Written on Outubro 25th, 2011 at 10:34 am by Historias Infantis

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– Duzentas e cinqüenta pipas?!
– É isso mesmo que você escutou, Pedro. Duzentas e cinqüenta pipas
– confirma Raoni.
– E têm que estar prontas na segunda-feira de manhã? — pergunta
Anamélia.
Raoni, hoje é sábado! — insiste Pedro.
– Puxa! Pensei que vocês iam ficar contentes — Diz Raoni, meio sem
graça.
– O problema é que não há tempo para fazer tudo isso até segunda –
explica Anamélia — Ainda mais agora que Daniel e Felipe viajaram.
– Ah, vai dar, sim. Temos material de sobra e, com o dinheiro que
vamos ganhar, podemos passar umas férias fantásticas! Diz Raoni,
recuperando o entusiasmo.
A Fábrica de Pipas, fundada numa garagem por Pedro, Raoni e Daniel,
e à qual se juntatram, depois, Felipe e Anamélia, funcionava a todo
vapor. Os pedidos de pipas eram atendidos com prontidão e qualidade, e o
trabalho dos meninos estava cada vez melhor.
– Anamélia tem razão, é muito pouco tempo para fabricar tanta pipa
– insiste Pedro.
– É muita pipa, sim. Vocês estão certos — diz Raoni. E após uma
pausa, acrescenta, olhando os rostos dos amigos: — Mas, agora, o que eu
quero saber é o seguinte: topamos ou desistimos?
Por um momento, todos ficaram em silêncio. Eram, de fato, muitas
pipas; porém, eles já tinham, juntos, vencido tantos desafios…
– Se é assim, não temos tempo a perder — alerta Pedro. — Mãos à
obra!
– é, vamos deixar de conversa — diz Anamélia.
Começaram a trabalhar, com vontade. E passaram o resto do sábado
atarefados, armando varetas, cortando e colando papel, amarrando
cabrestos e fabricando rabiolas. Pararam apenas para o almoço. Mas, no
final da tarde…
– Estou tão cansado — boceja Pedro, esticando as costas.
– E eu também — acrescenta Anamélia. — Não agüento mais. Já estou
trocando as cores.
– Quantas fizemos até agora? pergunta Raoni.
– Quase cem — responde Pedro.
– Ainda faltam cento e cinqüenta — diz, desolada, Anamélia.
– é muito. Acho que devíamos pedir ajuda a alguém — sugere Raoni.
– Mas a quem? Está todo mundo de férias — responde Pedro.
– É, e a maioria viajou — acrescenta Anamélia.
– Nem temos tempo para ir de porta em porta, procurando saber quem
estaria interessado em se juntar a nós — argumenta Pedro.
– Colocamos um letreiro aí fora. Quem sabe, aparece alguém? –
sugere Raoni.
– Parece uma boa idéia! — disseram os outros dois.
Sem perda de tempo, colocaram um letreiro bem grande na porta da
garagem:

URGENTE: PRECISA-SE DE AJUDANTE PARA FABRICAR PIPAS

E, cansados, foram para casa dormir.
No dia seguinte, mal acordaram, correram para a garagem. Preocupados
com a encomenda, não tomaram nem café.
– Amanhã de manhã, cedinho, tem que estar tudo pronto — diz Raoni,
agitado.
– Será que vai dar? — hesita Anamélia, enquanto cola papel.
– Ora, se conseguirmos fazer pelo menos…
A frase de Pedro ficou no meio, interrompida por uma voz que vinha
do lado de fora da garagem:
– É aqui que estão precisando de alguém que saiba fabricar pipas?
os meninos levantaram-se de um pulo e, felizes, foram ver quem era.
mas a alegria deles logo desapareceu.
À porta da garagem estava um menino, tateando o caminho com uma
bengala.
– É aqui a fábrica de pipas? Meu nome é Xiko, e me disseram que
queriam alguém que soubesse fazer pipas.
Bem de mansinho, Raoni e Anamélia se esquivaram para dentro da
garagem, deixando Pedro, sem saber o que dizer, na frente de Xiko.
– Mas ele é cego — diz Anamélia no ouvido de Raoni.
– É capaz até de atrasar o nosso trabalho — sussurra Raoni.
– Não acho que eu vá atrasar o trabalho — diz Xiko, dirigindo-se a
Raoni e Anamélia.
– Você escutou o que estávamos dizendo? — pergunta Anamélia,
corando muito.
– Nós… nós não queríamos dizer isso… mas é que… é que… são
muitas pipas mesmo e… — gagueja Raoni.
– Tudo bem. Acontece que sou apenas cego, no mais, sou como vocês.
E sei fazer pipas. — o menino faz uma pausa e acrescenta: — E também
sei ler.
– Ler?! — pergunta, confusa, Anamélia — vo… você leu o nosso
letreiro?
– Não, o letreiro de vocês, não — responde Xiko, com um sorriso.
– Um amigo meu me falou sobre ele.
– Mas então, como você lê? — pergunta, curioso, Pedro.
Xiko tirou da bolsa um livro e mostrou-o aos meninos.
– Estão vendo esses ressaltos no papel? Eu leio passando os dedos
sobre eles. Isso é alfabeto Braille.
Os meninos pegaram o livro de Xiko e folhearam-no com atenção.
– Que barato!
– Legal!
– Mas me diga uma coisa, não será melhor começarmos logo a fazer
essas pipas? Enquanto trabalhamos, vamos conversando, o que acham? –
pergunta Xiko.
Entreolharam-se por um momento, hesitantes. Depois, disseram em
coro:
– Vamos!
Mostraram a Xiko onde ficavam a cola, a tesoura, a linha e as
varetas. Depois, separaram os papéis por cores e mostraram-lhe em que
lugar da prateleira ficava cada cor. E começaram a trabalhar.
No início, os meninos se admiravam com a facilidade com que Xiko
guardava o lugar de cada coisa, e observavam os seus movimentos, em
silêncio. Depois, foram aos poucos se entrosando.
Xiko era um garoto alegre e falador, e no final da tarde todos
conversavam animadamente como se ele sempre tivesse feito parte da
Fábrica de Pipas.
– Já está anoitecendo — diz Pedro, preocupado.
– Vamos ter que entrar pela noite trabalhando.
– Quantas faltam? — pergunta Anamélia.
– Trinta — responde Xiko.
– Como você sabe? — pergunta Raoni, conferindo, discretamente, a
quantidade de pipas.
– É que estou atento — responde Xiko. — Cada vez que terminamos
uma pipa, eu…
De repente…
– Ué!? Faltou luz! — exclama Pedro, interrompendo Xiko.
– Vamos pegar velas em casa — sugere Raoni, prontamente.
– Logo hoje que não tem nem lua… — lamenta Anamélia.
– Cuidado para não tropeçar na cola — diz, cauteloso, Pedro.
– Nem nas pipas prontas! — alerta Raoni.
– Não se preocupem — diz Xiko,levantando-se — segurem minha mão
que guio vocês.
Xiko levou, um a um, dos meninos para fora da garagem, sem esbarrar
numa pipa sequer.
– É que, para mim, tanto faz ser de dia ou de noite — diz ele. –
Vocês vão pegar as velas que eu espero aqui.
Em casa, os meninos não encontraram as velas, e a lanterna de
acampamento estava sem pilhas. Como o supermercado estava fechado àquela
hora, tentaram as vendas mais próximas. Não tiveram sucesso: uma das
vendas há muito não trabalhava com velas; na outra, o tamanho das pilhas
não servia na lanterna e a última acabara de vender as poucas velas do
estoque. Desesperados, correram até as casas dos vizinhos, parentes e
amigos. Os que tinham algum tipo de iluminação não o puderam dispensar.
O melhor que conseguiram foi um pequeno toco de vela…
Regressaram à garagem, desconsolados.
– Deixem por minha conta — diz Xiko. — Vão para casa descansar
que eu continuo fazendo as pipas. É como disse a vocês: enxergo do mesmo
jeito, com ou sem luz.
– Mas não é justo que você fique aqui sozinho — diz Anamélia.
– Além do mais, deve estar cansado — reconhece Pedro.
– Quando eu me sentir cansado, encosto e durmo — tranqüiliza Xiko.
– Agora, que tal vocês irem e me deixarem trabalhar?
Parecia não haver outra escolha. Os meninos, embora relutantes,
foram para suas casas.
– Cuidado para não tropeçarem por aí, heim? — brinca Xiko, se
despedindo.
Pedro, Anamélia e Raoni dormiram agitados. Mais de uma vez acordaram
de madrugada e tiveram vontade de ir para junto de Xiko, mas estava tão
escuro!
Logo que clareou, os três correram para a fábrica. Xiko estava
dormindo.
Num canto, separadas em grupos de dez, viam-se as pipas
encomendadas.
Felizes, as crianças acordaram-no e o abraçaram. Não demorou muito e
chegaram os compradores. Os meninos, contentes, comemoraram o resto da
manhã.
Desse dia em diante, Xiko passou a fazer parte da Fábrica de Pipas.
Ele tinha uma memória ótima: sabia sempre as quantidades de pipas
pedidas e quais as cores solicitadas.
Além disso, atento às notícias do seu rádio de pilhas, descobria
onde comprar papel ou varetas mais em conta.
Convivendo com Xiko, os meninos foram aos poucos percebendo que não
é só com os olhos que se enxerga, e que a cegueira mais dolorosa não é a
de quem não vê, mas a que às vezes se carrega dentro do peito. E
aprenderam que podemos sempre inventar um dia claro dentro da noite mais
escura

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