Written on Março 15th, 2012 at 7:33 am by

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Um dia a pulga – ou antes, o pulgo – o gafanhoto e o grilo resolveram verificar qual deles dava o pulo mais alto; convidaram todo o mundo e mais alguém que quisesse assistir ao espetáculo podia vir. Eram na verdade três saltadores famosos os que estavam ali reunidos!

– Darei a minha filha ao que der o salto mais alto – disse o rei – porque não teria graça nenhuma que esta gente desse pulos assim, por nada.

Foi o pulgo quem saltou primeiro. Tinha muito boas maneiras; cumprimentou toda a assistência com muita elegância, porque tinha nas veias sangue nobre, que lhe vinha do lado materno e estava habituado à sociedade das criaturas humanas – o que traz muita diferença.

Veio depois o gafanhoto. Era, está visto, um tanto pesado, mas ainda assim fazia muito boa figura, realçada por um uniforme verde, muito distinto. Além disso, aquele cavalheiro sustentava que pertencia a uma família do Egito, muito antiga,

e que lá naquela terra era ele tido em muito alta conta. E tanto isso era

verdade que tinham ido buscá-lo ao prado, e deram-lhe por moradia uma casa de

campo de três andares, feita de cartas de baralho, com os lados das figuras

virados para dentro. E as portas e janelas eram recortadas mesmo no corpo do rei

de copas.

– Eu canto tão bem – dizia ele – que dezesseis grilos nativos, que tinham

trilado desde a mais tenra infância, sem obter um chalé, emagreceram tanto que

ficaram ainda mais finos do que já eram, depois de me ouvirem.

Pulgo e gafanhoto proclamaram, pois, no devido tempo, quem eram, e ambos

declararam que se julgavam com direito à mão da princesa.

O grilo nada disse, mas achava, é claro, que não lhes ficava atrás.; e o cão de

guarda, mal o farejou, declarou logo que o grilo era de boa família, tirado do

osso do peito de um ganso real. O velho senador, que obtivera três mandados para

ficar calado, sustentava que o grilo era dotado do poder de profecia, e que por

meio do seu osso a gente podia saber se o inverno iria ser suave ou rigoroso,

coisa que ninguém podia deduzir dos ossos daquele que escreve o almanaque!

– Oh! Eu por mim não digo nada – disse o velho rei – mas sigo meu antigo

costume, e tenho cá minhas idéias, como as outras pessoas.

E chegou a hora da prova. O pulgo saltou tão alto que ninguém pôde ver até onde

chegou, e por isso teimavam que ele não tinha dado pulo algum, coisa digna de

desprezo naquelas regiões.

O gafanhoto não chegou nem à metade daquela altura, mas pulou direto ao rosto do

rei – procedimento que sua majestade considerou altamente incorreto.

O grilo ficou quieto ainda um bom pedaço, ao que parecia, perdido em cismas; e

já todos se inclinavam a crer que ele não podia dar salto algum.

– Tomara que ele não tenha adoecido! – disse o cão de guarda, farejando-o de

novo.

Mas – Vrrrrr

! E lá saltou o grilo, meio de lado, para o regaço da princesa, que

estava timidamente sentada em um tamborete de ouro.

Então o rei declarou:

– O salto mais alto foi o que alvejou minha filha, porque significa um delicado

cumprimento. Para ocorrer uma idéia assim, é preciso que a pessoa tenha cabeça!

E o grilo provou que tem cabeça.

Foi, pois, o grilo quem obteve a mão da princesa.

– E, no entanto – dizia o pulgo – eu saltei mais alto! Mas não faz mal… Ela

que fique lá com o osso de ganso, com a caixinha de música e tudo! Quem deu o

salto mais alto fui eu! Mas neste mundo a gente precisa ter um corpo volumoso,

que apareça, é o que é.

E o pulgo foi servir no estrangeiro e dizem que por lá morreu.

O gafanhoto sentou-se à beira de uma vala, meditando sobre os costumes do mundo.

E também ele dizia:

– O corpo é tudo neste mundo! O corpo é tudo!

E pôs-se a cantar sua canção melancólica – que foi de onde tiramos esta

história.

Mas, ainda que ela tenha sido impressa, talvez não seja absolutamente

verdadeira. Não é bom fiar!

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