Written on Setembro 3rd, 2011 at 8:15 am by

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Era uma vez um rei que, pasmem… comia histórias!!!
Gente que come ouro, criancinhas, camarão, torta de maçã, caviar ou
filé-mignon se pode encontrar. Mas… Histórias???
Para ser mais exata: este Rei comia toda e qualquer espécie de
livro que à sua frente, do lado ou atrás aparecesse.
Ordenava a seu criado Fiel que untasse as páginas. De manteiga, mas só
do lado de dentro. Nas bordas, capa e contracapa nunca. Todo este
cuidado para que ele, o Rei, não lambuzasse as pontas dos dedos…
Dependendo do tema, Fiel, seu criado trazia-lhe prontamente sal,
orégano, açafrão, urucum, coentro e manjericão. E em muitas vezes
pimenta, lógico, do-reino. Se fosse um romance, umas sementes de cravo e
umas pitadas de canela faziam-se indispensáveis. Enfim, livros,
condimentos e especiarias dignos de um rei.
Às vezes o Rei não se contentava com todas estas exigências e
cismava que o livro não estava no ponto. Mandava-o de volta à cozinha,
levavam-no ao forno, retornando à mesa quentinho, regado a azeite, numa
travessa de prata, rodeado de folhas de alface.
As viagens de Gulliver, lembro bem, foram comidas num período de 4
horas e 45 minutos. Demorou tanto assim pois era justamente um exemplar
grosso de capa dura de uma edição muito antiga.
Robinson Crusoé e A volta ao mundo em 180 dias foram consumidos em
2 horas, 14 minutos e 59 segundos. Já Alice no país das maravilhas,
Rapunzel, Alibabá e os 40 ladrões, O gato de botas e Peter Pan eram
sobremesas para ele. Em poucos minutos saboreava todos. O pior é que,
na refeição seguinte, ávido, exigia novos livros à mesa.
Além de provocar sumiços reais nas prateleiras do palácio, este rei
era calado como um criado-mudo. Assim guardava consigo todo o segredo
daquelas páginas. Não adiantava insistir que ele não contava nada para
ninguém. Letras, palavras, frases, vírgulas, verbos, sujeitos e
predicados tornavam-se propriedade dele.
Isolado no seu desejo de comer, o Rei nunca estava satisfeito e
ordenava a Fiel que providenciasse mais livros, fossem eles novos ou
usados.
Não, não e não de novo. O Rei podia ser burro, por comer livros com
todas aquelas histórias, mas bobo é que ele não era. Ele jamais cairia
em qualquer uma daquelas idéias. A Vocabulário só restou então vigiá-lo,
ficar de olhos abertos para ver se encontrava uma solução.
Acontece que naqueles dias o Rei passara dos limites: comera, sem
pestanejar, toda a mitologia grega!!! Hércules, Zeus, Afrodite, Erus,
Atena, imaginem!!! Por Zeus! Deuses e mortais foram para de uma vez por
todas na barriga de um Rei.
Vocabulário estava inconsolável. Para ele era o fim. E se não era
estava perto, pois na despensa da cozinha não havia para o dia seguinte
nem um livro sequer do último estoque.
Mas eis que amanhece um novo dia. Tudo parecia correr bem, mas não
para Fiel que acordara doente de cama, com febre de 40 graus e olheiras
enormes, e não pôde nem sair para trabalhar.
O Rei, quando soube ficou desesperado.
— Quem conseguirá mais livros para o meu almoço e jantar? —
esbravejava, sacudindo os braços pelos corredores do palácio.
NInguém se oferecia, pois não era tarefa fácil. Naquele reino, para
se conseguir alguma coisa, inclusive livros, era uma novela, uma grande
burocracia.
Até que não suportando mais a braveza do Rei, Vocabulário, muito
contrariado, resolveu providenciar novos livros para saciar sua fome.
E lá se vai Vocabulário. Escreve a máquina a requisição. Bate
carimbo. Põe no envelope, fecha o envelope, desce a escadaria, segue o
corredor, vira à direita, abre o portão, pega a carruagem, desce da
carruagem, entra no cartório, tira o papel, reconhece firma, autentica,
guarda no envelope, sai do cartório, volta para a carruagem, desce da
carruagem, abre o portão, vira à esquerda, segue o corredor, sobe
a escadaria, dá uma respirada… bate na porta (pam, pam, pam) e se
apresenta ao Rei.
— Majestade, aqui está sua requisição. Só falta o senhor assinar.
Qual não foi a surpresa de todos quando olham para o Rei e o vêem
encolhidinho, olhando assustado para o Vocabulário com uma caneta
pequenina tremendo feito gelatina.
Era a descoberta do dia! O Rei não escrevia, muito menos lia.
Se alguém tivesse me contado, eu não teria acreditado. A verdade é
a seguinte: o Rei, não sabendo o que fazer com tantos livros, resolveu
comê-los. E durante todos aqueles anos Fiel é quem assinava as
requisições por ele, guardando o grande segredo do Reino a sete chaves,
pois, como era fiel e temia a fúria do Rei, o pobre não contava nem pra
sua sombra.
Desmascarado, o Rei não teve saída, ou melhor, naquele mesmo dia
teve entrada na escola do Reino, com direito a matrícula, caderno,
lápis e dever de casa. Quanto a Fiel, quando soube da boa-nova, sarou
rapidinho, pois estava doente era de tanto ver tanto estrago. E
Vocabulário? Está rindo à toa, feliz da vida.
E agora, segure o queixo que eu já te conto o desfecho: vi o Rei,
ainda hoje, lá, no meio do beabá.
Ele, que até ontem só sabia os livros comer, hoje já está aprendendo a
ler. E Fiel continua a fazer requisições. Mas não assuste, os livros
daqui em diante não serão mais triturados, e sim devorados, só pelos
olhos do Rei.

E tudo foi resolvido
O Rei não foi esquecido
Pois hoje está muito mudado
Não gosta nem de livro arranhado.

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