Written on Janeiro 14th, 2012 at 8:55 am by

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Há muito tempo havia um velho poeta, um verdadeiro bom velho poeta.

Uma noite, enquanto estava confortavelmente em sua casa, desencadeou-se uma terrível tempestade; a

chuva caía em torrentes, mas o velho poeta não sentia frio, sentado num canto, ao lado da estufa, na

qual ardia alegremente o fogo e chiavam as maçãs que ele colocara para assar.

– Os infelizes que estão ao relento, com esta chuva, não terão sobre o corpo nem um só fio de roupa seco

– murmurou, porque era um homem de bons sentimentos.

– Abra a porta, por favor! Estou com muito frio e sinto-me gelado até os ossos! – exclamou um menino gritando em altas vozes lá fora.

E continuou chorando, sem deixar de bater na porta, ao mesmo tempo em que o vento fazia as janelas

tremerem.

– Pobrezinho! – exclamou o velho poeta, enquanto se encaminhava para a porta, a fim de abri-la.

Deparou com um menino completamente desnudo, com o cabelo ruivo empapado de chuva. Tiritava de frio, de

modo que se não o fizesse entrar, certamente morreria de frio.

– Pobrezinho – repetiu o velho Poeta tomando-o pela mão. – Entre que você se aquecerá. Beberá um pouco

de vinho e comerá uma maçã assada. Vejo que você é um belo menino.

E ele o era, realmente. Tinha os olhos brilhantes como duas estrelas e, mesmo molhado, seu cabelo caía em

lindos cachos. Parecia um anjo-menino, mas o frio lhe tirara as cores e seus membros tremiam.

Carregava um lindo arco na mão, mas que estava muito

estragado pela chuva; demais, as belas cores das setas haviam desaparecido, lavadas completamente pela

água.

o velho poeta sentou-se perto da estufa e pousou o menino em seus joelhos; espremeu a água que havia

em seus cabelos, aqueceu-lhe as mãozinhas e ofereceu-lhe um pouco de vinho.

Logo o menino se refez e o corado apareceu novamente em suas faces; pulou para o chão e, alegre ao

extremo, começou a dançar.

– Você é muito alegre! – exclamou o ancião. – Como se chama?

Cupido – respondeu o interpelado. Não me conhece? Este é o meu arco e garanto-lhe que sei manejá-lo.

Veja, já começa a fazer bem tempo e a lua está brilhando no céu.

– Mas você está com o arco escangalhado – observou o dono da casa.

– É uma pena – replicou o menino. Examinou-o com extremo cuidado e acrescentou: – já secou totalmente. Continuará funcionando bem e a corda não se estragou muito. Veja, vou experimentá-lo. Não se mova.

Encurvou o arco, colocou no mesmo uma flecha, apontou e cravou uma seta no coração do ancião.

– Vê como o meu arco não se estragou? exclamou

sorrindo.

E logo se afastou, rindo-se às gargalhadas. Era um menino muito mau, pois atirou no velho poeta, que o

tratara com tanta bondade, dando-lhe vinho e a melhor das maçãs que pusera para assar.

o ancião estava estendido no solo e chorava, porque recebera uma flechada no coração e dizia a si mesmo:

– Que mau é o Cupido! Darei conta disso a todos os meninos, para que tenham cuidado e nunca brinquei

com ele, pois poderiam ser vítimas de alguma travessura.

Todos os meninos e meninas bondosos a quem contou a sua aventura tiveram o maior cuidado em evitar o

pequeno Cupido, mas ele sempre conseguia enganá-los, porque é muito astuto.

Quando os escolares saem do colégio, ele começa a correr ao seu lado, coberto com uma camisola preta e

levando um livro debaixo do braço. Eles não o reconhecem e dão-lhe o braço, tomando-o por um colega

e então ele se aproveita para cravar-lhes uma flecha no coração.

Quando as mocinhas saem da escola e quando estão na igreja. Sempre a mesma coisa com todos. Senta-se nos carros, nos teatros e produz uma chama brilhante; as pessoas pensam que aquilo não passa. de

uma lâmpada, mas logo percebem seu engano.

Circula pelos jardins e corre pelos muros e em certa ocasião chegou a cravar uma flecha no coração de seu

pai e no de sua mãe.

Pergunte a eles e verá o que dizem. Esse Cupido é um menino mau. Mais cedo ou mais tarde consegue desviar a sua vítima e até a sua pobre avozinha não pôde evitar sua flechada.

Isso aconteceu há muito tempo e os efeitos dessa ferida já passaram, porém, é sempre uma coisa que

não esquecemos jamais. Que mau é o Cupido!

E agora que você está inteirado de sua maldade, tome muito cuidado, pois do contrário se arrependerá.

FIM

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