Written on Janeiro 12th, 2012 at 8:54 am by

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ERA uma vez o filho de um rei; e ninguém nunca teve

livros tão lindos como ele teve. Podia ler a respeito de todas as coisas

que aconteciam neste mundo e ver tudo isso representado nas mais belas

estampas.

Tinha meios de informar-se, pelos livros, de todos os países e nações da

terra; mas quanto ao lugar em que se encontrava o Jardim do Paraíso, não

lhe foi possível encontrar a menor indicação. E era justamente nisso

que ele pensava com maior freqüência.

Quando era pequeno e se dispunha a iniciar a vida escolar, sua avó lhe

dissera que cada uma das flores do Jardim do Paraíso era uma deliciosa

torta e que seus pistilos estavam cheios de vinho.

Numa das flores estava escrita a História, noutra a Geografia ou a

Matemática; as crianças, assim, só teriam que comer uma torta e já

sabiam a lição. E quantas mais comiam, mais História, Geografia e

Matemática sabiam. E o príncipe menino acreditava nisso tudo, porém, ao

crescer e conhecer mais coisas, começou a dar-se conta de que os

prazeres e delícias do Jardim do Paraíso deviam ser superiores ao que

sua avó lhe contara.

– Por que Eva chegou até a árvore da sabedoria? Por que Adão comera o

fruto proibido? Se não tivessem estado ali, isso não teria acontecido e

o pecado não teria entrado no mundo.

Isso era o que dizia e continuou pensando no caso até os dezessete anos;

em outras palavras, seus pensamentos se concentravam somente no

desconhecido Jardim do Paraíso.

Certo dia foi passear no bosque; estava só, pois isso constituía o seu

maior prazer.

A tarde chegou, as nuvens se acumularam e começou a chover de tal modo,

com se tivessem aberto o céu para dar passagem a enorme quantidade de

água: e dentro do bosque estava tudo tão escuro, como dentro de um

poço profundo.

o príncipe escorregava na erva úmida e caía sobre as pedras desnudas que

apareciam no meio da terra molhada.

Estava tudo escorregadio e molhado, de maneira que o príncipe estava

encharcado até os ossos. Teve forte bastante para parecer um homem

disfarçado, estava sentada ao lado do fogo ao qual, de quando em vez,

jogava achas de lenha.

– Entre! – disse ao príncipe. – E sente-se perto do fogo para secar a

roupa.

– Aqui há uma corrente de ar muito desagradável – disse o príncipe,

sentando-se no chão.

– Muito pior será quando meus filhos que subir a umas enormes rochas,

onde a água saturara o espesso musgo. o príncipe já chegara ao fim de

todas as suas forças, quando ouviu um curioso murmúrio e viu à sua

frente uma grande caverna, muito bem iluminada. No centro dela ardia uma

fogueira, bastante grande para assar um veado, o que se estava fazendo,

porque um veado esplêndido estava enfiado num espeto que girava sobre

a forquilha de duas árvores, cujos troncos tinham sido fincados na

terra.

Uma velha senhora, alta e chegarem – replicou a velha.

– Você está na caverna dos ventos; meus filhos são os quatro ventos do

mundo. Compreende?

– Onde estão seus filhos? – perguntou o príncipe. – Esta pergunta não é

fácil de responder – disse a velha. – Meus filhos fazem o que mais lhes

agrada. Às vezes brincam de quatro cantos com as nuvens, com está

acontecendo agora – acrescentou, apontando para o céu.

o Vento Oeste apareceu como um homem rude dos bosques e usava um gorro

acolchoado para não machucar-se. Empunhava um bastão de acaju, cortado

nos bosques americanos.

– De onde vem você? – perguntou sua mãe. – Da solidão dos bosques –

respondeu – de onde as plantas trepadeiras e espinhentas constróem uma

vala entre as árvores; onde as cobras aquáticas vivem na terra úmida e

os seres humanos parecem ser supérfluos.

– Que foi fazer ali? – Contemplei um rio poderoso e vi que se arrojava

contra as rochas, convertia-se em poeira, a qual, logo que subia para o

céu, formava um arco-íris. Vi o búfalo selvagem nadar pelo rio, mas a

corrente o levou e o pato selvagem voar pelos ares.

Gostei muito disso e desencadeei uma tempestade tão grande, que até as

árvores milenárias tiveram de navegar e a água as revolvia de um lado

para outro, como se fossem simples varetas. – E não fez mais nada? – Dei um pulo a

Savana, acariciando os cavalos selvagens e fazendo uns cocôs caírem

das palmeiras. Oh, sim, eu poderia contar muitas estórias! Mas é preciso

ser discreto. Não é, minha velha?

Logo deu em sua mãe um beijo tão quente e violento, que ela quase caiu

de costas. Realmente, o Vento Oeste era um rapaz rude.

Apareceu então o Vento Sul, envolvido numa capa e coberto por um

turbante.

– Aqui há calor suficiente para assar um urso polar – exclamou o Vento

Norte.

– Você sim, que é um urso polar exclamou o Vento Sul. – Quer que o meta

no saco? – perguntou a velha. – Sente-se nessa pedra e conte-nos por

onde andou.

– Na África, mamãe – respondeu cacei leões. Que erva há naquelas

planícies! o chão possui o tom verde das azeitonas. Os guinus dançavam

por ali e os avestruzes queriam ganhar-me na corrida, mas eu sou mais

rápido. Fui ao deserto de areias amarelas. Aquilo se parece com o fundo

do mar.

Encontrei uma caravana. Os homens matavam seu último camelo para obter

água para beber. Como vocês sabem, no deserto, quando a água se acaba, matam os camelos para beber a

água que eles armazenam no estômago.

o sol queimava e a areia ardia. Em qualquer direção não se avistava mais

do que as areias do deserto. Então eu me meti entre as areias volantes e

levantei-as a grandes alturas…

Aí houve um esplêndido baile. Vocês deveriam ver como os com elos

estavam caídos e como os mercadores cobriam as cabeças com seus

caftãs – E se inclinavam perante mim, como se eu fosse o próprio Alá,

seu Deus.

Agora estão todos enterrados sob urna pirâmide de areia. Quando, daqui a

alguns dias eu a dispersar soprando, o sol clareará seus ossos e assim

os viajantes verão seus restos, pois se fosse de outra form. a,

ninguém acreditaria no perigos do deserto .

– Quer dizer que você só fez maldades! disse a mãe. – Para o saco!

E, antes mesmo que ele se desse conta, já estava dentro do saco. o Vento

Sul começou a rolar pelo solo, mas a mãe se sentou sobre o saco,

imobilizando-o.

– Pelo que vejo, seus filhos são muito turbulentos – observou o

príncipe.

– Sim, mas apesar de tudo, eu os domino muito bem – replicou a velha. –

Aí vem chegando o quarto.

Era o Vento do Oriente, que vinha vestido à moda chinesa.

– Está vindo da China? – perguntou a mãe. – Pois eu pensei que estivesse

no Jardim do Paraíso.

– Amanhã irei até lá – respondeu o Vento do Oriente. – Amanhã,

precisamente, completarão os cem anos da minha última visita. Acabo de

voltar da China, onde dancei em volta de uma torre de porcelana, até

tocarem todas as campainhas que a adornam.

Os oficiais foram açoitados em plena rua; as cabanas de bambu levantavam

e desciam sobre suas costas e dentre eles havia desde a primeira até a

ultima categoria.

E gritavam: “Muito obrigado, pai bem feito no que se via que não eram

sinceros. Enquanto isso, eu continuava agitando as campainhas e

cantando: “Tsing, tsang, tsu”.

– Você se diverte muito com isso – disse-lhe a velha. Alegro-me de que

amanhã você vá ao Jardim do Paraíso, porque isso sempre exerce um

efeito benéfico sobre a sua conduta. Não se esqueça de beber abundantemente da fonte da sabedoria e de trazer-me uma vasilha cheia dessa

água.

– Assim o farei – replicou o Vento do Oriente – contanto que deixe o Vento Sul sair do saco. Tire-o de lá. Preciso que me fale

sobre a ave Fênix.

A princesa sempre pede notícias dela, quando vou visitá-la em cada cem

anos. Abra o saco. Então você será a minha boa mamãe e eu lhe darei o

chá que enche meus bolsos e que está tão verde e fresco como quando o

colhi.

– Bem, por causa do chá e também porque você é o meu preferido, vou

abrir o saco.

Assim o fez e o Vento Sul saiu, estando muito envergonhado porque o

príncipe desconhecido fora testemunha da correção imposta por sua mãe.

– Aqui tem você uma folha de palmeira para a sua princesa – disse o

Vento Sul. – o velho Fênix, o único que existe no mundo, deu-me para

ela.

Com a ponta do bico escreveu ali toda a sua estória durante cem anos de

sua vida e a princesa poderá lê-la por si mesma. Vi como a Fênix: botou

fogo no seu próprio ninho e enquanto este queimava, sentou-se dentro

dele, como o fazem as viúvas dos hindus.

As ramas secas estalaram ao calor das chamas e o lugar se encheu de um

odor. Por fim, o próprio Fênix foi presa das chamas e em breve ficou

reduzido a cinzas, mas no centro do monte de brasas apareceu um ovo

brilhante. Daí a pouco estalou com grande ruído e o jovem Fênix saiu

voando. Agora reina sobre todas as aves e o único Fênix que existe no

mundo.

Escreveu na palma que lhe entreguei e envia suas saudações à princesa.

– Vamos comer algo – disse a mãe dos ventos. E todos se sentaram e

comeram carne de veado. o príncipe ocupou um lugar ao lado do Vento do

Oriente e graças a isso os dois ficaram muito amigos.

– Pode dizer-me – rogou o príncipe quem é essa princesa e onde fica o

Jardim do Paraíso?

– Se você quiser ir até lá – respondeu o Vento do Oriente – será preciso

que amanhã me acompanhe em meu vôo. Mas devo avisá-lo de que nenhum ser

humano ali esteve desde os tempos de Adão. Suponho que, pelo que conta

a Bíblia, deve estar inteirado do que lhe aconteceu.

– Naturalmente – respondeu o príncipe. – Quando Adão e Eva foram

expulsos, o Jardim do Éden fundiu-se com a terra, mas conservou seu

cálido sol, seu ar embalsamado e todas as suas belezas. Ali vive a

rainha das fadas.

A Ilha da Felicidade, onde a Morte nunca entra e onde a vida é uma

delícia, se encontra no Paraíso. Amanhã você subirá nas minhas costas e

eu o levarei comigo. Parece-me que poderei levá-lo, perfeitamente. E

agora vamos parar de conversar, porque preciso dormir.

Quando o príncipe despertou ainda era muito cedo, mas não se surpreendeu ao ver que se achava entre as nuvens, a grande

altura. Estava sentado nas costas do Vento do Oriente, o qual o

transportava com o maior cuidado; e voavam tão alto, que os bosques, os

campos, os rios e os lagos pareciam fazer parte de um imenso mapa

colorido.

– Bom dia – disse o Vento Oriente. Ainda pode dormir um pouco mais, pois

não há nada para ver neste país plano. voamos, a não ser que você deseje

contar as igrejas. Parecem montinhos de gesso num tabuleiro verde.

– Sinto muito não ter podido despedir-me de sua mãe e de seus irmãos –

disse o príncipe.

– Quando uma pessoa está dormindo, está dispensada – respondeu o Vento

Oriente.

E continuaram a voar, cada vez em maior velocidade. Poderia ser

assinalado o curso que seguiam pela agitação da folhagem das árvores,

quando passavam em cima de algum bosque; e quando cruzavam por um lago

ou um mar, levantavam-se as ondas e os barcos se a gritavam nas águas,

como se fossem cisnes flutuantes.

Estava anoitecendo e o espetáculo era delicioso, com os povoados cheios

de luzinhas que se acendiam por todos os lados, à semelhança das chamas

que cruzam um papel já meio consumido pelo fogo.

o príncipe se divertia batendo palmas de alegria, mas o Vento do

Oriente lhe disse que era melhor segurar-se com todas as forças, pois,

se não o fizesse, poderia cair e ficar pendurado em algum campanário de

uma igreja.

A águia voava rapidamente por cima do bosque, mas o Vento do Oriente

voava com maior velocidade ainda. Os cossacos, em seus cavalinhos,

corriam a galope pelas estepes, mas o príncipe, montado nas costas

do Vento do Oriente levava vantagem em sua corrida.

– Agora você pode ver os montes do Himalaia – disse o Vento Oriente-

São as montanhas mais altas da Ásia.

Logo chegaremos ao Jardim do Paraíso. o Vento Oriente deu uma volta mais

para o Sul e logo o ar ficou saturado do aroma de todas as flores. As

figueiras cresciam por todos os lados e as grandes vinhas silvestres

estavam cobertas de frutos.

o Vento Oriente desceu mais ainda e acabaram por estender ao serem

agitadas pelo vento, pareciam saudá-lo com suas cabecinhas, como se

quisessem dizer-lhe: “Bem-vindo”.

– Já estamos no Jardim do Paraíso? perguntou o príncipe.

– De forma alguma – respondeu o Vento do Oriente. –

Mas chegaremos logo. Está vendo essa muralha rochosa e a grande

caverna, cuja entrada está quase obstruída pelas plantas silvestres, que

formam quase uma cortina? Temos que passar por ali.

Envolva-se em sua capa, porque o sol queima muito aqui, embora quando

tivermos entrado na caverna, faça um frio extraordinário. A ave que voa

e passa pela entrada da caverna tem uma asa exposta ao sol e sente a

outra gelada como se estivesse no mais rigoroso inverno.

– Então esse é o caminho do Jardim do Paraíso? – perguntou o príncipe.

Entraram logo na caverna e, realmente, fazia um frio extremo, embora não

fosse duradouro. o Vento do Oriente abriu suas asas, que resplandeciam

como se fossem de fogo.

Que caverna tão extraordinária e tão bela! Grandes blocos de pedra,

pelos quais a água gotejava, estavam suspensos sobre eles, de modo que

as formas mais estranhas que se pudesse imaginar apareciam ante seus

olhos.

Em determinado lugar o teto era tão baixo e as paredes tão próximas

uma da outra, que foram obrigados a avançar de rastos, até que chegaram

a um lugar mais espaçoso. Esse local parecia uma catedral para os

mortos.

– Parece que para chegar ao Jardim do Paraíso temos que viajar pelo país da Morte observou o príncipe. Mas o Vento Oriente

não respondia, limitando-se a apontar para os lugares onde resplandecia

uma linda luz azul. Os blocos de pedra do teto ficaram cada vez menos

visíveis e por fim ficaram tão transparentes, como se fossem uma nuvem

branca à luz da lua.

o ar era suave, tão fresco e delicioso como o dos cumes das montanhas e

tão perfumado como o que rodeia as roseiras nos vales.

Um rio corria por ali, cujas águas eram tão transparentes como o

próprio ar e os peixes que por ali nadavam pareciam ser de ouro e

prata.

Enguias roliças, que desprendiam chispas azuis de cada uma das curvas de

seu corpo, brincavam na água; e as raízes vermelhas dos lírios aquáticos

estavam tintas com todas as cores do arco-íris, enquanto que a flor

parecia uma chama alaranjada e alimentada pela água, da mesma forma que

uma lamparina é alimentada pelo azeite.

Uma bela ponte de mármore, delicada e habilmente esculpida, como se

fosse composta de contas de cristal, atravessava o rio e levava até a

Ilha da Felicidade, onde florescia o Jardim do Paraíso.

o Vento do Oriente tomou o príncipe em seus braços e passou. As flores e

as folhas cantavam as antigas canções de sua infância, mas com vozes

mais maravilhosas e belas do que as humanas.

O príncipe nunca vira tão lindas palmeiras e plantas mais viçosas do que

aquelas. As trepadeiras formavam grinaldas e desenhos estranhos, de

maneira que ali havia uma combinação maravilhosa de flores, pássaros e

delicados tons de verde das folhagens.

A pouca distância podia-se ver uma verdadeira revoada de pavões reais,

que tinham suas caudas abertas, porém, quando o príncipe se aproximou,

constatou maravilhado que não eram aves, mas sim plantas.

Entre a ramagem saltavam leões e tigres, mas não eram animais ferozes

como na terra, mas sim muito mansos.

As pombas, brilhantes como pérolas, agitavam a juba dos leões com suas

asas e os antílopes, na terra tão esquivos e prontos para fugirem,

contemplavam o espetáculo como se quisessem tomar parte no brinquedo.

Então a Fada do Jardim se aproximou dos visitantes; suas vestes

brilhavam como o sol e a expressão de seu rosto era semelhante ao da mãe

que contempla seu filho satisfeita.

Era jovem e muito formosa e caminhava rodeada de um grupo de belas

moças, cada uma das quais levava uma estrela brilhante na testa.

Quando o Vento do Oriente lhe entregou a folha de palmeira em que a Ave

Fênix escrevera a sua estória, seus belos olhos se iluminaram de prazer. Segurou o príncipe pela mão e

levou até o seu palácio, cujas paredes eram da cor das tulipas

iluminadas pelo sol.

o teto era formado por uma flor enorme e quanto mais se olhava para ela,

maior parecia ser seu cálice. o príncipe se aproximou da janela e

olhando pelo vidro viu a Árvore da Ciência, com a Serpente e também pôde

ver Adão e Eva que estavam em pé ao seu lado.

– Não foram expulsos? – perguntou. A Fada sorriu e explicou que o Tempo

gravara um quadro em cada um dos vidros da janela, mas não com nos

quadros que se vêem pelo mundo, pois em todos eles havia movimento e o

aspecto de vida, como se fossem o reflexo de um espelho.

Olhou para outro vidro e viu em sonhos Jacob, com a escada que chegava

até o céu e pela qual subiam e desciam multidões de anjos, que agitavam

suas grandes e brancas asas. E tudo o que acontecera neste mundo vivia

e se movia nos vidros das janelas. Somente o Tempo teria podido pintar

quadros tão maravilhosos.

A Fada sorriu e levou o príncipe a uma espaçosa sala de teto alto, em

cujas paredes apareciam lindos rostos transparentes.

Eram os milhões de bem-aventurados, que sorriam e cantavam e suas

canções se fundiam em uma maravilhosa melodia.

Os rostos que estavam mais alto eram tão pequenos, que o pé de uma mesa

parecia maior e havia alguns que tinham o tamanho de uma ponta de

alfinete. No centro da sala havia um árvore muito grande, com lindos

ramos pendentes, dos quais caíam maçãs de ouro, parecidas com laranjas.

Era a Árvore da Ciência, cujo fruto Adão e Eva haviam comido. De cada

uma de suas folhas caía uma gota brilhante de orvalho, como se fosse uma

lágrima.

– Agora vamos em busca do bote disse a Fada. – Teremos um pouco de

frescor sobre as águas. o bote balança, mas não sai nunca do mesmo

lugar e todos os países do mundo passara diante nossos olhos.

Era um espetáculo curioso ver como a costa se movia. Apareceram os

majestosos Alpes coroados de neve, envoltos em nuvens e vestidos de

pinheiros.

A cometa de chifre ressoava tristemente entre as árvores e o pastor

cantava com voz suave nos vales.

Logo umas figueiras de Bengala deixaram cair seus ramos sobre o bote

enquanto que na água nadavam cisnes negros e nas margens apareciam os

mais estranhos animais. Aquela era a Nova Holanda, a quinta parte do

mundo, que passava rapidamente por eles, mostrando as suas montanhas

azuis.

Ouviram os cantos dos sacerdotes pagãos e vieram as danças dos selvagens

ao som dos tambores e das flautas feitas de ossos. As pirâmides do Egito, que chegavam até as

nuvens, as esfinges quase enterradas na areia, chegavam até eles.

Apareceu a Aurora Boreal, que resplandecia sobre os picos gelados do

Norte. Eram uns fogos artificiais inesquecíveis. o príncipe estava

muito feliz e viu cem vezes mais coisas do que as que indicamos.

– Poderei ficar aqui para sempre? – perguntou. – Isso depende somente de

você – respondeu a Fada. – Se, ao contrário de Adão, você não se deixar

tentar pelo fruto proibido, poderá ficar para sempre.

– Prometo não tocar nas maçãs da Árvore da Ciência – replicou o

príncipe. – Aqui existem milhares de frutas tentadoras.

– Experimente e, se não for bastante forte, volte com o Vento do Oriente

que lhe trouxe. Ele vai embora e não voltará senão daqui a cem anos.

Neste palácio o tempo passará com tanta rapidez, como se cem anos fossem

cem horas, mas assim mesmo é muito para a tentação e o pecado. Todas as

noites, quando nos separarmos, eu o convidarei a seguir-me.

Mas você não deverá fazê-lo. E não se aproxime de mim, porque a cada

passo que der, aumentará o desejo de seguir-me.

Você chegará à sala em que se ergue a Arvore da

ciência, pois eu durmo embaixo de seus ramos perfumados. Se você se

inclinar para mim eu sorrirei e se me der um beijo, todo o Paraíso se

fundirá com a Terra e estaria perdido para você.

Os mais fortes ventos do deserto soprarão sobre você e a chuva fria

umedecerá seu corpo. E daí por diante, você não sentirá mais do que

tristeza e sofrimento.

– Desejo ficar! – replicou o príncipe. o Vento do Oriente deu-lhe um

beijo na boca e disse: com você e o sol se esconder, verá como o

convidarei a seguir-me. Mas não o faça. Isso se repetirá todas as

noites, durante cem anos.

E, de cada vez que você resistir aos meus chamados, ficará mais forte,

até que, por fim, não pensará mais na possibilidade de seguir-me. Esta

noite será a primeira. Não se esqueça de meu aviso.

A Fada levou-o a uma espaçosa sala rodeada de lírios brancos, cujos

pistilos amare-

– Seja forte e assim poderemos ver-nos daqui a cem anos. Adeus! Adeus!

Acabando de falar, o Vento Oriente abriu suas grandes asas, que

brilhavam como se fossem gigantescas papoulas no alto da serra.

– Adeus! Adeus! – murmuraram as flores. As cegonhas e os pelicanos

voavam em fila, como –

guinadas ondeantes, até o fim do Jardim. – Agora vamos iniciar nosso

baile disse a Fada. Ao terminar, quando eu dançá-los eram harpas de

ouro, que tocavam harmoniosamente. Formosas donzelas, esbeltas e

flexíveis, que vestiam trajes maravilhosos de seda, recamados de

brilhantes e pedras preciosas, e que deslizavam dançando de um lado para

o outro cantando as alegrias da vida, para elas eterna, diziam que a

Jardim do Paraíso floresceria durante toda a eternidade, pelos séculos

dos séculos.

o sol se pôs e o céu ficou dourado de luz, o que deu aos lírios o

aspecto de rosas. o príncipe bebeu o copo de vinho espumante que lhe

ofereciam as jovens. Sentia uma alegria enorme e desconhecida até então;

viu que um ângulo da sala se abria para mostrar a Árvore da Ciência,

envolta num esplendor que o cegava. A música que vinha da Árvore era

suave e encantadora.

Então a Fada fez-lhe um sinal convidando-o a aproximar-se e com voz

muito doce exclamou:

– Venha comigo. o príncipe correu para ela, esquecendo-se de sua promessa e de tudo mais, ao ver o sorriso daquela estranha mulher.

o ar ficou mais perfumado, as harpas soaram mais docemente, e os milhões

de cabeças sorridentes diziam: “E’ preciso conhecer tudo. o homem é o

dono da terra”. Da Árvore não caíam mais gotas de sangue, mas ela parecia estar

toda estrelada.

– Venha comigo! Venha comigo! dizia a Fada com voz trêmula.

E, à medida que o príncipe se aproximava, o ar o envolvia com se

quisesse afastá-lo da Fada. Mas o jovem disse de si para si:

– Irei – disse, – não há pecado se quero vê-la adormecida e não

perderei nada se deixar de beijá-la. Isso não farei. Tenho força de

vontade.

Nesse meio tempo, a Fada se ocultara entre os ramos da Árvore.

– Ainda não pequei – pensou o príncipe. – E não pecarei.

No entanto, ao dizer isso, separou os ramos. Ali estava adormecida a

Fada e tão formosa, como somente ela poderia ser. Em seu sono sorria e

ao inclinar-se o príncipe observou que as lágrimas assomavam aos seus

olhos fechados.

– Chorará por mim? – perguntou-se ele. – Não precisa chorar, formosa

donzela. Seu pranto me entristece e eu quisera que a alegria e o sorriso

aparecessem em seus lábios. Quisera que a felicidade a acompanhasse ternamente. Senti-me dono da força dos anjos e por minhas veias parece correr um sangue imortal. Ouviu-se então um estrondo

semelhante ao trovão, mas muito mais forte e ameaçador e tudo ao redor

do príncipe caiu e desapareceu. A formosa Fada desapareceu sob a

terra, juntamente com todo o Paraíso e o príncipe sentiu em seus membros

um frio de morte. Fechou os olhos e ficou estendido ao solo, como mor-

to.

Uma chuva forte caiu sobre sua cabeça e o vento soprou em seu rosto.

Finalmente recobrou a memória.

– Que foi que fiz, pobre de mim? Pequei como Adão e meu pecado foi tão

grande, que o Paraíso afundou na Terra.

Abriu os olhos e ainda pôde ver uma estrela que brilhava intensamente,

mas não era o Paraíso, mas a estrela matutina no firmamento. E ao

levantar-se encontrou-se no bosque, na entrada da caverna dos Ventos. A

mãe dos Ventos estava sentada ao seu lado. Parecia muito aborrecida.

– Então você pecou logo na primeira noite? – perguntou. – Bem que eu

pensava. E se fosse meu filho, agora mesmo o meteria no saco.

– Logo irá para lá! – exclamou a Morte, que era um ancião vigoroso,

dotado de asas negras e que empunhava uma foice. – Será colocado num

ataúde, só que não é agora. Vou deixá-lo em liberdade por uns tempos,

para que ande um pouco por aí, para que expie os seus pecados e se corrija. Virei buscá-lo algum dia. Virei colocá-lo num

ataúde negro e o levarei voando para o céu.

Ali também floresce o Jardim do Paraíso e se ele se comportar bem como

espero, poderá entrar nele. Todavia, se seus pensamentos forem maus e

se seu coração não se limpar dos pecados, ele afundará mais

profundamente do que o próprio Paraíso.

E eu, somente uma vez cada mil anos, irei ver se ele terá de afundar

mais ou se poderá subir até as estrelas que avistamos daqui.

FIM

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