, não faça caso! Reconheço que lhe pedi uma coisa impossível! Mas aquele pobre Joanico inspira-me tanta compaixão! Quanto pior é, mais eu o lastimo.

SR. ABEL- E tens razão, meu filho; os maus são dignos de lástima. Não julgues que me aborreceste; compreendo muito bem o teu pensamento. . . É. . . quem sabe?. . . talvez eu o possa regenerar, fazer-lhe bem.

JOÃO – Se o conseguir, como Deus o abençoará!

SR. ABEL (rindo) – E como tu me olharás! Melhor ainda do que me olhas agora. A propósito: a tua colocação está arranjada; vais para casa dos meus amigos Grignan. Pergunta ao Simão se lhe agrada que vás para lá. É o teu irmão mais velho, o chefe da tua familia; é ele que deve decidir. E agora, que os nossos negócios particulares estão arrumados, vou tratar dos meus. . . e dos do Joanico ladrão, mentiroso, etc. Ah Ah Ah!

E foi-se embora, sempre a rir.

João contou ao irmão o que o Sr. Abel prometera arranjar para o Joanico, e o que arranjara para ele, a não ser que o Simão discordasse.

SIMÃO – Nessas condições, e visto que disseste tudo ao Sr. Abel, não há inconveniente em que ele coloque o Joanico; será uma grande vitória. E pelo que te diz respeito, gostaria que esperasses até que se fixasse a data do meu casamento, e o sr. Métis encontrasse empregados capazes que nos substituam.

JOÃO – Como queiras. Eu sinto-me mais feliz junto de ti do que de qualquer outra pessoa; e dessa maneira, mais tempo estaremos um ao pé do outro.

Quando o Sr. Abel entrou no seu gabinete de trabalho, encontrou lá o seu amigo Caim, o qual reparou na boa disposição do pintor.

SR. CAIM – Que viste tu hoje para estares assim tão alegre? Pareces o riso em pessoa!

SR. ABEL – Ah Ah Ah! Adivinhaste Ri no café, ri na rua, rio agora, e rirei sempre que pensar em tal coisa! Ora imagina que, cedendo aos pedidos do meu amigo João, me comprometi. . . sim, comprometi a colocar como criado um rapaz que, além de ladrão, é mentiroso, porco, desenxabido, etc.

SR. CAIM (rindo) – Todas as qualidades juntas, pelo que vejo; e esse criado ladrão, mentiroso, etc. , quem vem a ser? Como se chama?

SR. ABELJoanico, o Joanico da minha especial antipatia.

SR. CAIM – E para quem reservas esse tesouro?

SR. ABEL – Palavra, que não sei! Tens de me ajudar a cumprir a minha promessa.

SR. CAIM – Da melhor vontade! Sou como tu, gosto do que é extravagante! E não vejo nada mais original do que a gente interessar-se por um Joanico.

SR. ABEL – Bem! Vou trabalhar! E tu, enquanto me vês pintar, procura uma ideia, mas que seja boa. Despacha-te, para eu amanhã já poder dar a resposta ao João.

SR. CAIM – Não tens que esperar. Já pensei num maroto que nos dará a solução.

No dia seguinte, Abel chegou ao café e disse:

– João, traz o almoço depressa, que eu conto-te o que fiz.

O João apressou-se a trazer o almoço e ficou em

frente do Sr. Abel, esperando com impaciência que ele falasse. Não esperou muito.

SR. ABEL – Pois bem, meu amigo, já tenho uma

colocação para o Joanico.

JOÃO – Já? Como o senhor é bom!

Abel olhou-o e sorriu.

SR. ABEL – É um lugar muito bom; gente muito rica, que paga bem, que não é má. O Joanico será

bem alinìentado, bem vestido e bem pago. Já vês que

fica muito bem.

JOÃO – E será bem tratado?

SR. ABEL – Palavra que não sei; isso depende

dele.

JOÃO – O senhor era capaz de me mandar para

lá?

SR. ABEL – Não! Tu, não! Nunca! Mais depressa te mandava para a tua aldeia.

JOÃO – Mas, então, acha que o Joanico fica lá

muito mal?

SR. ABEL- O Joanico fica lá muito bem! O

Joanico é mau, ladrão, mentiroso, etc. , e uma casa

honesta e sossegada não lhe convinha; não estava lá

mais que dois dias. A ti, meu rapaz, coloco-te numa

excelente casa, com bons patrões, caridosos, que sabem que todos os homens são irmãos e que os tratam

como tais. Ficarás sob as ordens de um criado de

quarto, exemplar. Amanhã venho buscar-te para ires

a casa dos teus futuros patrões. Veste-te como deve

ser.

JOÃO – Sim, senhor; estarei pronto.

Quando o Sr. Abel se foi embora, João, sempre tão alegre, sentou-se tristemente numa das cadeiras que rodeavam as mesas. Simão entrou e, vendo-o sério e imóvel, aproximou-se dele.

SIMÃO – Estás tão triste!

JOÃO – O Sr. Abel leva-me amanhã a casa dos meus futuros patrões, e depois já não estou contigo.

SIMÃO – Mas vês-me muitas vezes, sobretudo depois de eu me casar; a minha nova vida deixa-me mais livre.

João apertou-lhe a mão, procurou recuperar a alegria e acabou por o conseguir.

O Sr. Abel, quando saiu do café, foi ao merceeiro. Encontrou Joanico sozinho na loja, a comer aÇú car.

SR. ABEL – Anda cá, maroto! A pedido do João, arranjei-te um lugar, um bom lugar, muito melhor do que tu mereces. Amanhã, pelo meio-dia, vais à Rua de Penthièvre, nº 28; sobes ao primeiro andar, perguntas pelo Sr. Boissec, mordomo do Sr. Conde de Pufières, e dizes-lhe que vais de mando do Sr. Caim. Já estão à tua espera e sabem ao que vais. Lá, saberás o resto.

JOANICO – Muito obrigado, meu senhor; estou-lhe muito grato.

SR. ABEL – Bem, bem. O que fiz não foi por ti, foi pelo João. Vai chamar Pontois.

JOANICO (humildemente) – Sim, meu senhor. Agradeço- lhe muito, meu senhor; eu não sou o que o senhor julga; o Simão e o João, naturalmente, disseram-lhe muito mal de mim.

SR. ABEL (vivamente) – Cala-te! Nem mais uma palavra!

Joanico apressou-se a sair.

Ingrato – disse Abel consigo mesmo. – Quando João lhe presta um serviço que mais ninguém lhe prestaria, atreve-se a acusá-lo! Se não fosse a promessa que fiz ao João, anulava o negócio com o Caim. Ora o maroto! O velhaco!

SR. PONTOIS – Que quer?

SR. ABEL – Quero-lhe falar a respeito do rapaz a quem chamam Joanico. O senhor não terá que o aturar mais. Eu livro-o dele. Mande-o amanhã aonde eu lhe disse que fosse. É preciso que ele vá, ouve? É preciso. Faltam- lhe oito dias para acabar o mês; aqui tem a indemnização.

Atirou para cima do balcão uma moeda de vinte francos e saiu, deixando Pontois estupefacto.

João em casa do menino Rogério

O Sr. Abel veio almoçar ao café; como de costume, João sorriu-lhe, mas o seu sorriso era triste; olhou-o, mas os seus olhos estavam húmidos.

SR. ABEL – Coragem, rapaz! Bem vejo o que te aflige: é deixares o teu irmão. Mas tu continuas perto dele, e hás-de vê-lo muitas vezes; de qualquer maneira tinhas de o deixar, quando ele fosse para a loja do sogro.

JOÃO – É verdade! Isso já eu tenho pensado muitas vezes. Mas. . . gosto muito do Simão. É meu irmão. . . E tem sido tão bom para mim! Continuarei a vê-lo, é verdade, mas já não é a mesma coisa. . . E ao senhor, também o hei-de ver, sem dúvida, mas não todos os dias, como o via aqui; e aqui podia dizer-lhe tudo, confiar-lhe todas as minhas alegrias, todas as minhas inquietações.

SR. ABEL – Pobre rapaz! Então tu gostas muito de mim?

JOÃO – Se gosto! Se gosto! Como de um pai! Como de um benfeitor!

João não disse mais nada. O Sr. Abel acabou de almoçar, em silêncio. Levantou-se e procurou Simão.

– Simão – disse-lhe ele -, vi ontem o Sr. Amédée; ele consente que o teu casamento se realize para a Quaresma; e, entretanto, vais lá para o estabelecimento, a fim de te pores a par dos negócios. De amanhã em diante ficas sendo hóspede do Sr. Amédée. O Sr. Métis já deu licença para que saias assim de repente. Até à vista, Simão! E tu, João, vem comigo e tem coragem! Hás-de gostar muito de estar em casa da Sr.a Grignan.

JOÃO – Não ponho dúvida. Não é isso que me inquieta, mas sim o que lhe disse.

SR. ABEL – Sim, meu amigo, bem sei; mas o que se passa contigo, passa-se com toda a gente. Todos nós temos de nos separar de pessoas que estimamos.

Foram andando e conversando, até que chegaram a um belo palácio da Avenida Gabriel.

SR. ABEL – Aqui tens a tua nova casa. Vou apresentar-te aos teus patrões.

O Sr. Abel e João subiram a escada, entraram primeiro numa sala, e depois noutra onde a dona da casa estava sentada a uma secretária a escrever.

– É o senhor, meu caro Abel! – disse ela, levantando-se. – E esse rapaz é o seu amigo João, sem dúvida. Veja como eu o conheço, João. . . parece assustado! O Sr. Abel deve ter-lhe dito que será bem tratado em minha casa.

JOÃO – O Sr. Abel disse-me que V. Ex. a é muito boa, minha senhora; que todos aqui são muito bons e que há um menino muito doente, que é um santinho.

A Sr. a Grignan estendeu as mãos ao Sr. Abel e disse:

– Obrigada, meu amigo, por ter falado assim do meu pobre Rogério. Ele está ansioso por conhecê-lo, João; o Sr. Abel falou-lhe em si.

JOÃO – Também eu gostava muito de o ver, minha senhora.

SR.a GRIGNAN – Pois bem, siga-me. Venha também, Abel; o Rogério fica sempre muito contente quando o vê.

A Sr. a Grignan abriu uma porta e fê-los entrar num quarto onde Rogério estava deitado; mostrava um rostozinho pálido e magro; as mãos e os braços não tinham senão a pele e o osso. Mal podia voltar a cabeça no travesseiro, tão enfraquecido estava pelo sofrimento. Quando os viu entrar, um sorriso doce e amável animou-lhe um instante a expressão.

– Meu querido Sr. Abel – disse em voz débil.

– Como é bom em me vir visitar!

SR. ABEL – Como te sentes, meu filho?

ROGÉRIO – Sofro muito desde ontem; mas não me lamento. Ofereço a Deus o meu sofrimento, e Ele ajuda-me.

João, admirado, enternecido, tinha os olhos cheios de lágrimas. Rogério avistou-o e observou-o atentamente.

ROGÉRIO – Quem é esse rapaz? Parece-me boa pessoa.

SR. ABEL – É o meu amigo João, de quem já te falei, Rogeriozinho; ele é muito bom, adivinhaste.

ROGÉRIO – É religioso?

SR. ABEL – Muito, meu amiguinho; se assim não fosse, não seria bom.

ROGÉRIO – É verdade. . . João, eu queria vê-lo de mais perto.

João aproximou-se e pôs-se de joelhos junto da cama do pobre doentinho.

ROGÉRIO – Gosto muito de o ver, João; sinto que gostarei de si, que é, como eu, filho de Deus.

João beijou-lhe a mão e não pôde reter uma lágrima.

ROGÉRIO – É por minha causa que está triste, João? Eu não sou infeliz. Sei que vou morrer, mas morrer não é uma desgraça. Sofro tanto! E há tanto tempo! Irei para junto de Deus e de Nossa Senhora; o papá, a mamã e a minha irmã, irão um dia ter comigo; e tu também, João. Eu já gosto de ti. . . Oh! meu Deus! Que dor! Tanto melhor, meu Deus, é por Vós! Mas dói tanto! Dai-me coragem, meu Deus! Ajudai-me! Oh, meu Deus!

Deixou caír a cabeça no travesseiro; soltava gemidos abafados e um suor frio inundava-lhe o rosto.

A mãe enxugou-lhe o suor que lhe escorria pela cara e pelo pescoço e deu-lhe sais a cheirar. Quando a crise acalmou, Rogério pareceu inquieto.

– Mamã – disse com voz débil -, receio ter-me lastimado de mais; parece-lhe que terei ofendido Nosso Senhor?

SR. A GRIGNAN – Não, meu querido filho. Tens aceitado tudo com a resignação de um bom cristão. Está tranquilo. Descansa.

Rogeriozinho beijou um crucifixo que tinha ao pescoço.

ROGÉRIO – Estou muito fatigado, mamã; diga ao João que venha amanhã; ele depois fica ao pé de mim, e a mamã já pode descansar. Adeus, João; pede a Deus por mim. . . Meu bom Sr. Abel, deixe-se estar aqui um bocadinho, para a mamã descansar. Fique a conversar com o papá.

SR. ABEL – Fico, sim, meu filho. Minha querida senhora, tenha a bondade de apresentar o João ao mordomo. Entrego- lho. Vai, João; Bercuss te dirá o que tens a fazer. E até amanhã, no café, pela última vez.

Antes de sair, João beijou a mão descarnada da pobre criança, que tão profundamente o tinha impressionado e enternecido. Rogério sorriu, mas não ì teve forças nem para falar, nem para se mover.

João saiu com a Sr.a Grignan que, ao chegar à sala, teve um ataque de choro; João via-a chorar com tristeza, mas não ousou falar.

– Pobre João, entra numa casa de sofrimento!disse a Sr. a Grignan.

JOÃO – Para mim é uma casa abençoada, minha senhora.

SR.a GRlGNAN – Vem, João: vou levar-te ao Bercuss, que é uma excelente pessoa.

Chamou Bercuss e apresentou-lhe João.

SR.a GRIGNAN – Ponha este rapaz ao corrente da vida que levará em nossa casa, Bercuss. Ele é bom e piedoso. Chorou e rezou junto do nosso pobre menino.

Bercuss apertou a mão de João e levou-o, dizendo:

– O Sr. Abel falou-me muitas vezes em ti, João. Que é que sabes fazer?

JOÃO – Eu não sei nada, senhor. Nunca estive senão num café.

BERCUSS (sorrindo) – Já é alguma coisa! E, em qualquer caso, és modesto, o que dá boa disposição para aprender as coisas e fazê-las bem.

JOÃO – Muito obrigado pelo incitamento que me dá; hei-de obedecer-lhe e esforçar-me por fazer tudo o que me mandar.

BERCUSS – Muito bem, meu amigo, muito bem. E diz-me, vais à missa com regularidade?

JOÃO – No café não podia ir lá senão aos domingos, de madrugada; e depois, à tarde, eu e o Simão íamos à igreja, cada um por sua vez.

BERCUSS – E rezas de manhã e à noite?

JOÃO – Oh! Então não havia de rezar? O Simão e eu rezávamos sempre juntos. Depois o Simão abençoava-me em nome da mamã, e eu abraçava-o. Era sempre o princípio e o fim dos nossos dias.

BERCUSS – Quem é o Simão?

JOÃO – É o meu irmão mais velho. É um óptimo irmão! O Sr. Abel tem sido tão bom para ele. Foi

quem lhe arranjou o casamento e lhe deu tudo.

BERCUSS – Gostas muito do Sr. Abel?

JOÃO – Se gosto!

E os olhos de João brilharam.

JOÃO – Gosto muito dele! Era capaz de me deixar morrer por ele! O dia em que me pudesse sacrificar por ele, seria o mais feliz da minha vida! Se soubesse tudo o que tem feito por mim e pelo Simão, o senhor não me perguntava se gosto dele! E quer crer que o Sr. Abel é muito meu amigo! Sim, senhor,

apesar de eu ser um pobre rapaz sem préstimo para

nada, que não pode nem nunca poderá fazer nada

por ele, tem a bondade de gostar de mim e aprecia a

minha amizade. Querido Sr. Abel! Se eu ao menos

pudesse mostrar-lhe o que sinto! Mas não posso; não

encontro as palavras necessárias; além disso não me atrevo!

Bercuss cada vez estava mais contente. Quando João se foi embora, o mordomo repetiu à Sr. a Grignan todas as suas palavras. Ela ficou satisfeita e, por sua vez, contou-as a Abel.

No dia seguinte, quando Abel chegou ao café, Simão e João apressaram-se a servi-lo pela última vez. Simão mostrava-se contente com a sorte. Mas o pobre João parecia um condenado à morte; o seu olhar era igualmente mortificado, quer se dirigisse ao Sr. Abel, quer a Simão. Abel mostrava-se grave, quase triste.

O almoço não levou muito tempo.

– Adeus, meus bons amigos – disse Abel, levantando-se. – Olha, Simão: serei uma das testemunhas de casamento; dou-te antecipadamente o meu presente de núpcias. E entregou-lhe uma pasta.

– E a ti, meu rapaz – acrescentou ele, voltando-se para João e agarrando-lhe as mãos -, não te digo adeus; ainda hoje te tornarei a ver; até logo. E cuida bem do Rogeriozinho, porque, em parte, é por causa dele que vais para casa dos Srs. Grignan.

O Sr. Abel saudou os dois rapazes com um gesto e um sorriso, e saiu.

Separação dos dois irmãos

Simão e João subiram ao seu quarto, pela última

vez. Cada um fez um embrulho das suas coisas.

Simão abriu a pasta que lhe dera o Sr. Abel;

continha dois mil francos em obrigações do Caminho

de Ferro de Leste, mais uma nota de mil francos, e

ainda a aliança de casamento e a medalha que Simão, segundo o uso, devia dar a sua mulher.

– É possível? Que bondade! – exclamou Simão.

Os dois irmãos despediram-se do Sr. Métis, que

deu a cada qual uma gratificação de vinte francos e

em seguida dos companheiros, que lhes manifestaram o seu pesar de os ver partir.

Quando chegaram a casa do Sr. Amédée, foram recebidos com grande alegria.

– Devia ter-me prevenido a respeito dos móveis

– disse a Sr. a Amédée. – Não sabia o que havia comprado, e por isso tinha posto no quarto os meus; não são bonitos, mas serviam. Tive de tirar as minhas velharias para lá pôr a sua linda mobília. Os estofadores estiveram a trabalhar desde manhãzinha; cortinados, reposteiros, colocaram tudo num instante. Os móveis são encantadores e ficaram lá muito bem. O futuro quarto de Aimée está mesmo muito elegante. Não tenho nada a censurar-lhe.

Simão estava estupefacto; a surpresa não lhe permitia interromper a sua futura sogra.

SIMÃO – Os móveis! O quarto de Aimée!disse ele, finalmente. – Mas eu não comprei nada; não sei o que isso quer dizer!

JOÃO – Como, Simão, não adivinhas? O coração diz- me que foi o Sr. Abel; sempre o Sr. Abel! Vamos depressa ver o que há nos teus quartos. Estou contente, por ti e por Aimée.

Subiram ao primeiro andar. Simão e João encontraram efectivamente uma mobilia completa em cada quarto; os móveis, simples e bonitos, eram de acaju, com estofos estampados!

No quarto de Simão havia uma pequena biblioteca com uns vinte volumes encadernados, todos interessantes e úteis.

SR.a AMÉDÉE – Mandei pôr o armário e a roupa no quarto de Aimée, porque ela é que tem de tratar dessas coisas e servir- se delas. E quanto à sua mala, Simão, não a abri, porque pensei que gostaria de arrumar as suas roupas.

SIMÃO – A minha mala! As minhas roupas! Mas eu não tenho mala nenhuma, e as minhas coisas estão no embrulho que trouxe.

JOÃO – Ainda o Sr. Abel! Ele é a nossa Providência!

João correu para a mala e abriu-a; estava cheia de roupas brancas, fatos, calçado e de tudo o mais de que dispõe uma pessoa abastada. Os olhos de Simão encheram-se de lágrimas.

– É muito bom – disse ele -, muito bom. E vejam – acrescentou mostrando a pasta e o que ela continha -, vejam o que ele me deu; eu não tinha nada, porque mandava a minha mãe tudo o que ganhava. Esta nota de mil francos é a prenda de núpcias de Aimée, para ela comprar o que entender e lhe agradar.

O Sr. e a Sr. a Amédée estavam encantados; importava-lhes pouco donde provinham as riquezas, desde que sua filha as gozasse. Apressaram-se a descer para contar a Aimée as generosidades do Sr. Abel. Os olhos da Sr. a Amédée brilhavam de felicidade.

Simão e João, ao ficarem sós, abraçaram-se longamente; ambos tinham lágrimas nos olhos; o seu silêncio, melhor que todas as palavras, exprimia a alegria e o reconhecimento que os invadia.

– Vamos arrumar os teus fatos – disse por fim João – e depois deixo- te, para ir também para a minha nova casa. Ai! meu bom e querido irmão! Aí é que está a minha mágoa; cada um de nós vai para seu lado; nunca mais viveremos juntos! Estaremos sempre, sempre separados, no futuro!

– Mas unidos pelo coração! Estes dois anos que passámos juntos e tão intimamente ligados, deixaram- nos uma encantadora e feliz recordação. Nunca fui tão feliz como no nosso cubículo do quinto andar, onde nos faltava tudo, é verdade, mas onde tínhamos tudo o que dá a felicidade: a consciência tranquila e a nossa ternura fraternal. Tivemos sempre esses dois elementos da felicidade. Daqui em diante ver-nos-emos menos, é certo, mas continuaremos a estimar-nos e pensaremos um no outro. E agora, continuemos a nossa tarefa.

João abraçou ainda mais uma vez Simão, e começaram a arrumar as roupas na cómoda e a pendurar os fatos nos cabides.

No fundo da mala, Simão encontrou ainda um crucifixo, uma imagenzinha da Virgem e um pequeno embrulho; abriu-o e viu dois belos livros (os Evangelhos e a Imitação) e uma caixinha com um lindo relógio de algibeira e a respectiva corrente de ouro, do mais fino gosto.

JOÃO – Vê como ele nos estima! Pode haver um homem melhor do que o meu querido Sr. Abel? Não me parece; é impossível!

A mala estava vazia, Simão achava-se fornecido de tudo para alguns anos; até o calçado e os artigos de vestuário, não tinham sido esquecidos.

Começava a fazer-se tarde; eram horas de João ir para casa dos seus novos patrões.

E saiu. João caminhava depressa e procurava distrair-se; ao passar pela mercearia de Pontois, esbarrou com Joanico.

JOÃO – Ah! Aonde vais tão depressa, Joanico?

JOANICO – Vou para casa do Sr. Conde de Tufières, vou para lá servir; é um magnífico lugar! Gente muito rica! Vou ganhar quatrocentos francos de entrada; vestido como um príncipe, alimentado como um rei! Quase nada que fazer, e ainda por cima gratificações.

JOÃO – Que gratificações podes tu ter?

JOANICO – O Sr. Boissec, que é intendente, já me explicou. Se eu me portar bem recebo gratificações. Eu depois te conto, quando as receber e souber ao certo como isso é. E tu, onde vais tão bem-posto?

JOÃO – Eu vou também para a minha casa nova, que o nosso querido Sr. Abel me arranjou.

JOANICO – E que género de casa é essa?

JOÃO – É uma casa excelente. Há um menino de dez anos muito doente; é um verdadeiro anjo. E os pobres pais, tão resignados e tão tristes! Mas tão piedosos! É uma dor tão doce, tão boa!

JOANICO (com ar zombeteiro) – Isso deve ser divertido! Bonito presente te deu o teu querido benfeitor.

JOÃO – É verdade, um belo presente! É preciso que me estime muito para me achar digno de estar naquela casa. Pobre Joanico, tu não compreendes isto?

JOANICO – Deixa-me com a tua piedade! Os teus pobres Joanicos aborrecem-me até mais não.

Enquanto tu gemeres e rezares como um imbecil, eu vou divertir-me como um rei, comer, beber e dormir.

JOÃO – E depois?

JOANICO – Depois? Pois bem. . . depois. . . recomeço.

JOÃO – E depois?

JOANICO – Depois. . . depois. . . continuo.

JOÃO – E depois?

JOANICO – Ora! Deixa-me em paz com os teus depois.

JOÃO – E depois morrerás, Joanico. E depois de morreres, haverá um depois e um sempre!

Joanico lançou a João um olhar de cólera e desprezo e passou para o outro passeio, para não continuar a conversa, que tanto lhe desagradava.

João chegou a casa dos Srs. Grignan; Bercuss recebeu-o, dizendo:

– Ah! És tu, meu amigo? Estou muito contente por entrares para a nossa casa, e vamos começar imediatamente as nossas funções. O Sr. Abel janta cá, e tu vais limpar os pratos e os copos enquanto preparo a sobremesa e o vinho.

JOÃO – Como vai o menino Rogério? Passou a noite bem?

BERCUSS – Não. Má, como todas as noites de há quinze meses para cá. Sofre constantemente; o pobre menino não tem sono. O pai e a mãe estão esgotados.

Ouviu-se tocar uma campainha.

BERCUSS – Vai lá, João, vai lá. Se largo isto agora, estraga-se tudo.

João correu à sala e encontrou a Sr.a Grignan.

– É o João? Eu toquei exactamente para saber se já tinha vindo. O meu pobre Rogério reclama-o; ele, que nunca pede nada, e que parece nada desejar, pediu-me que o mandasse lá logo que chegasse. Vá!

João entrou no quarto de Rogério.

O ligeiro ruído que a porta fez atraiu a atenção do doentinho. Abriu os olhos; um leve sorriso e uma ligeira vermelhidão anim aram-lhe o rosto. Fez sinal a João para se aproximar e estendeu-lhe a mão. João apertou-a docemente, pousou nela os lábios e olhou o rosto tão martirizado, tão contraído, da pobre criança.

Rogério, por seu lado, examinava João.

– Tens pena de mim, João? Não quero crer que sou infeliz. Eu sofro, é verdade; sofro muito, mas o bom Jesus dá-me coragem para sofrer. . . Morrerei breve e serei muito, muito feliz junto de Deus. . . Pedirei por ti, João, quando estiver lá em cima.

Rogério calou-se e fechou os olhos; não podia falar mais, tão grandes eram a sua fraqueza e o seu sofrimento. João quis levantar-se, mas Rogério sorriu ligeiramente sem abrir os olhos e reteve a mão que apertava.

– Rezemos – disse ele, baixinho.

JOÃO – Pois sim! Rezemos, para que Deus lhe restitua a saúde.

ROGÉRIO – Não! Rezemos para que seja feita a Sua vontade, e Ele faça de mim o que quiser. . .

O Sr. Abel chegou pouco depois. João aproveitou o ensejo de estar só com ele para lhe dizer os seus

novos motivos de reconhecimento. Ajoelhou para lhe limpar as botas e, nessa posição humilde e grata, disse-lhe palavras de ternura e dedicação.

SR. ABEL – Cala-te, cala-te, meu rapaz! Se alguém te ouvisse, havia de julgar que eu sou realmente o teu salvador, o teu benfeitor. Ora eu quero ser o teu amigo e protector, mais nada. Aí vem Bercuss. . . Silêncio. . . Olá, Bercuss! Onde é o quarto do João!

BERCUSS – Mandei levar a mala dele para o quarto contíguo ao meu, senhor.

João olhou o Sr. Abel com surpresa e repetiu:

– A minha mala? A minha mala?

SR. ABEL – Pois claro, a tua mala, palerma! Onde querias tu que a pusessem senão no teu quarto? Foi o que se passou com o Simão; mudou de casa e a mala dele foi para o seu novo quarto. Contigo, deu-se o mesmo.

Tudo isto foi dito com ar significativo, com um sorriso benévolo, um pouco malicioso, e alguns sinais que queriam dizer: – Não me descubras, cala-te.

BERCUSS – Vou ver se a senhora está na sala.

– Senhor! – disse João logo que ficaram sós.

– Caluda! Bercuss vem aí outra vez. Não me

descubras! Então julgavas que não fazia por ti o que

fiz por Simão? Por ti, meu amigo, meu confidente?

– acrescentou ele, rindo.

À mesa, João viu, pela primeira vez, a menina Susana Grignan, que era graciosa, amável, encantadora. Toda a familia era tão unida, tão boa, que João sentiu-se logo à vontade, como se fizesse parte dela.

Pela primeira vez, teve ocasião de apreciar o espírito alegre, vivo, encantador, do Sr. Abel. Admirou-o ainda mais; não lhe tirava os olhos de cima, e várias vezes esse mudo entusiasmo excitou o riso benévolo dos convivas.

João aperfeiÇoa-se

Os companheiros de João eram todos criados bons e honestos. Bercuss era estimado e respeitado não só por eles mas também pelas pessoas que tinham relações íntimas com os patrões. Ele encarregou-se de completar a educação de João. Incutiu-lhe hábitos que ele até então nunca tivera.

O pobre Rogeriozinho ajudava, sem o saber, o aperfeiçoamento de João. Mandava-o chamar muitas vezes e testemunhava-lhe amizade; os seus sofrimentos, suportados com tanta doçura, paciência e coragem, impressionavam o coração sensível de João. As visitas quotidianas do Sr. Abel, os seus bons conselhos, a sua bondade constante, desenvolveram também o espírito e as ideias de João. Compreendeu melhor a sua posição, relativamente aos patrões.

Pouco a pouco, os vestígios dos costumes aldeãos e simplórios desapareceram. Com a experiência e a idade, tornou-se mais senhor dos seus sentimentos; sentia da mesma maneira, mas não se expandia tanto; aprendeu a calar o que a desigualdade de condições podia tornar ridículo ou inconveniente; não tornou a

beijar as mãos do Sr. Abel; não se pôs mais de joelhos; olhava-o menos frequentemente e menos afectuosamente, mas no coração, tinha o mesmo ardor, a

mesma dedicação, a mesma ternura. João sentia-se

feliz rodeado por companheiros bons, ao serviço de

patrões excelentes; encontrava à sua volta amizade, bondade, solicitude; enfim, a verdadeira fraternidade, que é a caridade dos cristãos. Bem longe de lhe

recusarem autorização para ir ver Simão, provocavam o ensejo dos dois irmãos se encontrarem. Bercuss preferia trabalhar pelos dois, para João poder ter uma manhã ou uma tarde livres. Nunca lhe negavam autorização

para ir à igreja, ou tratar de assuntos

pessoais, ou ver alguma coisa interessante, ou visitar

os pobres.

Se adoecia, os companheiros tratavam-no como a

um irmão; os patrões vigiavam para que nada lhe

faltasse, e o Sr. Abel vinha informar-se do seu estado

e distraí-lo com o seu espírito alegre e amável.

A única mágoa de João era o estado, sempre

alarmante e doloroso do pobre Rogeriozinho, que

estimava com sincero afecto.

– Peça por mim, menino Rogério, quando estiver no Céu – dizia-lhe ele muitas vezes.

– Como pediria por um irmão – respondia Rogério com a sua voz débil.

As notícias de Helena eram óptimas; ela gostava

muito de estar em Sant’Ana; todos lhe queriam bem.

Kersac era mais um amigo do que um patrão para

ela; nunca lhe dirigia censuras, sempre agradecimentos e elogios. A Mariazinha tornava-se cada vez mais

genial; passava os dias na companhia das boas freirinhas de Sant’Ana: trabalhava muito; começava já a

tornar-se prestável na herdade. Quando Kersac lhe

mandava fazer qualquer coisa, Maria sentia-se muito

importante e feliz, Kersac estimava-a muito e regozijava-se com a ideia de a adoptar.

Um dia, Kersac recebeu uma carta de Simão e

João. Simão convidava-o para assistir ao seu casamento, que fora adiado para a Páscoa, por causa da

Sr. a Amédée ter adoecido alguns dias antes da Quaresma. Simão pedia também a Kersac que lhe servisse de padrinho, juntamente com o Sr. Abel, o

pintor tão notável pelo seu talento como pela sua

vida exemplar e espírito encantador.

João suplicava ao seu amigo que os fosse visitar

em ocasião tão solene. Ambos lastimavam que a mãe

não pudesse ir, e João pedia a Kersac que não aumentasse o seu desgosto recusando ser padrinho de

Simão. E aproveitava o ensejo para contar uma

quantidade de coisas e pormenores interessantes.

– Tome, Helena – disse Kersac. – Leia esta

carta.

Helena leu com grande interesse.

– E então – disse ela – que é que faz?

– Vou – declarou Kersac. – Não haverá prejuízo, apesar de estarmos na altura da sementeira.

Não me demoro mais de três ou quatro dias. Vou

escrever para saber o dia do casamento e o hotel

onde me hei-de hospedar para ficar perto deles. Estamos na Primavera, já faz bom tempo; será uma viagem muito agradável, sob todos os aspectos. Gostaria muito de voltar a ver o nosso João; hei-de ver se consigo trazê-lo, para a senhora o ver também.

Helena corou de alegria e exclamou:

– Trazer-me o João? Ah! Se pudesse. . .

KERSAC – E porque não hei-de poder?

HELENA – Porque ele tem as suas obrigações. É bem sabe como é aborrecida a ausência de um criado.

KERSAC – Em Paris, não é como cá. Têm muitos criados, revezam-se uns aos outros! Não se dá pela saída de um só.

HELENA – Parece-me que isso depende das casas; na da Sr. a Grignan, onde está o João, cada um tem as suas obrigações. É uma casa como deve ser, uma verdadeira casa de Deus, diz o João.

KERSAC – É possível, mas sempre vou tentar; há perto de três anos que não vê o seu filho; é muito justo que lho cedam por alguns dias.

Helena agradeceu, mas sem acreditar muito na felicidade que o bom Kersac lhe prometia.

Dois dias depois Kersac recebeu resposta à sua carta; o casamento era no dia um de Maio, e estava-se já nos últimos dias de Abril. Não havia tempo a perder.

Helena apressou-se a arranjar- lhe o fato melhor, as camisas mais finas, as botas mais luzidias; e meteu-lhe cem francos na bolsinha do dinheiro, julgando que era mais que o suficiente para as suas despesas.

KERSAC (rindo) – Obrigado, minha boa Helena. Foi generosa. Quanto me deu para me divertir?

HELENA – Mais do que o preciso, senhor. Cem francos.

KERSAC (rindo mais alto) – Cem francos! Pobre mulher! Cem francos! Isso não chega nem para a viagem, se trouxer o João.

HELENA – Ora, a sua despesa não será grande! Não gasta nada com a comida! Quando se vai a uma boda, come- se e bebe-se para oito dias!

KERSAC – E para dormir? E para comer enquanto não chega o dia do casamento? Eu não quero pedir esmolas como um mendigo! E a minha prenda? Bem compreende que não deixo de dar ao noivo uma pequena lembrança! Não, Helena. Kersac é mais generoso do que isso. Dê-me a chave do cofre e venha ver quanto levo.

Helena seguiu-o, recomendando-lhe que fosse económico.

– Não se deixe levar muito longe pela sua generosidade. Estes três dias vão-lhe ficar mais caros do que seis meses cá em casa!

KERSAC (rindo) – Bem, bem! Eu sei o que faço. Bem sabe que sou económico; mas, quando chega a ocasião, não gosto de ser sovina.

HELENA (sorrindo) – Económico, económico excepto quando se trata de dar.

KERSAC – Ah! A esse respeito, bem sabe que tenho a minha máxima: é preciso que quem tem, dê a quem não tem.

Kersac estava diante do cofre onde guardava os papéis e o dinheiro. E, com grande assombro de Helena, tirou de lá mais quinhentos francos.

HELENA – Pelo amor de Deus, senhor! Nãn vá gastar tudo quanto leva!

KERSAC – Espero que não. Mas. . . não tenho necessidade de me encontrar sem vintém numa cidade como Paris. Não se sabe o que está para acontecer: um desastre. uma doença.

HELENA – Oh! Senhor! Deus há- de protegê-lo; espero que não lhe acontecerá mal nenhum, e que voltará com saúde.

KERSAC – Também o espero, minha boa Helena. E agora, adeus, até à volta; arranje a cama para o seu rapaz. . . E abrace por mim a Mariazita, quando ela vier da escola.

Kersac despediu-se de Helena e saltou alegremente para a carroça, com o criado que a devia trazer.

– Oh Se ele trouxer o Joãozinho. – exclamou Helena.

Estava cheia de esperança, apesar do que dissera a Kersac e foi logo arranjar a cama para o João, num quarto que havia entre o dela e o de Kersac.

Kersac em Paris

Kersac chegou a Paris, de madrugada, e meteu-se num carro, como lhe tinha dito Jõão. Foi para o hotel da Rua de Stº Honório, escolheu um quarto no 6º andar, comeu copiosamente, preparou-se e, seguindo

as indicações da criada, dirigiu-se ao palácio da

Sr. a Grignan. Eram oito horas quando lá chegou.

– Quem é que o senhor procura? – perguntou o

porteiro.

KERSAC – E quem hei-de procurar senão o

meu João?

PORTEIRO – Que João, senhor?

KERSAC – Como? Que João? O que está nesta

casa, evidentemente! Não conheço outro, e nenhum

vale tanto como ele.

PORTEIRO – Se quer ter o incómodo de entrar, eu vou prevenir o João. Quem devo anunciar?

KERSACKersac; o seu amigo Kersac.

PORTEIRO – Faça o favor de me seguir.

KERSAC – Da melhor vontade, meu amigo.

Kersac seguiu-o passo a passo; chegou à escada, parou.

KERSAC (olhando para todos os lados) – Mas. . .

por onde hei-de subir?

PORTEIRO – Pela escada que está na sua frente, senhor.

KERSAC- Sobre este tapete que vai por ela

acima?

PORTEIRO (sorrindo) – Sim, senhor. Não há

outro caminho.

KERSAC – Muito bem! Espere um bocado, o

meu João não se importa. . . E ele passa por cima disto

todos os dias?

PORTEIRO (sorrindo) – Dez vezes, vinte vezes

por dia, senhor.

KERSAC – Se tem algum jeito andar por cima de coisas tão boas! – Kersac baixou-se, passou a mão pela passadeira. – É macio como veludo. Faziam-se daqui esplêndidas mantas para cavalos, e cobertores excelentes, de muito agasalho!

Kersac decidiu-se a pôr um pé, depois outro, em cima da bela passadeira; subiu lentamente, com respeito pelo lindo tecido, olhando, em cada degrau, se as suas botas, cheias de poeira, a teriam manchado. O porteiro mandou-o entrar para a sala de espera e foi prevenir Bercuss.

– João vai ficar contente – disse Bercuss e chamou: – João! Depressa; vem ver o teu amigo Kersac, que acaba de chegar.

JOÃO – O Sr. Kersac! Que alegria! Onde está ele?

Mal tinham dito estas palavras, abriu-se a porta e apareceu a cabeça de Kersac.

– Sr. Kersac! Querido Sr. Kersac! – gritou João, correndo para ele.

– João! Meu bom rapaz! – respondeu Kersac estreitando-o nos braços e beijando-o com todo o carinho.

– Querido Sr. Kersac! – repetiu João. – Como é bom por ter vindo, por se ter incomodado e deixado a sua herdade! Estou tão contente por o ver! Dê-me notícias da mamã! Se soubesse como gosto que ela esteja em sua casa! Deve sentir-se muito feliz na sua companhia!

KERSAC – Esforço-me por isso, meu amigo. E tu? Não te fizeste nada feio, palavra! Belo rapaz!

Sabes que estás quase tão alto como eu? Tu tens… Que idade tens?

JOÃO – Dezassete anos daqui a três meses, Sr. Kersac.

KERSAC – É isso, é isso! Eu tenho trinta e oito!

– João, deves oferecer qualquer coisa ao Sr. Kersac – disse Bercuss, que os escutava a sorrir.

KERSAC – Muito obrigado, senhor! É muito amável! Eu comi, logo que cheguei, um pão e uma pratada de queijo. Mas o pão de Paris não se compara com o pão do campo. Não enche a barriga. Por mais que se coma, o estômago fica sempre vazio.

Bercuss pôs-se a rir e pediu a Kersac que esperasse um momento. Foi ter com o Sr. Grignan, que fazia a sua toilette.

BERCUSS – V. Ex. a dá licença que ofereça um copo de vinho ao Sr. Kersac, o amigo do João? Acaba de chegar e parece excelente pessoa.

SR. GRIGNAN – Pois sim. Dê-lhe o que quiser. BERCUSS- V. Ex. a permite- me que dê um feriadozito ao João, para ele poder ir passear com o amigo?

SR. GRIGNAN – Acho bem. Mas o Bercuss é que paga.

BERCUSS – Oh! Eu não estou muito atarefado. O porteiro dá-me uma ajuda. E terei muito prazer em ser agradável ao João e ao Sr. Kersac.

SR. GRIGNAN – Ele tem, realmente, aspecto de

boa pessoa?

BERCUSS – De excelente pessoa, senhor. É um homem enorme, com ombros, braços e pulsos capazes de abater um boi; e, apesar disso, tem ar bonacheirão, muito risonho, enfim, um ar de bom camponês. E V. Ex. a autoriza que ele cá fique?

SR. GRIGNAN – Pois sim, Bercuss. Pode

convidá-lo, desde que ele se demore apenas alguns

dias, para dormir e comer cá em casa. É a maneira de

João o ver mais facilmente e você não se sobrecarregar com trabalho.

BERCUSS – Muito obrigado, senhor. Vou convidá-lo da parte de V. Ex. a.

Bercuss retirou-se muito satisfeito, e entrou na

sala, onde Kersac e João conversavam animadamente.

BERCUSS – Sr. Kersac, o Sr. Grignan convida-o

a ficar cá em casa.

João deu um pulo na cadeira.

– Obrigado, Sr. Bercuss. Bem vejo que foi o

senhor que pediu ao patrão.

KERSAC – Mas. . . diz lá, João, é ser indiscreto. . .

Diz-se que em Paris cada qual tem o seu cantinho;

não quero incomodar ninguém. Prefiro voltar para o

hotel.

JOÃO – Oh! meu caro Sr. Kersac! Já que o

Sr. Grignan dá licenÇa. . . Já que o bom Bercuss pediu. .

BERCUSS – Aceite, aceite sem receio, Sr. Kersac: há mais camas do que as necessárias. Então, está dito!

KERSAC – Está dito, fico! Vocês aqui parecem

boas pessoas. Tenho muita vontade de conhecer os

patrões do João.

BERCUSS – Vê-los-á daqui a pouco, Sr. Kersac. João, que quarto damos ao teu amigo?

JOÃO – O meu, Sr. Bercuss, peço-lhe; assim, poderei vê-lo melhor.

KERSAC – Também prefiro assim. Vai-me lembrar aquela noite em que tu me trataste tão bem, João, na estalagem de Malansac. E esse Joanico, de quem tu querias que eu gostasse? Onde está ele?

JOÃO – Está bem colocado, pelo que me disse, mas raras vezes o vejo.

KERSAC – Porquê?

JOÃO – Porque. . . porque tem ideias e gostos diferentes dos meus.

Bercuss interrompeu-os para os convidar a comer.

João, que tinha apetite, não se fez rogado; arrastou Kersac para o apresentar ao cozinheiro e aos outros criados. Kersac comeu segunda vez, como se não tivesse comido ainda nada. Depois, João convidou-o a ir ao seu quarto.

KERSAC – Ena, rapaz! Como tu estás instalado! E estes fatos são todos teus?

JOÃO – Tudo! Tudo! Veja bem! Veja os meus fatos, a minha roupa e estes excelentes livros; tudo isto me deu o melhor dos homens, o mais encantador, o mais caridoso. Já adivinhou que me refiro ao Sr. Abel.

KERSAC – Oh! sim, esse homem que tu estimas tanto!

JOÃO – E que tanta razão tenho para estimar! Se soubesse como ele foi e é bom para Simão e para

mim! E como me dá bons conselhos! E como tem a bondade de ser meu amigo! É isso o que me sensibiliza mais: que ele, grande artista, rico, tão disputado, tão querido, estime um pobre criado, um rapaz como eu!

KERSAC – Também já gosto desse Sr. Abel. E com que amizade falas dele!

JOÃO – Não podemos deixar de ser gratos àqueles que nos estimam quando estamos sem família!

KERSAC-A quem o dizes! Não tenho ninguém. Por isso que quero constituir familia. Custa-me viver só.

JOÃO – Constituir familia, como?

KERSAC – Como? Casando-me! Nada mais fácil! Faço como o Simão.

JOÃO – Mas o Simão é novo e o senhor já não é. . .

KERSAC – Bem sei! Mas também não me vou casar com uma rapariga de dezoito anos, como Simão. Escolho uma mulher da minha idade, pouco mais ou menos.

JOÃO – E onde a vai descobrir?

KERSAC – Já descobri. A tua mãe!

JOÃO (surpreendido ao principio, e rindo em seguida) – A mamã! A mamã! O senhor não pensa no que diz! A mamã tem uns trinta e quatro anos!

KERSAC – E eu? Já tenho trinta e oito para trinta e nove. Bem vês, João: eu preciso de alguém em quem deposite confiança para administrar a herdade; além disso, que seja uma pessoa boa e carinhosa, que eu possa estimar; uma pessoa arranjada, económica, que me leve a fazer economias; que seja asseada, agradável, que não afugente quem vai à herdade tratar de negócios comigo. Encontro todos estes predicados na tua mãe; ela parece mais nova do que é, mas isso não importa; é melhor assim, do que se a tomassem por minha mãe. Isso desagrada-te, meu amigo?

JOÃO – Como é que isso me podia desagradar? Pelo contrário, acho que é uma felicidade, uma grande felicidade! Pobre mamã, que tem sido tão infeliz! E Deus proporciona-lhe o ensejo de casar com um homem tão excelente como o senhor! Meu caro Sr. Kersac! Nesse caso, vai ser meu pai! Ah! Ah! Ah! Que engraçado!

KERSAC – Tu não pensavas em tal, nem eu, quando te levei na carroça para Malansac. E queres acreditar uma coisa? Dediquei-me tanto a ti nessa viagem, que comecei logo a estimar também a tua mãe; e a ideia de casar com ela veio-me por tua causa, para poder tornar a ver-te, um dia, e fazer-te feliz. Além disso, há-de haver uns três meses, pouco mais ou menos, recebi uma carta assinada por um amigo, que me dizia:

Se quer ser feliz, Sr. Kersac, e se é efectivamente o homem bom que eu julgo, case com a mãe do seu amigo João, que bem o merece. Não terá de que se arrepender.

Esta carta acabou de me decidir; pensei no teu futuro, no meu, e disse com os meus botões: Helena será minha mulher e João será meu filho!

JOÃO – Obrigado, obrigado; mil vezes obrigado. Tive realmente muita sorte em encontrar dois homens tão bons como o senhor e o Sr. Abel.

KERSAC – Muito gostava eu de ver o teu Sr. Abel. Já o estimo só de te ouvir falar nele.

JOÃO – Deixe estar que lho hei-de dizer. Agora vou às minhas obrigações. Não quero que o bom Bercuss se fatigue muito por minha causa.

KERSAC – E eu vou contigo, não te deixo um instante. já te olho como se fosses meu filho. Mas não digas nada do que contei senão ao Simão. Não quero que se riam de mim.

JOÃO – Deixe dizer só ao Sr. Abel. Costumo contar-lhe o que me diz respeito.

KERSAC – A ele podes dizer. Até eu lho dizia, se o visse.

Kersac e o Sr. Abel travam relações

Antes de deixar o quarto, Kersac abraçou João com tal força, que o rapaz pediu que o largasse; abafava. Desceram, a rir, e João foi pôr-se a engraxar o calçado; Kersac imitou-o com tal ardor e conversavam com tanta animação, que não ouviram entrar o Sr. Abel.

Este, sorridente, olhava-os havia já algum tempo, quando Kersac se voltou.

KERSAC – Oh! Quem é que nos vem cá incomodar?

João voltou-se por sua vez, largou a escova e o calçado, e correu para o Sr. Abel.

JOÃO – Meu caro senhor, uma boa notícia! Aquele é o Sr. Kersac; ele participa-me. . . o senhor nunca seria capaz de adivinhar. . . ele participa-me. . .

SR. ABEL – Que casa com a tua mãe, é claro!

JOÃO (admirado) – Como adivinhou?

SR. ABEL – Sabes que adivinho tudo o que te diz respeito.

JOÃO – Isso é verdade, senhor. entendemo-nos tão bem!

Kersac estava de boca aberta, olhos arregalados, a escova numa das mãos e uma bota na outra. O Sr. Abel caminhou para ele a rir. Kersac, sem pensar na graxa que lhe besuntava as mãos, agarrou as do Sr. Abel e apertou- as com força de um Hércules. O Sr. Abel, que lhe não ficava atrás, apertou, por sua vez, as de Kersac até este soltar, inesperada mente, um grito de dor.

KERSAC – Apre! Que pulso! Muito bem, senhor! Se é dessa têmpera; antes o quero ter por amigo do que por inimigo. Olha lá, João, porque não me disseste nada?

JOÃO – Porque eu não sabia. O Sr. Abel aperta-me sempre a mão muito suavemente, sem me fazer doer. Ah meu Deus! Olhe as suas mãos, senhor! Cheias de graxa – acrescentou João a rir.

SR. ABEL (rindo também) – É verdade! Negras como se tivesse engraxado as minhas botas.

KERSAC – Mil desculpas, senhor, eu é que fui o

culpado. Não pensei nisso. É que nós tínhamos acabado de falar no senhor, e então compreende. . .

– Compreendo – disse Abel, dirigindo a João

um sorriso afectuoso. – E já que tenho as mãos

negras como as vossas, vou ajudá-los a acabar a

tarefa; vamos limpar isso tudo, como três bons amigos.

O Sr. Abel pôs um avental de Bercuss, pegou

numa escova, num sapatinho de Susana, e pôs-se a

engraxar e a lustrar como um verdadeiro engraxador.

A surpresa de Kersac fazia rir o Sr. Abel, encantado

com o novo papel que escolhera.

Quando acabaram, Abel propôs descerem à cozinha para lavarem as mãos; foram todos três; o cozinheiro, acostumado às excentricidades do Sr. Abel, apresentou-lhe uma bacia de água tépida e sabão, sem lhe perguntar como sujara as mãos.

– Até logo, amigo Kersac – disse o Sr. Abel, ao

sair. – Eu entrei só para saber como passava o

menino. Sabes como ele está, João? Ontem à tarde

estava muito mal.

JOÃO – Não soube nada esta manhã, senhor. A

chegada do Sr. Kersac transformou-me por completo. Gostei tanto de o ver!

SR. ABEL – Vou perguntar ao Sr. Grignan. Eu

volto para jantar. Preveni Bercuss.

BERCUSS – Sim, senhor. Até logo.

SR. ABEL (rindo) – Até logo, meu rapaz. Até à

tarde, Sr. Kersac. Sabe que somos nós os padrinhos

de Simão?

KERSAC – É verdade. É uma grande honra para mim.

SR. ABEL – Para mim, também. Não conheço nada mais respeitável do que um lavrador honesto e boa pessoa que faz a felicidade de todos os que o rodeiam. . . Tenho as mãos limpas – acrescentou, estendendo a mão a Kersac – o senhor também; podemos, pois, apertar a mão um ao outro. . . e sem partir os ossos – concluiu, a rir.

Kersac agarrou a mão do Sr. Abel e apertou-a vivamente.

– Tenha cautela; se eu aperto também.

– E eu largo – disse Kersac, recuando um passo.

O Sr. Abel subiu aos aposentos do Sr. Grignan. Não se demorou e, ao passar junto de João, disse-lhe:

– O menino vai um pouco melhor. Ele quer ver-te e pediu que levasses o nosso amigo Kersac. Até logo, meus amigos. João: diz ao Simão que venha ter comigo ao hotel Meurice; temos muito que tratar a respeito do casamento, e não há tempo a perder. Vejam se vão com ele.

O Sr. Abel saiu.

Para chegar ao quarto de Rogério era preciso atravessar a sala. Aí, Kersac parou, assombrado. As tapeçarias de damasco vermelho, as poltronas douradas, os diversos móveis que ornamentavam a sala, o lustre de cristal e bronze, o belo tapete de Aubuson, tudo era para ele um conto das Mil e Uma Noites. João, vendo a sua admiração, parou alguns minutos; depois, abriu a porta do quarto de Rogério e mandou

entrar Kersac, que se sentiu vivamente impressionado à vista desse quarto. A luz, velada de propósito

para não fatigar os olhos do doentinho, o silêncio que

ali reinava, a atitude acabrunhada mas resignada da

Sr. Grignan, sentada junto da cama do filho, a própria criança, de uma magreza e de uma palidez apavorantes, as mãos juntas, o rosto ligeiramente animado por um sorriso meigo, todo este conjunto produziu em Kersac uma impressão tão profunda de respeito, de enternecimento, que sem pensar no que

fazia, caiu de joelhos junto do leito da pobre criança.

Rogério, surpreendido e sensibilizado, quis tomar na

sua mãozinha descarnada a de Kersac, mas não teve

forças para isso. Kersac, que notara o gesto, pegou

suavemente na pequenina mão, beijou-a e pô-la, em

seguida, sobre a sua cabeça, como a pedir que o

abençoasse.

Depois, voltando-se para a Sr. a Grignan, que ouvia chorar, disse:

– Pobre senhora! Pobre mãe!

– Mas feliz de o ver sofrer tão santamente – respondeu a Sr. a Grignan.

Kersac levantou-se.

ROGÉRIO – Sr. Kersac, o João gosta muito de

si; vejo que tem razão; o senhor é temente a Deus.

Rezarei também por si.

E vendo uma lágrima na face de Kersac:

– Não chore por mim, Sr. Kersac! Cumpro a

vontade de Deus e sei que Ele me leva em breve para

Si. Serei tão feliz, tão feliz que não pensarei mais nas

minhas dores.

Rogério descansou um instante. Depois adormeceu.

Kersac saiu com João. Ao atravessar a sala, não disse uma palavra nem fez reparo em coisa nenhuma. Quando chegou ao quarto, sentou-se e limpou os olhos às costas das mãos.

KERSAC – Nunca me impressionei tanto como agora ao pé desta pobre criança. Senti-me comovido até ao fundo da alma! Uma criaturinha doente e tão meiga, tão tranquila, tão feliz! E depois, a pobre mãe. . . Chora mas não se lastima! E tudo tão calmo, e a morte tão perto! Nunca esquecerei os instantes que passei junto dele! Se me tivessem deixado, teria lá ficado horas.

João procurou distraí-lo e começou a contar-lhe os ditos encantadores do Rogeriozinho; depois as suas aventuras.

Kersac ria com vontade quando Bercuss os veio chamar para comer.

Kersac vê Simão e encontra Joanico

Kersac estava maravilhado com o belo e farto almoço que lhe serviam, e os que o acompanhavam admiravam-se do seu apetite devorador; comeu a última garfada com tanta satisfação como a primeira.

Depois do almoço, João propôs-lhe ir a casa do Si mão, e Kersac aceitou com prazer. João levou-o pelo caminho mais bonito. Custou- lhes a chegar a casa de Simão, porque Kersac parava a cada passo, para admirar as lojas, os carros e os edifícios; para ele tudo era novo e maravilhoso!

Simão acabava de comer e preparava-se para descer ao armazém.

– Simão, apresento-te o Sr. Kersac, que vem para te conhecer – gritou João ao entrar em casa do irmão.

SIMÃO – Sr. Kersac! Como foi bom em vir de tão longe por minha causa!

KERSAC – Por si, pelo João e pela vossa mãe!

JOÃO – A mamã vai casar com o Sr. Kersac! Ele, assim, fica a ser meu pai! É engraçado, não é?

SIMÃO – É possível? É verdade, Sr. Kersac?

KERSAC – É mais que verdade, meu amigo. Assim que eu volte à herdade.

SIMÃO – Que felicidade para a nossa pobre mãe, meu caro senhor!

Simão abraçou Kersac, que o apertou até o abafar, como tinha feito a João.

SIMÃO – E que pena a mãe não ter vindo consigo! KERSAC – Era impossível, meu amigo! Tu casas com uma menina fina, com uma parisiense, e tua mãe aqui havia de sentir-se atrapalhada, deslocada, no meio destas pessoas! E depois, enquanto não for minha mulher, é criada da herdade; eu não queria que a tua mãe se apresentasse como criada em casa

de teus sogros. Ela, também, mostrava uma grande relutância em vir, naturalmente por causa de tudo isto. Pois, é verdade, eu decidi-me a casar, agora, quando vim. Compreendi que tinha pena de a deixar.

que ela é muito boa, muito delicada, e estou convencido de que vamos ser felizes.

SIMÃO – Então a mãe ainda não sabe nada?

KERSAC – Nem uma palavra.

SIMÃO – E se ela não quer?

KERSAC – O quê? Que é que tu dizes? Se não quiser? Demónio! Não tinha pensado nisso! Pois bem, se ela não quiser… terei um grande desgosto!. . . Sim, sim, será uma grande desgraça para a herdade e para mim. Nunca poderei substituí-la. Que demónio de ideia tu tiveste, Simão! Não tornarei a ter um momento de descanso, até chegar a casa! Mais uma razão para não me demorar em Paris.

SIMÃO (sorrindo) – Tranquilize-se, meu querido amigo. Isto é apenas uma hipótese. Porque havia ela de se recusar a casar consigo, se gosta tanto de si e é tão feliz em sua casa? Esteja descansado, o senhor será o nosso pai.

KERSAC – É possível, mas. . . não é certo. Diz-me cá, Simão: quando é a tua boda?

SIMÃO – Depois de amanhã, Sr. Kersac. Amanhã de manhã quero ir a casa do Sr. Abel para combinar tudo com ele.

KERSAC – Depois de amanhã é a boda. No dia seguinte à tarde vou-me embora, para chegar a Sant’Ana de manhã cedinho.

SIMÃO – Já?

KERSAC – Assim é preciso, meu rapaz! Numa

herdade o tempo que se perde não se recupera. E depois. . . tenho de ir!

Conversaram durante algum tempo. Kersac disse

que gostava de ver a menina Aimée. Simão apresentou-o aos futuros sogros e à noiva. Kersac sacudiu

o braço do Sr. Amédée até quase o deslocar no

ombro e apertou a mão à Sr. a Amédée até lhe magoar os dedos. Quanto à menina Aimée, quando ela

lhe estendeu a mão, disse-lhe:

– Nada disso, nada disso! Na minha terra os

padrinhos abraçam a noiva.

E levantou-a ao ar nos seus braços vigorosos, beijando-a na face antes que ela voltasse a si. Assustada, a menina Aimée pediu socorro a Simão.

– Oh! Que foi? – disse Kersac, pondo-a no

chão. – Não é nenhum mal. Eu sou padrinho. Pois

bem, depois de amanhã é a boda; a que horas?

SR.a AMÉDÉE – Primeiro, às nove horas certas

é o casamento no registo; depois na igreja, às nove e

meia; em seguida almoça-se em nossa casa, e depois

vai-se passar o dia a Saint-Cloud; o Sr. Abel oferece

lá o jantar, e também passamos lá parte do serão.

– Muito bem – disse Kersac. – Seremos pontuais.

Kersac não se demorou; disse que tinha de fazer

compras e saiu com o João.

KERSAC-Ouve cá, João: estes Amédée

aborrecem-me; não me senti à vontade ao pé deles.

JOÃO – Ah Sério? Sabe? Dá-se o mesmo cumigo. Estou sempre constrangido em casa deles, ao passo que estou muito à vontade consigo ou com o Sr. Abel.

KERSAC – Tens razão. E depois, sabes? Os Amédée são parisienses; troçam de toda a gente como eu, um camponês, um proprietário, que não usa luvas. Não o dizem, mas adivinha-se. Com franqueza, tomara a boda acabada. E agora ainda estou mais contente por não ter trazido a tua mãe. Ela havia de estar atrapalhada, com medo de fazer disparates, e de que rissem dela. E isso havia de me custar muito; era capaz de perder o sangue-frio.

JOÃO – Foi melhor assim. E agora, aonde é que nós vamos?

KERSAC – Quero comprar o meu presente para a noiva, e depois o meu presente de núpcias para a tua mãe; porque. . . apesar daquilo que o Simão disse, parece-me que ela não recusará ser minha mulher. Não gosto que ela seja minha criada; merece mais do que isso.

João perguntou a Kersac o que queria ele comprar.

– Uma jóia para a noiva nova, e um xaile para a noiva velha – respondeu a rir.

Iam a entrar numa ourivesaria vizinha do café Métis, quando deram de caras com o Joanico. A surpresa foi grande de parte a parte. Depois da troca de cumprimentos, Joanico convidou-os a tomar um café e um copito. João ia a recusar, mas Kersac fez-lhe sinal para que aceitasse, e uma vez sentados no café, levou Joanico a beber mais do que devia.

Kersac cumprimentou-o pela sua elegância.

– Oh! – disse Joanico com ar desdenhoso. Esta farpela velha é boa para trazer de manhã; à tarde visto- me melhor.

KERSAC – Ah! Achas que não estás bem assim?

JOANICO – Isto para o João está bem; mas. . . para mim.

KERSAC – Demónio! Parece-me que o Sr. Joanico está muito importante!

JOANICO – Um pouco. . . Já me não tratam por Joanico. . . Ninguém me trata por tu. . .

KERSAC – E como foi que o Sr. Joanico alcançou tão alta posição?

JOANICO – Bem sabe que não sou nenhum estúpido.

KERSAC – Não, não sabia.

JOANICO – Digo eu que não sou nenhum estúpido. Soube cair nas graças do Sr. Boissec, o intendente do senhor conde. Tenho-lhe feito alguns favores. . .

KERSAC – Que favores?

JOANICO – Servindo-o com zelo! Tenho-o substituído nuns negócios em que ele não queria aparecer.

JOÃO – Negócios! Que qualidade de negócios?

JOANICO – Negócios de dinheiro; pagamentos de contas, compras de vinhos, encomendas, e outras coisas que rendem muito.

JOÃO – Rendem, como?

JOANICO – És um simplório! Não compreendes. Quando vem uma conta para pagar, eu regateio, barafusto, digo que mudo de fornecedor, e consigo que o homenzinho, que vende as coisas pelo dobro, abata vinte ou vinte e cinco por cento. O Sr. Boissec apresenta a conta sem o abatimento ao patrão; o patrão paga, e ele mete o excesso ao bolso. E como a

casa é rica – tem para aí uma despesa de cem mil

francos por ano. . . Já vêem se o intendente tem ou

não um bom pé-de-meia.

João estava indignado e ia protestar, mas Kersac

tocou-lhe com o cotovelo e deixou Joanico beber e

falar mais.

KERSAC – O que tu fazes não é nenhuma

parvoíce. Mas não vejo o que é que ganhas com isso.

JOANICO – Ao princípio não era grande coisa,

não; uma moeda de cinco ou dez francos, lá de

quando em quando. . . Mas depois de me habituar ao

negócio, comecei a tratar de mim. . .

KERSAC – Como?

JOANICO – Entendi-me com os fornecedores.

Consegui que, em vez de abaterem vinte e cinco por

cento, abatam trinta. Dou os vinte e cincfo ao

Sr. Boissec e guardo o resto.

KERSAC – Mas porque é que o Sr. Boissec não

trata desses negócios? Ele não desconfia de ti?

JOANICO – Não quer tratar deles para não ser

apanhado. No caso de se descobrir a marosca, faz

recair tudo em cima de mim, põe-me na rua como

ladrão, e o patrão fica contente porque julga que o

Sr. Boissec é um modelo de probidade.

KERSAC – E tu? Ficas no meio da rua?

JOANICO – Oh! Não! Ele depressa me coloca

noutra casa boa, e dá de mim as melhores referências. Enquanto estiver desempregado, ele sustenta- me, senão ponho tudo em pratos limpos. E lá isso de ele desconfiar de mim, não sei se desconfia ou não; o certo é que o não dá a entender. Não se atreve.

KERSAC – Que mal podias tu fazer-lhe?

JOANICO – Que mal? Denunciá-lo aos patrões, fazer de conta que me sinto indignado, que sou um homem honesto, dedicado à casa, e que não posso mais vê-los enganados por um ladrão. E há ainda outro meio: é escrever uma carta anónima, lastimando o pobre rapaz (que sou eu) que se vê obrigado, pela miséria, a auxiliar estas roubalheiras que o revoltam.

João não pôde mais.

JOÃO – Joanico, o que fazes, o que tu ajudas a fazer, é infame. Joanico, sai dessa casa, deixa Paris, onde tens más companhias, e volta para a terra; o Sr. Kersac, que é tão bom, terá pena de ti e arranjar-te-á trabalho. Mas, meu pobre Joanico, suplico-te, não continues nessa casa de ladrões.

JOANICO – Meu rapaz, tu és um piegas. A casa é boa e eu não saio. Quero estar numa casa rica e elas

são todas iguais. Os patrões não se preocupam com os criados, deixam- nos em paz, não querem saber se eles passam a noite fora, no café, no baile ou no teatro. No quarto, na cozinha ou na cocheira, é sempre a mesma coisa. Vivo feliz; divirto-me, como bem, tenho dinheiro à farta, gasto-o e arranjo mais. Tu, pelo contrário, trabalhas, aborreces-te, emagreces, ficas em casa, vais à missa, fazes a vida de um frade. Isso não é para mim. Ora eu não te impeço de seres um frade, em vez de seres um rapaz que bebe, dança e vive.

JOÃO – Mas, Joanico, pensa que há um depois, como te disse no outro dia, e que. . .

JOANICO – Mau, mau, mau! Deixa-me em paz.

Eu não quero saber dos teus depois; não me buzines

aos ouvidos com os teus depois, que já me estão a

parecer de mais. . .

JOÃO – E estragam a tua vida, pobre Joanico. . .

JOANICO – Não estragam, porque eu quero que vás passear com os teus depois. Vês? Não gosto de te encontrar, João. Tens sempre conversas tolas que me estragam o dia e que me incomodam, me

aborrecem! Rapaz, a conta!

O criado trouxe a conta; Joanico pagou, e saiu

sem esperar pelos companheiros.

Kersac e João também saíram, mas não seguiram

Joanico.

– Que maroto – disse Kersac.

– Que desgraçado! – disse João.

KERSAC – Tenho pena de me ter contido enquanto este velhaco despejou o saco das suas misérias. Se não fosse o desejo de saber tudo, tinha-lhe partido os queixos logo à primeira.

JOÃO – Se eu tivesse o espírito, a instrução e

caridade do Sr. Abel, talvez soubesse encontrar as

palavras necessárias para chamar a si este pobre rapaz.

KERSAC – Isso sim! Um maroto como este! Não há nada a fazer. Não tem coração, nada o comove! Eu bem dizia à tua mãe: ele ainda vai parar à cadeia! Mas aí estás tu triste, meu rapaz! Entremos no ourives; ajuda-me a escolher o presente.

As compras de Kersac

Kersac e João entraram na loja de um ourives que, felizmente, era um homem honrado, e não se aproveitou da ingenuidade e da ignorância acerca dos preços das jóias, para os explorar.

Depois de muitas hesitações, acabaram por escoIher um fio de ouro. Kersac pagou, guardou o estojo no bolso do colete, agradeceu e perguntou onde podia adquirir um xaile; o ourives indicou-lhe um magnífico armazém.

Quando entraram nesse armazém, Kersac não pôde acreditar no que os seus olhos viam; o tamanho, a beleza da casa, a profusão de artigos de todas as espécies, deslumbraram-no e não o deixavam entrar. E só depois de muitas instâncias dos caixeiros, que perguntavam: ccQue desejam os senhores? é que Kersac conseguiu articular: Um xaile.

CAIXEIRO – Que qualidade de xaile quer o senhor?

KERSAC – De boa qualidade.

CAIXEIRO (sorrindo) – Sem dúvida. Mas quer da Índia, inglês ou francês?

KERSAC – Francês, francês; não gosto dos ingleses e, com franqueza, de nenhum país estrangeiro; o que é francês para mim vale mais do que tudo.

O caixeiro guiou Kersac e João durante quase um quarto de hora, antes de chegarem à secção de xailes.

– É aqui – disse ele por fim. – Brindé! Traz cadeiras para estes senhores.

Brindé apressou-se a trazer duas cadeiras estofadas de veludo; Kersac passou-lhes a mão por cima e sentou-se à bordinha, com medo de amachucar o lindo veludo azul; João, mais habituado ao veludo e à seda, sentou-se com menos respeito e precaução. Trouxeram os xailes. Kersac achava-os todos magníficos, mas passava sempre a outro e não se decidia por nenhum. O caixeiro, vendo a ingénua admiração de Kersac e João, perguntou-lhes para que era o xaile.

KERSAC – Ora essa! É para trazer!

CAIXEIRO – Mas para quem, senhor?

KERSAC – Para mim não, com certeza.

CAIXEIRO – Eu quero dizer para que género de senhora.

– Para o melhor género, senhor! Um género como os senhores não têm muito cá em Paris. Sabe administrar uma herdade como um homem.

CAIXEIRO (sorrindo) – Acredito. Eu não contesto os méritos da senhora! Perguntava a que classe pertencia, para lhe apresentar alguma coisa que servisse.

KERSAC – Ah! Compreendo! É para a criada da minha herdade, para a minha governanta.

CAIXEIRO – Muito bem. Vamos ver o que convém. Barato, não é assim?

KERSAC – Muito barato também não. Quero bom.

CAIXEIRO – Bom para uma criada, é do barato.

KERSAC – Mas se eu lhe digo que quero bom! Esta criada vai ser minha mulher, senhor! É o xaile de casamento que eu desejo.

CAIXEIRO – Desculpe-me, senhor; eu não sabia bem o que era que desejava. Agora já comprendi que é para a senhora!. . Brindé, os xailes franceses de boa qualidade!

Kersac estava contente. O caixeiro mostrou-lhe xailes compridos, xailes quadrados, xailes de todas as cores.

– Olhe aquele tão bonito! – disse João, apontando um xaile vermelho vivo.

KERSAC – e os touros. . . que não gostam do vermelho? E eu tenho touros!. . . E além disso, deves concordar, a tua mãe já não está na primeira mocidade.

CAIXEIRO (mostrando um com o fundo verde)

– E este?

KERSAC – Bonito, muito bonito! Mas. . . verde. . . isso desbota! Os fundos pretos são mais firmes. Aqui está um bonito! Bonito a valer! Quanto custa?

CAIXEIRO – Cento e vinte francos! É o que há de mais bonito.

KERSAC – Bonito é ele! Não há nada a dizer. Eu não sei se é costume regatear no seu estabelecimento.

Se pode abater alguma coisa, abata. Senão, eu levo o xaile. E mostre-me fazendas de lã.

CAIXEIRO – Nós temos preços fixos, senhor. Se quer dar-se ao incómodo de passar à galeria nº 91 mando-lhe mostrar tecidos de lã.

KERSAC – E o meu xaile?

CAIXEIRO – Vai lá ter!

Kersac e João percorreram inúmeras galerias e chegaram, finalmente, à dos tecidos de lã. A escolha foi difícil, porque, além da cor, havia a ponderar a qualidade da fazenda, o desenho, o preço, etc. Kersac decidiu-se por um tecido azul. João aprovou a escolha.

Quando Kersac quis pagar, levaram-no à caixa e aí perguntaram-lhe aonde deviam mandar as compras.

KERSAC – Para quê?

CAIXEIRO – Para o senhor se não incomodar.

KERSAC – Isso! Eu carrego todos os dias mais de cem vezes esse peso. Ah! Ah! Ah! Julga que eu tenha a força de uma pulga? Ah! Ah! Ah! Esse embrulho, muito pesado! Que ideia!

E foi andando, a rir, com o João; os caixeiros também riam, e até os fregueses que tinham sido testemunhas da conversa.

A boda

No dia seguinte, o Sr. Abel recebeu Simão, João e Kersac. Combinaram tudo.

– Não tens que pensar em coisa nenhuma, Simão! Lá irá ter um carro, à porta, para os Srs. Amédée e a noiva. O Sr. Kersac vai contigo. E haverá mais carros para o João e a tua futura família. Depois da cerimónia do casamento, almoçamos em casa do Sr. Amédée; às quatro horas juntamo-nos todos na estação do caminho de ferro; eu encarrego-me do resto. Bilhetes, jantar, divertimentos, baile, regresso, é tudo comigo. Simão, aqui tens os presentes que é costume o noivo dar à noiva e aos irmãos. Tu, João, tens aqui os presentes que deves dar a Simão e à tua cunhada.

JOÃO – Muito obrigado, meu senhor, muito obrigado! Podemos ver?

SR. ABEL – Sem dúvida. Olhem.

Os presentes de Simão para a futura mulher e cunhada eram lindos relógios com as respectivas cadeias. Para João era uma caixa; ao abri- la, os dois irmãos soltaram um grito de alegria; continha duas miniaturas a óleo, feitas pelo talentoso pintor Abel.

uma representava Simão, e a outra o próprio

pintor.

João não se conteve; precipitou-se para o

Sr. Abel e abraçou-o afectuosamente.

Passados os primeiros momentos de alegria, João

correu para os presentes que ele próprio devia dar.

Para Simão era o retrato flagrante de João. Para

Aimée era uma linda pulseira de ouro com a miniatura de Simão no fecho.

João não cabia em si de contente. Ter em sua

casa, pertencerem-lhe, os retratos das duas pessoas

que ele mais estimava no Mundo, e estes retratos

serem feitos por aquela mão tão querida, era para ele

o ideal; não deixava de os olhar, de os beijar. Diante

desta alegria todas as outras desapareciam.

Era preciso retirarem-se e deixar o Sr. Abel

descansado. Já tinha passado a hora do seu almoço.

– Até amanhã em casa da noiva, meus amigos.

A ti, ainda hoje te vejo em casa dos meus amigos

Grignan, João; vou lá jantar, como de costume.

Apertou-lhes as mãos e saiu, a cantar. Os amigos

desceram também com os seus tesouros. Combinairam levar sem mais demora os presentes a Aimée.

Encontraram-na com a mãe nos preparativos do almoço do dia seguinte. Primeiro ofereceu Simão o seu

presente, depois João e depois o Sr. Kersac. Nem

Aimée nem Simão esperavam este último presente;

cumularam Kersac de agradecimentos e de elogios

pelo seu bom gosto. A Sr.a Amédée pôs o fio ao

pescoço da filha para ver o efeito que ele fazia. Pouco

depois Kersac e João retiraram-se; deram uma grande volta e Kersac ficou encantado com as belezas de

Paris.

O dia passou-se mais ou menos como o anterior, entre o serviço, as visitas a Rogeriozinho e as voltas

pela cidade. No dia seguinte, Kersac e João vestiram-se a primor. O Sr. Abel tinha dado a João um fato

novo para a boda. Antes de saírem foram-se mostrar

a Rogério, que gostou muito de os ver.

JOÃO – Menino Rogério, venho pedir-lhe que

reze pela felicidade de meu irmão.

– E pela minha, meu querido menino – disse

Kersac. – Peça a Deus que eu e minha mulher

sejamos felizes, e que continuemos a ser pessoas

dignas e bons cristãos.

ROGÉRIO – Não esquecerei, Sr. Kersac. Pensarei em si e em João. Deus há-de abençoá-los. Desejo

que sejam muito felizes!

Kersac e João beijaram as mãozinhas do doente e

retiraram-se.

– Mamã – disse Rogério -, gosto muito do

Sr. Kersac: parece-me que ele é quase tão bom como

o meu querido Sr. Abel e João. Dê-lhes, a todos os

três, uma recordação minha; um dos livros de que

tanto gosto.

A pobre senhora encheu-se de coragem para lhe

prometer que cumpriria o seu desejo.

Kersac e João foram os primeiros a chegar a casa

de Simão. As testemunhas de Aimée e as amigas

apareceram pouco depois. O Sr. Abel ainda chegou a

horas, mas só no último instante. Os outros convidados esperavam os noivos no registo ou na igreja.

A noiva e seus pais instalaram-se, com alegria e orgulho, numa berlinda puxada a dois cavalos. O carro de Simão era bonito, e o cavalo que o puxava também; João sentou-se ao lado de Simão. Tanto um como outro espreitavam às janelas, para que toda a gente os visse naquele elegante carro. O trem do Sr. Abel atraía todos os olhares. Era um modelo da última moda, com um cavalo de raça e o cocheiro bem fardado. Antes de subir, Kersac, profundo conhecedor de animais, andou à volta do trem, admirando e acariciando o cavalo.

– Bonito bicho! – dizia ele. – Belo animal!

– Suba, meu caro, suba! – disse Abel, sorrindo.

– Vamos chegar atrasados.

KERSAC – Atrasados, com este cavalo? Aposto em como ele era capaz de passar à frente de todos!

SR. ABEL – É possível! Mas ainda assim suba! Em Paris não é como no campo. Há obstáculos a cada passo.

Kersac subiu, contrariado. De instante a instante deitava a cabeça de fora da portinhola, e não abria a boca senão para repetir:

– Bonito bicho! Como ele se atira! Que trote! Deixe- o à vontade, cocheiro! Não o contrarie, deixe-o ir!

O Sr. Abel ria, mas teria preferido menos admiração pelo cavalo e mais calma.

Não tardaram a chegar. Desceram das carruagens. Fez- se o registo do casamento. Todos se em pertigaram quando, à leitura dos nomes e dos atributos das testemunhas, chegou a vez do Sr. Abel Carlos, oficial da Legião de Honra, cavaleiro de Sant’Ana da Rússia, comendador da Águia Negra da Prússia, comendador de Carlos III da Espanha, etc. , etc. Assistir a um casamento que tinha por testemunha uma tal personagem, era uma honra invulgar, uma felicidade sem igual. Acabado o registo, voltaram para as carruagens; novo motivo de glória para os que ocupavam os carros oferecidos pelo Sr. Abel. Kersac preparava-se para recomeçar o seu exame ao cavalo.

– Belo pêlo! – começou ele. – Baio vermelho! Bonito pescoço! Belo peito, bem desenvolvido!

SR. ABEL – Suba, suba, meu caro! Desta vez não podemos chegar atrasados. Faríamos falta na igreja; lembre-se de que tenho de dar o braço à Sr.a Amédée.

Kersac subiu, mas não despregou os olhos do cavalo. A entrada na igreja foi bela e majestosa. A noiva era bonita; o noivo era simpático; os pais estavam bem conservados; as testemunhas eram escolhidas. O Sr. Abel e as suas condecorações atraíam todos os olhares.

A cerimónia não se arrastou por muito tempo. Na sacristia cumprimentaram-se e abraçaram-se; o Sr. Abel teve de suportar os elogios dos mais exaltados. Outra pessoa estaria embaraçada; mas o Sr. Abel ria de tudo, tinha resposta para tudo. Kersac, um pouco pesado, um pouco forte, não estava à sua vontade; ao ver-se só no meio desta gente que se conhecia, que se sentia em família, desejou esquivar-se; diversas vezes procurou sair da sacristia, mas impediam-lhe sempre a passagem; por fim, lá furou e desapareceu.

No momento de partir, Abel procurou Kersac, mas em vão. Nem as pesquisas na igreja, nem os chamamentos cá fora, tiveram o condão de o fazer aparecer. Já os recém- casados tinham seguido para casa; os convidados apressavam-se, por causa do almoço, e o Sr. Abel, acompanhado pelo João, continuava à procura do carro e de Kersac, em vão, por todo o lado.

SR. ABEL – Ter-se-ia ido embora sem esperar por nós?

JOÃO – Não me parece. Além disso, o cocheiro não o consentiria.

SR. ABEL – Para te dizer a verdade, não sei o que hei-de pensar. O que é evidente é que não vemos nem carro nem Kersac. Vem daí, vamos a pé, mesmo com os nossos fatos de cerimónia. Felizmente não é longe.

Estavam para se meter ao caminho, quando a carruagem chegou a trote. Kersac vinha na almofada ao lado do cocheiro.

SR. ABEL – Onde demónio foram vocês? Porque não esperaram por mim, Julião?

JULIÃO – Peço desculpa a V. Ex. a Julguei que voltasse a tempo.

KERSAC – Não ralhe, Sr. Abel. A culpa foi minha. Enquanto o senhor dava os parabéns e cumprimentava. . .

– Subamos – disse o Sr. Abel. – No carro me explica.

KERSAC – Dizia eu, enquanto faziam as suas vénias e se abraçavam, eu, que já ontem fiz todos os cumprimentos, saí, para examinar a valer o seu belo cavalo. Quanto mais o via, mais o admirava. Estava morto por guiá- lo. E vai, disse ao cocheiro:

– Se nós déssemos uma volta onde ele pudesse trotar à vontade?

E o cocheiro disse:

– O patrão pode sair e não nos encontrar. Ele é bom patrão, e eu não gosto de o descontentar.

E eu disse:

– Ora! Eles ainda se demoram meia hora! E em meia hora vai-se longe, com um animal como este.

Bem percebi que o cocheiro estava lisonjeado. Ele via que era um conhecedor que admirava o animal. Vi-o hesitar e, palavra, não me contive, subi para a almofada e largámos. Metemos pela Rua Rivoli. Havia pouca gente. O bicho corria que era um gosto. Nos Campos Elíseos, larguei- lhe as rédeas; cortávamos o ar. Num abrir e fechar de olhos chegámos ao fundo da avenida. O cocheiro começou a inquietar-se. Voltámos, e o animal trotava que espantava uma pessoa. Infelizmente não se demoraram muito na sacristia, pois nós não gastámos mais de dez minutos no caminho. E agora, que conheço o animal, digo-lhe que não sabe o tesouro que tem, e que é uma barbaridade fazê-lo andar nas ruas de Paris, e constranger-lhe o andamento, e fazê-lo esperar às portas. Se estivesse no seu lugar, tratava-o de outra maneira. Que barbaridade!

SR. ABEL – Calma, meu bom Kersac. Prometo tratá-lo de outra maneira daqui em diante. Mas hoje tem de trabalhar em honra de Simão. Chegámos. Não me contrariava nada almoçar.

– Nem a mim! – disse Kersac. – Tenho uma fome!

– E eu também – repetiu João lá por dentro.

Abel, Caim e Sem

O almoço decorreu bem. A princípio reinou completo silêncio; depois do terceiro prato, pronun ciaram-se algumas palavras; ao quinto a conversa tornou-se geral e ruidosa; depois do oitavo prato serviu-se o champanhe e cada qual propôs um brinde.

O Sr. Abel fez o primeiro aos noivos; Simão respondeu com outro, que foi aclamado por unanimidade:

-Ao Sr. Abel, meu querido e honrado benfeitor!

– Ao nosso excelente amigo Kersac! – disse João.

– À mãe ausente! – retrocou Kersac.

Continuaram assim. As pessoas fortes, muito resistentes ao álcool, esvaziavam o copo a cada brinde; mas, as cautelosas, como o Sr. Abel, Simão e João contentavam-se em molhar os lábios.

Kersac guardou-se para o jantar, e seguiu o meio termo; não bebeu senão um gole a cada brinde, mas os goles tornaram-se cada vez maiores.

O almoço era óptimo; a alegria era grande; estiveram muito tempo à mesa. Às duas horas concordaram que se fazia tarde. Todos se foram embora para tratar da vida ou da toilette, que devia ser simples, visto seguirem para o campo. Combinaram encontrar-se na estação às quatro horas.

Quando João e Kersac chegaram à estação, só lá estavam os recém- casados e os pais, e um criado do Sr. Abel com os bilhetes dos compartimentos reservados e tudo o que era necessário aos convidados.

O criado deu a Kersac e João os respectivos bilhetes; em pouco tempo reuniram-se todos os convidados; os empregados mandaram-nos subir para as carruagens. Quando o Sr. Abel chegou, já toda a gente se encontrava sentada; não havia mais lugares reservados. Kersac e João tinham esperado o Sr. Abel na estação e estavam, como ele, separados dos outros convidados.

SR. ABEL – Não se inquietem; vejo além dois amigos meus; eles e nós três somos cinco; ocupamos um compartimento e assim já não vai mais ninguém.

O Sr. Abel foi chamar os seus amigos Caim e Sem.

SR. ABEL – Por aqui, por aqui, meus amigos! Aqui está o meu amigo Kersac e o meu amigo João. Sr. Kersac, apresento-lhe os meus amigos Caim e Sem. Seguimos todos juntos. O Sr. Amédée autorizou-me a convidá-los.

– O Antigo Testamento todo reunido – disse Kersac, rindo com o seu riso franco. – Sr. Caim, não nos vai tratar como irmãos, não é verdade?

SR. CAIM – Isso é que vou. Mas serei um Caim regenerado, um Caim do Novo Testamento.

Entraram para um compartimento vazio e fecharam a portinhola.

O martelo mágico

A viagem não demorou muito. Desceram em Saint-Cloud. Havia feira na cidade. Passearam por toda a parte. Jogaram todas as espécies de jogos. Viram coisas mirabolantes, veados com cinco pés, carneiros com duas cabeças, gigantes de quatro anos que pareciam homens de trinta, com barba e bigodes; finalmente, um burro que tinha a cabeça onde os outros têm a cauda.

Esta última maravilha via-se numa barraca onde havia outros animais curiosos; o burro encontrava-se sozinho num lugar reservado, separado por uma lona, dos outros animais; só foi anunciado depois de uma conversa misteriosa entre o Sr. Abel e o dono dos animais.

– Entrai, meus senhores e minhas senhoras, entrai! Só um de cada vez! Meus senhores e minhas senhoras, entrai!

Kersac foi o primeiro e pagou dois cêntimos; não tardou a sair, rindo às gargalhadas.

DIVERSAS VOZES – Que é? Que está lá? É verdade que o burro tem a cabeça onde os outros têm a cauda?

KERSAC – É verdade! E vale bem a pena dar os dois cêntimos para o ver e prometer segredo ao dono do animal. Que comédia! Que bela comédia!

A alegria de Kersac excitou a curiosidade de todos os convidados do casamento e de todas as pessoas presentes. Todos quiseram entrar e todos saíam rindo como Kersac e discretos como ele. Por fim, aquela multidão que se não desfazia, e ria e aplaudia, chamou a atenção dos polícias. Não conseguiram que lhes explicassem o que era, e para saberem do que se tratava tiveram de entrar por sua vez. Entraram. . . sem pagar, na qualidade de polícias, e viram um burro numa cocheira, com a cabeça virada para o rabo, isto é, o rabo preso à manjedoura e a cabeça voltada para os espectadores. Os polícias não sabiam se haviam de rir ou de castigar. O Sr. Abel interveio e disse que tinha sido ele quem inventara o divertimento; defendeu tão bem a causa do dono da barraca, que este foi autorizado a continuar a mistificação que não prejudicava ninguém e lhe rendia mais dinheiro que o resto da bicharada.

Continuando o passeio ao longo das barracas, viram uma com um estrado, sobre o qual se pavoneava um homem pálido, de aspecto cansado, uma mulher de expressão envelhecida, denotando sofrimento, e um rapazito excessivamente magro, cujo

rosto desfigurado denunciava miséria. O aspecto daquela familia impressionou dolorosamente o Sr. Abel; depois de os ter observado durante algum tempo, foi atrás do toldo e conversou com o homem. Voltou, conferenciou com Caim e Sem, e passaram os três à retaguarda da barraca; a familia, de aspecto miserá vel, desapareceu para dar lugar meia hora depois, a três selvagens de grandes barbas e tez bronzeada. Um deles rufou formidavelmente num tambor; o segundo gritou com uma voz que abafava o barulho do tambor:

– Meus senhores e minhas senhoras, vinde ver o efeito maravilhoso do Martelo Mágico, que muda os cêntimos em moedas de prata, e as moedas de prata em moedas de ouro.

Não tardou a juntar-se multidão em frente da

barraca.

– Faz-se uma única experiência gratuita, meus

senhores e minhas senhoras. Depois devem dar alguma coisa à pessoa que fizer o peditório. A representação vai começar! Atenção ao espectáculo. Quem é

que me dá um cêntimo? Um cêntimo, meus senhores!

em troca de vinte?

Alguém estendeu a mão com a moeda. O selvagem

pegou nela, conservou-a no ar para que todos a vissem, pô-la em cima de um cepo, e afastou-se. O segundo

selvagem, que tinha um grande martelo na mão, bateu

com ele em cima do cepo; o primeiro selvagem pegou

na moeda e mostrou-a à turba; o cêntimo tinha-se

transformado numa moeda de vinte cêntimos.

A multidão aplaudiu. O dono do cêntimo recebeu

a moeda de um franco. Uma floresta de mãos apresentou mais cêntimos. O mesmo selvagem recebia e restituía. Mas descansavam muitas vezes, e os assistentes logrados punham-se a murmurar.

SELVAGEM – O Martelo Mágico não dá nada aos avarentos, nem aos jogadores, nem aos bebedotes, nem aos maus. Ele lê nos corações e dá a cada um segundo os seus méritos.

Os cêntimos das crianças transformavam-se sempre em moedas de vinte cêntimos; uma ou duas vezes mesmo, o martelo mágico transformou um cêntimo em moeda de dois francos.

SELVAGEM – Vamos, meus senhores, depois do peditório dêem ao martelo mágico, moedas de vinte cêntimos para ele as transformar em moedas de vinte francos, meus senhores! Quem não der no peditório, não tem direito à metamorfose. Quem der muito será recompensado.

A mulher começou a pedir; todos deram. Havia alguns instantes que Joanico se misturara com a multidão e atraía os olhares do selvagem principal. Na segunda sessão, Joanico avançou e deu uma moeda de vinte cêntimos para receber vinte francos.

SELVAGEM – Dê, meu senhor, que vai ficar satisfeito. Atenção, martelo, cumpre o teu dever; dá ouro pela prata!

O martelo bateu, Joanico estendeu avidamente a mão, e recebeu. . . um cêntimo.

– Isto não é ouro – gritou ele. – Eu dei vinte cêntimos.

SELVAGEM – Vamos outra vez, meu senhor! Omartelo enganou-se. Ora, esta! Algumas vezes

engana-se! Vamos, martelo, outra vez! Recompensa ou castiga!

Joanico deu a segunda moeda de vinte cêntimos. O martelo bateu e Joanico recebeu. . . um cêntimo.

– Vocês estão a roubar-me – gritou Joanico, furioso.

SELVAGEM – Toda a gente pode ver, meu senhor, que eu não tenho nada nas mãos nem no bolso. Vamos à terceira prova, meu senhor. Experimente, não perde nada.

Joanico resmungou, mas estendeu a terceira moeda de vinte cêntimos. O martelo bateu. O selvagem mostrou uma moeda embrulhada num papel.

SELVAGEM – Aqui está, meu senhor! Deve ser coisa boa! A moeda está escondida e o papel traz qualquer coisa escrita.

O selvagem leu:

– Para o Joanico.

Desembrulhou o papel e leu alto:

– Ladrão.

– Um cêntimo – acrescentou. – Sempre a mesma coisa. É um martelo mágico, meu senhor, mas recompensa e castiga!

Joanico estava espantado e furioso; a multidão repetia: Ladrão! Ladrão! O medo apoderou-se dele, afastou-se prudentemente e desapareceu.

Depois do martelo mágico, os três selvagens cantaram árias tirolesas e cançonetas alegres. A multidão aplaudia; a bandeja enchia-se. Depois das canções fizeram sortes de prestidigitação e outras habilidades; por fim um rufo de tambor anunciou que a representação estava acabada.

Os selvagens, vivamente aplaudidos, desceram do estrado, despiram-se, lavaram a cara na barraca e transformaram-se em Caim, Abel e Sem. Entregaram ao pobre charlatão o produto dos peditórios, que somava mais de cinquenta francos; o infeliz agradeceu reconhecidamente, com as lágrimas nos olhos.

O Sr. Abel e os amigos procuraram juntar-se aos companheiros; não tardaram a encontrá-los. João estava inquieto com a longa ausência do Sr. Abel; mas Kersac tinha-lhe dito que, sem dúvida, haviam ido ao Salão dos Cem Talheres apressar o jantar.

Ninguém o reconhecera na exibição dos selvagens.

O Sr. Abel propôs irem jantar; a proposta foi acolhida com alegria; o almoÇo já ía longe, e estavam resolvidos a fazer honra ao jantar.

Os convivas sentaram-se. O jantar começou no mesmo rigoroso silêncio do almoço. Como de manhã, começaram a animar-se depois dos primeiros pratos e tornaram-se alegres e ruidosos à aproximação do assado. O jantar era primoroso e os vinhos de primeira qualidade. Cantaram. Quando chegou a vez do Sr. Abel, ele, Caim e Sem entoaram as canções que tinham entoado no estrado dos saltimbancos. Só então foram reconhecidos; fizeram-lhes muitas perguntas e aplaudiram-nos. Riram muito da invenção do martelo mágico e do logro em que caíra o Joanico. Depóis da refeição, que durou das sete às nove horas, os violinos começaram a tocar e principiou o baile.

Quando já estavam muito animados, o Sr. Abel gritou:

– Vamos à lição de dança, como no Café Métis, João!

Puseram-se ambos em posição, como no café, e começaram a dança que tanto tinha divertido os basbaques da rua, e que causou o mesmo efeito no Salão dos Cem Talheres de Saint- Cloud. Toda a gente ria e aplaudia.

A reunião prolongou-se alegremente até à uma da madrugada.

Na estação, estavam as carruagens que o Sr. Abel tinha posto à disposição dos convidados e cada qual foi para sua casa.

A morte de RogerioZinho

Kersac e João estavam fatigados; no dia seguinte dormiram até tarde. Quando o Rogeriozinho mandou dizer ao João que fosse ter com ele, Kersac dormia ainda e João acabava de se vestir. Apressou-se a ir ter com o pobre doente, que o recebeu com o seu sorriso meigo e amável.

ROGÉRIO – Ontem vieste muito tarde. Divertiste-te muito?

JOÃO – Muito, menino Rogério. Mas nem por isso deixei de pensar em si.

ROGÉRIO – Obrigado, meu bom João. Conta-me o que fizeste.

João contou a história dos saltimbancos e do martelo mágico; a pouca sorte de Joanico, que tinha perdido três francos quando queria ganhar uma moeda de ouro.

Em seguida falou no jantar, na lição de dança, no baile e em tudo o que podia divertir Rogério e distraí-lo do seu sofrimento. A pobre criança sorria, não tinha forças para rir. Agradecia a João com o olhar; nos momentos em que sofria muito, fazia-lhe sinal para que interrompesse a narrativa. João ficou assim uma hora com ele; em seguida, voltou para junto de Kersac, que acabava de acordar e que ficou envergonhado quando soube que eram dez horas e ainda estava na cama.

KERSAC – Não estou acostumado a estas noitadas, a estas fadigas extraordinárias e a estas refeições intermináveis, que nos deixam pesados e preguiçosos! Na herdade, fatigo-me mais e tenho menos necessidade de repouso. Felizmente, amanhã de manhã já volto para lá. E logo que chegue, trato com a tua mãe do que nos interessa; quanto mais cedo, melhor. Tinha-lhe prometido levar-te; queres vir passar alguns dias connosco?

JOÃO – Gostava muito de ir, mas não posso deixar o meu pobre Rogeriozinho no estado em que se encontra. Não valho nada, mas ele está sempre a chamar-me, e consigo distraí-lo um pouco.

KERSAC – Tens razão, meu filho; és um rapaz às direitas.

Kersac devia partir nessa mesma tarde; aproveitou o tempo de que dispunha para percorrer Paris com o João; ao voltarem para o almoço, estavam mortos de cansaço.

– Olha lá, João – disse Kersac -, antes de deixar Paris queria levar a bênção do nosso anjinho; ele havia de me dar sorte. Pergunta se o posso ver. Aproxima-se a hora da partida. Enquanto tu lá vais, faço eu a minha trouxa.

João voltou antes de a trouxa estar pronta. Rogério, pelo seu lado, também queria ver Kersac antes de ele se ir embora.

Quando entraram no quarto, Kersac impressionou-se com a alteração das feições da criança. A palidez do rosto e a dificuldade na respiração, anunciavam o sério agravamento do seu estado.

– Entre, meu bom Sr. Kersac – disse Rogério em voz entrecortada -, entre. . . Não o voltarei a ver. . . mas pedirei por si. . . Adeus. . . Adeus. . . Breve estarei. . . junto de Deus. . . Serei feliz. . . por ter sofrido tanto! Deus há-de recompensar-me.

Kersac ajoelhou junto do leito.

-Querido anjinho de Deus, abençoe-medisse ele, pondo sobre a cabeça a mãozinha do Rogério, crispada pelo sofrimento.

– Que Deus. . . o abençoe! A ti também, João. . . Adeus.

A pobre criança teve outra crise. A Sr. a Grignan pediu a Kersac que saísse. João perguntou se podia ser útil; em face da resposta negativa, saiu com Kersac para não perturbar.

O almoço dos criados foi triste; todos esperavam

o fim de Rogério; queriam-lhe muito, lastimavam-no

e estàvam comovidos com o seu terrível sofrimento.

Kersac foi-se embora logo que se levantaram da

mesa; agradeceu afectuosamente ao bom Bercuss os

seus cuidados e a sua bondade; agradeceu também

aos outros criados, pois todos tinham contribuído para tornar agradável a sua estadia ali. Encarregou

Bercuss de apresentar os seus respeitos e agradecimentos à Sr.a e ao Sr. Grignan, e saiu com João.

Ao voltar da estação, João passou em casa do Sr. Abel, que, fatigado do dia anterior, ainda não

saíra.

SR. ABEL – És tu, João? Pareces triste? Que

aconteceu, meu amigo?

JOÃO – Receio que o nosso querido menino Rogério esteja próximo do fim. Tem as feições tão

alteradas e a voz tão fraca desde a última crise! Vim

preveni-lo.

SR. ABEL – Obrigado. Queria deitar-me cedo

julgando que ele estava melhor. Mas o que acabas de

me dizer inquieta-me. Estimo muito aquela excelente

família, para a abandonar em momentos tão dolorosos.

Dez minutos depois estavam no palácio do

Sr. Grignan.

– Como vai o menino? – perguntou Abel ao

porteiro, entrando precipitadamente.

– Mal, senhor, muito mal. O médico acaba de

sair. Mandaram agora mesmo a casa de V. Ex. a e a

casa do senhor prior da Madalena.

Abel subiu rapidamente a escada e atravessou as salas; a porta do quarto de Rogério conservava-se aberta; a criança estava coberta de suor; os olhos entreabertos, o olhar velado pela aproximação da morte. as mãos, crispadas e agitadas por movimentos convulsivos, anunciavam um fim próximo. O Sr. e a Sr. a Grignan, de joelhos junto da cama, contemplavam, com dolorosa resignação, a agonia do filho. Susana, menos forte para lutar contra a dor, de joelhos, perto da mãe, soluçava, com o rosto escondido nas mãos. Abel pôs-se entre a mãe e a filha e começou a rezar as orações dos agonizantes; um leve sorriso aflorou à boca da criança; tentou falar e, depois de alguns esforços, articulou fracamente:

Abel. Obrigado!

O Sr. e a Sr.a Grignan completaram o agradecimento do filho com um olhar cheio de gratidão. O padre entrou, aproximou-se do moribundo, apressou-se a dar-lhe a última bênção, administrou-lhe o sacramento da Santa-Unção e recitou, com o Sr. Abel, a oração dos agonizantes.

No momento em que disse, com a voz forte e solene Parte, alma cristã, um ligeiro estremecimento agitou os membros da criança; sobreveio a imobilidade completa, e a respiração, já tão difícil, parou. O padre inclinou-se sobre ela, abençoou o corpo sem vida e recitou o Laudate l7ominum.

Dois casamentos

A familia ficou mergulhada numa dor profunda, mas nunca se lhe ouviu um queixume. Abel quase os

não deixava. Os meses, os anos, passaram-se assim.

A reputação de Abel aumentou ainda mais; os seus

últimos quadros fizeram furor. Recebeu o título de

barão depois da exposição onde alcançou tão brilhante êxito. Continuou a sua vida simples e benfazeja. A pouco e pouco, restringiu o círculo das suas

relações íntimas; e cada vez dedicou mais tempo aos

seus amigos Grignan.

Susana chegou à idade em que uma herdeira nova, bonita, rica, encantadora, é requestada. A partir

de então, o casamento de Susana Grignan com o

barão de N. tornou-se o assunto de todas as conversas: a reputação e a celebridade de Abel tinham-no

posto no número dos bons partidos, e muitas mães

invejaram a felicidade da Sr.a Grignan.

Três anos antes deste acontecimento, Kersac

regressara alegremente à herdade de Sant’Ana. O

seu primeiro cuidado foi procurar Helena, que enncontrou na cozinha, ocupada com os serviços caseiros.

– Helena, Helena, cá estou eu! – gritou Kersac.

– E bem contente por ter voltado!

HELENA – E João?

KERSAC – O João está muito bem; vem daqui a mais algum tempo. Depois lhe explico. E eu venho pedir- lhe uma coisa.

HELENA – Tudo o que quiser, senhor; bem sabe se tenho ou não vontade de lhe obedecer em tudo; se a sua vontade não é a minha.

KERSAC – Oh! Não se trata de obedecer; trata-se de querer.

HELENA – Isso para mim é a mesma coisa; quero tudo o que o senhor quiser.

KERSAC – Isso é verdade? Então. . . Ora bolas. Tenho medo da Palavra, tenho medo…

HELENA – Que é então, meu Deus? Foi. . . o meu Joãozinho?

KERSAC – Não se trata de Joãozinho! Belo rapaz. Estou doido com ele. . . mas não é dele que se trata; trata-se de si.

HELENA – Mas fale, senhor! Assusta-me!

KERSAC – Helena, Helena, não adivinha?

E como Helena o olhava com uns grandes olhos espantados, Kersac tomou-a nos braços, quase a sufocando, e disse por fim:

– Quero que seja minha mulher!

Depois largou-a tão subitamente, que Helena caiu para cima de um banco que estava atrás dela, não se magoando só por pouco.

A surpresa e a queda deixaram-na imóvel. Kersac receou tê-la magoado.

– Que animal eu sou! – gritou ele. – Helena, minha pobre Helena, está magoada? Dói-lhe alguma coisa?

HELENA – Não estou magoada, senhor; não me dói nada. Mas estou tão admirada que não compreendo; não sei o que foi que quis dizer.

KERSAC – Ora essa! Não é difícil de compreender! A senhora é uma mulher excelente, activa, e está ao par dos trabalhos de uma herdade. Eu sou solteiro, aborreço-me de o ser, e quero casar consigo. É muito simples e muito natural. Eu pergunto-lhe: Quer-me, sim ou não? Se diz que sim, faz-me muito feliz; paga-me tudo o que a senhora diz que me deve. Se diz que não, é porque então é uma ingrata, um mau coração, dá- me um desgosto em recompensa do que fiz por si. Vamos, Helena, responda depressa em vez de me olhar com esse ar espantado, como se eu a acabasse de matar.

HELENA – Sr. Kersac, será possível que tenha essa ideia?

KERSAC – Sim ou não?

HELENA – Sim, mil vezes sim. Pode duvidar da alegria com que aceito esse novo benefício?

KERSAC – Até que enfim! O maroto do Simão sempre me atormentou!

E correu a comunicar aos criados a surpreendente nova do seu casamento.

KERSAC – Pois bem, não se surpreendem?

– Por causa disso não, senhor! – responderam-lhe, rindo. – Todos o desejam e o esperavam há muito tempo. A Sr. a Helena bem merece a felicidade que Deus lhe envia. E o senhor não podia escolher melhor.

Uma vez o assunto resolvido e anunciado, Kersac apressou-se a realizá-lo. Quinze dias depois estava casado e, a não ser o facto de Helena se tornar a Sr.a Kersac, e Kersac ser dez vezes mais feliz do que dantes, a herdade de Sant’Ana continuou como até ali.

Um facto importante, que não convém esquecer, é que, no dia seguinte ao da chegada de Kersac, Helena preveniu- o de que acabava de chegar um homem e um cavalo.

KERSAC – Um homem! Um cavalo! Não compreendo, não comprei nada!

Foi ver. Mal deitou uma vista de olhos ao animal, soltou um grito de alegria; reconhecera a magnífica égua do Sr. Abel. O moço explicou-lhe que era um presente do Sr. Abel de N. . ., e entregou-lhe uma carta, que ele se apressou a abrir. Leu o seguinte:

Meu caro Kersac

Tem razão: Paris não convém ao animal que lhe mando; está melhór em sua casa; faça-me o favor de o aceitar para seu uso pessoal; aí poderá mostrar melhor todas as suas qualidades.

Mande-me o moço o mais breve possivel; preciso cá dele.

Adeus. Não se esqueça do seu amigo.

Abel de N. .

– Excelente homem! Pérola dos homens. Coração de ouro, como diz o meu João! Que felicidade ter

um animal assim! Ninguém tocará nele senão eu!

Entre, homenzinho, venha tomar alguma coisa!

Kersac disse a Helena que desse de comer e de

beber ao moço. Ele mesmo levou a sua bela égua

para a cavalariça; Deu-lhe uma cama esplêndida, limpou-a,

deu-lhe aveia e palha.

Esta égua foi uma fonte de alegria para Kersac;

todos os dias inventava pretextos para a atrelar a um

carro ligeiro, e fazia-a trotar durante uma hora ou

duas, não se cansando de a ver cortar os ares e causar

a admiração de quantos encontrava.

Uma vez levou Helena, mas ela pediu que a não

levasse mais, porque uma corrida tão rápida lhe metia medo.

Pouco tempo depois da morte do menino Rogério, receberam a visita do João. Para distrair Susana

do seu desgosto, o Sr. e a Sr.a Grignan fizeram uma

viagem à Suíça e ao norte da Itália, com o seu amigo

Abel. Conseguiram-no em parte; mas Susana continuou a falar com o Sr. Abel acerca do seu irmão

Rogério; e, para ambos, esta recordação tinha um

encanto indefinível.

Os Srs. Grignan levaram apenas Bercuss. E foi

durante esta viagem que João obteve, sem dificuldade, por intermédio do Sr. Abel, licença para ir à

terra.

Terceiro casamento

Três anos depois, quando o Sr. Abel já fazia parte da família por se ter casado com Susana, João anunciou- lhe que Kersac e Helena estavam numa grande aflição. O dono da herdade, que Kersac arrendara havia mais de vinte anos, acabava de morrer; a propriedade encontrava-se à venda, e já tinham entrado em negociações com alguém que a queria explorar directamente.

– Não te aflijas, meu amigo – disse-lhe Abel. Essa venda ainda se não fez. Talvez não se faça.

Efectivamente, dias depois, João soube pelo Sr. Abel que a herdade tinha sido vendida a alguém que fazia com Kersac um contrato de arrendamento, que devia durar enquanto o rendeiro vivesse.

João ficou tão surpreendido com esta coincidência, que Abel não pôde deixar de sorrir.

– Senhor – disse João -, o senhor Ladrão e o senhor Pintor não terão entrado neste negócio?

SR. ABEL (rindo) – É possível; eu sei que o senhor Pintor queria comprar uma casa na Bretanha.

JOÃO – Oh! Que felicidade! A sua bondade nunca se cansa!

Fora realmente o Sr. Abel quem comprara a herdade de Sant’Ana, para lá construir um palacete para residência de verão. Esta compra fez a felicidade de Kersac e de Helena, bem como a de João, que

passava perto da mãe sete ou oito meses por ano, sem contar com a família que habitava o palacete.

Quando Maria fez dezoito anos, Kersac, que a estimava carinhosamente e que não tinha filhos do seu casamento com Helena, cumpriu a antiga promessa: declarou que ia adoptar Maria. Faltava a segunda parte do projecto: casá-la com João. O rapaz tinha vinte e sete anos; continuava no palácio de Grignan, só com a diferença de que passara para o serviço particular do seu benfeitor, do seu querido Sr. Abel. Falando-se deles, podia-se dizer com verdade tal patrão, tal criado. Um era o patrão ideal, e outro, o criado ideal.

Quando Kersac adoptou Maria, Abel que se entendia com ele para conseguir que o casamento se fizesse, notou que João se tornava pensativo, menos alegre, e fez-lho notar.

JOÃO – Que quer, meu senhor? À medida que os anos passam, a gente torna-se mais reservada e mais séria.

SR. ABEL (sorrindo) – Mas, meu amigo, tu tens apenas vinte e sete anos; ainda não chegaste à velhice.

JOÃO – Ainda não, meu senhor, mas para lá caminho.

SR. ABEL – João, tu escondes-me alguma coisa e isso não está certo. Tu, que não tinhas segredos para mim, tens agora um, e já há muitos meses.

JOÃO – Perdoe, meu senhor. Não se trata de um segredo; é apenas uma coisa que me entristece, apesar dos meus esforços em contrário.

SR. ABEL – Então que é, João? Conta-me lá! Que receias? Não conheces muito bem a minha amizade por ti?

JOÃO – Oh! Conheço, sim, senhor; e a sua indulgência e a sua bondade. É que eu gosto muito de Maria: queria casar com ela. E isso é impossível, porque, se me casasse, o meu sogro e a minha mãe haviam de nos querer em casa. E se eu o deixasse, meu senhor, seria tão infeliz, tão ingrato, tão egoísta, que não teria um momento de descanso e morreria de pena. Contei tudo à Maria; ela compreendeu e resolvemos ficar solteiros. Consola-me a ideia de não o deixar nunca e de viver muito feliz na companhia do senhore da senhora, tentando assim retribuir os muitos favores que tenho recolhido.

E, dizendo estas palavras, a voz sumiu-se-lhe; voltou-se, como para arranjar qualquer coisa, e desapareceu.

O Sr. Abel ficou triste e pensativo.

– Feliz! Pobre rapaz! Pobre rapaz! É por mim que sacrifica a sua felicidade. Não posso aceitar tal coisa. Antes de um mês há-de casar.

O Sr. Abel tocou; entrou o criado Baptista.

– Baptista, vai à herdade e diz a Kersac que me venha falar.

Kersac não tardou a chegar.

– Tenho um assunto a tratar consigo, Kersac. Peço- lhe o seu auxílio e ofereço-lhe o meu.

Fecharam-se, para poderem conversar sem serem mcomodados; meia hora depois, Kersac foi-se embora, esfregando as mãos.

Quando o Sr. Abel voltou a ver João, disse-lhe que Kersac lhe queria dizer uma coisa muito importante.

– É preciso ir lá já?

– Sim, parece que Kersac tem pressa.

João foi sem mais demora; encontrou-o só.

– João – disse Kersac, estendendo-lhe a mão

-, tu és um imbecil e a Maria uma doida. Vou chamar-vos à razão.

Levantou-se, abriu a porta e voltou com a Maria, a chorar.

– Olha – disse, mostrando-lha -, vês? Tu és a causa disto.

JOÃO – Maria, Maria, tinhas prometido ser razoável!

MARIA – Eu bem quero, João, mas não posso.

KERSAC – Vocês são doidos! Eu vou-lhes dar o juízo.

Agarrou a mão da Maria e pô- la na de João.

– Dou-ta – disse ele ao João. – Dou-todisse à Maria. – Daqui a um mês, de boamente ou à força, hão-de estar casados. Tu continuas em casa do Sr. Abel durante os oito meses que ele cá estiver; quando se for embora, acompanha-lo ou ficas, conforme queiras. Eu preferia ter- te na minha companhia, mas o Sr. Abel levou a melhor. Apre! Ele puxa para ti como o ferro para o íman!

Kersac não lhe deu tempo para resposta; saiu e fechou a porta. Quando voltou, uma hora depois, encontrou-o convencido. Maria tinha-lhe mostrado que o casamento não prejudicava em nada as suas obrigações para com o seu benfeitor. Parece que os argumentos foram persuasivos, porque terminaram a conferência discutindo o dia do casamento. João queria esperar mais algum tempo; Maria queria que ele se fizesse o mais breve possível.

– Porque – disse ela -, se te deixo tempo para reflectires, abandonas- me pelo Sr. Abel, e eu morro de desgosto.

João estremeceu à ideia desse assassinato previsto e premeditado, e consentiu em casar daí a quinze dias.

A boda foi soberba; os banquetes, as danças e os divertimentos duraram dois dias; mas nem um instante João esqueceu as suas obrigações para com o seu querido patrão.

Vivem todos felizes e unidos. Na bela cabeleira negra do Sr. Abel, já espreitam cabelos brancos. Tem quatro filhos. Susana e Abel é que os educam. Susana dedica-se especialmente às meninas; Abel dirige a educação dos dois rapazes; um deles dá mostras de um talento quase igual ao do pai. João, casado há seis anos, já tem três belos filhos. Vivem na herdade, com a mãe. Kersac e Helena levam a vida mais feliz deste mundo, rodeados de tantos amigos. Kersac conserva o seu vigor e a sua bela saúde. Helena parece dez anos mais nova. Os filhos de João são esplêndidos; a menina é loura e bonita como a mãe, os rapazes são morenos como o pai.

Os filhos de Susana e Abel atraem todos os olhares pela sua graça e grande beleza; as suas virtudes igualam os predicados físicos; o filho mais velho tem

treze anos; o segundo tem onze; as meninas têm nove e sete anos.

O Sr. e a Sr.a GriZan não deixam os filhos.

Nunca um aborrecimento, uma divergência de opiniões, perturba a harmonia que reina nesta família. O Rogeriozinho é, sem dúvida, o seu anjo protector.

A bela égua de Kersac ainda vive e continua a excitar a admiração do dono. Já teve catorze poldros, lindos e perfeitos, que Kersac quis conservar em seu poder; mas viu-se obrigado a ceder oito ao Sr. Abel, e não sei quantos aos seus amigos, que lhos pediam com insistência.

E Joanico?

E Joanico?

Ai Pobre Joanico, ele está longe de levar a vida doce e feliz de João e de seus amigos.

Os leitores lembram-se da sua última conversa, no café, com Kersac e João. Continuou a sua vida de gatuno. Um dia adoeceu devido ao abuso das bebidas. Os patrões desembaraçaram-se dele como fazem todos os patrões que não se importam com os criados, mandando-o para o hospital. Durante a sua doença, foi o Sr. Boissec em pessoa quem tratou dos negócios. Descobriu as gatunices de Joanico. Em vez

de se acusar, em virtude do mau exemplo e dos maus conselhos que lhe tinha dado, voltou-se contra ele, chorou as quantias consideráveis que Joanico lhe tinha subtraído, e resolveu castigá-lo severamente.

No hospital, Joanico, comparando o seu abandono com a situação tão feliz de João, pôs-se a reflectir, e essas reflexões poderiam dar bom fruto se Joanico tivesse mais fé e coragem.

Mas, quando saiu do hospital e se arrastou, pálido e fraco, até casa dos patrões, Boissec recebeu-o com injúrias e ameaças, e mandou-o pôr na rua pelos criados.

E Simão?

Simão vive feliz e contente; é bom marido, bom filho e, sempre, bom cristão. O sogro aborrece-o algumas vezes com questões comerciais. Ele acha Simão muito dedicado, muito consciencioso. Simão assegura que é simplesmente honesto, e que não fará nenhum negócio que não seja perfeitamente leal e honroso. No armazém, os fregueses gostam mais de se entender com o genro do que com o sogro. Este último retirou-se do comércio, entregou o estabelecimento aos filhos e vê, com surpresa, a prosperidade de Simão, que já adquiriu fortuna suficiente para levar uma vida agradável. Simão vai às vezes a Sant’Ana, onde encontra reunidos todos os seus amigos e seu irmão João, que ele continua a estimar carinhosamente.

No meio desta felicidade, teve dois grandes desgostos: o primeiro foi não ter filhos; o segundo foi o de Aimée, mal aconselhada pela mãe, começar a levar uma vida muito à larga e a fazer grandes despesas com vestidos e frioleiras; e revoltar-se contra Simão, chamando-lhe severo, avaro e exagerado. Enfim, neste lar não havia perfeita harmonia. O Sr. Abel, que Simão visitava algumas vezes em Paris, aconselhava-lhe doçura, paciência e firmeza.

– Não cedas nunca no que for mau, ou possa levar ao mal, meu amigo; no resto, deixa-a o mais à vontade que possas. Com os anos, Aimée há-de tornar-se razoável. então há-de compreender e aprovar a tua atitude.

Simão ouvia, suspirava e esperava. Por fim, Deus ajudou-o. Com os anos, o Mundo e os vestidos deixaram de interessar a Aimée; a sua alma tornou-se bela. E passou a ser o que Simão queria que ela fosse.

Aimée compreendeu as qualidades e virtudes do marido. E quando vão passar alguns dias na herdade de Sant’Ana, entende-se perfeitamente com todos os membros da excelente família que a habita.

FIM

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